sábado, outubro 09, 2010

História dos quadrinhos


Ranxerox: ultraviolência na cidade eterna
Gian Danton  e Jefferson Nunes

 

A Itália não tem nenhuma banda significativa de punk rock. Mas sua contribuição para o movimento veio na forma dos quadrinhos de um andróide enlouquecido chamada Ranxerox.
O cenário de suas  degradantes aventuras é uma Roma cyberpunk  e apocalíptica. Todo o romantismo da cidade eterna foi substituído por   decadência, sordidez, indiferença e ultraviolencia. Na metrópole  superpovoada, o trafico e o uso de drogas pesadas  e corriqueiro, as pessoas são indiferentes à violência, mulheres se prostituem a troco de nada e a pedofilia é o modo mais rotineiro de relacionamento sexual.
Em meio ao caos urbano , dois personagens anárquicos e amorais: Ranxerox, uma mistura de homem robô e gorila que da nome  a série, e sua namoradinha ninfeta  Lubna, uma junkie de apenas 12 anos com cara de criança e jeito de dominatrix . Essa brutalidade  em forma de HQ foi produto da parceria entre dois gênios do ofício: o roteirista Stefano Tamburini e o desenhista Tanino Liberatore.
Em 1977 a Itália vivia seus anos de chumbo. Dividida entre os ataques das brigadas vermelhas e da ultra direita, o pais vivia anos de caos. Stefano tamburini e Tanino Liberatore captaram como ninguém o momento, nas paginas de Ranxerox. 
Egresso da revolucionaria revista Caniballe ( berço do novo quadrinho punk italiano) Tamburini  brincava com os clichês da  ficção científica,  fazendo parecerem extremamente originais.  Ele acrescentava na trama alguns elementos que passariam batido em outro tipo de história, mas que causam bastante estranhamento numa sci-fi, tais como carros vintage, monumentos históricos da antiguidade, bandas do pós-punk britânico, astros de Hollywood, etc.
A dupla  freqüentemente lançava mão da metalinguagem para advertir o público de que tudo aquilo era mentira: em diversas ocasiões podemos avistar "figurantes" lendo exemplares da Frigidaire ou de algum modo fazendo referência aos quadrinhos, chegando ao cúmulo de Lubna, em determinado momento, dizer que "está cansada de vagabundear dentro de um gibi de merda". Por outro lado, o roteirista tinha uma imaginação tão fértil para criar absurdos que o maior prazer em ler o que ele escrevia não reside na apreciação de um enredo bem construído ou na beleza estética de suas palavras, mas sim em adivinhar qual seria a próxima bizarrice que cruzaria o caminho dos protagonistas . Bizarrices muito bem ilustradas pela arte “renascentista” de Tanino e sua técnica e anatomia impecáveis.
Em abril de 1986, a dupla trabalhava o terceiro capítulo quando  Stefano Tamburini  exagerou no uso de heroína e morreu. Nessa época, sua criação já era uma mania, sendo editada em revistas como a Heavy Metal, a espanhola El Víbora, a francesa L'Echo des Savanes e a brasileira Animal (fez muito sucesso no Brasil ).
Durante os anos 80, Ranxerox  foi considerado  um dos “símbolos dos anos 80 “ , virou jogo de videogame e sua adaptação cinematográfica já foi anunciada milhares  de vezes. Apesar de ser um personagem Cult,  desde a morte de seu criador a criatura nunca mais deu as caras nos quadrinhos.

1 comentário:

Cleciopegasus disse...

Parabéns pelo ótimo trabalho no blog. Gostaria de pedir sua permissão para divulgar o lançamento de um e-book gratuito:


E-book gratuito investiga como contradições
da Filosofia ganham vida nos super-heróis


O coração dos super-heróis pode funcionar como um espelho por meio do qual o edifício filosófico encara suas fraturas, contradições e vazios: suas crises de identidade.

Esta é a ideia que serve de alicerce para o livro Os “vazios silenciosos” no coração dos super-heróis, de Cláudio Clécio Vidal. Publicado em formato eletrônico (e-book), o primeiro volume da obra investiga super-heróis dos universos norte-americano e japonês, a exemplo dos X-men, dos Novos Titãs e de Saint Seya, história conhecida, no Brasil, como Cavaleiros do Zodíaco.

O livro baseia-se na dissertação de mestrado em comunicação, defendida, em 2006, por Clécio Vidal. Com design gráfico da empresa Pipa Comunicação, pode ser acessado, de forma gratuita, no endereço eletrônico: http://cleciovidal.blogspot.com/


Segundo o autor, a filosofia, tradicionalmente, comunica-se através do discurso oficial, que busca valores como a plena coerência e conclusões de caráter definitivo.

As narrativas de super-herói, encaradas como representações imagéticas de conceitos abstratos – ou alegorias - comportam-se como uma espécie de evangelho apócrifo, contrapondo-se a interpretações canônicas de noções filosóficas. No ponto de vista de Clécio Vidal, os personagens, ao contracenarem, expõem como as “verdades” filosóficas são oscilantes e ambíguas, revelando a trama secreta de sentidos oculta pelo discurso oficial.

Nesta perspectiva, as contradições deixam de ser entendidas como no sense. “As contradições da filosofia encontram, nas narrativas de super-herói, um palco para dialogarem. Desta forma, temos acesso a um mapa de versões alternativas das noções filosóficas”, explica o pesquisador.

Uma das principais inspirações para a reflexão do comunicólogo foi a teoria de Walter Benjamin a respeito do drama barroco alemão, cuja herança, de acordo com Vidal, foi transmitida, em certa medida, para as narrativas de super-herói. Pensadores como Hegel e Michel Foucault são outras referências trabalhadas no livro.

Sobre a relação entre a obra e o livro Super-heróis e a Filosofia, organizado por Matt Morris e Tom Morris, Clécio Vidal explica que, conforme destaca o subtítulo, o livro dos Morris fala sobre como verdade, justiça e o caminho socrático refletem-se na superfície e nos valores dos super-heróis.

Por outro lado, o propósito de Os “vazios silenciosos” é encontrar nos super-heróis um espelho que reflete sobre a dúvida e os descaminhos da filosofia, o que, segundo o pesquisador, é outra maneira de falar sobre a justiça. “Acredito que os dois livros, apesar das diferenças, são igualmente válidos na tarefa de aproximar a filosofia e a mitologia dos super-heróis”, afirma Vidal.