domingo, março 26, 2017

O que era um gueto?

A palavra Getto originalmente designava uma ilha em Veneza onde se fabricava peças para artilharia. Mais tarde, quando os judeus venezianos foram obrigados a ir para a ilha para fugir de perseguições, o local passou a designar um local isolado, onde um povo vive confinado.
O termo 'gueto' é um exemplo de como as palavras, em sua viagem pelo tempo, às vezes resultam em um significado inteiramente distinto do seu sentido original. Gueto provém do latim 'jacere' (atirar), que é a raiz de palavras como 'projeto', 'injetar', 'adjetivo' e 'jato'. A palavra veneziana 'getto' era o nome de uma ilha onde existia uma fundição que fabricava peças para a artilharia da cidade. Mais tarde, quando os judeus de Veneza foram obrigados a viver nesta ilha, fugindo de perseguições, o local passou a designar uma zona isolada onde vivia um povo confinado.
O gueto de Veneza era uma área nobre da cidade, para onde iam cidadãos ricos, mas com o tempo a palavra gueto passou a designar locais para onde iam (forçados ou não) grupos étnicos, geralmente em péssimas condições de vida.
Grande parte dos guetos eram criados para judeus, um dos povos mais perseguidos na Europa. Até mesmo papas chegaram a criar ou recomendar a criação de guetos para a separação da população judaica.

Como os judeus não podiam comprar terras em outros locais, os guetos ficavam estreitos, altos e com casas superlotadas. As condições de higiene deterioravam de maneira assustadora, levando à proliferação de doenças. No gueto de Praga, o cemitério judeu ficou tão lotado que os mortos eram enterrados junto ao chão, sobre sepulturas antigas.  

O uivo da górgona - parte 20


20
Edgar nem mesmo parou para olhar o que o outro tinha feito. Saiu correndo e foi fechar o portão da garagem. De certa forma é como se estivesse se adaptando às coisas e sabia que o mais importante era garantir que nenhum outro zumbi entrasse.
Quando voltou, Jonas olhava para o cabo quebrado, como se fosse uma cobra que o tivesse hipnotizado.
- Eu a matei. – disse, apontando para a mulher caída no chão. Ela parara de estrebuchar e se via apenas alguns movimentos reflexos. Eu a matei!
- Se não fizesse isso, ela faria isso conosco. Agora vamos entrar. Precisamos sair daqui. Vamos, entre.

Sofia agarrou-se à mão de Edgar e entraram na casa pela porta da cozinha, onde deixou a menina. Edgar foi direto para a sala, onde ficava o telefone fixo. Tirou o gancho e respirou aliviado quando percebeu que havia linha.  

Conan

            
       No final da década de 1960 os super-heróis começaram a entrar em crise. O final da era de prata dos quadrinhos foi marcado pelo desaparecimento de várias editoras e títulos. Na década de 1970 começaria a chamada era de bronze. Foi um período em que os editores se viram obrigados a testar novos formatos e gêneros na tentativa de manter o interesse do leitor. Um personagem que encarnou essa época foi Conan, o bárbaro.
                   Conan, criado pelo escritor texano Robert E. Howard, surgiu na história The Phenix on the sword, publicada na revista pulp Weird Tales, em 1932. Na década de 1960 suas histórias foram republicadas, chamando a atenção de Roy Thomas, o roteirista mais importante da Marvel, depois de Stan Lee. Dois resolveram que aquilo daria um bom quadrinho. O dono da Marvel, Martin Goodman, não tinha gostava do personagem. Afinal, ele era amoral, vingativo, ladrão e adorava uma bebedeira e uma orgia. Para quem achava que os quadrinhos eram lidos só por crianças, esse parecia um personagem que não iria agradar. Stan Lee, no entanto, convenceu-o a publicar.
                   Para a desenhar a história foi designado um ilustrador inglês, novo no meio, chamado Barry Smith. Ele fez um Conan com visual art-nouveau que chamou a atenção do público. Apesar do sucesso, Smith acabou abandonando os quadrinhos para se dedicar a outras variantes artísticas. Para substituí-lo foi chamado um veterano da Marvel, John Buscema. Buscema mudou o personagem, tornando-o mais másculo e mais bárbaro, definindo o que seria o visual do personagem dali para a frente. Quando a revista deixou de ser colorida e passou a ser publicada no formato magazine (maior que o dos gibis), as vendas estouraram, pois a revista alcançou um público bem mais adulto, que já tinha desistido de ler super-heróis.
                   O sucesso de Conan também esteve ligado aos ótimos arte-finalistas de origem filipina, como Ernie Chan e Alfredo Alcala, que distanciavam o traço de Buscema daquele que ele usava nos super-heróis.
                   O sucesso absoluto do personagem fez com que surgissem vários outros personagens nos mesmos moldes. No começo, a própria Marvel aproveitou para publicar outros personagens criados por Robert E. Howard, como Kull, o conquistador e Sonja, a guerreira, que fez muito sucesso no traço de Frank Thorne. Tratava-se de uma mulher que só podia entregar sua virgindade ao homem que a vencesse em combate. Como isso nunca acontecia, a história se equilibrava entre a sensualidade e a ação.
                   A DC entrou na onda com O Guerreiro, criação de Mike Grell, sobre um piloto da força aérea norte-americana que vai parar no centro da terra, onde existe um mundo dominado pela espada e pela magia.
                   Na década de 1980 Conan ganhou uma versão cinematográfica, estrelada por Arnold Schwazenegger, o primeiro sucesso cinematográfico do ator.

                   Conan fez um sucesso extremo no Brasil, onde continuou popular mesmo quando a Marvel não estava mais produzindo novas histórias. Por causa disso, as editoras (inicialmente a Abril e depois a Mythos) continuaram a revista apenas com republicações. Depois o personagem foi adquirido, nos EUA, pela editora Dark Horse. As novas histórias, assinadas pelo roteirista Kurt Buziek e pelo desenhista Cary Nord têm conseguido agradar aos velhos fãs. 

sábado, março 25, 2017

Quem era o grande ditador?

O grande ditador foi um filme feito por Charles Chaplin para criticar Hitler e que, segundo alguns, preparou a opinião pública norte-americana, abrindo as portas para a entrada dos EUA na guerra.
No filme, Chaplin representa dois papéis, o ditador Adenois Hynkel e um barbeiro judeu. Chaplin estudou tão minuciosamente os trejeitos de Hitler para imitá-lo na tela que sua visão do ditador é muitas vezes mais lembrada do que a própria imagem de Hitler.
Chaplin inventou uma língua, o tomaniano, que satiriza o discurso histérico do fuhrer. O ditador italiano Mussolini também é satirizado na história.
Na trama do filme, Hynkel pede dinheiro a um banqueiro judeu, mas como não consegue, passa a perseguir esse povo.
Mas um acaso faz com que o barbeiro judeu acabe tomando o lugar do ditador em uma convenção do partido e, o que deveria ser um discurso em prol do ódio, torna-se um discurso sobre a paz e a solidariedade.
A cena mais famosa de O grande ditador é quando Hynkel brinca com o globo terrestre, mostrando a intenção do ditador de dominar o mundo, mas ao final da cena o balão explode e o ditador chora. Nenhuma cena poderia ser mais marcante e representar melhor a crítica de Chaplin.
O filme, claro, provocou a fúria dos nazistas e até o governo norte-americano, que na época tinha relações cordiais com a Alemanha, se sentiu desconfortável com a película.
Chaplin chegou a declarar que exibiria o filme, mesmo precisasse comprar um cinema para isso. Felizmente isso não foi necessário e O Grande Ditador foi um grande sucesso, ajudando a colocar a opinião pública norte-americana contra os nazistas.

Posteriormente, quando soube dos horrores dos campos de extermínio, Chaplin declarou que, se soubesse o que de fato os nazistas fariam, não teria feito uma comédia. 

O uivo da górgona - parte 19


19
Jonas se agitava, tomado pelo pânico e pela surpresa. Provavelmente nunca imaginara que uma mulher magra como aquela pudesse ter tanta força.
Edgar largou a mão de Sofia e avançou. Pensou em pegar a vassoura, mas ela havia caído do outro lado. Teria que dar a volta nos dois para pegá-la e talvez fosse tarde demais. Assim, pulou sobre a mulher a segurou-lhe os cabelos, puxando-a para o lado. Ela largou Jonas, mas rolou pelo chão. Tinha visto uma vítima mais fácil: Sofia.
A coisa foi arrastando-se na direção da garotinha. A menina se encolheu, mas seria rapidamente alcançada.
Edgar nem mesmo pensou no que estava fazendo: pegou a cabeça da mulher e bateu-a contra o chão. A mulher voltou a girar, seu olho agora uma flor enorme de sangue, ainda disposta a atacar, até que seu outro olho foi perfurado.
O professor olhou para o lado. Jonas estava lá, pasmo, com um pedaço do cabo da vassoura partido na mão. O outro pedaço estava cravado no olho da mulher, que estrebuchava no chão.

- Oh, céus! Oh, céus! – repetia Jonas. 

sexta-feira, março 24, 2017

O uivo da górgona - parte 18


18
Sofia soltou um grunhido de susto e Edgar foi obrigado a puxá-la para longe da quina da parede. O zumbi se aproximava lentamente e agora podia ser melhor visto. Era uma mulher de enormes unhas vermelhas e vestido curto sujo e rasgado. O cabelo crespo havia sido alisado e pintado de loiro, mas agora estava desgrenhado como uma teia de aranha. Ela andava com dificuldade em razão do salto alto e caía de tempos em tempos.
O professor olhou para o lado e viu Jonas. Ele se armara com uma das vassouras que eram deixadas do lado de fora. Edgar rezou para que isso fosse suficiente.
Inesperadamente, Jonas saiu de seu lugar e avançou com o cabo de vassoura, atingido a mulher na testa. Ela oscilou para trás, um enorme hematoma se formando em sua pele. Qualquer um teria fugido depois de um golpe daqueles, mas o uivo da górgona parecia ter tirado dela até mesmo o instinto de sobrevivência.
Mesmo com o salto alto, ela avançou com surpreendente velocidade, abrindo e fechando a boca, como se abocanhasse o ar, e levando as mãos em garra. Jonas não esperava por isso e recuou.

A mulher pulou sobre ele, derrubando-o no chão, as mãos em garra rasgando sua roupa, a boca procurando seu pescoço. 

War - histórias de guerra


Tenho para vender um único exemplar do álbum War - histórias de guerra - o último trabalho do gênio Eugenio Colonnese incluindo uma história imédita, escrita por mim e desenhada por ele com lápis. Edição numerada e autografada pelo desenhista e por mim. Valor: 25 reais. Pedidos pelo e-mail: profivancarlo@gmail.com.

O uivo da Górgona


Um som se espalha pela cidade (ou pelo estado, ou pelo país, ou pelo mundo?). Um som que ouvido transforma as pessoas em seres irracionais cujo único o objetivo são os instintos básicos de violência e fome. É o uivo da Górgona.
Acompanhe a história dos sobreviventes neste livro de terror, uma história de zumbis diferente, em que qualquer um pode se transformar, bastando para isso ouvir o terrível uivo da górgona.
Escrito em capítulos curtos, o livro transforma o suspense em elemento de fantasia, prendendo o leitor da primeira à última página. 
Pedidos: profivancarlo@gmail.com. 

quinta-feira, março 23, 2017

O uivo da górgona - parte 17


17
Edgar viu-se empurrado para trás da parede da casa. Pensou em resistir, ou reclamar, mas depois desistiu. Jonas deveria ter suas razões. Só quando estavam escondidos, o outro se deu ao trabalho de explicar:
- Olhe, mas cuidado.
Um dos zumbis circulava pela garagem. Tinha vindo pelo outro lado da casa. Aparentemente o som os transformara não só em monstros assassinos, mas afetara sua inteligência e percepção. Jonas já os vira andando em círculos, como que se quisesse deixar o corpo decidir para onde iria.
Em determinado momento dirigiu-se ao portão e parecia que ia sair, então voltou.

Veio andando ao longo da parede da casa, na direção deles. 

Como funciona o bolsa-empresário?


Kripta

       
Em 1964 as bancas norte-americanas viram aparecer uma revista sobre os filmes de terror chamada Famous Monsters of Filmland (Monstros Famosos do Cinema). O editor era o desconhecido Jim Warren.
       Em certo número de sua revista, Warren publicou uma HQ de terror e ficou esperando a reação. Ele temia que a revista fosse boicotada pelo Comics Code, que regulava os gibis americanos e havia acabado com a editora EC, especializada em terror. O gênero era totalmente proibido, mas ninguém prestou atenção àquela HQ. Warren logo percebeu que o formato magazine (20,5 x 27,5 cm) era visto como sendo para adultos e, portanto, não estava sob controle do código. Era o sinal verde para lançar uma revista só de terror, no novo formato e em preto e branco.
       Assim, no inverno de 1964 surgia a revista Creepy (algo como assustador). No ano seguinte surgia a Eerie, seguindo a mesma linha. As duas revistas juntavam a nata da EC Comcs, com artistas como Joe Orlando, Frank Frazetta e Reed Crandall. Além disso, foram se somando aos poucos novos artistas, como Steve Dikto, Gene Colan, Neal Adams, Richard Corben, Berni Wrightson,  entre outros.
     Para editar as revistas e escrever as histórias foi contratado Archie Goodwin, um roteirista mediano no gênero super-hérois, mas sempre muito criativo em outros gêneros. Posteriormente foi contrato também o editor e roteirista Bill Dubay.
     Na década de 1970, a revista vivia sua fase áurea, mas ao mesmo tempo enfrentava um problema: editoras maiores, como a Marvel, começaram a entrar nesse mercado e a oferecer maiores benefícios aos desenhistas. Então, justamente quando as revistas mais vendiam, começou a faltar mão-de-obra. A solução foi dada por Bill Dubay, que entrou em contrato com um grupo de artistas espanhóis para substituir os americanos que estava debandando. O que era um problema acabou virando a favor da editora: os novos artistas espanhóis contratados eram espetaculares e deram início à fase de ouro da Warren, produzindo as melhores histórias de suspense, terror e ficção-científica da década de 1970. Entre os novos artistas, destacavam-se Esteban Maroto, com um traço psicodélico que foi imitadíssimo na época, e José Ortiz.
     Foi na Warren que surgiu a mais famosa vampira dos quadrinhos (embora não tenha sido a primeira. Esse posto é ocupado por Mirza, do brasileiro Eugênio Colonnese): a Vampirella. A personagem estreou em 1969 e transformou-se logo num sucesso. A roupa foi criada por Trina Robbins, mas a personagem acabou sendo delineada visualmente pelo grande Frank Frazetta. 

     No Brasil, as histórias da Warren foram publicadas na revista Kripta, da editora RGE e durou 60 edições, com grande sucesso. O slogan, usado na propaganda de TV, era ¨Com Kripta, qualquer dia é sexta-feira e qualquer hora é meia-noite¨, tornou-se célebre. 

O que era a SA?

SA era a abreviatura da Sturmabteilung (Divisão de assalto), grupo paramilitar fundado por Hitler em 1921. A SA também era chamada de Tropa de assalto, ou camisas pretas.
Os primeiros membros da SA foram recrutados nas corporações livres, grupos armados, na maioria compostos por ex-soldados, que combatiam esquerdistas nas ruas da Alemanha pós-guerra.
A organização era nitidamente inspirada nos camisas pretas, grupos chefiados por Mussolini na Itália.
A SA protegia as reuniões do partido, marchava em comícios nazistas e batia em oponentes políticos, especificamente comunistas, aos gritos de “Morte à escória vermelha!”.
Depois do fracasso putsch da cervejaria, a SA se dispersou, mas foi reorganizada por Hitler, com a liderança de Ernest Rohm.
Rohm tinha o sonho de transformar a SA na principal força militar da Alemanha. Conseguindo membros entre ex-militares e desempregados, a organização cresceu até chegar a ter, quando Hitler chegou ao poder, dois milhões de membros, vinte vezes mais que o exército regular do país.

A SA foi importante por suas ações de intimidação violenta e perseguição a inimigos e judeus e sua atuação foi fundamental para a ascensão do nazismo. Mas seu gigantismo foi seu fim. Transformado em chanceler, Hitler percebeu que tinha em Rohm um adversário político capaz de efetuar um golpe de estado e arquitetou o fim da SA na operação chamada de “a noite das longas adagas”. 

Lembranças de Carnaval


Todo mundo tem agradáveis lembranças dos carnavais passados: 

- Ah aquele carnaval de 1930, em Petrópolis... Se não fosse a artrite, eu saía de madrinha da bateria este ano... 

- Aí teve aquela loira que... não, a loira foi depois da morena... ou será que era ruiva? Nunca bebi tanto em minha vida... 

É, carnaval sempre traz boas lembranças para todos e eu não seria exceção. Foi durante um carnaval que fui assaltado pela primeira vez...

Era Quarta-feira de cinzas e eu, por alguma razão desconhecida, resolvi devolver um livro na biblioteca. Eu sei, eu sei. Bibliotecas não funcionam na Quarta-feira de cinzas, mas como eu poderia saber? 

Diante da porta fechada, só me restou voltar para a parada e esperar o ônibus. Foi quando aconteceu o assalto. 

Se eu tivesse sido avisado, teria me vestido adequadamente para a situação, mas os dois ladrões não tiveram essa preocupação. Acho que não eram pessoas muito educadas. 

Um deles segurava uma faca e tinha olhos tão vermelhos que eu poderia jurar ter ele mais sangue na cabeça que no corpo todo. Isso, em tese, o faria mais inteligente, mas estou cada vez mais convencido que as teorias não funcionam na prática. Tanto que ele só conseguia dizer: 

- Passa, passa logo! 

- Passa o quê? A carteira? 

- Não, o negócio... 

Ele decididamente não sabia o que queria. Depois de um longo diálogo surrealista, consegui advinhar que ele cobiçava meu relógio. Fiquei indignado! Logo no meu primeiro assalto e o ladrão se interessava apenas por um relógio mixuruca? Resolvi não colaborar. 

Enquanto isso, o outro cavalheiro, armado com um revólver, rendia um taxista. 

- Me dá o relógio! 

- Não dou! 

- Vai dar sim! 

- Não mesmo! 

- Vocês podem apressar isso aí? – gritou o outro, já dentro do taxi. 

O assaltante resolveu apelar. Apontou a faca para o meu pescoço e perguntou: 

- Você quer morrer? 

Enquanto eu pensava no assunto, ele pegou o relógio e saiu correndo. 

Essa foi a primeira vez que fui assaltado. A segunda foi na véspera de natal. A terceira no ano novo... 

Tudo isso me levou a desenvolver um gosto especial por ficar em casa nos dias festivos... 

quarta-feira, março 22, 2017

O uivo da górgona - parte 16


16
Edgar ficou ali, parado, na dúvida. Tinham que entrar. Não podiam ficar expostos na rua, mas e se alguma daquelas... (coisas?) tivesse entrado? Era como entrar em uma armadilha.
Por fim, decidiu-se:
- Vamos.
Apurou os ouvidos, à medida que andava. Sentiu que a pele se arrepiava. Sofia segurava firme sua mão direita. Isso dava segurança para a menina, mas, por outro lado, tornava muito mais difícil a reação, caso houvesse algum ataque.
Avançou pela garagem. A coisa podia estar escondida atrás do carro. Foi avançando, lento, tentando ver algo, até ter certeza de que a garagem estava completamente livre.

- Oh, céus! – disse Jonas, lá atrás, empurrando-os. 

O que é o museu do holocauto?

O Museu do holocausto foi criado por Israel em 1953 em homenagem aos judeus vítimas do genocídio nazista. Além de várias exposições, o museu abriga 55 milhões de documentos, entre eles passaportes, registro de confisco de bens, deportações e papéis que incriminam nazistas e colaboradores. Além disso, o museu com conta com testemunhos de sobreviventes.
O museu conta com um trilho quebrado e um vagão original usado para transporte de judeus para campos de concentração. O vagão está quase caindo num abismo, lembrando que ele era o transporte para a morte.
Outro veículo do museu, mas com significado oposto, é uma ambulância da cruz vermelha sueca. Com o fim da guerra se aproximando, os suecos conseguiram autorização para resgatar pessoas em campos de concentração. 25 mil pessoas, a maioria mulheres e crianças, foram transportados em 36 ambulâncias.
Uma caverna serve de memorial para as 1,5 milhões de crianças judias mortas pelos nazistas. O lugar é iluminado apenas por velas e alto-falantes repetem o nome e a idade de meninos e meninas mortos pelos nazistas. Também há exposições com brinquedos usados como esconderijos de dinheiro e documentos.
Um bosque com 20 mil árvores representa os não-judeus que se arriscaram para salvar vítimas do nazismo. Placas identificam esses heróis. A primeira delas é dedicada a Oscar Schindler, que salvou milhares de judeus, trabalhadores de sua fábrica.

Um salão é o cenário de cerimônias em homenagem aos mortos. Um chama que jamais se apagou fica no centro e no chão estão gravados os nomes de 22 principais campos de concentração. 

terça-feira, março 21, 2017

O uivo da górgona - parte 15


15
Dessa vez foram ainda mais cautelosos ao sair. Jonas levantara a gôndola e empurrara para o lado as coisas que haviam caído – barbeadores, pilhas, colas rápidas. Queria o corredor desimpedido caso precisassem voltar rapidamente.
A rua agora estava vazia. O rapaz com camiseta de rock havia desaparecido e provavelmente havia se juntado ao grupo, se o tivesse alcançado.
- Por ali. – orientou Edgar.
Passaram pela casa fechada que Edgar havia visto antes. O barulho lá dentro continuava. Som de móveis quebrados atravessava o portão.
- Deviam estar com a casa trancada quando aconteceu. – explicou Jonas. Acho que não conseguem abrir portas e grades.
Edgar concordou:
- O instinto deles é sair e se juntar à multidão. Como não conseguem, estão destruindo a casa.
Quando chegaram à frente da casa, Edgar estancou:

- Deixei encostado. O portão não estava aberto dessa forma. 

É verdade que Mussolini era contrário ao holocausto de judeus?

Aparentemente sim. Documentos revelados recentemente pelo Vaticano revelam que o líder fascista mandou uma carta para seu amigo nazista em 1933 aconselhando-o a não se deixar conduzir por uma campanha anti-semita.
Hitler não deu a mínima. As primeira leis anti-semitas e o banimento de judeus do funcionalismo público aconteceram logo em seguida à carta.
Mussolini, ao contrário, manteve judeus em altos escalões do partido fascista até 1938.
Nos campos de concentração italianos as famílias permaneciam unidas, havia escolas e atividades culturais e não existiam câmeras de gás.

As razões de Mussolini tinham pouco a ver com ética e muito a ver com a demagogia. Ele sabia que a população italiana achava absurda as idéias relacionadas ao arianismo e não aprovaria a perseguição declarada aos judeus como aconteceu na Alemanha. 

segunda-feira, março 20, 2017

Baudolino e a obra aberta de Eco


Em Baudolino, Umberto Eco faz o que sempre fez melhor: contar histórias ambientadas na Idade Média. Seu outro grande sucesso, O Nome da Rosa, também acontece na chamada Idade das Trevas e talvez venha daí seu sucesso.

Eco tem outros textos, mais acadêmicos, em que compara a Idade Média com nossa época e diz que as semelhanças são maiores que as diferenças.

De fato, é grande a semelhança do período em que se passa Baudolino (1152 –1204) e os dias atuais.

Na época reinava na Europa o Imperador Frederico, que gastava mais tempo administrando os conflitos entre as cidades italianas do que com qualquer outra coisa. Da mesma forma, os pequenos países do Oriente Médio têm dado grande dor de cabeça para o todo-poderoso de nossa época, o presidente norte-americano George W. Bush.

E, se os italianos tinham o ouro de seu tempo (as especiarias), os mulçulmanos têm o ouro atual (o petróleo).

“Vale a pena viver nessas terras, onde todos parecem ter feito voto de suicídio, e onde uns ajudam os outros a se matarem?”, diz Baudolino, à certa altura do livro. Parece estar falando dos países do Oriente Médio, mas está se referindo à Itália.

Coincidências à parte, o livro vale pela inventividade. A história é contada a partir do relato de Baudolino, um mentiroso por natureza, que acabou sendo adotado pelo imperador Frederico após fazer uma previsão absolutamente falsa: “Quando se diz uma coisa que se imagina, e os outros dizem que é exatamente assim, acaba-se por acreditar nela, afinal. Assim, eu vagava pela Frascheta e via santos e unicórnios na floresta, e quando encontrei o imperador, sem saber quem fosse, falei em sua língua, e disse-lhe que São Baudolino me dissera que ele conquistaria Terdona. Disse-lhe isso para contentá-lo, mas para ele era conveniente que eu o dissesse a todos, e de modo especial aos mensageiros de Terdona, para que eles se convencessem de que também os santos estavam contra eles, eis a razão pela qual me comprou de meu pai”.

O livro começa com Baudolino salvando Nicetas, um sábio da corte de Constantinopla à época em que ela foi invadida pelas tropas européias. Nicetas faz um favor a seu salvador: ouve e escreve seu relato, na tentativa de contar a história de uma época.

Mas a empreitada é difícil. Baudolino é tão mentiroso que o sábio não consegue distinguir, entre o que ele fala o que é real e o que é falso. Muitas vezes o que parece real é falso e o que é falso parece real.

Baudolino é uma espécie de Forrest Gump da Idade Média. Com uma diferença: enquanto Forrest era um tolo, Baudolino é um espertalhão mentiroso.

A graça do livro está justamente aí: em ouvir uma história sem estar certo da idoneidade de quem a conta. De todos os fatos narrados, muitos são mentira e muitos são verdade, mas é impossível separa o joio do trigo.

Baudolino dá a impressão de ter sido escrito para provar uma das teses mais importantes de Eco: a obra aberta.

Na década de 60, quando o mundo das artes era sacudido por uma vanguarda pós-moderna, Eco escreveu um livro definindo o que ele chamou de Obra Aberta em oposição ao que ele chamou de discurso persuasivo, ou fechado.

O discurso persuasivo traz a mensagem pronta para o receptor. O leitor de um livro tem apenas o trabalho de descobrir o que o escritor pretendia com seu livro. Uma única leitura era a permitida.

A obra aberta revolucionava o sentido da arte forçando o receptor a ter participação ativa no processo de fruição. Assim, cada pessoa que lesse um livro ou ouvisse uma música deveria ter um entendimento próprio sobre seu significado. Já não havia mais certezas a serem desveladas. O próprio conceito de realidade é colocado em questão. Pela teoria da relatividade, cada observador teria sua própria interpretação de realidade, dependendo do ponto em que estivesse observando determinado fenômeno.

Da mesma forma, em Baudolino, realidade é o que o protagonista conta, mas ele pode estar mentindo e, assim, a realidade é relativizada. O leitor não deve confiar nem mesmo no narrador.

Mas não é necessário conhecer o conceito de obra aberta para gostar de Baudolino. Eco, como sempre, consegue transformar temas complicados (como a política medieval) em uma leitura deliciosa que envolve uma história policial, lendas medievais, uma expedição em busca do Santo Graal e até uma referência à Alexandria, cidade natal do escritor.

Outro destaque é a capa, belíssima, com impressão em prata.

Um livro para ler e reler e encontrar novos significados a cada nova leitura. 

O que aconteceu com os cientistas judeus na Alemanha?

A maioria fugiu, a exemplo de Albert Einstein, que foi para os EUA em 10 de março de 1933, logo no início do regime nazista.
A situação desses cientistas ficou bem clara em 6 de maio de 1933. Nesse dia, Max Planck, um dos cientistas mais importantes da época e pai da física quântica, teve uma reunião com Hitler. Ele queria evitar a demissão do químico Fritz Haber, de origem judia. Haber havia sido um dos principais responsáveis pelo uso de produtos químicos na I Guerra Mundial. Além disso, a técnica de fixação da amônia a partir do nitrogênio, inventada por ele, permitiu a criação tanto de explosivos quanto de fertilizantes baratos.
Planck argumentou que existiam diversos tipos de judeus, alguns valiosos e outros inúteis para a humanidade e que Haber estava entre os que eram valiosos. Hitler ficou histérico e começou a berrar, tremendo de raiva: “Se a ciência não pode passar sem os judeus, teremos que passar sem a ciência”.

Era a sentença de morte para todos os cientistas de raças indesejáveis que continuassem na Alemanha. Muitos do que fugiram para os EUA iriam contribuir para que aquele país fosse o primeiro a desenvolver a bomba atômica. 

O uivo da górgona - parte 14


14
O garoto continuava seu caminho, lenta, mas decididamente. Não demoraria para encontrar com Edgar. Então ouviu-se um barulho alto, na rua.
Edgar abriu os olhos e arriscou olhar por entre os salgadinhos.
O zumbi parara, indeciso. Por um instante, pensou continuar na mesma direção. Então houve outro barulho e ele se virou completamente, naquele movimento estranho, dos braços esticados ao longo do corpo e imóveis.
Edgar esticou a cabeça. Havia duas latas de leite caídas do lado de fora, abertas com seu conteúdo branco manchando o asfalto negro.
O rapaz foi até elas, intrigado, e ficou ali, olhando à volta por alguns instantes antes de afastar-se e sumir de vista.
Jonas se aproximou, por entre as prateleiras:

- Melhor irmos agora. 

O que era O trinfo da vontade?

É um filme-documentário realizado por Leni Riefenstahl em 1936. Ela documentou o Congresso Nacional do Partido Nazista e o fez com tal apuro estético que até hoje sua estética é padrão em muitas propagandas políticas. A produção contou com 135 pessoas e 30 câmeras.
O filme destaca a comunhão mística entre Hitler e a massa, enaltecendo-o.
O jogo de câmera, feito para destacar a grandeza do evento e a superioridade do Fuhrer são até hoje elogiados por especialistas. As tomadas de baixo, ascendendo pelos mastros das bandeiras sublinhava as dimensões colossais do evento. Travellings ao longo das formações militares acentuava a rigorosa ordem e o poder alemão. No vazio entre as formações e colunas, surge Hitler, quase como um deus ariano.
Nas primeiras sequências, o Fuhrer chega de avião, como um messias. As nuves se abrem à medida em que o avião se aproxima, como se ele abrigasse um messias.
No alto, sobre um palanque, Hitler domina o ambiente. Se ele pede aplausos, a multidão responde imediatamente. Se ele pede silêncio, todos se calam. Se a multidão interrompe sua fala com aplausos, ele sorri, satisfeito.

Partes do filme ainda hoje podem ser vistas em sites de compartilhamento de vídeo, como o Youtube. 

Os companheiros do crepúsculo

    
 Entre os artistas franceses da nova geração, surgidos na década de 1970, um nome se destaca não só pela qualidade dos desenhos, mas, principalmente, pelo ótimo roteiro. Trata-se de Français Bourgeon, criador da série Companheiros do Crepúsculo.
     Bourgeon nasceu em Paris, França, em 1945 e começou sua carreira artística pintando vitrais em catedrais e restaurantes da Inglaterra. Esse começo ia ter grande influência em seu trabalho posterior, principalmente no detalhismo de seu traço.
     Em 1973 ele começou a desenhar a série infantil Brunelle et Colin (com texto de Robert Genin) para a revista Lissete, mas seu primeiro trabalho mais autoral só viria em 1978, quando ele desenhou Malthe Guillaume para o texto de P. Dhombe.
     Em 1979 surgiu a primeira série com roteiro seu, Passageiro do Vento, um clássico dos quadrinhos europeus. A personagem principal da série é Isa, uma moça boa de tiro que se veste de homem para trabalhar num navio.
     Bourgeon conta que começou a fazer passageiros do vento para aproveitar seus conhecimentos sobre a marinha do século XVIII: ¨Pensei em fazer uma aventura de corte bastante clássico, no espírito das novelas de capa e espada... depois a aventura ficou em segundo plano e me dediquei a explicar a relação entre os personagens¨.
     A série tem cinco álbuns. Os melhores são os três últimos, quando Isa, o marido e uma amiga vão para a África a bordo de um navio negreiro. Bourgeon mostra em detalhes o funcionamento do tráfico de escravos, o modo de vida dos negros, a relação entre as tribos (muitas da quais viviam de vender escravos aos brancos).
     Embora a HQ denuncie as atrocidades cometidas contra os negros, os personagens não se dividem em heróis e vilões. Ao contrário, são tridimensionais, na tradição da boa literatura.   
     Em 1983, Bourgeon lança seu trabalho mais importante: a série Companheiros do Crepúsculo. Dessa vez a história se passa na Idade Média, que é mostrada com um realismo poucas vezes visto nos quadrinhos, inclusive em termos de violência. O autor mostra a fome, a peste, a luta entre plebeus e a nobreza... em um das seqüências, um grupo de soldados passa por uma vila, vindos da guerra e destroem tudo, violentam as moças, matam os homens e usam a barriga de uma gestante como alvo para sua flechas. Tudo baseado em fatos reais, documentados.
     A história também flerta com o fantástico ao mostrar duendes e tradições da magia celta.
     Os personagens principais são um cavaleiro de rosto deformado, que anda à procura da morte para acertar umas contas; um pajem que foi encontrado pendurado em uma forca e Mariotte, uma rapariga ruiva.
     A moça acaba se tornando a personagem principal da série: ¨As mulheres têm em minhas histórias o mesmo papel que têm na vida de muitos indivíduos. Sem mulher eu não existiria, sem ela a vida não teria muito interesse¨.
     Outro aspecto interessante em Companheiros do Crespúsculo é o fato do leitor nunca saber ao certo o que é realidade e o que é sonho. Essa impressão é particularmente forte nos dois primeiros números. No terceiro álbum, Bourgeon tornou mais realista a história, dedicando-se a analisar as relações sociais na época da Idade Média.

     Em tempo: Companheiros do Crepúsculo foi publicado no Brasil em volume único pela editora Nemo. 

Choques futuristas


Certa vez um quadrinista iniciante me disse que era impossível fazer uma boa história em quadrinhos com menos de 15 páginas. Um dos melhores exemplos do quanto errado é esse raciocínio é o álbum Choques Futuristas, de Alan Moore e vários artistas, lançado recentemente pela editora Mythos. O álbum reúne histórias curtas escritas por Moore para a revista 200 AD. A maioria tem duas ou três páginas e as maiores seis páginas. Todas obras-primas. 
A capacidade de síntese desenvolvida por Moore nesse início de carreira foi um fator fundamental para outras grandes obras posteriores - quando finalmente teve condições de escrever quadrinhos mais longos, Moore soube valorizar cada página, produzindo quadrinhos nos quais a retirada de um único quadro faria a diferença.
As histórias variam entre o humor negro, a ficção científica e a fantasia.
Entre as melhores histórias eu destacaria a sequência de distorções temporais, em especial "Circuito", sobre uma moça que rouba um carro e descobre que ele é na verdade uma máquina do tempo. Em apenas 5 páginas, Moore constrói uma narrativa poderosa e surpreendente ao deixar o leitor fazer as descobertas ao mesmo tempo que a personagem.
Outro destaque é "Máquina do tempo", sobre um homem tentando retornar aos bons momentos do passado e modificar sua história. Nessa história podemos antever toda a poesia que Moore desfilaria em Monstro do Pântano.
 Enfim, se você também acha que são necessárias muitas páginas para contar uma boa história, compre o mais rápido possível Choques futuristas.

domingo, março 19, 2017

O uivo da górgona - parte 13


13
Era rapaz de não mais de 17 anos. Tinha cabelos negros e compridos, pouco abaixo dos ombros. Usavam uma camisa preta de banda de rock e calças jeans. Tinha perdido o tênis All Star de um dos pés, mas parecia não se preocupar com isso. Andava de uma maneira estranha, que seria engraçada em outra situação: mantinha os braços junto ao corpo, a cabeça balançando levemente, os cabelos indo e vindo, como se estivesse num show.
Ela parou na entrada, como um cachorro que fareja o ar, mas na verdade buscava algum som. Edgar rezou para que a menina não chorasse.
Uma embalagem de pilhas desabou da gôndola caída, chamando sua atenção. Ele andou lentamente até ela: agora, ao movimento de vai e vem acrescentara outro: um girar da cabeça de um lado para o outro, como uma câmera de vigilância.
Após um momento de indecisão, ele avançou pelo corredor no fim do qual estavam Edgar e Sofia.

Edgar fechou os olhos e rezou. 

Morreu Bernie Wrightson


Morreu o criador visual do Monstro do Pântano. Mais um mestre que se vai.

Como os judeus eram mostados nos filmes nazistas?

Os judeus eram as vítimas preferenciais da propaganda nazista. O objetivo dos filmes da época eram mostrar que eles eram desumanos e sua convivência com outros povos intolerável.
Todos deveriam odiar os judeus e aqueles que não achassem suficientes as explicações para tal ódio deveriam se sentir culpados. Os principais filmes a seguir esse raciocínio foram produzidos justamente na época em que se planejava a solução final.
O Rothschilds mostra como os judeus fizeram fortuna na época das guerras napoleônicas, enquanto o povo ficava na miséria. A figura do judeu por si só devia causar repulsa: tem mãos aduncas, rosto encarniçado, olhar sádico e vivia sempre às custas dos outros.
O Judeu eterno, de Hippler, um soldado da SS, não economiza nas tintas. Quando fala da sujeira dos judeus, aparecem moscas na tela. Quando se refere à forma como os judeus se espalharam pela Europa, mostra ratos andando por um mapa. Quando diz que os judeus são preguiçosos e só trabalham sobre pressão, mostra judeus descansando apoiados em pás.
Mas a obra-prima do cinema anti-semita é O judeu Suss, de Veit Harlan. Realizado com apuro técnico, bom roteiro e direção, o filme evitou a pecha de anti-semita por desejar ser visto como um filme histórico. No entanto, a película deturpa completamente a figura histórica de Süss Oppenheimer (1692-1738), conselheiro do duque Carlos Alexandre.
Na história real, Suss é preso após a morte do duque pelas corporações que haviam perdido poder durante a gestão de Carlos Alexandre.
Mas no filme de Harlan essa trama é escondia. Suss é simplesmente um judeu pérfido, que explora o povo e quer copular com a heroina loira, jovem e ariana.
Todas as cenas em que aparecem os judeus são sombrias, como se eles só agissem nas sombras. Quando ele é enforcado em praça pública e os judeus expulsos da cidade, o céu se abre e cai neve, como que limpando a sujeira e tomando de branco a cena. De fundo, uma música religiosa de rendenção.
O protagonista principal foi Ferdinand Marian, no papel de judeu sombrio e traiçoeiro, que representava um perigo físico e moral para a sociedade alemã, segundo a ideologia nazista. O papel feminino de destaque foi assumido por Kristina Söderbaum, a esposa de Harlan, que incorporava como nenhuma outra as supostas características da mulher ariana: loura, olhos azuis e raça nórdica.
O filme era considerado tão importante por Goebbels que seu diretor recebeu recursos ilimitados. Pôde até escolher figurantes judeus nos guetos.
O filme fez sucesso extraordinário. Não bastassem isso, ele era assistido obrigatoriamente por todos os soldados alemães nos campos de concentração, preparando os soldados para o extermínio de judeus.

Seu diretor chegou a ser processado no pós-guerra, acusado de crime contra a humanidade. Seu filme foi proibido, mas ele conseguiu ser absolvido com o argumento de o filme tinha sido desfigurado por Goebbels. 

sábado, março 18, 2017

Borges sensacionalista


Infâmia, segundo o dicionário: ação ou ato infame. Desonra, ignômia, torpeza.

É justamente casos de desonra, ignômia e torpreza que Jorge Luis Borges pretende coletar no livro “História Universal da Infâmia”, relançado este ano pela editora Globo.

A origem do volume remonta a 1933, quando Natalio Botana, para escândalo dos jornais sérios, lançou o periódico “Crítica”, de orientação sensacionalista. Como os concorrentes tinham seus cadernos literários, o Crítica lançou a revista Multicolor de los Sábados.

A revista, belamente ilustrada, misturava literatura com jornalismo marrom na tentativa de agradar ao paladar da massa.

Borges, convidado a colaborar, teve de adequar sua prosa a essa demanda. O resultado foi uma mistura de jornalismo com literatura, de fatos reais com imaginários, ao estilo do que fazia Edgar Allan Poe.

História universal da Infâmia reúne histórias de ladrões, piratas, assassinos e mentirosos. Mas não se engane: Borges consegue fazer dessas histórias, típicas do jornalismo marrom (que um intelectual brasileiro definiu muito bem com a frase “se espremer sai sangue”) verdadeiras obras de arte da literatura do século XX.

As histórias prendem o leitor pelo inesperado.

É o que ocorre, por exemplo, com “O Atroz Redentor Lazarus Morell”. Morell era um pilantra, líder de uma quadrilha que estendia sua atuação por vários estados dos EUA no século XVIII. Sua riqueza vinha de um estratagema simples: ele e seus comparsas convenciam os negros a fugirem das fazendas e lhes providenciavam os meios para a fuga. Quando o negro fugia, ele o pegava e vendia para outro fazendeiro. Era uma mina de ouro.

Morell era tão infame que costumava fazer pregações religiosas que entretiam toda a população de uma cidade enquanto seus comparsas roubavam os cavalos da audiência.

Outra história absolutamente inesperada e que dá o tom do volume é “O Impostor Inverossímil Tom Castro”.

Em 1854 naufragou no Atlântico o vapor Mermaid, que ia do Rio de Janeiro a Liverpool. Entre seus passageiros estava o militar inglês Roger Charles Tichborne. A mãe, recusando-se a acreditar na morte do filho, passou a publicar nos principais jornais do mundo anúncios pedindo informaçòes sobre o mesmo.

Tom Castro, um marinheiro inglês filho de açougueiro resolveu se passar por Tichborne. Não poderia existir duas pessoas mais diferentes. Enquanto Tichborne era alto, magro, tez morena, cabelo negro muito liso, e falava com sotaque francês, Tom de castro era baixo, gordo, sardento, cabelos encaracolados castanhos e não falava uma vírgula de francês.

Ainda assim, Castro conseguiu enganar a mãe do militar e grande parte da sociedade inglesa da época. O argumento é que a diferença entre os dois era tão grande que ninguém seria tão doido de se passar por outro sem nem ao menos tentar alguma alteração física. Portanto, aquela criatura completamente diferente só poderia mesmo ser Tichborne mudado pelos ares do Brasil.

Histórias como essa triscam no burlesco. Outras são impressionantes, como “O Tintureiro Mascarado Hakin de Merv”. Nela, um profeta aparece com uma cabeça de boi cobrindo o rosto e argumenta que foi visitado pelo anjo Gabriel, que lhe alterou o rosto de tal forma 
que, quem o visse ficava cego com a beleza divina do mesmo.

Hakin arrebanha milhares de fiéis, cria para si um harém de 100 belas mulheres cegas e coloca em perigo o califado.

A cena em que ele é desmascarado está certamente entre as mais chocantes da literatura universal.

Borges acrescenta ao livro um índice de fontes bibliográficas. Mas apenas para enganar o leitor. A fonte do conto sobre o falso profeta simplesmente não existe, dando a entender que Borges inventou a história.

Essa, aliás, era a principal característica de Borges. Ele tinha intenção de fazer o leitor confudir realidade com ficção no que ficou, mais tarde conhecido como realismo fantástico.

Vale destacar nessa edição o cuidado gráfico que a editora Globo dispensou ao volume. O formato, menos largo que o normal, dá uma elegância indiscutível ao livro. Além disso, a capa traz uma ilustração de Will Eisner, um dos maiores desenhistas de histórias em quadrinhos de todos os tempos. Não há como passar despercebido na livraria. “História Universal da Infâmia”salta ao olhos e chama nossa atenção no meio dos outros livros.

Um cuidado editorial que prestigia a genialidade de Borges, considerado por muitos, inclusive o autor desta resenha, o mais importante escritor do século passado.

Para os leitores brasileiros o livro tem uma atração a mais: o conto “A História dos Dois que Sonharam” que inspirou Paulo Coelho a escrever “O Alquimista”. 

Qual era a importância do cinema para os nazistas?

Depois dos comícios, os filmes eram a principal forma de divulgação dos ideiais nazistas. Durante os 12 anos do regime, foram produzidos 1350 longa-metragens. Muitos eram comédias românticas, operetas e  filmes de costumes, mas todos tinham algum tipo de conteúdo ideológico, fosse num diálogio ou numa imagem sugestiva. Desses, 96 foram produzidos diretamente pelo Ministério da Propaganda, criado em 1933 e chefiado por Goebells.
Um dos primeiros exemplares dessas películas é O SA Brand (de 1933), que conta a história de um menino pobre, membro da juventude hitlerista e protegido de um SA. Vítima das batalhas entre nazistas e comunistas, ele balbucia, antes de morrer: “Agora vou para o meu fuhrer”.
Um dos maiores sucessos do cinema nazista foi O jovem hitlerista Quex. Quex é um rapaz alemão pobre. Ele é levado a um piquinique comunista, mas se assusta com a libertinagem do ambiente. Enojado, ele ouve o som de uma marcha militar e, extasiado, resolve descobrir de onde vem a música e descobre um grupo nazista. Em casa, ele repete para a mãe a música, mas é surpreendido pelo pai, um alcoolatra mal-carater, que surra o menino para obrigá-lo a cantar a Internacional Comunista. Quem o protege da brutalidade do pai e dos comunistas são seus amigos nazistas. O rapaz acaba perdendo a mãe, mas o pai se regenera, deixa de beber e torna-se nazista. Finalmente, Quex é assassinado por comunistas quando panfletava em um bairro pobre. Antes de morrer, ele imagina uma multidão de rapazes uniformizados como membros da juventude hitlerista.
Ele agoniza cantando o hino da juventude nazista, num êxtase político.

Nos filmes nazistas da época, os alemães eram generosos e lutam contra os brutos russos e os covardes ingleses. Aliás, um dos filmes, sobre a Irlanda, diz que os ingleses colocam o povo local em campos de concentração. Tudo aquilo que existia na Alemanha da época (tortura, genocídios, perseguições políticas, campos de concentração) é mostrado como sendo algo que está sendo feito pelo inimigo. 

É verdade que Hitler era vegetariano?

Vários historiadores afirmam que sim. Janet Barkas, no livro "The Vegetable Passion" (A Paixão Vegetal) e Colin Spencer no livro "The Heretics Feast" (O Banquete dos  Heréticos), apóiam essa idéia. Sabe-se que Hitler foi colocado sob dieta vegetariana pelos médicos como uma tentativa de curar sua flatulência e outros problemas estomacais.
Entrentato, biógrafos do ditador, como Albert Speer, Robert Payne, John Toland, e outros falam da preferência de Hitler pelas salsichas de presunto e carnes defumadas.
Dione Lucas era diretamente responsável pela cozinha de Hitler em Hamburgo no final da década de 1930. E ela afirma, no Livro das receitas da escola de culinária fina, que o prato favorito do Fuhrer era squab recheado (um prato feito com filhote de pombo domésticado): "Eu não pretendo diminuir seu apetite pelo Squab recheado, mas você pode se interessar em saber que ele era um prato favorito do Sr. Hitler, que jantava no hotel frequentemente." .
Apesar da dieta proposta pelos médicos,  a maioria dos autores diz que Hitler os tapeava comendo carne de tempos em tempos. Aparentemente, a fama de que ele era um vegetariano convicto se deve a Goebbels, ministro da propaganda, que percebeu aí uma oportunidade de mostrá-lo como santo.

Idependente de ser vegetariano ou não, sabe-se que ele adorava doces, se empanturrava de chocolate e comia porções enormes de bolo. 

O uivo da górgona - parte 12


12
Pareceu uma eternidade, como se o tempo tivesse parado ou fosse um filme em câmera lenta. Jonas se virou para eles e fez um gesto para que voltassem. Edgar levou alguns segundos para obedecer, mas antes olhou para a rua.
Um zumbi solitário estava lá. Parecia perdido, como se sentisse a ausência da solidão. Olhava para o outro lado e parecia não tê-los percebido.
Edgar segurou a menina pela mão e a puxou para o fundo da mercearia. Estava quase de volta ao local onde se escondera antes, entre os salgadinhos e os refrigerantes, quando ouviu um barulho atrás de si. Girou a cabeça e olhou por cima dos ombros. Jonas tinha encostado em uma gôndola. Ela se manteve num movimento instável e finalmente caiu, com um estrondo.
(oh, não, barulho os chama como imã)
Ainda como se estivesse em câmera lenta, ele se escondeu no mesmo local de antes. Olhou em volta e não encontrou Jonas.

Foi quando o zumbi entrou. 

sexta-feira, março 17, 2017

Blueberry


O faroeste sempre foi um gênero popular na Europa, com vários personagens e vários tipos de abordagens. Mas, no meio de tantos heróis, um se destacou e se tornou um verdadeiro clássico: trata-se de Blueberry, criação do roteirista Jean-Michel Charlier em dupla com o desenhista Jean Giraud, que posteriormente viria a assinar Moebius.
     Blueberry revolucionou ao mostrar um personagem que foge completamente do estereótipo do cowboy clássico: ele é um beberrão, jogador inveterado e indisciplinado. Em outra palavras: um anti-herói. Além disso, constantemente, Blueberry toma partido em favor do índios, uma novidade total, já que até então, com raras exceções, os índios eram mostrados como vilões.
     Além disso, as histórias de Blueberry mostravam um personagem que evoluía e se tornava mais experiente com o tempo. Aliás, essa cronologia era mostrada de forma não-linear, pois a juventude do personagem só foi contada depois que ele já era famoso.
     Jean-Michel Charlier, o roteirista, é uma verdadeira lenda nos quadrinhos franco-belgas. Aos 23 anos ele abandonou o curso de Direito para se dedicar aos quadrinhos. Começou escrevendo aventuras do aviador americano Buck Danny para a revista Spirou, em parceria com o também belga Victor Hubinon. Em 1959, junto com René Goscinny e Albert Uderzo, fundou a revista Pilote, posteriormente comprada pela editora Dargaud. Para o traço de Uderzo, criou os aviadores Tangui e Laverdure. Para Hubinon criou a série juvenil Barba Ruiva, sobre um garoto filho do famoso pirata.
     Jean-Giraud é, talvez, o desenhista europeu mais famoso de todos os tempos. Ele começou sua carreira como assistente de Jijé, criador do cowboy Jerry Spring. Seu primeiro trabalho importante foi justamente o tenente Blueberry. Inicialmente imitando Jijé, ele foi aos poucos criando um traço próprio, extremamente detalhista e original. Mas mesmo nas pranchas iniciais de Blueberry já é possível perceber que ele tinha um talento incomparável. Seu detalhismo chegava ao ponto de, ao desenhar um saloon, colocar dezenas de pessoas em posições diferentes. Na década de 1970, Jean-Giroud mudou seu nome para Moebius, juntou-se com outros desenhistas e roteiristas e revolucionou os quadrinhos franceses com histórias surrealistas de ficção-científica e fantasia para a revista Metal Pesado.
     A junção desses dois mestres não poderia resultar em algo que não fosse uma obra-prima. Embora outros cowboys (como tex) possam ser mais famosos, Blueberry é considerado pela maioria dos críticos como o ponto alto do gênero (honra que é disputada apenas com o quadrinho italiano Ken Parker).
     Charlier fez uma verdadeira investigação sobre a época, retratando de maneira muito detalhista o cotidiano do velho oeste. Além disso, ele introduziu fatos e personagens reais em sua história, num recurso característico da pós-modernidade que seria imitado posteriormente por outros autores.

     Se por um lado, Charlier teve uma grande preocupação histórica, ele também não descuidou da aventura. Como as aventuras de Blueberry eram publicada em seminários antes de serem juntadas num álbum, o roteirista colocava um gancho de suspense no final de cada página, deixando o leitor curioso para ler o resto. Essa técnica virou quase que um padrão no quadrinho europeu.