sábado, setembro 22, 2018

Wolverine: escolhas malditas



Na década de 1990, o sucesso da coleção Graphic Novel fez com que a Abril lançasse uma coleção dedicada apenas à casa das idéias: a Graphic Marvel. O número 11 dessa série trouxe uma história do Wolverine com roteiro de Tom DeFalco e desenhos de John Buscema.
A história se passa no Havaí. Um poderoso traficante podófilo cria um harém de meninos. Um deles escapa e tenta matar o traficante. É quando seu caminho se cruza com o carcaju. É uma história de vingança, com Logan tentando vingar o menino, morto pela máfia, e libertar seu irmão, ainda nas garras do traficante. Para complicar as coisas, Nick Fury está na jogada, negociando um acordo de delação premiada (o que vai colocá-lo em rota de colisão com o mutante).
Só o desenho de John Buscema já vale o volume. Mas o roteiro de DeFalco não faz feio. Ao optar por fazer o texto em primeira pessoa, ele aprofunda a personalidade do herói e suas motivações. É também um texto direto, visceral, como o personagem.
A história é de 1991 e foi publicada em 1992. Pena que logo depois os quadrinhos de super-heróis americanos seriam dominados por um período caracterizado por personagens vazios. E pena que o Wolverine tenha se tornado um dos símbolos dessa época. Por isso, histórias como essa graphic sejam tão interessantes – pelo contraste com o que viria depois.

Como escrever quadrinhos?



O livro Como escrever quadrinhos ensina os fundamentos básicos do roteiro a partir da experiência do premiado roteirista Gian Danton. Valor: 25 reais (frete incluso). Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

Todo mundo quer informação



Minha mulher me conta que, quando ela e a família moravam no interior, havia um objeto que jamais faltava na casa: o radinho de pilha. Era por ele que chegavam as informações sobre o que estava acontecendo noEstado, no país e no mundo. Essa história demonstra uma característica essencial do ser humano: a necessidade de informação.
Não importa como (internet, rádio, jornal, televisão), estamos sempre procurando novidades, querendo sair do marasmo do “nada de novo”. Essa necessidade é claramente visível nas crianças. O bebê que leva um objeto à boca está, a seu jeito, procurando informações sobre aquele objeto. É duro? Mole? Gostoso? Amargo? Doce?
Talvez eu seja um exagerado, mas acredito, sinceramente, que todos os grandes projetos da humanidade foram motivados pela busca da novidade. Por que Colombo descobriu a América? Porque a curiosidade o impelia. E os portugueses? Por que navegavam? Porque eles buscavam o novo, o diferente, o inusitado. A necessidade de informação era tão grande que eles desafiavam todo e qualquer perigo, real ou imaginário e perseveraram em suas viagens ao redor da costa Africana. Como dizia o poeta, “Navegar é preciso, viver não é preciso”.
Sim, eu sei. Muitos discordarão, argumentando que as grandes navegações tinham como objetivo a busca de riquezas. Verdade. Mas será que riqueza era a única coisa que impelia aventureiros como Cristóvão Colombo? Além disso, para que serve a riqueza? Para comprar novida-
des. Um vestido novo é uma novidade e, portanto, informação. Nunca ouvi falar de alguém são que pretendesse ficar rico para viverenclausurado em um quarto vazio.
Quero dar um exemplo recente: a chegada do homem à Lua. Os EUA gastaram milhões de dólares para quê? Para matar a curiosidade humana. O que há lá em cima? Como será andar na lua?
Claro, havia a guerra fria, que dava um grande incentivo ao programa espacial norte-americano. Mas será que foi a guerra fria que fez com que milhões de pessoas acompanhassem os passos de Neil Armstrong? Não. Foi a curiosidade. Todos queriam saber como seria a chegada da nave à Lua, o que aconteceria com os destemidos astronautas...
Essa é a razão pela qual a profissão de jornalista é tão importante: a matéria-prima do jornalismo é a informação. É o jornalista que leva as novidades às pessoas, seja através da internet, da televisão, do jornal ou de um radinho de pilha em uma casinha na beira do rio...

sexta-feira, setembro 21, 2018

A ciência e a razão nos quadrinhos


Em 1996 fiz minha primeira apresentação no Congresso Intercom de ciências da comunicação. No artigo "A ciência e a razão nos quadrinhos" comparei uma obra moderna, Flash Gordon, e uma obra pós-moderna, Watchmen, e identifiquei como a ciência era mostrada em cada uma. 
Para ler o artigo: http://www.portcom.intercom.org.br/…/1892e2989eee33d8479a02…

Terror Magazine


Terror Magazine foi uma revista publicada pela editora Escala no final da década de 1990. A revista reunia contos, notícias, matérias especiais e quadrinhos. Eu colaborei com o primeiro número com a história “Monstros debaixo da cama”, com arte de Wilson Jr e cores de Alessandro Librandi. Na época estávamos vivendo o auge da fase Image nos quadrinhos e o desenho seguia essa linha, assim como as cores digitais e exagero de seus recursos (como se percebe no título da história). A HQ conta a história de um garoto capaz de gerar monstros. Mas seu poder sai do controle e se volta contra ele. 

Peanuts: a psicologia nos quadrinhos


A tira Peanutz  foi criada por  Charles Schulz no início da década de década de 1950 e rapidamente tornou-se um sucesso, chegando a aparecer em mais de 2600 jornais em todo o mundo, tendo  um público leitor estimado em 355 milhões, em 75 países.
Na década de 1970 o sucesso da tira levou ao surgimento do desenho animado, que era pessoalmente supervisionado por Schulz. Ao invés de descaracterizar a obra, o desenho ampliou-a para além dos limites dos quatro quadros diários.
Conta-se que um psiquiatra, chegando ao seu consultório, encontrou um bilhete de seu primeiro paciente, dizendo que estava dispensando o tratamento com médico, pois havia encontrado a causa de seus traumas. E ilustrava a situação com uma tira de Peanuts.
A história, real ou lendária, ilustra a incrível capacidade que Schulz tinha de perceber os dramas e traumas humanos, sintetizando-os na figura de crianças. Umberto Eco disse que ¨a poesia dessas crianças nasce do fato de que nelas encontramos todos os problemas, todas as angústias dos adultos que estão nos bastidores¨.
Nessa história aparentemente ingênua, encontramos os mais variados tipos humanos e seus conflitos.
Charlie Brown, o personagem principal, é o estereótipo do fracassado. Ele não consegue empinar uma pipa ou chutar uma bola. A única vez em que ganhou algo na vida, o prêmio foi um corte de cabelo. ¨Mas eu sou careca, e meu pai é barbeiro!¨ retrucou ele. Noutra ocasião, dançou com a rainha do baile, mas é incapaz de lembrar de nada desse acontecimento.
Se Charlie Brown é o a bigorna, na qual batem todos os males e dissabores da vida, a menina Lucy Van Pelt, irmã de Linus, é o martelo. Sua vida é provocar traumas no pobre Minduim, mostrando a cada momento o quanto ele é incapaz. Sua tirada mais clássica é fazer Charlie Brown acreditar que finalmente será capaz de chutar a bola, para tirá-la no último momento. Interessante que, apesar disso, ninguém jamais pensa em culpá-la pela derrota do time. O culpado é sempre aquele que não conseguiu chutar a bola.
Uma biografia escrita recentemente com o título de Schulz and Peanuts dá a entender que o próprio autor colocava suas neuroses nos quadrinhos, razão pela qual elas parecem tão reais. O autor descreve Schulz como um homem solitário, tímido e infeliz, dominado por figuras autoritárias, como sua primeira esposa e sua mãe, ambas representadas na personagem Lucy. Schulz se identificaria tanto com Charlie Brown, o fracassado, quanto com Schroeder, o músico. Este último seria o lado artístico, através do qual ele se libertaria da tirania da esposa. Sintomaticamente, outra cena famosa é a de Lucy tentando conseguir a atenção do pianista, que a despreza solenemente enquanto toca.  
Nesse sentido, Snoopy, provavelmente, representaria a liberdade criadora. Se Charlie Brown é o pé no chão, as tristezas e agruras da vida, Snoopy pode viajar o mundo e até mesmo ser um famoso piloto da I Guerra Mundial. Não por acaso, Charlie Brown é o personagem predileto dos adultos, que vêm nele seus traumas (a tirinha é a mais recortada, exibida e enviada a colegas nos EUA) e Snoopy é o personagem preferido das crianças pequenas, que ainda vislumbram na vida mais seus pontos positivos que negativos.
Mesmo depois da morte do autor, as tiras de Peanuts (ou Snoopy) continuam sendo republicadas em jornais e coletâneas e encantando crianças e adultos. E recentemente se transformou em um ótimo desenho animado para cinema.

I Aspas Norte - pagamento antecipado

O I ASPAS Norte está quase aí e você ainda não se inscreveu? As inscrições para ouvintes estão disponíveis até o dia 23 de outubro! Até esta data o pagamento para inscrição recebe aquele desconto 😉! Para ouvintes, o evento vale certificado de 20 horas.
E aí o que tá esperando? Se liga na tabela de valores!
Para mais informações: https://aspasnorte.wordpress.com/edital/

Escola do Rock

Escola de rock é um filme de 2003 dirigido por Richard Linklater, escrito por Mick White, e estrelado por Jack Black. Na história, um roqueiro fracassado se disfarça de professor substituto em uma rígida escola tradicional. Ao perceber o talento das crianças para a música, ele as convence a participar da batalha de bandas argumentando que se trata de uma competição entre escolas. 
Curioso como a maioria dos filmes sobre educação tratam de professores criativos em conflito com a educação tradicional. As crianças desenvolvem seus talentos não só musicais, mas capacidade de organização, liderança e até mesmo matemática (como o garoto que fica responsável por organizar a iluminação do show), mas o professor é repreendido mesmo quando, após ser pego com uma guitarra, usa a música para ensinar matemática para as crianças. Mas, ao contrário de outro filme muito semelhante, Sociedade dos poetas mortos, neste não temos um final depressivo. Ao contrário: o final é realmente empolgante, quando as crianças, após todas as dificuldades, conseguem se apresentar na batalha de bandas. 
Jack Black é alma do filme, com uma atuação espetacular, mas o que chama atenção são as talentosas crianças cujo talento musical fica ainda mais explícito nas cenas de improvisação musical. 
Não por acaso, o filme se tornou um enorme sucesso (Se você tem Netflix, corra para assistir, pois ele irá sair do streaming até o final do ano). 

quinta-feira, setembro 20, 2018

Os nazistas tentaram construir uma bomba atômica?


Sim. A descoberta recente de historiadores mostra um diagrama mostrando uma bomba nuclear nazista.
O desenho, no entanto, é apenas um rascunho, e não indica que os nazistas estiveram realmente próximos de construir uma arma desse tipo, embora provavelmente estavam mais perto esse objetivo do que se pensava anteriormetne.
O diagrama foi publicado na revista Physics World pelos historiadores Rainer Karlsch e Mark Walker, professor de história do Union College em Schenectady, nos Estados Unidos
A idéia dos nazistas era combinar uma mini-ogiva nuclear com um míssil. Os militares da época acreditavam que poderiam construir a bomba em seis meses, mas a controvérsia sobre a quantidade de urânio necessária para isso atrapalhou tudo. O físico Werner Heisenberg sustentava que deveria ser uma grande quantidade. Anotações de pesquisadores, encontradas Karlsch sugerem que se pensava em cinco quilos, um número muito próximo ao de fato usado pelos norte-americanos.

Entrentanto, o professor Paul Lawrence Rose, autor de um livro sobre o programa nuclear nazista, diz, por mais que alguns cientistas tenham chegado perto da quantia certa de urânio, o grupo de Heisenberg provavelmente continuou insistindo em uma quantidade maior. 

Coleção DC 75 anos – a era de prata





Em 2010 a DC Comics completou 75 anos. Para comemorar, a Panini lançou no Brasil uma coleção em quatro volumes, cada um reunindo histórias de um período: Era de Ouro, Era de Prata, Era de Bronze, Era Moderna.
Há uma polêmica sobre como teria começado a Era de Prata, mas a maioria dos autores concorda que foi com o ressurgimento dos super-heróis devido ao sucesso da nova versão do Flash, em Showcase 4, de 1956. A partir daí a DC voltou a investir em heróis de malha e as revistas começaram a pipocar nas bancas, até culminar na reunião dos heróis na Liga da Justiça.
O volume pretende dar uma visão geral do período e, como não poderia deixar de ser, inicia com o ressurgimento do Flash, com roteiro de Robert Kanigher, desenhos de Carmine Infantino e arte-final de Joe Kubert. Dá para perceber porque se tornou um clássico que salvou os heróis do esquecimento: o roteiro é bem amarrado, com uma sacada genial  e irônica (um velocista enfrentando o Tartaruga, o homem mais lento da terra) e os desenhos são lindos, a começar pela splash page inicial com o Flash avançado pela página como se estivesse escapando dos quadrinhos. E, comparado com a versão do personagem da Era de Ouro, essa é muito mais consistente.
A história a seguir, do Superboy, é outro clássico típico da era de ouro. Escrita por Otto Binder e desenhada por Al Plastino, a HQ apresenta a Legião dos Super-heróis. Ainda na coleira do Comics Code, os quadrinhos não poderiam ter nada que parecesse ofensivo aos pais. Então esqueça violência ou conflitos familiares. Os roteiristas tinham se adequar a plots ingênuos e fazer com que eles parecessem interessantes. É o que fazem os autores dessa história. Na HQ, o Superboy tenta ser admitido na Legião, mas falha em todos os testes, pois sempre aparece algo mais urgente para ser resolvido. O plot twist final é ingênuo, mas eficaz dentro da lógica da época.
A origem do Aquaman (com roteiro de Robert Bernstein e desenhos de Ramona Fradon) deixa um ar de incômodo nos leitores mais costumazes. É parecida demais com a origem de Namor. Ambos são filhos de mulheres atlântidas com humanos, só para dar um exemplo. Mas como na época o Príncipe dos Mares não era publicado e a Marvel dependia da DC para a distribuição de suas revistas, isso acabou não dando origem a um óbvio processo judicial por plágio.
Segue-se a famosa história em que o Flash da era de prata encontra o da era de ouro. Famosa por que deu origem ao conceito de que existem vários universos DC em dimensões diferentes, e a história em que a Liga da Justiça encontra a Sociedade da Justiça, aproveitando esse mote.
Depois uma história dos parceiros mirins dos heróis em que Robin, Kid Flash e Aquakid precisam solucionar o mistério do desaparecimento dos jovens de uma cidade do interior dos EUA. É irritante o quanto a HQ consegue ser unidimensional em seu conflito. Adultos não conseguem entender os jovens na cidade e os jovens não conseguem entender os adultos. Entre os heróis, os heróis adultos não conseguem entender suas versões mirins e estes, por sua vez, não conseguem entender os heróis. Mas no final, a solução é simplista. Diante de toda a complexidade de relacionamento que teríamos nos Novos Titãs na fase de Marv Wolfman e George Peres, histórias como essa parecem terrivelmente simplistas.
O volume traz ainda “A montanha do julgamento”, de Jack Kirby – e, independente da qualidade desse material, fico na dúvida se poderia entrar em um volume sobre a era de prata.
Algumas faltas são nítidas na edição. Não há, por exemplo, nenhuma história do Super-homem desenhada por Curt Swan, o desenhista mais emblemático da Era de Prata na DC. Além disso, não há nenhuma HQ do Gavião Negro de Joe Kubert, um dos melhores quadrinhos do período na DC.

A história do homem que não existia


Informamos ao nosso distinto público que se encontra à venda o livro Francisco Iwerten - A Biografia de uma Lenda ao preço promocional de 15 reais apenas até o início do ano. Aproveite o clima natalino para presentear seus amigos com essa maravilhosa biografia. Interessados, favor contatar o senhor Gian Danton através do e-mail profivancarlo@gmail.com e mencionar este anúncio. 

Hoje tem Rádio Pop!


quarta-feira, setembro 19, 2018

Clássicos revisitados – Monstros noir


O segundo volume da coleção Clássicos Revisitados uniu dois assuntos diversos: monstros e policial noir. Para quem não conhece, o noir é um gênero policial surgido nos EUA que se diferenciava do tipo dedutivo (característico da Inglaterra) ao apresentar detetives durões, narrativa sarcástica, violência, femmes fatales etc. Eu escrevi a história “Frankstein Noir”, desenhada pelo amigo JJ Marreiro.
O roteiro já era repleto de referências, desde aos romances noir à literatura de H.P.Lovecraft.
Mas o desenhista acrescentou muito mais, a começar pela página de abertura, que emula a capa de um pulp fiction da década de 1930, com chamadas de capa e até preço. Marreiro também recheou a história de easter eggs (novamente, para quem não conhece o termo easter egg significa ovo de páscoa e é a brincadeira de esconder numa histórias referências visuais para serem encontradas pelo leitor da mesma forma que crianças encontram ovos na brincadeira de páscoa), principalmente na sequência da danceteria, na qual aparecem diversos personagens de quadrinhos, cinema e até artistas. 
Confira abaixo alguns previews e easter eggs espalhados pela história: 






O uivo da górgona


Um som se espalha pela cidade (ou pelo estado, ou pelo país, ou pelo mundo?). Um som que ouvido transforma as pessoas em seres irracionais cujo único o objetivo são os instintos básicos de violência e fome. É o uivo da Górgona.
Acompanhe a história dos sobreviventes neste livro de terror, uma história de zumbis diferente, em que qualquer um pode se transformar, bastando para isso ouvir o terrível uivo da górgona.
Escrito em capítulos curtos, o livro transforma o suspense em elemento de fantasia, prendendo o leitor da primeira à última página. 
Pedidos: profivancarlo@gmail.com. 

terça-feira, setembro 18, 2018

Aberturas de desenhos Marvel no Brasil parte 1

Fake news matam

Na década de 1920 os nazistas usaram o livro falso Os protocolos dos sábios de sião para convencer a população alemã de que havia um grande plano por parte dos grandes banqueiros internacionais - aliados aos bolcheviches - para destruir a civilização ocidental. Os nazistas sabiam que o livro era falso, mas mesmo assim continuaram divulgando-o e dizendo que eram os únicos que podiam impedir que isso acontecesse. E as pessoas acreditaram. O resultado foram cinco milhões de mortos em campos de concentração.

Desespero, de Stephen King

Acabei de ler Desespero, de Stephen King. Não é o melhor do mestre, mas King, mesmo que quando é ruim, é muito melhor que a maioria dos escritores comerciais.
A trajetória desse autor é interessante: na década de 1970 ele escreveu alguns romances bons, como O IluminadoZona Morta e Carrie. Essa fase terror teve seu auge no livro Cemitério, que provavelmente é o livro mais apavorante já escrito. Mas o auge mesmo foi no início dos anos 1990, com o livro Corredor da Morte, hoje chamado de À espera de um milagre por causa do filme, um belo livro cujos elementos fantásticos só servem para destacar a humanidade dos personagens.
Dali em diante, ele parece estar pendendo mais e mais para a fantasia e perdeu muito do charme que tinha antes. Seu enredos se tornaram fantasiosos demais, no meu entender. O que poderia ser uma história de violência doméstica com toques de terror, em Insônia, vira uma batalha campal entre o bem e o mau.
Desespero segue essa linha mais fantasiosa, em que o fantástico toma mais espaço que a caracterização dos personagens (o que dificulta ao leitor criar empatia com os mesmos). Mas ainda assim é um livro gostoso de ler. Impossível de parar de ler parece ser um adjetivo que foi grudado na testa de King e esse livro não foge à regra.
Desespero é uma pequena cidade mineira nos EUA. Quando um casal passa por um placa onde há um gato morto pregado, esse é apenas o prenúncio que virá. Eles são em seguida parados por um policial imenso, que mata o homem e prende a mulher. Para quem começa a ler, parece apenas uma história de psicopata, mas depois se percebe que há muito mais coisas em jogo, com entidades ancestrais e malignas envolvidas. A narrativa vai retornando no tempo e contando a história de todas as outras pessoas que estão presas com Mary. Entres eles a família Carver, cujo garoto David é o personagem mais consistente de todo o livro, embora seja também o mais fantástico. David encontrou Deus ao rezar para um colega que sofreu um acidente, e esse encontro vai ser fundamental na trama.

Desespero não é só um livro de terror, é também uma obra sobre crença e descrença, sobre como as pessoas deixaram de acreditar em algo maior e o vazio que isso deixou em suas vidas.

Mesmo quando escreve algo puramente comercial, King ainda tem algo a dizer.

segunda-feira, setembro 17, 2018

Você, um estudo objetivo do comportamento humano



Desmond Morris era um zoólogo especializado em pesquisar primatas. Um dia ele percebeu que o método de observação que usava para analisar o comportamento dos macacos poderia ser usado para os seres humanos. O resultado disso foi o livro O macaco nu. Posteriormente, Morris desenvolveu suas ideias numa obra mais completa, “Você – um estudo objetivo do comportamento humano”, certamente um dos melhores livros que já li.
A obra faz análises de comportamento a partir das observações do autor. Há, por exemplo, um capítulo apenas sobre a pupila e como o tamanho dela mostra ou não nosso interesse por algo (da mesma forma como o tamanho da pupila de alguém pode torná-la interessante para um possível par).
Um dos capítulos mais interessantes é o que trata de estímulos Supernormais. Segundo Morris, um estímulo supernormal “é o que excede seu correlativo natural”. Em outras palavras, é o que chamamos de hiper-realidade.
O autor começa analisando como o ser-humano modifica a sua própria natureza de maneira artificial: se quer ficar mais alto, usa sapatos de salto, se deseja melhorar a maciez de sua pele, usa cremes. Usa peruca, cílios postiços, maquiagem. “São intermináveis as maneiras como ele ampliou seus sinais corporais como meio de aperfeiçoar suas exibições sexuais, suas exibições hostis ou exibições de status”.
Mas o ser humano passou a supernormalizar também o ambiente à sua volta. Um passeio pelo supermercado revela uma série de ardis supernormalizantes: dentrifícios que prometem um riso supernormal, sabões que prometem uma limpeza supernormal, xampus que prometem uma maciez supernormal dos cabelos. E esse recurso já inicia na embalagem: “A vasta indústria da propaganda comercial está interessada quase que inteiramente na questão de ampliar o apelo visual dos produtos. Já que muitos dos produtos reais são virtualmente indênticos, é necessário dedicar atenção de perito para apresentá-los de modo mais estimulante que os rivais”.
O recurso é usado até mesmo nos desenhos: “Como as pernas de uma garota se tornam mais longas quando ela se aproxima da maturidade sexual, segue-se que pernas compridas podem ser vistas como sensuais. Os artistas que retratam garotas atraentes, então, exageram o comprimento das pernas em seus desenhos e pinturas”.  

Família Titã - o processo de criação


Família Titã foi uma história em quadrinhos escrita por mim e desenhada pelo Joe Bennett e publicada em diversas revistas da editora Nova Sampa na década de 1990. Eu contei 5 edições diferentes. Com o tempo, virou cult e finalmente foi relançada, no formato de álbum, pela editora Opera Graphica, em maio deste ano. O texto abaixo, um diálogo entre eu e o Joe, deveria constar no álbum, mas acabou não entrando. Nele, nós discutimos como foi o processo criativo e a repercussão da história. Eu tenho exemplares para venda, ao preço de 35 reais já com frete. Quem estiver interessado, basta mandar um e-mail para: profivancarlo@gmail.com. 



Gian Danton: Você lembra como tudo começou? Você recebeu um telefonema do Franco de Rosa pedindo uma história de 30 páginas, não?

Joe Bennet: Sim, ele me pediu uma HQ de 30 páginas para fechar uma edição e queria em no máximo 15 dias.

Gian Danton: Isso. O tempo era muito corrido. Tínhamos que criar algo rápido

Joe Bennett: Sim. Eu na época estava trabalhando somente para o Franco... a Val era um bebê de meses de idade, precisava fazer grana rápido. Eu não tinha nada em mente. No caminho pra tua casa eu fui pensando na família Marvel.

Gian Danton: Você lia muito Família Marvel quando criança?

Joe Bennett: Eu adorava a Família Marvel!

Gian Danton: O irônico é que a Família Marvel é a mais infantil dos super-heróis...

Joe Bennett: Sim..mas estávamos encharcados do Miracleman e fizemos algo muito adulto... Quando eu fui pra tua casa discutir a empreitada eu só estava com a Família Marvel na cabeça. Começamos a falar sobre isso, mas com o Miracleman como guia, como sempre fazíamos. Primeiro nos avacalhávamos, pois sempre fazíamos piadas com nossas ideias.. Éramos muito críticos de nos mesmos. Aí então, após algumas horas, parávamos e víamos que a coisa tava séria...rsrsrs

Gian Danton: A gente sempre se divertia muito, especialmnete nas histórias de terror.

Joe Bennett: Haha! Verdade!

Gian Danton: Você vivia me colocando nas histórias, em piadas internas...

Joe Bennett: HAHHAHA! A melhor de todas ainda é a do cara com agorafobia na PHOBOS (publicada na revista Graphic Sampa) acabou ficando duca aquilo.

Gian Danton: Nessa mesma história aparece um hospício com o meu nome verdadeiro, Ivan Carlo. Mas voltando para a Família Titã, você lembra se a gente teve a ideia de transformar a coisa em uma tragédia grega, ou foi sem querer?

Joe Bennett: Olha cara..na verdade foi por uma consequência de ideias...a gente foi fazendo... criando, e quando vimos aquilo estava denso pacas...a solução era somente uma...TRAGÉDIA. Na verdade..a cena do menage a trois que levou ao final da trama...

Gian Danton: É, naquela cena fica claro que o Tribuno era um pária no grupo. Aliás, só colocamos aquela cena porque precisava ter sexo, mas acabou sendo fundamental.

Joe Bennett: Sim...na verdade ela é fundamental... mas so foi explícita por questões editoriais... Hoje ela aconteceria, mas de forma velada.

Gian Danton: Engraçado que, apesar da influência de Miracleman, o caminho que seguimos foi outro...

Joe Bennett: Sim..o nosso caminho foi até mais realista em nível humano do que o Miracleman. Fomos ao cerne do ser humano ali.

Gian Danton: Nós abordamos mais a interação entre eles. Os personagens que eram realistas, tinham motivação...

Joe Bennett: Sim e eu acho aquela solução do roteiro realista perturbadora...


Gian Danton: Sim, um herói em busca de vingança.


Joe Bennett: Esse nosso tom realista-humanista foi nos levando ate chegar na Refrão de Bolero, concordas?

Gian Danton: Sim, sem dúvida. Refrão foi uma consequência da Família Titã.

Joe Bennett: Sim,  Exato. Ela foi logo em sequencia à FT.

Gian Danton: Mas voltando à família, Tribuno é o personagem mais interessante. Ele é heroi e vilão.

Joe Bennett: Sim. Ele é o canal pra toda a tragédia..pois já tem um espírito trágico.

Gian Danton: Engraçado que isso aconteceu por causa da correria. Não tivemos tempo de conversar sobre isso. Lembro que você fez o rafe rapidinho. Eu escrevi o texto todo em menos de uma hora.

Joe Bennett: Foi. Eu fiz o rafe numa tarde e te mostrei na manhã seguinte.

Gian Danton: Tudo foi muito rápido. No mesmo dia você já estava fazendo a primeira página.

Joe Bennett:  Não pensamos em nada além de FAZER... o original era pequeno 25 x 28 mais ou menos, para economizar tempo.

Gian Danton: E no final eu achava que o Tribuno era o herói e você achava que ele era o vilão. Acredito que o diferencial do Tribuno é que ele tinha motivação. Algo que falta em muitas histórias atuais. Os personagens parecem bonecos sem vida...

Joe Bennett: Sim..eu tinha esta ideia dele..tanto que sempre o fazia soturno e nos cantos dos quadros.

Gian Danton: Então ele tá lá, matando um monte de gente, botando o terror, mas o leitor entende ele, e até simpatiza com ele.

Joe Bennett: Sim..pois no texto tu compravas o leitor.. e isso foi ótimo. Eu era o promotor e tu eras o advogado.

Gian Danton:  E no desenho você caprichava nos detalhes mórbidos...

Joe Bennett:  É. A cena do Paulo preso nos destroços e bebendo gasolina para não morrer deixou até tu perturbado. Rs RS RS RS RS.

Gian Danton: Aquela cena da Vésper agarrada com a filha, o olhar de pavor dela é perturbador...

Joe Bennett:  Sim..e complementou com tua descrição da morte da criança..algo que não foi mostrado..mas ali estava tua descrição digna de um agente da gestapo... rs rs
 
Gian Danton: Lembrei de uma coisa agora. Essa sequência era a primeira da história, depois vinha o resto em flash- back. Quando foi publicado pela primeira vez, inverteram isso e colocaram no final. Essas narrativas não lineares eram típicas da nossa parceria.

Joe Bennett:  Sim..a trama é contada em flashback...isso é, claro, uma influencia do Moore...

Gian Danton Outra inovação foi colocar eles morando num lixão.

Joe Bennett:  Sim... hoje é cool mostrar isso, tem até novela no lixão, mas na época, não. Se fossemos bobinhos naquela época faríamos eles garotos normais, digo, morando em casas normais. Mas não, fomos pelo caminho da crueza mesmo...

Gian Danton: Falando sobre os personagens, Centurião e Vésper ainda continuam crianças, mesmo depois dos poderes...

Joe Bennett:  Sim, pois eram infantis mentalmente. Aliás..eram crianças de 12 a 14 anos na verdade. O Tribuno que por ser letrado, era bem mais maduro, mas não tanto ao ponto de aceitar que Melissa não o amava... se bem que pra isso não precisa idade ou intelectualidade... rsrsrs

Gian Danton: Sim, o Tribuno era um velho em corpo de criança.

Joe Bennett: Sim e literalmente... já que seu corpo estava morrendo

Gian Danton: Centurião e vésper são como crianças que ganharam um brinquedo caro e querem curtir esse brinquedo.

Joe Bennett: Isso

Gian Danton: Tem esse aspecto também. O Tribuno acha que eles devem usar os poderes para melhorar o mundo.

Joe Bennett: Sim, e na minha opinião o César queria ou teria usado este poderes de forma mais correta com o que lhe propuseram... na verdade o poder era DELE e ele o distribuiu e por isso a coisa desandou. Ele fez tudo por amor à Melissa.. quando deveria fazer por amor a humanidade

Gian Danton: O tribuno é tridimensional.

Joe Bennett: Sim. Bastante.

Gian Danton: É um personagem complexo: humanista, mas egoísta. Interessante também que o amor dele acaba se transformando em ódio.

Joe Bennett: Na verdade... o altruísmo dele em distribuir poder foi somente um fisiologismo para receber o amor da Melissa depois.

Gian Danton: Embora ele esperasse que ela usasse bem esse poder...

Joe Bennett: O odio anda em compasso com o amor..tanto que ao final de tudo ele chora por tudo que fez. Ali ele se redime.

Gian Danton: Só um deus pode matar um deus.

Joe Bennett: Na minha opinião ele nao morre no sol.. nada pode matar o que ele possui...

Gian Danton: Deixamos o final em aberto.

Joe Bennett: Cada um tem a sua ideia de como termina. Sempre fazíamos isso em nossas HQs. Dávamos margem para discussões depois. Nunca fechávamos tudo e
isso era algo bom.

Gian Danton: Aliás, muitos leitores achavam que o Tribuno era herói, outros que ele era vilão. Não tinha uma interpretação só.

Gian Danton Estava olhando a história. Acho que é a HQ em que fica mais clara sua influência do Garcia Lopez.
Joe Bennett: Sim..Garcia López. Ali eu me soltei neste sentido. Era uma HQ de super-herói. Portanto, nada mais adequado que emular meu mestre, tanto que esta HQ me levou a trabalhar nos EUA... mas isso é outra historia...

Gian Danton: Fala um pouco sobre essa influência.

Joe Bennett:  Eu conheci o o mestre Garcia aos meus 8 anos numa história do Batman. Foi amor à primeira vista. O cara é um mestre! Nunca havia visto herois sendo desenhados daquele jeito. Durante minha pré-adolescência eu treinei muito o estilo dele.

Gian Danton:  Engraçado que eu sempre fui fã do traço do Garcia lopez e você sempre foi fã do Alan Moore.... A Família Titã juntou um roteirista influenciado pelo Alan Moore com um desenhista influenciado pelo Garcia-Lopez...

Joe Bennett:  Pois é, ali juntamos as duas coisas.

Gian Danton: Você lembra como foram as reações dos leitores?

Joe Bennett: olha.. a melhor delas foi do Jadson, que na época era leitor e aspirante a quadrinhista. O Jadson comprou para descascar uma... aí começou a ler e não teve coragem de proseguir com seu intuito primário... rs rs rsrs... Virou fã da HQ... Aliás, muita gente comprava para descascar e depois virava fã da dupla.

Gian Danton: Eu sempre viajo em congressos e eventos e sempre vinha alguém com a Família Titã encadernada para autografar... O engraçado é que isso foi lançado em revista lacrada, de fundo de banca, papel jornal...

Joe Bennett: Pois é. Tinha gente que recortava só a família titã e mandava encadernar.

Gian Danton: Mesmo sendo erótico, a gente caprichava, não era o sexo pelo sexo...

Joe Bennett: Não acho que alguém tenha sentido tesão pela INCUBO... rs rs rs rs...

Gian Danton: Lembro de uma carta do Franco de Rosa nos pedindo para não matar os protagonistas.

Joe Bennett:  Há Há Há! Pois é, os leitores compravam por causa do erotismo e a gente matava os protagonistas. Era quase uma necrofilia da parte dos leitores... Muitos se sentiam mal...

Gian Danton Se sentiam mal, mas continuavam comprando.

Joe Bennett: É igual a um acidente com massa encefálica espalhada no asfalto... todo mundo acha horrível mas passa devagarzinho ao lado para ver...

Gian Danton: Aí iam na banca e procuravam as revistas que tivessem a margem negra... Lembro que vc já usava antes mesmo da nossa parceria. Você já tinha ideia que isso era uma sacada de marketing?

Joe Bennett: Sim, eu tinha sim, fazia de proposito, era marca Bene Nascimento na revista.

Gian Danton: E todo mundo sabia...

Joe Bennett sim. E compravam por isso também... eu só queria saber quantas vezes a FT foi republicada...

Gian Danton Eu contei quatro publicações. Quem curtia comprava a revista mesmo lacrada por causa da margem negra.

Gian Danton: Sobre continuações: Eu acho que poderia funcionar como prequel, tem muita brecha ali, muita coisa que contamos só por alto...

Joe Bennett:  Sim, não cabem continuações, mas prequels e enxertos sim... eles tiveram 10 anos de atividade... ou 15, não me lembro agora... portanto muita coisa aconteceu. Sem contar os 10 anos de exílo do César, poderoso e solitário e cada vez mais amargurado com o mundo.

Gian Danton: sim, há brechas aí para muitas histórias. Só isso já dava uma série.

Joe Bennett: Na época talvez não tivéssemos vivencia para fazer essas historias... mas hoje a coisa seria diferente. Fica aqui uma ideia...

Gian Danton: Não tínhamos vivencia nem mercado.

Joe Bennett: Hoje continuamos em mercado... rs rs rsrs

Gian Danton: Mas hoje existem os álbuns para venda em livrarias. O mercado da época era fazer histórias eróticas para serem publicadas em revistinhas de fundo de banca... Eu sempre lamentei a família titã nunca ter sido publicada em um formato melhor, com papel de qualidade...

Joe Bennett: Sim... finalmente, após quase 25 anos, isso vai acontecer.

Gian Danton: Na verdade, este álbum da FT é um antigo sonhos dos fãs.

Joe Bennett:  E nosso também...

Gian Danton: Muita gente me cobrava isso.

Joe Bennett: Sim..a mim também. Eu também me cobrava e hoje me cobro mais historias deles.

Gian Danton: Na época a chamada de capa era "a insólita família titã".

Joe Bennett: sim

Gian Danton: Não tinha nome dos autores na capa, ou maior destaque. Era o mesmo destaque das outras histórias.

Joe Bennett: Na verdade..nem nós nem o Franco sabíamos o que estava em nossas mãos. Poderíamos ter criado um universo inteiro com herois brasileiros e criveis a partir dali..

Gian Danton: o sucesso foi aos poucos. O pessoal foi descobrindo a história. Outra coisa que ajudou foi a internet. Um amigo americano me disse que alguém traduziu para o inglês e colocou na rede o scans. Infelizmente esse site deve ter sido derrubado antes de eu achar esse scan.

Joe Bennett: Poxa..que pena... eu queria ter visto isso.

Gian Danton: Eu também. Mas isso mostra que até nos EUA tivemos fãs da Família Titã...

Joe Bennett: Pois é. Aliás, foi graças à Família Titã que consegui trabalhar para os EUA. O Hélcio de Carvalho leu essa HQ e me convidou para fazer testes paras as editoras americanas. O resto é história...