terça-feira, maio 26, 2026

Tropa Alfa – Eliminação

 


Uma das características da fase de John Byrne à frente da Tropa Alfa era o fato de que ele alternava entre tramas mais grandiosas e outras quase pueris. Nessa última categoria podemos colocar a história publicada no número 22 da revista.

Na trama, Estrela Polar e Aurora vão visitar uma amiga do primeiro que é dona de um circo e está tendo problemas com a Mulher Gorda. “De repente, todo o meu elenco estava sofrendo acidentes... e em todas as vezes Pérola conhecia alguém que pudesse substitui-los”. Quando percebeu, a dona do circo estava cercada de estranhos.

A amiga de Estrela Polar está tendo problemas em seu circo...


Na verdade, como o leitor logo descobre, a ideia da Mulher Gorda é tomar conta do circo para empreender um atentado terrorista em uma reunião entre o primeiro ministro do Canadá e o presidente dos Estados Unidos.

Byrne apresenta um aspecto do passado de Estrela Polar que era até então desconhecido do leitor: no passado ele fez parte de um grupo terrorista separatista. Assim, quando a bomba explodir, as autoridades investigarão o circo e acharão que foi um atentado dos separatistas.

... e o problema é a Mulher Gorda. 


Apesar do aspecto positivo de apresentar mais uma faceta de um personagem que até então tinha sido pouco abordado, é uma história boba. A vilão não parece ter nenhum poder especial além da gordura corporal, mas mesmo assim consegue vencer com uma facilidade enorme os heróis (Aurora é sufocada na barriga da vilã até perder os sentidos).   

Tão fácil quanto a situação havia sido criada, ela acaba sendo resolvida.

A vilã derrota os heróis com muita facilidade. 


Felizmente, a história seguinte seria tão boa que faria os leitores esquecerem dessa trama pouco inspirada.

Quando publicou a Tropa Alfa, a Abril simplesmente pulou essa história. Eu teria feito o mesmo.

Conan - A cidadela dos condenados

 


Em mais de duas décadas de publicação interrupta, Conan teve uma variedade imensa de grandes histórias. Mas uma das HQs que deveria constar obrigatoriamente em qualquer lista de melhores é a Cidadela dos Condenados, de Roy Thomas e Barry Windson Smith publicada originalmente na revista Savage Tales 2 de 1973 e republicada no Brasil no primeiro número da coleção A espada selvagem de Conan, da Salvat.
Se compararmos essa HQ com as primeiras histórias de Conan desenhadas por BWS apenas três anos antes, a evolução é simplesmente impressionante, em especial na figura humana, quase como se estivéssemos vendo um outro desenhista.
Essa evolução pode ser percebida logo nas primeiras páginas, que mostram a pirata Valéria adentrando em uma floresta. Sua figura sensual e anatomicamente perfeita, o detalhe nos olhos e no cabelo, a folhagem mostrada nos mínimos detalhes... cada quadro é uma obra de arte.
Quando aparece o dragão, na página cinco, então, é deslumbrante. BWS já tinha mostrado que sabia desenhar dinossauros na história Os guardiões da tumba, publicada em Conan 8, mas aqui, o bicho (na verdade um estegossauro, que no mundo real era herbívoro) se torna um monstro assustador.

Se o desenho é digno de todos os elogios, a história, baseada em um conto de Robert E. Howard, não fica atrás.
Na história, Valeria está fugindo depois de esfaquear um oficial stygio e vai parar em um oásis no meio do deserto. É seguida por Conan. Mas o oásis é um falso paraíso. O local é guardado por um dragão, que devora todos que procuram abrigo ali.
A dupla, consegue matar o dragão – graças à engenhosidade do cimério - e se encaminha por uma cidade no meio do deserto. Ali eles se deparam com uma guerra fraticida entre dois grupos por causa de uma mulher. É uma cidade em que a traição pode estar atrás de cada porta e ninguém parece confiável. O roteiro consegue explorar  com perfeição a guerra entre os dois grupos e as várias reviravoltas da trama. É uma história longa, mas que quando termina, queremos mais.

Perry Rhodan 54 – O duelo

 


Surgido no número 50 da série Perry Rhodan, o arcônida Atlan logo chamou atenção e ganhou a simpatia dos leitores. Afinal, ele era um verdadeiro exército de um homem só. Isso fica muito claro no número 54 da série, quando ele consegue fugir e driblar todo o sistema de segurança da Terra.

Escrito por K. H. Scheer, que nitidamente amava o personagem, o livro é todo narrado em primeira pessoa. É uma escolha mais do que acertada, já que permite ver o ponto de vista de um alienígena em nosso planeta. Também permite conhecer melhor esse personagem imortal.

Já no primeiro capítulo somos surpreendidos por uma reflexão psicológica, a respeito dos interrogatórios a que Atlan é submetido. “Há dias estávamos brincando uns com outros. Recorreram a todos os truques puramente psicológicos que conheciam. Tive que prestar muita atenção. Mas, afinal, eu era um conhecedor mais profundo da mente. Não dispunham das mesmas experiências que eu, nem estavam informados sobre as coisas que eu mesmo experimentara no correr do tempo”.

A capa original alemã. 


O volume também serve para sabermos como atlan esteve presente em praticamente todos os momentos importantes da história da humanidade: “Não havia quem soubesse dizer tão bem quanto eu porque o príncipe Eugênio conseguira infligir uma derrota tão fulminante aos turcos”. Atlan também lutara ao lado de Ricardo coração de leão e de Joana D´Arc. Também ajudara Leonardo Da Vinci em algumas das suas invenções. Embora não seja dito explicitamente, fica subetentendido que Atlan pretendia ajudar o desenvolvimento científico da humanidade, apressando o dia em que a Terra dominaria a navegação espacial. “Sua meta seria aproveitar isso para voltar para Àrcon?”, indiga o leitor.

O volume não é chamado de O duelo por acaso. As façanhas de Atlan fazem com que Perry Rhodan entre diretamente na perseguição, colocando duas mentes geniais em conflito direto.

Quando, ao final, atlan é convencido a se aliar a Rhodan, fica a pergunta: o cérebro robô de Árcon conseguiria resistir a essas duas personalidades extraordinárias? O final do volume deixa a promessa de grandes aventuras.

Crime e castigo

 


Garth Ennis é conhecido pelos roteiros mirabolantes envolvendo anjos e demônios, muita violência gráfica exagerada e uma quantidade enorme de piadas ácidas a cada página. O melhor trabalho dele, no entanto, não tem nenhum desses exageros. Crime e castigo, de 1997, é apenas uma puta história policial.
A trama é sobre um homem de meia-idade com dois filhos que de repente vê voltar um fantasma do seu passado e é obrigado a empreender uma fuga alucinada.
Quando era jovem, Jimmy e dois amigos deram um golpe em um mafioso psicopata e agora, anos depois, ele está de volta, decidido a matar todos.
A trama é extremamente violenta. 


A história se equilibra entre os flash backs (a esposa morrendo de câncer, a relação com o pai veterano da II Guerra Mundial, os detalhes do golpe), a relação conflituosa com o filho mais velho e a caçada.
Stein, o vilão, é como uma sombra, um adversário aparentemente invencível que brinca com os fugitivos como se estivesse num jogo de gato e rato. Em determinado ponto, o protagonista deixa seus filhos na casa de um amigo enquanto se encontra com os dois ex-parceiros. Quando volta, o amigo está pendurado na parede do quarto onde a menina dorme, suas tripas expostas.
Crime e castigo consegue ser um triller de suspense, uma trama sensível sobre pais e filhos e uma história poética. Tudo junto no mesmo caldeirão. Contribuiu muito para o resultado final o desenho do veterano inglês John Higgins.
Essa minissérie da Vertigo foi lançada por aqui pela editora Abril em 1998, um ano depois de sair nos EUA pela Vertigo.

O valor de cada quadro na página de quadrinhos

 Em uma página de quadrinhos, os quadros podem ter valor narrativo diferente. Alguns merecem maior destaque, seja pela sua importância para a história, seja pelo seu valor dramático ou de ação. Ou seja: alguns quadros são apenas narrativos, outros devem provocar um impacto no leitor. Os quadros de impacto são maiores exatamente por serem mais importantes. O roteirista deve indicar, no roteiro, quando há um quadro de impacto na página.

A minissérie Watchmen é um ótimo exemplo de como utilizar esse recurso, sendo uma verdadeira aula.
Abaixo uma página em que todos quadros têm a mesma importância:

Já na página seguinte, o último quadro tem maior valor dramático. Todos os outros são apenas uma preparação para o impacto deste último, pois o destino do mundo está nas mãos de um idiota:
Watchmen usa um esquema fixo de 9 quadros por página, como se fossem blocos que pudessem ser separados ou unidos.
Para formatinho, o esquema de 6 quadros funciona muito bem e pode ser usado da mesma maneira, inclusive com quadros de impacto. Ótimo exemplo disso são as páginas de Júlias, as aventuras de uma criminóloga.
Na página abaixo, de simples diálogo, não há necessidade de qualquer impacto, então os quadros são iguais: 

Já na página abaixo, o último quadro é maior, de impacto, para destacar a violência do personagem:
Abaixo um exemplo do Monstro do Pântano, de Alan Moore, com um esquema de quadros mais solto, mas que igualmente usa o tamanho do quadro para dar impacto à cena. Nessa imagem o quadro de impacto é o do meio da página, com o ataque dos helicópteros. Percebam como ele é muito maior que os outros:
É importante destacar que o quadro de impacto teve ter força narrativa. Pode ser uma cena de ação, como no exemplo acima, ou uma revelação. No exemplo abaixo, com roteiro meu e desenhos de Fábio Vermelho, o texto instiga a imaginação do leitor, que tenta descobrir o que está acontecendo com o personagem. Quando é revelado que ele está se transformando em um monstro, essa imagem tem força narrativa para ser maior que os outros quadros. 

No exemplo abaixo, com roteiro meu e desenhos de Toninho Lima, o quadro maior é a imagem impacante da mulher loira com a garganta cortada. Como se trata de uma história de terror, é uma imagem que tem grande força narrativa, despertando o interesse do leitor por continuar lendo a HQ. Um ponto a destacar aqui é aquilo que chamo de texto irônico, quando a legenda diz o oposto do que está sendo mostrado. O texto diz que o personagem não se surpreende com mais nada, mas nitidamente ele está surpreso com a aparição do fantasma.

 O quadrinho abaixo, Demônios, com roteiro meu e desenhos de Fábio Puper Machado, traz um exemplo de como usar uma splash page como elemento de revelação. Embora não tenha tanto impacto visual, ela merece o destaque por surpreender o leitor e trazer um outro significado para o que até então vinha sendo narrado. A splash page marca o plot twist da HQ. 




E, para quem não sacou a referência, essa história tem várias imagens que foram inspiradas no artista Hieronymus Bosch

Amor no Espectro

 


Amor no Espectro (Love on the Spectrum) é um reality show da Netflix baseado em uma produção australiana de grande sucesso. Na atração, acompanhamos a jornada de pessoas no espectro autista em busca de um relacionamento amoroso. Talvez o aspecto mais interessante seja observar como os participantes evoluem e como as dinâmicas afetivas funcionam, muitas vezes, como verdadeiras experiências terapêuticas.

O elenco apresenta realidades diversas, englobando desde indivíduos com nível 2 de suporte até aqueles que demandam menos auxílio no dia a dia, mas todos compartilhando características típicas do autismo. Dani e James, por exemplo, são altamente funcionais, trabalham e possuem independência financeira (Dani, inclusive, é uma animadora premiada). Contudo, ambos apresentam uma acentuada rigidez cognitiva, o que os leva a idealizar modelos de parceiros extremamente específicos e, por vezes, inalcançáveis.

Independentemente do nível de suporte, todos conseguem, com o auxílio de especialistas em comportamento e o apoio da família e  dos próprios parceiros, superar gradativamente suas limitações. É emocionante acompanhar a evolução de Connor: em suas primeiras aparições, sua ansiedade social era tão severa que ele entrava em crise apenas ao cogitar conversar com uma pretendente; mais tarde, ele se revela um parceiro sensível, romântico e inteligente — com especial destaque para a belíssima relação que mantém com sua mãe e sua família.

Em uma época saturada de reality shows descartáveis e superficiais, Amor no Espectro destaca-se por sua abordagem leve, empática e, principalmente, por romper estereótipos. O primeiro deles é o de que o autismo afeta exclusivamente crianças. O segundo é a visão reducionista de que autistas vivem em isolamento severo, alheios ao mundo. Ao retratá-los como indivíduos que buscam o amor, a conexão humana e uma vida digna, o programa contribui significativamente para a conscientização e a desmitificação do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Em tempo: o sucesso global da série foi tão expressivo que a Netflix expandiu a franquia com novas temporadas e também disponibilizou em seu catálogo a versão original australiana para o público brasileiro.

segunda-feira, maio 25, 2026

Quem matou Sara?

 

Para quem está acostumado às novelas mexicanas, com suas tramas previsíveis e personagens estereotipados, Quem matou Sara, série mexicana da Netflix, é uma grata surpresa.

Escrita pelo chileno José Ignacio Valenzuela, Quem matou Sara é uma história repleta de reviravoltas em uma trama que é tudo, menos linear.

O que mais surpreende não é tanto o enredo policial, todo baseado no segredo enunciando no título, mas na forma como foi elaborado o roteiro, com várias linhas temporais e várias tramas paralelas em sucessão rápida e frenética, assim como o uso inteligente das elipses.

A série tem como protagonista Alex Guzmán, que, acusado de matar a própria irmã, Sara, passa 18 anos preso e quando sai tem apenas dois objetivos na vida: vingar-se de quem o incriminou e descobrir quem matou sua irmã. Para isso ele precisará enfretar a poderosa família Lazcano, cujo patriarca, César, é dono de um cassino e está envolvido com tráfico internacional de mulheres.

Sara morreu quando o paraquedas no qual estava se rompeu. O paraquedas é puxado por uma lancha então o suspeito de ter danificado o equipamento é um dos que estavam naquele local fechado. Uma típica trama a la Agatha Christie, com um crime acontecendo num local fechado e poucos suspeitos. Mas Quem matou Sara vai muito além desse enredo básico ao mostrar que todos têm algo a esconder, todos parecem ter um passado negro, algo a ser explorado na trama – o que faz com que mesmo a história se esticando por dez episódios, raramente sentimos que estamos sendo enrolados (exceto talvez a trama do filho gay de César Lazcano e sua trama com o marido tentando ter um filho, que parece realmente desnecessária).

De todos os episódios, o mais impressionante é o sexto, “Caça”, focado em um dos empregados dos Lazcanos que tenta o suicídio. No episódio anterior vemos ele apontando a arma para a cabeça. Nesse, uma sucessão muito rápida de flashs backs explica como as coisas chegaram até ali, completando todas as lacunas deixadas pela elipse temporal do episódio anterior. O roteiro é completado por uma edição em ritmo frenético que, incrivelmente, consegue manter a coerência da narrativa no meio de tantas linhas narrativas temporais diferentes.

Quem matou Sara é um verdadeiro quebra-cabeças que desafia os expectadores, gerando inclusive várias teorias sobre detalhes da trama. Esse quebra-cabeça instigante unido a um roteiro certeiro e uma direção competente fazem com que essa série seja a nova mania da Netflix, tanto que a série já foi confirmada para segunda temporada. Será que finalmente conseguiremos descobrir quem matou Sara?

Skizz – Contato imediato de Alan Moore

 

Imagine filmes como Contato Imediatos de Primeiro Grau ou ET, o extraterrestre, mas escritos por Alan Moore. É exatamente o que vemos em Skizz, álbum lançado em 2003, pela editora Pandora.
Moore aproveita muitos dos conceitos de Spielberg (em especial de um extraterrestre perdido em nosso planeta e ajudado por pessoas simples), mas faz uma obra totalmente subversiva e instigante.
Alan Moore faz a sua versão do filme ET. 


Para começar, pelo humor negro que permeia toda a obra. A sequência inicial, em que Skizz cai na terra é, ao mesmo tempo, hilária e aterradora. A nave resolve se auto-destruir porque a lei interestelar proíbe apresentar alta tecnologia para raças de desenvolvimento restrito – e decide levar seu tripulante junto. O diálogo é hilário: enquanto Skizz tenta se salvar, a nave pergunta o nome de seus herdeiros.
Skizz passa a ser caçado por agentes do governo e recebe ajuda de uma garota punk – e temos aí diversas sequências de humor, que lembram ET, mas são muito mais ácidas. Uma das primeiras palavras que o personagem aprende é “Potameda”. E, claro, os agentes do governo não são bonzinhos como no filme de Spielberg: o principal responsável pelo caso é um militar paranoico que acha que o ET é só o início de uma invasão extraterrestre.
O desenhsita Jim Baikie se sai muito bem nas sequências de espaço. 


Vale destacar o desenho de Jim Baikie, que consegue captar bem tanto as situações de FC quanto de humor – destaque para a ótima caracterização do personagem Cornélius.

O roteirista profissional, de Marcos Rey

 

Marcos Rey.foi um dos principais roteiristas brasileiros de cinema e televisão. Na década de 1970 ele foi o rei da pornochanchada, escrevendo alguns dos principais filmes do gênero. Ele reuniu boa parte de sua experiência no livro O roteirista profissional: televisão e cinema. 
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Antes de mais nada, é bom avisar que não se trata exatamente de um manual. O autor até dá algumas dicas de como formatar o roteiro, mas não vai muito além da cabeça CENA 1 - LOCAL - EXTERIOR/INTERIOR - DIA/NOITE.
Na verdade, a obra é mais um relato de experiência com o qual podem aprender muito so que forem inteligentes e atentos. Escrito de forma coloquial, a impressão que temos é de estar conversando com um veterano e aprendendo de forma não muito sistemática.
Personagens

Uma das dicas é que Marcos Rey fazia uma espécie de questionário com qual "conversava com os personagens". Perguntas como: "Onde você nasceu? Qual a sua profissão? Gosta dela? Tem alguma religião? Já viveu algum grande amor? Tem algum ideal político? Gosta de repetir alguma palavra?" ajudam a compor o personagem. Todo mundo se lembra, por exemplo, do Coronel da novela Renascer que sempre dizia: "Certo, muito certo, certíssimo!".
No caso dos heróis, é bom dar-lhe um defeito, para torná-lo mais humano: Sherlock Holmes era um dependente de drogas, Poirot um vaidoso, Columbo um relaxado, só para ficar nos detetives.
Também é bom dar marcar fisicamente o personagem. Sherlock Holmes é conhecido pela roupa xadrez, pelo boné e pelo cachimbo. Kojak é careca e fuma uma piteira.
Se a dica é boa para seriados de TV, é melhor ainda para os quadrinhos, uma mídia que depende muito do visual.
RÚBRICAS

São marcações nas falas dos personagens para ajudar o diretor (ou o desenhista) a entender o tom da fala. Por exemplo:

JANDIRA (categórica): Neste hotel não vejo, não escuto, não falo!
PASCOAL (de boca cheia): É bom fazer coisa nova. a freguesia tá mudando!

DIÁLOGOS
Marcos Rey dá uma lição básica, mas importantíssima:
É preferível uma ação muda do que complementada por diálogos inúteis. Imagens também falam.
Nunca coloque em palavras o que a imagem já está tornando explícito.
Nesse sentido, ele critica os primeiros roteiristas de telenovelas, que, vindos do rádio, tinham o vício de fazer os personagens falarem o que estavam fazendo:
JANDIRA: Agora estou abrindo a porta. O que é isso? está tudo escuro? Ligaram uma luz! O quê? Fecharam a porta! Estou presa!
É, tem roteirista de quadrinhos que ainda faz esse tipo de coisa. Aliás, Marcos Rey devia estar pensando nos primeiros comics quando escreveu: "certos autores usam o diálogo como simples muletas de ação. Parece que escrevem histórias em quadrinhos".
NOVELAS
Marcos Rey conta que a maioria dos diretores mexia muito nos seus roteiros a ponto de muitas vezes ele não reconhecer seus textos na tela. De fato, normalmente diretores têm mais poder que os roteiristas e muitas vezes se dão o direito de mexer no texto. Isso só não acontece no caso das novelas. Os roteiristas são as grande estrelas e têm poder absoluto sobre suas novelas. Os diretores não costumam mudar quase nada. E a razão é simples: a produção de telenovelas é tão estafante e apressada que o diretor só tem tempo de filmar e editar. Curioso, não? É justamente o fato das novelas serem uma produção industrial que faz com que elas possam ser obras autorais a ponto de conseguirmos distinguir o estilo do roteirista. Uma novela de Benedito Rui Barbosa, por exemplo, é completamente diferente de uma do Manoel Carlos.


ADAPTAÇÕES
Talvez o capítulo mais interessante seja sobre adaptações. Uma dica de Marcos Rey: adaptações ao pé da letra, fidelíssimas, são péssimas. De fato, esse talvez tenha sido o maior problema do filem Watchmen. Aliás, passado o vislumbre de ver nas telas uma transposição quase literal dos quadrinhos, o que ficou foram duas criações do diretor: a cena de abertura, com a música do Bob Dylan, perfeita, e o final, cientificamente muito mais correta do que a da história em quadrinhos.
Marcos Rey foi um dos roteiristas da excelente série do Sítio do Pica-pau amarelo da década de 1970. Hoje, 10 em cada 10 críticos diz que aquela adaptação da obra de Monteiro Lobato foi um marco, que encantou toda uma geração, mas na época a maioria dos itelectuais simplesmente odiou. E aí vai outra grande lição: nem sempre quem critica uma adaptação conhece a obra original.
Três exemplos:
1 Os críticos acharam uma heresia colocar uma televisão na sala da Dona Benta, mas não se tocaram que o Lobato já tinha colocado um rádio lá em plena década de 1920, quando esse aparelho era novidade absoluta.
2 Um episódio, Narizinho atômica foi muito criticado por estar deturpando a obra de Lobato. E era adaptação fiel de uma história menos conhecida de Lobato no qual ele falava do perigo das bombas atômicas.
3 A jornalista Cléo foi vista como absurda criação dos roteiristas, mas foi criada por Lobato, um visionário, que já imagina o dia em que as mulheres exerceriam o jornalismo.

Para ler os quadrinhos

 


A primeria vez que li um texto sobre quadrinhos foi um artigo do Arnaldo Prado Júnior no jornal O Liberal sobre o Fantasma. Eu estava encerando a casa. Para quem não é da minha época, antigamente a casa era encerada e depois eram colocados jornais por cima, para que as pessoas pudessem passar enquanto a cera secava.

Estava ali, espalhando os jornais pelo chão quando um texto me chamou a atenção. Era o tal texto sobre o Fantasma. Parei o serviço e comecei a ler. Fiquei fascinado. Embora eu lesse quadrinhos desde que me entenda por gente, nunca tinha visto alguém escrever sobre quadrinhos.

O autor desse artigo depois viria a ser meu orientador de TCC, mas essa é outra história.

Um pouco mais velho, conheci a biblioteca pública Arhtur Viana, no centro de Belém. Foi lá que, vasculhando as prateleiras, descobri que existiam livros sobre quadrinhos. Os dois que constavam no acervo era de autoria de Sônia M. Bibe Luyten, uma pesquisadora da USP. O primeiro deles era o volume O que é história em quadrinhos, da Coleção Primeiros Passos. O outro era a antologia Histórias em quadrinhos – leitura crítica, da editora Paulinas.

Eu li e reli esses livros diversas vezes (nas primeiras vezes o funcionário responsável pelos empréstimos me avisava que eu já tinha emprestado aquele livro, depois simplesmente passou a ignorar) e foram obras fundamentais para que eu decidisse pesquisar e escrever sobre quadrinhos. Todos os livros que escrevi sobre o assunto tiveram sua origem lá, naqueles livrinhos lidos e relidos diversas vezes.

O volume O que é história em quadrinhos eu consegui comprar, até porque a Coleção Primeiros Passos até hoje é fácil de encontrar em sebos. Mas o História em quadrinhos – leitura crítica eu nunca achei em sebo e já estava fora do catalogo da Paulinas quando comecei a procurar. Apesar de ter muitos livros sobre quadrinhos, esse era um que faltava na estante.

Recentemente consegui achar, via estante virtual, um sebo que tinha o livro para vender.

Foi uma alegria reencontrar essa obra tão fundamental.

Somerset Holmes

 



No início da década de 1980 o roteirista Bruce Jones, uma das grandes figuras da Marvel nos anos 1970 com uma passagem memorável pelo personagem Kazar, estava cansado dos quadrinhos. Seu sonho era escrever roteiros para Hollywood.
Nesse meio tempo, enquanto fazia uma fotonovela ele conheceu a modelo e atriz April Campbell, que também queria ser roteirista de Hollywood. Os dois se apaixonaram e casaram, mas o sonho de escrever para o cinema parecia distante.
Foi quando um editor propôs a Jones criar uma linha de quadrinhos totalmente do roteirista, dando-lhe liberdade total.
Capa original. 

O casal teve a ideia de fazer um roteiro de cinema e transformá-lo em um gibi, rezando para que algum executivo de Hollywood visse e comprasse os direitos para o cinema.
A minissérie Somerset Holmes conta uma história de uma mulher que, após ser atropelada, perde a memória. Ela é ajudada por um médico, que é assassinado. É apenas o primeiro de uma série de assassinatos misteriosos que ocorrem enquanto a garota (que adota o nome baseada em um anúncio de beira de estrada) foge. Ela precisa descobrir quem é para entender por que todos à sua volta morrem.
É uma trama complexa e inteligente com um final bem amarrado.
Capa original da minissérie 

Para desenhar, chamaram o velho parceiro de Bruce Jones, Brent Anderson.
O maior problema do álbum (lançado no Brasil dentro da coleção graphic álbum) é o fato dele ter sido feito como um story board para cinema, o que faz com que aproveite pouco a linguagem dos quadrinhos.
O leitor deve estar curioso para saber se a história virou filme. Um produtor de cinema comprou os direitos, mas não produziu o filme. Entretanto, Bruce e April conseguiram, graças a isso, entrar para a União dos roteiristas para cinema e TV e começaram a colaborar com filmes e seriados de TV, em paralelo com a produção quadrinística.
Até hoje Jones e April argumentam que o filme O longo beijo de boa noite, de 1996, estrelado por Geena Davis e Samuel L. Jackson é um plágio de Somerset Holmes.

A arte espetacular de Luiz Eduardo Cardenas

 


Luiz Eduardo Cardenas nasceu em 1972, em Aracaju, Sergipe. Desde pequeno revelou talento para o desenho e logo começou a trabalhar na área. Sua primeira história em quadrinhos publicada foi Mais do mesmo, na revista Mestres do Terror, da editora D’Arte.

Além dos quadrinhos, transitou por áreas como publicidade, marketing, educação a distância e cinema, atuando com roteiro, ilustração, storyboard, design de personagens, cenografia, figurino e direção de arte.

No cinema, colaborou com o diretor capixaba Rodrigo Aragão nos filmes Mar Negro, As Fábulas Negras, O Cemitério das Almas Perdidas, Prédio Vazio e A Mata Negra. Suas HQs mais recentes foram Bergtagna: A Dimensão das Sombras, PIGZ, O Livro Maldito de Cipriano e Crônicas Tentaculares.