terça-feira, setembro 07, 2010

segunda-feira, setembro 06, 2010

E-book sobre resenhas

Clique aqui para baixar o e-book Livro de resenhas. A obra inclui um texto explicando o que são e como fazer resenhas, além de vários exemplos de resenhas escritas por mim.

Nosso Lar

Como sabia que o filme ia estrear, fiz questão de comprar e ler o livro Nosso Lar, de Chico Xavier, até para ter um termo de comparação. A obra é muito interessante e em alguns momentos lembra a ficção-científica do início 20. Há alguns excessos de linguagem, como a abundância de adjetivos: o aposento é confortador, as luzes cariciosas. Mas essa característica, hoje considerada um vício de linguagem, era comum na maioria dos autores antigos. No filme, a linguagem foi modernizada e os excessos tirados do diálogo e do off, o que foi uma escolha extremamemnte acertada.
Para que não conhece a  obra, Nosso Lar narra as experiências do espírito André Luiz após o desencarne, passando primeiro pelo Umbral, onde sofre por oito anos, até implorar por ajuda e ser resgatado e levado para a colônia espiritual Nosso Lar. A grande falta do médico, que o leva ao Umbral, é o ceticismo e o orgulho, que fazem com que ele demore tanto a pedir ajuda.
Uma vez na colônia, ele é iniciado nos misterios da vida espiritual, da cura, da comunicação com os vivos, etc.
A obra tem um certo caráter de "diário de viagem", que torna difícil sua adaptação cinematográfica. Um filme precisa ter uma trama, com conflitos e uma estrutura narrativa que caminha na direção da resolução do conflito. 

Em Nosso Lar, todos são bons demais e não existe uma possível figura de vilão. Da mesma forma, não há um destino que represente o conflito, já que os personagens gozam de livre-arbítrio. Como transportar isso para o cinema sem que o resultado seja duas horas de sono?
O diretor Wagner de Assis optou por focar a narrativa no conflito interno dos personagens, especialmente André Luiz e Eloísa, uma personagem terciária no livro, que aparece rapidamente se lamentando de ter morrido antes de casar e de saber que seu noivo encontrou uma nova esposa. 
André Luiz luta contra a arrogância, o egoismo e o ceticismo (e, no final do filme, contra o ciúme), e Eloísa quer a todo momento voltar para seu noivo. Boa parte da narrativa se sustenta nesse duplo conflito. André será capaz de ultrapassar seus conflitos internos, e, dessa forma, ajuda a moça, fazendo com a que a trama paralela se una à principal num roteiro bem costurado.
Ou seja: o diretor optou por uma inteligente estrutura narrativa, que prende o expectador exatamente pela identificação. Alguns talvez se identifiquem com André, outros com Eloísa.
Se o roteiro é competente e enxuto, a direção é outro ponto forte. Os efeitos especiais são grandiosos (o filme custou 20 milhões de reais, boa parte deles gastos com efeitos), mas usados em favor da narraitva. Não há efeitos apenas pelo efeito, como Hollywood muitas vezes tem feito.
O diretor também trabalha muito bem a imagem, em ótimas cenas sem diálogos, como no reencontro de André Luiz com sua esposa.
Há algumas cenas que chamam atenção dos mais atentos: quando começa a II Guerra Mundial, a colônia espíritual recebe centenas de desencarnados. A maioria deles usando a estrela de Davi (judeus), mas há também pessoas com outros símbolos usados em campos de concentração, o que se relaciona com os ensinamento de Chico Xavier de que o sofrimento liberta. A mesma cena traz um conteúdo de tolerância religiosa que se reflete também na cena da sala do governador, cujas paredes ostentam símbolos das principais religiões terrenas.
Sobre a questão da II Guerra, Chico conta, no livro, que os nazistas, ao morrerem na guerra, fugiam dos que iam resgatá-los, chamando-os de "fantasmas da cruz". Esse ponto, no entanto, não foi explorado pelo filme.
Nosso Lar conta com uma equipe internacional:  o fotógrafo suíço Ueli Steiger (“Dia depois de amanhã”, “Godzilla”, “10.000 a.C”), os canadenses da Intelligent Creatures para os efeitos especiais (“Watchmen”), a diretora de arte brasileira Lia Renha ( “A muralha”, “Hoje é dia de Maria”, “Auto da Compadecida”), e o músico  Philip Glass (“As horas”, “O ilusionista”, “O sonho de Cassandra”).
É um filme que irá agradar tanto os espíritas quanto não espíritas ou simples simpatizantes da doutrina. Mesmo aqueles que foram assisitir Nosso Lar apenas como um filme de ficção científica provavelmente irão gostar.

domingo, setembro 05, 2010

E-book Portal das probabilidades

Perry Rhodan é uma série alemã de ficção científica que tem fãs de todo o mundo. Só na Alemanha já foram publicados mais de dois mil livros. No Brasil, foram pouco mais de 500 pela Ediouro e uns 200 pela SSPG (exemplares dessa edição mais recente podem ser comprados aqui). Mas, entre a coleção da Ediouro e da SSPG, os mito se alimentou durante anos de fanzines informativos e fanfics.
Eu, que sempre fui fã do personagem (especialmente dos livros escritos por Willian Voltz), me arrisquei a escrever uma novela , que acabou se tornando o mais famoso fanfic brasileiro de Perry Rhodan. Para ler O portal das Probabilidades, clique aqui.

sábado, setembro 04, 2010

Terra de gigantes

Tive oportunidade de assistir alguns episódios do seriado Terra de Gigantes, do rei da FC televisiva Irwin Allen (Viagem ao fundo do mar, Túnel do tempo, perdidos no espaço). Esse seriado sempre me chamou atenção pelo aspecto filosófico: afinal, os heróis haviam ido parar em uma terra de gigantes, ou eles é que haviam ficado pequenos? Em suma, uma questão de ponto de vista que nos remete à teoria da relatividade, ao relativismo filosófico e à epistemologia de autores como Umberto Maturana.
Mas fazia muito, muito tempo que eu não via um episódio.
Para mim foi uma surpresa.
A série é muito boa. Muito bem produzida, com cenários gigantes, bem dirigida (os gigantes sempre são filmados de baixo para cima) e muito bem escrita, em roteiros que vão da ficção científica ao policial. O episódio Acusado, por exemplo, é um ótimo exemplo de suspense: os heróis precisam inocentar um mendigo acusado injustamente de ter matado uma jovem.

No Twitter

Sim, eu estou no twitter. Para quem quiser me seguir: @giandanton.

E-book de crônicas

Clique aqui para ler o livro O homem virgem e outras crônicas.

Blogueira amapaense é processada por denunciar poluição visual dos candidatos

A blogueira Alcilene Cavalcante está sendo processada por um candidato após publicar em seu blog a denúncia de que os cavaletes colocados por essa pessoa em rotatórias estariam dificuldando a visão dos motoristas, podendo até mesmo provocar acidentes.
O candidato entrou com uma ação na Justiça Eleitoral argumentando que se tratava de uma montagem, que não há nenhum cavalete dele espalhado pela cidade. Ah, então todos nós estamos tendo uma alucinação coletiva, certo? Qualquer um que não seja cego está vendo e comentando, negativamente, essa história dos cavaletes. Ontem na faculdade, muitos professores e alunos comentavam o assunto. Todos muito irritados com a poluição visual e a possibilidade de acidentes.
Eu não voto em candidato que suja a cidade e coloca sua propaganda em local impróprio, dificultando a visão dos motoristas. Você vota?
Para maiores informações, acesse o blog da Alcinea Cavalcante.

quinta-feira, setembro 02, 2010

Mundo Dragão

Um dos meus textos de maior sucesso na internet é a série infantil Mundo Dragão, publicada pela Virtual Books. Ilustrada inicialmente pelo amigo Falex, ela ganhou imagens de outros artistas, como Jean Okada, Antonio Eder, Alexandre Machado, Helton Luís, Paulo Ribeiro, Fafá Fontes e Beto Nicácio. Foi lida por quase um milhão de internautas.
Fez tanto sucesso que foi adotada na escola Prof. Thereza Siqueira Mendes, em Santa Fé do Sul. Sob orientação da professora  Silvia Góes, as crianças escreveram um final alternativo para a história. As duas melhores redações foram publicadas no site. Para conhecer a série, clique aqui.

Nosso lar chega aos cinemas dia 3

O filme Nosso Lar, baseado na obra de Chico Xavier, estrea dia 3 de setembro, no cine Macapá. A obra conta o cotidiano do espírito André Luís numa comunidade espiritual. Surper-produção, a película tem direção de Wagner de Assis, de A Cartomante, Fotografia de Ueli Steiger de O Dia depois de Amanhã, efeitos especiais de Geoff D. E Scott e a fantástica trilha sonora de Philip Glass. Abaixo, o trailer.

Música do dia: Divino, Maravilhoso



Divino Maravilhoso

Caetano Veloso

enção ao dobrar uma esquina
Uma alegria, atenção menina
Você vem, quantos anos você tem?
Atenção, precisa ter olhos firmes
Pra este sol, para esta escuridão
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte (2x)
Atenção para a estrofe e pro refrão
Pro palavrão, para a palavra de ordem
Atenção para o samba exaltação
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte (2x)
Atenção para as janelas no alto
Atenção ao pisar o asfalto, o mangue
Atenção para o sangue sobre o chão
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte

terça-feira, agosto 31, 2010

Folclore, religião e literatura na Maturi 2

Por Marcelo Naranjo

O Grupehq - Grupo de Pesquisa e Histórias em Quadrinhos, fundado em 1971 e em plena atuação na produção de quadrinhos no Rio Grande do Norte, lançou o segundo número da revista Maturi (40 páginas).

A edição tem patrocínio do COSERN, por meio da Lei de Incentivo à Cultura Câmara Cascudo, da Fundação José Augusto.

A revista reúne diversos artistas potiguares: Emanoel Amaral, Gilvan Lira, Luiz Elson, José Veríssimo, Robson Nascimento, Wolclenes, Márcio Coelho e Ivan Cabral. Leia mais no Universo HQ.

Eu recebi essa revista de presente do Márcio, quando estive em Natal. Gostei tanto que já ia postar algo no blog, mas o Márcio me pediu que esperasse o lançamento oficial.
A qualidade da revista é impressionante. Ótimos desenhos, bons roteiros e um tema apaixonante: o folclore. Tanto que esse número dois homenageia o grande folclorista Câmara Cascudo, que era de Natal. Se você gosta de bom quadrinho nacional, esccreva para o Grupeq pedindo seu exemplar: grupehq@gmail.com.

Dia do RPG Macapá

Dias 11 e 12 de setembro acontece o evento Dia D RPG em todo o Brasil. E, pela terceira vez, o evento acontece em Macapá, no SESC Araxá.
Na entrada será pedido 02kg de alimento não-perecível. Os participantes que doarem concorrerão a brindes especiais. Cada organizador, das 11 cidades participantes, escolheu uma instituição que receberá os donativos. Em Macapá, a arrecadação e distribuição dos alimentos fica a cargo do Mesa Brasil, parceiro do Sesc.
Entre as atrações, está a palestra O RPG como ferramenta na Educação, dirigida por Matheus Vieira (Prof. Mestre em Educação/Curitiba-PR) e Gilson de Oliveira (Mestrando em Educação/Belém-PA), voltada para professores e que mostrará a aplicação bem-sucedida do RPG em sala de aula, uma forma nova e interessante de ensinar.
No domingo, dia 12, haverá uma palestra comigo sobre o tema Space Opera, às 15 horas. 
Para saber mais detalhes, acesse o blog do evento. 

sexta-feira, agosto 27, 2010

Revista Carcará reúne quadrinistas de Campina Grande

A Paraíba já tem uma longa tradição de quadrinhos de FC e terror. Para confirmar essa tradição, os artistas de Campina Grande irão lançar a revista Carcará, com traço de vários autores da região. E duas histórias têm desenhos meus (prévia abaixo). Para saber mais sobre a publicação, clique aqui.

Versões (detalhe pg01 q1)
Desenho de Flaw Mendes
Roteiro Gian Danton

















Leviatã (detalhe pg01 q5)
Desenho de Joel Pereira
Arte final, Di Angelo
Roteiro Gian Danton

quinta-feira, agosto 26, 2010

7 livros que ferraram a humanidade (ou quase)

Ana Carolina Prado

Teóricos equivocados podem causar grandes prejuízos. Já tivemos livros que incentivavam a matança de mulheres consideradas bruxas, defendiam a inferioridade de certas nacionalidades, diziam que as mulheres eram menos inteligentes que os homens. Com a ajuda de historiadores, listamos 7 livros que, por causa de teorias equivocadas, inspiraram pessoas a cometer atos e sustentar ideias desastrosas.
Os livros não estão em nenhuma ordem particular e, é claro, foi impossível listar todos eles. Comente e diga quais você acha que faltaram.

1- “L’uomo delinqüente” (O homem delinquente), Cesare Lombroso, 1876

O médico e cientista italiano Cesare Lombroso defende, nesse livro, a teoria de que certas pessoas nasceram para ser criminosas e que isso é determinado por características físicas, como nariz adunco e testa fina, traços típicos dos judeus. A obra fez muito sucesso e influenciou o direito penal no mundo todo. Mas o problema maior foi que a obra também reforçou várias teorias racistas – principalmente o anti-semitismo nazista. O detalhe é que o próprio autor era judeu e sua intenção era simplesmente ajudar a ciência penal e jurídica. Atualmente, a teoria caiu no descrédito. Mas, mesmo assim, ainda há quem a defenda (sempre tem, né?).
2- “Mein Kampf” (Minha Luta), Adolf Hitler, 1925
O livro de Hitler tem, na verdade, 2 volumes. O primeiro foi escrito quando ele tinha 35 anos e estava preso por causa de uma tentativa de golpe de estado mal-sucedida. O segundo, inédito no Brasil, foi escrito já fora da prisão. O livro se destacou pelo racismo e anti-semitismo do autor, que via o judaísmo e o comunismo como grandes males e ameaças do mundo – o autor pretendia erradicar ambos da face da terra. A obra revela o desejo de transformar a Alemanha num novo tipo de Estado que abrigasse a raça pura ariana e que o tivesse como um líder de grandes poderes. Era um aviso para o mundo, mas na época ninguém de fora da Alemanha deu muita bola. Mein Kampf ainda hoje influencia os neonazistas.
3- “A inferioridade intelectual da mulher”, Carl Moebius, século 19. Sem tradução para o português.
Psicólogo influente em meados do século 19, Moebius escreveu esse livro seguindo idéias já bastante disseminadas desde a época de Platão e Aristóteles e defendia a inferioridade feminina e a restrição dos seus direitos. Usando pesquisas e tabelas pseudo-científicas, ele comparou o desempenho feminino em determinadas áreas intelectuais quando em disputa com homens (em um teste parecido com o vestibular de hoje). Pensadores antifeministas citavam essa obra para apoiar teses de que as mulheres não deveriam ter uma série de direitos por serem “inferiores intelectualmente”.
4- “O martelo das bruxas” ou “Malleus Maleficarum”, Jacob Sprenger, 1485

Manual de caça às bruxas que levou muita gente à fogueira, o livro foi muito influente entre as igrejas católica e protestante. Jacob Sprenger indicou uma série de procedimentos para a identificação das bruxas: se a mulher tivesse uma convivência maior com gatos, por exemplo, já era suspeita. A obra foi responsável por quase 150 anos de matança indiscriminada de mulheres. A onda só passou depois que o método científico começou a prevalecer sobre a crença religiosa cega, a partir da publicação dos estudos de Isaac Newton. Com o pessoal discutindo assuntos científicos, pegava mal ficar caçando bruxa.
5- “Essai sur l’inégalité des races humaines” (Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas), Joseph Gobineau, 1855

O livro do cientista social Gobineau virou referência obrigatória para aqueles que defendem a superioridade de algumas raças sobre as outras. O autor desempenhou por um bom tempo cargo diplomático na corte de D. Pedro II e achava o Brasil “uó” por ter tanta miscigenação. Segundo ele, a miscigenação degenera as sociedades porque piora as supostas limitações das raças inferiores (as não-brancas, para ele). A obra passou a ser usada para sustentar a legitimidade do tráfico negreiro. Sua tese foi tão aceita que até hoje existem alguns cientistas que mantém a crença na superioridade de algumas raças.
6- ” The Man Versus the State ” (O Indivíduo Contra o Estado), Herbert Spencer, 1884
Embora alguns digam que essa é uma leitura injusta do livro, ele foi utilizado para a defesa do capitalismo selvagem no século 19, principalmente nos EUA. Spencer defende que, assim como ocorre na natureza, nas sociedades humanas também prevalecem os mais aptos. Isso quer dizer que os ricos e poderosos são assim porque estão mais preparados que os pobres. O livro passou a ser usado, então, para justificar a falta de ética nas relações comerciais, com a destruição implacável da concorrência, a busca incessante por riquezas e o pouco caso com os pobres.
7- The Seduction of the Innocent (“A sedução dos inocentes”), Frederic Wertham, 1954

Ok que o livro não gerou nenhuma atrocidade, mas ajudou a disseminar ideias equivocadas a respeito de uma coisa que a gente gosta: quadrinhos. No livro, o psiquiatra alemão-americano Werthan forjou argumentos para atribuir às HQs o papel de culpadas por casos de delinquência, abandono dos estudos e homossexualidade entre crianças e adolescentes. O livro foi lançado numa época em que as HQs eram um dos gêneros de leitura mais consumidos nos EUA e até o governo pensou em proibi-los (naquele tempo, rolava uma preocupação imensa nos EUA de que os jovens estivessem sendo corrompidos por idéias comunistas). Para evitar isso, as editoras lançaram o Comics Code Authority – um código de autocensura que ainda existe e que seria um indicativo de que o material publicado não iria degenerar os jovens.
Leia mais no site da Superinteressante

terça-feira, agosto 24, 2010

As vidas de Chico Xavier

Chico Xavier é uma das figuras mais importantes e polêmicas do Brasil. Sua popularidade é tão grande que, mesmo depois de morto, continua levando milhares de pessoas para Uberlândia, transformando o turismo religioso na principal fonte de renda da cidade. Não admira, portanto, que a vida do médium fosse transformada em uma biografia.

Ainda assim, o jornalista Marcel Souto Maior teve que vencer vários obstáculos para escrever o livro As vidas de Chico Xavier. O primeiro deles veio dos próprios colegas jornalistas. "Chico Xavier? Não é o Chico Buarque, não? Chico Anysio? Chico Mendes?", ironizavam os amigos do Jornal do Brasil.

Outro obstáculo foi o filho adotivo de Chico, Euripedes. Preocupado com a saúde do pai e em preservá-lo, Euripedes não deixou o jornalista passar nem do portão. Ainda assim, Marcel insistiu: resolveu assistir a uma sessão no Centro Espírita da Prece, fundado por Chico muitos anos antes. Depois que o médium deixara de comparecer, o público minguara e eram apenas 14 quando Marcel lá esteve. Surpreendentemente, naquele dia, Chico resolveu reaparecer, com um sorriso largo e um terno mal-ajambrado.

Cético, Marcel não soube explicar as lágrimas que começaram a desabar em borbotões de seu rosto, sem nenhuma razão especial. Terminada a sessão, o jornalista procurou Chico para pedir autorização para a biografia. O médium respondeu de forma indireta, evitando a palavra não:

― Deus é que autoriza.

― E Ele autoriza?

― Autoriza.

Mas a muralha de Euripedes ainda continuava existindo. O jeito foi apelar para o outro filho adotivo de Chico, Vivaldo, que mora nos fundos da casa do pai. Quando o jornalista o visitava, Chico chamou o filho por um interruptor. Quando Vivaldo saiu, um calor insuportável tomou conta das mãos de Marcel. Sobressaltado, ele largou a caneta, saltou do sofá e correu para o quintal. Ficou lá, sacudindo as mãos na noite fria, até que Vivaldo aparecesse:

― Meu pai disse que sua biografia vai ser um sucesso. Parabéns!

O episódio mostra bem os mistérios e a mística por trás de Chico Xavier. Chico escreveu quase 400 livros, cartas de pessoas desencarnadas, virou celebridade nacional. No entanto, até o final da vida, viveu de forma modesta, sem grandes fortunas, sendo quase um prisioneiro de seu próprio sucesso. 



O fato do livro ser escrito por um cético, mas que passou pelas duas experiências acima (do choro descontrolado e das mãos em fogo), faz com que ele tenha a abordagem correta, não caindo nem na armadilha de um livro doutrinário, nem na reportagem sensacionalista que o filho adotivo de Chico tanto temia.

O que se revela é uma figura ímpar, que angariou milhões de fãs no Brasil todo e igual número de detratores. Essa dualidade já se apresentava na infância do médium, quando, ao ouvir que ele conversava com os espíritos, a madrinha dizia que ele tinha o diabo no corpo e lhe fincava garfos na barriga na tentativa de espantar o mal. Chico, convencido de que conversar com espíritos era errado, tentava tudo para se curar. Chegou até a desfilar em uma procissão com uma pedra de 15 quilos na cabeça, repetindo mil vezes a "Ave-Maria". Nada adiantava. Quanto mais rezava, mais via espíritos.

O livro nos revela um Chico sofredor, que não era compreendido na infância e apanhava por causa da mediunidade. Quando finalmente se tornou adulto, sofria com doenças, como a catarata que fazia seus olhos sangrarem. À noite, era atormentado por espíritos baixos, que lhe provocavam pesadelos e, em alguns casos, tentavam matá-lo usando para isso pessoas com mediunidade. Ao se queixar com seu guia espiritual, Emmanuel, recebia reprimendas. Tinha que aceitar de bom grado tudo que lhe acontecia, pois servia para expiar culpas de outras encarnações. Quando se tornou uma figura famosa, sofria com o assédio, com pessoas que queriam falar com ele mesmo quando ele estava muito doente. Além disso, Chico nunca ganhou nada com isso, pois todo o dinheiro das vendas dos livros ia para instituições de caridade.

Sua missão espírita parecia mais um castigo do que um prêmio. Por outro lado, havia as tentações. Uma vez Chico entrou no banheiro e encontrou três mulheres tomando banho nuas, jogando água umas nas outras e rindo para ele, convidativas. O médium fechou os olhos e rezou. Quando os abriu, elas haviam desaparecido.

Abnegado, Chico usava a humildade para resistir aos sofrimentos e tentações do mundo. Dizia que era um Cisco Xavier, brincando com o próprio nome. Quando lhe disseram que talvez fosse eleito para a Academia Brasileira de Letras, ele perguntou: "E agora aceitavam cavalos lá?".

Se a biografia revela esse lado humilde, abnegado e caridoso, revela também um homem carismático e divertido. Chico gostava de contar casos e gostava de rir. Uma vez, convidado pelos amigos a pescar, foi, mas não pescou nada. Passaram a tarde na beira do rio e os amigos pegaram muito peixe. De Chico não se aproximava nem lambari. Ele acabou confessando: não tinha colocado isca no anzol, para não incomodar os bichinhos. Ao ser assediado por uma figura demoníaca, que lhe perguntava se tinha sido chamada, ele saiu-se com essa: "É que a vida anda difícil e queria que o senhor me abençoasse em nome de Deus ou das forças que o senhor crê". O diabo reclamou: "É só a gente aparecer que você já cai de joelhos!" e sumiu.

Em suma: As vidas de Chico Xavier é um livro que abarca as várias facetas dessa famosa personalidade, num livro leve e gostoso de ler. É tão fascinante que serviu de base para o filme de Daniel Filho sobre a vida do médium mineiro. 



Texto originalmente publicado no Digerstivo Cultural.

segunda-feira, agosto 23, 2010

2a semana de cultura espírita


A Federação Espírita do Amapá realizará, entre os dias 4 e 17 de setembro, a 2ª Semana de Cultura Espírita, no Teatro das Bacabeiras, sempre a partir das 19 horas, com entrada franca.
O evento faz parte das comemorações alusivas ao centenário de renascimento do médium mineiro Chico Xavier.
Uma ampla programação que inclui palestras proferidas por destacados expoentes da Doutrina Espírita no Brasil, apresentação de artistas locais e workshops destinados ao público externo, que terá oportunidade de conhecer a personalidade e a obra de Chico Xavier.

Dia 04
Palestra: Chico Xavier e as revelações do espírito André Luiz
Local: Teatro das Bacabeiras
Hora: a partir das 19h
Oradora: Dra. Marlene Nobre (SP)

Oficinas I: Teatro, música e poesia espírita
Mostra de Vídeo I: Chico Xavier – o filme
Local: Teatro das Bacabeiras
Hora: 14 às 18h
Obs.: Inscrições na FEAP

Dia 05
Palestra: Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho
Local: Teatro das Bacabeiras
Hora: a partir das 19h
Orador: Jorge Elarrat (RO)

Oficinas II: Teatro, música e poesia espírita
Mostra de Vídeo II: Documentários sobre Chico Xavier
Local: Teatro das Bacabeiras
Hora: 14 às 18h
Obs.: Inscrições na FEAP

Dia 06
Palestra: O mentor espiritual Emmanuel na vida e obra de Chico Xavier
Local: Teatro das Bacabeiras
Hora: a partir das 19h
Orador: Haroldo Dutra (MG)

Dia 07
Palestra: Ecos da atuação de Chico Xavier no Brasil e no mundo
Local: Teatro das Bacabeiras
Hora: a partir das 19h
Orador: Cesar Perri (DF)


Dia 17
Palestra: Chico Xavier, um exemplo a ser seguido
Local: Teatro das Bacabeiras
Hora: a partir das 19h
Orador: Raul Teixeira (RJ)


Informações:
FEAP: 3224-1730 (9 às 12h / 16 às 20h) - www.feamapa.com.br
Felipe Menezes – Pres. FEAP: 8127-0194
Ana Celi – Vice FEAP: 8111-5991

Flash Gordon de 1936

O amigo JJ Marreiro me conseguiu uma verdadeira raridade: os episódios de matinê do Flash Gordon, de 1936. Para quem não sabe, Flash Gordon é um dos mais importantes quadrinhos clássicos. Quando surgiu, no final de década de 1929, revolucionou as tiras de jornais com sua narrativa de aventura muito bem desenhada, com um monstro ou perigo a cada sequência. Tornou-se o mais claro exemplo de space opera. Também foi a maior influência de Guerrra nas Estrelas. George Lucas queria fazer o Flash, mas, como não conseguiu autorização, resolveu criar sua própria história, com os mesmos elementos: um imperador malígno, uma princesa, um herói destemido liderando uma revolta. Até a cena de abertura, com o letreiro resumindo a história anterior, foi inspirada no seriado de Flash Gordon. Claro que Lucas, a partir desses elementos em comum, criou sua própria e poderosa mitologia. Nessa versão de 1936 é possível perceber claramente a influência do expressionismo alemão, em especial o filme Metrópolis, de Fritz Lang, especificamente no cenário e direção.
Eu tive sorte de ver isso no cinema. Não, eu não sou tão velho assim. É que, quando era criança, o dono do cinema da cidade onde eu morava (Lavras- Minas Gerais), tinha o costume de colocar sempre um matinê antes do filme principal, como um brinde. Surpreendentemente, 40 anos depois, mesmo com efeitos campengas, esse seriado ainda empolgava a garotada.