segunda-feira, agosto 27, 2018

A jornada do herói

Publicado em 1949, O herói das mil faces foi um livro que revolucionou o estudo sobre as mitologias e religiões. Influenciado por Freud e Jung, Joseph Campbell vasculhou dezenas de culturas em busca de semelhanças entre seus mitos e os significados dos mesmos. O resultado foi esquematizado em doze passos, seguidos pela maioria dos protagonistas das narrativas analisadas. O resultado, além do impacto sobre o estudo mitológico, teve uma consequência inesperada: esse esquema foi usado por George Lucas para construir o roteiro de Guerra nas Estrelas. Esse fato deixou claro que o livro servia não apenas para explicar mitologias antigas, mas funcionava bem para analisar narrativas contemporâneas. 
O primeiro passo do herói é o chamado à aventura. O herói é tirado de sua vida pacata e sem perigos por algum acontecimento que o chama à ação. "Um erro - aparentemente um mero acaso - revela um mundo insuspeito, e o indivíduo entra numa relação de forças que não compreende, que estão acima dele". Esse chamado, que pode ser uma simples aventura, como em O Senhor dos Anéis, ou uma busca religiosa, esconde uma verdade sobre o despertar do eu. É também um momento de separação dos pais e de um novo renascimento, que levará à vida adulta. O agente que anuncia a aventura pode ser sombrio ou aterrorizador, ou uma figura misteriosa. Em Promethea, de Alan Moore (talvez a história em quadrinhos que melhor ecoa questões mitológicas), a heroína é atacada por um Smee, uma espécie de demônio, o que a faz se transformar na heroína mitológica. 


Vale lembrar que, de início, o herói recusa o chamado e esse é o segundo passo. Não por acaso, Robinson Crusoé inicia com uma preleção sobre os benefícios de uma vida de classe média, sem aventuras ou dramas. Segundo Campbell, "a recusa é essencialmente uma recusa a renunciar àquilo que a pessoa considera interesse próprio". Vale lembrar, em Guerra nas Estrelas, a indecisão de Luke em seguir a aventura ou permanecer na vida pacata com seus tios. Estes, aliás, o advertem sobre os perigos da jornada. Na maioria dos mitos, o herói adere ao chamado, seja Frodo sendo obrigado a fugir com o anel, seja Luke impulsionado a salvar a princesa, seja Robinson embarcando em um navio. Aceita a aventura, o herói geralmente conta com um auxílio sobrenatural. Os jovens de Caverna do Dragão, por exemplo, contam com o auxílio do misterioso Mestre do Magos. Esse guia fornece os amuletos e os conselhos que o herói precisa para continuar a jornada, mas, como o Mestre dos Magos, não interfere diretamente na aventura. Em Guerra nas Estrelas esse papel é exercido por Obi Wan Kenobi e posteriormente por Yoda. A jornada é do herói e é ele que deve seguir esse caminho. 
  


O quarto passo é a passagem pelo limiar. Em Promethea esse momento é retratado na ida da personagem para a Imatéria. Em Crônicas de Narnia é o guarda-roupa, que dá passagem a todo um universo mágico. "Além desses limites, estão as trevas, o desconhecido e o perigo, da mesma forma como, além do olhar paternal, há perigo para a criança", escreve Campbell. O limiar representa a ida para o inconsciente, repleto de libido e de ameaças de violência. EmPromethea, a protagonista, ao passar para a Imatéria, encontra uma chapeuzinho vermelho que segura uma arma, fala palavrões e um imenso e apavorante lobo. Todos imagens arquetípicas. 

O quinto passo é a entrada no ventre da baleia, as provações e encontro com os inimigos. Nessa fase é comum o autoaniquilação. O corpo do herói pode ser cortado, desmembrado e ter suas partes espalhadas pelo mundo, como Osíris, que é morto por seu irmão Set. Essa fase representa o renascimento espiritual do herói, o desapego do ego, uma vez que essa é uma jornada de transformação. Nessa fase também é comum encontrar metáforas da mãe ou o pai, muitas vezes transformados em vilões. Luke, por exemplo, descobre que Darth Vader é seu pai. Como a jornada é um processo de individuação, o herói precisa matar a influência dos pais sobre ele. 

O passo seguinte é a apoteose, no qual o herói obtém vitórias. Muitas vezes esse passo é representado por um casamento sagrado, como Flash Gordon se casando com Dale Arden, pela sintonia com o pai-criador, pela própria divinização (Osiris sendo recomposto). Se as forças se mantiverem hostis a ele, essa fase é representada pelo roubo por parte do herói daquilo que ele foi buscar, como Prometeu roubando o fogo. 

Terminada essa etapa, cabe ao herói voltar para casa. Pode ser uma volta simples, abençoada pelos deuses, ou uma volta difícil, como a de Ulisses ou a dos protagonistas da Caverna do Dragão (um mito que ficou incompleto, uma vez que eles nunca retornaram). 

Em todo caso, o herói volta transformado e maduro e essa transformação se reflete no mundo, como Promethea provocando o fim do mundo que conhecemos e, com isso, construindo um mundo melhor.

Em suma: o herói das mil faces se torna essencial para os que querem entender melhor as mitologias, antigas e novas, apesar de Campbell nem sempre ser direto e muitas vezes se perder em alguns discussões não diretamente relacionadas ao tema. Apesar disso, o livro se destaca pela leitura intrigante e pela prosa fluída de seu autor, que exemplifica suas ideias com mitos de diversas parte do globo.

Carl Barks, o homem dos patos


No final da década de 1920, Walt Disney estava inconsolado. Ele havia acabado de perder os direitos sobre seu personagem Osvald, o coelho para Charles Mintz. Para compensar, ele criou outro personagem inspirando-se num camundongo que costumava visitar seu escritório. Assim nascia o divertido Mickey, com sua cabeça grande, pernas finas e sapatos grandes, como um menino que tivesse vestido os sapatos do pai. Inicialmente, o camundongo deveria se chamar Mortiner, mas Disney acabou mudando de idéia (alguns autores creditam a mudança à esposa do desenhista). Em 1928 estreou o primeiro curta-metragem do personagem, e também o primeiro desenho animado sonoro da história, tornando-se logo um sucesso.
            Não tardou para que o personagem migrasse para as tiras. Floyd Gottfredson foi escolhido para fazer a adaptação.
            Outro personagem surgido nas animações também logo ganharia sua versão em quadrinhos: o Pato Donald. O desenhista Al Taliaferro adaptou o filme A galinha sábia para as tiras e depois o resultado foi copilado em um gibi com grande sucesso.
            Mas o personagem realmente só se tornaria célebre após a entrada de Carl Barks no título. Barks foi um fracasso em diversas profissões, de cowboy a carpinteiro, passando por condutor de mulas e impressor. Não conseguindo sucesso em nada, ele decidiu investir no sonho de ser desenhista. Seu primeiro trabalho foi numa revista humorística, mas um dia ele viu um anúncio da Disney, procurando animadores e se candidatou. Foi colocado no setor de roteiros e ajudou a criar gags visuais para mais de 40 curta-metragens.
            Certa vez ele foi escolhido para participar de um longa do Pato Donald intitulado O Ouro do Pirata. O projeto não saiu do papel, mas mesmo assim Disney resolveu transformar o material em uma revista em quadrinhos e convidou Barks para fazer a adaptação. Foi um sucesso tão grande que a editora Dell-Western lhe ofereceu um emprego como quadrinista.
            Barks estava, enfim, no seu elemento. Em 1947 ele criou o Tio Patinhas, baseado no personagem sovina do Conto de Natal, de Dickens. Criado para uma única história, ele agradou tanto que logo ganharia revista própria. Barks continou desenvolvendo a mitologia dos patos com a criação de outros personagens, como o inventor Professor Pardal e o sortudo Gastão.
            Tio Patinha logo se tornou um personagem extremamente popular, graças quase que exclusivamente às histórias de Barks.
             Segundo a enciclopédia Históira de los Comics, o que fazia de Barks um gênio não era sua criatividade ou seus desenhos, embora ambos fossem ótimos. O que o transformou em gênio foi a autenticidade dos mundos que criou. Essa autenticidade surgia tanto da experiência de vida quanto das pesquisas minuciosas que fazia para suas histórias.
            Um exemplo de mundo criado é a vila quadrada, um local perdido nos Andes em que tudo era quadrado (até os ovos!) e as formas arredondadas eram proibidas.
            As histórias de Barks embalaram a infância de milhões de crianças em todo o mundo. Quando ele parou de produzir, foi como se fosse criado um vácuo nos quadrinhos Disney. Hoje esses quadrinhos estão sendo cancelados em todo o mundo. No Brasil, a única revista que ainda vende bem é a luxuosa Clássicos Disney, que republica as histórias de Barks, e tem como públicos os adultos saudosistas de boas HQs.
            Atualmente, o quadrinista Disney mais famoso é Don Rosa, um fã tão inveterado de Carl Barks que faz de todas suas HQs homenagens ao homem dos patos.

domingo, agosto 26, 2018

O túnel do tempo


The Time Tunnel (no Brasil, O Túnel do Tempo) foi um seriado de TV realizado por Irwin Allen nos anos 60, que mostrava as viagens no tempo de dois cientistas: (Robert Colbert, como Doug Phillips, e James Darren, como Tony Newman).
Eles eram monitorados por uma equipe que permanecia no laboratório e os acompanhavam em seus deslocamentos no tempo através de imagens que recebiam pelo Túnel do Tempo. A equipe estava sempre tentando encontrar um meio de trazê-los de volta, ou então tentavam ajudá-los por intermédio dos recursos de que dispunham, como precárias transmissões de voz ou envio de armas ou equipamentos, quando possível. Quando tudo falhava, tiravam-nos de uma época e os enviavam para alguma outra data incerta do passado ou do futuro, dando início a um novo episódio.
Os personagens viajavam pelos mais diferentes períodos históricos, indo parar até mesmo no Titanic pouco antes dele afundar.  
Nos episódios eram utilizados imagens de arquivo de filmes da Fox, como O Mundo perdido, Príncipe Valente e até do seriado viagem ao fundo do mar. A regra da televisão na época era: lavou, tá novo.
Devido ao elevado custo de produção, esse seriado durou apenas uma temporada, com 30 episódios.

sábado, agosto 25, 2018

A arte de Garcia-Lopez, o homem DC

Na década de 1970 surgiu um desenhista que redefiniu o visual dos personagens DC até então considerados antiquados na comparação com os vibrantes heróis Marvel. Com um traço extramamente elegante, José Luis Garcia Lopez logo chamou atenção. Durante toda a década de 1970, ele fez quase todo o material promocional da editora. Muitas crianças daquela época tiveram cadernos, lancheiras e mochilas com desenhos do Garcia Lopez. Ainda hoje são vendidos alguns desses materiais. Ainda hoje, praticamente todo o material licenciado da DC, em especial camisas, trazem desenhos desse mestre (o recente sucesso do filme da Mulher Maravilha fez com que seu desenho da amazona se espalhasse pelas lojas). Curta as imagens abaixo.















A margem negra

Em 1989 eu era estudante de comunicação na Universidade Federal do Pará e procurava material para um trabalho sobre história em quadrinhos. Iríamos apresentar um seminário sobre meios de comunicação e o professor responsabilizara meu grupo para falar sobre HQs. Isso seria impensável em qualquer época que não fosse o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990. Antigamente por conta do enorme preconceito e atualmente porque os quadrinhos se tornaram um nicho, com baixas tiragens e vendas segmentadas. Mas na época todo mundo lia quadrinhos. Séries como V de Vingança eram lidas mensalmente e comentadas nos corredores da universidade da mesma forma como hoje se discute séries de grande impacto, como Guerra dos Tronos. 

Todo mundo estava falando de quadrinhos, mas precisávamos de algo diferente para a apresentação. Foi quando alguém me disse que no bloco de Artes, ao lado do nosso, havia um rapaz, Bené Nascimento, que trabalhava profissionalmente como desenhista, publicando em editoras de São Paulo. Um paraense fazendo quadrinhos era a novidade das novidades na época e fiz questão de entrevistá-lo. A entrevista, que deveria durar meia-hora, durou a tarde inteira (e os dois perdendo aula, claro) e, no final, um convite de Bené: que tal fazer um fanzine de quadrinhos? Assim surgiu "Crash!", o primeiro fanzine paraense dedicado exclusivamente aos quadrinhos.

Estávamos na produção do segundo número quando Bené chegou com os originais de uma belíssima história, toda arte-finalizada com pincel. Desenhada no estilo Hall Foster (autor do Príncipe Valente) a HQ mostrava um cavaleiro medieval livrando uma floresta de um demônio. 

- Gostou? - perguntou Bené. 

- Claro. 

- Quer colocar o texto? 

Aceitei na hora. "Floresta Negra" foi o primeiro roteiro que escrevi, um caminho bastante curioso, já que não era de fato um roteiro. Foi também o primeiro roteiro publicado, na saudosa revista Calafrio. 

A partir dali surgiu uma parceria que se estenderia por vários anos e mexeria com o jeito como se fazia quadrinhos de terror no Brasil. 

O quadrinho de terror ganhou grande força no Brasil na década de 1960, quando os gibis da editora EC Comics foram proibidos nos EUA. As revistas que publicavam essas histórias tinham grande público aqui e não havia mais material inédito. A solução foi recorrer aos quadrinistas brasileiros e assim surgiu a era de ouro do terror nacional. 

Mas a estrutura narrativa daquela época se tornou uma espécie de camisa de força para os artistas. Tirando alguns quadrinistas mais renomados mais renomados, como Mozart Couto, a maioria seguia os cânones do terror década de 60 que tinha inclusive algumas histórias básicas, como da pessoa má que apronta todas as malvadezas possíveis durante toda a HQ e no final os mortos voltam para se vingar. 


O quadrinho que fazíamos era bem diferente disso. Influenciados por séries como Sandman, Monstro do Pântano e Hellblazer (John Constantine) e autores como Alan Moore e Neil Gaiman, fazíamos um terror pesado. Bené caprichava nas vísceras e, da parte do roteiro, os personagens eram sempre perseguidos por traumas e pavores. Ou seja: era uma mistura de terror trash com horror psicológico. Em uma das histórias, por exemplo (uma adaptação do conto "O nariz", de Gógol), um personagem capaz de despertar os maiores medos das pessoas próximas entra num hospício e ocasiona um surto de pavores secretos. 

Essa abordagem visceral inicialmente não agradou os editores da época. A história "Puritano", por exemplo, está até hoje inédita: foi recusada por todos os editores da época, talvez por envolver questões religiosas. Uma das histórias, "Noir", só foi publicada porque a assistente de edição levou o original para o dono da editora e insistiu que saísse na revista. 


Mas com o tempo fomos ganhando público. Uma editora chegou até mesmo a encomendar uma revista com histórias nossas e de quadrinistas que tinham um estilo semelhante. Levamos semanas para conseguir reunir o material para fazer uma boneca (para que não é do meio editorial, boneca é uma prévia de como irá ficar a revista). Não aconteceu por causa da incapacidade de Bené de dizer não: um primo o visitou e pediu a boneca emprestada, levou para casa e... perdeu no ônibus! 

A maioria das revistas nas quais publicávamos eram vendidas ensacadas, o que nos criava um problema. Não havia o costume atual de indicar na capa as histórias e os autores, de modo que nunca sabíamos se a revista tinha história nossa ou não. Assim, tivemos a ideia de colocar uma margem negra nas páginas. Isso permitia pudéssemos perceber se havia histórias nossas sem nem mesmo abrir o volume. Inadvertidamente isso se tornou uma estratégia de marketing: os fãs da dupla passaram a também procurar as margens negras nas revistas. 

sexta-feira, agosto 24, 2018

Somos Todos Super Amigos - clipe animado com Batman e Robin, Homem Aranh...

Vereadores de Curitiba do Escola sem partido denunciam projeto que usa quadrinhos em escola

Vereadores de Curitiba, ligados às igrejas evangélicas e capitaneados pelo vereador Thiago Ferro se revoltaram e acionaram o projeto Escola sem partido contra uma escola da cidade que fazia um movimento a favor da aceitação de crianças com deficiência. O projeto tinha imagens autorizadas por Maurício de Sousa. Entre outras atividades, as crianças cantariam a seguinte letra: 

Negro, branco, pardo ou amarelo
Alto, baixo, gordo ou magricelo
Moreno, loiro, careca ou cabeludo
Deficiente, cego, surdo ou mudo (…)
A gente é o que é
A gente é demais
A lista é imensa
Viva a diferença! 

Os vereadores denunciaram o caso à secretaria de educação de Curitiba. 
Para além do discurso contra a diversidade e aceitação das diferenças, o caso eco o preconceito contra os quadrinhos. O vereador Thiago Ferro teria tido tal reação se o projeto não envolvesse quadrinhos? 
Estaríamos diante de uma nova cruzada contra os quadrinhos como a que se viu nas décadas de 1950 e 1960 - época em que a leitura de quadrinhos era caso de polícia? 
Matéria do Diário do Paraná de 30 de junho de 1960. Estaríamos vivendo uma nova cruzada contra os quadrinhos? 

quinta-feira, agosto 23, 2018

Hoje tem Rádio Pop!


Nick Holmes - a HQ que revolucionou o gênero policial nos quadrinhos


Se tivesse apenas criado Flash Gordon, Jim das Selvas e Agente Secreto X-9, Alex Raymond já seria um dos nomes mais importantes dos quadrinhos. Mas ele ainda reservava uma surpresa para os fãs. Em 1946 ele criou Rip Kirby (no Brasil Nick Holmes), elevando sua arte e seu roteiro a um novo patamar. Se em Flash Gordon deslumbrava pela fantasia descontrolada, em Nick Holmes, espantava pelo realismo fotográfico dos personagens. Se em Flash Gordon  era a ação desenfreada, sem tempo para fôlego, em Nick Holmes viria a análise psicológica dos personagens, como trama complexas e bem elaboradas.
Em 1944, Raymond foi convocado pela Marinha Norte-americana e embarcou para o Pacífico Sul, abandonando seus trabalhos em Flash Gordon e Jim das Selvas. A bordo do porta-aviões USS Gilbert Island, ele participou de várias batalhas.
Quando voltou da guerra, estava cheio de idéias. Pensava em fazer uma história policial diferente do que se fazia até então nos quadrinhos. Seu personagem principal seria Nick Holmes, um herói da II Guerra, que se dedicava a resolver crimes envolvendo a alta sociedade norte-americana. Diferente dos detetives anteriores dos quadrinhos (como X 9 e Dick Tracy), ele não é um valentão que resolve as coisas com a força bruta. Ao contrário, é um intelectual sofisticado, que resolvia crimes de maneira calma, fumando seu inseparável cachimbo. Para isso, ele contava com a ajuda do mordomo Desmond.
Nick Holmes refletia a euforia americana no pós-guerra, período em que os EUA se firmava como a grande potência mundial.
Ao lado de lindas mulheres (que Raymond desenhava com perfeição) e o luxo, havia os mais misteriosos crimes. Mas não se trata de uma HQ maniqueista. Constantemente os bandidos entram para o mundo do crime em decorrência de um sistema social excludente. Muitos desses bandidos se regeneram, embora essa regeneração tenha como princípio aceitar o “american way of life”. Por outro lado, mesmo aqueles que se beneficiam da prosperidade americana também cometem crimes.
Raymond desenhava usando modelos e pesquisava as ambientações das histórias, de modo que acabou fazendo um retrato muito fiel da América naquele período. Raymond parecia se sentir finalmente realizado, chegando a declarar: "Estou sinceramente convencido de que a arte dos quadrinhos é uma forma de arte autônoma. Reflete a sua época e a vida em geral com maior realismo, e, graças à sua natureza essencialmente criativa, é artisticamente mais válida do que a mera ilustração. O ilustrador trabalha com máquina fotográfica e modelos; o artista dos quadrinhos começa com uma folha de papel em branco e inventa sozinho uma história inteira - é escritor, diretor de cinema, editor e desenhista ao mesmo tempo".
Em 1952 ele começou a contar com a colaboração do argumentista e ex-repórter policial Fredd Dickenson, deixando os roteiros ainda mais elaborados.
A fase de Raymond no personagem terminaria de forma trágica. Em 06 de setembro de 1956, ele morreu em um acidente de carro. A tira continuou a ser desenhada por John Prentice, que copiou rigorosamente o estilo do mestre, embora nunca tenha alcançado sua qualidade técnica. Ainda assim, Nick Holmes continuou a freqüentar jornais no mundo todo o mundo, muitas vezes tendo suas tiras reunidas em coletâneas.

Camisa de Vênus -- Gotham City

quarta-feira, agosto 22, 2018

Batman - edição de Natal

Até o final de década de 1980 era comum as revistas publicarem edições natalinas.Isso funcionava muito bem com quadrinhos Disney e até alguns super-heróis. Mas um dos mais curiosos gibis nesse estilo foi a edição Batman 6 da editora Abril, de dezembro 1984.
Batman foi o personagem da DC que melhor encarnou a fase dark do quadrinhos na década de 1990, o que torna essa edição algo tão diferente. Quem poderia imaginar histórias de Natal com o cavaleiro das Trevas?
A revista reunia duas histórias, uma de 1972 e outra de 1973, ambas escritas por Denny O´Neil e desenhadas por Irv Novick.
Na primeira, um homem comete um roubo para comprar comida para a sobrinha e resolve se vingar do homem que o demitiu. Na segunda, um homem vilão um composto venenoso, capaz de envenenar grande parte da população de Gothan e Batman precisa impedir que isso aconteça. Das duas, a primeira, “Noite infeliz” é de longe a melhor e com certeza a única que é de fato uma história natalina. O´Neil foi responsável pela famosa fase política da revista do Lanterna - Arqueiro Verde e traz toda a sua sensibilidade social para a trama.
Alguns vão dizer que sou piegas, mas eu adoro a capa desta edição.

Trabalhos aprovados para apresentação no I ASPAS Norte - Congresso de Quadrinhos da Região Norte


Confira a lista de trabalhos aprovados para apresentação no I ASPAS Norte - Congresso de Quadrinhos da Região Norte. 

Para se inscrever como ouvinte e assistir as apresentações, palestras e oficinas, acesse o site do evento


A BOYS’ LOVE STORY: A NARRATIVA DE HISTÓRIAS GAYS PARA GAROTAS HETEROSSEXUAIS NO MANGÁ GRAVITATION -  RAFAELA FERNANDES BITTENCOURT – BACHAREL EM COMUNICAÇÃO SOCIAL – JORNALISMO. UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAPÁ, MACAPÁ, AP, BRASIL.

A GUERRA DOS TRONOS EM QUADRINHOS: UMA REFLEXÃO SOBRE TRADUÇÃO/ADAPTAÇÃONúbia Paes Pacheco – Acadêmica de Jornalismo na UNIFAP, Macapá, Brasil.

A HIPERSEXUALIZAÇÃO DE PERSONAGENS FEMININAS ATRAVÉS DA CONSTRUÇÃO DA HEROÍNA MAJESTOSA –Rayanne Rodrigues dos Santos, Especialista em Linguística Aplicada e Ensino de Línguas pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Membro do Núcleo de Pesquisas Pós-coloniais – NePC da Universidade Federal do Amapá. Macapá, Brasil. Coautoria: Marcos Paulo Torres Pereira, Professor Assistente de Literaturas em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).

A JORNADA DA HEROÍNA NO MANGÁ SAINTIA SHÔ Fernanda Rabelo de Souza – Graduanda de licenciatura em filosofia - Universidade Estadual do Amapá, Macapá, Amapá, Brasil.

A NARRATIVA AUDIOVISUAL DO FILME E QUADRINHO WATCHMEN: ESTUDO COMPARADO –Marta Bezerra - Acadêmica de Jornalismo Unifap, Macapá, Brasil. Co-autoria: Nathanael Zahlouth – Acadêmico de Jornalismo Unifap, Macapá, Brasil.

A QUESTÃO GYNOID NO MANGÁ “GUNNM” –Débora de Sá Ribeiro Aymoré. Professora doutora do Colegiado de Filosofia da Universidade do Estado do Amapá (UEAP), Macapá, Amapá, Brasil.

A UTILIZAÇÃO DAS HQS EM SALA DE AULA NO ESTADO DO AMAPÁ: UMA REVISÃO DE LITERATURA –Leno Serra Callins – Especialista em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e Literatura pelo Instituto de Ensino Superior do Amapá (Iesap). Licenciado em Letras Português-Inglês pelo Iesap. Estudante do curso de especialização em Estudos Culturais e Políticas Públicas pela Universidade Federal do Amapá – Unifap, Macapá, Amapá, Brasil.

CONVERGÊNCIA MIDIÁTICA E OS QUADRINHOS: “NA MIRA DA LENA” SOB A ÓTICA DA CROSSMEDIA - Karina Pacheco - Acadêmica de Jornalismo da UNIFAP, Macapá, Brasil.

GRUPO “PONTO DE FUGA”: O QUADRINHO EM BELÉM ENTRE OS ANOS DE 1991 E 1996 Elton galdino de Lima – Bacharel em Artes Visuais pela UFPA, Belém - PA, Brasil.

INFOTENIMENTO NA REVISTA O PAVIO: O USO DA LINGUAGEM DOS QUADRINHOS COMO UMA NOVA FORMA DE REPORTAR A INFORMAÇÃO NO JORNALISMO AMAPAENSELuciete Facundes – Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal do Amapá – UNIFAP, Santana, Amapá, Brasil. Co-autoria: Edinalva Monteiro – Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal do Amapá – UNIFAP, Santana, Amapá, Brasil.

MS. MARVEL E A REPRESENTATIVIDADE MUÇULMANA NO UNIVERSO MARVEL — Ana Beatriz Santos Ayres de Mira –Acadêmica de Relações Internacionais da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Macapá, Amapá, Brasil.. Co-autoria: Luan Saulo Pureza Callins – Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Macapá, Amapá, Brasil.

NÃO SE ESQUEÇAM DE NÓS: UMA HISTÓRIA EM QUADRINHOS FEMINISTA –Autoria: Beatriz Miranda – Bacharel em Design – Universidade do Estado do Pará, Belém, Brasil.

O DUALISMO CORPO E MENTE NO MANGÁ “THE GHOST IN THE SHELL” - Cindi Lucia Brito da Silva – Graduanda de Licenciatura em Filosofia - Universidade Estadual do Amapá, Macapá, Amapá, Brasil.

O USO DA ELIPSE EM CAVALEIRO DAS TREVAS, DE FRANK MILLER - Ivan Carlo Andrade de Oliveira – Doutor em Arte e Cultura Visual – Professor da Faculdade da Universidade Federal do Amapá, Macapá, Brasil.

O USO DA REPRESENTAÇÃO DO NEOLIBERALISMO NAS HQS DE HELLBLAZER EM SALA DE AULA - João Vinicius Marques Gaia – Especialista em Docência do Ensino Superior- Professor da rede estadual de ensino do Estado do Amapá. Macapá, Amapá, Brasil.

O USO DO HORROR, TERROR E SUSPENSE NAS OBRAS DE JUNJI ITO Autoria: Arthur Corrêa Baía - Acadêmico em Bacharel Jornalismo na Universidade Federal do Amapá, Macapá, Brasil.

PROCESSO CRIATIVO DE PUBLICAÇÕES AUTORAIS DE OBRAS INDEPENDENTES DE HQ EM PLATAFORMAS DIGITAIS - Messias Freitas da Silva. Universidade Federal do Amapá-UNIFAP/Comunicação Social.

RAMADAN: DEVOÇÃO E SACRIFÍCIO EM SANDMAN, DE NEIL GAIMAN –Marcos Paulo Torres Pereira – Doutorando em Teoria e História Literária pela UNICAMP – Professor de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Amapá, Macapá, Brasil.

SIMULACRO E HIPER-REALIDADE EM “OS CAÇADORES DE SONHOS”, DE NEIL GAIMAN – Rafael Senra Coelho, Doutor em Letras – Professor Adjunto da Universidade Federal do Amapá, Macapá, Brasil.

VONTADE DE PODER NA JORNADA DO HERÓI: UMA LEITURA NIETZSCHIANA DE FULLMETAL ALCHEMIST- Sidarta Amorim Araújo – Aluno do curso de licenciatura em filosofia - Universidade Estadual do Amapá, Macapá, Amapá, Brasil.

terça-feira, agosto 21, 2018

A arte detalhista deTravis Charest


Travis Charest é um desenhista canadense conhecido principalmente por seu trabalho na Image Comics. Começou sua carreira na DC nos anos 1990, mas logo foi escalado para substituir Jim Lee no título Wildcast. Seu trabalho mais recente seria um álbum da série Metabarõespara a editora francesa Humanoides Associés. Entretanto, ele foi demitido após o editor descobrir que ele só havia preparado 30 páginas em seis anos. Confira sua arte detalhista. 







Julliette society


Sasha Grey era uma garota meio nerd que queria ser atriz pornô, apesar de não se encaixar no gênero gostosona. Conseguiu, depois aposentou-se e tornou-se atriz e escritora.
Juliette Society é seu primeiro livro e mostra que existe sim, vida inteligente no mundo pornô.
O livro é bem escrito, com uma prosa leve, mas nem de longe pobre.
O Julliete Society do título é uma organização secreta da qual participam os homens que mandam no mundo.
O nome é uma referência a um dos romances mais famosos do Marquês de Sade, Justine. Julliete é a irmã devassa da pudica Justine. Na obra de Sade, enquanto Justine é castigada pelo destino, sua inocência sendo constantemente punida, Julliete é brindada com o sucesso quanto menos inocente e mais sexualizada se mostra.
O capítulo que explica o título mostra bem que se trata de um livro diferente da maioria dos eróticos. Sasha Grey (cujo pseudônimo é uma homenagem ao romance O retrato de Dorian Gray) discorre sobre história, filosofia, literatura. E cinema. A protagonista é uma estudante de cinema, o que leva a diversas citações e referências a obras famosas da sétima arte, como A bela da tarde, de Buñuel.
Na verdade, o livro funciona pouco do ponto de vista do erotismo. É mais um triller usando como fundo o conhecimento da autora sobre o meio pornô recheado de filosofia, cinema e literatura.
A parte menos interessante é o final, mal-amarrado, em que o livro, que até então ia em pleno realismo, flerta com o fantástico.
Ainda assim, vale a leitura.

segunda-feira, agosto 20, 2018

Batman - morte em família


Em 1989 os quadrinhos de super-heróis estavam passando por uma grande transformação, em especial as histórias do Batman.
Obras como  Cavaleiro das Trevas e Piada Mortal haviam elevado o personagem a nível de dramaticidade poucas vezes alcançado. Além disso, o vilão Coringa, que antes era pouco mais que um palhaço, tornara-se um assassino serial.
Esse novo Batman parecia não combinar com um parceiro mirim. Além disso, os leitores pareciam não ter muita empatia pelo  novo Robin, Jason Todd. Aliás, a ideia da morte do Robin já havia sido explorada por Frank Miller em cavaleiro das Trevas. Mas, temerosa da repercussão, a DC resolveu consultar os leitores através de um número de telefone. Se o número de ligações pedindo a morte do personagem fosse maior que os dos que queriam que ele se salvasse, Todd morreria. E foi o que aconteceu (descobriu-se depois que o processo foi fraudado por um homem que programou seu telefone para fazer centenas de ligações pedindo a morte de Robin).
A saga ficou sob a batuta de Jim Starlin, responsável pelos roteiros e Jim Amparo, nos desenhos. Amparo é um desenhista competente, mas nem de longe genial - nem se compara, por exemplo, com Neal Adams, só para ficarmos em outro artista cujo nome é associado ao Batman. Assim, a força da HQ fica toda no roteiro de Starlin.
Na história, Jason Todd descobre que a mulher que ele acreditava ser sua mãe era na verdade sua madastra e vai em busca de sua mãe verdadeira. Em paralelo, o Coringa, após fugir da cadeia, descobre que está sem dinheiro e resolve vender um míssel nuclear para angariar fundos.  
Morte em família sofre de alguns roteirismos, como a coincidência de as supostas mães de Robin estarem sempre em locais nos quais está também o Coringa. Mas a força do texto é tanta, em especial na humanização dos personagem, que nos esquecemos disso. O texto seduz o leitor fazendo com que a narrativa se desenvolva de forma fluente. E o ponto alto, claro, é a morte de Robin nas mãos do Coringa. A sequência é crua, sinal dos novos tempos, e, ao mesmo tempo, pungente.Ali morria não só o Batman, mas também o antigo Coringa, que nos velhos tempos prenderia o menino-prodígio em alguma engenhoca e contaria seus planos enquanto o herói mirim fugia. Em seu lugar surge um Coringa psicopata, assassino, frio.

Essa história foi reunida em álbum capa dura na coleção de Graphics DC da Englemoss e é um dos itens obrigatórios dessa coleção.

Leonard Cohen - Closing Time (VIDEO)

Entrevista para o portal Sinestesia

O portal Sinestesia, uma das maiores referências brasileiras sobre cultura, realizou uma entrevista comigo sobre meu trabalho como escritor e roteirista. Para conferir, clique aqui.

As aventuras de uma criminóloga 122



Como repetir a mesma história sem parecer cansativo ou redundante?
Berardi mostra um como fazer isso na série de histórias com Mirna, a psicopata apaixada por Júlia Kendall e sua grande antagonista. A série inclui diversas histórias com a personagem, a maioria delas focada nas tentativas de Mirna de matar a criminóloga. Para que não pareça que está contando sempre a mesma história, o genial roteirista italiano foca nos personagens secundários, sua relação seus encontros com a psicopata.
A história Coragem de matar, publicada na edição 122 da revista é um dos melhores exemplos dessa dinâmica. Na HQ, Mirna fugiu da cadeia, mas ao invés de ir para outra cidade, prefere ficar em Garden City onde acaba conhecendo um cafetão e uma prostituta travesti agenciada por ele. Mirna acaba passa a se prostituir, mas seus clientes terão muito mais do que imaginam.
O destaque aqui vai para a relação de Mirna com a travesti e é escrito com uma candura quase poética. Contribui muito para isso o excelente trabalho de Laura Zuccheri, a desenhista desta história. A artista consegue captar perfeitamente o clima de beleza e morte que a história exigia e a escalada de violência que se sucede. Destaque para a expressão facial de Mirna, que muda completamente quando seu lado psicopata se revela.