quinta-feira, agosto 10, 2017

Steve Rude



Xuxulu





Autobiografia musical

Até os 14 anos mais ou menos eu costumava dizer que não gostava de música. As referências que eu tinha a respeito eram os bregas que se ouvia em casa... e Erasmo Carlos, nos dias muito eruditos.
Acho que tinha também um disco do Roberto Carlos, do início da fase decadente. Meus dois tios e meu padrastro eram caminhoneiros e por isso compraram o disco que tinha o famoso refrão: ¨No volante eu penso nela/ Já pintei no pára-choque um coração e nome dela¨.
Então eu não gostava de música. Até que um dia estava na casa de um amigo e ele me chamou no corredor para ouvir uma música que tocava no rádio de sua irmã: era Eduardo e Mônica, do Legião Urbana. A canção me arrebatou como se eu estivesse passando por um êxtase estético.
Eu nunca havia ouvido algo que falasse de maneira tão singela e inteligente do que sentíamos. Nós éramos como o Eduardo, tão indecisos sobre a vida e sobre todas as outras coisas. A canção fez tanto sucesso entre nós que costumávamos cantá-la na frente do colégio, antes da campainha tocar.


Com o tempo fui conhecendo outras músicas do Legião Urbana e aprendendo que as músicas podiam expressar o que sentíamos, fosse alegria ou tristeza.
Um dia minha namorada (e atual esposa) gravou para mim uma fita com um mix de músicas que achava legais. No final da fita havia três músicas de Raul Seixas. O restante, daquele lado, era Milton Nascimento. Devolvi a fita e pedi para gravar o lado todo com o Raulzito. Eu o descobrira algum tempo antes, numa oficina de bicicletas. O pneu furou e, sem ter o que fazer, fiquei lá, ouvindo o que tocava no som da oficina. Era justamente Ouro de Tolo. Fiquei impressionado ao perceber que, apesar de muito popular, a música tinha uma letra genial, uma bela reflexão filosófica sobre o sentido da vida. A letra era a personificação do que deveria ser a atitude de um artista:

“Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego
Sou dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz porque consegui comprar um corcel 73

Eu devia estar alegre e satisfeito por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos aqui na cidade maravilhosa
Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado”

Muito tempo depois, quando tive contato com o livro O Mundo de Sofia, lembrei de Rauzito ao ler a descrição do maravilhamento e inquietude diante do mundo que deveriam caracterizar o filósofo. Estava tudo ali, em Ouro de Tolo.Raul Seixas me mostrou que músicas podiam falar de qualquer assunto, de filosofia à política e ainda assim serem populares. Mostrou também que a popularidade não significa falta de qualidade.Aos 19 anos eu já conhecia algo de música, mas ainda não havia sido apresentado aos Beatles. Um dia uma professora de redação jornalística me convidou para ir na casa dela. Chegando lá me deparei com uma enorme coleção de CDs e LPs. Eu nunca tinha visto um CD. "Escolhe um disco", ela encorajou. Escolhi Sgt Peppers, dos Beatles, até hoje o meu disco predileto do quarteto de Liverpoll.Nunca poderia imaginar o êxtase que me arrebatou ao ouvir as músicas. Era como se, ao embalo de Lucy in The Sky With Diamonds, eu viajasse nos acordes. 

Legião Urbana e Raul Seixas eram bons, mas Beatles eram divindades que compunham músicas com poder sobrenatural.Lembro que pouco tempo depois conversei com um amigo sobre o assunto e ele riu: "Agora que você descobriu os Beatles?!". Antes tarde do que nunca.Juntei o pouco dinheirinho que tinha e comprei, em loja, os três grandes discos do quarteto: Sgt. Peppers, Revolver e Magical Mistery Tour em fita cassete (sim, naquela época vendia-se discos em fitas cassete).
Nessa mesma época, descobri Pink Floyd. Quem me apresentou essa banda de rock progressivo foi o meu compadre Bené Nascimento. Hoje ele assina Joe Bennett e desenha histórias para a DC Comics, mas na época ele era só um desenhista despontando no mercado nacional e meu principal parceiro em histórias de terror. O tom depressivo das músicas de Pink Floyd combinava perfeitamente com o horror denso e psicológico que fazíamos. Combinou tanto que virou quase uma obsessão. Ouvíamos Pink Floyd de manhã, tarde e noite.

Em 1993 eu me mudei para Curitiba e sofri com a frieza do povo local. Curtibanos são muito simpáticos, mas também pouco calorosos. Para quem vinha de Belém do Pará (um lugar onde se faz amizade no ônibus), foi um choque. Nessa difícil adaptação, ajudou muito uma música: O Mundo ainda não está pronto, do Pato Fu.
Quem acha que o mundo é tudo na vidaInfelizmente não sabe de nadaInclusive eu também não seiInclusive eu também não seiMas pelo menos eu estou, eu estouEu estou aqui gritando:AAAHHHHH, eu estou aqui gritando
Uma letra simples, mas que permitia várias interpretações. O grito poderia ser o meu grito diante da nova situação.

Nessa época, claro, eu desprezava Roberto Carlos. Brega era o mínimo a dizer do homem que, na minha infância, bradava um refrão para caminhoneiros. Então, um dia, quando ainda morava em Curitiba, ouvi uma versão da música “Todos estão surdos” cantada por Chico Science e me surpreendi. A letra era muito boa, filosófica até. Não parecia o mesmo Roberto Carlos que fazia músicas para gordinhas ou mulheres de óculos.
Outro dia, um cabeludo falou:
"Não importam os motivos da guerra
A paz ainda é mais importante que eles".
Esta frase vive nos cabelos encaracolados
Das cucas maravilhosas
Mas se perdeu no labirinto
Dos pensamentos poluídos pela falta de amor.
Muita gente não ouviu porque não quis ouvir
Eles estão surdos!

Isso me levou a pesquisar melhor a discografia do “rei”. Comecei por um disco mais antigo, da década de 1960, Roberto Carlos em ritmo de aventura. As letras não eram geniais, mas a música era ótima. Um bom rock. Aí fui comprando os discos na sequência. Quem for ouvindo a obra de Roberto Carlos cronologicamente descobrirá que o cantor passou por uma evolução óbvia. Cada disco da década de 1970 parece ser melhor do que o outro. O som ficou menos rock, mas as letras ficaram mais reflexivas. Como as letras sempre foram o que mais me chamou atenção, o discos de RC da década de 1970 eram um profundo campo de descobertas.
Havia letras com narrativas paralelas, como em “Rotina”, em que acompanhamos o dia-a-dia de um casal apaixonado:
Estou chegando para mais um diaDe trabalho que começaEnquanto lá em casa ela despertaPra rotina do seu diaEu quase posso ver a água mornaA deslizar no corpo delaEm gotas coloridas pela luzQue vem do vidro da janela
E havia letras com fundo psicológico, como em Traumas:
Minha mulher em certa noiteAo ver meu sono estremecido
Falou que os pesadelos sãoAlgum problema adormecido
Durante o dia a gente tentaCom sorrisos disfarçar
Alguma coisa que na almaConseguimos sufocar

Roberto Carlos, na década de 1970, tornou-se um compositor reflexivo, com letras ricas em interpretação que vão muito além das obras mais famosas. Descobri-lo coincidiu justamente com um período em que eu mesmo me tornava mais reflexivo.
Como sempre, a boa música é aquela que expressa os sentimentos de quem a ouve.

quarta-feira, agosto 09, 2017

Por que os SS devolveram as braçadeiras num penico?


A SS sempre foi a menina dos olhos dos nazistas. Soldados treinados e muito fiéis a Hitler, eram a elite do exército nazista. A quarta divisão Panzer SS era a elite da elite. Em 1945 eles se introduziram como cunha no front ucraniano, uma tática usada com sucesso em outras ocasiões, mas não conseguiram rompê-la.
Hitler ficou tão furioso que ordenou que fossem retiradas as braçadeiras com seu nome do uniforme dos SS.
Os SS devolveram não só as braçadeiras, mas também as condecorações, dentro de penicos. Além das braçadeiras, foi também o braço de um dos soldados mortos, ainda portando a braçadeira.

A partir desse dia, Hitler começou a lamentar: “Agora até os meus SS me traíram!”.

A revista que deu origem aos Contos do Cargueiro Negro

 As histórias de piratas que deram origem aos Contos do cargueiro negro (o gibi que o garoto lê em Watchmen). Presente do amigo Antonio Eder.

A história secreta da Mulher Maravilha

A Mulher Maravilha é uma das personagens mais importantes do universo dos super-heróis. Junto com Batman e Super-homem, ela forma a tríade da DC Comics. Entretanto, enquanto vários outros personagens têm suas origens bem definidas e conhecidas, a Mulher Maravilha é um incógnita mesmo para fãs de quadrinhos. Poucos, por exemplo, sabem de sua ligação com o movimento feminista, com o detector de mentiras e com o bondage. Quase ninguém do meio sabe que seu criador era um psicólogo, criado de uma categorização psicológica atualmente redescoberta e de uso corrente em diversas áreas.
É com objetivo de clarear algumas dessas questões que Jill Lepore escreveu A história secreta da mulher maravilha, lançada este ano pela editora Best Seller.
Um dos grandes méritos do livro é conectar as histórias da fase de ouro da personagem com a história de vida de seu criador, com diversos exemplos tirados dos quadrinhos.
William Moulton Marston colocou tudo em sua personagem: o feminismo com o qual ele e suas esposas estavam envolvidos, seus desafetos (um professor serviu de modelo para um vilão) e até problemas de seus filhos, que eram resolvidos nas páginas dos gibis.
No início do século XX a situação da mulher era tal que um juiz declarara, em sentença, que uma mulher que não estivesse disposta a morrer de parto não deveria praticar sexo. O movimento feminista se destacou na luta pelo controle de natalidade. Mulheres chegavam a ser presas apenas por ensinarem outras mulheres métodos contraceptivos.
Nesse contexto, intimamente ligado a esse movimento, se estabelece o psicólogo William Moulton Marston, criador do detector de mentiras e autor do livro As emoções das pessoas normais, o primeiro a defender o homossexualismo como algo normal (“As pessoas têm que aprender que os componentes amorosos que existem dentro de si, que elas passaram a ver como anormais, são totalmente normais”).
Marston tinha uma família incomum: além de seu casamento convencional, tinha duas outras esposas. Uma delas era filha da primeira mulher a ser presa por defender o controle de natalidade. Nesse arranjo familiar incomum havia mais um elemento: o bondage, técnica sexual de imobilização com cordas ou correntes. Embora a autora afirme Marston não praticava bondage (um dos filhos, entrevistado por ela, disse que nunca viu nada disso em casa), é difícil acreditar que alguém tão apaixonado por tema ficasse apenas na teoria.
Além de psicólogo, Marston era também roteirista de cinema, tendo escrito diversos roteiros na época dos filmes mudos.
Apesar de suas qualificações e seu constante esforço de marketing pessoal, em determinado ponto ele não conseguia trabalho como professor (as cartas de recomendação, obrigatórias para conseguir emprego, eram identificadas com o mesmo código que se usava para homossexuais, provavelmente em razão de seu arranjo famíliar e preferências sexuais).
Quando, após um artigo escrito por sua esposa Olive para uma revista com sua opinião sobre os quadrinhos (ela escrevia como se fosse uma pessoa desconhecida que ia até ele tomar conselhos), ele foi convidado a participar do conselho editorial da DC e propôs a criação de uma personagem feminina, em oposição à grande quantidade de heróis masculinos da época. Mais que uma personagem feminina, seria uma personagem feminista.
A Mulher Maravilha foi uma junção de tudo. Seus braceletes era os braceletes usados por Olive (a esposa que escrevera o artigo), sua arma era uma corda e ela enfrentava vilões machistas que vociferavam contra o poder feminino e a participação cada vez maior da mulher na sociedade (em especial no período da II Guerra, em que as mulheres foram chamadas para ocupar os postos de trabalho, em substituição aos homens que haviam ido para a guerra) e havia sempre mulheres e mais mulheres amarradas ou acorrentadas.
A autora Jill Lepore investiga e esclarece todo o imaginário feminista que deu base para a personagem. Em uma história em que a Mulher Maravilha enfrenta o cartel do leite (um plano nazista para esfomear as crianças da américa), a heroína lidera uma passeata montada em um cavalo, da mesma forma que uma líder feminista havia feito em uma manifestação pelo sufrágio, em 1913.
A revista da personagem estava tão alinhada ao movimento feminista que havia uma sessão chamada “Mulheres maravilhas da história”, com histórias reais de mulheres que conseguiram grandes feitos e serviriam de exemplo para as leitoras.
A personagem chegou até mesmo a ser eleita presidente dos EUA (em uma história que se passava em um futuro distante).
Tudo mudou quando Marston morreu, em 1947.
A diretoria da DC colocou em seu lugar um roteirista manifestadamente machista, que odiava a personagem, Robert Kanigher. Quando tomou completamente as rédeas da heroína, encomendou ao novo desenhista uma capa em que a Mulher Maravilha, sorridente, tolinha, é carregada indefesa por Steve Trevor, que a ajuda a atravessar um riacho. A personagem forte, que se tornara presidente dos EUA, agora era uma mulher indefesa e precisava desesperadamente de um marido. A sessão sobre Mulheres Maravilhas da história se transformou em uma coluna sobre casamento. Na década de 1960, tiraram-lhe os poderes e o uniforme, descaracterizando completamente a personagem.
Mesmo na década de 1970, em que a heroína foi redescoberta pelo movimento feminista, a DC voltou a colocar como roteirista e editor Kanigher, que marcou o fato matando, em uma história, a primeira editora da personagem, que na época era favorável à volta da personagem às suas origens.
O livro de Lepore tem méritos inegáveis. O principal é a interligação contínua entre as histórias da personagem e a vida de seu criador. Um aspecto negativo provavelmente é o destaque excessivo à abordagem feminista, deixando outros aspectos sem maior destaque – entre eles os bastidores dos quadrinhos da era de ouro (ela nem mesmo cita a relação entre Marston e outros criadores de quadrinhos da época). Também a questão do bondage é abordada por cima, e apenas por seu reflexo nas histórias. Ainda assim, é um livro importante para entender essa que é uma das personagens mais importantes dos quadrinhos mundiais. 

terça-feira, agosto 08, 2017

Aberlardo e Heloísa

Pedro Abelardo foi um dos mais importantes filósofos da Idade Média. Diante da questão entre realistas (que, influenciados por Platão, acreditavam que as palavras universais, como "homem", tinham existência real) e nominalistas (que acreditavam que os universais eram apenas nomes, não tendo existência nem na natureza, nem na mente), ele apresentou um terceiro caminho, o conceitualismo, que sintetizava elementos dos dois e pregava que os universais são conteúdos da mente derivadas das coisas. Com suas ideias e novas formas de ensinar, ele criou a base do ensino universitário. Mas, para além de suas ideias, Abelardo ficou mais conhecido por ter protagonizado uma das mais famosas histórias de amor de todos os tempos, influenciando o que viria a ser o romantismo. 

Depois de passar por diversas cidades e ser perseguido por sua genialidade e espírito rebelde, Abelardo chegou em Paris em 1113 e começou a lecionar na escola de Notre Dame. Nessa época já era um professor famoso e suas aulas eram concorridas. Sua metodologia revolucionária quebrava com a metodologia platônica, maravilhando os alunos com o jogo de argumentação. 

Foi nesse período que ele conheceu uma jovem de 17 anos que chamava a atenção de todos por sua beleza e inteligência, Heloísa. Interessado em conquistar a moça, o filósofo se aproximou do tio (o cônego Fulberto), com a qual ela vivia e se ofereceu para ensinar à moça gratuitamente, em troca de moradia na casa. O cônego não só aceitou a oferta, como confiou a sobrinha inteiramente à orientação do filósofo, que poderia, inclusive, castigá-la severamente caso esta não se aplicasse nos estudos. 

Inicialmente o tio acompanhava os dois em suas lições, que geralmente aconteciam à noite, quando o filósofo voltava de suas aulas, mas depois, confiando na fama de casto de Abelardo, passou a deixa-los a sós. "Assim, com a desculpa do ensino, nós nos entregávamos inteiramente ao amor, e o estudo da lição nos proporcionava as secretas intimidades que o amor desejava. Enquanto os livros ficavam abertos, introduziam-se mais palavras de amor do que a respeito da lição, e havia mais beijos do que sentenças; minhas mãos transportavam-se mais vezes aos seios do que para os livros e mais frequentemente o amor se refletia nos olhos do que a lição os dirigia para o texto", escreveu Abelardo no livro A história das minhas calamidades. O casal chegou até mesmo a simular surras corretivas para dissimular as atividades românticas e não levantar suspeitas. 

Então começa a tragédia: Fulberto flagra o casal e expulsa Abelardo de casa. Mas nessa época Heloísa já estava grávida. Ainda tremendamente apaixonado por ela, Abelardo a tira às escondidas da casa do tio e a leva para sua terra natal, onde ela fica, na casa de uma irmã do filósofo, até dar à luz ao filho do casal, Astrolábio. 


Nesse meio tempo, Abelardo procura Fulberto e se oferece para se casar com a moça, desde que isso fosse mantido em segredo, a fim de que sua reputação não fosse prejudicada. 

Heloísa, no entanto, não concordava com o plano. Segundo ela, o casamento acabaria com a carreira do amado, pois, na época, acreditava-se que um verdadeiro filósofo deveria ser celibatário. Cícero, por exemplo, ao ser instado a casar com a irmã de Hírcio, respondeu que não podia consagrar-se igualmente a uma mulher e à filosofia. "Quem poderia, aplicando-se às meditações sagradas ou filosóficas, suportar o vagido das crianças, as cantarolas das amas que embalam e a multidão barulhenta da família?", indagava Heloísa. No final, o casal concordou com o casamento, desde que ele fosse totalmente secreto. Unidos pela benção nupcial, foram cada um para lado e se viam apenas às escondidas. O tio, envergonhado com a situação, passou a divulgar o casamento. 

Abelardo, para evitar o falatório, enviou Heloísa para um convento de monjas. Ultrajado, o tio arquitetou uma vingança que se tornaria célebre: mandou castrá-lo. Além da ferida, havia a vergonha: na época os eunucos eram considerados impuros e proibidos até mesmo de entrar nas igrejas. 

Ferido no corpo e na alma, humilhado, Abelardo internou-se no mosteiro de Saint-Denis, tornando-se um monge para o resto da vida. Heloísa, com apenas 20 anos, ingressou definitivamente no convento. Desde então, os dois nunca mais se viram, apenas trocaram cartas nas quais lamentavam a má sorte que os jogara naquela situação. 

Túmulo do casal></P> Túmulo do casal<BR><BR><BR><BR>
Os dois jamais deixaram de se amar, como atesta uma das cartas de Heloísa:
Túmulo de Abelardo e Heloísa no Cemitério Padre Lachaise.

Abelardo morreu em 1142, com 63 anos. Heloísa conseguiu que se construísse uma sepultura em sua homenagem. Quando ela morreu, em 1162, foi sepultada ao lado de seu amado. Conta-se que ao abrirem a sepultura de Abelardo para enterrar Heloísa, seu copro ainda estava conservado e se mantinha de braços abertos, como se esperasse a chegada de sua amada. Em 1817 os restos mortais dos dois amantes mais famosos da Idade Média foram levados para o cemitério do Padre Lachaise. 
A história dos dois deu origem a um filme, Em nome de Deus, de 1988, de Clive Donner.

Houve uma conspiração nazista para tomar o poder nos EUA?


Aparentemente havia sim, gente nos EUA pensando em tomar o poder para instalar um governo nazista. Em 1944, foram julgados 28 homens e duas mulheres por terem conspirado contra o governo norte-americano.
Os advogados de defesa alegaram que os réus simplesmente havia exercido seu direito constitucional à livre-opinião. Os réus disseminavam informações de que a causa das potências do Eixo era a da Justiça e que o governo e o congresso norte-americanos eram controaldos por comunistas e judeus.

Entre eles havia Joe McWilliams, apelidado de Fuhrer de mentira. Ele costumava fazer comícios em praça pública, em Nova York, louvando Hitler e condenando judeus.  Outro réu famoso era James True, criador do movimento América em Primeiro lugar, que inventara o quebra-cabeça, um cacetete duro para bater em comunistas e judeus, que tinha até versão feminina. 

Francesco Francavilla


segunda-feira, agosto 07, 2017

Vereadores de Curitiba do Escola sem partido denunciam projeto que usa quadrinhos em escola

Vereadores de Curitiba, ligados às igrejas evangélicas e capitaneados pelo vereador Thiago Ferro se revoltaram e acionaram o projeto Escola sem partido contra uma escola da cidade que fazia um movimento a favor da aceitação de crianças com deficiência. O projeto tinha imagens autorizadas por Maurício de Sousa. Entre outras atividades, as crianças cantariam a seguinte letra: 

Negro, branco, pardo ou amarelo
Alto, baixo, gordo ou magricelo
Moreno, loiro, careca ou cabeludo
Deficiente, cego, surdo ou mudo (…)
A gente é o que é
A gente é demais
A lista é imensa
Viva a diferença! 

Os vereadores denunciaram o caso à secretaria de educação de Curitiba. 
Para além do discurso contra a diversidade e aceitação das diferenças, o caso eco o preconceito contra os quadrinhos. O vereador Thiago Ferro teria tido tal reação se o projeto não envolvesse quadrinhos? 
Estaríamos diante de uma nova cruzada contra os quadrinhos como a que se viu nas décadas de 1950 e 1960 - época em que a leitura de quadrinhos era caso de polícia? 
Matéria do Diário do Paraná de 30 de junho de 1960. Estaríamos vivendo uma nova cruzada contra os quadrinhos? 
Saiba mais sobre esse incrível caso aqui

Quem foi o embaixador brasileiro que salvou judeus?


Luiz Martins de Souza Dantas foi um herói, reconhecido pelo Museu do Holocausto como um justo entre as nações (denominação dada aos que arriscaram suas vidas para ajudar vítimas do Holocausto). Ele concedeu vistos diplomáticos a centenas de judeus e outras pessoas perseguidas pelo nazismo, permitindo que fugissem para o Brasil.
Souza Dantas agia ilegalmente, atuando contra a proibição do governo de Getúlio Vargas, que proibia a concessão de passaportes a judeus. Para isso ele tomava o cuidado de encobrir as evidências de eram judeus, muitas vezes falsificando a data dos vistos, para que fossem anteriores à proibição.
Existem controvérsias sobre o número real de pessoas salvas por ele, mas comprovadamente 475 perseguidas pelos nazistas conseguiram fugir para o Brasil graças a ele.
O embaixador sabia que estava agindo contra a lei, mas continuava a emitir os vistos. Ele foi várias vezes advertido pelo Ministério das Relações Exteriores e ficou numa espécie de prisão domiciliar alemã por 14 meses. Além disso, escapou por pouco das penalidades de um inquérito administrativo aberto pessoalmente por Getúlio Vargas, em outubro de 1941. O processo só não foi até o fim porque, no ano seguinte, o Brasil cortaria relações com a Alemanha e Getúlio decidiu abafar o caso.
Entre as pesssoas salvas por Souza Dantas está o o ator e teatrólogo polonês Zbignew Ziembinski. 

A história do Schindler brasileiro foi resgatada no livro Quixote nas Trevas, de  Fábio Koifman, diretor de Pesquisas da Universidade Estácio de Sá. Ele acredita que Souza Dantas salvou mais de  mil pessoas. 

John Cassaday



domingo, agosto 06, 2017

Quem foi Julius Streicher?


Julius Streicher foi um militar e jornalista nazista, cujo jornal, o Der Sturner seria um dos principais elementos da máquina de propaganda hitlerista e de difusão do anti-semitismo. Ele chegou a publicar até mesmo um livro infantil, O cogumelo venenoso, como forma de difundir o ódio aos judeus entre as crianças germânicas.
Streicher nasceu em Augsburgo, na Baviera. Era filho de um professor católico. Ele foi professor primário até se incorporar ao exército alemão. Durante a primeira guerra, recebeU a cruz de ferro.
Quando a guerra acabou ele se envolveu com o anti-semitismo até que, em 1919 ajudou a criar a Wistrich, uma organização anti-semita que depois iria se integrar ao partido Nazi.  
Em 1923 criou o jornal Der Sturmer, que seria um dos principais veículos das idéias racistas do III Reich. O jornal chegou a ter uma tiragem de 800 mil exemplares.
As matérias do jornal difundiam preconceito, como os de que os judeus eram responsáveis pela depressão, ou que os judeus eram cafetões, que controlavam 90% das prostitutas alemãs.
Sua postura anti-semita fez com que ele se tornasse amigo de Hitler, amizade que iria continuar mesmo depois de uma briga com Hermann Goering por causa de matérias publicadas em seu jornal.

Quando acabou a guerra, Streicher foi preso e condenado à morte. Suas últimas palavras foram: "Heil Hitler".

sábado, agosto 05, 2017

O que é Maus?

Maus, a história de um sobrevivente é a melhor história em quadrinhos já produzida sobre o holocausto. De autoria de Art Spielgman, o livro conta a história do pai do autor, um judeu polonês sobrevivente do campo de Auschwitz.

O livro fala da relação complicada entre pai e filho e como os efeitos psicológicos da guerra repercutiram por anos.

O livro, além da sinceridade absoluta, se destaca pelo ótimo tratamento gráfico, com suásticas avançando como sombras sobre os personagens judeus. A representação dos povos, embora use o antopormofismo (animais para representar seres humanos), um recurso já clássico nos quadrinhos e nos desenhos animados, o faz de forma a destacar a mensagem do autor e ressaltar o clima opressor do período nazista.

Assim, os alemães são representados como gatos e os judeus como ratos. Os americanos são cachorros, os suecos carneiros, os ciganos traças. A representação evoca a propaganda nazista, que, de fato retratava os judeus como ratos e os poloneses como porcos. Era também comum que os nazistas se referissem aos povos indesejados como insetos.

Sem ser melodramática, Maus mostrou e analisou a realidade dos judeus perseguidos pelos alemães, elevando as histórias em quadrinhos a um patamar jornalístico. Tanto que, em 1992, a graphic novel ganhou o Prêmio Especial Pulitzer.

Grande parte do livro foi publicado em série na revista RAW, editada por Spiegelman. Foi publicado no Brasil em duas partes pela editora Brasiliense. Recentemente ganhou uma versão integrada pela editora Companhia das Letras

sexta-feira, agosto 04, 2017

O super-homem é judeu?


Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler, dizia que "Super-Homem é judeu", rebatendo a propaganda aliada feita pelos quadrinhos norte-americanos da época. Referia-se também ao fato de que os dois criadores do personagens eram o roteirista Jerry Siegel e o desenhista Joe Shuster, ambos judeus. Mas será que o personagem é realmente judeu?
Uma leitura literal de sua história não permite esse tipo de interpretação. Afinal, o personagem é um alienígena, enviado à terra ainda bebê e que, no trajeto, torna-se super-poderoso, vindo a ser o grande defensor da humanidade.
Entretanto, alguns pesquisadores têm destacado as semelhanças do mito super-heroiesco com o mito do messias judaico.
Os historiadores dizem que seria natural para dois judeus, num período turbulento, em que todo o povo de Israel era perseguido, criar um personagem que representasse o Messias. Para os judeus, o Messias é o enviado divino, que vem à terra para trazer uma era de paz e felicidade.
A primeira indicação de que o personagem estaria ligado a esse mito está no seu nome de batismo, Kal-el. A palavra El em hebraico que significa Deus.
Além disso, ele vem para a terra num foguete, ainda bebê, exilado de sua terra, da mesma forma que Moises é colocado em um cesto e lançado no rio para ser criado pelos egípcios.
Da mesma forma, o Super-homem, como os judeus da época, inclusive seus autores, é um homem sem terra, e é obrigado a esconder sua verdadeira identidade.

No livro Homens do Amanhã, Gerard Jones diz que “histórias de identidade secreta sempre encontraram eco entre os filhos de judeus imigrantes em virtude da necessidade de máscaras; máscaras que permitiam à pessoa tornar-se um americano moderno, consumidor das coisas do mundo. Mas, ao mesmo tempo permitem fazer parte de uma sociedade antiguíssima, ser um elo de uma velha cadeia sempre que ela estivesse no seio seguro daqueles que conheciam seu segredo. Um Clark Kent nas ruas e um super-homem em casa”.  

quinta-feira, agosto 03, 2017

A margem negra

Em 1989 eu era estudante de comunicação na Universidade Federal do Pará e procurava material para um trabalho sobre história em quadrinhos. Iríamos apresentar um seminário sobre meios de comunicação e o professor responsabilizara meu grupo para falar sobre HQs. Isso seria impensável em qualquer época que não fosse o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990. Antigamente por conta do enorme preconceito e atualmente porque os quadrinhos se tornaram um nicho, com baixas tiragens e vendas segmentadas. Mas na época todo mundo lia quadrinhos. Séries como V de Vingança eram lidas mensalmente e comentadas nos corredores da universidade da mesma forma como hoje se discute séries de grande impacto, como Guerra dos Tronos. 

Todo mundo estava falando de quadrinhos, mas precisávamos de algo diferente para a apresentação. Foi quando alguém me disse que no bloco de Artes, ao lado do nosso, havia um rapaz, Bené Nascimento, que trabalhava profissionalmente como desenhista, publicando em editoras de São Paulo. Um paraense fazendo quadrinhos era a novidade das novidades na época e fiz questão de entrevistá-lo. A entrevista, que deveria durar meia-hora, durou a tarde inteira (e os dois perdendo aula, claro) e, no final, um convite de Bené: que tal fazer um fanzine de quadrinhos? Assim surgiu "Crash!", o primeiro fanzine paraense dedicado exclusivamente aos quadrinhos.

Estávamos na produção do segundo número quando Bené chegou com os originais de uma belíssima história, toda arte-finalizada com pincel. Desenhada no estilo Hall Foster (autor do Príncipe Valente) a HQ mostrava um cavaleiro medieval livrando uma floresta de um demônio. 

- Gostou? - perguntou Bené. 

- Claro. 

- Quer colocar o texto? 

Aceitei na hora. "Floresta Negra" foi o primeiro roteiro que escrevi, um caminho bastante curioso, já que não era de fato um roteiro. Foi também o primeiro roteiro publicado, na saudosa revista Calafrio. 

A partir dali surgiu uma parceria que se estenderia por vários anos e mexeria com o jeito como se fazia quadrinhos de terror no Brasil. 

O quadrinho de terror ganhou grande força no Brasil na década de 1960, quando os gibis da editora EC Comics foram proibidos nos EUA. As revistas que publicavam essas histórias tinham grande público aqui e não havia mais material inédito. A solução foi recorrer aos quadrinistas brasileiros e assim surgiu a era de ouro do terror nacional. 

Mas a estrutura narrativa daquela época se tornou uma espécie de camisa de força para os artistas. Tirando alguns quadrinistas mais renomados mais renomados, como Mozart Couto, a maioria seguia os cânones do terror década de 60 que tinha inclusive algumas histórias básicas, como da pessoa má que apronta todas as malvadezas possíveis durante toda a HQ e no final os mortos voltam para se vingar. 


O quadrinho que fazíamos era bem diferente disso. Influenciados por séries como Sandman, Monstro do Pântano e Hellblazer (John Constantine) e autores como Alan Moore e Neil Gaiman, fazíamos um terror pesado. Bené caprichava nas vísceras e, da parte do roteiro, os personagens eram sempre perseguidos por traumas e pavores. Ou seja: era uma mistura de terror trash com horror psicológico. Em uma das histórias, por exemplo (uma adaptação do conto "O nariz", de Gógol), um personagem capaz de despertar os maiores medos das pessoas próximas entra num hospício e ocasiona um surto de pavores secretos. 

Essa abordagem visceral inicialmente não agradou os editores da época. A história "Puritano", por exemplo, está até hoje inédita: foi recusada por todos os editores da época, talvez por envolver questões religiosas. Uma das histórias, "Noir", só foi publicada porque a assistente de edição levou o original para o dono da editora e insistiu que saísse na revista. 


Mas com o tempo fomos ganhando público. Uma editora chegou até mesmo a encomendar uma revista com histórias nossas e de quadrinistas que tinham um estilo semelhante. Levamos semanas para conseguir reunir o material para fazer uma boneca (para que não é do meio editorial, boneca é uma prévia de como irá ficar a revista). Não aconteceu por causa da incapacidade de Bené de dizer não: um primo o visitou e pediu a boneca emprestada, levou para casa e... perdeu no ônibus! 

A maioria das revistas nas quais publicávamos eram vendidas ensacadas, o que nos criava um problema. Não havia o costume atual de indicar na capa as histórias e os autores, de modo que nunca sabíamos se a revista tinha história nossa ou não. Assim, tivemos a ideia de colocar uma margem negra nas páginas. Isso permitia pudéssemos perceber se havia histórias nossas sem nem mesmo abrir o volume. Inadvertidamente isso se tornou uma estratégia de marketing: os fãs da dupla passaram a também procurar as margens negras nas revistas. 

quarta-feira, agosto 02, 2017

Remember


Quem foi Martin Bormann?

Martin Bormann foi um importante oficial nazista, secretário pessoal de Adolf Hitler. Ele ingresou no partido nazista em 1924. De 1933 a 1941 foi chefe do grupo de comando da administração nazista.
Com o fim da guerra, desapareceu. Em 1946 foi condenado à morte à revelia pelo Tribunal de Nuremberg.  A partir de então, seu destino foi alvo de controvérsias.
Artur Axmann, ex-líder da Juventude Hitlerista, disse que seu corpo foi baleado e abandonado nos destroços de Berlim quando os oficiais nazistas deixavam a Chancelaria.
Antony Beevor, um dos mais importantes historiadores sobre a II Guerra, concorda com a versão de Axmann.
No entanto, o caçador de nazistas Simon Wiesenthal acreditava que Bormann havia escapado de Berlim usando um uniforme de soldado raso e se refugiado na América do Sul.

Em 1973, durante escavações subterrâneas em Berlim, foi achado um corpo e identificado como sendo de Bormann. A localização conferia com a indicada por Axmann. O pesquisador Joachim Fest afirmou que aquele é o corpo do oficial nazista, mas um teste de DNA só foi realizado em 1998, a pedido da Promotoria Pública. O resultado do exame confirmou a opinião de Fest. 

terça-feira, agosto 01, 2017

A jornada do herói

Publicado em 1949, O herói das mil faces foi um livro que revolucionou o estudo sobre as mitologias e religiões. Influenciado por Freud e Jung, Joseph Campbell vasculhou dezenas de culturas em busca de semelhanças entre seus mitos e os significados dos mesmos. O resultado foi esquematizado em doze passos, seguidos pela maioria dos protagonistas das narrativas analisadas. O resultado, além do impacto sobre o estudo mitológico, teve uma consequência inesperada: esse esquema foi usado por George Lucas para construir o roteiro de Guerra nas Estrelas. Esse fato deixou claro que o livro servia não apenas para explicar mitologias antigas, mas funcionava bem para analisar narrativas contemporâneas. 
O primeiro passo do herói é o chamado à aventura. O herói é tirado de sua vida pacata e sem perigos por algum acontecimento que o chama à ação. "Um erro - aparentemente um mero acaso - revela um mundo insuspeito, e o indivíduo entra numa relação de forças que não compreende, que estão acima dele". Esse chamado, que pode ser uma simples aventura, como em O Senhor dos Anéis, ou uma busca religiosa, esconde uma verdade sobre o despertar do eu. É também um momento de separação dos pais e de um novo renascimento, que levará à vida adulta. O agente que anuncia a aventura pode ser sombrio ou aterrorizador, ou uma figura misteriosa. Em Promethea, de Alan Moore (talvez a história em quadrinhos que melhor ecoa questões mitológicas), a heroína é atacada por um Smee, uma espécie de demônio, o que a faz se transformar na heroína mitológica. 


Vale lembrar que, de início, o herói recusa o chamado e esse é o segundo passo. Não por acaso, Robinson Crusoé inicia com uma preleção sobre os benefícios de uma vida de classe média, sem aventuras ou dramas. Segundo Campbell, "a recusa é essencialmente uma recusa a renunciar àquilo que a pessoa considera interesse próprio". Vale lembrar, em Guerra nas Estrelas, a indecisão de Luke em seguir a aventura ou permanecer na vida pacata com seus tios. Estes, aliás, o advertem sobre os perigos da jornada. Na maioria dos mitos, o herói adere ao chamado, seja Frodo sendo obrigado a fugir com o anel, seja Luke impulsionado a salvar a princesa, seja Robinson embarcando em um navio. Aceita a aventura, o herói geralmente conta com um auxílio sobrenatural. Os jovens de Caverna do Dragão, por exemplo, contam com o auxílio do misterioso Mestre do Magos. Esse guia fornece os amuletos e os conselhos que o herói precisa para continuar a jornada, mas, como o Mestre dos Magos, não interfere diretamente na aventura. Em Guerra nas Estrelas esse papel é exercido por Obi Wan Kenobi e posteriormente por Yoda. A jornada é do herói e é ele que deve seguir esse caminho. 
  


O quarto passo é a passagem pelo limiar. Em Promethea esse momento é retratado na ida da personagem para a Imatéria. Em Crônicas de Narnia é o guarda-roupa, que dá passagem a todo um universo mágico. "Além desses limites, estão as trevas, o desconhecido e o perigo, da mesma forma como, além do olhar paternal, há perigo para a criança", escreve Campbell. O limiar representa a ida para o inconsciente, repleto de libido e de ameaças de violência. EmPromethea, a protagonista, ao passar para a Imatéria, encontra uma chapeuzinho vermelho que segura uma arma, fala palavrões e um imenso e apavorante lobo. Todos imagens arquetípicas. 

O quinto passo é a entrada no ventre da baleia, as provações e encontro com os inimigos. Nessa fase é comum o autoaniquilação. O corpo do herói pode ser cortado, desmembrado e ter suas partes espalhadas pelo mundo, como Osíris, que é morto por seu irmão Set. Essa fase representa o renascimento espiritual do herói, o desapego do ego, uma vez que essa é uma jornada de transformação. Nessa fase também é comum encontrar metáforas da mãe ou o pai, muitas vezes transformados em vilões. Luke, por exemplo, descobre que Darth Vader é seu pai. Como a jornada é um processo de individuação, o herói precisa matar a influência dos pais sobre ele. 

O passo seguinte é a apoteose, no qual o herói obtém vitórias. Muitas vezes esse passo é representado por um casamento sagrado, como Flash Gordon se casando com Dale Arden, pela sintonia com o pai-criador, pela própria divinização (Osiris sendo recomposto). Se as forças se mantiverem hostis a ele, essa fase é representada pelo roubo por parte do herói daquilo que ele foi buscar, como Prometeu roubando o fogo. 

Terminada essa etapa, cabe ao herói voltar para casa. Pode ser uma volta simples, abençoada pelos deuses, ou uma volta difícil, como a de Ulisses ou a dos protagonistas da Caverna do Dragão (um mito que ficou incompleto, uma vez que eles nunca retornaram). 

Em todo caso, o herói volta transformado e maduro e essa transformação se reflete no mundo, como Promethea provocando o fim do mundo que conhecemos e, com isso, construindo um mundo melhor.

Em suma: o herói das mil faces se torna essencial para os que querem entender melhor as mitologias, antigas e novas, apesar de Campbell nem sempre ser direto e muitas vezes se perder em alguns discussões não diretamente relacionadas ao tema. Apesar disso, o livro se destaca pela leitura intrigante e pela prosa fluída de seu autor, que exemplifica suas ideias com mitos de diversas parte do globo.

Al Rio's STAR WARS ! — A Guerra nas Estrelas de Al Rio





Do mesmo modo que os selos 'Túnel do Tempo' e 'O que aconteceria se' convidam os leitores a novas visões e novas interpretações dos universos DC e Marvel, a linha INFINITIES —no Brasil: Infinitos —transporta o leitor a universos paralelos dentro da mitologia de Star Wars.

Al Rio, foi um desenhista brasileiro conhecido pelo traço exuberante de suas figuras femininas; integrou a primeira leva de artistas brasileiros a produzir quadrinhos para o mercado norte-americano. Chegou a desenhar Homem-Aranha, Hulk, Capitão América, Vingadores, Homem-Aranha, Wild CATS e notabilizou-se com seu trabalho em GEN 13 (Editora Image). Entre os vários trabalhos importantes de Al Rio encontramos Star Wars: Infinities — New Hope (edição 03, 04) publicado pela Lucas Books/Dark Horse em 2001. O traço de ArlRio é considerado por alguns fãs um dos mais charmosos e versáteis de sua época, infelizmente a publicação no Brasil da revista Star Wars Infinitos cometeu uma gafe terrível ao creditar erroneamente o artista. Leia mais

Qual o papel da IBM no holocausto?

Segundo o livro IBM e o holocausto, de Edwin Black , a empresa teve papel fundamental na descoberta, catalogação e eliminação de judeus.
Black, um americanos filho de judeus que sobreviveram à perseguição nazista, mostra que a IBM teve lucros recordes com esse contrato.
A identificação dos judeus era elemento essencial na sua segregação e confisco de bens, isolamento em guetos, deportação, trabalho escravo e, finalmente, eliminação. Esse era um desafio tão grande que só poderia ser solucionado por um computador.
Na época não existia computador, mas existia a tecnologia Hollerith, de cartões perfurados. Os historiadores sempre se espantaram com a facilidade e rapidez com que os nazistas conseguiam identificar e perseguir os judeus. A resposta pode estar na IBM, que providenciou a automatização da perseguição.
Além de identificar os judeus, os cartões da IBM permitiam o gerenciamento das ferrovias e a organização do trabalho escravo nos campos de concentração.

Um exemplo do usos cartões da IBM era o campo de Bergen-Belsen. Cada prisioneiro era identificado por um cartão. A terceira coluna de furos identificava a categoria de prisioneiros. O furo de número 3 significava homossexual, o 8 judeu, o 12 cigano. A coluna 34 identificava a razão do envio para o campo. 2 significava que continuava trabalhando, o 6 era o tratamento especial, eufenismo para extermínio. 

O sistema de cartões usados pelos nazistas representavam metade do lucro mundial da empresa, que contratava milhões de recenseadores.