sábado, julho 28, 2018

Blade Runner


Philip K. Dick era um cara que tinha problemas com a realidade. Ou a realidade tinha um problema com ele. O fato é que parecia haver uma desconfiança mútua e isso se reflete em todas as obras do autor. Há quase sempre um questionamento sobre o que é real.
O livro “Do Androids Dream o Eletric Sheep ?”(“ Sonham os Andróides com Ovelhas Elétricas?”, numa tradução livre), lançado em 1968, é um exemplo disso.
Nele, um ex-policial, agora um caçador de recompensas caça androides renegados para realizar seu sonho de comprar uma ovelha de verdade – no futuro descrito no livro, animais de verdade são extremamente raros e só os ricos os possuem.
O protagonista é contratado para “aposentar” seis androides modelo Os Nexus-6, tão perfeitos que é quase impossível distingui-los dos humanos normais.
Em 1982, Ridley Scott adaptou o livro para as telas sob o título de Blade Runner e tornou a discussão levantada no filme ainda mais óbvia: se androides, seres criados pelos homens são tão perfeitos a ponto de parecerem humanos reais, o que nos difere deles?
No filme, essa questão gira em torno do unicórnio, ser mitológico, que existe apenas na imaginação. Na versão do diretor a cena final, cortada na época do lançamento do livro, o unicórnio é a chave para decifrarmos que talvez o caçador de androides seja também ele um andróide.
Apesar do sucesso relativo na época, Blade Runner foi aos poucos se tornando cultuado, sendo considerado hoje em dia um dos mais importantes filmes de ficção científica de todos os tempos... e certamente um dos que melhor discutem a questão do que é real e do que é humano. 

sexta-feira, julho 27, 2018

Como eram identificados os prisioneiros dos campos de concentração?


A grande quantidade de prisioneiros fazia com que se tornasse necessário um método rápido de identificação, especialmente para aqueles que fossem enviados para fazer trabalhos fora do campo. Esse método deveria mostrar, ao primeiro olhar, a que categoria o preso pertencia, pois cada categoria tinha um tratamento diferente.
Os judeus usavam dois triangulos amarelos, formando a estrela de davi, com a palavra judeu escrita no meio. Os que eram considerados apenas parcialmente judeus usavam apenas um triangulo amarelo.
Os dissidentes políticos e socialistas usavam um triângulo vermelho.
O triângulo roxo era destinado aos testemunhas de jeová.
O triângulo azul era usado para imigrantes.
O triângulo castanho destinava-se a ciganos.
As lésbicas usavam um triângulo negro, assim como os álcoolatras.
Os homossexuais usavam um triângulo rosa.
Finalmente, o triângulo verde era destinado aos criminosos comuns, que recebiam privilégios especiais  e tinham poder sobre os outros prisioneiros. 

Cavaleiro das trevas, a obra-prima de Frank Miller



No início da década de 1980, Frank Miller era o grande nome dos quadrinhos americanos. Depois de salvar a revista do Demolidor do cancelamento, transformando-a num campeão de vendas, ele foi contratado para a DC Comics na qualidade de astro.
Seu primeiro trabalho para a editora, Ronin, foi aplaudido pela crítica, fez sucesso e abriu as portas para a invasão dos mangás, mas não chegou a ser algo bombástico. O grande sucesso mesmo viria com a minissérie Batman - Cavaleiro das Trevas, de 1986.
Cavaleiro das Trevas foi um arrasa-quarteirão que mudaria para sempre a história dos quadrinhos de super-heróis, a começar pelo formato de luxo em que foi lançado, chamando atenção dos leitores adultos e da imprensa.
A história se passa em um futuro em que os super-heróis foram proibidos. Aposentado após a morte de seu parceiro Robin, Bruce Wayne é um homem amargurado pelos fantasmas do passado e pela percepção de que a cidade que protegeu durante anos está se transformando em um completo caos de violência urbana.
Sua volta à ação marca também o retorno dos vilões Duas Caras e Coringa e a tensão com o Super-homem, o único herói com autorização para agir.
Miller foi revolucionário em tudo, a começar pela forma de contar a história, usando e abusando das elipses. Elipses são pulos na narrativa, partes não mostradas pelo quadrinistas e que são completadas pelo leitor. Os quadrinhos usam as elipses o tempo todo: o personagem se levanta da cadeira, no quadro seguinte está na porta de casa: todo o trajeto entre uma ação e outra é completado pela imaginação do leitor. Miller levou o recurso a patamares nunca explorados em especial na sequência em que o Batman volta à ação: o leitor nunca vê o herói, e sim as consequências de sua ação. Quando ele finalmente surge é numa grandiosa splash page, de enorme impacto.
Outra revolução de Miller foi introduzir quadros televisivos como elementos narrativos. Quando vemos Batman pela primeira vez, por exemplo, as telas mostram pessoas comuns comentando sua aparição. Além disso, a narrativa televisiva muitas vezes ajudando o leitor a entender as elipses – exemplo disso é a mulher cuja bolsa é revistada pela gangue mutante e que sai feliz ao descobrir que não foi roubada – na sequência, uma jornalista informa: “Mulher explode numa estação de metrô! Noticiário completo às onze...”.
As telas de televisão também funcionam como um acréscimo de aprofundamento ao mostrar debates sobre a ação do herói. É nesses inserts que Miller irá colocar uma das questões mais interessantes da obra: seriam os vilões uma consequência dos super-heróis? Ou seria o contrário? A obra não dá respostas fáceis, deixando muito mais perguntas que certezas.
Outra inovação de Miller foi mostrar o Batman como alguém que capaz de qualquer coisa para conseguir seus objetivos – inclusive usar uma criança como aliada no combate ao crime ou torturar um bandido para conseguir uma informação. Maníaco? Visionário? Herói? Vilão? Junto com A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland, Cavaleiro das Trevas transformou o Batman em um herói tridimensional, um dos mais complexos do universo DC.
Miller continuou sua abordagem sobre o personagem em uma outra série, Batman ano um, com desenhos de David Mazzuchelli, em que contava os primeiros anos do herói.
Como resultado, Batman se tornou o herói mais popular da época, uma verdadeira mania, com várias revistas derivadas e especiais.
No Brasil, Cavaleiro das Trevas foi a obra que inaugurou a era das graphic novels. O sucesso da série fez com que a Abril lançasse várias outras minisséries de luxo e até uma coleção, Graphic Novel, apenas com histórias fechadas, em papelo gouchê.

quinta-feira, julho 26, 2018

A insólita Família Titã


No inicio da década de 1990, o desenhista Joe Bennett ainda não tinha iniciado sua vasta produção para o mercado norte-americano de super-heróis, no qual atuaria com personagens como Batman, Homem-Aranha, Thor e tantos outros. Ele ainda assinava seus trabalhos como Bené Nascimento.
Na época, um segmento que andava em alta era o de quadrinhos eróticos, e Bené tinha total liberdade de criação para realizar seus trabalhos para a Editora Sampa. Foi nessa fase que ele, em parceria com o escritor Gian Danton, produziu diversas HQs focadas no horror e na fantasia.
A Insólita Família Titã foi publicada nessa época em diversas revistas eróticas (numa tiragem total de mais de 150 mil exemplares), e ganhou muitos fãs, além de ter conquistado novos adeptos a partir do ano 2000, quando foi difundida na Internet.
Em 2014 a editora Opera Graphica relançou a história no formato de álbum de luxo, com textos sobre a importância da história e biografia dos autores, além de mais uma HQ, Powers, tornando-se um item de colecionador para os fãs dos super-heróis brasileiros.
Valor: 25 reais, frete incluso. 
Pedidos: profivancarlo@gmail.com. 

O Tico-tico, a primeira revista brasileira de quadrinhos


O Tico-tico foi a primeira revista em quadrinhos do Brasil. Conta a lenda, impressa na capa do primeiro número, que um grupo de pirralhos foi até a revista O Malho exigir que fosse criada uma publicação específica para eles.

Na verdade, o dono de O Malho, estava de olho nesse novo e crescente mercado representado pelas crianças. Um mercado, aliás, que durante anos não teria qualquer concorrência.

O primeiro número saiu em 11 de outubro de 1905 e seguia o modelo da revista francesa La Semaine de Suzette. Tinha quatro páginas coloridas. As outras usavam uma combinação de branco com vermelho, verde ou azul.
Custava 200 reis, preço que manteve até 1920.

Embora a inspiração fosse francesa, o personagem principal, Chiquinho, era um decalque de Buster Brown, do norte-americano Richard Outcault, publicado no jornal The New York Herald. O personagem era um garoto travesso que fazia as maiores traquinagens e acabava muitas vezes apanhando. Seu inseparável companheiro era o cão Tige. No Brasil, o desenhista Luís Gomes Loureiro adaptou o personagem, renomeando-o de Chiquinho. O cão virou Jagunço, e logo a série ganhou um coadjuvante, o negrinho Benjamin, retratado com a visão que se tinha do negro na época: descalço, lábios grossos, roupas simples e subserviente. Embora fosse um decalque, a adaptação ficou tão boa que durante muito tempo acreditou-se que Chiquinho era um típico personagem brasileiro.

A descoberta da origem do personagem se deu na década de 1950, quando um grupo de desenhistas novatos comparou Chiquinho com Buster Brown. Entretanto, Chiquinho tem sido reabilitado por ter conseguido se adaptar à realidade brasileira. Além disso, os decalques pareciam ser moda na época. Na Holanda, o garoto virou Sjors, do clube dos rebeldes, uma série reverenciada até hoje e de grande influência nos quadrinhos locais.

Alguns dos mais importantes artistas gráficos do Brasil colaboraram com O Tico-Tico. Entre eles, J. Carlos, um cartunista que conseguiu criar um traço único, tão diferente e simples que seus trabalhos constam no Museu das Caricaturas, na Basiléia. Segundo estudiosos, um desenho seu de um papagaio serviu de inspiração para que Walt Disney criasse o Zé Carioca. Na revista O Tico-tico ele ficou famoso pela personagem Lamparina, uma negrinha do morro que vivia pregando peças nos adultos.

Outro que se destacou foi Luiz Sá. Com seus personagens redondos, ele foi o pioneiro da arte da animação no Brasil, tendo feito um desenho em sequência com mais de cem metros, que nunca foi exibido por falta de patrocínio.  Para a publicação, ele criou Reco-reco, Bolão e Azeitona, um trio de garotos que apareceram de 1931 até o fechamento da revista na década de 1960.   

Finalmente, Max Yanton foi outra estrela da revista. Ele era especializado em tipos pitorescos, vagabundos e sem família. Sua criação mais famosa foi Kaximbown, de 1908, um aventureiro que nunca pagou seu empregado Pipoca e vivia se dando mal a cada episódio. O personagem ficou tão famoso que Rui Barbosa só chamava o desenhista de Kaxibown. 

quarta-feira, julho 25, 2018

Guia dos Mochileiros das galáxias


O Guia dos Mochileiros das galáxias surgiu inicialmente como um programa de rádio idealizado por Douglas Adams e transmitido pela BBC em 1978. Pouco tempo depois se tornou uma coleção de cinco livros, publicados entre 1979 e 1992.
A história trata das andanças estelares de um herói atrapalhado e seu amigo extraterrestre após a destruição da terra para a construção de uma via espacial (os responsáveis, os Vogons, seres tão burocráticos que não se importam com o fato da terra ser habitada).
O título refere-se a uma espécie de enciclopédia multi-uso que traz todas as informações necessárias para um mochileiro interestelar. A ideia surgiu ao escritor em sonho quando ele dormia bêbado em um campo na Áustria e é uma referência a um guia de viagem pela Europa famosa na época.
Pela descrição do autor, o livro é uma espécie de tablet no qual é possível acessar as mais diversas informações relevantes, como a importância da toalha – Sim, a toalha é um dos itens mais importantes na mochila de qualquer aventureiro. Com ela você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kabrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você - estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.
A importância da toalha na trama é tal que o dia do orgulho nerd é chamado de dia da toalha justamente em homenagem à obra de Adams.
E, antes que eu me esqueça, sempre vale seguir o grande conselho do Guia, impresso em letras garrafais na capa do livro: NÃO ENTRE EM PÂNICO!

Por que os nazistas perseguiam os ciganos?


Os Ciganos sempre foram perseguidos na Europa. Da mesma forma que os judeus, eles formavam uma espécie de párias dentro da sociedade. Um dos aspectos que fez com que eles ganhassem uma péssima imagem foi o fato deles lidarem com profissiões mal-vistas pela igreja católica, ligadas ao entretenimento (músicos, dançarinos e advinhos), à morte (açougueiros) e à sujeira (ferreiros). Na Idade Média, dizia-se que os pregos que prenderam Jesus na cruz tinham sido feitos por um cigano.
Precoceitos desse tipo motivaram várias perseguições. Quando a Penísula Ibérica foi retomada dos árabes, os ciganos foram expulsos de lá. No século 16, eles também foram expulsos da França. Um lei inglesa proibia ser cigano. Nas Balcãs e na Romênia eles foram transformados em escravos.
Os nazistas se apropriaram dessa tradição ao perseguirem os ciganos, mas os antropólogos alemães se depararam com algo inesperado: o fato dos ciganos serem descendentes dos arianos. Seriam, na verdade, arianos que teriam voltado para a Europa depois de terem ido para o Oriente.
Esse dilema foi resolvido pelo professor Hans Gunter, que escreveu: “Os ciganos retiveram na verdade alguns elementos da sua origem nórdica, mas eles descendem das classes mais baixas da população dessa região. No decurso da sua migração, eles absorveram o sangue dos povos circundantes, tornando-se assim uma mistura racial oriental, asiática-ocidental com uma adição de ascendência indiana, centro-asiática e europeia”.
Em outras palavras, os ciganos eram arianos decandentes, rebaixados pela mistura racial e, como tal, deveriam ser também perseguidos. 

Monstro do Pântano 36

Embora toda a fase de Alan Moore no Monstro do Pântano seja genial, a história do número 36 se destaca pela narrativa. Lançada em maio de 1985, ela mostra uma mesma história contada pelo ponto de vista de vários personagens.

terça-feira, julho 24, 2018

A arte fantástica de Josephine Lilac


Josephine Lilac é uma artista inglesa especializada em fantasia. Seu estilo mistura influências do surrealismo e do romantismo. Confira abaixo alguns trabalhos dessa grande artista. 





segunda-feira, julho 23, 2018

Por que os nazistas resolveram usar as câmeras de gás?


Assassinatos de judeus, ciganos e eslavos aconteceram desde o início da II Guerra Mundial. Assim que os alemães conquistavam um lugar, vinha logo depois as tropas da SS exterminar pessoas indesejadas. Eram os eisatzgruppen (operações móveis de assassinato). Incialmente usava-se o fuzilamento. Era comum juntar pessoas em um local fechado, como uma sinagoga, e acionar uma metralhadora. Para isso, os nazistas muitas vezes contavam com voluntários locais, ucranianos, lituanos e letões, que ajudavam capturar, fuzilar e enterrar os corpos. Mas logo se descobriu que esse era um método custoso. Além de dar muito trabalho, usava munição que era necessária no front.
Um exemplo disso aconteceu em 15 de agosto de 1941, quando os nazistas resolveram fuzilar prisioneiros acusados de incitar uma revoltar contra os alemães na Bielo-Rússia.
As vítimas chegavam em caminhões. Quando viam as valas abertas, advinhavam o destino que teriam e saiam correndo, sendo alvejados várias vezes. “Era um enorme esforço para fuzilar 100 pessoas”, escreveu Himmler no seu diário.
Além disso, havia um efeito colateral. O assassinato de crianças, mulheres e velhos estaria abalando o moral dos soldados alemães.
Naquele dia o chefe nazista se convenceu de que era necessário arranjar uma maneira mais rápida, fácil e limpa de matar. Himmler incubiu um tenente da polícia técnica e científica da SS, Albert Widman, de encontrar uma resposta para essa questão.
Widman chegou a testar até caminhões com o cano descarga voltado para o local onde estavam presos os judeus, mas esse método gastava muita gasolina e nem sempre morriam todos.
A resposta foi o gás Zyklon B, um gás usado para matar piolhos e pulgas, mas que tinha o incoveniente de ser fatal para humanos.
“Essa história do gás me tranquilizou. Sempre tive horror das execuções com pelotões de fuzilamento. Fiquei aliviado ao pensar que seríamos poupados daquele banho de sangue”, admitiu Rudolf Hoss, comandante de Auschwitz. 

Fantasma, o espírito que anda


   
Lee Falk foi o primeiro rotei­rista importante dos quadri­nhos. Antes dele já existiam outros como Dan Moore e Das­hiel Hammett que, no entanto, não assinavam seus trabalhos. Já Lee Falk era um pai coruja: Fa­zia questão não só de assinar suas criações, como exigia controle to­tal sobre elas. Uma das poucas vezes em que ele perdeu esse controle foi quando o Fantasma passou a ser publicado no Brasil com a cor vermelha substituindo o azul ori­ginal — isso aconteceu porque a história chegou ao Brasil sem re­ferência de cor e o vermelho pos­sibilitava uma melhor reprodução para as obsoletas máquinas tupiniquins (aliás, essa mudança de cor aconteceu em diversos países justamente pela falta de referência de cores).
O primeiro personagem de Lee FaIk foi o mágico Mandrake, em 1934. Desenhado por Phil Da­vis, Mandrake era um mágico ra­cional, inspirado fisicamente no próprio Falk. O personagem, sempre envolvido em aventuras detetivescas, conquistou o público e é publicado até hoje. O grande sucesso de Falk, entretan­to, seria o personagem Fantas­ma, criado em 1936 e desenhado por Ray Moore.
O que diferencia o Fantasma de outros personagens é o seu ca­ráter de mito. Sua história pare­ce uma daquelas remotas lendas passadas de pai para filho: no ano de 1525 o único sobrevivente de um ataque pirata faz um jruamento: "Juro que dedicarei toda minha vida à tarefa de destruir a pirataria, a ganância, a crueldade e a injustiça. E meus filhos e os filhos de meus filhos me perpetuarão". Ele passa a usar, então, uma máscara e roupa colante e a perseguir malfeitores. Como o jura­mento valia também para seus descendentes, o povo da selva começou a pensar que o herói era imortal. Esse aspecto da tira deu um significado maior à história, tornando-a mitológica por excelência.  
“O espírito que anda” teve o mérito de ser o primeiro herói de quadrinhos a usar máscara e ma­lha colada ao corpo. Nesse senti­do, todos os super-heróis devem a ele o seu visual. Na primeira his­tória o personagem usava tam­bém uma luva, que abandonou devido à inconveniên­cia de ter de tirá-la toda vez que quisesse deixar a marca do Fantasma em um malfeitor.
O primeiro desenhista a ilus­trar o personagem foi Ray Moo­re. Seu traço sombrio ajudou a criar o clima de mistério que en­volve até hoje o herói mascarado.
    Fantasma de Ray Moore era atlético e sensual, com um forte toque “noir” realçado pelo som­breado pesado. Nenhum outro ar­tista conseguiu manter o nível de Moore, que desenhou o persona­gem de 1936 a 1942.
A partir de 1942, seu assisten­te Wilson McCoy pegou o perso­nagem. A princípio, McCoy seguiu a linha de Moore, tentando manter o nível de qualidade, mas com o tempo começou a ca­ricaturar os personagens dando a impressão de que as tiras eram feitas às pressas. Com a morte de McCoy, em 61, o Fantasma pas­sou a ser desenhado por Sy Barry, de traço bastante impessoal. Is­so deve ter ajudado para que ele tivesse uma multidão de assisten­tes - que muitas vezes faziam tu­do na história, tendo Sy Barry só o trabalho de assinar, quando muito.
Em 1977 o Fantasma se casou. A história, embora seja assinada por Sy Barry, foi desenhada pelo brasileiro André LeBlanc, que no Brasil foi um dos principais ilustradores dos livros de Monteiro Lobato, mas foi para os EUA, onde se tornou assistente de Will Eisner no Spirit antes de se juntar à equipe que ilustrava o Espírito que anda.
Lee Falk sabia que os detalhes fariam com que seu personagem ganhasse um aspecto de mito e não economizou neles, a começar pelos apelidos que o povo da floresta dão ao personagem, tais O Espírito-que-anda, o Homem que nunca morre, o Guardião das Trevas Orientais e outros. Os ditados referentes ao personagem também ficaram famoso: “O Fantasma é violento com os violentos”, “Dá medo ver o Fantasma enfurecido”, “O Fantasma atira mais rápido que o olhar”. Os símbolos também ajudam a compor a aura do personagem, como a caverna da caveira (local de sua moradia) e os anéis. O anel da caveira, usado na mão direita, marca os malfeitores, enquanto na mão esquerda fica um anel com a marca de proteção. Aqueles que têm essa marca serão sempre protegidos pelo personagem. Outros destaques são os companheiros animais do personagem, o lobo Capeto e cavalo branco Herói.
No Brasil o personagem fez muito sucesso nas década de 1940 e 1950, contribuindo para que seu editor, Roberto Marinho, ficasse rico o suficiente para montar uma emissora de TV, a Rede Globo. Atualmente, no Brasil, ele tem um público pequeno, mas fiel. Entretanto, em outros países, como a Austrália e a Escandinávia, ainda é o herói de quadrinhos de maior sucesso. Recentemente a revista do personagem alcançou o número 1.500, um recorde mundial.

domingo, julho 22, 2018

Thanos, final infinito



É sintomático que todas as sagas cósmicas escritas por Jim Starlin tenham o nome Infinito. De fato, depois do sucesso da primeira saga de Warlock e Thanos, parecia que o aproveitamento desses personagens seria infinito. A história acabava e retornava pouco depois. “Thanos, final infinito” se propõe a ser o capítulo final dessa saga, um título, aliás, paradoxal. Se é final, não pode ser infinito, mas enfim...
A história é continuação de duas sagas anterires, Thanos, revelação infinta e Thanos, relatividade infinita.
Na história deste último volume, O aniquilador, senhor da zona negativa, absorveu os poderes de Warlock e o utilizou para promover um genocídio estelar. Sobraram algumas poucos heróis e super-vilões, escondidos na Lua terrestre. Thanos, trazido de volta à vida por sua consorte, a Morte, pode ser a única esperança dos heróis.
Estamos falando de uma história de Jim Starlin e ele é simplemente o melhor no que faz, a começar pela decisão acertada de focar a narrativa em Thanos, mostrando o ponto de um vista de um deus maligno. Esse enfoque faz com que história ganhe peso psicológico e filosófico. Mas o maior destaque é para a corajosa sequência de epifania de Warlock. Starlin é um dos poucos caras da indústria corajosos o suficiente para parar a história do meio a ação vertiginosa para introduzir 16 páginas de pura filosofia (ou o que seria equivalente de filosofia de uma entidade cósmica).
Vale lembrar que, embora o filme dos vingadores tenha mudado muita coisa, os roteiristas mantiveram essa caraceterística starliana na sequência em que Thanos encontra Gamora criança e ela lhe pergunta se valeu a pena tudo que ele fez.
Os desenhos de Ron Lin, que eram bem ruins na época de Desafio Infinito melhoraram muito e lembram muito os desenhos do próprio Starlin.

sábado, julho 21, 2018

Quem foi Joseph Mengele?


Mengue foi um dos principais criminosos de guerra nazistas, responsáveis por alguns dos momentos mais cruéis da perseguição a judeus, ciganos e outras minorias. No campo de Auschwitz era chamado de Anjo da morte.
Mengele nasceu na Alemanha, em 1911 e estudou medicina e filosofia na Universidade de Munique.  Foi discípulo de Ernst Rudin, um cientista que defendia que os médicos tinham o dever de eliminar criaturas indesejáveis, como judeus, ciganos, homossexuais e deformados.
Em 1943 foi designado para Auschwitz como Coronel-Médico da SS. Lá, comandou o massacre de judeus. Ao separar os que iam morrer dos iam sobreviver, ele escolhia para seu zoológico aqueles que seriam vítimas de suas terríveis experiências. Era realmente fascinado por gêmeos. Quando um deles morria, mandava imediatamente matar o outro para poder fazer uma autópsia simultânea, comparando as duas fisiologias.
Também gostava de anões de deficientes físicos. Apreciava de dissecá-los vivos, sem anestesia, na tentativa de provar que as deformidades eram fruto da miscigenação das raças.
Também comandou experiências sobre calor e frio, indentificando até que ponto o ser humano podia aguentar os extremos desses dois estados.
Há o caso de dois gêmeos, que ele amputou e uniu, para saber se haveria rejeição. Eles gritaram de dor até a morte por gangrena.
Ele também injetava pinta azul nos olhos de crianças, na tentativa de transformá-las em arianos puros.

Com o fim da guerra, fugiu e escondeu-se na Alemanha até 1949. Depois foi para a Argentina e para o Brasil, onde viveu num sítio próximo de São Paulo, ouvindo Mozart e Wagner e sustentado por amigos nazistas. Morreu afogado numa praia de Bertioga, em 1979. 

A arte polêmica de Caravaggio


Michelangelo Merisi da Caravaggio é um dos grandes nomes do barroco italiano. Sua obra é considerada uma das mais emblemáticas do período, entretanto provocou grande polêmica à época por retratar figuras bíblicas com feições de pessoas comuns da italiana renascentistas, inclusive prostitutas e cafetões amigos seus. Sua obra angariou severos críticos, mas também apaixonados admiradores. Confira algumas pinturas desse controverso artista.  










sexta-feira, julho 20, 2018

A Salamanca do Jarau



À primeira vista, título e capa de A Salamanca do Jarau podem assustar os leitores de quadrinhos. Afinal, o que é Salamanca? O que é jarau? E a capa não nos dá muitas pistas sobre o conteúdo. Entretanto, quem se aventurar a comprar essa graphic novel de Kipper (baseada na obra homônima de Simões Lopes Neto), editada pela editora Estronho, vai se surpreender com o que pode ser um dos melhores lançamentos do ano.
Kipper é um veterano dos quadrinhos (em 1991 ele fez a capa do volume Zona do Crepúsculo, com histórias minhas em parceria com o compadre Joe Bennett). Entre seus trabalhos mais famosos estão a revista Front.
Simões Lopes Neto é um dos grandes folclorista do Rio Grande do Sul, tendo reunido em sua literatura os causos e o modo de falar do gaúcho.
A Salamanca do Jarau narra uma história longa e complexa, que reúne a mitologia indígena do sul com as lendas europeias, em especial da moura encantada, princesas míticas que guardavam tesouros.
Blau Nunes, um típico gaúcho procura um velho mágico, conhece a história da Moura e passa por sete provas, ao final ganhando um prêmio que se revela uma maldição.
A linguagem do álbum é tanto mérito quanto dificuldade. Mérito porque dá o tom correto narrativa, dificuldade porque exige do leitor muita atenção para entender o que está sendo dito. Logo de entrada, temos: “Um dia, um gaúcho pobre, Blau de nome, guasca de bom porte. Mas que só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais. Estava conchavado de posteiro. Ali na estrada do rincão. E nesse dia andava campeando um boi barroso”.
Felizmente há um glossário no final do volume, que torna menos dificultosa a tarefa de entender o dialeto gaúcho.
Kipper é um quadrinista que une o talento sequencial ao melhor das artes plásticas.
Ou seja: é um volume lindo de ver e interessante de ler.
De negativo apenas o balonamento. O álbum lembra muito os quadrinhos europeus e ficaria com um ar ainda mais interessante se seguisse os tipos usados na Europa, ao invés da tipologia americana utilizada.

O seriado do Demolidor e a linguagem dos quadrinhos

Durante muitos anos se afirmou que os quadrinhos emburreciam as crianças, pois mostravam tudo e não deixavam nada para a imaginação. Quem disse isso, claro, nunca leu quadrinhos. A imaginação do leitor trabalha entre um quadro e outro, completando aquilo que não é mostrado. Essa é a grande característica da linguagem dos quadrinhos: elipses entre uma ação e outra que são completadas pelo leitor, que deve, obrigatoriamente, ser ativo nesse processo, ou não vai entender nada. 
Ao adptar quadrinhos para cinema e TV, diretores tentaram usar elementos da linguagem de quadrinhos, como requadros simultâneos, balões, onomatopéias. Mas o melhor acerto veio da série do Demolidor, que se apropriou dessas elipses: o expectador muitas vezes não vê o que está acontecendo, e apenas imagina, completa a ação que não é mostrada.
Numa época de filmes de ação desenfreada ou verborragia pseudo-intelectual, series como essa salvam o dia.

quinta-feira, julho 19, 2018

Planeta dos macacos


Planeta dos Macacos, filme de 1969, dirigido por Franklin J. Schaffner, é uma daquelas obras que, em meio à aventura e à ficção científica, fazem a plateia pensar. Nele, astronautas cruzam o espaço e caem numa terra estranha, em que os humanos são selvagens que não falam e os macacos dominam. Posteriormente fica claro que se trata de uma terra do futuro, na famosa cena de Charlton Heston diante da estátua da liberdade meio encoberta pela areia.
A sacada mais genial do filme (a revelação final) foi, provavelmente, obra do roteirista Rod Serling, que já havia usado um final parecido em um episódio do seriado Além da Imaginação, em que astronautas caem em um planeta e acabam se matando uns aos outros achando que não encontrarão água e comida para só depois descobrirem que estavam no deserto do Novo México.
A genialidade do filme está não só em ter cenas inesquecíveis, ou ser uma das melhores ficções científicas de todos os tempos, mas também em refletir sobre a questão do humano e a cegueira dos paradigmas.
O filme teve sequências, um seriado de TV, um desenho animado, a pífia refilmagem de Tim Burton e agora estreia mais uma série de filmes. Mas nenhuma dessas obras chega ao menos perto da pungente versão original de 1969.

Príncipe Valente, o grande clássico dos quadrinhos


O Príncipe Valente surgiu no do­mingo de 13 de fevereiro de 1937. O seu criador, Hall Foster, entretanto, o havia imaginado desde 1934, quando fazia as historias de Tarzan para a United Features Syndicate. Em 1936 ele ofereceu à distribuidora seu personagem medieval. Mas United queria que ele fizesse uma tira diária e, caso tivesse sucesso, passaria a uma página dominical colorida. Foster, de traço muito detalhado para tiras diárias, preferiu apresentar seu personagem à concorrente King Features Syndi­cate , a mesma que publicava o Flash Gordon de Raymond.
    A KFS aceitou na hora e, fevereiro de 1937 saia a primeira prancha de Príncipe Valente. O personagem deveria se chamar Arn, mas a distribuidora achou que Valente teria um maior impacto nas vendas. Foster aceitou, mas posteriormente deu o nome de Arn ao filho do protagonista.
    Príncipe Valente se passava numa Idade Média romântica, dos tempos do Rei Arthur. Assim, o jovem príncipe, descendente de um trono que foi tomado pelos bárbaros, vive várias aventuras até chegar a Camelot, tornando-se um dos membros da Távola Redonda. A pesquisa histórica é impressionante. Foster comprava livros e percorria museus, coletando informações sobre as roupas, costumes e arquitetura da época. Apesar de, visualmente, a história ser uma reprodução fiel do período histórico, Foster não se prendia à cronologia. Cavaleiros medievais conviviam com soldados romanos e até com dinossauros.
    Para não perder nada de seus desenhos detalhistas, Foster não usava balões. A narrativa e os diálogos eram acomodados abaixo dos quadros. Apesar disso, o autor explorou bem a linguagem dos quadrinhos, com seqüências dinâmicas poucas vezes vistas. Se o desenho está entre os melhores já surgidos nas histórias em quadrinhos, o texto não ficava atrás. Sem cair na redundância, eles complementavam perfeitamente as imagens.
A qualidade da historieta era tão notória (tanto em termos de desenho, quan­to de texto) que Príncipe Va­lente foi uma das poucas HQs poupadas pela caça aos quadrinhos da década de 50.
Príncipe Valente foi o primeiro personagem de quadrinhos a envelhecer, na proporção de um ano para cada dois anos dos leitores. Ele se casou, teve filhos e o príncipe Arn já é, hoje, mais velho do que seu pai era quando começaram as aventuras.
As pranchas de Príncipe Valente foram publicadas em álbuns luxuosos pela Editora Brasil-América – Ebal – com grande sucesso e essa coleção está sendo relançada pela Opera Graphica. Não existe colecionar sério de quadrinhos que não tenha pelo menos um livro dessa obra-prima em sua estante.

quarta-feira, julho 18, 2018

O cão da meia-noite, de Marcos Rey


No final do século XIX e início do século XX a literatura brasileira era dominada pelos parnasianos. Um dos princípios dessa corrente literária era a linguagem empolada, difícil, afastada do populacho. Monteiro Lobato foi o primeiro a se revoltar contra essa maneira de escrever - a ponto de se recusar a ser chamado de escritor, pois associava o nome à "alta literatura" e, por tabela, aos parnasianos. Para Lobato, a literatura devia falar a língua do povo, repetir suas gírias e modos de dizer. Posteriormente, essa proposta seria levada a cabo pelos modernistas, mas ninguém conseguiu encarnar a proposta de Lobato de maneira tão completa e perfeita como Marcos Rey. O grande autor de livros juvenis, cujo pai era encadernador na gráfica lobatiana, conseguiu como ninguém apanhar o jeito de falar de toda gente e transformá-lo em palavra impressa. Ótimo exemplo disso é o livro de contos O cão da meia-noite (Global editora, 216 páginas). 
No volume, Rey conta histórias de pessoas normais que acabam sendo envolvidas em algum tipo de drama. Algo em comum em todos eles é iniciar com um episódio cotidiano, pitoresco (como amigos que se encontram num bar, ou um homem que resolve adotar um cachorro), que vai se tornado mais e mais complexo ao correr das páginas. 

No primeiro conto, "Eu e meu fusca", vemos o que parece ser o relato apenas de um garoto viciado em seu carro, mas que logo se torna uma história policial no melhor estilo serial killer (provavelmente um dos primeiros textos ficcionais sobre o assunto escritos no Brasil). Todo narrado em primeira pessoa, o texto repete as gírias das ruas da década de 1960.

Em "O bar dos cento e tantos dias" um redator publicitário desempregado conhece um boêmio que lhe dá dicas de empregos (quase sempre furadas) enquanto lhe ensina a "observar o espetáculo da cidade" e seus personagens - um exercício que certamente o autor fez à exaustão, a se tirar pela fauna presente nesse livro. 

No conto que dá título ao livro vemos um homem que encontra um cachorro de rua e resolve leva-lo para casa e cuidar dele. Ocorre que se trata de um cão de rua, incapaz de viver preso. O que começa como um simples gesto de carinho acaba se tornando uma obsessão assassina e acabamos tendo mais uma história policial. Para entender "A escalação" é interessante saber que Marcos Rey foi roteirista de cinema, mais especificamente da pornochanchada, o que lhe permite falar com muita propriedade do assunto. No texto, um produtor cinematográfico reúne o elenco de seu novo filme, mas joga psicologicamente com cada um deles de modo a sempre ganhar. Ali temos desde o roteirista que aceita qualquer salário porque é perseguido pela ditadura e ninguém quer lhe dar emprego até a atriz decadente em busca de um papel que a traga de volta à cena. 

Muito difícil escolher o melhor conto num livro de pérolas como esse, mas se fosse necessário, eu escolheria "O adhemarista". O mote é simples, quase irrisório: um taxista que faz campanha para Adhemar de Barros num texto narrado por um amigo igualmente taxista. Nada demais. Mas Marcos Rey nos revela neste conto uma verve psicológica, um talento para coletar tipos e a capacidade de escrever como as pessoas de determinada época falavam de maneira ímpar. Saca só: 

"Aquela foi a semana mais quente que o Moa (Moacir) viveu na puta da vida. Nós, do ponto, é que sabíamos. Quente, digo, em toda parte. No carro, na rua, na sede do partido, na Lila, em casa. O homem estava envenenado, com fé em Deus e pé na tábua, dormindo só uma três horas por noite. Foi também a semana do papo, da lábia, da saliva, dia e noite de campanha, amarrando votos, aliciando os indecisos. Nunca vi na life um cabo eleitoral com tanta corda, tanta garra, tanto embalo".

Não bastasse a ótima análise do tipo fanático, que transforma política em torcida de futebol e coloca a eleição acima de tudo, Marcos Rey ainda constrói sua narrativa como um verdadeiro suspense policial, em que o mistério não é saber quem é o assassino, mas quem irá ganhar a eleição. 

"Soy loco por ti, América!", repete o tema de "A escalação". Nele, vemos uma festa de granfinos e estrelas do cinema e da televisão no dia anterior ao golpe militar. Regada a lança-perfumes, a festa, que começa tímida, torna-se um verdadeiro circo, com direito a gay enrustido, que de repente se interessa por uma atriz, para desespero de seu parceiro assumido, a atriz que humilha o produtor que a recusou antes da fama e anfitrião que filma tudo. 

Em "Traje de rigor" encontram-se no bar quatro homens muito diferentes: um publicitário (cujos slogans, como "Mil a vista e o resto a perder de vista", lhe renderam um ótimo salário), um jornalista decadente, que parece interessado unicamente em vender um revólver para qualquer um que encontre, um velho cantor igualmente decadente e um homem de família, com filho doente em casa, que quer apenas levar uma lata de leite em pó para casa. Esses quatro juntam-se numa inesperada jornada pela noite de São Paulo que a vai se revelando mais e mais surpreendente a capa página (o homem de família, por exemplo, acaba se mostrando o mais bôemio). 
Finalmente, em "Mustangue cor-de-sangue" acompanhamos o relato de um redator de um programa infantil estrelado por um anão que no dia-a-dia é um devasso e, na ocasião, resolve transar justamente com a vedete pela qual o escriba é apaixonado. O conto oscila entre as tentativas do anão e as fugas da moça, interessada em um contrato na TV e os planos do intelectual para salvá-la e, ao mesmo tempo, tirar sua casquinha da moça. Daria uma ótima pornochanchada, como muitas das que foram escritas por Marcos Rey para a boca do lixo na década de 1970. Aqueles que, quando crianças e adolescentes se deliciaram com as histórias de Marcos Rey para a coleção Vaga-lume irão se deliciar ao descobrir esse outro lado do escritor. 

Literatura, racismo e petróleo

Leia o trecho: "Ele propôs-lhe morarem juntos, e ela concordou de braços abertos, feliz de meter-se de novo com um português, porque, como toda cafuza, não queria sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à sua". Parece racista, não? Esse é só um dos muitos exemplos de racismo encontrados na obra de de... Aluísio de Azevedo. O romance O cortiço, por exemplo, é todo construído a partir de ideias racistas – é um livro cujo racismo é a base a partir da qual foi construída a trama. Da mesma forma, vários outros escritores brasileiros do final do século XIX e início do século XX eram racistas e rechearam suas obras de textos racistas.
No entanto, você nunca viu capas de revistas com destaque para o racismo de Aluísio de Azevedo. Nunca viu campanhas na internet ou memes com suas frases racistas. Por que não? Por que Azevedo, assim como outros escritores racistas, nunca mexeu com petróleo.
Lobato morou algum tempo nos EUA e percebeu que a base da riqueza e do desenvolvimento daquele país estava no petróleo e no ferro. E voltou ao Brasil disposto a puxar uma campanha: o petróleo é nosso. Foi boicotado de todas as maneiras. Seus sócios foram mortos, ele foi preso, poços que jorravam petróleo foram concretados. Quando um dos entusiastas da campanha do petróleo foi equivocadamente para a sede da Standard Oil (conhecida como Shell) achando que era uma empresa nacional, o diretor regional explicou-lhe algumas verdades: “Vocês partem do ponto de vista de que o petróleo é um negócio nacional, de cada país. Não é. O petróleo é um negócio internacional da Standar. Ela criou esse negócio no mundo e o mantém contra tudo e contra todos. Contra a vontade da Standard país nenhum tira petróleo que haja em suas terras”. 
Lobato denunciou a situação em um livro para crianças, O poço do Visconde, e em um livro para adultos, O escândalo do petróleo e do ferro. Toda uma geração cresceu sabendo a importância do petróleo para a economia de um país e como esse petróleo era cobiçado pelas grandes companhas estrangerias.
A campanha O petróleo é nosso, criada por Lobato ganhou força na década de 1950. Foi quando começou a primeira campanha contra Lobato: acusavam-no de ser comunista para desacreditá-lo. No final, o petróleo foi nacionalizado, mas quem ganhou os créditos foi Getúlio Vargas, o mesmo que havia perseguido Lobato anos antes justamente por conta do petróleo.
Em 2011 começou uma nova campanha. Agora com foco no racismo. O objetivo não era alertar para o fato de que a maioria dos escritores do final do século XIX e início do século XX eram racistas e esse racismo, fruto de sua época, se refletia em sua obra (a exemplo do romance O cortiço, cujo racismo permeia todas as páginas). Era focada única e exclusivamente em Monteiro Lobato. Nenhum outro escritor era sequer citado. Dava a impressão que Lobato tinha inventado o racismo no Brasil. Mães apavoradas devolviam livros de Lobato nas livrarias.
E o que estava acontecendo em 2011? Começava-se a discutir a venda dos direitos de exploração do pré-sal para empresas estrangeiras (foram vendidos alguns já naquela época e outras mais recentemente).          
Ninguém estrilou. Afinal, “O petróleo é nosso” passou a ser coisa de escritor racista. Coincidência?