segunda-feira, dezembro 04, 2017

O processo de produção de Alfa, a primeira ordem

Alfa, a primeira ordem, é um projeto idealizado por Elyan Lopes (Elenildo Lopes)
 unindo diversos heróis brasileiros da atualidade com heróis clássicos como o Capitão 7. 
Eu fiquei responsável pelo roteiro e a revista passou por um processo de criação interessante e inédito para mim. Pela primeira vez trabalhei com o plot de outra pessoa. O Elyan me passava o plot, muitas vezes eu fazia sugestões e, aprovadas as sugestões, eu escrevia o roteiro. Para demonstrar como foi esse processo, do plot à página final, coloco alguns elementos criativos de uma das sequências. 
Em tempo: Alfa, a primeira ordem, está sendo lançado este mês e poderá ser adquirido através do site da editora Kimera

O plot
Sequência 4 – Inimigo imortal
Dante Investigação: Op. Bravos: Sucesso.
Em algum lugar das Chapada dos Guimarães – Minas Gerais

Para tentar explicações sobre os heróis nacionais e todo esse descaso ele resolve pesquisar os heróis antigos brasileiros e acaba encontrando um registro de uma luta antiga contra um vilão chamado considerado imortal no local conhecido hoje como chapada diamantina contra os heróis chamados de A Primeira Ordem que reunia vários super-heróis nacionais como Capitão 7, Capitão Gralha, O Flama, Raio negro e Homem Lua Capitão RED está certo que alguém muito poderoso fez tudo isso sem nenhum registro em meio a um colossal conglomerado de buracos gigantescos e instalações recentemente abandonadas em meio a vegetação da região. Ele foi para ali baseado em suas pesquisas internas na operação batizada de Operação Bravos, uma operação abandonada pelas autoridades que ele mesmo resolveu dá continuidade com seus amigos na PF. Quando de repente sofre um golpe na cabeça. Ao acordar está de frente a uma espécie de espelho gigantesco em formato de ^ em sua cabeça refletindo-o então algo muda e no lugar no mesmo lugar onde sua imagem era refletida agora surge a sua versão feminina passando através do espelho e quase o beijando. Então a alguém o questiona da escuridão sem mostrar o rosto. Não acha que foi muito longe Capitão? Flama espiona o Capitão R.E.D que está cercado de clones mascarados sendo torturado. Quando de repente o Capitão R.E.D começa a reagir então o mesmo entra na briga e juntos derrotam os clones mascarados e se tornam amigos depois disso.


O roteiro 


Página 13

Q1 – O Capitão Red num campo, na chapada diamantina. Ele está de frente para nós, andando, com a chapada ao fundo. 
Texto: Chapada diamantina.
Texto: Seu nome é Capitão Red e ele sente que este é o lugar.
Texto: A maioria das pessoas só consegue ver o mundo como peças soltas de um quebra-cabeça. Mas não o Capitão Red.
Q2 – Close do Capitão.
Texto: Ele foi treinado para ver o conjunto, para ver as conexões entre fatos isolados.
Para montar o quebra-cabeça.
Q3 – O herói andando, sempre de frente para nós (na página seguinte vamos mostra-lo de costas e mostrar o que ele está vendo, ok?).
Texto: As notícias aparentemente aleatórias na TV. O caos se alastrando pela sociedade.
Q4 – O Capitão andando.
Texto: Peças soltas que não pareciam fazer sentido. Mas para ele fez. E, de alguma forma, suas investigações o trouxeram até aqui, à chapada diamantina.

Página 14
Q1 – Splash page dos heróis do passado (Flama, Capitão Gralha, Capitão 7, raio Negro, Homem-lua) lutando contra uma versão de Ares.
Texto: Os velhos se lembram de uma época em que heróis voaram sobre este local.
Texto: Eles vieram dos mais variados locais para enfrentar uma ameaça terrível. E desapareceram.
Texto: Mas o que eles deixaram para trás…

Página 15
Q1 – Splash page. O capitão parado, olhando para cima, diante de uma enorme estrutura alienígena. Quadro de impacto.
Texto: … é impressionante!

Página 16
Q1 – O Capitão Red entrando na estrutura. 
Texto: Ele entra na estrutura enorme, sentindo-se pequeno.
Q2 – O Capitão olhando à volta, ao ambiente que parece uma catedral gótica alienígena. Ele parece inebriado.
Texto: No passado, grandes heróis lutaram aqui: O Capitão 7, o Flama, o Homem-lua, o Capitão Gralha, o Raio Negro. Este local está impregnado de heroísmo...
Q3 – Algo bate na cabeça do capitão e ele cai.  
Texto: ...E mistério!
Q4 – O Capitão abre o olho. Ele está preso, braços presos ao teto. Em volta dele vários clones com armas de raios que se parece com chicotes. Há um espelho na frente dele.
Capitão: Onde... onde estou?
Texto: Ele acorda. Sua cabeça é um emaranhado de fios descapados de eletricidade e dor...  
Q5  - O capitão num ângulo mais aberto, mostrando ele em frente ao espelho. Uma voz fala com ele, na escuridão. Uma versão feminina sai do espelho e anda na direção dele. Faça o quadrinho esfumaçado, como se fosse um sonho. Voz em off, em balão diferente, como se fosse parte do sonho.
Texto: ... e delírio.
Voz: Capitão...
Q6 – A versão feminina se aproxima do Capitão, sedutora.
Texto: Ele vê uma versão de si mesmo, feminina, vinda de sonho, de outra realidade ou de seu subconsciente. E uma voz fantasmagórica que reverbera, aumentando a cefaleia.
Voz: Não acha que foi longe demais?

Página 17
Q1 – O capitão sendo açoitado pelos clones.
Texto: A visão e a voz desaparecem, como num sonho e em seu lugar sobra apenas a dor. Ele se pergunta se este será o dia de sua morte...
Q2 – Vemos o Flama em primeiro plano, no alto, de costas para nós, vendo o capitão sendo torturado. Ele está agachado, pronto para pular.
Texto: ... mas hoje talvez seja seu dia de sorte.
Q3 – O Flama pula sobre os clones.
Flama: Ei, rapazes. Ninguém em convidou para a festa?
Q4 – Flama chutando um dos clones enquanto o outro fala.
Clone: Quem é esse?
Q5 – Flama chutando clones enquanto os outros tentam acertá-lo com os chicotes.
Flama: Mais respeito com a história! Sério que ninguém nunca ouviu falar do Flama?

Página 19
Q1 – Flama soltando o Capitão.
Flama: Acho que o amigo também vai querer tirar uma lasquinha...
Q2 – O Capitão, solto, vai na direção dos vilões, socando a própria mão, num gesto de quem está preparado para bater.
Capitão: Pode apostar nisso!

Q3 – Quadro de impacto, ocupando dois terços da página do Capitão e de Flama detonando com os vilões. 

O rafe 
Rafe é um esboço da página, com desenhos soltos, que servem mais para orientar o desenhista na confecção da página. Também serve para que o editor e o roteirista possam identificar alguma mudança necessária antes da página final ser produzia. Neste caso, não houve muitas mudanças. 
A página em lápis 
Aqui temos a página já sendo desenhada na sua versão definitiva mais ainda inacabada. Abaixo, a versão final do lápis mais detalhado. 
Versão final 
A arte-final e as cores foram feitas no computador. Aqui o resultado final. 
Gostaram? Alfa, a primeira ordem é um projeto incrível e que tenho muita honra de ter participado. Se ficou interessado, adquira seu exemplar no site da editora Kimera.. 

Feliz Natal


A arte fantástica de Charles Vess

Charles Vess é um desenhista norte-americano especializado em fantasias. Elfos, duendes e terras mágicas são sua especialidade. Alguns dos seus trabalhos mais conhecidos foram em parceria com Neil Gaiman, como Sandman, Livros da Magia e Stardust.








Feliz natal!!!!



Logan´s run – Fuga das estrelas


Logan's run (Fuga do século 23) foi um filme de 1976, dirigido por Michael Anderson, que contava a história de uma cidade futurista governada por robôs, a cidade dos domos, protegida da radiação após uma guerra nucelar. Logan's run conta a história de uma cidade hermeticamente fechada onde as pessoas vivem para o prazer. Mas há um porém. Ao chegarem aos 30, todos precisam ser "renovados". A renovação acontece durante um evento chamado carrossel em que as pessoas, flutuando no ar, são atingidas por raios que supostamente teriam a capacidade de renová-los. Na verdade, as pessoas são mortas para dar lugar a crianças e sua carne é serve de comida para os habitantes dos domos.

Para cada criança que nasce, uma pessoa deve morrer. A estratégia é uma forma de controle populacional imposto pelas máquinas que governam a cidade e convencem os cidadãos de que 30 anos é idade máxima que se pode viver. Logan é um patrulheiro, uma das pessoas que perseguem e matam os que tentam fugir da renovação no carrossel.
Dois habitantes fogem e são perseguidos pelos policiais. Essa distopia fez tanto sucesso  no cinema que os produtores do seriado As panteras resolveram transformar a história em uma série, que no Brasil se chamou Fuga das   estrelas para aproveitar o sucesso de Guerra nas estrelas. O seriado se focava na fuga e tinha um personagem a mais, o androide REM, criado também para aproveitar a popularidade de star wars, mas que criava uma tensão interessante, já que os dois protagonistas estão fugindo de robôs e o possível aliado pode ser um espião.

O seriado, que tinha roteiros de gente como DC Fontana e Harlan Elisson, estava muito além da compreensão do público da época e durou apenas 14 episódios. No Brasil fez um sucesso relativo passando à tarde, na Band. 

Walter Benjamin, a arte e a reprodução

Geralmente, quando se fala de Meios de Comunicação de Massa e Escola de Frankfurt, a maioria das pessoas lembra da visão apocalíptica de Adorno, de negação em bloco de todo produto cultural: filmes, quadrinhos, novelas, etc. Mas poucos se lembram de um dos primeiros filósofos da escola e sua análise apurada de como as técnicas de reprodução estavam mudando os conceitos de arte. Trata-se de Walter Benjamin. 

Walter Benjamin teve uma vida trágica e marcada pela inquietação intelectual. Foi influenciado pelo marxismo e pelo misticismo judaico. Como a chegada do nazismo ao poder, Benjamin refugiou-se em Paris. Após a derrota da França na guerra contra a Alemanha, o filósofo decidiu fugir pela fronteira espanhola. Ao saber que a fronteira estava fechada, ele voltou para o hotel e se suicidou tomando uma grande quantidade de morfina. A fronteira abriu no dia seguinte. 

Entre os seus textos mais importantes está A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica, no qual ele explica como o cinema e a fotografia estavam destruindo a "aura" da obra de arte. 

Benjamin explica que durante milênios, toda obra de arte tinha duas características: a autenticidade e a aura. 


A autencidade está ligada ao fato de que cada obra de arte é única. Um quadro, por exemplo tem características que não podem ser reproduzidas. Por mais que ele seja impresso, perde-se a textura do suporte, o relevo da tinta, assim como toda a história por trás daquela obra específica, inclusive com referência às pessoas que o possuíram. Mesmo no caso de uma fraude muito bem realizada, a cópia nunca será igual ao original. Da mesma forma, cada escultura grega é única e mesmo alterações pelas quais ela passou (no caso das peças quebradas) aumentam seu valor de unicidade. Segundo Benjamin, "O que faz com que uma coisa seja autêntica é tudo aquilo que ela contém de originalmente transmissível".

A aura, por sua vez, está ligada à origem religiosa da arte. 


Quando o homem começou a produzir as primeiras pinturas rupestres, elas não tinham o objetivo de ornamentar as cavernas, mas de realizar uma espécie de magia. Acreditava-se que o que era reproduzido na pintura se tornaria realidade. Assim, o desenho de uma caçada feliz faria com que a tribo tivesse sucesso na caçada. As obras de arte nascem a serviço de um ritual, inicialmente mágico, depois religioso. Sua exposição aos homens era incidental: na verdade, a pintura destinava-se sobretudo ao mundo espiritual. 

Esse caráter místico faz com que muitas vezes a obra de arte seja guardada em segredo. Os templos gregos eram construídos para abrigar as estátuas dos deuses, mas o ritual se passava do lado de fora. Na igreja católica, as figuras das virgens permanecem guardadas a maior parte do ano e só são visualizadas em momentos muito especiais, como ocorre com o Círio de Nazaré, em Belém. Conforme a arte foi se desvinculando do uso ritual, aumentaram as possibilidades das obras serem expostas. O quadro, por exemplo, tem muito mais possibilidades de ser transportado e exposto do que um mosaico. 

Mas, se por um lado a arte se desvinculava da sua função religiosa, continuava tendo uma espécie de mística. A arte continuava sendo algo de uma minoria privilegiada, geralmente as pessoas de maior poder aquisitivo. Tornou-se, inclusive, um símbolo de status. 

O surgimento da fotografia abalou os alicerces da arte, empurrando para segundo plano o seu valor de culto. Além de representar a realidade, a fotografia era passível de reprodução e quebrava totalmente com a ideia de autenticidade. Qual das cópias de uma foto é a original?

De acordo com Benjamin, a fotografia, ao retirar da arte o critério de autenticidade, fez com que toda a função da arte fosse subvertida: "Em lugar de repousar sobre o ritual, ela se funda agora sobre uma outra forma de práxis: a política". Se a fotografia provocou uma revolução na arte, o cinema provocou um estrago ainda maior. Até mesmo a atuação dos atores deixou de ter aura ou unicidade.

Se no teatro, cada atuação é única e o ator interpreta para o público, no cinema, os atores interpretam para a câmera e sua atuação é fragmentada. Um personagem se aproxima de uma porta, a abre e sai. A cena seguinte, pode ser gravada semanas depois dessa. No cinema, a atuação dos atores só se concretiza na mesa de montagem. 

Esse sistema quebra com a aura da atuação, que só sobrevive, no cinema comercial, através do star system, no culto à estrela (um tema muito bem analisado por Edgar Morin no livro As estrelas). Para Benjamin, se não for tratado como produto, o cinema permite não só uma crítica revolucionária das antigas concepções de arte, como favorece uma crítica revolucionária das relações sociais. Isso ocorre porque o cinema tira o expectador da condição de simples contemplação e o leva à condição táctil. Ou seja, no cinema o público quer não só assistir, mas interagir, e essa interação leva à revolução tanto na arte quanto na sociedade. Walter Benjamim certamente devia estar pensando no cinema revolucionário russo, que usava pessoas do povo como atores quando escreveu suas reflexões.
A idéias de Benjamin fizeram pouco sucesso na época, e só foram resgatadas graças ao amigo Adorno, que, no entanto, achava suas reflexões ingênuas. Passado quase um século de seus primeiros escritos, o pensamento desse autor continua cada vez mais atual, especial pela compreensão impar sobre a arte e sobre a forma como o surgimento dos meios de comunicação de massa mudou nossa percepção a respeito dessa.

domingo, dezembro 03, 2017

SHAZAM - 1° e 2° EPISÓDIO...

Ponto de venda: a última chance

O ponto de venda é a última chance para conquistar o consumidor.
Merchandising é a parte do mix promocional responsável por trabalhar o ponto de venda de modo a despertar interesse para determinado produto ou para fazer com que o consumidor compre mais. É o merchandising que cuida para que o consumidor encontre o produto certo, no lugar certo, na quantidade certa e com o enfoque adequado.
O ponto de venda é considerado a mídia mais rápida e eficaz, pois é a única que conta com três elementos: o consumidor, o produto e o dinheiro. Alguns dados ajudam a entender a importância de ter destaque no ponto de venda:
- O consumidor só visualiza 5% dos produtos de um supermercado ou loja de departamentos.
- O consumidor leva em média 5 segundos para escolher entre um produto e outro.
- 85% das compras feitas em supermercado são realizadas por impulso.

Isso significa que vende mais quem cria o clima adequado, envolvendo o consumidor num ambiente tão agradável e tão favorável à compra que ele se vê seduzido. 

Feliz natal


FLASH GORDON - Episódio 1...

O mundo perdido dos pulp fiction


Há uma idéia generalizada de que os pulp fiction são uma forma menor de literatura. Muitos, inclusive, traduzem o termo como literatura barata. Nada mais falso. Em mais de um século de existência, os pulp publicaram alguns dos grandes autores de sua época e revelaram grandes nomes da literatura.
A história dos pulps começa em 1896, quando o editor Frank Mnsey resolveu transformar uma revista para meninos, The Argosy, numa revista de ficção adulta com formato de 17 por 25 cm. O papel, de péssima qualidade e altamente descartável, era feito da polpa da árvore, daí o nome pulp. A publicação custava apenas um centavo. Mais tarde, alguns pulps chegariam a custar até 20 centavos.
Os pulps surgiam como uma opção de leitura e diversão para uma grande massa de trabalhadores que emigrava do campo para a cidade, formando o que seria chamado de sociedade de massas. O salário médio de um operário era de 7 dólares semanais e o preço dos pulps não pesavam no bolso. Em 1907 The Argosy já vendia 500 mil exemplares. Preço baixo e grandes tiragens seriam a receita de sucesso dos pulps até meados do século passado.
O mesmo Munsey iria lançar uma das mais célebres publicações no gênero: All-Story Magazine. Foi nessa revista que Edgar Rice Burroughs lançou em 1912 a história “Sob as luas de Marte”, com o personagem John Carter de Marte. Pouco depois ele criou, para a mesma revista, um personagem que se tornaria uma lenda do século XX: Tarzan.
A partir da década de 20 os pulps entraram em decadência devido à concorrência do rádio e do cinema. A reação dos editores deu origem a uma das eras mais prolíferas do gênero: as revistas passaram a ser temáticas. Surgiram revistas sobre crimes, ficção científica, terror, faroeste e até revistas sobre submarinos e zepelins.
As revistas de crime revelaram um dos maiores escritores norte-americanos: Dashiell Hammett, autor de O Falcão Maltes e criador do romance noir. Esse novo tipo de história mudava a ótica das histórias policiais, tornando-as mais realistas. A linguagem seca e rápida de Hammett teria grande influência sobre escritores badalados, como o brasileiro Ruben Fonseca.
As revistas de ficção-científica revelaram nomes como Isaac Assimov e Ray Bradbury. Posteriormente essas revistas passariam por uma reformulação editorial e se tornariam mais elitistas, como o são hoje.
Mas o que ficou marcado na mente das pessoas foram os personagens criados para essas revistas. Além de Tarzã, muitos outros desfilaram pelas páginas dos pulp fictions: O Sombra, Doc Savage, Capitão Futuro, Conan, Buck Rogers, Fu Manchu e muitos outros.
Esses personagens seriam uma virada nos pulps e talvez sem eles esse tipo de revista não teria alcançado tanto sucesso numa época em que a crise econômica arrasava o mundo inteiro.

O Sombra é um bom exemplo dessa nova perpectiva. O personagem surgiu em um programa de rádio. Ele era o apresentador de um programa baseado nas narrativas da revista Histórias de Detetive. No dia 31 de julho os norte-americanos se espantaram com um voz cavernosa que ria e dizia: “Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens? O Sombra sabe”.
O editores esperavam que o programa alavancasse as vendas da revista. Mas as pessoas iam às bancas procurando justamente as aventuras daquele personagem misterioso. Daí para que o personagem se tornasse uma estrela dos pulps foi um pulo. O escritor Walter Gibson, sob o pseudônimo de Maxwell Grant escreveu nada menos que 283 histórias do personagem, transformando-o num fenômeno mundial. Até no Brasil o Sombra chegou a ter um programa de rádio.
O Sombra daria a tônica do que seriam os heróis dos pulps: um herói destemido e misterioso que combate o mal ajudado por uma equipe de especialistas.
Esse seria o mesmo mote de Doc Savage. Desde sua infância Savage cultivou o corpo e o intelecto, tornando-se um gênio e ao mesmo tempo um atleta. Além disso, sua pele tem uma coloração bronzeada que lhe valeu o apelido de Homem de Bronze. Em suas aventuras ele contava com a ajuda de cinco amigos e juntos combatiam o mal com muita coragem e os mais avançados aparelhos tecnológicos.
Savage migrou para o cinema, e para os quadrinhos, sempre com muito sucesso.
Capitão Futuro, criado por Edmond Hamilton, é outro personagem que fez história, agora num cenário de ficção científica.
A história se passa na década de 1990.
Capitão Futuro é um verdadeiro um super-homem, com visão esplendida, reflexos super-desenvolvidos e gênio super-desenvolvido. De sua base na Lua ele vive as mais extraordinárias aventuras ao lado de seus três companheiros: Um robô pensante feito à sua própria semelhança; Simon Wright, a enciclopédia viva, um cientista que para se livrar de uma doença fatal, teve seu cérebro transplantado para um tanque e Otho um guerreiro de cristal que muda de forma quando é necessário.
A primeira história começa com um parágrafo que dá o tom épico do personagem: “O nome e a fama do Capitão Futuro são conhecidos por todo homem e mulher viventes. As incríveis façanhas do mais assombroso aventureiro da história serão narrados enquanto existir a humanidade”.
A mitologia criada pelos pulps é tão forte que impregnou o cinema, os quadrinhos e a imaginação de milhões de pessoas no mundo todo. De Indiana Jones ao Super-homem, a cultura pop deste século deve muito aos pulp fictions.

Zumbi em Boca do Inferno

Boca do inferno era uma revista de terror da editora independente Júpiter II. Eu colaborei com o número 6, de 2010, com a história Zumbi, ilustrada por E. Thomaz. A história, sobre escravos que se revoltam contra seus senhores com ajuda sobrenatural tem uma pegada da fase de Alan Moore no Monstro do Pântano, com narrativa em terceira pessoa, flash backs e estrutura de mosaico. O desenhista é muito influenciado pelos ilustradores dessa mesma fase, como Steve Bissett, de modo que as imagens se encaixavam perfeitamente com meu texto. 

Superdotados e educação

Os alunos superdotados nem sempre são fáceis de se trabalhar. Para começar, é comum que, sobre alguns assuntos, eles tenham mais informações que o professor. Se a prática pedagógica é tradicional (em que o professor é visto como depositário de conhecimentos que devem ser repassados aos alunos), pode haver problemas sérios, com o professor vendo o aluno como um concorrente.
Além disso, a capacidade de aprender antes dos outros pode tornar a aula um tédio. Quando o professor diz A, o aluno já deduziu o B e o C, de modo que o restante da aula se torna apenas tediosa repetição. 
Pesquisadores da área têm identificado que 20% do período de aula é desperdiçado por um aluno com QI de 130. Ou seja, em uma aula de 50 minutos, 10 minutos é pura redundância. A obrigatoriedade de permanecer na sala durante os 50 minutos torna o restante do tempo um suplício para os superdotados. Além disso, os desafios propostos pela escola costumam estar muito abaixo da capacidade desses alunos, que se torna desestimulado. Sem estímulos cognitivos, tal alunos procurará realizar os deveres escolares no menor tempo possível, desperdiçando o restante do tempo em simples recreação inconseqüente. É o caso de alunos que terminam de fazer as atividades antes do tempo e, a partir daí, começam a “fazer bagunça”, atrapalhando os outros.
Curiosamente, é mais fácil encontrar superdotados no “fundão” que na frente. Ao contrário do que imagina a maioria dos professores, o aluno que se senta na frente, escreve tudo que o mestre diz e tem um caderno bem organizado, dificilmente é superdotado. Muitos superdotados nem mesmo fazem apontamentos em seus cadernos, pela simples razão de que não precisam disso. Conheço casos de alunos que passaram pela faculdade sem ter caderno.
O professor só conseguirá o respeito do superdotado se este perceber que tem algo a aprender com ele. A autoridade, para um superdotado, não é fruto da tradição, ou da força, mas do conhecimento de cada um. Certa vez entrei em uma turma de primeiro ano do ensino médio e visualizei um aluno com enorme livro do Stephen King (em inglês) aberto sobre a carteira. Ele passou a aula inteira lendo o livro.  Na sala dos professores, muitos dos meus colegas me informaram que ele era o terror da escola, um aluno problemático e indisciplinado. Na aula seguinte levei a ele um fanzine (publicação alternativa) que eu havia feito no qual havia uma matéria sobre King. Na aula seguinte lhe apresentei Edgar Alan Poe. Resultado: ele se tornou um dos meus melhores alunos. Seus textos, que antes eram só medianos, revelaram-se de grande qualidade literária. Antes ele não escrevia melhor porque simplesmente achava que o exercício não exigia dele toda a sua capacidade.

Os justiceiros


Atenção: este texto pode conter spoilers. Leia por sua conta e risco.
Li Os Justiceiros, livro de Stephen King escrito sob pseudônimo de Richard Bachman. O livro parece uma segunda versão de outro livro de King: Desespero (reparem como a capa dos dois livros forma um só desenho). Até o nome dos personagens são os mesmos, embora a personalidade deles seja diferente. Parece que King escreveu Desespero e depois pensou: ei, essa história podia ser diferente! Os Justiceiros provavelmente é melhor, pois te deixa mais angustiado. Nos dois casos, o herói acaba sendo um garoto: em desespero é o garoto que acredita em Deus e, por isso consegue derrotar o monstro Tak. Em Os Justiceiros é o garoto autista que serve como casa para Tak e consegue derrotá-lo no final. Nos dois casos, a balança pende ora para o terror, ora para a esperança. A mensagem parece clara: podemos derrotar nossos demônios internos, podemos sobreviver a eles. King vai muito além do terror...

sábado, dezembro 02, 2017

Feliz natal


Feliz Natal


O processo de produção da Turma da Tribo

Turma da Tribo é um projeto meu, selecionado no edital de Literatura Simãozinho Sonhador, com desenhos de Ricardo Manhães.
Desde que começamos a divulgar imagens do gibi, algumas pessoas têm me perguntado como te sido o processo de produção. O objetivo deste artigo é justamente responder a essa pergunta.
Tudo começa, claro, com a elaboração de personagens e ambientação. Tenho inveja de quem diz que cria rapidamente. Para mim esse processo costuma ser demorado e trabalhoso, assim como a elaboração da sinopse. É normal que eu escreva e reescreva nessa fase. No primeiro tratamento da Turma da Tribo, por exemplo, a história se passava no Brasil colonial. Desisti dessa abordagem porque ela não me permitiria tratar de temas contemporâneos, como os madereiros, tema do primeiro gibi. Da mesma forma, alguns personagens passaram por mudanças e até mesmo mudaram de nome. Como uma das referência era Asterix, eu procurei nomes tivessem uma pitada de trocadilho, como Toró, personagem musculoso cujo remete a chuva forte.
Eu aumento ou diminuo o nível de detalhes do meu roteiro de acordo com o desenhista. Com iniciantes costumo ser mais detalhista. Como eu sabia que o desenho seria do Ricardo Manhães, um veterano do quadrinho europeu, fiz um roteiro bem minimalista, até porque durante todo o processo de produção trocamos vários e-mails e fizemos várias mudanças, tanto nos desenhos quanto no texto. Reparem, por exemplo, que na primeira página mudamos a legenda do último quadro para evitar a palavra "inventor", já que "inventar" já havia aparecido antes no mesmo quadro.
Feito o roteiro, o Ricardo faz, à mão, o lápis, depois a arte-final (tinta preta) e finalmente a cor no computador.
Confira abaixo o roteiro e as páginas.


Página 1

Quadro 01 – Plano geral da tribo, lembrando aquelas imagens de abertura dos álbuns de Asterix. Título e créditos neste quadro.
Texto: Esta é a aldeia dos cunani. É uma aldeia muito diferente, com personagens muito interessantes.
Texto: Vamos dar uma olhadinha neles.

Quadro 03 – Abaeté, todo orgulhoso, estufando o peito. Ao lado dele, entrando no quadro, vemos Baquara.
Texto: Este é Abaeté, o chefe da tribo. Um homem honrado, de palavra.
Abaeté: Pode escrever. Sou um homem de palavra! Minhas palavras.

Quadro 04 – Baquara entrou no quadro e agora divide atenção com o chefe. Ele começa a escrever palavras num papel.
Baquara: Tive uma ótima idéia! Vou inventar a escrita invisível!
Texto: Este é Baquara, o inventor da tribo, e filho do chefe.


A arte espetacular de Mike Zeck


Mike Zeck é um desenhista norte-americano conhecido principalmente por seu trabalho na Marvel Comics. Seu primeiro trabalho de sucesso para a editora foi o Mestre do Kung Fu. Fez também Guerras Secretas e desenhou uma das melhores histórias do Homem-aranha de todos os tempos, A última caçada de Kraven.









Bagavad em Camiño di Rato 8

Camiño di Rato é uma das mais longevas revistas alternativas brasileiras, editada pelo roteirista Matheus Moura. Eu colaborei com o número 8 com a história Bagavad. A HQ faz parte de uma série ficção científica com o tema humanidade. Os títulos de todas as histórias são referências a livros que de alguma forma têm relação com o tema. O narrador, em Bagavad é um homem que trabalhava na desinfecção de planetas que estavam sendo explorados. Desinfecção significava o extermínio de espécies indesejadas. Mas eles encontram algo surpreendente quando matavam seres monstruosos em um planeta catalogado com Y-17. A arte ficou por conta de Rodrigo Nemo, que variou perfeitamente entre sequências mais realistas e sequências lisérgicas, de acordo com a necessidade do roteiro. 

sexta-feira, dezembro 01, 2017

Feliz Natal !


O troll

Beto Norberto era um troll. Seu reino era seu computador. Era através da internet que ele aterrorizava dezenas de pessoas. Gostava de pensar em si como alguém invencível, que provocava pânico por onde passava enquanto digitava freneticamente com seus dedos sujos de Doritos. 
Qualquer um poderia ser sua vítima. Especialmente aqueles que se achavam vencedores. Ah, bando de patifes, quando estavam mais seguros de suas conquistas, o grande Beto Norberto aparecia e mostrava o quanto eram pequenos, frágeis e insignificantes, para delírio da imensa legião de fãs, que aplaudiam de pé esse linchamento virtual.
 Quer dizer, legião de fãs era, claro, um exagero. Na verdade eram três fãs e Beto Norberto nunca os vira pessoalmente. Também é verdade que todos eles usavam Nicks estranhos, como “Comeu, morreu” e “O terror de Itanhanheim” e “Suja bundas” e nosso herói não sabia quais eram seus nomes verdadeiros.  Mas eles eram seus amigos, os melhores amigos que um homem como ele poderia ter. 
Eles certamente estariam ao seu lado naquele fatídico dia de 1985 em que acontecera o fato terrível que o colocara nessa situação. 
Todo herói havia passado por uma situação traumática que o levara em direção ao seu grande desafio: Batman perdera os pais, o mundo de Superman havia sido destruído e o Homem-aranha fora picado por uma aranha radioativa (ou geneticamente modificada, maldito Sam Raimi!). 
Ele também havia tido seu grande trauma. 
Beto Norberto estava na terceira série e se apaixonara pela menina mais bonita da escola. Era uma garota loira, de cabelos cacheados, com uma pele de pêssego, olhos azuis e uma infinidade de notas máximas no boletim. Ou seja: era a queridinha dos professores e o alvo dos olhares apaixonados de todos os rapazes da escola. 
O garoto imaginava-se como um cavaleiro andante, percorrendo as planícies com seu cavalo branco indo salvar sua princesa do dragão malvado. E foi assim que ele abriu caminho até ela, resoluto e imponente, heroico até... no horário do recreio. 
O garoto colocou-se aos seus pés, de joelhos, pegou-lhe a mão e pronunciou as palavras. Que palavras eram ele não se lembrava, mas deviam ser palavras lindas, de absoluto furor  romântico. 
A garota ouviu atentamente e até sorriu (e, diante daquele sorriso, Beto Norberto temeu que aparecesse um vilão e a sequestrasse, como o Duende Verde fizera com a Gwen Stacy). 
Quando terminou, seus lábios lindos e carnudos pronunciaram uma única frase: 
- Você já se olhou no espelho? 

Beto Norberto crispava os dedos e fazia pequenos grunhidos de ódio quando se lembrava da cena. Por vezes, tinha ímpetos de destruir o teclado e só não o fazia porque era o único que tinha e, se destruísse o computador, não teria como baixar todos os seriados que assistia. 
Ah, os seriados, ah, os filmes... depois dos gibis eram a felicidade de sua existência. Gostava especialmente daqueles inteligentes, como o filme em que quatro zumbis jogavam poker e quem ganhava comia o cérebro dos demais e depois ia para o banheiro vomitar, pois era um grupo de zumbis que sofria de bulimia. 
Mas, enquanto esperava seus filmes e seriados baixarem, ele percorria fóruns e redes sociais atacando com sua metralhadora de palavras. Como um cão perdigueiro, ele procurava sua vítima. Ele sentia prazer em destruir-lhes os castelos: era um mestre nisso. Lembrava-se como um troféu como criticara o texto de um garoto de 12 anos que acabara de publicar um fanfic muito elogiado. Nosso herói, sem nem mesmo ter lido o texto, mostrou que ele na verdade era um analfabeto que mal sabia digitar seu próprio nome. O guri deve ter saído de perto do computador chorando para se consolar com sua mãe! 
Que glória! 
Os amigos o parabenizaram! Com que maestria ele destruíra o texto do garoto, com que destreza ele transformara sua alegria em pura tristeza e choro. Ah, se existissem mais pessoas assim, diziam os amigos, ah se existissem! 
De fato, a argumentação de Beto Norberto era infalível. E, mesmo que não fosse, havia sempre a saída de mestre: bastava dizer que o trabalho do outro era uma merda. Não há argumentos contra isso!
Mas essa vida  de vitórias virtuais começava a incomodar. Beto Norberto achava que era o momento de passar para um ponto mais radical de sua carreira. Não bastava fazer alguém chorar, ou ofendê-la publicamente. Ele achou que só seria plenamente realizado no dia em que matasse um de seus desafetos.  E já havia um escolhido: o escritor José Augusto, um dos maiores sucessos dos últimos tempos. Nosso herói nunca lera um livro dele (Deus me livre, dizia ele, quero continuar com meu cérebro saudável), mas sabia que eram horríveis, especialmente pelo fato de que o escritor jamais se dignara a responder a suas ofensas, prova máxima de que se tratava de um desqualificado. 
Matá-lo seria um serviço à humanidade. 
Mas como? Beto Norberto sabia que teria que levantar a bunda gorda da cadeira e fazer aquilo que qualquer herói da envergadura dele faria: 
- Mãe, me empresta dinheiro? 
A mãe, que assistia à novela da tarde comendo um saco de salgadinhos que pareciam mais gostosos a cada segundo, levantou os olhos, desconfiada: 
- Emprestar dinheiro?! Quanto você quer? 
- É pouco, mãe, só dois mil reais!  
- Pra que você quer dois  mil reais, seu imprestável?
Vamos, pense rápido, todos os grandes heróis têm raciocínio rápido!  
- É que eu preciso... 
Pense, pense homem! Onde está toda a inteligência que arrebata uma legião de fãs? 
- Eu preciso comprar uma Coca-cola! 
A mãe olhou-o, desconfiada. 
- Uma Coca-cola, por dois mil reais? 
- É uma Coca-cola beeem grande... 
A mãe piscou três vezes, ainda desconfiada. 
- Uma Coca-cola por dois mil reais? 
Beto Norberto soltou seu melhor sorriso: 
- É que vem com um brinde! 
Houve um minuto de silêncio, contado no relógio. 
- Está bem. Pegue a minha bolsa. Era o dinheiro que eu estava economizando para comprar uma máquina de lavar nova... 
Uma máquina de lavar! O que era uma máquina de lavar nova diante da glória de ter um filho assassino? Beto Norberto já se imaginava o crime em todos os jornais. E, mesmo que o pegassem, ainda assim valeria a pena. Pensando bem, talvez fosse até melhor que o pegassem, todo grande escritor já tinha sido preso. Ia ser famoso e escrever suas memórias.  Sucesso, aí vou eu! 
Agora restava escolher a arma. Beto Norberto tinha um conhecido que vendia drogas e  armas, e era o seu fornecedor oficial de jujubas.
Ele encomendou um rifle de alta precisão, com mira telescópica, mas tudo que o traficante tinha por dois mil pilas era uma espingarda velha. Tanto faz, pensou nosso herói. Afinal, ele era um exímio atirador em todos os jogos de computador que conhecia. O que importa é o atirador, e não a arma, não é mesmo? 
Basta procurar um local alto, apontar e atirar. Não tem erro. 
Beto Norberto passou a seguir os passos do escritor, o que não foi um trabalho fácil, com seus 120 quilos. Ele descobriu que José Augusto fazia caminhada de manhã e passava sempre pela mesma praça. Ao lado, havia um prédio abandonado, com saída para uma rua lateral. Era o local perfeito para atirar. 
No dia escolhido, nosso herói se postou na sacada de um dos apartamentos, apontou a espingarda e esperou.

Seu coração bateu mais forte quando o escritor veio correndo.  Ao mesmo tempo, um rapaz veio na direção dele, talvez um fã pedindo um autógrafo. Era agora ou nunca. Beto Norberto atirou e saiu correndo. Foi bamboleando pela escada e pela rua. Chegou em casa esbaforido e ligou a TV, esperando a notícia. Quase desmaiou de emoção quando ouviu o plantão do Jornal Nacional. 
A principal notícia era a de que um dos escritores mais famosos do país havia sofrido uma tentativa de assalto. De alguma forma, o assaltante havia sido morto. 
“Não entendi nada”, disse o escritor. “Ele se aproximou com a arma, anunciou o assalto e depois caiu no chão, morto”. 
Segundo a jornalista, a polícia estava investigando a possibilidade do assaltante ter atirado em si mesmo. 
Beto Norberto desligou a TV, indignado. Só não quebrou o aparelho porque certamente a mãe ia brigar. 
Havia errado o tiro! Pior: matara o homem que talvez fosse matar seu desafeto.  Pior ainda: a polícia e a imprensa haviam ignorado completamente o fato de que o escritor sofrera um atentado! 
Era necessário tomar medidas drásticas! 
Beto Norberto procurou mais uma vez o traficante de jujubas e trocou a espingarda por uma bomba.  Dessa vez ia matar não só o escritor, mas uma grande quantidade de seus fãs, pois gente assim não merece viver. 
Já tinha tudo planejado. Na mesma semana o famoso escritor faria uma noite de autógrafos em uma livraria próxima (o fato de ser próxima foi particularmente tentador, já que Beto Norberto não precisaria correr tanto quanto da outra vez). Basta ir lá, instalar a bomba abaixo da mesa onde ficaria o escritor e assistir pela TV o artefato explodindo. Perfeito!
No dia do lançamento ele foi até a loja mais cedo e ficou lá, esperando os funcionários terminarem os preparativos para a noite de autógrafos. Queria ter certeza de colocar a bomba no lugar certo. De vez em quando olhava no casaco e vislumbrava a bomba e o relógio preso a ela. Faltava pouco para se tornar famoso. 
Quando se sentiu seguro, tirou a bomba do bolso e abaixou-se para prender a bomba. Para isso, era necessário ajustar o relógio e retirar o plástico que cobria o adesivo. Quando fez isso, percebeu que a mão ficara presa à bomba. Talvez fosse uma reação à gordura do Doritos, mas o fato é que nem com os maiores esforços ele conseguia desgrudá-la. 
Pior: o relógio travara e a bomba iria explodir em minutos! 
Beto Norberto levantou-se, sacudindo as mãos e saiu correndo na direção da saída, derrubando clientes e estantes no caminho. Os segundos iam tiquetaqueando em sua mão, enquanto ele corria resfolegando pelos corredores do shopping. Finalmente achou o banheiro e enfiou a mão dentro de uma privada. Achou que isso iria parar o processo, mas estava errado. O relógio era à prova de água! Felizmente o líquido da privada ajudou a desgrudar sua mão. 
Beto Norberto saiu do banheiro sem lavar a mão. Já estava longe quando ouviu um estrondo. 
Na mesma noite uma das matérias falava de um gordo que fizera uma brincadeira explodindo um vaso sanitário no banheiro de um shopping. As imagens de segurança o mostravam saindo do banheiro com as calças molhadas. 
Era o cúmulo da humilhação. Além de não ter conseguido o que queria, Beto Norberto ainda havia sido filmado depois de ter urinado na própria calça! 
Só restava a saída honrada do suicídio. Pelo menos isso ele aprendera com os milhares de mangás que baixara pelo Torrent. Mas todos deveriam saber que o  escritor era o culpado. Ele aparecia no jornal doando dinheiro para instituições de caridade, fazendo visitas a asilos e creches. Todos o idolatravam, mas ninguém sabia a víbora que se escondia por trás daquela fantasia de bom moço. 
Beto Norberto escolheu um prédio abandonado em um local movimentado da cidade e subiu o máximo que pôde (enquanto ele subia, pensava em como era fácil arranjar prédios abandonados naquela cidade). 
Foi até a sacada, começou a gritar que ia se matar e esperou os repórteres. Acontece que nesse mesmo dia, no mesmo horário, estava ocorrendo um incêndio em um prédio na outra parte da cidade e todos os jornalistas estavam lá, fazendo a cobertura. 
Uma das redações de jornais chegou a receber uma ligação de alguém avisando sobre a tentativa de suicídio, mas o editor descartou logo: “Nosso único repórter livre está tentando descobrir onde está o babaca que explodiu o banheiro do shopping!”. 
Dessa forma, como não havia imprensa e como o gordo nunca se decidia a pular, a população foi perdendo o interesse. No final, ficou só uma velhinha. Surda. 
- Meu filho, por que você quer pular? 
- Quero mostrar que esse tal de José Augusto é um cretino. 
- Você não precisa pular daí para mostrar que é um cretino, meu filho. – respondeu a velhinha, desviando o olhar do tricô. 
- Não, Eu não disse nada disso, sua velha idiota. – gritou ele. 
- Também não é preciso pular para mostrar que é idiota. – sugeriu a velhinha. 
Era demais! A gota d´água! Beto Norberto sentiu que tinha chegado a hora de matar uma pessoa. Pouco importava que a velhinha fosse uma desconhecida. Alguma publicidade é melhor do que nenhuma...  ele ia descer lá, agarrar o pescoço da velhinha e apertar até que ela largasse aquele maldito tricô.... e depois ia apertar mais. 
Quando se levantou, alguma coisa estranha aconteceu. O parapeito pareceu escorregadio – ou talvez fosse sua mão, suada com o calor. Ele tentou se segurar, mas os pés também escorregavam. Por fim caiu. 
Acordou no quarto de um hospital com sua mãe ao lado, chorando e enxugando as lágrimas com um lenço sujo. 
- Oh, meu filho, fiquei tão preocupada! Que susto... Não, não fale, meu filho. O médico disse que você não deve falar por um bom tempo. Ele disse também que o fato de você ter subido só até o segundo andar ajudou. Além disso, a gordura ajudou a diminuir o impacto da queda. Ah, eu sabia que o mingau de Mucilon que eu te dava quando era criança um dia ainda salvar a sua vida! Fiquei tão feliz que comprei um presente para o meu garoto predileto... 
Disse isso e pegou um pacote de presente. Como o filho estava com os braços quebrados, ela mesma abriu. 
- Enquanto você estava desacordado, falava o tempo todo em um tal de José Augusto. Fiquei tão curiosa  que resolvi pesquisar e descobri que esse José Augusto é um escritor famoso.  Já que você gosta tanto, comprei toda a obra dele e vou ler todos os livros para você...  até o meu menino ficar bom. 
Beto Norberto queria estar morto. Ou matar alguém. 

Virada nerd Macapá

Eu estarei amanhã, sábado, na Virada Nerd Macapá, ministrando uma palestra sobre roteiro para quadrinhos. O evento acontecerá durante todo o sábado e domingo e minha palestra será a partir das 17 horas. A Virada Nerd Macapá é promovido pela loja Kaverna e acontecerá no terceiro piso do shopping Macapá.

Como ser enganado por um psicopata em Camiño di Rato

Camiño di Rato é uma das mais longevas revistas alternativas brasileiras, editada pelo roteirista Matheus Moura. Eu colaborei desde o primeiro número, com a história “Como ser enganado por um psicopata”, desenhada pelo Antonio Eder. Na história eu conto, em tom humorístico, a vez em que conheci um psicopata social e como eu e outras pessoas foram enganadas por ele. Foi graças a esse caso que comecei a pesquisar sobre o assunto. Antonio Eder sempre me surpreende positivamente. Seu traço consegue deixar qualquer roteiro mais interessante do que o roteirista havia imaginado. 

Endomarketing


O contrário da fidelidade é deserção. Existem muitas razões para que o cliente deixe de ser fiel a uma empresa. A principal delas, depois da má qualidade do produto, é o desempenho deficiente de funcionários. Funcionários desmotivados, emburrados e despreparados são um verdadeiro afasta-clientes. Por outro lado, trabalhadores competentes, motivados e fiéis à empresa tendem a conhecer melhor o cliente e garantir sua satisfação.
Manter o funcionário motivado para que ele atenda bem o cliente tem sido um desafio diário para a maioria das empresas. Inúmeras estratégias têm sido desenvolvidas com essa finalidade, mas não há consenso sobre o que de fato funciona.
Então, como saber se estamos no caminho certo?
Primeiro, olhe atentamente para seus funcionários: eles parecem felizes ou parecem estar ali apenas cumprindo uma obrigação? Eles sabem com clareza qual é o seu papel na estrutura da empresa? Eles têm consciência do que a empresa espera deles?
As respostas para essas perguntas vão dar uma noção do grau de envolvimento e motivação dos funcionários com a empresa. E funcionário motivado é funcionário que produz.
Motivar é dar motivos a alguém para que se porte de determinada forma. Logo, se eu quero que meus funcionários encantem meus consumidores, tenho que dar motivos a eles para tal. Convencê-los. E isso não é tarefa fácil, todos sabem. Mas é uma das mais valiosas estratégias mercadológicas, e a que mais contagia.
Um funcionário que acredita na empresa vai multiplicar a crença de que vale a pena trabalhar ali. E, por conseguinte, que vale a pena consumir ali.

Empresas como Volvo, Caterpillar e Serasa, sempre listadas no guia Exame de melhores empresas para trabalhar certamente já fazem a sua parte para desenvolver o endomarketing e, com isso, conquistar mais mercados.