segunda-feira, setembro 24, 2018

Sebos

Sobre sebos, confesso que sou viciado neles. Como venho de uma família com pouco dinheiro, que pouco valor dava aos livros, só comecei a ler regularmente depois que descobri a biblioteca pública e os sebos com seus preços convidativos.

O primeiro sebo que descobri não era propriamente um sebo. Era um cambista do jogo do bicho, que vendia revistas usadas, no entroncamento, em Belém. Com ele comprei uma grande quantidade de revistas em quadrinhos Heróis da TV, que eu revendia a um colega de turma, colecionador, ganhando o suficiente para comprar minhas próprias revistas.

Algum tempo depois mudamos para a Cidade Nova, também em Belém e lá descobri um sebo que merecia o nome (inclusive em termos de sujeira), mas que tinha os melhores preços que já vi num estabelecimento do tipo. Nessa época percebi que tinha uma espécie de faro para descobrir sebos. Geralmente eles ficam perto de feiras ou de rodoviárias. Isso os sebos populares, pois os sebos mais “chiques” costumam ficar em casas antigas de bairros do centro.

Ao mudar para Curitiba tive contato com um novo tipo de sebo que não conhecia: o sebo organizado. Havia alguns que até tinham o catálogo em computador. Foi lá que vi uma cena que me pareceu surrealista: uma mulher chegar com uma lista de livros perguntando quais tinha. Pode ser prático, mas não tem o mesmo charme de procurar item a item nas prateleiras. O interessante nos sebos é a incrível capacidade deles nos surpreenderem. As livrarias são um espaço de ordem, de determinação. Uma ou duas visitas a uma livraria são o suficiente para entende-la, para saber o que ela tem. Um sebo não. Em um sebo bom, como o são os de Curitiba, é possível ir todos os dias durante todo um mês e, a cada dia, descobrir uma novidade, uma obra-prima escondida. Sem falar que os bons sebos costumam ter alta rotação. Sempre está chegando novidades.

Ir aos sebos para mim é tão relaxante que passei a considerar uma terapia, capaz de curar depressão, tristeza ou qualquer outro mal do espírito. Sempre que eu não estava bem, visitava um sebo e saía de lá feliz. Como é meio complicado visitar diariamente um sebo sem comprar nada, eu costumava comprar a cada dia uma ou duas obras. Havia uma ótima coleção sobre história do Brasil, com mais de 100 exemplares. Comprei um a um. Hoje sei que essa não é exatamente uma ótima estratégia, pois comprando muito é quase certo que haja desconto. Mas para mim, só o fato de estar ali, cercado de livros, já era para mim um prazer.

Jorge Luís Borges dizia que sempre imaginou que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca. Para mim, o paraíso deve ser como um sebo. A biblioteca, embora seja cheia de livros, é um espaço de ordem e determinação. Os sebos, ao contrário, são informação em estado puro, pura indeterminação.

Quando mudei para Macapá, o que eu mais sentia falta era de um sebo. Vivia falando em ir embora. Só me aquietei quando começaram a surgir os primeiros sebos. Na feira do Buritizal surgiu um rapaz vendendo os mais variados tipos de revistas, incluindo vários exemplares antigos da revista Heróis da TV, justamente as que eu comprava para revender ao meu colega de escola, quando morava em Belém. Esse não durou muito, mas logo depois surgiu o sebo do Ramos, na rua Tiradentes. No começo era um espaço mínimo, com poucos livros, nenhum quadrinho, e muitas revistas Veja antigas. Cheguei a comprar algumas Veja, só para incentivar. 
O  Ramos nunca foi a um sebo e não sabia direito como o negócio funcionava. Um dia, quando ele já tinha mais variedade, alguém chegou para ele e disse que as revistas em quadrinhos podiam se tornar raridades e valor milhões. O que ele fez? Pegou os gibis que tinha em estoque e aumentou o valor para 10 vezes o de banca. Assim, uma revista do Batman, da abril, em formatinho, que na banca custava R$ 2,50, ele passou a vender a R$ 25,00. Claro, não apareceu nenhum colecionador interessado em comprar uma revista que ainda podia ser achada nas bancas, danificadas pelo selo com o preço, por um preço tão alto.

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