quinta-feira, agosto 22, 2019

A árvore do conhecimento



No auge da parceria Gian-Bené era muito comum que o Bené fosse em casa para discutirmos histórias. Estávamos o tempo todo conversando sobre quadrinhos. Mas havia um problema: meu quarto era muito pequeno e o Bené, com seus quase dois metros, simplesmente não cabia.
Assim, normalmente ficávamos conversando embaixo de uma árvore, na frente da casa da vizinha. No calor de Belém, a árvore parecia nos dar algum tipo de inspiração, pois foi ali que criamos nossas principais histórias.
Bené lembrava de uma lanchonete em Nova York, onde Stan Lee e Jack Kirby costumavam discutir suas geniais HQs e costumava dizer:
- Um dia vão colocar uma placa nessa árvore: “Aqui Gian Danton e Bené Nascimento criaram suas principais histórias”.
Pouco tempo depois cortaram a árvore. Não sobrou sequer uma fotografia. Ela nunca teve uma placa com esses dizeres. Podíamos não ser Jack Kirby e Stan Lee, mas Belém certamente também não era Nova York.

Capitão César: o soldado da fortuna



Embora Dick Tracy, Buck Rogers e Tarzan sejam considerados os inciadores dos quadrinhos de aventura, eles tiveram um antecedente nobre. Trata-se de uma tira de humor, que, com o tempo, transformou-se em uma HQ de aventura: o Capitão César, de Roy Crane.
Crane nasceu em 1901, no Texas. Aos 14 anos fez um curso de desenho por correspondência com Charles Landon. Quando terminou o ginásio, foi para a Chicago Academy of Fine Arts, onde conheceu o amigo Leslie Turner. Desgostosos com a monotomia acadêmica, os dois resolveram voltar para casa, pegando carona nos trens de carga. Essa aventura depois renderia argumentos para algumas de suas histórias.
Ele trabalhou então como repórter e depois embarcou num cargueiro para a Europa. De volta à América, resolveu criar uma tira de quadrinhos cômicos chamada Washington Tubbs (depois abreviado para Wash Tubbs), mas seu humor caipira não agradava aos editores, que o aconselharam a procurar o sindicate Newspaper Enterprise Association. Por sorte, o diretor desse sindicate era justamente o dono do curso que Crane fizera na adolescência, o que lhe valeu um contrato.
A primeira tira é publicada em 21 de abril de 1924. O protagonista era um indivíduo baixinho e de óculos, lembrando vagamente o comediante Harold Lloyd. As primeira sequências são de humor rápido com Wash trabalhando em uma mercearia e namorando a filha do patrão, mas logo Crane colocou seu herói dentro de um navio em direção aos mares do sul à procura de um tesouro.
O enfoque passa a ser, então, a aventura. Em uma de suas peripécias, o personagem resgata numa masmorra um prisioneiro, capitão Easy. Ele se alia ao protagonista e os dois começam a viver grandes aventuras juntos. Crane vai abandonando aos poucos não só o tom humorístico, mas também o traço caricato. Seu desenho vai ganhando um incrível tom realista, em especial pelo uso papel craftint, que permite ao autor criar texturas que ressaltam o desenho. Ninguém jamais usou essa técnica de forma tão primorosa quanto Roy Crane.
Por fim, o autor resolve se livrar o personagem humorístico, que se casa, e a tira passa a se chamar simplesmente Capitão Easy (Capitão César, no Brasil). O grande momento do personagem é durante a II Guerra Mundial. O Capitão recebe a missão de descer de paraquedas na França ocupada e resgatar um cientista preso em um campo de concentração nazista. Há alguns aspectos irreais, como o fato do alto comando Aliado escolher alguém que não fala francês para a tarefa, mas as situações de suspense e ação compensam. César entra no campo, se faz passar por prisioneiro e, finalmente, liberta o cientista, levando-o para a Inglaterra. Mas antes disso ele corre sério risco de ser descoberto pelos alemães e só a imaginação de Crane consegue livrá-lo desse sério risco.
Por ter começado como tira de humor, Wash Tubbs não é considerada a primeira HQ americana de aventura, mas sem dúvida foi a primeira que usou corretamente o gênero e foi uma das que melhor o exploraram.
Posteriormente Roy Crane foi para a King Features Syndicate, para a qual criou Jim Gordon, um aviador durante a guerra que depois se transforma em agente secreto norte-americano no período da guerra-fria. Apesar do exagerado tom ideológico, essa tira conseguiu manter o mesmo nível de qualidade de Capitão César, com os desenhos de Crane melhorando a cada ano. 
Pela qualidade da sua obra, Crane recebeu o prêmio Reuben em 1959 e, em 1974, o Yellow Kid no Salone Internazionale dei Comics em Lucca, Itália.

quarta-feira, agosto 21, 2019

Entrevista no G1 sobre o II Aspas Norte

Hoje fui entrevistado no programa G1 na Rede. Falei sobre o II Aspas Norte - congresso de quadrinhos da região norte. Comentei também sobre o cenário da cultura pop no Amapá, como as feiras nerds realizadas pela Ápice.
para ver a entrevista, clique aqui.

O museu dos horrores


Há certas profissões que a idade não é desmérito. O ofício da escrita é um deles. A maioria dos bons escritores vai apenas melhorando a cada ano, desenvolvendo sua linguagem e seu estilo, tirando as gorduras do texto, deixando-o cada vez mais fluído. 
Exemplo disso é R. F. Rubens Francisco Lucchetti, um dos mais importante escritores e roteiristas brasileiros. Lucchetti passou algum tempo esquecido, mas agora volta à carga com uma coleção de livros cujo segundo exemplar é O museu dos horrores.
O livro é focado em dois empresários de uma transportadora que se vêem envolvidos numa trama sobrenatural graças a uma encomenda para o museu de cera de Londres.
Se há uma palavra que pode resumir esse livro é: divertido. Pode parecer paradoxal associar diversão a um livro de terror, mas é exatamente isso que o livro entrega. A leitura é fluída, tem ótimas sacadas de humor (em determinado momento um dos personagens diz que alguém está correndo risco de vida, ao que outra pessoa retruca: se estivesse correndo risco de vida seria ótimo, ele está correndo risco de morte!), um texto fluído em que uma frase puxa a outra naturalmente, suspense na medida certa e, finalmente, terror.
Rubens Francisco Lucchetti dá uma lição de como contar uma história, com ritmo adequado, corte e elipse no momento exato, frases curtas, parágrafos pequenos. Se não fossem algumas palavras mais antigas (como chávena) e a caracterização mais clássica de monstros como Drácula, passaria tranquilamente por um escritor da nova geração. Com um acréscimo: a experiência de anos produzindo textos. Percebe-se claramente que produzir uma boa narrativa já se tornou algo natural para esse grande mestre do terror.
Se tudo isso já não bastasse, são livrinhos baratos (20 reais) e podem ser adquiridos diretamente com o autor - com direito a autógrafo.
Imperdível!

A margem negra

Em 1989 eu era estudante de comunicação na Universidade Federal do Pará e procurava material para um trabalho sobre história em quadrinhos. Iríamos apresentar um seminário sobre meios de comunicação e o professor responsabilizara meu grupo para falar sobre HQs. Isso seria impensável em qualquer época que não fosse o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990. Antigamente por conta do enorme preconceito e atualmente porque os quadrinhos se tornaram um nicho, com baixas tiragens e vendas segmentadas. Mas na época todo mundo lia quadrinhos. Séries como V de Vingança eram lidas mensalmente e comentadas nos corredores da universidade da mesma forma como hoje se discute séries de grande impacto, como Guerra dos Tronos. 

Todo mundo estava falando de quadrinhos, mas precisávamos de algo diferente para a apresentação. Foi quando alguém me disse que no bloco de Artes, ao lado do nosso, havia um rapaz, Bené Nascimento, que trabalhava profissionalmente como desenhista, publicando em editoras de São Paulo. Um paraense fazendo quadrinhos era a novidade das novidades na época e fiz questão de entrevistá-lo. A entrevista, que deveria durar meia-hora, durou a tarde inteira (e os dois perdendo aula, claro) e, no final, um convite de Bené: que tal fazer um fanzine de quadrinhos? Assim surgiu "Crash!", o primeiro fanzine paraense dedicado exclusivamente aos quadrinhos.

Estávamos na produção do segundo número quando Bené chegou com os originais de uma belíssima história, toda arte-finalizada com pincel. Desenhada no estilo Hall Foster (autor do Príncipe Valente) a HQ mostrava um cavaleiro medieval livrando uma floresta de um demônio. 

- Gostou? - perguntou Bené. 

- Claro. 

- Quer colocar o texto? 

Aceitei na hora. "Floresta Negra" foi o primeiro roteiro que escrevi, um caminho bastante curioso, já que não era de fato um roteiro. Foi também o primeiro roteiro publicado, na saudosa revista Calafrio. 

A partir dali surgiu uma parceria que se estenderia por vários anos e mexeria com o jeito como se fazia quadrinhos de terror no Brasil. 

O quadrinho de terror ganhou grande força no Brasil na década de 1960, quando os gibis da editora EC Comics foram proibidos nos EUA. As revistas que publicavam essas histórias tinham grande público aqui e não havia mais material inédito. A solução foi recorrer aos quadrinistas brasileiros e assim surgiu a era de ouro do terror nacional. 

Mas a estrutura narrativa daquela época se tornou uma espécie de camisa de força para os artistas. Tirando alguns quadrinistas mais renomados mais renomados, como Mozart Couto, a maioria seguia os cânones do terror década de 60 que tinha inclusive algumas histórias básicas, como da pessoa má que apronta todas as malvadezas possíveis durante toda a HQ e no final os mortos voltam para se vingar. 


O quadrinho que fazíamos era bem diferente disso. Influenciados por séries como Sandman, Monstro do Pântano e Hellblazer (John Constantine) e autores como Alan Moore e Neil Gaiman, fazíamos um terror pesado. Bené caprichava nas vísceras e, da parte do roteiro, os personagens eram sempre perseguidos por traumas e pavores. Ou seja: era uma mistura de terror trash com horror psicológico. Em uma das histórias, por exemplo (uma adaptação do conto "O nariz", de Gógol), um personagem capaz de despertar os maiores medos das pessoas próximas entra num hospício e ocasiona um surto de pavores secretos. 

Essa abordagem visceral inicialmente não agradou os editores da época. A história "Puritano", por exemplo, está até hoje inédita: foi recusada por todos os editores da época, talvez por envolver questões religiosas. Uma das histórias, "Noir", só foi publicada porque a assistente de edição levou o original para o dono da editora e insistiu que saísse na revista. 


Mas com o tempo fomos ganhando público. Uma editora chegou até mesmo a encomendar uma revista com histórias nossas e de quadrinistas que tinham um estilo semelhante. Levamos semanas para conseguir reunir o material para fazer uma boneca (para que não é do meio editorial, boneca é uma prévia de como irá ficar a revista). Não aconteceu por causa da incapacidade de Bené de dizer não: um primo o visitou e pediu a boneca emprestada, levou para casa e... perdeu no ônibus! 

A maioria das revistas nas quais publicávamos eram vendidas ensacadas, o que nos criava um problema. Não havia o costume atual de indicar na capa as histórias e os autores, de modo que nunca sabíamos se a revista tinha história nossa ou não. Assim, tivemos a ideia de colocar uma margem negra nas páginas. Isso permitia pudéssemos perceber se havia histórias nossas sem nem mesmo abrir o volume. Inadvertidamente isso se tornou uma estratégia de marketing: os fãs da dupla passaram a também procurar as margens negras nas revistas. 

A divulgação científica nos quadrinhos

Defendida em 1996, minha dissertação de mestrado A divulgação científica nos quadrinhos - análise do caso Watchmen foi um dos primeiros trabalhos acadêmicos a analisar a relação entre HQs e ciência no Brasil. Tornou-se referência obrigatória inclusive sobre uso de gibis em sala de aula. Para ler, clique aqui.

A arte fantástica de John Buscema

John Buscema foi um dos principais desenhistas da Marvel de todos os tempos. Os editores dos títulos brigavam por ele. Seu traço elegante, anatômico e, ao mesmo tempo, com forte influência da arte expressiva de Jack Kirby, garantia as vendas de qualquer título. Assim, ele passou por várias revistas, do Quarteto aos Vingadores, passando por uma fase inesquecível no Surfista Prateado, até descobrir seu título definitivo: Conan. Seu traço deu ao personagem o ar feroz e selvagem pelo qual o personagem ficaria conhecido. Confira abaixo alguns de seus trabalhos fantásticos.













terça-feira, agosto 20, 2019

Dustin e Suzie - Stranger Things

O túnel do tempo


The Time Tunnel (no Brasil, O Túnel do Tempo) foi um seriado de TV realizado por Irwin Allen nos anos 60, que mostrava as viagens no tempo de dois cientistas: (Robert Colbert, como Doug Phillips, e James Darren, como Tony Newman).
Eles eram monitorados por uma equipe que permanecia no laboratório e os acompanhavam em seus deslocamentos no tempo através de imagens que recebiam pelo Túnel do Tempo. A equipe estava sempre tentando encontrar um meio de trazê-los de volta, ou então tentavam ajudá-los por intermédio dos recursos de que dispunham, como precárias transmissões de voz ou envio de armas ou equipamentos, quando possível. Quando tudo falhava, tiravam-nos de uma época e os enviavam para alguma outra data incerta do passado ou do futuro, dando início a um novo episódio.
Os personagens viajavam pelos mais diferentes períodos históricos, indo parar até mesmo no Titanic pouco antes dele afundar.  
Nos episódios eram utilizados imagens de arquivo de filmes da Fox, como O Mundo perdido, Príncipe Valente e até do seriado viagem ao fundo do mar. A regra da televisão na época era: lavou, tá novo.
Devido ao elevado custo de produção, esse seriado durou apenas uma temporada, com 30 episódios.

Dia vira “noite” em São Paulo por causa de poluição e queimadas provenientes da região amazônica


Vista da zona norte de São Paulo com céu encoberto, garoa e frio às 16h desta segunda- feira (19). Foto: Alex Silva / Estadão.
Os moradores da capital paulista ficaram espantados, nesta segunda-feira (19/8), quando o dia virou “noite” de repente, no meio da tarde, por volta das 16h. O céu escuro, de acordo com meteorologistas, foi causado pelo acúmulo de poluição e queimadas provenientes da região amazônica. Leia mais

Floresta Negra



Floresta Negra foi a primeira história da dupla Gian-Bené. Foi também um divisor de águas para a arte de Bené, que até então era caracterizada pelo exagero, principalmente na musculatura dos personagens. Bené fez a história como uma homenagem a Hall Foster, criador do Príncipe Valente e, para simular o estilo do mestre, usou pincel para fazer a arte-final. Por outro lado, a diagramação, a perspectiva e a anatomia remetiam ao mestre José Luís Garcia-Lopez. Imagine Hall Foster mistura com Garcia-Lopez. Essa era a arte de Floresta Negra. Essa história marca a entrada de Bené numa fase totalmente madura de seu trabalho e virou instantaneamente um clássico.
Lembro que quando ele me mostrou os originais, fiquei maravilhado. Já gostava do traço do Bené, mas ali tinha um verdadeiro salto estético, algo que mostrava que ele seria o grande desenhista de terror dos anos 1990.
Confesso que quando ele me pediu para escrever o texto, senti um frio na barriga, mas aceitei. Bené tinha uma boa ideia de como seria o texto, inclusive no fato do demônio falar em rimas – uma referência direta ao personagem Etrigan, da DC, uma das grandes criações do mestre Jack Kirby.
A história acabou sendo publicada na revista Calafrio número 45 e fez grande sucesso com os leitores, fazendo o editor Rodolfo Zalla pedir mais histórias da dupla.

Uma curiosidade é que a revista Calafrio tinha uma estrutura que tinha que ser seguida por todas as histórias - e a floresta negra não se encaixava em nenhum dos modelos de roteiro deles. Aí o editor mudou o final para encaixar. No último quadro, quando o cavaleiro coloca o crucifixo para abençoar a floresta e afastar novos demônios, o texto mudou para: "Você coloca o crucifixo na árvore, pois sabe que agora é o novo DEMÔNIO DA FLORESTA NEGRA!!!", um texto totalmente em desacordo com o que o desenho mostrava.

Dick Tracy:o gênero policial chega aos quadrinhos




Dick Tracy, de Chester Gould, deu um toque urbano à era de ouro. Apesar dos roteiros muitas vezes realistas, in­clusive com mortes, Dick Tracy repre­sentava um sentimento de fuga do Norte americano de um dos seus pro­blemas mais graves: a forte crimina­lidade, comandada pelos gangsters que assolavam os EUA.
O personagem de Chester Gould não foi o primeiro policial dos quadrinhos. Antes dele já havia algumas tentativas, como Alex the cop, mas nenhuma obteve tanto sucesso.  E nenhuma ficou tão impregnada na mente dos leitores.
Chester Gould nasceu em Pawnee, no Oklahoma, a 20 de Novembro de 1900. Desde criança publicava ilustrações no jornal local, mas sua carreira como desenhista só iria deslanchar quando ele se mudou para Chigaco, em 1919, onde estudou na Universidade de Northwestern.
Antes de Dick Tracy ele chegou a desenhar uma série chamada The Girlfriends, de pouco sucesso. Ele percebeu que precisava de um novo tema para se destacar entre seus pares.
Nessa época Chicago era dominada por gangsteres. All Capone era o herói local e Gold ficou incomodado com a forma como os bandidos eram retratados. Na sua opinião, as pessoas precisavam de um outro modelo, uma pessoa decente e moralmente intocável. Ele criou, então, um detetive de queixo quadrado e chamou-o de Plainclothes Tracy. O editor gostou da idéia, mas sugeriu que o nome fosse mudado para Dick Tracy.
A história foi publicada em 04 de outubro de 1931, no Chicago Daily, mas logo estaria espalhada por muitos jornais nos EUA e no mundo.
Dick Tracy vivia num mundo em que a separação entre o bem e o mal era absoluta. Se ele representava o bom mocinho, os vilões eram o cúmulo da maldade. Aliás, segundo muitos autores, o sucesso da série se deve justamente aos ótimos vilões criados por Gould.
Tais vilões eram geralmente deformados, uma forma de mostrar, visualmente, sua moralidade distorcida (um recurso muito comum nos quadrinhos). Alguns desses vilões, mesmo aparecendo em apenas um episódio, tornaram-se queridos dos fãs. Flattop, foi um exemplo. Quarenta anos depois dele ter morrido nas tiras, os fãs ainda mandavam cartas ao autor lembrando de suas proezas.
O destino dos vilões era sempre cruel, embora raramente eles fossem mortos por Tracy. A maioria morria em situações provocadas por eles mesmos, como se sua falta de moralidade definisse seu destino. Assim, The Brow, ao tentar fugir de Tracy, pula por uma janela e acaba sendo espetado por um mastro de bandeira. Boris Arson e seus homens são dizimados por tigres que eles mesmo guardavam em seu esconderijo. 88 Key, tentando esconder-se num buraco durante uma tempestade de gela, acaba por se sufocar e morrer congelado.
Se os vilões morriam por suas próprias ações, Tracy sobrevivia a tudo.
O pesquisador de quadrinhos Herb Galewitz, analisando a obra de Gould, descobriu que o detetive havia sofrido 27 ferimentos com arma de fogo, apenas nos seus primeiros 30 anos de vida. Se não bastasse isso, ainda quebrou costelas, teve cegueira temporária e até chegou a ser internado numa clínica, precisando de aparelhos para continuar respirando. Apesar disso, ele sempre voltava para combater o crime.
Gould antecipou o telefone celular, comodamente instalado no pulso de Dick Tracy, e a importância do sistema de telecomunicações para as viagens espaciais, o que fez com que a revista National Geographic o chamasse de visionário. 
A importância de Dick Tracy se deve não só pela obra em si, mas também pela forma como influenciou outros personagens e artistas. Seus vilões serviram como base para os vilões estranhos de Batman, como o Coringa ou o Charada. Além disso, seu desenho simples, estilizado, com poucos traços, influenciou toda uma geração de artistas, entre eles o brasileiro Flávio Colin.

segunda-feira, agosto 19, 2019

Capitão América e Falcão – o império secreto


Quando Steve Englehart assumiu o título do Capitão América, em 1974, ele estava em vias de ser cancelado em decorrência das baixas vendas. Em seis meses o roteirista o transformou em uma das revistas mais vendidas da Mavel. A razão para esse sucesso pode ser visto no volume XXX da coleção de graphics Marvel da Salvat.
Englehart debruça-se sobre o que é ser um herói. Ser um herói é simplesmente lutar contra vilões em aventuras repletas de bordoadas? Ou algo mais? E quem é o vilão? Se na época da II Guerra Mundial era muito fácil identificar os vilões na figura dos nazistas, na década de 1970, em pleno escândalo de Watergate isso era algo muito mais complexo.
A história toda gira em torno de uma série de fake News criadas por uma sociedade maligna (O império secreto) para desacreditar o Capitão América. A propaganda criada pelo grupo distorce fatos – um momento em que o Capitão empurra policiais para atacar um vilão é mostrado como uma agressão à autoridade, por exemplo.
Vítima dessa campanha de difamação, o Capitão acaba preso por um crime que não cometeu e terá de provar sua inocência.
O plot em si já é o suficiente para tornar a trama relevante até o dias atuais (embora atualmente as fake News se espalhem muito mais pelas redes sociais), mas Englehart, além disso, escreve bem, um texto simples, fluente, que casa perfeitamente com a arte de Sal Buscema (na época muito influenciado por Jack Kirby).
A melhor história do volume é a última, “O Capitão América deve morrer”, curiosamente a única que não tem ação. A HQ toda é uma reflexão sobre o que é ser herói. Perturbado pelos acontecimentos da saga, pela constatação de que pessoas do governo estavam tramando para transformar os EUA em uma ditadura e com a forma como o povo se deixou enganar pelas notícias falsas, voltando-se contra ele, Steve Roger pensa em abandonar a vida de herói. Várias pessoas tentam convencê-lo do contrário, de Thor ao Homem-de-ferro, passando pelo companheiro Falcão e os diálogos são um verdadeiro ensaio sobre qual o significado do heroísmo  nos tempos modernos e sobre como mesmo um país como os EUA estão sempre à sombra do autoritarismo.
Uma frase do Falcão é um dos grandes momentos dessa história: “Heróis são pessoas especiais porque são um exemplo público do que é certo”. Em uma era como a nossa, em que pessoas que não fazem a menor questão de fazer o que é certo são chamadas de heróis histórias como essa mostram sua relevância.

A jornada do herói

Publicado em 1949, O herói das mil faces foi um livro que revolucionou o estudo sobre as mitologias e religiões. Influenciado por Freud e Jung, Joseph Campbell vasculhou dezenas de culturas em busca de semelhanças entre seus mitos e os significados dos mesmos. O resultado foi esquematizado em doze passos, seguidos pela maioria dos protagonistas das narrativas analisadas. O resultado, além do impacto sobre o estudo mitológico, teve uma consequência inesperada: esse esquema foi usado por George Lucas para construir o roteiro de Guerra nas Estrelas. Esse fato deixou claro que o livro servia não apenas para explicar mitologias antigas, mas funcionava bem para analisar narrativas contemporâneas. 
O primeiro passo do herói é o chamado à aventura. O herói é tirado de sua vida pacata e sem perigos por algum acontecimento que o chama à ação. "Um erro - aparentemente um mero acaso - revela um mundo insuspeito, e o indivíduo entra numa relação de forças que não compreende, que estão acima dele". Esse chamado, que pode ser uma simples aventura, como em O Senhor dos Anéis, ou uma busca religiosa, esconde uma verdade sobre o despertar do eu. É também um momento de separação dos pais e de um novo renascimento, que levará à vida adulta. O agente que anuncia a aventura pode ser sombrio ou aterrorizador, ou uma figura misteriosa. Em Promethea, de Alan Moore (talvez a história em quadrinhos que melhor ecoa questões mitológicas), a heroína é atacada por um Smee, uma espécie de demônio, o que a faz se transformar na heroína mitológica. 


Vale lembrar que, de início, o herói recusa o chamado e esse é o segundo passo. Não por acaso, Robinson Crusoé inicia com uma preleção sobre os benefícios de uma vida de classe média, sem aventuras ou dramas. Segundo Campbell, "a recusa é essencialmente uma recusa a renunciar àquilo que a pessoa considera interesse próprio". Vale lembrar, em Guerra nas Estrelas, a indecisão de Luke em seguir a aventura ou permanecer na vida pacata com seus tios. Estes, aliás, o advertem sobre os perigos da jornada. Na maioria dos mitos, o herói adere ao chamado, seja Frodo sendo obrigado a fugir com o anel, seja Luke impulsionado a salvar a princesa, seja Robinson embarcando em um navio. Aceita a aventura, o herói geralmente conta com um auxílio sobrenatural. Os jovens de Caverna do Dragão, por exemplo, contam com o auxílio do misterioso Mestre do Magos. Esse guia fornece os amuletos e os conselhos que o herói precisa para continuar a jornada, mas, como o Mestre dos Magos, não interfere diretamente na aventura. Em Guerra nas Estrelas esse papel é exercido por Obi Wan Kenobi e posteriormente por Yoda. A jornada é do herói e é ele que deve seguir esse caminho. 
  


O quarto passo é a passagem pelo limiar. Em Promethea esse momento é retratado na ida da personagem para a Imatéria. Em Crônicas de Narnia é o guarda-roupa, que dá passagem a todo um universo mágico. "Além desses limites, estão as trevas, o desconhecido e o perigo, da mesma forma como, além do olhar paternal, há perigo para a criança", escreve Campbell. O limiar representa a ida para o inconsciente, repleto de libido e de ameaças de violência. EmPromethea, a protagonista, ao passar para a Imatéria, encontra uma chapeuzinho vermelho que segura uma arma, fala palavrões e um imenso e apavorante lobo. Todos imagens arquetípicas. 

O quinto passo é a entrada no ventre da baleia, as provações e encontro com os inimigos. Nessa fase é comum o autoaniquilação. O corpo do herói pode ser cortado, desmembrado e ter suas partes espalhadas pelo mundo, como Osíris, que é morto por seu irmão Set. Essa fase representa o renascimento espiritual do herói, o desapego do ego, uma vez que essa é uma jornada de transformação. Nessa fase também é comum encontrar metáforas da mãe ou o pai, muitas vezes transformados em vilões. Luke, por exemplo, descobre que Darth Vader é seu pai. Como a jornada é um processo de individuação, o herói precisa matar a influência dos pais sobre ele. 

O passo seguinte é a apoteose, no qual o herói obtém vitórias. Muitas vezes esse passo é representado por um casamento sagrado, como Flash Gordon se casando com Dale Arden, pela sintonia com o pai-criador, pela própria divinização (Osiris sendo recomposto). Se as forças se mantiverem hostis a ele, essa fase é representada pelo roubo por parte do herói daquilo que ele foi buscar, como Prometeu roubando o fogo. 

Terminada essa etapa, cabe ao herói voltar para casa. Pode ser uma volta simples, abençoada pelos deuses, ou uma volta difícil, como a de Ulisses ou a dos protagonistas da Caverna do Dragão (um mito que ficou incompleto, uma vez que eles nunca retornaram). 

Em todo caso, o herói volta transformado e maduro e essa transformação se reflete no mundo, como Promethea provocando o fim do mundo que conhecemos e, com isso, construindo um mundo melhor.

Em suma: o herói das mil faces se torna essencial para os que querem entender melhor as mitologias, antigas e novas, apesar de Campbell nem sempre ser direto e muitas vezes se perder em alguns discussões não diretamente relacionadas ao tema. Apesar disso, o livro se destaca pela leitura intrigante e pela prosa fluída de seu autor, que exemplifica suas ideias com mitos de diversas parte do globo.

Stranger Things – terceira temporada



A terceira temporada de Stranger Things é a melhor até agora.
Na história, os russos tentam abrir um portal para o mundo invertido e descobrem que Hawkins é o local ideal para isso. Para camuflar suas atividades, ironia das ironias, os comunistas abrem um shopping na cidade!
Sim, é mirabolante, mas não mais que as temporadas anteriores. Além disso, o ritmo narrativo, os personagens carismáticos e um bom equílbrio entre ação, humor e drama dão verossimilhança ao conjunto – lições bem aprendidas de mestres como Steven Spielberg e Stephn King.
Talvez o mais interessante desta temporada é que desta vez há dois perigos simultâneos: de um lado os russos abrindo o portal, do outro o devorador de mentes, que começa a controlar cidadãos de Hawkins – lembrando muito o clássico Vampiros de almas, filme de 1956, de Don Siegel. É um roteiro com dois McGuffin, o que funciona muito bem em um seriado.
Outro aspecto interessante é o fato grupo de personagens se dividir em três, cada um envolvido com um dos perigos e sem ter conhecimento dos outros.
Destaque para o trio Dustin, Steve e Robin. Steve, que era apenas um playboy no começo, vinha crescendo na série desde a segunda temporada, mas nessa torna-se uma atração por si só e sua dinâmica com Robin (os dois trabalham na sorveteria do shopping) nos traz alguns dos melhores momentos.

Igreja de Saint-Paul e Saint-Louis


A Igreja de Saint-Paul e Saint-Louis foi edificada a partir do ano de 1627, durante o reinado de Luis XIII. O cardel Richelieu rezou a primeira missa e foi doador das belíssimas portas esculpidas. Era nessa igreja que rezava missa o bispo Bossuet, criador da teoria segundo a qual o poder dos reis vem diretamente de Deus – e que seria base do absolutismo francês. Seus sermões eram tão concorridos que os nobres mandavam servos guardarem lugar nos bancos com várias horas de antecedência.

A cúpula, com 50 metros (considerada um grande feito da engenharia da época) é sustentada por pilares visíveis, que dão leveza e beleza ao conjunto. Em 1796, a igreja vizinha, de Saint-Louis, foi demolida pelos revolucionários e a de Saint-Paul adicionou-lhe o nome.
As paredes brancas e os vitrais deixam a igreja naturalmente iluminada.

domingo, agosto 18, 2019

A Balsa da Medusa



A Balsa da Medusa, de Théodore Géricault, pintura de 1818,  é considerada por muitos como o marco inicial do romantismo nas artes plásticas. Ela retrata um fato real: o naufrágio da barcaça Medusa. O barco, que levava colonos para a África, afundara graças à inabilidade do capitão, que conseguira o cargo graças a indicações políticas.
Embora a Medusa transportasse 400 pessoas, incluindo 160 tripulantes, os barcos só tinham espaço para cerca de 250 pessoas. Os outros 146 homens e uma mulher, amontoaram-se numa jangada feita às pressas. Tinham para comer apenas um saco de biscoitos. Para beber, dois barris de água (que se perderam no mar depois de uma briga) seis barris de vinho. Foram 13 dias à deriva até serem encontrados por acaso por um navio francês que passava pela região. Para sobreviver, tiveram que recorrer até mesmo ao canibalismo. O quadro mostra o momento em que os sobreviventes avistam o barco que os resgataria.
A história na época gerou grande comoção na opinião pública francesa. Gericault pintou o tema com grande emoção e, embora retratasse pessoas normais, a imagem é épica (reforçada pela escolha de colocar a cena no meio de uma tempestade), duas das características do romatismo nas artes, além do tema social. Uma curiosidade: Delacroix, que viria a ser o grande nome do romantismo era amigo de Géricault e pousou para o amigo (é a figura caída em primeiro plano, com o braço estendido).

O dia em que a terra parou

A origem do filme O dia em que a terra parou é o conto “Adeus ao mestre, de Harry Bates, publicado em 1940. No conto, um embaixador extraterrestre é morto e um momento é erigido em sua homenagem ao redor da nave, que não pode ser aberta e, na frente dela, o robô, que não se mexe, e, aparentemente, está inativo. Mas um fotógrafo desconfia que algo está acontecendo e resolve passar a noite próximo ao robô (e acaba se surpreendendo com o que acontece).
Robert Wise pegou essa premissa e transformou num dos filmes mais importantes da ficção científica de todos os tempos. Ao contrário do conto (em que a história do embaixador Klaatu é narrada em flash back), o diretor preferiu trabalhar com uma narrativa linear, o que não tirou da história seu impacto revolucionário, mas de certa forma, ampliou-a.
Muito mais do que um filme de ação, O dia em que a terra parou é um filme filosófico, que reflete sobre a humanidade e a bondade.
Na história, o embaixador traz uma mensagem de paz, mas um aviso: se continuarem se tornando uma ameaça aos outros planetas, a Terra deverá ser exterminada. Mas a chegada da nave é vista pelo governo americano como uma ameaça. Klaatu é alvejado e foge, indo parar em uma pensão, onde conhece uma viúva e seu filho, que o ajudam a encontrar um grande cientista, que poderia ajuda-lo em sua missão de convencer os governos terrestres a cessarem a corrida armamentística.
O filme, lançado em 1951, estreou em plena Guerra Fria, período em que Rússia e EUA disputavam o controle mundial num frágil equilíbrio, que colocou a humanidade diversas vezes próxima do armagedrom (chegou a existir até mesmo um relógio do fim do mundo, criado por cientistas, que mostrava o quanto estávamos próximos do fim – representado pela meia-noite). Tornou-se um símbolo do apelo pela paz e um dos mais pungentes apelos contra a insensatez humana.

O sono da razão produz monstros



A Espanha foi, durante séculos, o país mais conservador da Europa. Não por acaso, foi também o local em que a Inquisição matou mais pessoas. Judeus, ateus, heréticos e pessoas que se desconfiava serem bruxos eram levados pela cidade de Madri em momentosos autos de fé, antes de serem mortos.
O fanatismo religioso parece ser o principal tema da litogravura “O sono da razão produz monstros”, uma das gravuras mais famosas de todos os tempos. Como o próprio título sugere, a mensagem é: quando a razão adormece, surge o terror.

Na tela, o próprio Goya está sentando, adormecendo, em posição incômoda. Sobre a sua cabeça surge uma revoada de seres sombrios: morcegos, corujas e outros animais indefiníveis. Aos pés do artista, um lince observa, olhos esbugalhados, as aparições.
A composição se tornou um símbolo de horrores externos e internos e tem sido objeto das mais diversas análises. Nos quadrinhos a gravura causou impacto ao ser usado por Alan Moore e Steve Bissett em uma história do Monstro do Pântano.
A gravura da foto se encontra no Museu de Belas Artes de Buenos Aires.

sábado, agosto 17, 2019

Processos midiáticos

A apropriação é uma das possibilidades de interação com o produto original.


O interesse no estudo do processo de comunicação surge justamente no período em que, na maior parte do mundo, os meios de comunicação de massa afloraram. As análises passaram de uma visão autoritária, da mídia como toda poderosa, às propostas de meios interativos. Hoje, a linha de pesquisa em processos midiáticos abre a porta para possibilidade de ver todos os meios como interativos, inclusive aqueles que são vistos como de sentido único.
Durante muitos anos, a mídia foi vista como uma flecha, de sentido único e autoritário, a exemplo do que pregava a teoria hipodérmica. Essa visão de uma mídia toda poderosa influenciou muito a corrente apocalíptica, que via as novas mídias, tais como o cinema e o rádio, como estando a serviço do autoritarismo.
Uma tentativa de tirar das novas tecnologias esse caráter autoritário surge com as propostas de interação. Assim, se existem veículos de sentido único, existem também mídias que permite um feedeback ativo, a exemplo do MSN, do chat e do e-mail.
Esse  modelo dialogal de interação será criticado por José Luiz Braga (2006). Para ele, todos os processos midiáticos permitem interação.
Sua proposta de interação não se prende apenas à possibilidade de resposta ao emissor por parte do receptor. Existe também a possibilidade de interação receptor-produto  e receptor-sociedade ou sociedade-produto.
Esse modelo quebra totalmente com a ideia hipodérmica de receptor passivo.
Uma das formas de interação pode ser configurada na apropriação. Se existem pessoas que recebem os produtos da mídia de forma passiva e a-crítica, existe aqueles que reconfiguram sua simbologia, numa atitude que lembra a música Geração Coca-cola, do Legião Urbana (Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês). Utilizar um símbolo da mídia e reconfigurar seu significado, como a Coca-cola, é uma forma de interação.
Mesmo quando não é uma crítica negativa, essa resignificação pode ser uma forma de apropriação. Em um texto eu meu blog, eu faço uma relação do seriado Terra  de Gigantes com paradigmas científicos, uma discussão que provavelmente não estava nos planos dos criadores do mesmo. O fato de não sabermos se os protagonistas diminuíram de tamanho e estão em um mundo de pessoas com estatura normal, ou se estão de fato numa terra de gigantes abre espaço para discutir a teoria da relatividade, a física quântica e o relativismo filosófico.
Formas mais elaboradas de interação podem ser encontradas nos fanfics, em que fãs interagem com a obra original, mostrando outras possibilidades de interpretação. O fanfic O portal das probabilidades, de minha autoria, por exemplo, introduz a teoria do caos no universo da série alemã de ficção científica Perry Rhodan.
Claro que essa possibilidade de interação com os MCM é tanto maior quanto maior for a capacidade crítica dos indivíduos. Daí a importância, levantada por Braga, da criação de um sistema crítico.
Quanto mais preparadas estiverem o indivíduo e a sociedade, melhor a sua capacidade de interação e menores as chances de manipulação ou de recepção ingênua (se está publicado, é porque é verdade). Setores organizados da sociedade podem ter importância fundamental nesse processo.
Exemplo recente dessa possibilidade de interação crítica aconteceu com a publicação de uma reportagem da Veja contrária à demarcação de terras indígenas (A farra da antropologia oportunista). Um antropólogo citado na matéria veio a público denunciar que a revista teria inventado uma entrevista com ele. A revista argumentou que a citação fora tirada de um dos livros do pesquisador. Este contra-argumentou que a citação fora deturpada para  servir aos interesses  da publicação.
O SBPC lançou uma nota pública de repúdio à Veja e de apoio ao antropólogo. No Twiter,  surgiu a tag #boicoteveja, que pretendia aglutinar casos semelhantes de manipulação. Blogs, num processo de apropriação, fizeram capas fictícias da Veja, denunciando o perfil manipulador das matérias da revista. Numa delas, por exemplo, aparecia Darth Vader com o título “Ele salvou você”. Na mesma capa, sob uma imagem do mestre Yoda, a legenda: “Descoberto o líder espiritual dos terroristas rebeldes”.


A arte espetacular de Mike Zeck


Mike Zeck é um desenhista norte-americano conhecido principalmente por seu trabalho na Marvel Comics. Seu primeiro trabalho de sucesso para a editora foi o Mestre do Kung Fu. Fez também Guerras Secretas e desenhou uma das melhores histórias do Homem-aranha de todos os tempos, A última caçada de Kraven.