segunda-feira, junho 01, 2026

Thor contra Mr. Hide

 


Depois de uma sequência deplorável de histórias, o personagem Thor começou a pegar o ritimo em Journey into Mystery 99.

Embora Jack Kirby não tivesse voltado ainda ao título, Stan Lee estava de volta aos roteiros, com desenhos de Don Heck. O vilão da história era Mr. Hide, em sua primeira aparição. Heck não tinha a grandiosidade de um kirby, mas seu traço hachureado funcionou bem na história, dando um tom sombrio ao vilão.

A origem de Mr. Hide: de golpista a gênio da química. 


A origem de Mr. Hide é simplória. Ele vivia de dar golpes em consultórios, conseguindo a confiança dos médicos para depois roubá-los, e tenta esse golpe com Don Blake. Mas o médico manco já recebera informações sobre ele e o dispensa. O que um golpista desses faria? Provavelmente mudaria de cidade, mas essa é uma história da Marvel e ele simplesmente resolve fazer uma fórmula inspirada no livro O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson.

De fato, ele consegue sucesso: sua fórmula o transforma num monstro com a força de doze homens. Não sei como os leitores da época reagira a isso, mas eu pensei: se o indivíduo tem inteligência para criar uma fórmula dessas, por que ele simplesmente não trabalha como químico e ganha muito dinheiro desenvolvendo fórmulas para a indústria? Mas parece que Mr. Hide não gosta de trabalho honesto.



Suspense: Don Blake vai se espatifar no chão antes de se transformar no Thor? 


Uma vez transformado em monstro, ele resolve se vingar do médico que lhe recusou emprego, o que gera uma boa sequência de suspense que lembra muito os matinês (para quem não sabe, os matinês eram seriados, muitos com personagens de quadrinhos, que passavam no cinema e sempre terminavam numa situação de suspense para forçar a pessoa a assistir na semana seguinte): o vilão joga Don Blake do prédio. Se é imortal como Thor, como don blake o protagonista é perfeitamente mortal e pode se esborrachar no chão como qualquer pessoa. Claro que tudo se resolve com surpreendente facilidade.

A história se alongou para o número 100 da revista (sinal de que Stan Lee já estava pensando em tramas maiores) e mais uma vez apresenta situações curiosas.

Supostamente blake foi salvo pelo Thor, de modo que Mr. Hide resolve sequestrá-lo junto com Jane Foster. Ele amarra o médico num mastro, arma uma bomba e diz que ela explodirá caso aconteça algo com ele. Isso gera outra situação de suspense, pois Blake precisa alcançar seu cajado para se transformar no deus do trovão, mas gera também um jogo de erros. Achando que a derrota de Hide irá provocar a morte do seu amado, Jane Foster simplesmente esconde o martelo de Thor. Como o herói volta a ser o médico fraco e manco depois e 60 segundos longe de seu martelo, a situação faz com que ele fique em perigo.

Jane Foster esconde o martelo achando que assim está salvando seu amado. 


Aliás, Stan Lee usava muito bem esse recurso dos 60 segundos longe do martelo como forma de contrabalancear conflitos com vilões que eram nitidamente menos poderosos – mais à frente, quando Jack Kirby voltasse para o título, Thor enfrentaria ameaças realmente ameaçadoras.

Uma curiosidade na história é o trecho em que Hide fala com o médico: “Você representa tudo aquilo que eu odeio, Blake! É honesto, trabalhador, bem-sucedido... enquanto eu... sou o mal personificado!”. Na década de 60, mesmo na Marvel, era comum isso de vilões que se consideravam vilões. Todos nós sabemos que os vilões mais perigosos são justamente aqueles que se consideram heróis.

Guerras Secretas - Nada a temer

 


A editora abril ficou célebre por modificar os quadrinhos de super-heróis publicados por ela. Essas mudanças muitas vezes tinham a ver com a mudança de formato e muitas vezes relação com a cronologia Marvel criada pela editora. Mas em nenhuma outra publicação essas mudanças foram tão infames quanto em Guerras Secretas. E, em toda a série, em nenhum número isso foi tão infame quanto no último número da série.

Anúncio no número 11 resumia os acontecimentos do último capítulo. Depois a Abril mudou tudo. 


As mudanças eram tão óbvias que até eu, no alto dos meus 15 anos e sem nunca ter visto uma revista original da Marvel, percebi que havia alguma coisa errada. Até porque, no número 11 a Abril havia publicado um pequeno resumo do que aconteceria no número seguinte... e o que eu estava lendo era algo completamente diferente! 

A sequência da Ninfa d´água cortada pela Abril: a explicação sobre Beyonder não fazia sentido. 


Para começar, a Abril simplesmente cortou da revista toda a sequência dos vilões no espaço, a sequência em que Encantor invoca uma elemental da água e esta lhe conta o que tinha acontecido. Segundo ela, uma fenda em sua dimensão fez com que Beyonder observasse a Terra e ficasse curioso a respeito dela, o que lhe deu a ideia de coletar cobaias e colocá-las em confronto. Embora isso dê uma explicação para os acontecimentos da série Guerras Secretas, ela não faz sentido para Galactus, afinal ele não é humano, então porque foi levado para o planeta? Era Jim Shooter tentando dar um pouco de verossimilhança para seu deus ex machina, mas esquecendo que isso tinha que combinar com o restante da série.

Depois de serem fulminados, os heróis são ressuscitados. Ninguém morria em Guerras Secretas. 


A sequência com os vilões acaba pela metade, como se o roteirista Jim Shooter tivesse se esquecido de voltar a ela conforme escrevia o roteiro. Mesmo lendo a história original, nós não sabemos nem se os vilões conseguem chegar à Terra. Assim, os editores da Abril devem ter achando que o ideal era deixar apenas o gancho do número anterior, com os personagens indo para a terra através do poder do homem molecular.

Para cortar toda essa sequência, a Abril fez um verdadeiro malabarismo, principalmente porque essa sequência é entremeada com a sequência de Destino, no qual ele discute com o Garra Sônica, dorme e depois acorda. Assim, a edição da Abril mostra os dois conversando, e de repente, sem explicação nenhuma, o doutor Destino está lavando o rosto. Se a história não fazia muito sentido na versão original, aqui faz menos sentido ainda.

O Capitão morre várias vezes só nessa edição. 


Na edição anterior todos os heróis haviam sido fulminados por um raio, mas na explicação do Garra Sônica, Colossus vira aço antes do raio, o que permite à curandeira Zsji trazê-lo de volta à vida. Colossos por sua vez consegue salvar o Senhor Fantástico, que traz todos de volta à vida. Mais forçado, impossível.  

A página original... 


Os caras tinham sido fulminados por um raio, mas mesmo assim Jim Shooter dá um jeito de revivê-los. A Vespa morre duas vezes durante a série e volta à vida. O Capitão América bate as botas três vezes, duas só na última edição e também volta à vida. Fica evidente demais que as mortes na série são apenas um artifício dramático barato que não tem nenhuma efetividade. É um artificio que, de tão usado, perde completamente a eficácia. O leitor vê alguém morrendo e pensa: “Sem problemas, daqui a duas páginas esse aí está vivo de novo”.

A página remontada pela Abril. 


No final, tudo se resolve e Beyonder manda todo mundo de volta à terra. Como a cronologia da Abril estava atrasada e eles queriam que essa história se encaixasse na cronologia deles, eles produziram uma página inteira na qual o Beyonder volta o uniforme do Aranha para a versão clássica, faz o professor Xavier voltar a ser paralítico e faz a tTempestade voltar ao uniforme antigo. “Agora tudo retornou ao que era”, diz o texto. “Nada mais devo a vocês! Voltarei aos meus domínios para meditar sobre o que aconteceu nesses dias!”.

A abril já tinha feito muita coisa, principalmente cortar páginas e mudar texto, mas essa a primeira vez que chegavam ao ponto de incluir uma página inteira feita no Brasil no meio de uma história.

A Abril chegou a criar uma página inteira para adequar o final à sua cronologia. 


Lendo finalmente a versão original, chego à conclusão de que, apesar dos muitos problemas de roteiro e de ser uma indisfarçada propaganda de brinquedos, Guerras Secretas era divertido. Não chegava nem perto de ser um clássico como Crise nas Infinitas Terras, mas era divertido. Já a versão da Abril era heresia total.