segunda-feira, julho 09, 2018

Máquina do Tempo, de H. G. Wells


Viagens no tempo sempre existiram. Rip van Winkle, de Washington Irving, publicado em 1919, conta a lenda de um homem que dorme na floresta e acorda 20 anos depois. Um conto de Natal, de Dickens, publicado em 1843, conta a história de um homem avaro visitado por três espíritos que o levam ao passado, ao futuro e ao presente. Já Um Yanke na corte do rei Arthur, de 1889, escrito por Mark Twain, mostra as aventuras de um americano que retorna à Idade Média.
Mas as viagens no tempo se tornam um gênero próprio com A máquina do tempo, escrito por HG Wells e publicado em 1895. Até então as viagens eram involuntárias, fruto de acontecimentos fantásticos. Wells trouxe a ciência para a jogada. Seu protagonista não viaja no tempo graças a fantasmas ou seres sobrenaturais, mas com uma máquina construída graças ao progresso técnico.
O escritor britânico também inovou ao introduzir a crítica social e o paradigma evolucionista à trama. Na história, o protagonista viaja até o ano de 802.701 e vê uma Londres decadente, dominada por dois grupos: os Eloi, evoluídos a partir da aristocracia, que se transformam em seres diminutos, frágeis e ocioso e os Murdock, evoluídos a partir das classes trabalhadora, seres monstruosos, canibais, que vivem no subterrâneo.
Ao introduzir a ciência na viagem no tempo e usar o recurso para refletir sobre o mundo em vivemos e como será seu futuro, Wells abriu as portas para diversas outras obras, desde o ingênuo seriado Túnel do Tempo até o complexo filme Os 12 macacos.

Dick Tracy: o sucesso dos quadrinhos policiais



Dick Tracy, de Chester Gould, deu um toque urbano à era de ouro. Apesar dos roteiros muitas vezes realistas, in­clusive com mortes, Dick Tracy repre­sentava um sentimento de fuga do Norte americano de um dos seus pro­blemas mais graves: a forte crimina­lidade, comandada pelos gangsters que assolavam os EUA.
O personagem de Chester Gould não foi o primeiro policial dos quadrinhos. Antes dele já havia algumas tentativas, como Alex the cop, mas nenhuma obteve tanto sucesso.  E nenhuma ficou tão impregnada na mente dos leitores.
Chester Gould nasceu em Pawnee, no Oklahoma, a 20 de Novembro de 1900. Desde criança publicava ilustrações no jornal local, mas sua carreira como desenhista só iria deslanchar quando ele se mudou para Chigaco, em 1919, onde estudou na Universidade de Northwestern.
Antes de Dick Tracy ele chegou a desenhar uma série chamada The Girlfriends, de pouco sucesso. Ele percebeu que precisava de um novo tema para se destacar entre seus pares.
Nessa época Chicago era dominada por gangsteres. All Capone era o herói local e Gold ficou incomodado com a forma como os bandidos eram retratados. Na sua opinião, as pessoas precisavam de um outro modelo, uma pessoa decente e moralmente intocável. Ele criou, então, um detetive de queixo quadrado e chamou-o de Plainclothes Tracy. O editor gostou da idéia, mas sugeriu que o nome fosse mudado para Dick Tracy.
A história foi publicada em 04 de outubro de 1931, no Chicago Daily, mas logo estaria espalhada por muitos jornais nos EUA e no mundo.
Dick Tracy vivia num mundo em que a separação entre o bem e o mal era absoluta. Se ele representava o bom mocinho, os vilões eram o cúmulo da maldade. Aliás, segundo muitos autores, o sucesso da série se deve justamente aos ótimos vilões criados por Gould.
Tais vilões eram geralmente deformados, uma forma de mostrar, visualmente, sua moralidade distorcida (um recurso muito comum nos quadrinhos). Alguns desses vilões, mesmo aparecendo em apenas um episódio, tornaram-se queridos dos fãs. Flattop, foi um exemplo. Quarenta anos depois dele ter morrido nas tiras, os fãs ainda mandavam cartas ao autor lembrando de suas proezas.
O destino dos vilões era sempre cruel, embora raramente eles fossem mortos por Tracy. A maioria morria em situações provocadas por eles mesmos, como se sua falta de moralidade definisse seu destino. Assim, The Brow, ao tentar fugir de Tracy, pula por uma janela e acaba sendo espetado por um mastro de bandeira. Boris Arson e seus homens são dizimados por tigres que eles mesmo guardavam em seu esconderijo. 88 Key, tentando esconder-se num buraco durante uma tempestade de gela, acaba por se sufocar e morrer congelado.
Se os vilões morriam por suas próprias ações, Tracy sobrevivia a tudo.
O pesquisador de quadrinhos Herb Galewitz, analisando a obra de Gould, descobriu que o detetive havia sofrido 27 ferimentos com arma de fogo, apenas nos seus primeiros 30 anos de vida. Se não bastasse isso, ainda quebrou costelas, teve cegueira temporária e até chegou a ser internado numa clínica, precisando de aparelhos para continuar respirando. Apesar disso, ele sempre voltava para combater o crime.
Gould antecipou o telefone celular, comodamente instalado no pulso de Dick Tracy, e a importância do sistema de telecomunicações para as viagens espaciais, o que fez com que a revista National Geographic o chamasse de visionário. 
A importância de Dick Tracy se deve não só pela obra em si, mas também pela forma como influenciou outros personagens e artistas. Seus vilões serviram como base para os vilões estranhos de Batman, como o Coringa ou o Charada. Além disso, seu desenho simples, estilizado, com poucos traços, influenciou toda uma geração de artistas, entre eles o brasileiro Flávio Colin.

domingo, julho 08, 2018

Morreu Steve Ditko, o gênio dos quadrinhos

O meio quadrinístico foi surpreendido esta semana com a notícia da morte de Steve Ditko. Recluso, o corpo foi encontrado pela polícia dois dias após a morte.
Ditko foi um dos gênios responsáveis por transformarem a Marvel na maior editora de quadrinhos dos Estados Unidos. Ele começou a fazer quadrinhos no final da era de ouro e fez uma infinidade de histórias de terror para a Atlas (nome da Marvel na época).
Quando criou o Homem-aranha, Stan Lee chamou o desenhista para o título. Originalmente o personagem seria desenhado por Jack Kirby, mas a troca foi mais que acertada: o Peter Parker franzino e inseguro de Ditko foi um das razões pelas quais o título se tornou um campeão de vendas.
Ditko também criou o Dr. Estranho, maravilhando os leitores com as cenas psicodélicas de realidades paralelas. A marca de Ditko no personagem foi tão grande que ele só voltaria a ter uma fase equivalente na década de 1970, mas mãos de Steve Eglehart e Frank Brunner. Para a Charlton Ditko criou uma galeria de personagens que depois dariam origem aos "heróis" de Watchmen. Aliás, não só o Rorschach é baseado no personagem Questão, criado por Ditko como visualmente lembra muito o Mestre do Crime, um vilão criado por Ditko para o Homem-aranha.
Nada melhor para homenagear esse gênio do que apreciarmos sua arte.


















sábado, julho 07, 2018

Hitler era gay?


Segundo o historiador Lothar Macthan, sim. Macthan analisou diversos documentos para chegar a essa conclusão. Um deles foi o livro “Adolf Hitler, meu amigo de juventude”, escrito por August Kubizek e publicado em 1953. Kubizek relata a amizade infantil dois como se estivesse contando um caso homossexual. Diz que buscavam tenazmente o afeto e a profundidade um do outro e que tinham uma intimidade genuína. Hitler tinha ciúmes do amigo, pois não gostava que ele estivesse com outros rapazes. Como Adolf tinha verdadeira aversão por contato físico, poucas vezes apertando as mãos de outras pessoas, esse contato íntimo com o amigo de infância ganha ares ainda mais comprometedores.
O relato de uma noite que os dois passaram juntos numa cabana nas montanhas parece um idílio erótico homossexual com direito aos dois nus e a Hitler achando que aquele final romântico era muito agradável.
No período de 1906 a 1909 uma denuncia feita por um judeu agitou os meios homossexuais. O jornal Zukunft (Futuro), editado pelo judeu Maximilian Harden acusou o príncipe Philipp von Eulenburg de exercer uma influência negativa sobre o imperador alemão Guilherme II. Segundo a denúncia, von Eurlenburg seria homossexual. De acordo com Lothar, essa denuncías encontraram “solo fértil em Hitler, que deve ter feito alguma associação entre sua própria orientação sexual e as acusações públicas contra o conselheiro homossexual do imperador alemão. Ele deve ter se sentido pessoalmente atacado pelas revelações de Harden”, o que fez com que ele se tornasse profundamente anti-semita. Segundo o historiador, Hitler usou o seu ódio contra o judaismo como forma de lutar contra o medo de ser desmascarado.
Na época em que morou em Viena, trabalhando como pintor de postais, o futuro fuhrer conviveu intimamente com muitas personalidades abertamente gays. Talvez dessa época ele tenha adquirido o costume de adotar posturas homoeróticas nas fotos que tirava.  
Existem vários relatos de pessoas, inclusives altos membros do partido nazista, descrevendo Hitler como homossexual. Entre outras evidências, foram encontradas cartas de chantageadores ameaçando revelar o passado obscuro de Hitler.
Outro fato constrangedor na biografia do ditador era seu relacionamento com o motorista pessoal, para o qual o fuhrer costumava dar comida na boca. Os dois gostavam de viajar pelo interior da Alemanha para observar a paisagem e se hospedavam juntos em hotéis de beira de estrada.

Mas o maior indício da homossexualidade de Hitler parece ser as severas leis anti-homossexuais aprovadas pelo fuhrer, que permitiram à Gestapo prender, torturar e enviar para campos de concentração qualquer um suspeito de “atos despudorados”. Segundo Lothar, “Hitler tinha pavor da falta de transparência dos redutos homossexuais que ele conhecia tão bem em Viena e Munique. Ele sabia que dali, a qualquer momento, poderiam vazar informações difamatórias, inclusive contra sua própria pessoa. Queria sufocar essas ameaças potenciais, transferindo a tarefa ao chefe do aparelho de terror, Heinrich Himmler”. 

A arte espetacular de Mike Zeck


Mike Zeck é um desenhista norte-americano conhecido principalmente por seu trabalho na Marvel Comics. Seu primeiro trabalho de sucesso para a editora foi o Mestre do Kung Fu. Fez também Guerras Secretas e desenhou uma das melhores histórias do Homem-aranha de todos os tempos, A última caçada de Kraven.








Livro conta história de editora que fez sucesso com quadrinhos nacionais


No final da década de 1970, Curitiba se tornou a sede da principal editora de quadrinhos nacionais. A produção era tão grande que se formou até mesmo uma vila de quadrinistas. No livro Grafipar, a editora que saiu do eixo, eu conto em detalhes essa história. O livro inclui também algumas HQs publicadas na época e análise das mesmas.
Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

sexta-feira, julho 06, 2018

Canarinho Pistola hoje queria ser belga! Cante!

Os incríveis 2



É irônico que o Quarteto Fantástico nunca tenha tido uma versão digna no cinema e que Os incríveis, uma sátira-homenagem ao Quarteto, tenha gerado dois ótimos filmes.
(Sério? Você nunca percebeu? Os uniformes são semelhantes, há poderes semelhantes, apenas trocados de um personagem para o outro e, da mesma forma que o Quarteto, eles são uma família de heróis - um dos conceitos revolucionários da Marvel de Kirby e Lee).
Na história a família tenta impedir um vilão de roubar um banco e, ao falhar, acabam destruindo parte do prédio da prefeitura, fenômeno que poderá dar um fim definitivo à era dos heróis.
Mas um milionário parece disposto a reverter isso com uma campanha de marketing baseada na ideia de que o público deveria ver o ponto de vista dos heróis. E, como estrela dessa campanha, escolhe a Mulher Elástica.
Aí temos um curiosa inversão: a heroína vai para as ruas enfrentar um misterioso vilão hipnotizador, enquanto o herói fica em casa, cuidando dos filhos - e ambas as tarefas parecem igualmente difíceis, especialmente quando o bebê Zezé começa a revelar seus poderes (o que gera os momentos humorísticos do filme). Sem levantar bandeiras, o filmes consegue discutir a questão do heroísmo e do protagonismo feminino de maneira sutil, mas envolvente.
O roteiro é bem construído, com reviravoltas no momento certo e personagens para lá de carismáticos. E as cenas de ação são de tirar o fôlego e, ao mesmo tempo, únicas: na hora de perseguir o vilão, quem fica com o bebê?

Em tempo: fui assistir com meu neto e ele simplesmente encarnou o Zezé no meio da sessão. Então, melhor acostumar: nesta primeira semana várias crianças devem "encarnar o Zezé".

quinta-feira, julho 05, 2018

Dart Vader foi inspirado nos nazistas?


Aparentemente sim. Darth Vader é considerado o maior vilão do cinema. Ele apareceu no primeiro filme da série Guerra nas Estrelas, Uma nova esperança. Era o arquétipo da maldade. Cruel, ele matava sem piedade os subordinados que o desapontavam e estava construindo uma arma capaz de detruir planetas inteiros.
Quando viram aquele vilão de capacete preto e voz cavernosa, muitos perceberam a semelhança com o uniforme nazista. De fato, o capacete é muito parecido. Além disso, a máscara usada por ele lembra muito o visual dos Afrikan Korps, os soldados que lutavam na África. Para se proteger contra as tempestades de areia, eles usavam óculos especiais e cobriam a boca com panos.


Por que George Lucas fez isso? Provavelmente para demonstrar, desde o primeiro momento, que se tratava de um vilão. Na época em que o filme foi feito o nazismo já estava no imaginário popular como sinônimo de maldade. Histórias em quadrinhos, filmes e seriados mostravam nazistas perpetuando crimes cruéis contra a humanidade. Usar a suástica seria óbvio demais, então ele optou por outro símbolo: o capacete dos soldados. 

quarta-feira, julho 04, 2018

BRASILXS

Tarzan e o sucesso dos quadrinhos de aventura


Além de Buck Rogers, outro grande expoente da fase aventura foi Tarzan. O personagem foi criado por Edgar Rice Burroughs em 1912, numa revista pulp. O primeiro livro foi vendido para a editora por apenas 700 dólares. Um ano depois já tinha se tornado um dos maiores best sellers da literatura universal.
Com o tempo o rei dos macacos tornou-se o mais consagrado personagem do século XX e legou ao seu criador uma fortuna de 20 milhões de dólares.
Ao contrário da versão cinematográfica, em que Tarzan era um selvagem monossilábico, na literatura ele era um Lord inglês, que fora criado pelos macacos e, de tão inteligente, aprendera a ler sozinho. Seu nome, na linguagem dos macacos criada por Burroughs, significa pele branca (Tar – branca, zan – pele).
     Dizem que quando se deparou com o original de um livro de Tarzan, o editor teria dito: “É a história mais excitante que já conheci!”.
Logo cartas de fãs começaram a chegar na editora exigindo uma segunda aventura. Os livros, 26 ao todo, foram traduzidos em 31 línguas, incluindo o mandarim e o esperanto. Até os soviéticos se renderam ao carisma do rei dos macacos.
O personagem estreou no cinema em 1918, com Tarzan dos Macacos, sendo o primeiro filme da história a arrecadar mais de um milhão de dólares.
Com o dinheiro que ganhou, Burroughs montou uma fazenda em homenagem ao personagem e deu-lhe o nome de Tarzana.
No início da década de 1930 a marca Tarzan estava em tudo. Além do cinema, o personagem estrelava propagandas de cremes dentais, sorvetes e até gasolina (“Dirija com o poder de Tarzan!”). Eram vendidos a faca de tarzan, estatuetas de Tarzan e calções de Tarzan.
Com tanto sucesso, não foi surpresa quando o personagem apareceu nas tiras de quadrinhos. Mas, com medo de que seu personagem fosse mais uma vez deturpado, como foi no cinema, Burroughs exigiu que a versão fosse a mais fiel possível.  
Para ilustrá-la foi chamado Harold Foster, um desenhista publicitário de talento.
Foster, antes de se tornar desenhista, fizera de tudo um pouco. Passara a infância nas florestas do Canadá, caçando, pescando. Depois trabalhara como guarda-florestal. Depois disso, vendeu jornais, foi boxeador profissional e  garimpeiro. Chegou a descobrir uma mina no valor de um milhão de dólares, que lhe foi usurpada.
Em 1921 foi de bicicleta a Chicago, onde estudou desenho de noite enquanto trabalhava de dia.
Embora o tempo de execução fosse muito curto, Foster acabou aceitando desenhar as tiras diárias de Tarzan, mas se recusou a usar balões. O texto e os diálogos eram colocados abaixo dos quadros, um recurso que lhe dava a certeza de que seu desenho não sofreria perdas.
A primeira tira de Tarzan surgiu no dia 7 de janeiro de 1929 e foi um sucesso imediato. Além da popularidade do personagem, a história ganhava muito com o ótimo traço de Hall Foster, um dos mais perfeitos desenhistas de quadrinhos de todos os tempos.
Depois de 60 tiras, Foster completou a história do primeiro livro e abandonou o personagem. Fazer uma tira por dia era um sufoco grande demais. Mas, como Burroughs gostava muito de seu traço, ele foi chamado para fazer páginas dominicais, um novo formato no qual ele se tornaria mestre.
Em 1937 ele abandona Tarzan para se dedicar ao Príncipe Valente, uma criação sua, e é substituído por Burne Hogarth. Hogarth era considerado um mestre da anatomia e levou o personagem ao seu ponto alto. Depois dele vieram outros nomes igualmente importantes, como Russ Manning e Joe Kubert.
Realista somente no desenho, o Tarzan dos quadrinhos era, acima de tu­do, um aventureiro. Encontrando cida­des perdidas (parece que havia muitas naquela época), lutando com gorilas gigantes­cos, enfrentando dinossauros e salvan­do lindas princesas, o único limite para suas aventuras era a imaginação dos ro­teiristas... e esse limite era tão elástico quanto o interesse dos leitores.

terça-feira, julho 03, 2018

Por que os testemunhas de Jeová foram perseguidos pelos nazistas?


Estima-se que cerca de 2.500 testemunhas de Jeová tenham perecido em campos de concentração.
A razão disso era política. Os testemunhas de Jeová pregavam a neutraldiade política e militar. Assim, eles não apoiavam o nazismo e se negaram a pegar em armas quando se iniciou a guerra. Segundo alguns autores, eles teriam denunciado também a perseguição aos judeus.
Em 12 de dezembro de 1936, em uma hora as Testemunhas de Jeová distribíram secretamente, em toda a Alemanha, 200.000 exemplares da Resolução de Lucerna, um protesto contra as atrocidades nazistas.
A resposta do regime não tardou.
A religião foi proibida e milhares de Testemunha foram lançadas em campos de concentração.
Nos campos, eles eram indentificados por triângulos roxos. Ao contrário de outros prisioneiros, como os ciganos, homossexuais e judeus, as Testemunhas de Jeová podiam sair dos campos de concentração, desde que renunciassem à sua fé assinando um documento. No entanto, pouco o fizeram.
O Museu do Holocausto, em Washington (DC), existe uma seção reservada às Testemunhas de Jeová, com centenas de relatos de sobreviventes contando as crueldades sofridas.

A arte clássica de Jacques-Louis David


Jacques-Louis David foi o principal pintor da revolução francesa. Seus quadros serviam de inspiração para os revolucionários. Posteriormente tornou-se pintor oficial de Napoleão. Seu estilo clássico influenciou diversos outros pintores. Era tão popular na época que as mulheres imitavam o penteado das mulheres de seus quadros. 






Mineirices


Quando entrevistava o mestre Cláudio Seto para meu livro Grafipar, a editora que saiu do eixo, comentei com ele que Minas é o local do Brasil mais parecido com o Japão em termos de cultura – ao que ele concordou.
No Japão há uma espécie de dívida de gentileza. Se alguém nos faz um favor, ficamos em dívida com essa pessoa e devemos em outro momento, retribuir esse favor. Sônia Luyten me contava que quando foi fazer doutorado no Japão certa vez recebeu uma encomenda que era para a vizinha e entregou assim que ela chegou. No dia seguinte, a vizinha bateu-lhe na porta com um presente em retribuição à gentileza de ter recebido a encomenda.
Eu cansei de ver isso na minha infância e vejo isso quando visitos meus parentes mineiros. É uma gentileza tão grande que às vezes chega a ser constrangedora. Você não sai sem tomar um cafezinho - e esse cafezinho logo se transforma num verdadeiro banquete de quitandas. 
Seto conta que comprava dinheiro com o dinheiro dos ovos. Ele sempre acompanhava sua avó à granja do tio para comprar ovos. Chegavam lá eram tratados da melhor forma possível e, ao final, quano a avó queria pagar, o tio não aceitava. Paga, não paga, paga não paga, a velhinha deixava o dinheiro em algum lugar. Quando o tio descobria, corria atrás deles para devolver o dinheiro. Como a avó se recusava a receber, as notas acabava parando nas mãos do Seto, que usava para comprar gibis.
Mas isso, claro, tem o outro lado, tanto em Minas quanto no Japão: a pessoa só aceita uma favor, uma gentileza de alguém na qual ela confia. Afinal, ela não vai querer ficar devendo um favor para alguém que não é confiável. Por essa razão que recusar uma gentileza é tão ofensivo: significa que a pessoa considera que o outro não é confiável e, portanto, não quer ficar em dívida com ele.
Durante anos, embora tenhamos saído de Minas, a guardiã das tradições mineiras era minha avó. Enquanto morei com ela, nunca perdi o “uai” e sempre comia angu em todas as refeições.
Minha avó foi uma das pessoas mais admiráveis que já conheci. Estudou apenas até a quarta-série, mas escrevia melhor que vários estudantes universitários. Quando eu trabalhava em jornal e trazia os exemplares para casa, ela devorava da primeira à última página. Foi a única pessoa que conheci que leu a Bíblia de cabo a rabo mais de uma vez. Hoje em dia, a pessoa lê um versículo e já sai dizendo que leu a Bíblia.
E foi com ela que aprendi mais uma parte da cultura mineira que lembra muito o modo japonês de ser: a honra.
Ela sempre me dizia:
- Meu filho, pobre não tem nada, só tem a própria honra.
Exemplo disso aconteceu quando ela aceitou fazer, de graça, um vestido para uma vizinha.
Minha avó era costureira prendada, do tipo de costurava para esposa do prefeito, vereador e cobrava bem, mas para a vizinha, que era amiga, se recusou a cobrar (mais uma vez a história da gentileza mineira – imagina se ela ia cobrar de uma amiga!).   
Quando recebeu o vestido, a vizinha reclamou:
- E a minha tesoura?
- Como assim, que tesoura?
- Quando levei o vestido, levei também uma tesoura nova. Cadê a tesoura?
Minha avó insistiu que não tinha visto tesoura nenhuma e nem precisava, pois tinha tesoura em casa. E a outra instindo:
- Cadê a tesoura?
Resumo da ópera: minha avó foi até a loja, comprou uma tesoura nova e levou para a vizinha, ainda na embalagem. Preferiu ficar no prejuízo a ser chamada de ladra.
No dia seguinte a vizinha achou a tal tesoura e veio devolver a que recebera. Minha avó recusou. Deixou a vizinha com as duas tesouras. Mas também nunca mais falou com ela. Ela não poderia ser amiga de alguém que desconfiava de sua honestidade. Como ela sempre dizia: “Pobre não tem nada, meu filho, só tem a própria honra”.

segunda-feira, julho 02, 2018

The Nazz



O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente. O que aconteceria se esse adágio popular fosse aplicado a um super-herói? Essa é a premissa básica de The Nazz, minissérie em quatro partes escrita por Tom Veitch e desenhada por Bryan Talbot e publicada pela editora Abril em 1992.
The Nazz surge no rastro de Watchmen, Miracleman, Zenith e outros trabalhos que levaram o gênero super-herois a extremos ainda não experimentados e talvez tenha sido a abordagem mais radical nesse sentido.
Na história, um garoto fascinado pela ideia de poder viaja ao oriente, onde conhece um guru que o inicia em um culto de morte e finalmente o leva aos caminhos místicos que o tornam um ser super-poderoso.
Ao voltar para os EUA, ele monta um culto e monta uma equipe que se tornará rival da equipe de vigilantes do governo, os Retaliadores, criados por uma equipe de relações públicas.
The Nazz é a história de um homem sendo corrompido pelo poder (ou corrompendo o poder, de acordo com a interpetação). Essa transformação é muito bem representada pelas capas. A primeira delas mostra o protagonista ainda um ser humano normal, meditando em meio a um cenário repleto de crânios. A segunda capa o mostra como um pop star, tendo ao fundo histórias em quadrinhos de super-heróis. Na terceira capa ele está gordo, nu, olhar fixo para o leitor, parecendo uma versão decandente de um astro de rock. Na quarta capa ele está transformado de um deus ameaçador.
A influência de Watchmen é nítida não apenas no tema da HQ, mas também na sua narrativa, que une quadrinhos criados por um amigo de Nazz, matérias de jornais, um press-realease e fotos autografadas. Esse conjunto de elementos, embora nem de longe tenham e efetividade narrativa de Watchmen, ajudam a construir uma narrativa coerente.
Tom Veitch relaciona o fenômeno dos super-heróis com as seitas surgidas na década de 1960, seus gurus e fins trágicos.
Há de se destacar também o nome do personagem, Nazz lembra nazismo e evoca super-homem sonhado por Hitler.
O desenho de Bryan Talbot se encaixa perfeitamente no projeto. Poucos desenhistas conseguiriam dar o tom sombrio adequado para essa HQ. Seu traço sujo exterioriza perfeitamente o tema sobre a corrupção do poder.
The Nazz é um daqueles trabalhos que melhor representam uma época e merecia uma republicação.

A aventura espacial de Buck Rogers


Como nem tudo são flores, logo veio a crise de 1929 que acabou com a alegria da classe média americana. Naqueles dias, muita gente dormia ri­ca e acordava pobre — absolutamen­te miserável.
 O clima era de desespero e desânimo e o lance ago­ra não era mais rir futilmente da vi­da. As primeiras histórias em quadrinhos tinham sido todas cômi­cas (tanto que nos EUA, os quadri­nhos são chamados de “comics”), mas já não havia muita razão para rir.
Todos queriam fugir para plane­tas distantes, cidades perdidas ou paí­ses exóticos... todos queriam aventura!
Uma das primeiras séries a captar esse clima de escapismo foi Buck Rogers, criação de Philiph Nowlan. Esse personagem foi publicado originalmente na revista pulp Amazing Stories, em agosto de 1928. O conto, Armagedon 2419 AD contava a história de um piloto (Rogers) preso em uma mina que desabara. Ele, graças a gases radioativos, permanece em estado de dormência, vindo a acordar 500 anos depois.
A América que ele vê é totalmente diferente da que conhecera. Agora o país está totalmente destroçado pelos invasores orientais e os seus habitantes perseguidos em sua própria terra, obrigados a se esconderem nas florestas.
A história fez tanto sucesso que o editor da revista, John Dille, sugeriu a Nowlan que a adaptasse para os quadrinhos. Para realizar essa tarefa foi contratado um desenhista, Richard (Dick) Calkins, que tinha um traço barroco e detalhista.  
Na versão em quadrinhos foram necessárias algumas adaptações. O nome foi mudado para Buck Rogers para aproveitar o sucesso de Buck Jones, famoso cowboy do cinema.
A tira foi publicada pela primeira vez no jornal Courier Press, de 27 de janeiro de 1929 e fez enorme sucesso, abrindo caminho para muitos outros personagens de aventura e ficção-científica.
Para manter o clima pseudo-científico, a equipe de criação contava com consultores especialistas, inclusive um metereologista.
Entre as curiosidades da série está o fato dela ter antecipado o meio pelo qual os astronautas iriam se deslocar no espaço. Logo na terceira tira da história, a heroína Wilma mostra a Rogers uma mochila antigravitacional que lhe permitia flutuar no ar. Para direcionar o vôo, Buck utiliza o recuo da arma.
Quando, em 1984, os primeiros astronautas passearam soltos no espaço, o escritor Isaac Assimov se lembrou imediatamente de Buck Rogers: “ Recentemente dois astronautas flutuaram livremente no espaço, antes de seu ônibus espacial pousar na Flórida. Eles não ficaram ligados à espaçonave. Saíram dela e retornaram. Os mais velhos se lembrarão das histórias em quadrinhos de Buck Rogers, no anos 30 e 40. Tudo isso – o passeio espacial, a espaçonave movida a foguetes, a mochila nas costas – já tinha acontecido nos desenhos”.
A propósito, a forma como os astronautas conseguiram controlar seu deslocamento no espaço foi justamente através do recuo de uma pistola de ar. Como em Buck Rogers.

Piracy - a revista que inspirou Watchmen



Piracy foi uma revista publicada pela editora EC em meados da década de 1950. Efêmera, durou apenas sete números, mas marcou época e influenciou Alan Moore a escrever Contos do Cargueiro Negro, o gibi que o garoto lê na banca de revista em Watchmen. No universo de Watchmen, as revistas em quadrinhos não sofreram perseguição na década de 1950 e a revista de Piratas da EC foi um sucesso, levando a DC a lançar uma publicação concorrente.
A lista de desenhistas que colaborou com a Piracy é impressionante: Wally Wood, Bernard Krigstein, George Evans, Jack Davis. Curiosamente, Joe Orlando, que é mostrado nos anexos de Watchmen como uma das grandes estrelas da Piracy e primeiro desenhista da Contos do Cargueiro Negro, não participou da publicação real.
Se os desenhos eram simplesmente os melhores, os roteiros não decepcionam. O time de roteiristas incluía o escritor Ray Bradbury, Harlan Ellison, Al Feldstein Gardner Fox e Harvey Kurtzman.
Embora o gênero fosse outro, todas as histórias tinham a virada final que caracterizou as HQs de terror da EC, geralmente na forma de uma ironia do destino. Exemplo disso é o pirata que consegue roubar uma fortuna, mas não consegue vender o tesouro para ninguém. Ou o bucaneiro sanguinário que se torna um frouxo quando encontra com a ex-sogra.
Essas revistas foram republicadas em 1988 pelo próprio William Gaines (o dono da EC), provavelmente aproveitando o sucesso de Watchmen.
Das sete revistas eu consegui seis, presente inestimável do amigo Antonio Eder.

domingo, julho 01, 2018

Balada sideral



O motor de todas as histórias é o conflito. Sem conflito não há HQ. A maioria das pessoas costuma visualizar isso como algo externo, a exemplo das lutas entre heróis e vilões. Mas existe um outro tipo de história, em que o conflito ocorre dentro do personagem. Ótimo exemplo disso é o álbum Balada Sideral, de Rafael Senra, publicado em 2014 pela Bartleblee.
O álbum narra a trajetória de Markun, um jornalista hipocondríaco que vê suas certezas desabarem quando é escalado para entrevistar uma dupla de irmãos músicos que vivem na rustigaláxia.
O resultado é um road movie com o jornalista acompanhando Opala e seu irmão Arcus durante uma turnê e se deparando com um mundo totalmente diferente do seu, em que as pessoas ainda vivem de forma natural. Na multigaláxia, de onde vem Markun, as pessoas desaprenderam a comer, tomando pílulas nutritivas, e se empanturram com todo tipo de químicos. De um estranhamento inicial (e os conflitos inerentes ao choque cultural) à aceitação dessa nova experiência, vemos a evolução do personagem, que encontra seu ápice na chamada pira, show em que, com uso de tecnologia o personagem tem uma viagem pelo mundo dos arquétipos e do inconsciente coletivo.
É interessante acompanhar a evolução do protagonista e igualmente interessante obervar como Rafael Senra constrói um universo plausível e ao, mesmo tempo, muito diferente do nosso, com casas e carros que podem ser virtualizados, só para dar um exemplo. A sequência da viagem interna do personagem também é muito bem construída, poética e lembra algumas histórias de Alan Moore, inclusive na concepção da arte como magia.
De negativo o formato reduzido, que prejudica visualizar os quadros em que o desenho é mais detalhista ou que há uma grande quantidade de diálogos.