quarta-feira, setembro 06, 2017

Gandhi e a doutrina da não-violência

Gandhi foi uma das mais importantes figuras históricas da Índia. Ele conseguiu tornar seu país independente da Inglaterra sem guerra ou violência e até hoje é visto como um homem santo, especialmente nas pequenas vilas indianas.  Os indianos tinham tão grande respeito por ele que o chamavam de Mahatma (Grande alma).
Essa grande alma nasceu no distrito de Gujarat, um local remoto e pouco visitado da Índia. O pai de Gandhi era primeiro ministro de Porbander. A mãe era devota de uma pequena seita conhecida como pranamis, uma mistura de hinduísmo com islamismo. Em seus templos, o Alcorão e os livros sagrados indianos eram igualmente venerados. Entre os preceitos desse culto estava o respeito por todas as crenças e a simplicidade no modo de vida, o que implicava em um vegetarianismo rígido, a repulsa do álcool e ao fumo e jejuns periódicos. Todos esses preceitos teriam grande influência sobre Gandhi.
Mas quem visse o pequeno Mohandas Karamchand Gandhi quando criança dificilmente desconfiaria de sua importância futura. Ele era extremamente tímido e aluno medíocre. Parecia tão burro que a única saída encontrada pela família foi enviá-lo para Londres para freqüentar o Inner Temple, uma escola tão fácil que até o mais estúpido dos alunos conseguia aprovação.
Gandhi, como a maioria dos indianos da época, sentia um misto de ressentimento e admiração pelos colonizadores ingleses, especialmente por causa da estatura elevada e vigor físico. Assim que chegou a Londres, Gandhi  se empenhou em tornar-se um perfeito inglês. Comprou um trraje ocidental, uma cartola e uma bengala. Tomou lições de dicção, francês e violino. Só não imitou os ocidentais no hábito de comer carne, uma promessa que havia feito à mãe antes de sair de sua terra natal.
Em sua estada em Londres, ele descobriu um restaurante vegetariano onde teve contato com livros que o marcariam para o resto da vida. Um deles foi Pelo Vegetarianismo, de H. S. Salt. A partir da leitura desse livro ele passou a atuar em sociedades vegetarianas, mas era tão tímido que tinha de pedir a outras pessoas que lessem seus comunicados.
Surpreendentemente, um dos livros que ele redescobriu na sua fase inglesa foi justamente um clássico indiano, o Bagavad Gita. Gandhi ficou tão fascinado que tomou esse livro como guia pelo resto da vida. Para ele, o livro devia ser visto não como uma verdade histórica, mas como uma alegoria. Assim, Krishna não estaria estimulando Arjuna a cumprir seus deveres militares, mas  ensinando à humanidade o valor do não-engajamento e a necessidade de agir sem desejar os frutos da ação.
Na época, ele leu também textos budistas, islâmicos e cristão e tentou encontrar algo em comum entre essas crenças. Achou o que queria na idéia de renúncia.
Outros autores que o influenciaram foram Tosltoi, com O reino dos céus está em você (livro no qual a doutrina da ação sem violência) e John Ruskin, com Unto this Last. Este último livro mostrou a Gandhi que a violência era gerada por uma ordem social desigual, o que o levaria a lutar contra o sistema de castas na Índia.
Em toda a sua história de lutas, Gandhi sempre se preocupara com a qualidade de vida das pessoas. Achava que as pessoas só seriam felizes se fosse livres para viver de acordo com suas escolhas. Mas essa liberdade também implicava o respeito à liberdade e dignidade dos demais.
Em 1891 ele estava formado em direito e rumou para casa e se deparou com o primeiro caso que lhe mostraria a realidade cruel do imperialismo. Enquanto estava na Inglaterra ele conhecera um homem chamado Charles Ollivant, um tipo educado e amistoso, que trabalhava como funcionário público na Índia. Gandhi precisou procurá-lo para resolver uma questão pessoal, mas foi recebido friamente  e acabou sendo expulso da propriedade. Gandhi protestou por escrito por aquela ofensa à sua dignidade. Ollivant respondeu que um indiano não tinha uma dignidade que pudesse ser resguardada.
 Essa experiência lhe mostrou como o relacionamento entre as pessoas pode ser corrompido quando uma domina a outra, uma realidade que ficaria mais clara quando ele viajou para a África do Sul para trabalhar como advogado. Para representar seu cliente, ele precisaria viajar de trem até Pretória. Assim, comprou uma passagem de primeira classe e esperou a viagem. Nisso um inglês entrou na cabine, viu Gandhi e voltou com um funcionário da ferrovia, que ordenou a Gandhi para viajar o vagão de bagagens. Isso se repetiu durante toda a viagem. Gandhi chegou até mesmo a ser espancado por um homem, só por ser indiano.
A luta contra o tratamento dado aos indianos na África seria a primeira bandeira defendida por Gandhi.  Além de não poderem viajar na primeira classe, os indianos não tinham direito a voto e eram obrigados a se registrarem. Um policial poderia entrar numa casa indiana e revistar todos para ver se tinham o registro, o que era considerado uma ofensa, especialmente por causa das mulheres. Além disso, era cobrado um imposto abusivo de cada trabalhador indiano. Para piorar, uma lei declarava sem efeito os casamentos mulçumanos, parse e hindu.
Usando inicialmente de meios legais, Gandhi conseguiu algumas vitórias, como, por exemplo, uma indenização a um indiano que fora expulso de um trem. Mas logo ficou claro que só isso não seria o suficiente. Assim, ele empregou pela primeira vez a satyagraha, força-verdade, uma espécie de resistência civil pacífica que pretendia não derrotar o inimigo, mas trazê-los para sua causa.
Os registros, por exemplo, foram boicotados. Os indianos eram orientados a não molestarem ou insultarem qualquer um que quisesse se registrar. Mesmo assim, o registro foi um fiasco. Os indianos também foram orientados a saírem para a rua e negociarem sem licença, o que provocaria suas prisões.  As mulheres logo entraram nos protestos. Logos as prisões estavam lotadas de manifestantes, provocando grandes problemas e constrangimentos para as autoridades.
A polícia também usou de violência, atirando contra trabalhadores, o que colocou a opinião pública contra o governo. Até o Vice-rei da Índia protestou contra a situação na África e as autoridades foram obrigadas a libertar Gandhi e negociar. Os indianos tiveram praticamente todas as suas exigências atendidas.
Quando Gandhi voltou a Índia, foi recebido como herói nacional. Ele era visto como o homem capaz de devolver a liberdade ao país. Mas ele deixou claro que não queria apenas a independência da Índia: queria também uma situação melhor para o povo e o fim da sociedade de castas. Esse posicionamento foi demonstrado numa reunião do congresso nacional. Os párias eram proibidos de entrar, o que provocou um problema, já que eles eram encarregados de limpar os banheiros. Gandhi não pensou duas vezes: pegou a material e foi limpar o vaso que pretendia usar. Além disso, ele abandonou os trajes ocidentais e começou a usar roupa feita por ele mesmo. Ele percebeu que a indústria de tecidos havia destruído uma importante parte da cultura indiana e provocado mais miséria e infelicidade. Assim, ele elegeu a roca (instrumento usado para fiar o algodão) como símbolo de sua filosofia.
Sob a liderança de Gandhi, os indianos começaram a bular leis e regras abusivas. Os protestos incluíam fazer sal (só os ingleses tinham autorização para fazer sal), vender livros proibidos ou distribuir o jornal Satyagrahi, editado por Gandhi. O Vice-rei foi avisado como parte da filosofia de Gandhi de ser totalmente leal com o adversário.
A reação das autoridades foi violenta. 379 pessoas foram mortas e mais de mil pessoas foram feridas. Para desgosto de Gandhi, muitos indianos haviam reagido violentamente à provocação da polícia, mas apenas nos locais onde não havia voluntários treinados na não-violência, ou onde estes haviam sido presos.
Gandhi foi preso e seu julgamento foi um ótimo exemplo de sua política de converter o oponente.  Juiz e réu trataram-se com tão grande cavalheirismo que muitos perceberam que o magistrado o admirava por sua coragem e probidade.
Gandhi foi condenado a seis anos de prisão e agradeceu a cortesia com que foi tratado.
Ao fim desse tempo, ele voltou à ação, numa serie de protestos que levariam a Índia à independência.
Um dos atos mais importantes dessa luta foi a marcha do sal, acontecida em 1930.
Os indianos eram proibidos de fazer o próprio sal e eram obrigados a pagar altas taxas pelo sal fabricado pelos ingleses. Quem mais sofria com essa determinação eram os pobres. Assim, Gandhi iniciou uma marcha na direção das salinas. Antes, ele mandou uma carta ao Vice-rei, informando-o do movimento. A marcha começou com 78 participantes, mas aos poucos foram se juntando milhares de pessoas. Os ingleses começaram a prender a todos que podiam, mas logo as prisões estavam lotadas.
Além das prisões, a polícia usou de extrema violência, mas os indianos não revidavam, pois sabiam que, se isso acontecesse, Gandhi cancelaria o movimento.
Um repórter que assistira aos protestos escreveu que os ingleses (que se orgulhavam muito de sua civilidade) haviam tido uma derrota moral ao agirem como bárbaro diante de pessoas totalmente pacíficas.
A opinião pública se voltou contra a Inglaterra e o Vice-rei foi obrigado a negociar.
Gandhi também comandou boicotes a produtos ingleses, especialmente as roupas. Ele propunha que as roupas fossem feitas pelas próprias pessoas, independente de sua condição social.
Nos anos seguintes, ele foi preso diversas vezes, mas as prisões, ao invés de calá-lo, só pareciam multiplicar o número de seus seguidores.
 Finalmente, em 15 de agosto de 1947, a Índia tornou-se independente, mas Gandhi não comemorou. Ele estava triste por saber que o país que tanto amava ia ser dividido em dois: o Paquistão, de religião mulçumana e a Índia, predominantemente hindu.
No dia 30 de janeiro de 1948 ele foi assassinado a tiros, em Nova Déli, por um fanático hindu, que não aceitava a política de Gandhi, segundo a qual todas as pessoas fossem tratadas com justiça e generosidade, independente da religião. Apesar do pedido de Mahatma para seu assassino não fosse punido, este foi preso e enforcado.
George Woodcock diz, no livro As idéias de Gandhi, que este foi um dos políticos mais hábeis de seu tempo, ¨ainda mais notável porque, recordando as lições do Bagavad Gita, jamais buscou recompensas da política¨.

Heróis em ação

Heróis em ação foi uma revista publicada pela editora Abril entre 1984 e 1985 com personagem da editora norte-americana DC Comics. A Abril havia acabado de adquirir os direitos de publicar a DC e os personagens que não se encaixaram nos títulos Batman e Super-homem foram colocados nesse título mix. Em 1985, a revista foi descontinuada (juntamente com a do homem-morcego) para dar origem à revista Superamigos, um tijolão, com o dobro de páginas (na época tínhamos banca de jornal e o comentário geral era de que a manobra era uma forma de escapar do congelamento de preços imposto pelo plano Cruzado).
Como teve apenas 10 números e publicou duas das mais revolucionárias HQs da época (Novos Titãs e Esquadrão Atari), a revista passou a cultuada pelos fãs.
Confira abaixo algumas das capas.






Quarteto Fantástico e a ficção científica

A Marvel Comics sempre teve um pé na ficção científica, em especial o Quarteto Fantástico, a revista que inaugurou a Marvel como a conhecemos hoje. Embora fosse oficialmente uma revista de super-heróis, os conceitos e aventuras estavam sempre mais próximo da FC, em especial graças ao apreço de Kirby pelo gênero. Tanto que o Quarteto rompe com alguns dos dogmas mais básicos dos super-heróis, como as identidades secretas.
Depois da fase Kirby-Lee, poucos conseguiram compreender tão bem a essência desses personagens quanto John Byrne, responsável pela última realmente memorável fase do Quarteto. E o aspecto de ficção científica fica ainda mais visível na saga da Zona Negativa, publicada no Brasil pela Panini na coleção Os maiores clássicos do Quarteto Fantástico, volume 3.
O volume abre com uma aventura na Lua, com os inumanos, passa por uma aventura momumental com os Skrulls e o personagem Gladiador que envolve diversos outros heróis (entre eles o Homem-aranha e os X-men) e segue com os heróis viajando para a Zona Negativa enquanto o personagem Aniquilador aproveita a brecha aberta para atravessar para nossa realidade.
Byrne trabalha com maestria a maneira como Kirby e Lee imaginaram as histórias do Quarteto: super-sagas que se estendem por várias edições, como numa grande novela, mas com capítulos auto-contidos, cada um dos quais conta uma história completa tudo isso costurado com ganchos narrativos.
Um atrativo a mais é ver Byrne homenagear grandes artistas, como Frank Miller e Jack Kirby, mimetizando-os.

Quem foi Adolf Eichmann?


Adolf Eichmann foi um dos criminosos nazistas mais procurados do mundo. Sua principal função era criar condições práticas para a solução final, ou seja, a morte de milhões de pessoas de raças indesejáveis. Era ele que cuidava da logística para que os judeus encontrados nos mais diversos locais da Europa fosssem enviados para campos de extermínio, como Treblinka, Birkenau e Auschwitz.
Entre o fim de abril e o início de maio de 1945, Eichmann percebeu que a alemanha inevitavelmente perderia a guerra e resolveu fugir.
Antes de partir, deu à mulher e aos três filhos cápsulas de veneno. “Se os russos vierem, mordam as cápsulas. Se forem americanos e ingleses, não precisa”, disse ele.
Disfarçado como cabo, topou com um pelotão americano e levado para um campo de prisoneiros. Lá identificou-se como o cabo Adolf Barth, da força aérea alemã. Foi transferido para outros campos e em cada local adotava um nome diferente.
Finalmente, conseguiu escapar e adotou a identidade de Otto Heninger. Viveu durante alguns tempo na própria Alemanha, criando galinhas.
Ele voltou a ficar sob os holofotes durante os julgamentos de Nuremberg. Vários nazistas citaram Eichmann como um dos principais autores da solução final. Até Dieter Wislinceny, compadre de Eichmann, denunciou-o e chegou a propor ajudar os americanos a encontrá-lo como forma de diminuir sua pena.

Percebendo o perigo, Eichmann fugiu da Alemanha. Foi para a Áustria e depois para a Itália, onde encontrou a rede de proteção aos nazistas montada pela igreja católica. Eichmann recebeu documentos da Cruz Vermelha e fugiu para a Argentina, onde viveria até a década de 1970, quando seria preso pelo serviço secreto de Israel. 

O mistério de Edwin Drood


Charles Dickens foi um dos mais importantes escritores do século XX, responsável por criar a imagem que temos atualmente do natal. Ele tinha uma relação interessante com Edgar Allan Poe. O autor inglês excursionou pelos Estados Unidos quando Poe iniciava sua carreira literária e influenciou-o diretamente. No final da vida, Dickens foi influenciado por Poe e colocou seu talento a serviço do gênero criado pelo autor do conto “Os crimes da rua Morgue”. O resultado disso é o livro O mistério de Edwin Drood.          
Dickens escreveu seu texto e publicou-o em fascículos ao longo do ano de 1970. Quando estava pouco mais da metade, morreu, sem deixar nenhuma anotação de como pretendia resolver o mistério do estudante que desaparece em uma noite de tempestade.   
O romance ficou inacabado e se tornou, ele mesmo, um mistério. Quem teria matado Edwin Drood? Teria ele realmente morrido?
Dois anos depois de morto, Dickens terminou o texto através do médium norte-americano Thomas P. James (algo que parece ter saído diretamente de uma das histórias do próprio Dickens).
A edição que li, do Clube do Livro, de 1978, publica o final sem aviso sobre o adendo mediúnico. Além disso, traz diversos erros de revisão (em determinado ponto “livres” é grafado como “livros”), mas o volume permite perceber como Dickens se saía no gênero policial. Dickens parece estar mais preocupado com os personagens (e há vários deles antológicos, como o garoto Delegado), ao contrário de Poe, em que a ênfase está na construção da trama.
O final mediúnico apresenta um assassino óbvio, embora traga uma preocupação em mostrar o detalhamento da investigação. Mas não parece Dickens. A motivação do assassino é resumida em uma frase e quem leu Um conto de duas cidades sabe que o autor inglês era capaz de grandes reviravoltas em suas tramas.
O ideal é ler o livro como uma obra aberta, imaginado como teria sido o final escrito por Dickens vivo.

Em tempo, a edição da Lachâtr, mais recente,  é mais honesta que a do Clube do Livro, pois avisa que o parte do livro é de origem mediúnica.  

terça-feira, setembro 05, 2017

Escola sem partido: tudo pode ser denunciado

A maioria das pessoas que defende o projeto Escola sem partido acredita que quem será afetado será aquele professor militante político, o cara que vai para a escola vestindo boina e camisa de Chê Guevara. Outros se baseiam apenas no nome da lei, um nome completamente enganoso, já que a lei não proíbe partidos de fazerem campanhas eleitorais dentro das escolas.
Na verdade, a coisa toda foi muito bem pensada: acharam um nome com o qual todo mundo concordasse para agradar um grupo de radicais, parecer fazer o bem e, ao mesmo tempo, estimular ao máximo denúncias contra professores.
Quase ninguém que defende o Escola sem partido leu o projeto, que no seu preâmbulo parece lindo, diz favorecer o debate na sala de aula, os vários pontos de vista etc...
Mas a coisa realmente complica é no trecho que define o que é proibido, o que é denunciável.
Como políticos são políticos, eles envolveram sua pílula num doce bonito e gostoso, mas o que era realmente importante estava no artigo 3:

"Art. 3º. São vedadas, em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica BEM COMO A VEICULAÇÃO DE CONTEÚDOS OU A REALIZAÇÃO DE ATIVIDADES QUE POSSAM ESTAR EM CONFLITO COM AS CONVICÇÕES RELIGIOSAS OU MORAIS DOS PAIS OU RESPONSÁVEIS PELOS ESTUDANTES"

Observem como  as palavras foram muito bem escolhidas para permitirem o máximo de denúncias. O texto poderia ter parado em doutrinação política e ideológica (e até aí eu concordo plenamente). Mas observe que depois vem a proibição de qualquer conteúdo ou atividade que possa estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais.
Observem como é evitada a palavra ética em prol da palavra moral.
A ética trata de princípios básicos, universais, de convivência humana. O que é ético, é sempre ético. A moral varia de pessoa para pessoa, de cultura para cultura e até de época para época. Não é à toa que a lei fala em convicção, o que destaca o valor individual da moral.
Não faz muito tempo, o casamento entre uma mulher branca e um homem negro era considerado imoral (para algumas pessoas ainda é). A escravidão foi considera moral, embora não fosse ética.
Em alguns momentos, ética e moral podem se encontrar, como por exemplo, na questão de não roubar outra pessoa. Mas na grande maioria das vezes, são coisas muito distintas.
Um exemplo: uma professora que joga lixo no chão está sendo anti-ética. Seu comportamento pode ser imitado pelos alunos e jogar lixo no chão prejudica toda a comunidade. Mas dificilmente alguém diria que a atitude da professora foi imoral.
Por outro lado, para muitas pessoas a tatuagem é considerada imoral, portanto um professor que tem tatuagens é imoral, enquanto que para outras pode ser algo absolutamente normal. 
Ao dizer que estão proibidas a "VEICULAÇÃO DE CONTEÚDOS OU A REALIZAÇÃO DE ATIVIDADES QUE POSSAM ESTAR EM CONFLITO COM AS CONVICÇÕES RELIGIOSAS OU MORAIS DOS PAIS OU RESPONSÁVEIS PELOS ESTUDANTES" a lei deixa para o pessoal e subjetivo a decisão sobre o que é aceitável ou não em sala de aula.
Para o professor que acredita na teoria da terra plana, o professor de geografia que ensina que a terra é arredondada está indo contra suas convicções morais. 
Para o pai evangélico, o professor de biologia que ensina a teoria da evolução para as crianças está indo contra suas convicções morais.  

Em outras palavras: a lei estimula todo tipo de denúncia. Pior: pela lei isso deverá ser afixado na frente de todas as portas de aula. Políticos são espertos: eles sabem que isso vai estimular ainda mais as denúncias num leque extremamente amplo de atividades ou conteúdos que possam estar contra a moralidade deste ou daquele indivíduo.

A aventura espacial de Buck Rogers

Como nem tudo são flores, logo veio a crise de 1929 que acabou com a alegria da classe média americana. Naqueles dias, muita gente dormia ri­ca e acordava pobre — absolutamen­te miserável.
 O clima era de desespero e desânimo e o lance ago­ra não era mais rir futilmente da vi­da. As primeiras histórias em quadrinhos tinham sido todas cômi­cas (tanto que nos EUA, os quadri­nhos são chamados de “comics”), mas já não havia muita razão para rir.
Todos queriam fugir para plane­tas distantes, cidades perdidas ou paí­ses exóticos... todos queriam aventura!
Uma das primeiras séries a captar esse clima de escapismo foi Buck Rogers, criação de Philiph Nowlan. Esse personagem foi publicado originalmente na revista pulp Amazing Stories, em agosto de 1928. O conto, Armagedon 2419 AD contava a história de um piloto (Rogers) preso em uma mina que desabara. Ele, graças a gases radioativos, permanece em estado de dormência, vindo a acordar 500 anos depois.
A América que ele vê é totalmente diferente da que conhecera. Agora o país está totalmente destroçado pelos invasores orientais e os seus habitantes perseguidos em sua própria terra, obrigados a se esconderem nas florestas.
A história fez tanto sucesso que o editor da revista, John Dille, sugeriu a Nowlan que a adaptasse para os quadrinhos. Para realizar essa tarefa foi contratado um desenhista, Richard (Dick) Calkins, que tinha um traço barroco e detalhista.  
Na versão em quadrinhos foram necessárias algumas adaptações. O nome foi mudado para Buck Rogers para aproveitar o sucesso de Buck Jones, famoso cowboy do cinema.
A tira foi publicada pela primeira vez no jornal Courier Press, de 27 de janeiro de 1929 e fez enorme sucesso, abrindo caminho para muitos outros personagens de aventura e ficção-científica.
Para manter o clima pseudo-científico, a equipe de criação contava com consultores especialistas, inclusive um metereologista.
Entre as curiosidades da série está o fato dela ter antecipado o meio pelo qual os astronautas iriam se deslocar no espaço. Logo na terceira tira da história, a heroína Wilma mostra a Rogers uma mochila antigravitacional que lhe permitia flutuar no ar. Para direcionar o vôo, Buck utiliza o recuo da arma.
Quando, em 1984, os primeiros astronautas passearam soltos no espaço, o escritor Isaac Assimov se lembrou imediatamente de Buck Rogers: “ Recentemente dois astronautas flutuaram livremente no espaço, antes de seu ônibus espacial pousar na Flórida. Eles não ficaram ligados à espaçonave. Saíram dela e retornaram. Os mais velhos se lembrarão das histórias em quadrinhos de Buck Rogers, no anos 30 e 40. Tudo isso – o passeio espacial, a espaçonave movida a foguetes, a mochila nas costas – já tinha acontecido nos desenhos”.

A propósito, a forma como os astronautas conseguiram controlar seu deslocamento no espaço foi justamente através do recuo de uma pistola de ar. Como em Buck Rogers. 

Qual o país preferido dos fugitivos nazistas?


Os criminosos nazistas iam preferencialmente para a Argentina. O país recebeu cerca de 300 criminosos de guerra. O governo de Peron tolerava o ingresso de nazistas e os empregava em fábricas. Além disso, quando eles eram descobertos, o governo evitava extraditá-los para locais em que pudessem ser julgados.
A relação da argentina com os nazistas sempre foi ambigua. O país declarou guerra à Alemanha em 1945, só quando teve certeza de que o país perderia a guerra, mas sempre manteve boas relações com os alemães.
O fluxo de entrada maior foi entre 1947 e 1948. Entre os criminosos que se refugiaram na Argentina estão Klaus Barbie e Adolf Eichmann, o burocrata que organizava as rotas de trens que seguiam para os campos de concentração.
O Brasil também acabou servindo de refúgio para nazistas fugitivos. Entre eles Franz Stangl, comandante dos campos de extermínio de Treblinka e Sobidor, que veio para São Paulo e trabalhou durante anos numa fábrica da Volkswagen. Preso em uma operação que contou com a participação de Simon Wiesenthal, o caçador de nazistas, Stangl foi extraditado para a Alemanha e  morreu na prisão, em 1970,  depois de sentenciado à prisão perpétua.  

Outro nazista famoso que se escondeu no Brasil foi o médico Josef Menguele. 

Literatura, racismo e petróleo

Leia o trecho: "Ele propôs-lhe morarem juntos, e ela concordou de braços abertos, feliz de meter-se de novo com um português, porque, como toda cafuza, não queria sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à sua". Parece racista, não? Esse é só um dos muitos exemplos de racismo encontrados na obra de de... Aluísio de Azevedo. O romance O cortiço, por exemplo, é todo construído a partir de ideias racistas – é um livro cujo racismo é a base a partir da qual foi construída a trama. Da mesma forma, vários outros escritores brasileiros do final do século XIX e início do século XX eram racistas e rechearam suas obras de textos racistas.
No entanto, você nunca viu capas de revistas com destaque para o racismo de Aluísio de Azevedo. Nunca viu campanhas na internet ou memes com suas frases racistas. Por que não? Por que Azevedo, assim como outros escritores racistas, nunca mexeu com petróleo.
Lobato morou algum tempo nos EUA e percebeu que a base da riqueza e do desenvolvimento daquele país estava no petróleo e no ferro. E voltou ao Brasil disposto a puxar uma campanha: o petróleo é nosso. Foi boicotado de todas as maneiras. Seus sócios foram mortos, ele foi preso, poços que jorravam petróleo foram concretados. Quando um dos entusiastas da campanha do petróleo foi equivocadamente para a sede da Standard Oil (conhecida como Shell) achando que era uma empresa nacional, o diretor regional explicou-lhe algumas verdades: “Vocês partem do ponto de vista de que o petróleo é um negócio nacional, de cada país. Não é. O petróleo é um negócio internacional da Standar. Ela criou esse negócio no mundo e o mantém contra tudo e contra todos. Contra a vontade da Standard país nenhum tira petróleo que haja em suas terras”. 
Lobato denunciou a situação em um livro para crianças, O poço do Visconde, e em um livro para adultos, O escândalo do petróleo e do ferro. Toda uma geração cresceu sabendo a importância do petróleo para a economia de um país e como esse petróleo era cobiçado pelas grandes companhas estrangerias.
A campanha O petróleo é nosso, criada por Lobato ganhou força na década de 1950. Foi quando começou a primeira campanha contra Lobato: acusavam-no de ser comunista para desacreditá-lo. No final, o petróleo foi nacionalizado, mas quem ganhou os créditos foi Getúlio Vargas, o mesmo que havia perseguido Lobato anos antes justamente por conta do petróleo.
Em 2011 começou uma nova campanha. Agora com foco no racismo. O objetivo não era alertar para o fato de que a maioria dos escritores do final do século XIX e início do século XX eram racistas e esse racismo, fruto de sua época, se refletia em sua obra (a exemplo do romance O cortiço, cujo racismo permeia todas as páginas). Era focada única e exclusivamente em Monteiro Lobato. Nenhum outro escritor era sequer citado. Dava a impressão que Lobato tinha inventado o racismo no Brasil. Mães apavoradas devolviam livros de Lobato nas livrarias.
E o que estava acontecendo em 2011? Começava-se a discutir a venda dos direitos de exploração do pré-sal para empresas estrangeiras (foram vendidos alguns já naquela época e outras mais recentemente).          
Ninguém estrilou. Afinal, “O petróleo é nosso” passou a ser coisa de escritor racista. Coincidência? 

segunda-feira, setembro 04, 2017

Bingo - a história por trás do palhaço


Na década de 1980 o programa do palhaço Bozo se tornou um sucesso absoluto de audiência alavancando a TVS (atual SBT) a primeiro lugar no horário da manhã. Mas por força contratual (o programa havia sido importado dos EUA), ninguém deveria saber quem era o palhaço.
O filme Bingo, dirigido por Daniel Rezende, destrincha a pessoa por trás da máscara: um ator criativo, inovador, apaixonado por sua profissão, mas com sérios problemas pessoais, inclusive com drogas e bebidas.
A película vai do início da carreira, na época das pornochanchadas até o auge de Bozo (aqui chamado de Bingo para evitar problemas de direitos) e o declínio do ator que o interpretava.
Difícil apontar o que é melhor no filme: o roteiro preciso, a direção apurada, a reconstituição de época (no filme vemos carros, brinquedos, propagandas da década de 1980), a trilha sonora (repleta de sucessos dos anos 1980), a memorável interpretação de Vladmir Brichta. O ator encarna o personagem a ponto de não parecer que está atuando.
Bingo é um dos melhores filmes que tive a sorte de assistir nos últimos anos e certamente o melhor nacional de épocas mais recentes.

Ps: Vistos em perspectiva, percebemos o quanto os anos 1980 foram estranhos, época em que tudo era possível, como cantoras sensuais se apresentando em programas infantis, como Gretchen, no Bozo.

Astrologia divertida, por Will Eisner

Astrologia divertida foi uma graphic novel publicada pela editora Globo no início da década de 1990 assinada por Will Eisner. Ficou pouco conhecida do público de quadrinhos por um equívoco dos donos de bancas: a maioria colocava a obra no meio das revistas de astrologia, e não junto com os quadrinhos.
Independente de acreditar ou não em astrologia, a obra é uma ótima leitura. Eisner dá uma verdadeira aula de quadrinhos, mostrando como é possível repassar qualquer conhecimento de forma divertida.
Deixo com vocês algumas páginas.

















Enigma de Andrômeda

Enigma de Andrômeda é um filme de 1971, dirigido por Robert Wise, baseado no livro homônimo de Michael Crichton (o mesmo de Congo e Parque dos Dinossauros).  Na história, um satélite cai em uma pequena cidadade dos EUA, provocando a morte de quase todos os seus habitantes. Só um velho e um bebê sobrevivem.
A região é isolada e os sobreviventes e o satélite são enviados para um centro de pesquisas onde cientistas lutam contra o tempo para isolar o vírus extraterrestre e encontrar uma cura antes que a doença se espalhe.
Trata-se de um ótimo filme de ficção científica hard, em que os heróis são cientistas e a solução do problema depende mais da inteligência do que dos músculos.
Chricton é um cara antenado com as descobertas científicas mais recentes (em Parque dos Dinossauros ele não só explica muito bem as descobertas sobre os dinos, como ainda dá uma aula sobre teoria do caos) e coloca isso no filme. Até mesmo o processo de esterilização acaba se tornando interessante para quem gosta de ciência (Frase predileta: "O corpo humano é uma das coisas mais sujas do universo").

Como Hitler morreu?


No final da guerra, com as tropas soviéticas se aproximando de Berlim, Hitler escondeu-se em um bunker, um abrigo subterrâneo com 3 metros de espessura. A situação era desesperadora. Seus generais negociavam a rendição com os aliados e os russos estavam cada vez mais próximos. “Todos desertaram! Estou cercado de incompetentes, covardes e traidores!”, gritava ele.
Com os russos a poucos quilômetros de seu bunker, ele decidiu se casar com Eva Braun. Eva estava radiante. Durante a festa muita champanhe foi distribuída. A proximidade da morte fez com todos entrassem num frenesi erótico. Todos se entregaram ao sexo desenfreado.
No dia seguinte, Hitler e Eva se fecharam em seus aposentos. Pouco depois ouviu-se um tiro. Quando abriu a porta, Goebbels, braço direito de Hitler, encontrou-o morto com um tiro na têmpora. Eva estava envenenada. Também o cachorro do fuhrer estava morto.

Para evitar que o corpo fosse vilipediado, como acontecera com Mussolini, Goebbels queimou-o com gasolina e depois enterrou as cinzas. 

domingo, setembro 03, 2017

Monalisa fragmentada

Obra realizada por mim a partir do conceito de fractais para a pós-graduação em Arte Visual, no SENAC.

Quem foi Fritz Sauckel?


Ernst Friedrich Christoph Sauckel foi um criminoso de guerra nazista conhecido por empregar trabalho escravo de homens, mulheres e crianças.
Filho de um carteiro, Sauckel foi educado nas escolas locais da Baixa Francônia, Alemanha, onde nasceu. Depois entrou a Marinha e acabou sendo preso pelos franceses, só sendo libertado depois da guerra.
Após a guerra, retornou à Alemanha, conseguiu emprego numa fábrica e estudou engenharia até 1922. No ano seguinte, se filiou ao Partido Nazista.
Após a tomada do poder pelos nazistas em 1933, foi promovido a Regente do Reich na Turíngia e se tornou membro do Reichstag, recebendo a patente honorária de Obergruppenführer das SS e AS em 1934.
Durante a II Guerra Mundial, foi nomeado Plenipotenciário Geral do Reich para o Emprego de Trabalhadores, indicado por Albert Speer. Neste cargo, trabalhou ligado diretamente a Adolf Hitler, dirigindo e controlando a força de produção alemã. Como havia uma necessidade crescente de mão-de-obra, ele recrutava jovens à força nos países ocupados, tirando-os de seus lares e levando-os para produzir armas para a Alemanha. Calcula-se que 5 milhões de trabalhadores, entre homens e crianças tenham sido usados como escravos.

Com o final da guerra, ele foi preso e julgado por crimes contra a humanidade. Alegou que não usava trabalho escravo, mas que só havia arranjado uma maneira econômica de conseguir trabalhadores para a Alemanha. Foi condenado à morte e enforcado em 16 de outubro de 1946. 

sábado, setembro 02, 2017

Laranja mecânica


Laranja mecância, de Stanley Kubrick, é um dos filmes mais famosos de todos os tempos. Difícil conhecer alguém que goste de cinema e nunca o tenha visto. Entretanto, poucos leram o livro. A edição recente da Aleph talvez ajude a tornar a obra literária mais conhecida. 
Laranja mecânica surgiu de um diagnóstico errado. Um médico dera ao autor, Anthony Burgess, um ano de vida e este resolveu escrever o máximo de livros possível antes da morte como forma de deixar sustento para sua esposa. O Laranja começou a ser escrito nessa leva, mas foi terminado depois. Felizmente o diagnóstico foi equivocado (Burgess viveu ainda muitos anos).
A ideia para o livro surgiu quando o autor, depois de passar vários anos na Malásia, voltou para a Inglaterra e encontrou tomada de gangues de adolescentes. Não só o fenômeno social chamou atenção do escritor. Linguista amador, ele ficou fascinado com as gírias das guangues. Burgess situou seu livro num futuro em que a deliquência juvenil é um sério problema social e as guangues falam uma língua quase incompreensível para os que não participam de seus grupos.
A primeira coisa a se dizer é que é um um livro difícil. O narrador, Alex, é o umni líder de uma shaika horrorshow e falta constantemente à escolacola para incursões de violência gratuita para krastar alguma tia pecúnia e fazer o bom e velho entraesai com alguma ptitsa novinha.
Sim, é um livro difícil de ler - que deve ter sido dificílimo de traduzir (pontos aqui para o tradutor Fábio Fernandes). Há um glossário no final, mas nem todas as expressões estão nele. além disso, o ideal mesmo é ir lendo o texto com todo o estranhamento que ele causa só olhando no glossário quando alguma frase se torna incompreensível.
O filme de Kubrick é bastante fiel ao livro, seguindo praticamente a mesma cronologia (há algumas mudanças: por exemplo, as meninas que Alex conhece na loja de discos são crianças de 10 anos no livro e adolescentes no filme).
A maior diferença está no final. O livro foi publicado nos EUA sem o último capítulo porque o editor local considerou que ali era o ponto que a história deveria terminar, com uma sequência sarcástica na qual antevemos que Alex voltará ao normal e ainda tirará proveito de tudo pelo qual passou. O livro vai mais além, mostrando sua volta para a sociedade e seu processo de amadurecimento. Burgess queria fazer de seu livro uma fábula do processo de amadurecimento e o livro segue essa linha. Mas o capítulo final parece mais como se alguém continuasse contando a piada após o seu clímax. Nesse sentido, o final do filme é perfeito ao deixar os acontecimentos em aberto, por conta da imaginação do leitor. 

Quem foi Ernst Kaltenbrunner?


Ernst Kaltenbrunner foi um oficial nazista, chefe da SS, famoso por sua brutalidade e pelos fuzilamentos sumários.
Kaltenbrunner  substituiu Reinhard Heydrich - general da SS assassinado num atentado em Praga, Tchecoslováquia em 1942, no comando no comando do RSHA, órgão que comandava as polícias, SS, SD e a segurança do III Reich.
Ele usava os mesmos métodos de Heydrich, perseguindo e matando judeus e inimigos do regime nazista.

Com  a derrota dos nazistas, ele foi preso e julgado pelo Tribunal de Nuremberg, tendo sido condenado à morte e enforcado em 1946.

Zac Freeman

Zac Freeman é um artista norte-americano que usa lixo para construir retratos. Confira algumas de suas obras.



sexta-feira, setembro 01, 2017

PassaVida



Clipe que fiz para a música de Rambolde Campos, uma das melhores da música amapaense.

Monteiro Lobato e a luta pelo petróleo

Quando voltou dos EUA, onde morou na década de 1920, Lobato trouxe o sonho de tornar o Brasil um país tão próspero e rico quanto os EUA. Ele percebera que o petróleo era a base do desenvolvimento daquele país e a solução para desenvolver o Brasil era o petróleo. Mas não ia ser fácil dar petróleo ao Brasil. Para começo, não havia qualquer apoio governamental. Pelo contrário. Dizia-se e redizia-se que no Brasil não havia petróleo. Se houvesse algum, os americanos, espertos que eram, já o teriam descoberto, argumentavam. Lobato pensava diferente. Se quase todos os países com os quais temos fronteira retiravam petróleo, porque o Brasil, e só o Brasil teria sido boicotado pela natureza? 
Havia, inclusive, evidências. No início do século um geólogo dinamarquês descia um rio do Mato Grosso quando observou na água um óleo que alcançava a água através de um barranco. Foi acompanhando o rastro e encontrou um olheiro que soltava óleo em grande quantidade: até 600 litros por dia! Era petróleo. E dos melhores. O dinamarquês recolheu o óleo, analisou e correu para o Rio de Janeiro para pedir licença para exploração. Estranhamente, o governo se recusou a dar a licença. 
Em 1918 um sábio alemão chamado Bach foi parar em Alagoas. Achou que a região poderia ter petróleo e fez estudos. “Aqui há petróleo para abastecer o mundo”, concluiu. E formou uma empresa para explorar a mina. 
Súbito morreu. Quando atravessava uma lagoa com um canoeiro que não era o habitual, a canoa virou. Lá se foi o sábio para o fundo, enquanto canoeiro nadava tranquilamente para a margem...
Mesmo com essas estranhices, Lobato inventou de formar uma empresa exploradora de petróleo. Com o dinheiro do petróleo entraria de sola no projeto de fabricar aço por um novo processo mais econômico e ecológico. 
Lobato começou a escrever em jornais, divulgando o petróleo brasileiro, e os acionistas começaram a aparecer. 
Certa vez foi no escritório um homem visivelmente pobre. O que não era de se admirar, já que a maioria dos acionistas era composta de gente humilde, que tinha o sonho de enriquecer. O susto veio quando o homem depositou na mesa uma grande quantia em dinheiro. Lobato piscou trinta vezes.
- Mas, mas... gaguejou Lobato. Todo esse dinheiro...
- São minhas economias. Guardei durante anos. 
O escritor, passado o susto, caiu um si. Onde já se viu, investir as economias de uma vida, todo o dinheiro, numa empreitada arriscada que podia dar em nada? Lobato disse isso ao futuro acionista. 
- Sei, sei de tudo. - respondeu ele. Estou investindo porque acredito que assim posso ajudar o Brasil. 
Lobato abaixou-se para pegar uma caneta que, de fato não tinha caído e, assim escondido, tratou de enxugar umas aguinhas que insistiam em cair-lhe dos olhos. 
Começaram as escavações e com elas os problemas. Surgiram mais e mais dificuldades jurídicas, a maior parte delas provocada pelo órgão do governo que deveria incentivar a descoberta de petróleo. Um amigo de Lobato, que também estava engajado na campanha pelo petróleo, foi misteriosamente assassinado. 
Lobato escreveu uma carta ao presidente Getúlio Vargas denunciando as sabotagens do Conselho Nacional de Petróleo e sugerindo uma ação decisiva do governo em favor do petróleo nacional. O que conseguiu com isso? Ser preso por injúria ao presidente. 
Como o escritor havia pedido passaporte para tratar da publicação de seus livros na Argentina, o militar que dirigia o Conselho Nacional de Petróleo concluiu que ele pretendia fugir e, com esse argumento, mandou prendê-lo até o julgamento. Outra acusação era de que a companhia de Lobato era patrocinada por organizações internacionais. Como prova anexaram ao processo duas cartas de estrangeiros. Uma era de um engenheiro uruguaio que felicitava o escritor pelo lançamento do livro O Poço do Visconde. Outra era um cartão de natal assinado por um tal de Merry Christmas (Feliz natal), o que demonstra a burrice dos militares. 
Lobato ficou seis meses na prisão, junto com assassinos e ladrões. Quando saiu, escreveu uma carta ao general Goes Monteiro (que mandara prendê-lo) agradecendo pela estadia: “É profundamente reconhecido que venho agradecer V. Excia. o grande presente que me fez, por intermédio do augusto Tribunal de Segurança, de uns tantos deliciosos e inesquecíveis dias passados na Casa de Detenção desta cidade. Sempre havia sonhado com uma reclusão dessa ordem, durante a qual eu ficasse forçadamente a sós comigo mesmo e pudesse meditar sobre o livro de Walter Pitkin (Uma Pequena Introdução para a História da Estupidez Humana)”.
Mas, afinal, qual era esse mistério todo que envolvia o petróleo brasileiro? Por que todos que se envolviam com o assunto eram misteriosamente “acidentados”, “suicidados”, ou iam passar uns tempos na prisão? Por que os poços eram sistematicamente boicotados, quando não sabotados pelas entidades governamentais que deveriam apoiá-los? 
Lobato descobriu a resposta quando uma amigo seu foi ao Rio de Janeiro visitar as companhias de petróleo cariocas. Procurando, deu com o endereço de uma companhia desconhecida. Era uma distribuidora de gasolina da Standar Oil. Quem o recebeu foi um diretor, que se alegrou em encontrar alguém das companhias brasileiras, para os quais precisava contar umas verdades:
- Vocês partem do ponto de vista de que o petróleo é um negócio nacional, de cada país. Não é. O petróleo é um negócio internacional da Standar. Ela criou esse negócio no mundo e o mantém contra tudo e contra todos. Contra a vontade da Standard país nenhum tira petróleo que haja em suas terras. 
Contou também que os melhores campos petrolíferos já estavam sendo estudados e comprados pela Standard. Na época os EUA era um dos principais produtores mundiais de petróleo e o Brasil um grande comprador. Não interessava, portanto, que o petróleo brasileiro fosse descoberto. Era mais negócio ir comprando as terras e esperar até que o petróleo americano acabasse para começar a tirá-lo do Brasil. Todos os principais funcionários do Conselho Nacional de Petróleo recebiam soldo da Standard para evitar que o Brasil descobrisse seu petróleo. 
Não é de espantar que ainda hoje empresas como a Standar estejam aí, financiando agentes governamentais e grupos com o intuito de garantir que o petróleo brasileiro será explorado apenas pelas grandes companhias americanas.

Negrinha e os donos do sentido

Em um texto publicado na revista Isaac Asimov Magazine (n. 19), o autor de "Eu robô" explica que o termo "ironia" vem de uma palavra grega que significa "dissimulação". Segundo ele, o ironista desperta a indignação através da inversão. 

A primeira vez que o escritor se viu diante de uma ironia foi ao ler As Aven¬turas do Sr. Pickwick, de Charles Dickens, aos dez anos. No Capítulo 2 ele encontrou uma descrição dos "gestos de bondade" de um personagem chamado Tracy Tupman. Nas palavras de Di¬ckens, "O número de ocasiões... em que esse bondoso homem encaminhou mendigos às residências de outros membros em busca de roupas usadas ou ajuda pecuniária é inacreditável.". 

Asimov ficou espantou. Pensou consigo que mandar os pobres procurarem outros membros em vez de ele mesmo ajudá-los não poderia ser considerado um gesto de caridade. Por que, então, o rótulo de bondoso? "Logo, porém, percebi a verdade. O Sr. Tupman não era bondoso. Na verdade, concluí, indignado, não passava de um avaro nojento, e a antipatia que senti por ele perdura até hoje. Eu não sabia que o que acabara de ler era um exemplo de ironia, mas compreendi a idéia daquele dia em diante, até finalmente aprender a palavra".

Como o próprio Asimov adverte, nem todo mundo é capaz de entender uma ironia. 

Esse parece ser o caso de Antônio Gomes da Costa Neto. Ele entrou com uma ação na Controladoria Geral da União contra a compra do livro Negrinha, de Monteiro Lobato, para bibliotecas. O autor do requerimento considera que o conto que dá nome ao volume é um exemplo de racismo e sexismo. 

Para entender o caso, é interessante conhecer o conteúdo do polêmico conto. 

Negrinha foi escrito em 1920. Naquela época, já ia longe o fim da escravidão, mas as condições dos negros na sociedade brasileira ainda era lamentável. Exemplo disso é a Negrinha do título.

Lobato conta que era uma pobre órfã de sete anos, mulatinha escura, magra e de olhos eternamente assustados. Nascera em uma senzala, de mãe escrava, e vivera os primeiros anos nos cantos escuros da cozinha, sobre uma velha esteira e trapos imundos. Durante o conto, Negrinha será vítima dos maus-tratos da patroa, Dona Inácia. Lobato assim a descreve: "Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, animada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. [...] Uma virtuosa senhora, em suma — 'dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral', dizia o reverendo".

Era uma ótima senhora, mas não admitia choro de criança. Quando a menina começava a chorar, a mãe corria com ela para o quintal, torcendo-lhe em caminho com beliscões de desespero. Mas aquele choro nunca vinha sem razão. Era sempre fome ou frio. Aos quatro anos morreu-lhe a mãe. 

A pobre menina aprendera a andar, mas não andava. Era obrigada a ficar sentada, de braços cruzados, imóvel, no canto da sala, por horas e horas. "Que ideia faria de si uma criança que nunca ouviu uma palavra de carinho?", pergunta Lobato. O corpo da criança era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nela havendo ou não motivo. 

"A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas de ferozes (...). Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco".

Como não tinha mais como maltratar escravos, mantinha Negrinha em casa como remédio para seus frenesis: "Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade". Era pouco, mas melhor do que nada e, de vez em quando, vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar de saudades do bom tempo. Foi assim com o caso do ovo. 

Uma criada nova roubara do prato de Negrinha um pedaço de carne e esta se revoltara, chamando-a pelo nome que lhe chamavam: Peste. A criada foi contar à boa senhora, que, desentalando do trono as banhas, foi para a cozinha: 

- Traga um ovo. 

Dona Inácia pô-lo a ferver. A criança, escolhida num canto, aguardava trêmula alguma coisa nunca vista. Quando o ovo chegou ao ponto, a boa senhora mandou: abra a boca. E usando uma colher jogou ali o ovo fervente. Antes que o urro de dor saísse, as mãos da senhora amordaçaram-na até que ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente e esperneou. Nada mais. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. 

Logo chegou o vigário e a boa senhora foi recebê-lo e reclamar que não se podia ser boa na vida, como lhe cansava cuidar de Negrinha ao que o vigário respondeu: "a caridade é a mais bela das virtudes cristãs". 

Um dia Dona Inácia recebeu a visita de duas sobrinhas. As duas irromperam pela sala como anjos, alegres, brincando e Negrinha, num ímpeto, acompanhou-as. "Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos o som cruel de todos os dias: Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga?". 

Um dia as meninas lhe mostraram uma boneca. Negrinha nem sabia o que era aquilo e como se chamava, para diversão das duas, que a incentivaram a pegar uma. Negrinha morria de medo, mas pegou. Pela primeira vez na vida Dona Inácia apiedou-se, e deixou-a brincar. 

Esse foi o seu fim. Pois naquele dia Negrinha percebeu que tinha alma, que não era coisa, era um ser humano como qualquer outro. Sentia, vibrava. Quando aquilo se acabou e as meninas foram embora, a menina recusou-se a voltar ao seu estado de coisa, de objeto de torturas da senhora, e morreu. Deixou saudades no nó dos dedos de Dona Inácia: "Como era boa para um croque". 

Lobato escreve o conto, um drama, par denunciar as condições terríveis que os negros continuavam vivendo mesmo depois do fim da escravidão. Dona Inácia representa aqueles que não aceitavam o novo regime em que os negros eram iguais aos brancos — e até mesmo o vigário fecha dos olhos para suas maldades. 

Pois os autores da petição vislumbram em Negrinha um exemplo de racismo. Para eles, o livro só pode ser lido para provar que Lobato era racista e sexista: "que seja obrigatória a presença de Nota de Apresentação sobre a obrigatoriedade das questões étnico-raciais e sexistas", diz a petição. 

Ou seja: qualquer outra leitura deve ser descartada. Os autores da petição citam como exemplo do racismo de Lobato a forma como ele descreve a senhora. O trecho seguinte é citado como exemplo: "Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, animada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. [...] Uma virtuosa senhora, em suma — 'dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral', dizia o reverendo".

Se, segundo os autores da petição, a ex-dona de escravos merece adjetivos favoráveis, negrinha é descrita com adjetivos negativos. É magra, atrofiada, com olhos eternamente assustados. Para os autores da ação, a forma como Lobato descreve as duas personagens mostra que ele simpatiza com Dona Inácia e com todas as torturas a que ela submete Negrinha. (É de se perguntar se magra pode ser considerado, hoje, um adjetivo negativo, e gorda um adjetivo positivo).

Os autores da petição ignoram completamente que Lobato está sendo irônico. Quando ele diz que Dona Inácia é uma boa senhora, ele está fazendo o mesmo que Dickens, está provocando a indignação através da inversão. O objetivo dele é provocar a indignação do leitor contra a senhora que adorava judiar da criança negra, "que nunca se afizera a esse novo regime — essa indecência de negro igual a branco". A palavra indecência aí, é também uma ironia. 

Asimov conseguiu entender o que era uma ironia aos 10 anos. Tudo bem que ele era um gênio, mas creio que a maioria dos leitores adolescentes conseguiria perceber que Lobato não está elogiando Dona Inácia ou vangloriando as suas ações. Ele as está denunciando. Negrinha não é um livro infantil, é um livro adulto e entende-se que um adulto seja capaz de compreender uma ironia, ainda mais no conto Negrinha, em que Lobato usa toda sua capacidade literária para criar no leitor afeição à pobre vítima.

O autor da ação, que poder ser lida aquiaqui parecem ter sido incapazes de perceber que Lobato estava sendo irônico. E querem impor sua leitura a todos os outros. 

Mais, eles pedem punição para os pareceristas do MEC que liberaram a compra da obra: "sujeitando-se seus autores a responsabilidade em face da contratação acertada ou equivocada".

Ou seja: para eles, a obra deve ser lida literalmente, e não como ironia, e essa deve ser a única leitura possível. São os donos do sentido. Qualquer outra interpretação da obra está errada. 

A campanha contra Lobato é apenas a ponta de lança de um movimento maior. Ao proibir as obras de Lobato em bibliotecas, abre-se caminho para pedir a proibição de qualquer outra obra. Qualquer escritor que tenha usado uma ironia, ou até mesmo uma metáfora, sujeita-se a ser mal-interpretado e, portanto, ser vítima desse movimento. 

Nas palavras de Ray Bradbury: 

"Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos. Cada minoria, seja ela batista, unitarista, irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista, sionista, adventista-do-sétimo-dia, feminista, republicana, homossexual, do evangelho quadrangular, acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio (...) Beatty, o capitão dos bombeiros em meu romance Farenheit 451, explicou como os livros foram queimados primeiro pelas minorias, cada uma rasgando uma página ou um parágrafo desse livro e depois daquele, até que chegou o dia em que os livros estava vazios e as mentes caladas e as bibliotecas sempre fechadas." 

Chiclete com Banana


Quem foi Alfred Rosenberg?


Alfred Rosenberg foi um politico e escritor alemão, sendo o principal teórico do nacional-socialismo, sintetizado na obra O Mito do Século XX("Der Mythus des zwanzigsten Jahrhunderts", 1930). Conselheiro de Adolf Hitler, chegou a ser ministro encarregado dos territorios da Europa Oriental, em 1941, cargo que usou para deportar milhares de pessoas, em especial judeus.
Seu livro sobre teoria das raças O Mito do Século XX  pretendia ser uma continuação das idéias de Houston Stewart Chamberlain expressas no livro As bases do século XIX.
Encarregado por Hitler de construir uma escala de raças, Rosenberg colocou no auge da escala os arianos, tendo os germânicos como o topo da cadeia. Outros integrantes da raça ariana seriam os escandinavos, holandeses e ingleses.
Para ele, a história era a história da luta dos povos germânicos contra os judeus. A filosofia grega e as conquistas romanas teriam origem no caráter ariano desses povos. Para ele, só os povos germânicos eram capazes de produzir verdadeira cultura.

Rosenberg foi condenado à morte no tribunal de Nuremberg.