domingo, janeiro 28, 2018

Contratiempo: a verdade e as versões

Os espanhóis estão com tudo na Netflix. Além de La casa de Papel, uma ótima pedida é o filme Um contratempo (Contratiempo), dirigido por Oriol Paulo. 
Lançado em 2017, esse triller policial mostra um rico empresário espanhol acusado de matar sua amante. Ele recebe a visita de uma advogada especializada em preparar réus para julgamentos, que afirma que conseguiria livrá-lo da cadeia, desde que conheça toda a história. 
O filme é o relato do que aconteceu, com mentiras se misturando a verdade e constantes reviravoltas. Quando o expectador finalmente consegue costurar uma versão dos fatos, algo novo surge que muda tudo. 
O filme brinca com o tempo todo com a dicotomia entre versão e realidade, construindo uma trama inteligente com final surpreendente. 
Uma das pérolas escondidas na Netflix.

Publicidade é isso aí





sábado, janeiro 27, 2018

Livro conta a história do criador do Capitão Gralha


Informamos ao nosso distinto público que se encontra à venda o livro Francisco Iwerten - A Biografia de uma Lenda ao preço promocional de 15 reais apenas até o início do ano. Aproveite o clima natalino para presentear seus amigos com essa maravilhosa biografia. Interessados, favor contatar o senhor Gian Danton através do e-mail 

O conhecimento científico

Durante muito tempo as bases metodológicas lançadas por Descartes e Newton foram suficientes, mas no final do século XIX ficou claro que era necessária uma melhor definição para a pergunta: “O que é ciência?” Havia uma necessidade urgente de diferenciar a ciência da pseudociência.
O século XX foi palco de uma apaixonada discussão sobre o que é ciência, quais são suas características e sua relação com os outros tipos de conhecimento.
Os pensadores que exploraram o tema discordam entre si e há até aqueles que defendem que um método científico é impossível. Outros têm denunciado a ideologia por trás do método científico, tais como Edgar Morin e Hebert Marcuse, que acusam a ciência e a tecnologia de promoverem a transformação do homem em coisa e a compartimentação do saber.
Outros apresentam propostas que discordam completamente do que a maioria entende por ciência. Exemplo disso é a gonzologia, uma corrente de pensamento influenciada pelo jornalismo gonzo. Para esses pensadores, a única metodologia possível dentro da ciência é a observação participante.

Entretanto, a noção que se tem hoje do conhecimento científico é influenciada pelos pontos de vista do Círculo de Viena e dos pensadores Karl Popper e Thomas S. Kuhn pela importância de suas propostas epistemológicas.

A arte clássica de Hal Foster


Hall Foster foi um dos mais importantes desenhistas de quadrinhos da fase áurea das páginas dominicais dos jornais. Vindo da publicidade, começou sua carreira ilustrando a primeira adaptação para quadrinhos do personagem Tarzan. Seu traço elegante deu vida ao personagem, tornando-o extremamente popular. Mas sua paixão era a Idade Média, o que levou a criar o reverenciado Príncipe Valente. Seu desenho detalhista, que reproduzia com exatidão os trajes, arquitetura e costumes da Idade Média influenciaram centenas de artistas. Confira alguns dos trabalhos desse mestre dos quadrinhos.














sexta-feira, janeiro 26, 2018

Farrapo humano

Billy Wilder é considerado um cineasta eclético pela sua incrível capacidade de transitar em gêneros que vão da comédia ao drama. Farrapo humano (1945) é um ótimo exemplo dessa versatilidade. O filme conta a história de um escritor (Ray Milland) que se vê em crise de abstinência ao ser privado de beber durante um final de semana. Ele faz de tudo para conseguir a bebida, até mesmo roubar a bolsa de uma moça. 
Acompanhamos sua decadência até ao ponto em que ele começa a ter delírios e pensa em se matar.
Esse parece ser o filme de Wilder mais influenciado por Cidadão kane. É, por exemplo, o que mais usa profundidade de campo, aliás, com ótimos resultados. A cena em que o protagonista procura a última garrafa de bebida é mostrada de cima para baixo, e vemos a garrafa, que estava escondida no lustre, como se fosse um fantasma pairando sobre ele. 
Algo curioso sobre o estilo de Wilder é que ele parece ser um cineasta da tela grande. Seus filmes só começam a empolgar lá pelo meio, pois há um grande respeito pelo primeiro ato, que muitas vezes parece arrastado e até desinteressante. Em Quanto mais quente melhor, por exemplo, o humor só se instala a partir da cena do trem e é só quando o receptor é fisgado. O mesmo acontece com Farrapo humano, de começo pouco interessante, com uma longa caracterização do personagem, mas que fisga o leitor do meio para a frente, a ponto de não se conseguir parar de assistir. 
Isso só era possível porque naquela época os filmes eram assistidos exclusivamente no cinema e raramente alguém saia no meio da sessão. Nos tempos do video-cassete, que pode ser desligado a qualquer momento, foi necessário fisgar o expectador desde o primeiro momento, daí o sucesso de George Lucas e Spielberg. 
Por sua denúncia crua do alcoolismo, o filme botou medo na indústria de bebidas, que chegou a oferecer 5 milhões de dólares para que o estúdio não o lançasse. 
Uma curiosidade é que Farrapo Humano fez tanto sucesso que gerou uma versão nacional, chamada O ébrio (1946), com direção de Gilda de Abreu e Vicente Celestino no papel principal.

La casa de papel


Existe toda uma tradição de filmes sobre golpes elaborados e assaltos. Alguns exemplos disso são 11 homens e um segredo (Steven Soderbergh, 2001) e Golpe de Mestre (George Roy Hill, 1973). Um ótimo exemplo desse gênero é a série La casa de papel, criada por Álex Pina para o canal espanhol Antena 3 e lançado no Brasil pela Netflix.
Com roteiro intricado e inteligente, a série mostra um assalto à Casa da Moeda espanhola. Quando estão saindo com o dinheiro, são surpreendidos pela polícia e retornam para o prédio. É quando se revela o verdadeiro plano: a ideia é ficar lá dentro durante dias, imprimindo o seu próprio dinheiro: cédulas impossíveis de serem rastreadas.
Por trás disso, a figura do Professor, um tipo intelectual que bolou o plano como quem joga xadrez, antecipando as ações da polícia e se aproveitando delas.
Claro que o Professor não pode prever tudo e muitas vezes as coisas saem do controle, seja tanto fora da Casa da Moeda quanto dentro. No outro lado, uma policial responsável pela negociação que percebe o jogo do Professor e começa também a jogar com ele – e este começa a jogar com ela em uma dinâmica de gato e rato.
Da mesma forma, temos as relações entre os assaltantes e destes com os reféns. O tempo todo algo está acontecendo – e os roteiristas jamais deixam cair o nível da narrativa.  
Além disso, há diversas referências, tanto musicais (a música Bella Ciao é título de um dos episódios) e visuais, como as máscaras de Salvador Dali usadas pelos assaltantes.

O resultado é uma série viciante, que está se tornando sensação no Brasil. 

quinta-feira, janeiro 25, 2018

Leonard Cohen - The Partisan

A origem do Homem de Ferro


Em 1963, a Marvel vivia o auge da criatividade. Personagens como Homem-aranha, Thor, Hulk e Quarteto Fantástico revolucionavam os quadrinhos de super-heróis. Foi nesse ano que surgiu um dos personagens mais políticos da editora: o Homem de ferro.
            Stan Lee queria fazer um personagem que fosse bilionário e inteligente, um ricaço (talvez em oposição ao pé-rapado Homem-aranha). Mas, como sempre acontecia com os personagens da Marvel, este precisava ter um ponto fraco, um pé de barro. O Demolidor, por exemplo, era cego. Que problema tornaria esse novo personagem frágil? ¨E se o nosso herói tivesse uma falha no coração? E se esse problema o obrigasse a usar um dispositivo metálico para se manter vivo? Ora, esse dispositivo poderia ser o elemento básico numa armadura capaz de lhe dar poderes, e, ao mesmo tempo, esconder sua identidade¨, pensou Stan Lee.
            O personagem surgiu em plena guerra do Vietnã e foi usado como propaganda patriótica.
            Assim, o herói é Tony Stark, um homem que fabrica armas para o exército norte-americano. Em um de suas visitas ao campo de batalha, ele é atingido por estilhaços de granadas e feito prisioneiro pelos vietcongs. O famigerado general comunista Wong Chu o obriga a construir uma arma para derrotar os exércitos da democracia, mas Stark usa o tempo para construir para si uma armadura capaz de mantê-lo vivo e derrotar as tropas comunistas.
            Essa história foi publicada na revista Tales of Suspense 39, com grande sucesso (o que fez com que o personagem ganhasse um desenho animado). Posteriormente o herói metálico iria dividir a revista com o Capitão América, reformulado por Stan Lee e Jack Kirby.

            Embora o uniforme do personagem tenha mudado muito desde aquela primeira aventura, alguns elementos se mantiveram inalterados: o problema de coração e o poder que se esvai quando a energia acaba, obrigando o herói a parar para recarregar... só o fator político que foi esquecido quando a guerra do Vietnã se tornou impopular entre os norte-americanos. Anos depois, escrevendo sobre o herói, Stan Lee fez um mea culpa: ¨Este conto foi escrito em 1963 e, nessa época, nós acreditávamos que o conflito naquela terra sofrida era uma simples questão de confronto entre o bem e o mal. De lá para cá, todos nós crescemos um pouco e, até hoje, estamos tentando nos livrar do trágico envolvimento com a Indochina¨. 

LEONARD COHEN LIVE IN LONDON | Democracy | PBS

Leonardo Cohen escreveu essa música sobre os EUA, mas ela é perfeita para descrever o Brasil que está se delineando.

Hoje tem Rádio Pop

Gosta de cinema, quadrinhos, seriados? Ouça Rádio Pop, na rádio Universitária, 96,9 FM (é possível ouvir pela internet neste link)

Biblioteca Pública Elcy Lacerda irá comemorar o Dia do Quadrinho Nacional



Biblioteca Pública Estadual Elcy Lacerda, inicia suas atividades de 2018 comemorando o Dia do Quadrinho Nacional em Macapá. O evento acontecerá nos dias 01 e 02 de fevereiro nas dependências da Biblioteca e terá uma rica programação com classificação livre e que terá como destaque as Histórias em Quadrinhos.

O dia do Quadrinho Nacional foi criado em 1984 em homenagem ao quadrinistas Angelo Agostini, que em 30 de janeiro de 1869 publicou a primeira tira de “As Aventuras de Nhô Quim”, considerada uma das primeiras histórias em quadrinhos do mundo. A partir daí a data 30 de janeiro passou a ser comemorada todo ano em diversas cidades. A ideia é valorizar a produção nacional, mostrando os grandes talentos brasileiros da nona arte.

No Amapá o evento contará com a presença do roteirista de quadrinhos Gian Danton, ganhador de diversos prêmios, entre os quais o Angelo Agostini de melhor roteirista de 1999. Ele irá ministrar palestras sobre roteiros para quadrinhos e sobre quadrinhos nacionais.

Segundo o gestor da Biblioteca, José Pastana, “O objetivo do evento é dar visibilidade e valorizar esta importante arte, bem como a atuação dos artistas locais que a ela se dedicam e proporcionar mais conhecimentos sobre alguns componentes de parte da cultura pop  em ascensão no Estado, além de transformar este importante aparelho Cultural, que é a Biblioteca, num centro de múltiplas atividades para trocas culturais”.

O evento também terá  dois concursos, de Cosplay e K-POP, que é uma dança coreana que envolve coreografia e um visual semelhante ao dos animes (desenhos animados japoneses) e tem conquistado cada vez mais adeptos no Brasil e em Macapá. Haverá premiação para o primeiro, segundo e terceiro lugares nas duas categorias.
A programação é totalmente gratuita e para todas as faixas etárias, proporcionado vivências, informações, arte e cultura.

O Dia do Quadrinho Nacional em Macapá é uma realização do Grupo de Pesquisa em História em Quadrinhos da Unifap em parceria com a Biblioteca Pública Estadual Elcy Lacerda, com consultoria de Fernanda Façanha (Cia Beco Teatral) e coordenação da Professora Cleide Façanha e Gibran Santana.





PROGRAMAÇÃO 

LOCAL: BIBLIOTECA PÚBLICA ELCY LACERDA

01/02/2018 - QUINTA-FEIRA
17h00 às 18h30 - Oficina de K-POP com Stefany Monteiro (Professora do Studio de Dança Amitiè - STN).

02/02/2018 - SEXTA-FEIRA
14h00 – Vídeo VHQ – A história do quadrinho paraense.
14h40 – Palestra: Como publicar Quadrinho Nacional, com “Osama” Pro.
15h00 -Palestra: Quadrinhos Nacionais: do século XIX ao século XXI, com Gian Danton.
15h40 – Filme: O gralha, o ovo e a galinha e O gralha e oil man.
16h00 - Palestra: Roteiro para quadrinhos, com Gian Danton.
17h00 - Filme: Turma da Mônica – O casamento do século.
14h00 às 17h00 - Demonstração de  Maquilagem Artística  com Arnanda Oliveira (Creative Makeup).
16h00 às 19h00 - Caricaturas com J.Marcio/CARTUNISTAS AMAPÁ.
18h00 - Apresentação da Cia de Dança Kadosh.
18h10 - Concurso de Cosplay.
18h40 - Apresentação do Grupo Gold Star Dance Cover (Santana).
18h45 - Concurso de K-pop.
15h00 às 17h00 - Criação de painéis de História em Quadrinhos (participação popular), sob coordenação da Professora Mariza Pinheiro.
16h00 às 19h00 - Stand de divulgação e vendas da Cia Beco Teatral e Literap.
16h00 às 19h00 - Stand de vendas Jilian Mimi.

Classificação: livre


O método cartesiano

Um dos pensadores mais importantes da humanidade foi o filósofo francês René Descartes. Suas idéias mudaram a forma de pensar do mundo ocidental e inauguraram os pilares da metodologia científica.
Descartes era tudo, menos humilde. Ele queria criar uma nova forma de pensar, que fosse mais adequada aos novos tempos. É importante lembrar que o filósofo viveu em uma época de mudanças. O mundo passava do geocentrismo (a idéia de que tudo, inclusive o Sol, gira ao redor da Terra) ao heliocentrismo (a idéia de que é a Terra que gira ao redor do Sol), as grandes navegações demonstravam que havia todo um mundo a ser descoberto, a imprensa tornava possível que um pensamento se dissipasse com grande velocidade e, finalmente, os reis passavam a ter mais poder do que jamais tiveram em toda a Idade Média.
Em 1619, Descartes teve um sonho em que o espírito da verdade descia sobre ele. A partir desse dia, passou a se dedicar à busca da verdade e de uma nova forma de pensar, que tornasse o caminho em direção à verdade mais rápido.
Depois de andar por boa parte do mundo conhecido, recolhendo conhecimentos, Descartes se isolou em busca de um método próprio. Ele percebeu que o método característico da Idade Média, a lógica, não o levaria longe: “Verifiquei que, quanto à lógica, os seus silogismos e a maior parte de suas restantes instruções serviam mais para explicar aos outros as coisas que já se sabem”, escreveu ele no seu livro O Discurso do Método.          
O novo pensamento, criado por Descartes, seria baseado em quatro princípios:
1 – Nunca aceitar como verdadeira nenhuma coisa que não se conhecesse evidentemente como tal.
Ou seja, duvidar sempre. Aí o filósofo difere o conhecimento científico do teológico, baseado na fé. Enquanto a religião prega o acreditar sempre, a ciência partiria sempre da dúvida.
2 – Dividir cada uma das dificuldades que devesse examinar em tantas partes quanto fosse possível e necessário para resolvê-las.  
Descartes inaugurou com esse princípio a divisão do saber. Segundo a lógica cartesiana, não devemos pesquisar o fenômeno no todo, mas em partes. Para conhecer o corpo humano, devo dividi-lo em partes e estudar uma a uma.  Esse princípio deu origem à especialização que se reflete na própria organização da escola. Temos professores de geografia, história, ciências, literatura, redação... muitas vezes o professor de história não entende nada de geografia e o professor de literatura não sabe nada de redação. A crítica a esse princípio seria a base do pensamento da cibernética e de Edgar Morin.
3 – Conduzir em ordem os pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para chegar, aos poucos, gradativamente, ao conhecimento dos mais compostos, e supondo também, naturalmente, uma ordem de precedência de uns em relação aos outros.
Em outras palavras, ao resolver um problema devemos solucionar primeiro as partes mais simples para depois chegar às mais complexas. Esse princípio também leva a crer que o complexo é na verdade uma junção de partes simples, uma idéia que depois seria criticada por pensadores como Edgar Morin.
4 – Fazer, para cada caso, enumerações tão completas e revisões tão gerais que tivesse a certeza de não ter omitido nada.
Esse princípio, certamente advindo da matemática, teve como conseqüência, na ciência, na idéia de que não se deve confiar no primeiro resultado de uma experiência. O cientista deve refazer suas experiências à exaustão até ter certeza de que o resultado está correto. Mesmo em uma pesquisa bibliográfica esse princípio pode ser adotado. Já vi alunos que, ao fazerem uma pesquisa, usam apenas um livro como referência. Isso não é pesquisa, é cópia. Um trabalho de pesquisa deve comparar as idéias de informações de vários autores. Confiar na primeira obra que encontramos pode ser perigoso, pois o autor pode estar equivocado.
Alguns anos depois, um cientista inglês, Isaac Newton, usaria os princípios de Descartes para resolver um problema científico: por que a Lua não cai na Terra? Mas antes disso, Descartes usou o método para resolver um problema  filosófico.
O que o filósofo se perguntou é como podemos chegar a certezas. Ele já havia identificado que os sentidos não são confiáveis. Afinal, as pessoas haviam acreditado durante anos que o Sol girava ao redor da Terra simplesmente porque os sentidos lhe diziam isso.
Quantas vezes não somos enganados por nossos sentidos? Às vezes estamos em um navio e achamos que já começou a viagem, quando na verdade foi o barco ao lado que começou a se movimentar? Quantas vezes não temos sonhos que parecem perfeitamente reais?
A não confiabilidade dos sentidos fica demonstrada em filmes como Matrix. Neo acreditava piamente que a vida que levava era real, até descobrir que tudo era uma ilusão criada por um programa de computador...
No filme Uma Mente Brilhante, o personagem principal, um ganhador do prêmio Nobel, conversava com pessoas que não existiam. 
Descartes imaginou-se dominado por um demônio da dúvida que o faria ter dúvida de tudo. Se eu duvido de tudo, se duvido até mesmo se estou realmente aqui escrevendo este texto, qual a minha única certeza?
A minha única certeza é de que tenho dúvidas. Se tenho dúvidas é porque penso. Se penso, logo existo. Cogito ergo sum.

Esse raciocínio de Descartes teve duas conseqüências. Por um lado a ciência procurou aperfeiçoar cada vez mais os instrumentos de pesquisa para fugir da validação subjetiva. Balanças, cronômetros, questionários, observação sistemática são instrumentos de pesquisa que tentam fugir da dúvida deixada pelos sentidos. Na filosofia, as idéias de Descartes inauguram o postulado da razão, que dominaria toda a Idade Moderna.

quarta-feira, janeiro 24, 2018

Entenda a crise econômica brasileira


Dez dicas para roteiristas de quadrinhos


1 - Não leia só quadrinhos. Um bom roteirista de quadrinhos lê de tudo: livros, revistas, jornais etc.
2 - Não leia só quadrinho americano ou japonês. Argentina, Inglaterra, França, Itália e Brasil são países que produzem ótimas HQs, que você deve conhecer.
3 - Sempre pesquise. Se sua história é sobre um advogado, pesquise livros jurídicos, pesquise sobre como funciona a justiça. Se for sobre o Egito, procure livros de história. 
4 - Não tente contar a história do universo. Comece com histórias curtas.
5 - Faça com que seu roteiro seja agradável para o desenhista. Se for necessário contar uma piada para que a leitura do roteiro seja mais agradável, conte.
6 - Imagine a cena visualmente antes de escrevê-la. Se houver mais de uma ação, divida em mais de um quadrinho.
7 - Produza. Seu texto só vai melhorar se você produzir continuamente.
8 - Use como referência grandes roteiristas, mas aos poucos busque estabelecer um estilo próprio.
9 - Não seja um colonizado. Esqueça Nova York. Faça histórias sobre sua realidade. Se o leitor viver a mesma realidade que você, a identificação será mais fácil.
10 - Seja obetivo. Não encha os balões de texto desnecessário. Nunca diga com o texto algo que o desenho já está dizendo.

Mãe é mãe

Marquinhos ligou para a mãe no sábado.
- Tudo bem, meu filho?
Sim, tudo bem. Marquinhos tivera uma semana cansativa, mas já estava relaxando. Sim, estava tomando as vitaminas e se agasalhando e comendo na hora certa (a mãe sabia que era tudo mentira, mas ouvir isso era sempre um consolo). Por fim, Marquinhos avisou que precisava desligar. Tinha tomado um calmante e estava com sono. Além disso, os créditos do celular já estavam no fim.
Parecia tudo normal, mas mesmo assim a mãe não conseguia dormir. Alguma coisa estava errada, mas o quê?
No dia seguinte, acordou cedo e ligou para o filho. O telefone tocou, tocou, e nada.
- Ai meu Deus! O que está acontecendo? Calma, calma Zumira. É cedo ainda, ele não deve ter acordado. Ligo mais tarde.
Mais tarde o telefone caiu na caixa postal.
- Isso não está certo. Ele não costuma dormir tanto assim... e se aconteceu alguma coisa?
Ligou de novo. De novo na caixa postal e dessa vez a imaginação voou mais longe. Pensou no filho caído na cama, passando mal, sem ninguém ali, ao lado dele. Marquinhos dissera que estava tomando um calmante? E se ele tivesse tomado uma dose muito alta? E se tivesse dormido demais, ou pior, se o remédio tivesse tido efeito colateral? Não, não era nada disso, ele ligaria para ela... mas então a mãe lembrou-se do que ele dissera: os créditos estavam acabando. Talvez ele estivesse passando mal e não pudesse ligar por causa dos créditos.
- Ai, meu Deus, matei o meu filho!
O pior é que não tinha o telefone de nenhum amigo de Carlinhos. Não podia ligar para o trabalho dele. Era domingo. Decidida, entrou no carro e pegou a estrada.
- Preciso chegar enquanto ainda dá tempo!
Dirigiu nervosa, angustiada pelas mais pessimistas previsões. Calculou se daria tempo de chegar antes de seu querido Marquinhos ter morrido de fome e sede, incapaz de levantar da cama. Duas horas depois estacionou na frente do prédio. Nem fechou o carro. Não havia tempo para essas minúncias.
Já entrou gritando com o porteiro:
- Abra a porta do apartamento do meu filho. Ele está passando mal!
Foram o porteiro e o síndico, com uma chave mestra.
Ainda demoraram um pouquinho, pois o porteiro não sabia usar a chave. A mãe incentivava:
- Abre logo. Um minuto a mais pode ser tarde demais.
Deram com o Marquinhos sentado na poltrona, assistindo futebol, tomando cerveja e comendo salgadinhos.
Ele estava bem. Na verdade, estava ótimo, depois de uma magnífica noite de sono. O celular não atendia porque a bateria acabara e Marquinhos nem percebera. O síndico e o porteiro saíram rogando pragas.
A mãe, para não perder a viagem, ralhou:
- Onde já se viu? Em plena tarde de domingo você bebendo cerveja e comendo besteira! Se não fosse a sua mãe cuidar de você...

terça-feira, janeiro 23, 2018

Tem gente que escreve gibis?


Quando eu morava em Belém, tinha uma banca perto de casa, na qual eu sempre comprava. Um dia cheguei lá e o senhor da banca me ofereceu uma revista. Eu não comprei. E ele:
"Mas você sempre compra esse gibi!".
"Sim, mas o autor que eu gostava não está mais escrevendo esse pergonagem."
Ele fez uma cara de espanto, como se estivesse ouvindo algo inacreditável:
"Como assim, tem gente que escreve gibis?"

A origem do Homem-aranha


O lançamento do Quarteto Fantástico foi uma verdadeira revolução no mercado, abrindo caminho para que a Marvel se tornasse a editora predileta dos fãs. Mas o personagem que melhor representaria esse método Marvel de fazer quadrinhos só surgiria em 1962. Trata-se do Homem-aranha.
            Quando Stan Lee apresentou a idéia para o personagem, todos na editora, especialmente o dono, Martin Goodman, acharam que seria um fracasso. Afinal, ele não era rico, era cheio de complexos e falhas de caráter e nem ao menos era bonito, fisicamente. Além disso, todo mundo odeia aranhas.
            Mas era justamente nesses pontos negativos do personagem que Lee apostava. Ele achava que os leitores iriam se identificar com aquele nerd que só se dava mal, era rejeitado por todos, mas, quando vestia sua máscara, tornava-se o grande herói da cidade. Para destacar ainda mais esses supostos aspectos negativos, Lee chamou Steve Ditko, que fazia Peter Parker franzino, com cara de nerd. Jack Kirby, o outro grande artista da editora, foi rejeitado por fazer o personagem musculoso. A idéia era mostrar um perdedor que se tornava o herói do pedaço.
            O homem-aranha fez um sucesso imediato. A história mostrava o garoto frágil, Peter Parker, vítima de gozação dos outros, que ganha super-poderes ao ser picado por uma aranha radioativa. Inicialmente ele usa esses poderes para ganhar dinheiro, apresentando-se na TV, mas tudo muda quando ele deixa escapar um bandido, que depois irá matar seu tio Ben.  A partir de então, ele passa a adotar como lema uma frase do tio: ¨Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades¨ e usa suas novas habilidades para ajudar as pessoas e combater os criminosos. Como contraponto, Parker convive com uma tia super-protetora. Tornou-se comum a cena em que ele liga para tia, ainda vestido de homem-aranha, e ela lhe diz para tomar cuidado, usar agasalho para não se resfriar e, principalmente, tomar cuidado com o Homem-aranha.
            A série levou ao extremo os temas já abordados no Quarteto Fantástico. O homem-aranha é extremamente humano. Ele fica doente, tem dúvidas sobre sua atuação com herói, recebe foras das namoradas... Os poderes recebidos parecem mais um fardo, um problema a mais para um garoto que enfrenta vários problemas, entre eles o aluguel do fim do mês. A morte da namorada Gwen Stacy, na década de 1970 mostrou a que ponto o realismo podia chegar: mesmo os protagonistas poderiam morrer.
            Uma das histórias mais antológicas do personagem é aquela em que ele precisa conseguir um composto químico capaz de salvar Tia May, mas esse composto também está sendo procurado também pelo doutor Octopus. De repente o herói se vê preso sob uma pesada viga. A seqüência mostra, em várias páginas, ele tentando se livrar do obstáculo. Quando finalmente consegue levantar a viga, o frágil Peter Parker é mostrado (no desenho de Steve Ditko) como um homem musculoso. É como se o grande inimigo que ele precisasse vencer fosse a si mesmo e, ao se tornar vitorioso, ele se tornava um herói. Era algo com que os adolescentes de qualquer lugar do mundo podiam se identificar. Afinal, o que é a adolescência, senão um período de dúvidas, dramas e vitórias?

            A grande qualidade dos artistas que passaram pelo personagem (Stan Lee e Gerry Conway nos roteiros, Steve Ditko, John Romita e Ross Andru nos desenhos) só fizeram resaltar o ar de mito que o personagem ganhou. Em todas as culturas há histórias de jovens guerreiros que são desprezados pelos demais, mas que, nos momentos decisivos, acabam salvando a aldeia, ou o reino, ou a cidade. Como Davi, vencendo o gigante Golias. 

O conhecimento jornalístico

Recentemente, o jornalismo tem sido visto como uma importante forma de adquirirmos conhecimentos sobre o mundo. Tanto que muitas pesquisas na área de história, por exemplo, têm sido feitas tomando por base dados coletados por jornais. Na área de história, especificamente, tem estado em moda a chamada história do cotidiano, que é uma aproximação do conhecimento jornalístico. No Brasil, o mais famoso representante dessa nova corrente, Eduardo Bueno, autor da coleção Terra Brasilis (editora Objetiva) é um jornalista.
         O principal teórico do jornalismo como forma de conhecimento é o catarinense Adelmo Genro. Ele parte de três categorias criadas por Hegel para explicar o que é o jornalismo e sua diferença da ciência. Para Hegel, havia três categorias de conhecimento: o singular, o particular e o universal.
         O singular trata daquilo que o fato ou objeto de estudo tem de diferente dos demais. O particular vê esse fato pelo que ele tem de semelhante com uma categoria de coisas e o universal se interessa por suas semelhanças com uma categoria ainda maior. Assim, um homem é singular pelo que tem de diferente de todos os outros. É particular porque ele participa de uma determinada categoria, como uma família, uma profissão, ou mesmo uma nação. E é universal porque faz parte do gênero humano.
         Para o singular, interessa o homem específico, com características que o fazem diferente de todos os outros.
         O conhecimento filosófico interessa-se apenas pelos universais. O conhecimento científico oscila entre o particular e o universal. O conhecimento jornalístico trata do singular.
         Diante de um homem que se suicidou, o jornalismo vai tratar da singularidade do fato. Quem era ele? Que método ele utilizou para se matar? Quando ocorreu a morte? Por que ele se matou? Onde? A ciência, ao contrário, vai interessar em perceber o que o fato tem de semelhante a outros? Outras pessoas já se mataram na região? O que elas tinham em comum? É possível identificar algum traço coincidente que possa ser usado para explicar o fato (por exemplo, todos era desempregados)?
         No livro A Viagem do Descobrimento, Eduardo Bueno fala da chegada dos portugueses ao Brasil sob um ótima do singular. Enquanto para a ciência normal interessa o que esse fato representa no contexto das grandes navegações, o livro vai se preocupar com as singularidades dessa viagem. Um exemplo: os portugueses passaram quase um mês no Brasil, ao lado de um rio, e não há registro de que tenham tomado um único banho.
         Por outro lado, o jornalismo cumpre um importante papel: o de divulgar as descobertas e teorias científicas. A característica do jornalismo de universalização do público faz com que conhecimentos que eram opacos até mesmo para cientistas de outras áreas, se tornem facilmente compreensíveis.
         Esse papel do jornalismo ganha destaque diante das críticas que especialmente Edgar Morin tem feito à especialização da ciência.