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segunda-feira, junho 01, 2026

Nosso Lar

 


Nosso Lar é um dos grandes best-seller brasileiros. Escrito pelo espírito André Luís, através do médium Chico Xavier, popularizou a literatura espírita com a história de um médico em uma colônia espiritual. Publicado em 1944, o livro  já vendeu mais de... e gerou uma versão cinematográffica assinada por Wagner de Assis (A Cartomante).
Bastante conhecido, o enredo do livro inicia com o narrador chegando ao Umbral após a sua morte. O relato lembra muito as descrições do inferno católico, com o protagonista assediado por formas diabólicas, rostos Álvares e expressões animalescas. Ele sofre ali por oito anos, até finalmente ser levado para a colônia espiritual de Nosso Lar. A grande falta do médico, que o leva ao Umbral, é o ceticismo e o orgulho, que fazem com que ele demore tanto a pedir ajuda.
Uma vez na colônia, André Luís é iniciado nos mistérios da vida espiritual, da cura, da comunicação com os vivos, etc.
Há, em todo o livro, um excesso de adjetivos que atrapalham a leitura: o aposento é confortador, as luzes cariciosas. Mas essa característica, hoje considerada um vício de linguagem, era comum na maioria dos autores antigos. Fora isso, o livro passaria tranquilamente por uma boa obra de ficção científica da primeira metade do século 20.
A linguagem antiquada foi facilmente resolvida na versão cinematográfica com uma bem pensada atualização. Mas a história apresentava um outro problema, um certo caráter de"diário de viagem", que torna difícil sua adaptação para a sétima arte. Um filme precisa ter uma trama, com conflitos e uma estrutura narrativa que caminha na direção da resolução do conflito.
Em Nosso Lar, todos são bons demais e não existe uma possível figura de vilão. Da mesma forma, não há um destino que represente o conflito, já que os personagens gozam de livre-arbítrio. Em suma: não há quase nenhum conflito visível na obra original.
Como transportar isso para o cinema sem que o resultado seja duas horas de sono?
O diretor Wagner de Assis optou por focar a narrativa no conflito interno dos personagens (apenas sugerida no livro), especialmente André Luiz e Eloísa, uma moça que aparece rapidamente no livro se lamentando de ter morrido antes de casar e de saber que seu noivo encontrou uma nova esposa.
André Luiz luta contra a arrogância, o egoismo e o ceticismo (e, no final do filme, contra o ciúme), e Eloísa quer a todo momento voltar para seu noivo. Boa parte da narrativa se sustenta nessa sustentação. André será capaz de ultrapassar seus conflitos internos, e, dessa forma, ajudar a moça, fazendo com a que a trama paralela se una à principal num roteiro bem costurado.
Ou seja: o diretor optou por uma inteligente estrutura narrativa, que prende o expectador exatamente pela identificação. Alguns talvez se identifiquem com André, outros com Eloísa.
Se o roteiro é competente e enxuto, a direção é outro ponto forte. Os efeitos especiais são grandiosos (o filme custou 20 milhões de reais, boa parte deles gastos com efeitos), mas usados em favor da narrativa. Não há efeitos apenas pelo efeito, como Hollywood muitas vezes tem feito. Entretanto, muitos que assistiram à fita comentaram que gostaram de ver esse nível de efeitos num filme nacional de FC ou fantasia.
O diretor também trabalha muito bem a imagem, em ótimas cenas sem diálogos, como no reencontro de André Luiz com sua esposa. Com pouquíssimas falas, toda a tensão da situação é repassada aos expectadores.
Há algumas cenas que chamam atenção dos mais atentos: quando começa a II Guerra Mundial, a colônia espiritual recebe centenas de desencarnados. A maioria deles usando a estrela de Davi (judeus), mas há também pessoas com outros símbolos usados em campos de concentração, o que se relaciona com os ensinamento de Chico Xavier de que o sofrimento liberta. A mesma cena traz um conteúdo de tolerância religiosa que se reflete também na cena da sala do governador, cujas paredes ostentam símbolos das principais religiões terrenas.
Sobre a questão da II Guerra, Chico conta, no livro, que os nazistas, ao morrerem na guerra, fugiam dos que iam resgatá-los, chamando-os de "fantasmas da cruz". Esse ponto, no entanto, não foi explorado pelo filme.
Outro aspecto curioso da versão cinematográfica é inverter o paradigma convencional do ser humano com relação à dualidade vida-morte. Em Nosso Lar, vemos personagens chorando e lamentando a partida de entes queridos que vão reencarnar. Nesse ponto o roteiro foi particularmente eficiente ao mostrar que vida e morte são apenas dois lados da mesma moeda em um ciclo de reencarnações. Chega, inclusive, a brincar com isso, como na cena em que uma senhora reclama que o marido estava sempre muito doente, “Mas morrer que é bom, nada!”.
Nosso Lar conta com uma equipe internacional:  o fotógrafo suíço Ueli Steiger (“Dia depois de amanhã”, “Godzilla”, “10.000 a.C”), os canadenses da Intelligent Creatures para os efeitos especiais (“Watchmen”), a diretora de arte brasileira Lia Renha ( “A muralha”, “Hoje é dia de Maria”, “Auto da Compadecida”), e o músico  Philip Glass (“As horas”, “O ilusionista”).
É um filme que irá agradar tanto os espíritas quanto não espíritas ou simples simpatizantes da doutrina. Mesmo aqueles que foram assisitir Nosso Lar apenas como um filme de ficção científica provavelmente irão gostar. Prova disso é que em apenas 5 dias  já ultrapassou a marca de um milhão de expectadores.

Thor contra Mr. Hide

 


Depois de uma sequência deplorável de histórias, o personagem Thor começou a pegar o ritimo em Journey into Mystery 99.

Embora Jack Kirby não tivesse voltado ainda ao título, Stan Lee estava de volta aos roteiros, com desenhos de Don Heck. O vilão da história era Mr. Hide, em sua primeira aparição. Heck não tinha a grandiosidade de um kirby, mas seu traço hachureado funcionou bem na história, dando um tom sombrio ao vilão.

A origem de Mr. Hide: de golpista a gênio da química. 


A origem de Mr. Hide é simplória. Ele vivia de dar golpes em consultórios, conseguindo a confiança dos médicos para depois roubá-los, e tenta esse golpe com Don Blake. Mas o médico manco já recebera informações sobre ele e o dispensa. O que um golpista desses faria? Provavelmente mudaria de cidade, mas essa é uma história da Marvel e ele simplesmente resolve fazer uma fórmula inspirada no livro O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson.

De fato, ele consegue sucesso: sua fórmula o transforma num monstro com a força de doze homens. Não sei como os leitores da época reagira a isso, mas eu pensei: se o indivíduo tem inteligência para criar uma fórmula dessas, por que ele simplesmente não trabalha como químico e ganha muito dinheiro desenvolvendo fórmulas para a indústria? Mas parece que Mr. Hide não gosta de trabalho honesto.



Suspense: Don Blake vai se espatifar no chão antes de se transformar no Thor? 


Uma vez transformado em monstro, ele resolve se vingar do médico que lhe recusou emprego, o que gera uma boa sequência de suspense que lembra muito os matinês (para quem não sabe, os matinês eram seriados, muitos com personagens de quadrinhos, que passavam no cinema e sempre terminavam numa situação de suspense para forçar a pessoa a assistir na semana seguinte): o vilão joga Don Blake do prédio. Se é imortal como Thor, como don blake o protagonista é perfeitamente mortal e pode se esborrachar no chão como qualquer pessoa. Claro que tudo se resolve com surpreendente facilidade.

A história se alongou para o número 100 da revista (sinal de que Stan Lee já estava pensando em tramas maiores) e mais uma vez apresenta situações curiosas.

Supostamente blake foi salvo pelo Thor, de modo que Mr. Hide resolve sequestrá-lo junto com Jane Foster. Ele amarra o médico num mastro, arma uma bomba e diz que ela explodirá caso aconteça algo com ele. Isso gera outra situação de suspense, pois Blake precisa alcançar seu cajado para se transformar no deus do trovão, mas gera também um jogo de erros. Achando que a derrota de Hide irá provocar a morte do seu amado, Jane Foster simplesmente esconde o martelo de Thor. Como o herói volta a ser o médico fraco e manco depois e 60 segundos longe de seu martelo, a situação faz com que ele fique em perigo.

Jane Foster esconde o martelo achando que assim está salvando seu amado. 


Aliás, Stan Lee usava muito bem esse recurso dos 60 segundos longe do martelo como forma de contrabalancear conflitos com vilões que eram nitidamente menos poderosos – mais à frente, quando Jack Kirby voltasse para o título, Thor enfrentaria ameaças realmente ameaçadoras.

Uma curiosidade na história é o trecho em que Hide fala com o médico: “Você representa tudo aquilo que eu odeio, Blake! É honesto, trabalhador, bem-sucedido... enquanto eu... sou o mal personificado!”. Na década de 60, mesmo na Marvel, era comum isso de vilões que se consideravam vilões. Todos nós sabemos que os vilões mais perigosos são justamente aqueles que se consideram heróis.

Guerras Secretas - Nada a temer

 


A editora abril ficou célebre por modificar os quadrinhos de super-heróis publicados por ela. Essas mudanças muitas vezes tinham a ver com a mudança de formato e muitas vezes relação com a cronologia Marvel criada pela editora. Mas em nenhuma outra publicação essas mudanças foram tão infames quanto em Guerras Secretas. E, em toda a série, em nenhum número isso foi tão infame quanto no último número da série.

Anúncio no número 11 resumia os acontecimentos do último capítulo. Depois a Abril mudou tudo. 


As mudanças eram tão óbvias que até eu, no alto dos meus 15 anos e sem nunca ter visto uma revista original da Marvel, percebi que havia alguma coisa errada. Até porque, no número 11 a Abril havia publicado um pequeno resumo do que aconteceria no número seguinte... e o que eu estava lendo era algo completamente diferente! 

A sequência da Ninfa d´água cortada pela Abril: a explicação sobre Beyonder não fazia sentido. 


Para começar, a Abril simplesmente cortou da revista toda a sequência dos vilões no espaço, a sequência em que Encantor invoca uma elemental da água e esta lhe conta o que tinha acontecido. Segundo ela, uma fenda em sua dimensão fez com que Beyonder observasse a Terra e ficasse curioso a respeito dela, o que lhe deu a ideia de coletar cobaias e colocá-las em confronto. Embora isso dê uma explicação para os acontecimentos da série Guerras Secretas, ela não faz sentido para Galactus, afinal ele não é humano, então porque foi levado para o planeta? Era Jim Shooter tentando dar um pouco de verossimilhança para seu deus ex machina, mas esquecendo que isso tinha que combinar com o restante da série.

Depois de serem fulminados, os heróis são ressuscitados. Ninguém morria em Guerras Secretas. 


A sequência com os vilões acaba pela metade, como se o roteirista Jim Shooter tivesse se esquecido de voltar a ela conforme escrevia o roteiro. Mesmo lendo a história original, nós não sabemos nem se os vilões conseguem chegar à Terra. Assim, os editores da Abril devem ter achando que o ideal era deixar apenas o gancho do número anterior, com os personagens indo para a terra através do poder do homem molecular.

Para cortar toda essa sequência, a Abril fez um verdadeiro malabarismo, principalmente porque essa sequência é entremeada com a sequência de Destino, no qual ele discute com o Garra Sônica, dorme e depois acorda. Assim, a edição da Abril mostra os dois conversando, e de repente, sem explicação nenhuma, o doutor Destino está lavando o rosto. Se a história não fazia muito sentido na versão original, aqui faz menos sentido ainda.

O Capitão morre várias vezes só nessa edição. 


Na edição anterior todos os heróis haviam sido fulminados por um raio, mas na explicação do Garra Sônica, Colossus vira aço antes do raio, o que permite à curandeira Zsji trazê-lo de volta à vida. Colossos por sua vez consegue salvar o Senhor Fantástico, que traz todos de volta à vida. Mais forçado, impossível.  

A página original... 


Os caras tinham sido fulminados por um raio, mas mesmo assim Jim Shooter dá um jeito de revivê-los. A Vespa morre duas vezes durante a série e volta à vida. O Capitão América bate as botas três vezes, duas só na última edição e também volta à vida. Fica evidente demais que as mortes na série são apenas um artifício dramático barato que não tem nenhuma efetividade. É um artificio que, de tão usado, perde completamente a eficácia. O leitor vê alguém morrendo e pensa: “Sem problemas, daqui a duas páginas esse aí está vivo de novo”.

A página remontada pela Abril. 


No final, tudo se resolve e Beyonder manda todo mundo de volta à terra. Como a cronologia da Abril estava atrasada e eles queriam que essa história se encaixasse na cronologia deles, eles produziram uma página inteira na qual o Beyonder volta o uniforme do Aranha para a versão clássica, faz o professor Xavier voltar a ser paralítico e faz a tTempestade voltar ao uniforme antigo. “Agora tudo retornou ao que era”, diz o texto. “Nada mais devo a vocês! Voltarei aos meus domínios para meditar sobre o que aconteceu nesses dias!”.

A abril já tinha feito muita coisa, principalmente cortar páginas e mudar texto, mas essa a primeira vez que chegavam ao ponto de incluir uma página inteira feita no Brasil no meio de uma história.

A Abril chegou a criar uma página inteira para adequar o final à sua cronologia. 


Lendo finalmente a versão original, chego à conclusão de que, apesar dos muitos problemas de roteiro e de ser uma indisfarçada propaganda de brinquedos, Guerras Secretas era divertido. Não chegava nem perto de ser um clássico como Crise nas Infinitas Terras, mas era divertido. Já a versão da Abril era heresia total.