domingo, março 01, 2026

As aventuras de Xisto

 

Quando eu estava no primário, li um livro que me fascinou. Era um trabalho de escola e cada aluno era sorteado para ler um capítulo em aula. Na primeira aula, o sorteado admitiu que não tinha lido nada e, portanto, não se sentia capaz de ler para a turma. A professora perguntou se alguém já o havia lido. Silêncio total. Eu levantei a mão. “Você já leu o livro todo?”, ela perguntou. “Duas vezes”, respondi. Depois, li tantas vezes que decorei a ponto de os colegas me testarem: liam um trecho e eu dizia em qual página estava.

O nome desse livro era Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida, publicado na Coleção Vaga-Lume.

Além do texto maravilhoso da autora, o livro se destaca pelo trabalho primoroso do ilustrador Mário Cafiero, cujo talento para a fantasia se revela já na capa: o protagonista montado em um cavalo, com a espada levantada. O meticuloso trabalho do artista, desenhando cada folha nas árvores e cada grama no chão, impressiona. Mas esse detalhismo não está a serviço do realismo; ele contribui para tornar a imagem irreal, onírica, o que é ampliado pela proporção peculiar entre cavalo e cavaleiro, incluindo uma cabeça de cavalo pequena em relação ao corpo. Essa característica se repete nas ilustrações internas, com os bruxos, por exemplo, sendo mostrados com proporções excessivamente alongadas (com nove cabeças). Tudo isso reforça o clima de fantasia da obra.

O texto de Lúcia Machado de Almeida é singelo e inventivo. Parece simples, mas é repleto de estratégias narrativas eficazes, como a abertura do livro. A autora narra o nascimento, momento em que o personagem olha para a mãe e sorri, e prossegue:

“Passava o tempo... Quando Xisto fez três anos, morreu-lhe o pai. Aos cinco, teve sarampo, e aos nove ficou de castigo por ter pregado um susto no mestre, que por pouco não endoideceu”.

Agrupar vários fatos em um único parágrafo cria a sensação de passagem célere do tempo. Misturar em uma mesma frase um evento grave, como a morte do pai ou o sarampo, com um castigo escolar, eleva a importância deste último fato, preparando o terreno para a história que destaca a inteligência do personagem.

Na trama, Xisto vê um feiticeiro esconder um objeto em uma parede falsa no fundo de uma gruta. Ao abrir o esconderijo, ele descobre o Manual do Segredo dos Bruxos. O manual lista os quatro bruxos ainda existentes no mundo e o ponto fraco de cada um, nomeando-os de acordo com seus atributos:

  • Fredegonda – senhora dos que voam, mas não são aves;

  • Jacomino – o que se alimenta do humo da terra;

  • Minhoco – o senhor do tempo;

  • Durga – o que vê sem ser visto.

Como se percebe, a lista amplia o mistério graças ao texto enigmático (o que seria alguém que vê sem ser visto?), estimulando o leitor a imaginar a extensão dos poderes dessas figuras. Para eliminar esses últimos bruxos, Xisto torna-se um cavaleiro andante, acompanhado de seu amigo Bruzo — tão simplório quanto Xisto é astuto.

Nessa jornada, eles enfrentam tiranos e vivem situações de humor quixotesco, como quando acreditam presenciar a execução de pessoas por bruxos, apenas para descobrir que eram fazendeiros apanhando uma galinha para o jantar.

Em suma, Aventuras de Xisto é um livro mágico que encantou toda uma geração e abriu as portas para a minha — e de muitos outros — predileção pela literatura de fantasia.

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