quinta-feira, junho 30, 2016

Querem decidir até se a Mônica usa aparelho


A mais nova polêmica envolvendo Bolsonaro, Olavo de Carvalho e fãs é uma história da Turma da Mônica Jovem.
Na história, a turma encana com o fato da Mônica ter dentões e a maioria decide que ela deveria usar aparelho. A discussão termina com a dentunça dizendo que o corpo é dela e ela decide o que fazer com ele.
Os fãs de Bolsonaro e do Olavo passaram a acusar a história de ser um discurso feminista e de ter sido escrita para encucar o feminismo na cabeça das jovens leitoras. Segundo eles, a deixa para isso estaria na frase: "Meu corpo, minhas regras", que seria um estímulo ao aborto.
Fãs de Bolsonaro não costumam ser conhecidos pela inteligência. Mas dessa vez exageraram, inclusive na teoria da conspiração. Não há na história a menor menção a aborto ou qualquer coisa parecida. A discussão inteira apenas é se a Mônica deve ou não usar aparelho.
No fundo, no fundo, o que incomoda Bolsonaro e seus fãs é outra coisa.
O contexto ali é muito claro: existe de um lado o indivíduo e do outro, o coletivo (o grupo de amigos). O coletivo quer decidir sobre a vida da Mônica, sobre como ela deve ser e aparentar.
Entre o indivíduo e a pressão do coletivo, Bolsonaro e seus fãs ficam do lado do coletivo - querem decidir sobre como as pessoas levam suas vidas. Incomoda a eles que a Mônica decida continuar a ter dentes grandes quanto a pressão social é para que ela use aparelho.
Da mesma forma, os fãs de Bolsonaro querem decidir sobre como as pessoas vivem sua vida, sua sexualidade, sua aparência.
Esse pensamento é a base do comunismo: o coletivo está acima do indivíduo e o coletivo decide sobre a individualidade. Na URSS, por exemplo, as pessoas não podiam decidir que curso fazer - essa escolha era do estado. Se faltava médicos, a pessoa ia fazer medicina. Se faltava engenheiros, ia fazer engenharia.
A predominância do coletivo sobre a individualidade é a base do comunismo.
Ao se incomodarem com a história dos dentes da Mônica, os fãs de Bolsonaro deixam claro que são, no fundo, os comunistas que tanto dizem combater.


quarta-feira, junho 29, 2016

O nazismo era de esquerda?


Leandro Karnall, filósofo e historiador brasileiro, doutor em história, diz que se espantou quando lhe disseram que o nazismo era de esquerda. Em todos esses anos participando de congressos científicos de história, nunca tinha ouvido isso.
Mas agora pululam na internet teóricos da conspiração dizendo que Hitler era de esquerda. 
Pegam uma frase fora de contexto, uma moeda que ninguém sabe me dizer a procedência (que mostra uma foice e um martelo) e o nome do partido, que teria a palavra socialista. 
Um dia escrevo um texto mais detalhado, mas, resumindo: Hitler era mais ou menos como Bolsonaro. Aproveitava-se do que lhe daria popularidade. Bolsonaro, por exemplo, quando percebeu que parecer liberal lhe daria votos, começou a se dizer liberal, apesar de não ter nada de liberal. Bolsonaro antigamente tinha forte discurso anti-gays. Quando percebeu que isso poderia ser bom para um deputado, mas seria um problema para um candidato à presidência, começou a dizer que ama gays (Hitler também abafou o discurso anti-gays quando lhe foi conveniente, mas quando chegou ao poder, começou a mandar gays para campos de concentração). 
Hitler, da mesma forma, surfava na onda que lhe parecia mais popular. Entrou como espião num partido que ficava entre o socialismo e o nacionalismo, tornou-se líder do mesmo e deu uma guinada na direção oposta do socialismo (embora, em um primeiro momento, o discurso socialista lhe tenha sido conveniente, para garantir o apoio dos trabalhadores do partido, que logo seriam convencidos de que o problema não era o capitalismo, mas os judeus). 
Quando chegou ao poder, Hitler se tornou o mais feroz inimigo do socialismo e um grande amigo dos empresários, que ficaram ainda mais ricos em seu governo (eu cheguei a ter em casa uma televisão Telefunken, que era fabricada por uma empresa alemã da época do nazismo - e quem não conhece o Fusca, o carro alemão criado durante o governo nazista?).
Hitler se apropriou de um símbolo budista, transformando-o na suástica, e nem por isso era budista. Ele, como Bolsonaro, apenas se apropriava daquilo que achava que lhe seria interessante. Até a questão homossexual. Profundamente homofóbico, Hitler se aliou a um declarado homossexual, Ernest Rohm, líder das SA, espécie de gangues que funcionaram como braço armado do partido nazista. Quando chegou ao poder, Hitler que até então amava os gays, mandou matar Rohm e os principais líderes das SA e passou a mandar homossexuais para os campos de concentração (faz lembrar Bolsonaro, que depois de várias declarações que ser gay é falta de porrada, agora se diz amigo dos homossexuais)

Sobre a moeda? Não era uma moeda. Era um broche do dia do trabalhador e tinha a foice o martelo porque essa foice e martelo fazem parte do brasão da Áustria, que não tinha e não tem nada a ver com comunismo. Muito antes do comunismo, o martelo e a foice já eram símbolos do trabalho da cidade e do campo. E a foice e o martelo não estão juntos, mas cada um em um lado das asas da águia nazista. Clique aqui para uma explicação detalhada do significado desse broche.
Brasão da Áustria. 

Mas numa coisa estão perfeitamente corretos: os nazistas, assim como os comunistas tinham muito em comum, em especial a ideia de que o autoritarismo é a solução e de que as liberdades individuais devem se curvar diante do coletivo. Exatamente como pensa Bolsonaro.  

O Uivo da Górgona | YOUNG

Chamada GorpaCon 2016 Gian Danton

domingo, junho 26, 2016

Fórum Nacional de Pesquisadores em Arte Sequencial


Promovido pela Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS) em parceria com o Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Arte Sequencial, Mídias e Cultura Pop; e com o Grupo de pesquisa Criação e Ciberarte,  contando com o apoio do Programa de Pós Graduação em Arte e Cultura Visual da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, o III Fórum Nacional de Pesquisadores em Arte Sequencial (FNPAS) terá como tema “A Arte dos Quadrinhos”.
As abordagens passam pela relação do artista com a obra e /ou mercado; criações de artistas que se apropriam da linguagem dos quadrinhos; o quadrinho como arte; processos de criação em quadrinhos; história dos quadrinhos; interseções entre HQs e outras mídias e/ou formas artísticas e temas correlatos que tenham no escopo a arte e as múltiplas visualidades.
O evento concentrará suas atividades entre os dias 21 a 23 de outubro de 2016 na Faculdade de Artes Visuais – FAV, da Universidade Federal de Goiás – UFG. O III FNPAS terá uma programação que incluirá mesas redondas, sessões de apresentações orais, oficinas, performance e lançamento de livros, fanzines e revistas. A programação detalhada será disponibilizada posteriormente.
Clique aqui para baixar o Edital completo em PDF. Clique aqui para mais informações. 

A culpa é da vítima?

Em tempo: o pai da menina defende que seja criada uma legislação específica para psicopatas, que devem ficar presas para sempre, independente da idade em que cometam a atrocidade. Mas o pai não concorda com o uso sensacionalista que Bolsonaro tem feito do caso da filha, defendendo inclusive que toda criança infratora seja tratada como psicopata.
Leia aqui a carta do pai na íntegra.

sábado, junho 25, 2016

Vestibular da escola sem partido

O homem surgiu: 
a) Através da evolução da espécie.
b) foi criado por Deus no sétimo dia. 
c) foi criado por seres alienígenas que vieram à terra fazer experiências científicas.
d) Todas as respostas anteriores.
Resposta correta: D

Escola sem partido: séculos de atraso

O Brasil está prestes a aprovar leis estaduais, municipais e federais do chamado movimento escola sem partido (alguns deles de autoria da família Bolsonaro). É um dos fatos mais preocupantes dos últimos tempos - a longo prazo mais preocupante inclusive do que a crise econômica ou política - mas parece que a maioria das pessoas não se tocou do que está acontecendo. 
Claro, qualquer pessoa normal seria favorável a um projeto que proibisse a partidarização das escolas. Pedir votos em sala de aula para determinado candidato, por exemplo. Mas o que está sendo aprovado não é isso, são leis que deixam em aberto propositalmente para que qualquer coisa possa ser denunciada.
Segundo o Movimento Escola sem partido, os professores não podem ensinar nada que vá contra as convicções ideológicas e religiosas dos alunos. Mais: se tocar em um assunto polêmico, deve aceitar com válidos todos os posicionamentos sobre o assunto. Todos.
Durante séculos a escola ensinou coisas como "A terra é o centro do universo e o sol gira ao redor da terra" ou "O mundo foi criado em seis dias e no último Deus descansou". A grande revolução aconteceu no final da Idade Média, quando a escola começou a ensinar ciência. O que era ensinado nas escolas era aquilo que era aceito pela comunidade científica. O resultado disso: os países que mais rapidamente aderiram a esse novo tipo de escola foram os países que tiveram maior evolução científica, tecnológica e econômica.
Quando mais educação científica, mais avanço. Assim, no século XIX houve mais avanços científicos do que em toda a história da humanidade. Nas duas primeiras décadas do século XX houve mais progresso científico do que em todo o século anterior. Hoje, em um ano temos mais avanço técnico e científico do que em todo o século XIX.
Países que não aderiram a esse novo tipo de escola ficaram na periferia desse crescimento.
O que a Escola sem Partido propõe é voltarmos à escola antiga, em que uma teoria da conspiração ou uma convicção religiosa qualquer tem tanta relevância quanto o conhecimento científico elaborado por especialistas e aceito pela comunidade científica. Assim, a teoria da evolução tem tanta relevância quanto o criacionismo e quanto a teoria de que fomos colonizados por alienígenas.
Todo o conhecimento científico sobre o nazismo vai ter o mesmo valor em sala de aula de quem diz que o nazismo era de esquerda ou que o nazismo era budista (sim, a suástica é um símbolo budista) ou que os nazistas eram espíritas como já vi uma pessoa dizendo.
Imaginem como será essa escola em que qualquer bobagem vai ter o mesmo valor do conhecimento científico pesquisado e consolidado.
Isso é muito mais preocupante que a crise econômica. Crises passam. Um país atrasado cientificamente viverá uma era de trevas num mundo de evolução cada vez mais constante. Seremos sempre apenas mão-de-obra barata para os países evoluídos tecnologicamente.
Esse é o futuro que nos reserva o projeto Escola sem partido.


PS: Curiosamente, os adeptos do movimento escola sem partido querem colocar Bíblias em todas as escolas, o que diz muito sobre tudo isso. A Bíblia é vista por eles como a verdade que ultrapassa o conhecimento científico.

quinta-feira, junho 16, 2016

Onde estão os revoltados?

Quando vazou o áudio da Dilma e do Lula, em que ela dá a entender que vai dar-lhe o cargo de ministro para protegê-lo do Lavajato, no mesmo dia, tinha bandeiraço e apitaço em cada esquina. Teve amigo aqui fazendo postagens iradas. 
Aí vazou os áudios do Machado, deixando bem claro um plano bem estruturado não para livrar uma ou outra pessoa do Lavajato, mas para literalmente acabar com o Lavajato, inclusive aprovando leis que acabam com a delação premiada, quando vazou esse áudio, que é muito mais grave, o pessoal da camisa verde e amarela fez cara de paisagem.

Se amanhã descobrirem um plano para matar Sérgio moro, vão fazer de conta que é em outro país. 
E quem antes fazia postagens iradas, agora posta desenhos e gatinhos.

quinta-feira, junho 09, 2016

Superman - Lendas do homem de aço


Superman lendas do homem de aço José Luiz-Garcia López 2 é uma daquelas publicações absolutamente imperdíveis para fãs de super-heróis. 
Este volume reúne histórias do Super-homem em encontro com outros heróis publicadas na coleção DC Comics Presents (essas histórias foram publicas no Brasil pela Ebal na coleção Clássicos da década pouco antes da editora perder os direitos dos heróis DC para a Abril). 
O destaque aqui vai todo para o desenhista. Na verdade, o desenho é tãobom que os roteiristas ficam em desvantagem - nenhum dos roteiros parece ir além do bom comparado com a arte fantástica de Garcia-López.
Chama atenção principalmente a primeira história, escrita por Martin Pasko, em que o Super e Flash. É uma história longa, que explora perfeitamente os heróis e principalmente o contexto de ficção-científica, na qual o desenhista era um mestre. A solução final é frustante (eu fiquei me perguntando: por que os heróis não fizeram isso antes?), mas o desenvolvimento vale.
O encontro do Super com Adam Strange, com roteiro de David Micheline, também é um bom momento. A dupla enfrenta uma ameaça grandiosa, que coloca em perigo dois mundos e explora bem o visual FC.
O encontro do Super com o Arqueiro Verde é certamente o momento mais fraco do álbum, com os heróis enfrentando um empresário ganancioso. O escritor Denny O´Neil usa o estilo social que havia feito sucesso nas histórias do Lanterna e do Arqueiro, mas aqui, com alguém tão poderoso quanto o Super-homem, parece que a história simplesmente não funciona.
Mas mesmo nessa história vale a pena perder alguns minutos só apreciando a belíssima arte.
Em tempo: a primeira história DC que li, quando era criança, foi justamente o encontro do Super-homem com o Flash. Posteriormente, quando a Abril passou a publicar a revista do personagem, li alguma coisa e não vi nada parecido com o heroismo grandiloquente dessa HQ (não sei porque, a Abril, que eu saiba nunca publicou essas histórias).

sexta-feira, junho 03, 2016

Livro de Gian Danton concorre ao HQ Mix


O livro Como escrever quadrinhos, segunda publicação de Gian Danton sobre o tema de roteiro para quadrinhos, está concorrendo ao troféu HQ Mix. Para fazer o cadastro para votar, clique aqui.

quarta-feira, junho 01, 2016

Juliette Society


Sasha Grey era uma garota meio nerd que queria ser atriz pornô, apesar de não se encaixar no gênero gostosona. Conseguiu, depois aposentou-se e tornou-se atriz e escritora.
Juliette Society é seu primeiro livro e mostra que existe sim, vida inteligente no mundo pornô.
O livro é bem escrito, com uma prosa leve, mas nem de longe pobre.
O Julliete Society do título é uma organização secreta da qual participam os homens que mandam no mundo.
O nome é uma referência a um dos romances mais famosos do Marquês de Sade, Justine. Julliete é a irmã devassa da pudica Justine. Na obra de Sade, enquanto Justine é castigada pelo destino, sua inocência sendo constantemente punida, Julliete é brindada com o sucesso quanto menos inocente e mais sexualizada se mostra.
O capítulo que explica o título mostra bem que se trata de um livro diferente da maioria dos eróticos. Sasha Grey (cujo pseudônimo é uma homenagem ao romance O retrato de Dorian Gray) discorre sobre história, filosofia, literatura. E cinema. A protagonista é uma estudante de cinema, o que leva a diversas citações e referências a obras famosas da sétima arte, como A bela da tarde, de Buñuel.
Na verdade, o livro funciona pouco do ponto de vista do erotismo. É mais um triller usando como fundo o conhecimento da autora sobre o meio pornô recheado de filosofia, cinema e literatura.
A parte menos interessante é o final, mal-amarrado, em que o livro, que até então ia em pleno realismo, flerta com o fantástico.
Ainda assim, vale a leitura.