terça-feira, novembro 20, 2018

Heróis politizados


           
No início da década de 1970 a juventude achava que podia mudar o mundo. Nos EUA, os jovens lutavam contra a guerra do Vietnã, contra o preconceito racional e a favor da natureza. Era uma geração politizada, que desprezava os velhotes que mandavam no país. Essa geração adorava os quadrinhos. A perseguição que os gibis haviam sofrido por parte dos setores mais conservadores da sociedade fizeram com que os jovens rebeldes simpatizassem com eles. Além disso, as histórias em quadrinhos da Marvel, com heróis realistas, ídolos com pés de barro, mostravam que os gibis não eram simplesmente uma questão da luta do bem contra o mal.
            Foi nesse contexto que surgiu um dos trabalhos mais revolucionários do gênero super-heróis: a série do Lanterna e do Arqueiro Verde.
            A idéia começou com um pedido do editor Julius Shwartz ao roteirista Dennis O´Neil para que ele reformulasse a revista do lanterna Verde. O gibi não estava vendendo bem, mas a DC Comics não queria cancelar o título. O´Neil era um desses jovens rebeldes do final dos anos 1960. Além escrever quadrinhos, ele trabalhava como jornalista e já havia publicado um livro sobre as eleições presidenciais. Ele admirava profundamente o novo jornalismo e se perguntava se seria possível fazer algo semelhante nos quadrinhos. Além disso, ele participava de passeatas contra a guerra, assinava abaixo assinados, era fã de Martin Luther King. O convite para reformular o Laterna pareceu-lhe uma oportunidade de colocar essa atuação política no gênero superheroiesco.
            Seu princípio básico foi: o que aconteceria se um super-herói fosse colocado num contexto real, para lidar com problemas reais? O Laterna era um policial, um militar, assim como aqueles que batiam em estudantes ou matavam pessoas no Vietnã. Tudo porque nunca haviam questionado as ordens que recebiam. E se o Lanterna começasse a questionar suas ações?
            Para ter um contraponto, O´Neil resgatou um personagem menor, que nunca tivera popularidade suficiente para estrelar uma revista: o Arqueiro Verde. Ninguém parecia estar muito preocupado com Arqueiro, do modo que o roteirista teve total liberdade para transformá-lo de Playboy em um anarquista vigoroso, de pavio curto. Era ele que colocaria o lanterna contra a parede, apresentando-o ao mundo real das pessoas que passavam fome, sofriam abusos e eram exploradas.
            Para desenhar a história foi chamado Neal Adams. Adams e O´Neil já tinham trabalhado juntos no Batman e feito um ótimo trabalho, tornando-o mais adulto e sombrio. Mas seria nessa série do Lanterna e do Arqueiro que eles fariam sua obra-prima. Os dois artistas não tinham nada em comum. Ao viajarem juntos para uma excursão promocional, descobriam que não conseguiam concordar nem mesmo sobre que canal assistir na televisão. Mas quando produziam quadrinhos, eram perfeitos. 
     Logo na primeira história, ¨O mal sucumbirá ante à minha presença¨, O Lanterna Verde é confrontado com o fato de que até então ele estivera defendendo capitalistas exploradores contra trabalhadores. Essa primeira história deu o tom da série, que iria abordar alguns dos maiores problemas do mundo, da fome à destruição da natureza.
     O gibi foi um sucesso de crítica, sendo mencionada em dezenas de jornais e revistas. Os autores eram convidados para falar em programas de TV e em universidades. Além disso, todo mês chegavam centenas de cartas elogiosas. Apesar disso, a revista foi cancelada no número 13. Os editores alegaram vendas baixas, mas, como essa série é republicada até hoje, sempre com sucesso, o mais provável é que a editora estivesse assustada com o tom crítico que o gibi estava tomando e temesse uma reação conservadora contra os seus quadrinhos.
     De certa forma, o fim da revista foi positiva, pois sua continuação levaria O´Neil a vasculhar os jornais, em busca de novas causas: ¨No fim, iríamos degenerar a série até a autoparódia, um gibi de ´causa do mês´¨. 

O uivo da Górgona no Wattpad

Gosta de terror? Gosta de ler no Wattpad? Que tal conhecer minha história O uivo da górgona? Clique aqui para ler.

Caso Adrielly: médico faltava aos plantões há cinco anos

Ao contrário do que disse à polícia, o neurocirurgião Adão Crespo faltava aos plantões no Hospital Salgado Filho, Zona Norte do Rio, há pelo menos cinco anos, confirmou nesta sexta-feira a Delegacia Fazendária (Delfaz), que investiga o caso. Em depoimento, o médico admitiu a ausência mas disse que não cumpria a escala havia somente um mês, por discordar das políticas da unidade de saúde.
A ausência de Crespo no plantão da noite de Natal obrigou a menina Adrielly Vieira, de 10 anos, a esperar oito horas para ser submetida a uma cirurgia. Ela havia sido atingida por uma bala perdida na cabeça na noite de Natal, enquanto brincava em casa. Três dias depois de ser internada, Adrielly foi transferida ao Hospital Souza Aguiar, no Centro, onde morreu no último dia 4. Leia mais

Como escrever quadrinhos - humor de repetição

Dylan Dog – delírio de morte


Delírio de Morte é o quarto volume da série Dylan Dog nessa nova edição da Mythos.
A HQ conta a história de um ser deformado que sequestra uma garota, mata seus pais e, depois, passa a matar garotas. E um ponto liga todos os casos: todas as moças mortas participaram de um concurso de beleza. O roteiro é de Claudio Chiaverotti e os desenhos de Giovanni Freghieri.
O desenho é, certamente, o ponto alto da revista, a começar pela sequência inicial, com o monstro entrando na casa em vários planos fechados que aumentam o suspense. Além dsso, Freghieri sabe desenhar mulheres, algo essencial para a trama.
Já o roteiro... Dylan Dog parece exercer a função de Grouxo e, por conta disso, Grouxo pouco aparece. A forma como o detetive chega ao monstro é o que se poderia chamar de uma solução fácil, um quase deux ex machina. E dois plot twist no final forçam a barra. Lembra a época posterior ao sucesso do filme Carrie, quando todo filme precisava ter uma sequência adicional de susto.
Para completar, a edição da Mythos não ajuda. Capa e papel em baixa gramatura. Se compararmos com a edição de Mister No da editora 85 a diferença é fragrante.

Superdotados e educação


Os alunos superdotados nem sempre são fáceis de se trabalhar. Para começar, é comum que, sobre alguns assuntos, eles tenham mais informações que o professor. Se a orientação pedagógica é tradicional (em que o professor é visto como depositário de conhecimentos que devem ser repassados aos alunos), pode haver problemas sérios, com o professor vendo o aluno como um concorrente.
Além disso, a capacidade de aprender antes dos outros pode tornar a aula tediosa. Quando o professor diz A, o aluno já deduziu o B e o C, de modo que o restante da aula se torna apenas tediosa repetição.
Pesquisadores da área têm identificado que 20% do período de aula é desperdiçado por um aluno com QI de 130. Ou seja, em uma aula de 50 minutos, 10 minutos é pura redundância. A obrigatoriedade de permanecer na sala durante os 50 minutos torna o restante do tempo um suplício para os superdotados. Além disso, os desafios propostos pela escola costumam estar muito abaixo da capacidade desses alunos, que se torna desestimulado. Sem estímulos cognitivos, tal alunos procurará realizar os deveres escolares no menor tempo possível, desperdiçando o restante do tempo em simples recreação inconseqüente. É o caso de alunos que terminam de fazer as atividades antes do tempo e, a partir daí, começam a “fazer bagunça”, atrapalhando os outros.
Curiosamente, é mais fácil encontrar superdotados no “fundão” que na frente. Ao contrário do que imagina a maioria dos professores, o aluno que se senta na frente, escreve tudo que o mestre diz e tem um caderno bem organizado, dificilmente é superdotado. Muitos superdotados nem mesmo fazem apontamentos em seus cadernos, pela simples razão de que não precisam disso. Conheço casos de alunos que passaram pela faculdade sem ter caderno.
O professor só conseguirá o respeito do superdotado se este perceber que tem algo a aprender com ele. A autoridade, para um superdotado, não é fruto da tradição, ou da força, mas do conhecimento de cada um. Certa vez entrei em uma turma de primeiro ano do ensino médio e visualizei um aluno com enorme livro do Stephen King (em inglês) aberto sobre a carteira. Ele passou a aula inteira lendo o livro. Na sala dos professores, muitos dos meus colegas me informaram que ele era o terror da escola, um aluno problemático e indisciplinado. Na aula seguinte levei a ele um fanzine (publicação alternativa) que eu havia feito no qual havia uma matéria sobre King. Na aula seguinte lhe apresentei Edgar Alan Poe. Resultado: ele se tornou um dos meus melhores alunos. Seus textos, que antes eram só medianos, revelaram-se de grande qualidade literária. Antes ele não escrevia melhor porque simplesmente achava que o exercício não exigia dele toda a sua capacidade.

segunda-feira, novembro 19, 2018

Em pouco tempo não teremos mais professores




Já há algum tempo se anuncia um apagão na educação brasileira. Uma pesquisa mostrou que apenas 2,4% dos jovens cogitam se tornar professores. Outra pesquisa mostrou que um em cada cinco professores brasileiros tem mais de 50 anos. Em outras palavras: os professores brasileiros são cada vez velhos, em vias de se aposentar, e não serão substituídos. É um problema que já se reflete em muitas escolas. É comum vermos notícias de alunos que passam três, quatro meses sem aulas de determinadas disciplinas simplesmente porque não há professor.
Os professores brasileiros estão entre os mais mal remunerados do mundo. Para complementar o salário, são obrigados a trabalhar em diversas escolas. Qualquer um que já tenha lecionado sabe o quanto é cansativa a sala de aula – e tem se tornado ainda mais cansativa com uma geração que contesta o professor o tempo todo baseada em qualquer coisa que tenha visto no zap zap. Algumas poucas horas de aula são extremamente exaustivas. Mas o trabalho do professor não termina aí. Em casa, deve preparar aulas, preparar provas, preencher diários, preencher relatórios. Isso fora as reuniões acadêmicas e de pais e mestres.
Essa rotina estressante aliada aos baixíssimos salários tem afastado cada vez mais pessoas da docência.
Mas, se a  situação é crítica atualmente, pode se tornar ainda pior graças a dois fatores.
O primeiro deles é a reforma da previdência. Até o momento, professores conseguem se aposentar antes da população em geral – é um dos poucos benefícios da profissão. Pelo que se desenha na reforma da previdência, professores passarão a se aposentar na mesma idade que a população geral (ao que tudo indica, apenas militares estarão fora da reforma). Um dos resultados é que os que são professores atualmente e já têm idade pelas regras atuais, vão correr para se aposentar. E não haverá novos para substituí-los.
Outro fator é o projeto escola sem partido. Qualquer um que já tenha tido a curiosidade de dar olhada no site do projeto sabe o que se desenha – uma realidade em que o professor pode ser denunciado por qualquer coisa. Qualquer coisa. O escola sem partido defende que o professor seja denunciado por falar em sala de aula qualquer coisa que vá contra as convicções de alunos ou pais de alunos. Os pais acreditam em terra plana? Podem denunciar professor que ensinar que a terra é redonda. Os pais acreditam em criacionismo? Podem denunciar professor que ensinar teoria da evolução. Os pais acreditam que as vacinas fazem parte de um plano mundial de extermínio da humanidade? Se o professor falar o contrário, pode ser denunciado. A notificação extra-judicial que se encontra no site do escola sem partido chega a ameaçar o professor com prisão e perda de bens.
O que temos visto é uma demonização do professor, que passou a ser considerado o inimigo público número um.
Vamos ser sinceros? Quem, em são consciência, vai querer ser professor em um cenário desses? Salários baixíssimos, rotina extressante dentro e fora de sala de aula, aposentadoria aos 65 anos e possibildade de ser preso e perder tudo que tem porque disse algo que um aluno ou um pai de aluno não gostou? Quem, em são consciência, vai querer ser professor em um país em que professores são considerados o inimigo público número um?
Isso irá provocar um apagão não só na educação. Pouca gente se lembra, mas engenheiros, médicos, programadores são formados por professores. Sem professor não existem outras profissões.
Uma conhecida, coordenadora de curso de medicina, me falava da dificuldade de conseguir docentes. Abria o edital e não aparecia ninguém interessado. Um médico em seu consultório ganha em uma tarde o equivalente ao salário mensal de um professor universitário. Um dos poucos argumentos favoráveis era a questão a aposentadoria, que não vai mais existir após a reforma da previdência. E que médico vai deixar de ganhar dinheiro em sua clínica para se aventurar numa profissão extremamente desvalorizada em que correntes de zap zap valem mais que o conhecimento científico estabelecido?
Cada vez mais, o cenário que se desenha é exatamente este: em poucos anos haverá um enorme apagão na educação brasileira. Milhões de alunos sem professor.

Mãe morre em hospital sem atendimento e filho registra o descaso

A primeira reportagem desta quarta-feira (1º) é sobre o atendimento dispensado a uma cidadã na rede pública de saúde no Rio de Janeiro. O filho dela, desesperado pra conseguir socorro, ligou a câmera do celular e registrou tudo.
O afago nas costas de Irene marca o início de uma triste sequência. 54 anos, mãe de sete filhos. A mulher, diabética, se contorce em dores e espera. Na parede, a palavra “Acolhimento” não faz sentido. O filho toma uma atitude desesperada contra o descaso.
Filho da paciente: Cadê o responsável aí?
Funcionário: Pois não, pode falar. É o quê?
Filho da paciente: É que minha mãe está torcendo de dor ali em cima, ali. Queria saber se dá para socorrer ela ali.
Funcionário: Não, o médico já está ali em cima. 
Filho da paciente: Não está, não. Que eu estava lá já.
Na sala do Hospital Getúlio Vargas, na Zona Norte do Rio, ninguém reage ao ser questionado pelo filho de Irene.
Filho da paciente: Médico, cara? Ninguém vai atender, não, cara? A senhora que é a médica aqui? Desse setor aqui? Aqui, ó, a médica está aqui, ó, no celular. E a pessoa lá quase morrendo. O que está acontecendo, cara? 
Funcionária: É porque tem que fazer a ficha.
Filho da paciente: A paciente já fez, está lá quase morrendo na cadeira lá, cara!
Médica: Eu aguardo o paciente chegar, a ficha aqui para ser atendido.
Filho da paciente: Aguarda a ficha chegar?
Médica: Tem que ter para poder escrever.
Filho da paciente: Olha ali na cadeira ali, cara. A mulher quase morrendo, a minha mãe ali, cara.
Funcionária: Eu estou aqui, meu senhor.
Filho da paciente: Está desde ontem com o rosto todo inchado, que apareceu um negócio lá, ninguém sabe o que é. Aí o médico está aqui no zap zap. Leia mais

O que caracteriza a ciência?

Para Karl Popper, a ciência é caracterizada pelo falseamento. Ou seja, uma teoria só é científica se for possível provar que ela está errada.
Assim, seria não-científico afirmar que vai chover amanhã. É certo que amanhã vai chover em algum lugar do planeta, em algum horário.
É científico dizer que vai chover amanhã às 17 horas em Macapá, pois essa afirmação é passível de falseamento.
A ciência não aceita formulações vagas, que não podem ser falseadas, características dos videntes e cartomantes: “Você vai viver um grande amor”; “Um grande reino vai cair”. É impossível provar que essas afirmações são falsas. Em algum momento a pessoa vai viver um grande amor e em uma guerra, inevitavelmente um reino irá ser derrotado.
Para Popper, O cientista não deveria procurar fatos que comprovassem sua tese, mas fatos que o falseassem, que provassem que ela é falsa.
Imaginemos que estejamos estudando as galinhas. Pesquiso uma e descubro que ela bota ovos. Encontro outra galinha e observo o mesmo comportamento. Por indução, chego à conclusão de que todas as galinhas botam ovos. Para Popper isso não é científico, pois se eu encontrar uma única galinha que não bote ovos, minha tese cai por terra.
Para Popper, a indução é falha e a única maneira de sermos científicos é usarmos a dedução.
Assim, eu crio uma lei geral: todas as galinhas botam ovos. Então pego uma galinha ao acaso e verifico se ela bota ovos. Se isso ocorrer, a tese está correta, por ora. Se um dia aparecer uma galinha que não bote ovos, a tese será falseada.
Popper nos ensinou que as verdades científicas são provisórias. São apenas hipóteses esperando pelo falseamento.

Médico é condenado a 10 anos por estuprar pacientes durante consultas em GO

A justiça de Goiás condenou um médico por ter estuprado diversas mulheres. Os estupros aconteciam durante as consultas ginecológicas. O médico trabalhou durante 10 anos em um grande hospital público de Goiânia. Leia mais aqui

domingo, novembro 18, 2018

Feliz Natal!!!


Professores no Brasil estão entre mais mal pagos em ranking internacional

O Brasil é o lanterninha em um ranking internacional que compara a eficiência dos sistemas educacionais de vários países, levando em conta parâmetros como os salários dos professores, as condições de trabalho na escola e o desempenho escolar dos alunos. Leia mais

Feliz Natal!


Médico oftalmologista é denunciado por não cumprimento de horas trabalhadas

emana agitada em São José do Rio Pardo: médico oftalmologista Ernani Cristovam Vasconcellos Junior foi denunciado ao Ministério Público por não cumprir o horário estabelecido nos serviços municipais de saúde de atendimento.
Silvana Fátima, usuária do Sistema de Saúde público da cidade, conta que sua filha e sobrinhos necessitam de óculos e que já cansou de ir até o Pronto Socorro e esperar por ser atendida pelo Oftalmologista. “Já cansamos de amanhecer lá no hospital e nunca conseguir a vaga com o oftalmologista. Nunca passamos por isso! Eu moro no Carlos Cassucci, saio 4 horas da madrugada e fico esperando 6 ou 7 horas para não ter vaga.” Silvana revela que a filha teve prejuízos nos rendimentos escolares pela falta do óculos. “Minha menina foi prejudicada na escola; até as notas do boletim decaíram muito devido à vista ruim.”, complementa. Leia mais

O gabinete do Dr. Caligari

Pouco conhecido no Brasil, O Gabinete do Dr. Caligari é uma das mais importantes obras do cinema mundial. Antes dele, o cinema era diversão das classes pobres, algo a ser totalmente ignorado pelas camadas mais intelectualizadas da população. Ao definir uma nova relação entre o cinema comercial e as vanguardas artísticas, Caligari chamou atenção de todos aqueles que até então desprezavam essa nova linguagem. Para a Alemanha, a importância foi ainda maior. Depois da I Guerra Mundial, o cinema germânico enfrentava um bloqueio cultural das outras nações. Foi Caligari que rompeu esse bloqueio e abriu caminho para grandes cineastas, como Fritz Lang conquistarem fama internacional.
A origem do filme foi o roteiro escrito por Hans Janowitz e Carl Mayer. Janowitz nasceu em Podebrand, Boêmia, em 1890 e passou a infância em praga. Talento precoce, ele era escritor e crítico de teatro. Muito cedo travou conhecimento com o expressionismo, colaborando com a revista Arkadia, de Max Brod. Em 1914 ele alistou-se como voluntário no exército, chegando ao posto de capitão. Mas essa experiência só contribuiu para lhe insuflar uma feroz aversão à guerra. Em 1918 foi apresentado por um amigo de infância a Carl Mayer. Este era filho de um homem rico que perdera toda a fortuna no jogo e despejou os filhos na rua, com uma pequena quantia. 

Quando a guerra eclodiu, Mayer começou uma batalha com o psiquiatra do exército, pois não queria lutar numa guerra que considerava criminalmente insana. Para não lutar, ele argumentava que era mentalmente desarranjado. Mesmo assim, o psicólogo tentou de todas as formas levá-lo a lutar. Mesmo sendo dispensado por causa de uma lesão no pé, a má experiência o marcou profundamente. O psiquiatra representava a pressão autoritária que era aplicada sobre os jovens alemães e serviria de modelo para Caligari.



Em 1918, Mayer apresentou Janowitz à atriz Gilda Langer, que serviria de inspiração para personagem Jane. Gilda sugeriu que os dois trabalhassem juntos num roteiro cinematográfico, que seria estrelado por ela. Na mesma época eles consultaram uma cartomante que predisse que Janowitz voltaria vivo da guerra, mas que Gilda morreria. As duas previsões se realizaram, mais um acontecimento que teria influência sobre a elaboração do roteiro de Caligari. 

Os dois escritores começaram a trabalhar no texto em 1918. A história partiria de duas premissas: 1) a atmosfera de mistério de Praga, cidade em que Janowitz cresceu; 2) um incidente que este observara em uma feira. 

O roteirista estava em uma feira em Holstenwal quando viu uma jovem muito bonita e se apaixonou por ela, seguindo-a. Quando ela entrou num bosque, ele acabou perdendo-a de vista, mas não antes de ver que ela era seguida por um burguês. No dia seguinte, leu no jornal que a jovem havia sido morta. Ao comparecer ao seu enterro, viu o burguês escondendo-se atrás de uma coluna. Quando o viu, o homem fugiu. Era o assassino. O personagem Cesare teria sido inspirado num espetáculo assistido em Berlin pela dupla, no qual um homem hipnotizado demonstrava extrema força e fazia previsões sobre o futuro de pessoas da platéia. 

Esses dois eventos montaram a espinha dorsal do texto. Mas faltava um nome para o vilão da história. Este surgiu das páginas de um livro raro de Stendhal, no qual ele afirmava ter conhecido um oficial italiano de nome Caligari. 

O roteiro contava a história de um hipnotizador, Caligari, que comete vários crimes usando para isso o sonâmbulo Cesare. Mas Cesare apaixona-se por uma de suas vítimas, Jane, e morre por conta disso. No final, descobria-se que Caligari era o diretor de um hospital psiquiátrico, revelando-se assim a face ditatorial e perniciosa da autoridade. 

Os dois tinham pressa de vender o roteiro, pois estavam sem dinheiro. A situação era tão ruim que eles tiveram de empenhar suas cigarreiras de prata para poder comer. 

Por intermédio do cineasta Fritz Lang, Janowitz conhecera Erich Pommer, chefe de produção da produtora independente Decla Bioscop. Janowitz e Mayer bateram à sua porta e resistiram a todas as tentativas que este fez para se livrar deles. Como não teve êxito, Pommer pediu que eles deixassem o roteiro com ele. Os dois recusaram, insistindo para que o texto fosse lido ali mesmo, por Mayer. 

Pommer ficou tão impressionado que decidiu assinar um contrato na hora. Os dois roteiristas tinham decidido que o preço seria 10 mil marcos, mas acabaram aceitando quatro mil. Os dois estavam entusiasmados com as qualidades estéticas da história, mas o produtor ficou mais interessado no fato de que a produção seria barata e chamaria atenção por seu ar gótico. 

Fritz Lang (Metropolis) foi o primeiro diretor escalado para o projeto, e, de fato, chegou a trabalhar numa segunda versão do roteiro, mas logo precisou abandonar o Caligari para se dedicar à segunda parte de seu seriado Die Spinnen. Robert Wiene, cujo roteiro para Satanás, deMurnau, já havia demonstrado uma predileção para o fantástico, assumiu a direção. 

Se por um lado o produtor via em Caligari uma produção barata com grande chance de se tornar um sucesso, por outro incomodava-se com o fato do filme ser uma denúncia da autoridade. Assim, ele encomendou uma mudança no roteiro. A solução encontrada foi colocar uma moldura, na qual o personagem Francis (namorado de Jane) aparece contando a história para um homem. No final do filme, voltamos à moldura e se revela que o narrador na verdade é um louco. Essa mudança foi feita por Fritz Lang, pouco antes deste abandonar o projeto. Os roteiristas não gostaram da alteração, que exaltava quem deveria denunciar (a autoridade, simbolizada por Caligari) e condenava o seu antagonista como um demente. Eles protestaram abertamente e chegaram a orientar seus advogados a tomar as medidas cabíveis. 
 

E
ssa moldura é um dos aspectos mais discutidos e criticados emCaligari
O historiador Kracauer, no livro De Caligari a Hitler, afirmou que ela deformou completamente o sentido do roteiro. Mas muitos autores chamaram a atenção para o fato de que os cenários deformados, símbolos da loucura, não voltam ao normal ao se revelar que Francis é louco. Falha da produção ou não, o fato é que isso dá abertura para outras leituras, entre elas a de que Caligari é, de fato, um tirano. Além disso, a moldura, ao invés de acomodar a o espectador, incomoda-o, pois este perde a principal referência de uma história, o fato do narrador estar contando uma história verdadeira. Em uma história, o narrador é a autoridade em quem se deve acreditar e o narrador louco de Caligariperturba as certezas do receptor. Nesse sentido, a moldura é absolutamente revolucionária ao mostrar uma realidade imaginária. É surpreendente que, em 1919, ainda na aurora da criação da linguagem cinematográfica, um filme mostrasse não um mundo objetivo, mas uma realidade subjetiva. Além disso, o roteiro inovava ao apresentar pelo menos duas estratégias narrativas totalmente inovadoras. A moldura apresenta um insert imaginativo que só se tornou comum muito recentemente. Além disso, mesmo sem a moldura, o filme apresenta umflashback, na cena em que vemos a chegada de Cesare ao hospital e a alegria de Caligari ao recebê-lo. Essa junção de estratégias narrativas cria uma história que foge completamente da narrativa cinematográfica da época.

Tal estratégia revolucionária só poderia acontecer em um filme expressionista e, nesse sentido, a atuação dos atores, cenários e até as roupas são essenciais. Esses elementos em conjunto fizeram com que o filme se transformasse numa pintura expressionista em movimento.

Os cenários pintados em pano e madeira criavam um clima onírico de pesadelo, colocando em prática a ideia expressionista de ultrapassar os limites de realidade, tornando-se expressão pura da subjetividade psicológica e emocional. 

Depois do sucesso do filme, todos quiseram ser autores da proposta, até mesmo o produtor, que, segundo a maioria dos relatos, havia sido contra os cenários pintados. Janowitz sempre afirmou que os cenários expressionistas faziam parte da proposta do filme desde o roteiro. Outros creditam a ideia dos cenários ao diretor, e outros, finalmente, ao cenarista-chefe da Decla, Herman Warm. 

A quantidade de supostos pais mostra a importância do cenário para esse filme clássico e uma mudança de paradigma: até então os cenários eram apenas um enfeite sem importância narrativa. Caligari mostrou que os cenários eram parte da linguagem do cinema e podiam ser usados para ajudar a contar a história. 

Outro fator que salta aos olhos de um observador mais atento é a interpretação expressionista dos atores, em especial dos personagens principais, Caligari (Werner Krauss) e Cesare (Conrad Veidt). Os dois já tinham aparecido no palco juntos no drama expressionista Seeschlacht, dirigido por Reinhard Goering. 

Quando chegou para o primeiro dia de filmagem, Krauss se reuniu com os atores e disse: "Temos de usar outra maquiagem. Olhem os cenários!". Assim, ele pediu ao maquiador que fizesse uma linha grossa debaixo de cada olho. 

Havia uma loja na cidade, num porão, onde vendiam roupas velhas. Krauss comprou um cobre-nuca e uma cartola, além de uma bengala com punho de marfim, tudo fora de moda e estranho. 
 

Os papéis secundários também revelam detalhes expressionistas, como o secretário da Câmara Municipal em seu tamborete alto, ou os guardas que se movimentam sempre em estranha simetria. Os criados de Jane, ao acordar com seus gritos na cena em que ela é raptada por Cesare, também revelam uma perfeita sincronização, acordando e levantando ao mesmo tempo (um detalhe curioso é que as camas dos dois não estão paralelas, mas inclinadas uma na direção da outra, de forma a destacar o efeito estranho). 

Mesmo os personagens mais "certinhos", como Alan (Hans-Heinz Von Twardowski) e Francis (Friedrich Feher) revelam aspectos curiosos de interpretação. Twardowski interpretou seu personagem com rosto estranho e atormentando e Feher fazia movimentos amplos e angulares.

A influência de Caligari pode ser vista até o dias de hoje, em filmes como os de Tim Burton e nas histórias em quadrinhos de terror.

Gian Danton no I Festival de cultura nerd do Amapá

Roteirista de quadrinhos desde 1989, Gian Danton é ganhador de diversos prêmios, entre eles, o Araxá, o PADA, o Ângelo Agostini, e o HQ Mix, além de ter sido um dos artistas escolhidos para o álbum MSP+50, feito em homenagem ao Maurício de Sousa.
Também é um dos criadores d'O Gralha e é autor de diversos livros, entre eles:

* O Uivo da Górgona (9 Bravos, 2016)
* Como escrever quadrinhos (Marca de Fantasia, 2015)
* Watchmen e a teoria do caos (Marca de Fantasia, 2014)
* Introdução ao jornalismo (Unifap, 2014)
* Galeão (9 Bravos, 2013)
* Grafipar: a editora que saiu do eixo (Kalaco, 2012)
* Caligari: do cinema aos quadrinhos (Marca de Fantasia, 2010)
* O roteiro nas histórias em quadrinhos (Marva de Fantasia, 2010)
* Robin Hood (Minuano, 2007)
* Ben-hur - clássicos da literatura infantil (Minuano, 2007)
* Ciência e quadrinhos (Marca de Fantasia, 2005)

Gian Danton estará no I Festival de Cultura Nerd do Amapá, nos honrando com a palestra "A verossimilhança no roteiro das histórias em quadrinhos", que será no dia 17 de dezembro, a partir das 14h30.
Portanto, você que é leitor de quadrinhos, roteirista amador, semi-profissional ou profissional ou mesmo futuro roteirista, não perca essa oportunidade de aprender um pouco com um dos grandes roteiristas brasileiros de quadrinhos!

sábado, novembro 17, 2018

Justiça condena médico que não foi trabalhar por 3 anos e colega que assinava folha-ponto

O fato que o blog narra abaixo já é corriqueiro no país.
Faz parte do modus operandi de  parte de profissionais da medicina, que sonegam suas horas de escala nos hospitais e centros de saúde do país – em prejuízo da população pobre que os espera nos corredores hospitalares.
Deixam de ir trabalhar, mas recebem religiosamente no final do mês seus salários intactos – forjando atos de presença.
Em Marabá, isso ocorre também. Leia mais

A arte exuberante de J. Allen St. John


J. Allen St. John foi um célebre ilustradora norte-americano do início do século XX.  Era o desenhista predileto do criador do Tarzan e ilustrou várias obras de Edgar Rice Burroughs. Ficou famoso também pelas diversas capas que fez para pulp fictions na fase de ouro dessas revistas.












Star Raiders - a primeira graphic da DC Comics

Star Raiders foi a primeira Graphic Novel da DC Comics, Com texto de Elliot S. Maggin  e arte de Jose Luis Garcia Lopez. Foi uma prévia do que viria a ser um dos melhores quadrinhos publicados pela DC nos anos 1980, conhecido aqui como Esquadrão Atari. Sempre procurei por esse material e descobri que ele está disponível em PDF. Para ler, clique aqui.

quinta-feira, novembro 15, 2018

Os super-heróis nacionais

Na década de 1960, o sucesso do terror nacional fez com que as editoras incentivassem seus colaboradores a investirem em novos gêneros. Desses, um dos de que tiveram mais sucesso foram os super-heróis. O estudioso Worney Almeida de Souza lista 34 super-heróis brasileiros surgidos antes dos anos 1970, sem contar os super-vilões e heróis não-mascarados.
Nosso primeiro grande super-herói foi o Capitão 7, no início dos anos 1960, baseado num seriado homônimo exibido pela TV Record, de autoria de Ayres Campos. O Capitão 7 é um menino do interior de São Paulo levado a um planeta distante, de onde volta com super-força, super-inteligência, capacidade de voar e um uniforme atômico. O personagem, cujo visual foi criado por Jayme Cortez, foi desenhado por Júlio Shimamoto, Juarez Odilon, Sérgio Lima e Getúlio Delfim e fez muito sucesso, durando muitos números, até por estar ancorado em uma atração televisiva. Chegou a existir até mesmo fantasias do personagem para a época de carnaval.
O sucesso do capitão 7 fez com que a Estrela, maior fábrica de brinquedos da época, encomendasse a criação do capitão estrela, em uma revista lançada pela continental (a mesma do concorrente), que acabou não fazendo sucesso.
O caminho aberto pelo capitão 7 foi explorado por outros artistas, que se aproveitaram do fato de muitos heróis ainda não serem conhecidos no Brasil. Exemplo disso é o Raio Negro, criado por Gedeone Malagola para a editora GEP. Gedeone tinha apresentado o Homem-lua (que depois seria aproveitado), mas como ele não parecia tão super-herói, os editores pediram que ele desse uma olhada no novo Lanterna Verde. Misturando os poderes do Lanterna com o uniforme do Ciclope dos X-men, surgiu o Raio Negro, um dos personagens de maior sucesso da época.
Um dos heróis mais interessantes surgidos no período foi o Golden Guitar, um herói criado para aproveitar o sucesso da jovem guarda. Os donos da editora Graúna queriam licenciar os personagens da série Archie para tentar captar o interesse do público jovem. Como não conseguiram, encomendaram para Macedo A. Torres um herói juvenil inspirado no movimento musical Jovem guarda. O resultado foi um herói psicodélico, que usava como arma uma guitarra, através da qual disparava dardos tranqüilizantes e outras maluquices. Além dos quadrinhos, o gibi trazia letras das músicas de Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléa. Essa é atualmente uma das revistas mais raras do período e também uma das mais procuradas pelos fãs.
A estréia dos chamados heróis Shell (os personagens da Marvel foram lançados no Brasil numa campanha dessa rede de postos de gasolina) criou um grande interesse pelo gênero e fez com que surgissem vários gibis nacionais. Eugenio Colonnese criou Mylar, o homem mistério, para a editora Taika.
Outro herói de sucesso foi O Escorpião. Tratava-se de uma cópia descarada do fantasma, feita por Wilson Fernandes a pedido da editora Taika, em 1966. Como a revista começou a vender muito (os dois primeiros números esgotaram a tiragem de 50 mil exemplares), a editora ficou com medo da King features Syndicate, e pediu ao desenhista Rodolfo Zalla e ao roteirista Francisco de Assis que reformulassem o personagem. Assim, o escorpião tornou-se um defensor das selvas amazônicas e continuou sua carreira de sucesso.
Mas nenhum herói do período fez tanto sucesso quanto o Judoka, lançado pela Ebal com roteiros de Pedro Anísio e desenho de vários artistas. O personagem usava um collant com um quimono verde e branco, além de uma máscara. Seu mestre no judô era o sábio Minamoto. Além disso, ele contava com a ajuda de sua namorada Lúcia. A revista pegava a onda ufanista do período militar e exaltava as belezas do Brasil. Para isso, o personagem percorria diferentes pontos do país.
Os heróis brasileiros não resistiram aos anos 1970. uma das razões disso era a censura prévia. As revistas tinham de ser enviadas a Brasília, sendo analisadas por censores, que muitas vezes cortavam cenas, páginas, ou mandavam reformular histórias inteiras. Era mais fácil para as editoras importar quadrinhos americanos, até porque esses não costumavam despertar a atenção dos censores. Além disso, o endurecimento da ditadura e crise econômica foram acabando com o sentimento patriótico e ufanista dos leitores. A moda passou a ser achar bom o que vinha de fora, especialmente dos EUA. Com isso os super-heróis foram desaparecendo. Pior: começou a se achar que esse era um gênero que não podia ser trabalhado por brasileiros, pois tinha pouco a ver com a realidade nacional. De um lado os quadrinhos nacionais de super-heróis eram perseguidos pelos censores da ditadura. Por outro lado, eram perseguidos pelos intelectuais de esquerda, que achavam que eles eram colonialismo imperial norte-americano. 

Médicos de Santa Maria são flagrados descumprindo jornada de trabalho

Em Santa Maria, na Região Central do Rio Grande do Sul, médicos da prefeitura foram flagrados descumprindo horário de trabalho. O contrato prevê seis horas de jornada no posto de saúde, no entanto, há profissional que permanece poucos minutos no local de serviço, como mostra reportagem do Jornal do Almoço .
Os pacientes reclamam da demora no atendimento e relatam ainda que muitos postos de saúde funcionam apenas durante o turno da manhã. Por uma semana, a equipe da RBS TV acompanhou a rotina nos locais e flagrou dois médicos saindo mais cedo do trabalho. Em nota, o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) afirmou que está "buscando informações junto aos médicos da cidade, bem como à Secretaria Municipal de Saúde".
Em um dos flagrantes, a pediatra Dalva Maria Dalla Barba Londero deixa o posto de saúde Dom Antonio Reis sem ficar nem duas horas no local. Conforme o Portal da Transparência da Prefeitura de Santa Maria, em maio ela recebeu salário de R$ 7.939,87 para cumprir uma jornada de trabalho de seis horas diárias. Leia mais

Biocyberdrama: um universo em quadrinhos


Mozart Couto é dos mais importantes desenhistas de quadrinhos do Brasil. Seu traço anotomicamente perfeito ilustrou algumas das melhores histórias nos gêneros fantasias e ficção científica da HQB. Edgar Franco é um dos nomes fundamentais dos quadrinhos poéticos filosóficos, um gênero surgido em nosso país que teve grande destaque a partir da década de 1990 através de fanzines e publicações alternativas. Seu traço flerta com o onírico mostrando figuras impossíveis em cenários surreais. A junção desses dois talentos tão diferentes deu origem ao Biocyberdrama, um dos mais importantes álbuns de quadrinhos lançados em 2013.
A própria origem da publicação é uma saga. Em 2000, influenciado pelas ideias de artistas e filosóficos que tratam da pós-humanidade, Edgar Franco produziu o fanzine Biocyberdrame e enviou para várias pessoas. Uma delas foi Mozart Couto, que adorou a ideia e propôs uma parceria, o que deu origem a um primeiro álbum, com o primeiro capítulo. Os outros sete capítulos levaram 12 anos para serem feitos e reunidos na edição publicado este ano pela editora UFG. Uma edição, aliás, que faz juz ao conteúdo: um papel interno de alta gramatura, uma capa em policromia com um emblemático desenho de Mozart e uma sobrecapa em PB que se fecha sobre as páginas, formando um box.

A maioria dos leitores de quadrinhos tende a ir direto para a história, mas nesse caso, vale a pena parar no início e ler o Prefácio de Edgar Franco, no qual ele disserta sobre a fundamentação teórica da obra. Em um texto agradável, é apresentado todo um fundamento que permite uma leitura muito mais aprofundada da HQ e dá a dimensão do universo e da mitologia criada por ele – talvez o aspecto mais impressionante dessa HQ cheia de predicados.
Franco explica que os membros artificiais estão se tornando cada vez mais perfeitos. Cientistas e artistas defendem a possibilidade de transplantar a consciência para um chip de computador e tornar-se imortal, num movimento que foi batizado de Extropy.  “Vivemos em um momento de ruptura do humano, o qual nos compele a abrir os olhos para as implicações morais, éticas, socioculturais das mudanças drásticas de comportamento, percepção e paradigmas, que vêm atreladas às inovações nos campos da biotecnologia, da cibernética, da robótica, da telemática e da comunicação”.
A partir dessa percepção, Franco criou um universo pós-humano em que o mundo se divide em três grupos: humanos resistentes, tecnogenéticos e extropianos.
Os tecnogenéticos são fruto da hibridação entre humanos, animais e vegetais, permitidos pelo avanço da engenharia genética.
Os extropianos são pessoas que transmitiram sua consciência para corpos robóticos, vivendo, assim, eternamente.
Os resistentes são pessoas que resistem às mudanças extropianas e tecnogenéticas. Reproduzem-se sexualmente e imitam o modo de vida dos antepassados.

Cada um desses grupos tem detalhados os seus sub-grupos, método de reprodução, tecnologia, relação com a morte e organização social, uma mitologia que permite o surgimento de dezenas de histórias. A versão contada no álbum Biociberdrama é apenas uma dela. Nesse álbum acompanhamos o protagonista, Antônio (uma referência ao líder messiânico Antônio Conselheiro, de Canudos), um humano resistente indeciso entre o mundo tecnogenético e extropiano. A partir dessa base intimista, de conflito interno do personagem, visualizamos o mundo e suas relações sociais, políticas e culturais. Com o passar das páginas, no entanto, o drama pessoal torna-se também um drama social. Nessa sociedade perfeita de incrível avanço tecnológico, nesse paraíso terrestre, existe uma serpente: a intolerância. Essa intolerância se mostra na forma de atentandos terroristas, em especial dos tecnogenéticos contra os extropianos.
Franco namora com a teoria do caos ao mostrar como pequenos (e grandes) fatos vão provocando mudanças na sociedade e nos personagens. Os personagens, aliás, são tridimensionais e vão passando por mudanças ao longo da trama. Imperfeitos, traem, agem por vingança e muitas vezes por ganância (como no caso do peregrino que foge com as oferendas de um grupo que se destina a uma vila religiosa-resistente).
O leitor acompanha essa história que dura anos numa verdadeira saga e, ao mesmo tempo se surpreende com as reviravoltas, afeiçoa-se aos personagens e intriga-se com a complexidade imaginada pelo roteirista.
Sobre o desenho, um único porém: no primeiro capítulo Mozart Couto parecia estar influenciado, ou tentando aproveitar a onda dos mangás, um estilo interessante, mas que não tem absolutamente nada a ver com seu estilo. A partir do capítulo dois, o desenhista parece se livrar dessa influência e torna seu traço cada vez mais próximo do estilo que o tornou famoso na década de 1980 em revistas de editoras como a Grafipar.
Para os leitores mais interessados, vale a pena ler o Pósfacio, em que Edgar Franco destrincha todas as referências utilizadas em sua obra. Pós-moderno, o roteirista espalhou pela obra diversas citações, que vão do ciberartista brasileiro Eduardo Kac à artista francesa Orlane, que realiza operações plásticas em seu corpo com tomando como referência obras-primas da pintura, passando pelo escritor de ficção científica visionário Phillip K. Dick. Para os fãs, mais um agrado: o fanzine Biociberdrame, que deu origem a tudo vem completo, como anexo do volume.

Em suma: uma edição imperdível com dois mestres do quadrinho nacional.