sexta-feira, outubro 05, 2018

A ciência dos signos

Charles Pierce, criador da Semiótica.
Certa vez fui a uma livraria procurar o livro O Signo, de Isaac Epstein. A moça da loja se espantou: “Você é o segundo professor que vem procurar esse livro. Por que vocês estão tão interessados em astrologia?”. O caso demonstra a compreensão que a maioria das pessoas tem da palavra signo. Na verdade, em nossa sociedade, quase tudo é signo de algo. Certas roupas são sinais de que a pessoa está na moda, certos carros são símbolos de status... é impossível realizar a maior parte de nossas atividade diárias sem o auxílio de símbolos. Até para ir ao banheiro precisamos interpretar símbolos (caso não, corremos o risco de entrarmos no banheiro errado). 

Na verdade, os signos foram uma das mais importantes e mais geniais invenções do ser humano. Antes dos signos, para nos referirmos a uma pedra, precisávamos mostrar a pedra. Imagine como seria incômodo levar várias pedras consigo para poder mostra-las toda vez que fosse necessário se referir a elas. É mais prático dizer o palavra pedra, não é mesmo. Os signos são isso mesmo: um substituto para as coisas. Eles estão no lugar das coisas, as representam. Claro que, além de falar pedra, eu também posso desenhar uma pedra. Essa é uma outra forma de representar a coisa pedra. 
Os signos sempre fascinaram os pensadores e são estudados desde a Grécia antiga, passando pela Idade Média e pelos filósofos iluministas. Mas uma ciência dos signos só foi se firmar no final do século XIX e início do século XX. Foi nessa época que Charles Sanders Pierce nos EUA e Ferdinand de Saussure na Europa começaram a produzir uma ciência dos signos. Os partidários de Pierce chamaram essa ciência de semiótica. Os adeptos de Saussure a chamaram de semiologia. A corrente saussureana se notabilizou pela análise dos signos lingüísticos, enquanto os pierceanos abriram sua análise também para outras formas de representação. 
 Pierce diz que signo é aquilo que está no lugar de outra coisa. A palavra pedra está no lugar da coisa pedra. Podemos dizer também que signo é tudo aquilo uma coisa que não seja ele mesmo. Uma pedra é apenas uma pedra, mas se uma empresa de construção convencionar que a pedra é seu símbolo, ela passa a ser um signo. 
Mas afinal, como funciona um signo? Como podemos nos referir a uma coisa sem a termos por perto? Muitos pensadores se debruçaram sobre essa questão e a maioria concluiu que um signo tem uma característica triádica, ou seja, é dividido em três partes. É o chamado triângulo semiótico.



Pierce chamou os três pontos da pirâmide de signo (a palavra pedra), imagem mental (a imagem da pedra que se forma em nossa mente) e objeto (a coisa pedra). 
Outros autores têm utilizado as expressões significante (a palavra pedra), significado (a imagem da pedra que se forma em nossa mente) e referente ( a coisa pedra).
O significante é o aspecto sensível do signo. Se estamos falando, são os sons que formam a palavra pedra. Se estamos escrevendo, é o conjunto de sinais gráficos que formam a palavra pedra. 
O significado é a compreensão que temos da mensagem. 
O referente é aquilo ao qual estamos nos referindo. Se dizemos a palavra pedra, o referente é a coisa pedra. Se dizemos praia, o referente é a coisa praia.
Há situações em que um significante tem mais de um significado. É o que acontece com as palavras que têm dupla interpretação. Por exemplo, a palavra bala pode ser de revólver ou de comer. Manga pode ser fruta ou pode ser manga de camisa. 
A poesia é essencialmente polissêmica. Quando o poeta diz “Tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra”, cada um de nós vê um significado na palavra pedra. Para uns podem ser as dificuldades da vida. Para outros pode ser uma pedra mesmo...
A polissemia é que permite os trocadilhos, um recurso muito usado pelos humoristas. Quando digo que a Rússia invadiu a Chechênia, essa frase pode ter tanto um significado político quanto sexual.
Por outro lado, pode haver erros de interpretação: o emissor está pensando em um referente, mas o receptor interpreta a frase com outro significado. É o caso de dizermos pedra e a pessoa entender Pedro. Esse fenômeno é chamado de ruído e é estudado pela teoria da informação. 
Um aspecto importante da semiótica é a necessidade de intérprete. Só temos signos quando há pessoas para interpretá-los. Qual o significado de uma árvore caindo em uma floresta deserta? Nenhum, pois não há ninguém ali para interpretar esse fato.
Por outro lado, os signos podem ser primários ou secundários. Signos primários são criados pelos homens para serem signos: palavras, desenhos, símbolos, sinais de trânsito...

Signos secundários são coisas que foram transformadas em signos. O arroz, por exemplo, é só um alimento. Mas no casamento, quando é jogado sobre o casal, ele representa a fertilidade. O automóvel é apenas um meio de transporte. Mas uma BMW é um símbolo de status, de que seu ocupante é uma pessoa rica e poderosa. Um pombo é apenas uma ave, mas nas manifestações pacifistas ele se torna um símbolo da paz e da liberdade. 
Um dos signos mais famosos de nossa sociedade é um signo secundário. Trata-se da cruz. A cruz, originalmente, era só um instrumento de tortura. Com o tempo, ele tornou-se o símbolo da religião e da fé cristã. Esse processe de transformação de coisas em símbolos é cultural e arbitrário. De repente alguém decide que algo vai representar tal coisa. Se pegar, aquilo passa a representar algo além dele mesmo. No início do cristianismo, por exemplo, o símbolo da fé cristã era um peixe. Foi um símbolo que acabou não pegando e os cristãos acabaram ficando com a cruz.
Segundo Pierce, se considerarmos a relação do signo com o referente, existem três tipos de signos: os ícones, os índices e os símbolos. 
Os índices, talvez os primeiros signos utilizados pelo homem, têm uma relação com contigüidade com a coisa representada. Ou seja, como sempre vemos um e outro juntos, passamos a associar uma coisa a outra. Por exemplo, como vemos sempre fogo e fumaça, logo associamos que onde há fumaça, há fogo. A fumaça virou índice do fogo. 

Os detetives trabalham essencialmente com índices: as pegadas no barro e a impressão são índices de que o ladrão fugiu por um determinado local. A pegada também pode ser um índice do tamanho do ladrão (uma pegada grande é índice de um homem alto, uma pegada pequena é índice de um homem baixo). 
A seguir, temos os ícones. 
Os ícones são signos que guardam uma relação de semelhança com a coisa representada. São o tipo de signo mais fácil de ser reconhecido. Não é necessário qualquer tipo de treinamento para identificar uma foto de um cachorro. Basta ter já visto um cachorro antes. Exemplos de ícones são fotos, desenhos, estátuas, filmes, imagens de TV. Um tipo especial de palavras também é considerada ícone: as onomatopéias, que representam os sons das coisas e dos animais.
Os símbolos são signos muito mais complexos. Imagina-se que eles só tenham surgido em uma fase mais avançada da civilização humana. Os símbolos não guardam qualquer relação de semelhança ou de contigüidade com a coisa representada. A relação é puramente cultural e arbitrárias. Para compreender um símbolo, é necessário aprender o que ele significa. As palavras, por exemplo. Para compreender que o conjunto de sinais PEDRA significa a coisa pedra, preciso ter sido alfabetizado, ou seja, passado por um treinamento.
Conta-se a história de um monge budista que, ao entrar em uma igreja católica, ficou chocado com aquela imagem de um homem sendo torturado. Ele codificou a cruz como um instrumento de tortura, e não como símbolo da fé cristã. 
São exemplos de símbolos as palavras, os símbolos matemáticos, os símbolos químicos, as bandeiras de países e clubes. Já se falou de coisas que podem ganhar o status de símbolo. É o caso do Tucano, que representa o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), ou a estrela, que simboliza o Partido dos Trabalhadores (PT). 
Os símbolos são criados no momento da criação do código. É o código que diz os sinais que são válidos e os que não são. É também o código que nos diz como os símbolos devem se relacionar entre si.
Às vezes um signo pode ter mais de uma classificação. É o caso da cruz. Ela é um ícone (de um homem sendo torturado), um símbolo (da fé cristã) e pode ser um índice (quando chegamos em uma cidade e queremos saber onde fica a igreja).
Por outro lado, é possível que um símbolo tenha características de ícone. É o caso de uma poesia sobre a chuva em que as letras vão caindo como gotas de chuva. 
As logomarcas das empresas normalmente são símbolos que apresentam características de ícones. Isso é feito para que a compreensão da mensagem seja mais rápida e funciona tão bem que até mesmo crianças que ainda não foram alfabetizadas conseguem ler logomarcas. Elas lêm visualmente.
As letras da Coca-cola, por exemplo, procuram reproduzir as curvas da garrafinha. A rede Globo tem, na sua logomarca, o famoso símbolo visual que é um globo no formato de TV com um globo dentro. Ou seja, o planeta dentro da TV.
Também acontece de um signo contaminar o outro e passar suas características para ele. Essa contaminação pode ocorrer por similaridade ou contigüidade. Dois signos semelhantes podem transferir seu significado um para o outro. Ao ver uma foto de um tigre, uma criança pode achar que se trata de um gato, devido à semelhança dos dois.
A contigüidade ocorre quando colocamos dois signos próximos um do outro. A foto de um político encimada pela palavra LADRÃO dará a entender que o político é desonesto. Fotos de pessoas junto à palavra FELICIDADE darão a entender que essas pessoas são felizes.

quinta-feira, outubro 04, 2018

Os primeiros desenhos animados da Marvel

Em 1966 o seriado do Batman estreado por Adam West era um fenômeno nos EUA. Foi quando tiveram a ideia de levar para as telas os heróis Marvel que estavam revolucionando os gibis americanos.
O roteirista Stan Lee associou-se aos produtores Steve Krantz e Bob Lawrence e venderam a ideia para a Paramount.
Tudo foi feito a toque de caixa com um orçamento baixíssimo para aproveitar a onda de super-heróis.
Para se ter uma ideia, um único estúdio fez 5 séries de 13 episódios cada em um único ano. Um verdadeiro recorde.
A receita era simples: pegavam os desenhos das histórias em quadrinhos e animavam no máximo um olho, uma boca ou uma mão. Os personagens não andavam ou corriam, deslizavam pela tela.
A  técnica de animação era tão tosca que as série são conhecidas hoje no Brasil como os desenhos desanimados da Marvel.
Para estrear o desenho foram escolhidos o Capitão América (em aventuras que incluíam os Vingadores), Thor, Hulk, Homem de Ferro e Namor.
Era possível ver na tela os incríveis roteiros de Stan Lee e o traço de Jack Kirby, Don Heck e Gene Colan, todos grandes desenhistas de quadrinhos.
Esses desenhos tinham aberturas com músicas cheias de gírias que se tornaram clássicos da bizarrice.

Neil Gaiman – o escritor dos sonhos


Até há pouco tempo, as histórias em quadrinhos eram consideradas uma subliteratura e acreditava-se que nenhum escritor sério se ocuparia de escrever gibis. O sucesso de Neil Gaiman, um escritor vindo dos quadrinhos, tem mudado a forma como as pessoas encaram essa nova mídia.
Gaiman fez parte de uma geração de artistas britânicos que, na segunda metade da década de 1980, sacudiu os comics americanos. Naquela época, vários artistas, entre desenhistas e roteiristas, invadiram a DC Comics e, embora trabalhassem com personagens menores, fizeram com que eles vendessem tão bem quanto as maiores estrelas da casa, como Batman e Superman.
Neil Gaiman sempre foi fã de quadrinhos e escrevia textos, em jornais locais, sobre o assunto. Quando soube que os editores da DC Comics, uma das mais importantes editoras dos EUA, estavam visitando a Inglaterra em busca de talentos, aproveitou a chance para mostrar seu trabalho em conjunto com o amigo Dave Mckean. Para isso, ele escolheu uma personagem obscura da década de 1970, que não interessava a nenhum artista famoso na época: a Orquídea Negra.
A minissérie de luxo Orquídea Negra se tornaria um sucesso e revolucionaria o mercado com sua arte fotográfica e texto poético; mas, antes que fosse publicada, os editores sugeriram que Gaiman escrevesse um título mensal. Gaiman começou então sua carreira emSandman, sendo Dave Mckean responsável pelas memoráveis capas. A primeira seqüência delas mostrava uma prateleira de madeira na qual o artista juntava cacarecos, desenhos e colagens. Ninguém nunca tinha visto aquilo numa história em quadrinhos e muitos certamente compraram Sandman pela primeira vez por causa das capas. Mas o que fez com que eles continuassem a comprar foi o texto excelente de Gaiman.
Em Orquídea Negra e Sandman, Neil Gaiman elevou os quadrinhos a um nível literário poucas vezes alcançado. Qualquer um que botasse os olhos naqueles gibis sabia que estava diante de um grande escritor. O autor trazia conceitos, técnicas e abordagens da literatura, fazendo com que intelectuais se tornassem fãs de Sandman. Até mesmo as mulheres, que normalmente são avessas aos comics americanos, acabaram se rendendo a Sandman. Nas filas de autógrafos, especialmente no Brasil, havia geralmente mais mulheres que homens.
O trabalho em Sandman angariou para Gaiman vários prêmios literários. Assim, muitos se perguntaram como Gaiman se sairia num livro.   


Lugar nenhum
A primeira incursão de Gaiman na literatura foi uma parceria com Terry Pratchett no livro Belas maldições (1990), lançado no Brasil pela Bertrand Brasil. Nessa obra, um anjo e a serpente que tentou Eva no Paraíso são mandados à Terra para preparar o apocalipse, mas acabam gostando tanto do planeta que resolvem sabotar o plano. Interessante que os dois autores atualizaram vários conceitos, como por exemplos os quatro cavaleiros do apocalipse. Estes trocaram os cavalos por motos. Guerra é uma bela mulher que distribuiu seu atributo por onde passa; Fome é um executivo do ramo dos alimentos, que criou uma marca de comida que não engorda, mas também não alimenta. Peste aposentou-se com a invenção da penicilina, dando lugar à Poluição.
A primeira incursão solo de Gaiman na literatura foi Lugar Nenhum, escrito em 1996 e lançado no Brasil em 2007 pela Conrad.
Lugar Nenhum é adaptação de uma série de TV escrita por Gaiman para o canal britânico BBC. O personagem principal é Richard Mayhew, um jovem escocês que leva uma vida normal em Londres. Tem um bom emprego, mas meio chato, e namora uma garota ideal, embora meio chata.
Mas um dia ele encontra uma garota ferida na rua e, após socorrê-la, sua vida muda completamente. Seus colegas e até sua namorada o ignoram, como se ele não existisse, e seu apartamento é alugado para estranhos. Ele não consegue nem mesmo pegar um táxi. É que ele passou a fazer parte da Londres de Baixo, onde vivem os tipos mais excêntricos: assassinos letrados, monges negros, nobres decadentes, falantes de ratês e muitos outros. Agora, para recuperar sua vida de volta, Richard precisa ajudar Door, a garota esfaqueada, a descobrir quem matou sua família.
Gaiman preferiu, em seu primeiro romance, seguir a mesma linha fantástica que o caracterizou em Sandman. Ele decidiu pisar em terreno conhecido e que domina como ninguém. Vale lembrar que muitos afirmam que Harry Potter é uma cópia de Os livros da magia, obra em quadrinhos escrita por Neil Gaiman.
Se em Sandman e Orquídea Negra, Gaiman trouxe para os quadrinhos técnicas e temas literários, em Lugar Nenhum ele faz o caminho inverso. Trouxe para a literatura os avanços alcançados por ele nas HQs As semelhanças narrativas são óbvias.
 Está ali, também, em Lugar Nenhum, os pequenos contos em meio às histórias maiores, que caracterizavam o roteiros de Gaiman. Em Lugar Nenhum acompanhamos, por exemplo, a história de Anaesthesia, uma garota que acompanha Richard pelo perigoso caminho até o Mercado Flutuante, onde ele deverá se encontrar com Door. A mãe de Anaesthesia ficou louca e ela foi mandada para morar com uma tia, que morava com um homem: "Ele me machucava. Fazia outras coisas também. No fim, eu contei pra minha tia e ela começou a me bater. Disse que eu estava mentindo. Disse que ia me entregar para a polícia. Mas eu não estava mentindo. Então eu fugi. Era meu aniversário". Com o tempo a menina foi se tornando invisível às pessoas, e um dia, quando acordou, fazia parte da Londres de Baixo.
A história da menina mostra a preocupação de Gaiman de construir um perfil até mesmo para os personagens menores. Cada um tem sua história de vida, sua personalidade e até seus cacoetes. As descrições detalhadas fazem com que, com o tempo, o leitor comece a ver essa outra Londres como um mundo ainda mais real do que aquele em que vivemos. São poucos os escritores que conseguem nos mergulhar assim em um mundo construído por eles.

Contos
Gaiman é um ótimo contista, o que faz de seus livros de contos itens obrigatórios na coleção de qualquer fã. No Brasil foram lançados duas dessas coletâneas.
Em Fumaça e espelhos (lançado no Brasil pela Via Lettera), Gaiman mostra todo o seu potencial para histórias fantástica, que prendem a atenção do leitor. Até mesmo uma pequena narrativa, incluída na introdução, destaca-se. Nela, um casal recebe de presente de casamento uma história em um envelope. Trata-se de uma perfeita descrição da cerimônia. Quando teve o primeiro filho, a esposa abriu o envelope e o que estava ali era uma versão distorcida dos dois anos felizes que os dois haviam passado juntos. No papel, a mulher havia recebido uma mordida na face, resultando numa cicatriz muito feia. E começou a beber para suportar a dor. A narrativa vai avançado e logo o leitor desconfia que o presente é exatamente esse: tudo de ruim que poderia acontecer na vida do casal acontece ali, na história.
O conto dá a tônica da coletânea.
Outro grande destaque é Procurando a garota. Nesse, um rapaz de 19 anos se apaixona por uma menina em uma foto da Penthouse. Charlotte era diferente das outras. Era sexo. Vestia sexualidade como um véu translúcido, como um perfume intoxicante. Anos depois, ele vê a mesma garota na revista, agora com outro nome, mas ainda com 19 anos. Inicia-se então uma busca por essa menina que encarna a sensualidade e que, provavelmente, está lá, em todos os lugares, todos os tempos, deslizando pelas fantasias dos homens, sempre uma menina. No conto, resumem-se todos os elementos que compõe o estilo de Gaiman: os arquétipos, o fantástico invadindo a vida de pessoas normais e a poesia.
Em Coisas Frágeis,  Gaiman resolveu fazer uma homenagem aos escritores que o influenciaream. A obra é dedicada a Ray Bradbury, Harlan Ellison e Robert Scheckley.
Ray Bradbury notabilizou-se por trazer a poesia para a ficção científica. "A Vez de Outubro", segundo conto da coletânea, tem influência óbvia desse autor norte-americano. Na história, os meses do ano se reúnem ao redor de uma fogueira, comendo lingüiças assadas e bebendo sidra. A estrutura ¨pessoas reunidas para contar histórias¨ é um verdadeiro fetiche para Gaiman, que já a usou diversas vezes em Sandman.
            "Um Estudo em Esmeralda" surgiu de um pedido de Michael Reaves, que estava editando uma coletânea. O organizador queria um texto que juntasse Sherlock Holmes com
Lovecraft. Gaiman viu-se em apuros. Afinal, Lovecraft lidava com o irracional, a loucura, enquanto Conan Doyle apreciava a racionalidade em suas histórias. Apesar da incongruência de estilos, Gaiman fez um bom trabalho. Foi a partir desse conto que o autor se tornou membro do Baker Street Irregulars, um grupo de entusiastas de Sherlock Holmes fundado em 1934 por Christopher Morley e que já teve em seus quadros gente famosa, como Franklin D. Roosevelt e Isaac Assimov.
Um dos pontos altos de Coisas Frágeis é "Golias", um conto escrito para o site deMatrix, explorando o universo da série. Gaiman leu o roteiro do primeiro filme, antes que ele fosse lançado no cinema e escreveu essa narrativa. Nela, a Terra está sendo atacada por uma forma de vida alienígena e a única forma de salvar o planeta é despertando um dos humanos escravizados pela Matrix. Gaiman brinca com a idéia de tempo psicológico, fazendo uma história que, surpreendentemente, tem final feliz. Mesmo que uma felicidade virtual. "Golias" tem o mesmo nível do primeiro filme e é superior aos outros dois da trilogia.
"O Pássaro-do-Sol" tem jeito de deliciosa sobremesa. É um conto sobre um grupo de pessoas, o Clube Epicuriano, que dedica sua vida a experimentar pratos inusitados. Foi escrito como presente de aniversário para a filha de Gaiman, quando ela fazia 18 anos. Ele pretendia imitar o estilo de R. A. Lafferty. "Suas histórias eram incríveis, estranhas e inimitáveis ― logo na primeira frase, você já sabia que estava lendo um conto de Lafferty". O resultado foi um conto saboroso e diferente.
Stardust
Stardust talvez seja a mais famosa obra de Gaiman, depois de Sandman. Mistura de quadrinhos com literatura, essa história teve origem em outubro de 1991. Gaiman estava numa festa, com vários escritores, desenhistas e editores quando aproveitou para fazer uma proposta para Charles Vess, um desenhista especializado em fantasia com o qual ele gostaria muito de trabalhar.
Gaiman contou a história de uma cidade do século XIX separada por um muro. Do lado de cá, era uma cidade normal, do lado de lado, um mundo de magia. O personagem principal era um garoto que atravessava o muro para trazer para moça um presente: uma estrela cadente (que, do outro lado, transformava-se numa linda mulher). Contou também sobre as bruxas, que queriam a estrela para renovar sua beleza e vários outros interessados na estrela.
Vess ficou empolgado, pois era o tipo de história na qual ele gostava de trabalhar, mas não queria fazer uma história em quadrinhos. Sua proposta era fazer algo que há muito tempo não era feito para o público adulto: um livro ilustrado, com uma figura em cada página.
Gaiman concordou que seria divertido fazer a história na forma de livro, mas pensou que ninguém se interessaria em publicar. No final das contas, a própria DC acabou publicado a história com uma minissérie de luxo, com miolo e capa de boa qualidade, em 1997. A acolhida do público foi tão boa que a série acabou sendo reunida em um único volume em 1997. Recentemente, o livro foi publicado numa forma mais convencional, num livro sem ilustrações, ainda com bastante sucesso.
Se a carreira de Stardust já era vitoriosa na literatura, tornou-se realmente espetacular com o lançamento de um filme, com elenco e orçamento milionário.


Deuses americanos
Outro livro de sucesso de Gaiman foi Deuses Americanos, lançado no Brasil pela Conrad. Nele, um homem sai da prisão depois de três anos e descobre que não tem para onde ir, pois sua mulher morrera num acidente e ele não tinha dinheiro ou casa. Então ele é abordado por um homem que lhe dá um serviço pouco comum: ser segurança de um deus. É quando o personagem se vê no meio de um guerra entre deuses astecas, sumérios, africanos e nórdicos, além de entidades relacionadas ao mundo moderno.
Gaiman continuou o tema ¨deuses vivendo junto a humanos¨ em Os Filhos de Amansi (Conrad), considerado por muitos críticos sua obra-prima. O volume conta a história de um tímido americano que vive como pacato contador em uma empresa londrina. Quando seu pai morre, o rapaz descobre que ele era Anansi, uma divindade trapaceira e brincalhona da mitologia africana e sua vida muda completamente.
O livro chegou a primeiro lugar na lista dos mais vendidos do New York Times.
Mais recentemente, Gaiman resolveu investir em literatura infantil com o livro Coraline (2002), uma assustadora fantasia para crianças (o escritor admitiu que está treinando as crianças para aprenderem a gostar de seus livros desde pequenos), com ilustrações de seu parceiro Dave McKean. A obra conta a história de uma menina que se muda para um prédio antigo e descobre um apartamento que deveria estar vazio, mas na verdade está cheio de criaturas estranhas. Do outro lado da porta há um mundo mágico onde há brinquedos incríveis e vizinhos que nunca falam seu nome errado. Mas ela logo descobre que aquele mundo é tão mortal quanto encantado. O livro foi adaptado como animação pela Pandemonium Films e está sendo  distribuído pela Disney.

O resultado tem sido não só uma boa aceitação do público, mas também o aplauso da crítica. Gaiman é um autor premiado. Em 1991, faturou o Fantasy World Award pela revista Sandman. No ano seguinte o regulamento foi alterado, impedindo que quadrinhos concorressem, de modo que Gaiman é o único roteirista de quadrinhos a já ter conseguido um prêmio. Em 2002 ele foi agraciado com o Hugo, por Deuses Americanos. No mesmo ano ele levou para casa o Nebula, outro grande prêmio de ficção-científica e fantasia. Em 2003, o Nebula veio por conta de Coraline. Em 2004, ele ganhou o prêmio Hugo pelo conto Um estudo em esmeralda. Além dos prêmios literários, Gaiman faturou 13 prêmios Eisner por seu trabalho com quadrinhos.  

quarta-feira, outubro 03, 2018

A primeira exposição de quadrinhos


     
Em 1951, o mundo parecia odiar os quadrinhos. As denúncias do psicólogo Fredric Werthan (segundo o qual os gibis eram os responsáveis pela delinqüência juvenil) haviam provocado a instalação de um inquérito no senado norte-americano. No Brasil, os professores tiravam cinco minutos em todas as aulas para falar dos perigos desse novo meio de comunicação. E as crianças que se aventuravam a levar gibis para a escola acabavam vendo suas revistas queimadas nos pátios na hora do recreio.
      Nesse ambiente extremamente negativo, surgiu a primeira exposição internacional de quadrinhos e o primeiro evento a destacar o caráter artístico da nona arte. E essa exposição aconteceu no Brasil, por fãs, que depois se tornaram alguns dos mais importantes quadrinistas brasileiros.
      O grupo era composto por Jayme Cortez, Syllas Roberg, Reinaldo de Oliveira, Miguel Penteado e Álvaro de Moya. Para montar a exposição, eles enviaram cartas para alguns dos principais quadrinistas americanos, pedindo originais. Surpreendentemente, foram atendidos. De repente eles se viram com originais de Ferdinando, de Al Capp, Flash Gordon e Nick Holmes, de Alex Raymond, Buzz Sawyer, de Roy Crane, Steve Canyon, de Milton Caniff, Big Bem Bolt, de Johnny Hazard e até mesmo uma página do raro Karzy Kat. Como os quadrinhos não eram considerados arte na época, ninguém se preocupava em guardar originais. Entre jogar no lixo e enviar para uma exposição no Brasil, ficaram com segunda opção, daí a facilidade de conseguir material.
      Além dos originais, havia um painel com desenhos de Spirit, de Will Eisner, com um texto explicando como o autor explorara a linguagem dos quadrinhos.
      Outro painel mostrava os escritores ligados de alguma forma aos gibis, como John Steinbeck, Thomas Mann, Thorton Wilder e Dorothy Parker.
      Outro painel mostrava ilustrações de livros infantis que haviam sido calcadas de histórias em quadrinhos (um exemplo era o trabalho de André Le Blanc, que ilustrava os livros de Monteiro Lobato e, posteriormente foi para os EUA, onde se tornou assistente de Will Eisner).
      O objetivo da exposição era mostrar que, por trás dos gibis ou das tiras, havia toda uma linguagem artística sendo criada, que deveria ser considerada. Entretanto, os resultados não foram os esperados. Os editores de quadrinhos, ao invés de incentivar os organizadores da exposição, passaram a persegui-los, achando que eles queriam banir os comics importados, trocando-os por material nacional. Muitos perderam seus empregos e foram para a publicidade. Miguel Penteado e Jaime Cortez fundaram uma editora, a Outubro, que publicava só quadrinhos nacionais.
      Anos depois, num encontro em Nova York, os intelectuais franceses se vangloriavam de terem sido os primeiros a perceber a importância dos quadrinhos, ao que Milton Cannif respondeu: ¨Muito antes de vocês, europeus, os brasileiros fizeram uma exposição, falando as mesmas coisas que vocês falam agora¨.    

Logan´s run: nenhuma ditadura é boa

Existem obras que nos marcam para o resto da vida. No meu caso, uma obra fundamental foi Logan's run (Fuga do século 23), um filme de 1976, dirigido por Michael Anderson, posteriormente transformado em série televisiva. Não lembro de ter visto ao filme, mas eu devorava a série todas as tardes e era muito raro perder um episódio.

Logan's run conta a história de uma cidade hermeticamente fechada onde as pessoas vivem para o prazer. Mas há um porém. Ao chegarem aos 30, todos precisam ser "renovados". A renovação acontece durante um evento chamado carrossel em que as pessoas, flutuando no ar, são atingidas por raios que supostamente teriam a capacidade de renová-los. Na verdade, as pessoas são mortas para dar lugar a crianças. 


Para cada criança que nasce, uma pessoa deve morrer. A estratégia é uma forma de controle populacional imposto pelas máquinas que governam a cidade e convencem os cidadãos de que 30 anos é idade máxima que se pode viver. Logan é um patrulheiro, uma das pessoas que perseguem e matam os que tentam fugir da renovação no carrossel.




Aí há algumas diferenças entre o filme e o seriado. No filme, Logan e uma jovem chamada Jéssica conseguem fugir, mas se deparam com um mundo destruído por uma guerra nuclear. Depois de muito caminharem, chegam em Washington, onde encontram um velho. Eles voltam para a cidade, que acaba sendo destruída e termina com os seus jovens habitantes ao redor do velho, admirados com um tipo de pessoa que nunca haviam visto. 


No seriado, Jéssica e Logan fogem ajudados por um androide e são perseguidos por patrulheiros. Em suas andanças à procura do Santuário, um local paradisíaco, onde as pessoas vivem felizes, sem terem de morrer aos 30 anos, eles se deparam com os mais diversos tipos de perigos, de uma sociedade religiosa fundamentalista a uma casa mal-assombrada (é, às vezes os roteiristas viajavam um pouco...). 


Minha idolatria pela série fez com que eu encontrasse uma ressonância em obras distópicas, como 1984, de George Orwell, Admirável Mundo Novo, de Adous Huxley e Farenheith 451, de Ray Bradbury e isso talvez explique porque eu gostei tanto desses livros. Em todos eles havia a concepção de uma sociedade despótica em que não eram as próprias pessoas que decidiam sobre seus destinos. 



Nesse sentido, Logan's run me ajudou a definir minha filosofia política. Eu percebi que os sistemas autoritários surgem geralmente respaldados pelos cidadãos comuns. Em Logan's run as próprias pessoas colocaram o controle nas mãos das máquinas, pois isso era mais cômodo, já que as máquinas providenciavam tudo que se necessitava, podendo as pessoas viverem apenas para o prazer. Em sociedades desse tipo, em que as pessoas colocam o controle de suas vidas nas mãos de outros, os que governam conseguem impor o que quiserem. Os habitantes da cidade dos Domos achavam que morrer aos trinta anos era algo absolutamente normal porque era isso que a as máquinas diziam. A figura dos patrulheiros também é interessante, pois embora também sejam vítimas desse sistema (também eles devem morrer aos 30 anos), eles o defendem com unhas e dentes. Tanto no filme quanto no seriado, Logan e Jéssica são perseguidos por um patrulheiro totalmente cego a tudo que vê, pois só consegue obedecer à sua programação. Da mesma forma, todo regime autoritário só existe porque tem à sua disposição a tigrada, aqueles que obedecem cegamente ao ditador, mesmo que sejam vítimas dele. 

Outro aspecto interessante é observar uma sociedade formada exclusivamente por jovens (há uma cena em que uma garotinha vê a personagem Jéssica, de 24 anos, e diz que ela é uma velha bonita) em um filme lançado no auge do movimento hippie.


No filme, as pessoas, quando querem sexo, entram num circuito que permite escolher qualquer outra pessoa que esteja no circuito (uma antecipação dos chats eróticos?), e há a loja do amor, onde qualquer um pode se relacionar com qualquer um. Ao fugirem, Jéssica e Logan redescobrem as sociedades antigas e as uniões estáveis e decidem que serão marido e mulher e terão filhos. Seria uma espécie de auto-crítica da geração do amor livre? Como um jovem refletindo sobre suas mais importantes questões, a série não dá respostas. Se no filme Jéssica e Logan tornam-se um casal (amável esposa, amável esposo), no seriado os dois fogem juntos, mas não fica clara a relação entre eles. Ou seja, a série é mais uma reflexão sobre um comportamento do que uma censura do mesmo. 


O filme também antecipa toda a discussão ecológica sobre o aquecimento global. Numa sociedade em que restauram poucos recursos naturais, a solução encontrada é o controle populacional e o reaproveitamento dos recursos (creio que esqueci de mencionar que as pessoas mortas no carrossel são secretamente transformadas em comida para os mais jovens). 


A presença do andróide REM também permite interpretações interessantes pois, embora Logan e Jéssica estejam fugindo da ditadura das máquinas, eles estão sendo ajudados por uma máquina. Seria o andróide um espião infiltrado entre eles apenas para destruir o santuário quando o encontrarem? A série nunca deixou isso claro, mas o fato deu origem a situações interessantes que quebram com o maniqueísmo: o amigo pode também ser o inimigo. Aquele que parece simpático pode ser a maior ameaça. 


O seriado nunca mostrou os personagens chegando ao santuário, o que foi uma decepção para alguns fãs. Mas, por outro lado, deixou em aberto a situação, permitindo que cada um visualize o santuário a seu modo. O santuário, assim, passou a significar menos um local e muito mais um sentimento de esperança de que o homem um dia consiga encontrar uma maneira de viver sem ser dominado por regimes autoritários, em que cada pessoa viva feliz, sendo responsável e livre para fazer suas próprias escolhas. 

terça-feira, outubro 02, 2018

A arte espacial de Jim Starlin

Jim Starlin é um dos mais importantes nomes dos quadrinhos norte-americanos. Integrante da geração hippie que revolucionou os quadrinhos Marvel na década de 1970, ele se tornou um especialista em sagas cósmicas. Seu trabalho com o Capitão Marvel e Warlock e o vilão Thanos serviram de base para diversas sagas da casa das ideias e para os filmes da Marvel - culminando com Vingadores - guerra secreta. Starlin também é autor de uma série autoral, Dreadstar, no qual aprofunda várias das discussões políticas e filosóficas de seus trabalhos anteriores.











Fahrenheit 451



Finalmente assisti ao filme Fahrenheit 451, de François Truffaut, baseado na obra de Ray Bradbury (comprei por 12 reais no Submarino). O livro é uma das minhas obras prediletas e tinha muita curiosidade de ver o filme, já que o texto de Bradbury é muito poético, difícil mesmo de transpor para as telas.
Para quem não sabe, Fahrenheit é sobre uma sociedade na qual é proibido ler. Como as casas agora são à prova de fogo, a função dos bombeiros é queimar os livros. O personagem principal é justamente um bombeiro, Montag, que, perigosamente, começa a se interessar pelos livros que queima.
Há toda uma contextualização para a obra. Bradbury viu o movimento marcathista nos EUA, em que livros de escritores tidos como de esquerda eram queimados em praça pública. Viu também a perseguição aos quadrinhos, em especial à editora EC Comics, com a qual ele colaborava, perseguição que começou com queima de gibis em praça pública e terminou com a criação de um código que engessou os comics americanos. Bradbury também odiava a televisão, um aparelho que, na sua opinião, deixava as pessoas ocas, incapazes de refletir, em um estado de felicidade vazia e conformista.
Farenheit é um resultado de tudo isso: da perseguição aos livros e quadrinhos e da emergência da TV como mídia de massa.
Para além do conteúdo, o livro prende pela narrativa extremanete poética. Bradbury é um daqueles escritores que prendem mesmo que não estejam contando nada, de tão gostoso é seu texto.
Truffaut conseguiu o que parecia impossível: fez uma bela adaptação de uma obra quase inadaptável. Fez muitas mudanças, mas todas necessárias e adequadas ao espírito da obra original. Por exemplo, no livro há um cachorro mecânico com o qual Mantag tem problemas quando começa a se interessar por livros. Sem contar com os efeitos necessários, Truffaut fez Montag ter problemas com a barra pela qual os bombeiros descem. Do ponto de vista metafórico ficou ainda melhor, já que a cena indica que ele já não é mais um bombeiro.
O cineasta também aproveita para fazer uma homenagem a grandes obras da literatura. Aparece até mesmo uma MAD sendo queimada, numa referência direta à perseguição aos quadrinhos da EC Comics. Em outro momento, ele faz uma homenagem a Crônicas Marcianas, outro grande livro de Bradbury.
Ou seja: um filme de cabeceira.
Uma questão interessante, levantada pelo filme é: se você pudesse ser um livro, se você pudesse decorar um livro para guardá-lo para a posteridade, que livro você seria?
Eu adoro muitos livros, mas provavelmente seria O nome da Rosa, uma obra que reúne o que há de melhor em muitas outras obras que aprecio.

Fanzine da Gibiteca de Belém



Fanzine era uma publicação da Gibiteca da Biblioteca Pública Arthur Viana criada por mim no período em que trabalhei lá, entre os anos de 1993 e 1994. Nele publicávamos a programação da Gibiteca (tinha palestras, lançamentos e até cursos), além de histórias em quadrinhos metalinguísticas, sempre sobre um determinado quadrinistas com leves toques de humor – influência de Will Eisner. O roteiro era meu e os desenhos de João Bento. A publicação era impressa em xerox e distribuída entre os usuários. Depois que saí da Gibiteca ainda continuou sendo publicado, mas não sei exatamente por quantos números.


segunda-feira, outubro 01, 2018

Quem foi Alois Hudal?


Alois Hudal foi um bispo austríaco que ficou famoso por ter salvo vários criminosos nazistas, mandando-os para países da América Latina.
Hudal era de um seminário para padres alemães e austríacos em Roma. Nazista confesso, ele foi nomeado pelo Vaticano para visitar os nazistas presos na Itália.
Ele não só os visitou, como usou sua posição de destaque para providenciar a fuga da maioria desses criminosos. Ele os libertava com documentos falsos e os escondia no interior da Itália.

As autoridade começaram a desconfiar do esquema e o bispo decidiu que precisava tirar seus protegidos da Itália, enviando-os para a América Latina. Para isso ele lhes dava documentos falos emitidos pela Comissão de Refugiados do Vaticano, que os ajudava a conseguir passaporte com a Cruz Vermelha. Normalmente a Cruz Vermelha checava os registros, mas sendo recomendação de um religioso, a Cruz Vermelha não fazia perguntas, o que permitiu que muitos criminosos desaparecessem, alguns para sempre.

Mafalda


     
O grande suces­so da HQ argentina é mesmo a Mafalda. Essa garotinha inteligente e fã dos Beatles surgiu por acaso, em 1962, para uma campanha publicitária de eletrodomésticos. Ela deveria ser a mascote de uma empresa e seu nome deveria começar com as mesmas letras da empresa, M e A.Quino desenhou a personagem e chamou-a de Mafalda, mas a empresa acabou recusando a campanha.
      No ano seguinte, o semanário Primera Plana solicitou a Quino uma tira cômica e ele tirou da gaveta a personagem criada para a campanha publicitária. A personalidade atrevida, já existente na versão anterior foi destacada e, em setembro de 1964 Mafalda estreou no semanário onde passou seis meses.
      Em 1965 a personagem migrou para o diário El mundo, de Buenos Aires, um dos mais lidos da Argentina, e começou sua escalada de sucesso. Logo vários outros jornais estavam republicando as tiras.
      Em 1966, um pequeno editor de Buenos Aires lança um álbum com tiras já publicada em jornal. Apesar de não ter havido um grande divulgação, a publicação se esgota em 12 dias. Logo várias editoras na América latina começam a publicar álbuns com a personagem com grande sucesso. Na Itália, o álbum da personagem ganha prefácio de Umberto Eco, um dos mais importantes intelectuais daquele país, que escreve: ¨O universo de Mafalda não é apenas o de uma América Latina urbana e desenvolvida; é também, de modo geral e em muitos aspectos, um universo latino, o que a torna mais compreensível do que muitos personagens de quadrinhos norte-americanos¨.
      De fato, esse é um dos grandes méritos de Mafalda e é o que a distingue de Peanuts, de Charles Schulz. Charlie Brown reflete a realidade e as neuras do norte-americano típico. Mafalda é a contestadora, revoltada com as injustiças do mundo.
      Se Peanuts está mais para a psicologia, Mafalda está mais para a sociologia. A sociedade latin-americana está lá representada nos personagens da tira. Manolito, por exemplo, é o filho do dono da mercearia. Ele está plenamente integrado ao capitalismo de bairro. De tudo na vida, só o dinheiro tem valor e mesmo uma ação simples como brincar de iô-iô tem como objetivo divulgar a mercearia do pai. Filipe é um sonhador que fantasia com tudo. Suzanita só pensa em casar.
      Quando a ditadura militar se instalou na Argentina, uma nova personagem se agregou à tira: a pequenina Liberdade.
      Algumas das melhores tiras da Mafalda tinham como personagem coadjuvante um globo terrestre, quase sempre doente. Quino sempre foi muito bom em metáforas.

Clarabela e o jornalismo

A primeira lição que eu tive sobre o jornalismo aconteceu muito antes de entrar na faculdade.
Eu era ainda uma criança quando li, numa revista Disney, uma história em que Clarabela era contratada como repórter. A situação era meio surreal, pois ela não era formada em jornalismo, não tinha experiência e nem mesmo pauta. O editor simplesmente mandou que ela fosse a campo em busca de notícias.
 A primeira matéria dela foi sobre coisas que aconteciam com ela: o que ela havia feito durante o dia, etc. Era até informação, mas que só interessava a ela e aos amigos. Quando o editor vê o texto, fica desesperado: "Não, a notícia não pode ser sobre você!".
E lá foi a Clarabela em busca de outra notícia...
Nisso ela passa na frente do banco e acaba sendo tomada como refém.
Apesar do assalto ter  sido algo que atiçara a curiosidade de todos, Clarabela não escreve a notícia, pois o fato havia acontecido com ela e o editor havia dito que ela não era notícia.
O leitor, esperto, descobria que ambos, editor e repórter eram verdadeiras antas e que notícia é informação, mas um tipo específico de informação: a que tem interesse público. 
Jornalismo trabalha com informação de interesse público. Simples, não? Pena que nem todos os jornais aprenderam essa lição.