segunda-feira, agosto 20, 2018

Entrevista para o portal Sinestesia

O portal Sinestesia, uma das maiores referências brasileiras sobre cultura, realizou uma entrevista comigo sobre meu trabalho como escritor e roteirista. Para conferir, clique aqui.

As aventuras de uma criminóloga 122



Como repetir a mesma história sem parecer cansativo ou redundante?
Berardi mostra um como fazer isso na série de histórias com Mirna, a psicopata apaixada por Júlia Kendall e sua grande antagonista. A série inclui diversas histórias com a personagem, a maioria delas focada nas tentativas de Mirna de matar a criminóloga. Para que não pareça que está contando sempre a mesma história, o genial roteirista italiano foca nos personagens secundários, sua relação seus encontros com a psicopata.
A história Coragem de matar, publicada na edição 122 da revista é um dos melhores exemplos dessa dinâmica. Na HQ, Mirna fugiu da cadeia, mas ao invés de ir para outra cidade, prefere ficar em Garden City onde acaba conhecendo um cafetão e uma prostituta travesti agenciada por ele. Mirna acaba passa a se prostituir, mas seus clientes terão muito mais do que imaginam.
O destaque aqui vai para a relação de Mirna com a travesti e é escrito com uma candura quase poética. Contribui muito para isso o excelente trabalho de Laura Zuccheri, a desenhista desta história. A artista consegue captar perfeitamente o clima de beleza e morte que a história exigia e a escalada de violência que se sucede. Destaque para a expressão facial de Mirna, que muda completamente quando seu lado psicopata se revela.

domingo, agosto 19, 2018

Harry Potter: marxismo cultural?

A USP está promovendo um curso sobre a série literária Harry Potter. É um curso de extensão de 16 horas e as aulas serão às sextas-feiras. Parece uma notícia cotidiana, nada de polêmica. Cursos e encontros sobre obras literárias, sejam elas quais forem são comuns em universidades e fazem parte tanto de projetos de estímulo à leitura e crítica literária.
Mas, ao ler os comentários da matéria, no Facebook, me surpreendi: uma verdadeira avalanche de mensagens revoltadas com o que eles consideram prova do marxismo cultural infiltrado nas universidades.
Sim, para esse pessoal, Harry Potter é marxismo cultural! Esse é o Brasil em que estamos vivendo.
Clique aqui para ler a matéria.
Clique aqui para ler meu texto A geração tutorial e a era das trevas.

Tarzan - o desenho animado


Tarzan é um dos personagens mais populares do século XX e teve diversas versões para quadrinhos, cinema e televisão. Mas poucas foram tão fieis à obra original de Edgar Rice Burroughs quanto o desenho animado Tarzan, o rei das selvas, de 1976. Criado pela Filmation, o desenho usava em algumas cena a técnica da rotoscopia, em que o desenho é realizado em cima de filmagens com atores, o que dava um incrível realismo às sequências. Nessa versão do Tarzan ele é acompanhado pelo macaco Nikima, como nos livros, ao contrário da versão cinematográfica, em que foi criada a macaca Chita.
O estúdio aproveitou bem o fato da animação não necessitar de cenários para colocar na histórias reinos perdidos, o que dava à série um ar de fantasia.
Todos que assistiram esse desenho se lembram da cena de abertura com Tarzan se movimentando em rotoscopia e o texto: "A selva... eu nasci aqui. E aqui meus pais morreram quando eu era pequeno. Eu teria perecido logo se não tivesse sido encontrado por uma bondosa macaca chamada Kala, que me criou como seu filho e me ensinou a viver na selva. Eu aprendia rápido e me fortalecia a cada dia. Agora, compartilho da amizade e a confiança de todos os animais da selva. A selva é cheia de belezas... e perigos e cidades perdidas cheias bondade e maldade. Este é o meu domínio e eu protejo aqueles que aqui veem, pois eu sou Tarzan, o Rei das Selvas!".
No total, foram 36 episódios, em 4 temporadas. O desenho vem sendo exibido pelo SBT desde a década de 1980 e atualmente passa nas manhãs de sábado. 

sábado, agosto 18, 2018

Superman 80th Anniversary Animated Short | DC Kids

A arte fantástica de Marc Simonetti


Marc Simonetti é um dos principais ilustradores da atualidade, em especial graças ao seu trabalho nas capas francesas e brasileiras da série Crônica de Gelo e Fogo. Simonetti ilustrou também livros de  H. P. Lovecraft. 











sexta-feira, agosto 17, 2018

Pedras no charco: resistência e perspectivas dos fanzines

Com Pedras no charco: resistência e perspectivas dos fanzines, Henrique Magalhães retoma com ampliação e atualização o livro A nova onda dos fanzines, lançado pela Marca de Fantasia em 2004. Nesse livro, procura resgatar a história dos fanzines, sua propagação e consolidação como fenômeno das edições independentes, a crise de sua produção e, sobretudo, analisar as transformações ocorridas em seu modo de produção a partir da década de 1990.
Essa década e posteriores à pesquisa desenvolvida no Mestrado da USP, que resultou na publicação de O rebuliço apaixonante dos fanzines, representaram uma verdadeira transformação no processo editorial dos fanzines no Brasil após um período de crise e estagnação e significaram a retomada de sua produção de forma mais sólida e inovadora.
O objetivo da nova edição não é o esgotamento do tema nem o levantamento exaustivo de todos os fanzines editados, mas demonstrar alguns aspectos significativos desse gênero de publicação e seu desenvolvimento como forma de produção. A opção pela edição digital visa favorecer a uma leitura mais dinâmica com utilização de hiperlinks e reprodução em cores das capas das publicações, que com sua riqueza iconográfica são, sem dúvida, um elemento documental de grande valor.
Pedras no charco: resistência e perspectivas dos fanzines
Henrique Magalhães
Paraíba: Marca de Fantasia, 128p. Digital. R$ 5,00
ISBN 978-85-67732-90-9

A geração tutorial e a era das trevas


Há um conto de Isaac Assimov chamado O cair da noite sobre um planeta iluminado por seis sóis cujos habitantes nunca conheceram a noite. Na história, cientistas descobrem que a cada dois mil anos ocorre um eclipse. Sem a luz solar, os habitantes do planeta ficam loucos e destroem toda a civilização. Os cientístas pretendem guardar essa informação em local seguro para as proximas gerções. Mas uma turba se aproxima para destruir o observatório astronômico e os dados coletados.
Asimov percebeu que em momentos de crise as pessoas tendem a se tornarem irracionais e a rejeitarem o conhecimento científico. Percebeu também que tal situação é terreno fértil para o fanatismo religioso.
É exatamente o que vemos no Brasil atual. Entre em qualquer matéria sobre ciência nas páginas de jornais. A maioria dos comentários são acusações de que os cientistas são vagabundos vivendo às custas do dinheiro público.
Para essa geração, um meme de Facebook, vídeo de Youtube ou um áudio de WhatsApp são mais críveis que uma tese de doutorado ou livros e mais livros sobre o assunto. Certa vez, em uma disucssão de internet, a pessoa argumentou que eu era suspeito para falar sobre o assunto em pauta porque eu já havia escrito um livro sobre o mesmo. É a geração tutorial.
Vejam a questão do clima. Em qualquer lugar você ouvirá das pessoas que o tempo está louco. Na Europa invernos rigorosos dão lugar a recordes de calor (acompanhados de muitas mortes e incêndios). Em estados como São Paulo e Goiás, o ar está mais seco que o deserto do Saara. Mesmo assim, a maioria das pessoas nega a existência das mudanças climáticas e pesquisas sobre o assunto são consideradas inúteis.
A geração tutorial é responsável pela volta de doenças erradicadas, como o sarampo, graças às campanhas anti-vacinação.
O que vemos é um grande movimento anti-intelectual e anti-científico.
Nós não temos um eclipse que irá deixar todo o planeta às escuras. Mas estamos cada vez mais perto da era das trevas.

quinta-feira, agosto 16, 2018

Speed Racer

Speed Racer é um anime dos anos 60, criado por Tatsuo Yoshida sobre corridas de automóveis. Speed Racer (nome dado pela dublagem brasileira, o nome original é Go Mifune), um jovem e audaz piloto de corrida de dezoito anos, dirige o carro Mach 5 criado por seu pai (Pops) e vive diversas aventuras dentro e fora das pistas.
 Um produto típico dos anos 60, usa um topete de Elvis Presley e suas maiores aventuras lembram os filmes de 007.
O desenho é muito conhecido pela sua canção tema e pela ótima trilha sonora. Como seus mais célebres competidores, temos a "Equipe Acrobática" e o "Carro Mamute". As corridas eram em locais inusitados, como selvas, desertos e até dentro de um vulcão.

O Mach 5, carro de corrida de Speed, tinha um arsenal de equipamentos que ajudavam Speed a se safar das enrascadas em cada uma de suas aventuras. Um dos equipamentos permitia que o carro praticamente pulasse sobre os obstáculos. 

Ecos humanos


Edgar Franco é autor de um universo ficcional transmídia que se passa na chamada pós-humanidade -quando a tecnologia modificou provocou enormes mudanças na humanidade. Uma das possibilidades de modificação está na engenharia genética, que permitiria, por exemplos, seres híbridos de humanos com animais.
Esse universo se espalhou por várias obras, a mais recente delas o álbum Ecos Humanos, escritos por Franco com desenhos de Eder Santos e lançado este ano pela editora Reverso.
A que primeira coisa que chama atenção na obra é a total ausência de diálogos ou textos. Isso dá um peso enorme à força narrativa das imagens. É uma aposta arriscada. Ou dá muito certo ou dá completamente errado. Em Ecos Humanos o acerto foi total, revelando uma sintonia fina da equipe. Segundo Edgar Franco, o roteiro foi produzido de forma escrita,mas à medida em que  Eder Santos produzia os lay outs, o roteirista fazia sugestões de mudanças.
Ecos Humanos conta a história de dois seres híbridos de homens e lobos-guará. Eles vivem no meio do deserto, em um oásis no qual se encontram três árvores e uma fonte. Alimentam-se dos frutos das árvores e dos animais que ali pousam, enfrentando, de tempos em tempos, perigosas tempestades de areia.
A obra é uma verdadeira poesia visual, com sequências tocantes por sua profundidade. Em consonância com o estilo que o próprio Edgar Franco chamou de poético-filosófico, há uma série de questões que permeiam a história: desde a questão de matar animais para comida (o autor é vegetariano) até as religiões.  Mas o principal tema é a comodidade, como as pessoas se conformam com determinadas situações, incapazes de fugir de sua área de conforto.
Ecos humanos é um dos trabalhos mais interessantes que já vi nos últimos tempos em termos de HQB,
A obra pode ser adquirida diretamente com o Ciberpajé através do e-mail ciberpaje@gmail.com ao custo de 30 reais mais as despesas postais.

Hoje tem Rádio Pop!


Um navio perdido em alto mar, acontecimentos estranhos e inexplicáveis. Galeão


Galeão é uma obra de fantasia histórica escrita por Gian Danton que se passa em algum lugar do Atlântico, no século XVII.

Depois de uma noite de terror, em que algo terrível acontece, os sobreviventes descobrem que estão em um navio que não pode ser governado e repleto de mistérios. A comida está sumindo, alguém está cometendo assassinatos, uma mulher é violentada e o tesouro do capitão parece ter alguma relação com todo o tormento pelo qual estão passando.

Galeão mistura vários temas da ficção fantástica e outros gênero numa trama policial, já que um psicopata parece estar agindo entre os sobreviventes. A história torna-se, assim, um quebra-cabeça a ser desvendado pelo leitor.

Valor: 25 reais - frete incluso. 

Pedidos: profivancarlo@gmail.com. 

O uivo da górgona


Um som se espalha pela cidade (ou pelo estado, ou pelo país, ou pelo mundo?). Um som que ouvido transforma as pessoas em seres irracionais cujo único o objetivo são os instintos básicos de violência e fome. É o uivo da Górgona.
Acompanhe a história dos sobreviventes neste livro de terror, uma história de zumbis diferente, em que qualquer um pode se transformar, bastando para isso ouvir o terrível uivo da górgona.
Escrito em capítulos curtos, o livro transforma o suspense em elemento de fantasia, prendendo o leitor da primeira à última página. 
Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

The Spirit - o herói impressionista




Dos heróis surgidos nos anos da Segunda  Guerra Mundial, um  deles se destacou não pelos po­deres extraordinários ou por uniformes espalhafatosos.  Spirit, criado por Will Eisner, era um herói, acima de tudo, humano. Policial dado como morto, Colt se aproveita do anonima­to para resolver casos além do alcan­ce da polícia, apenas com uma capa e um chapéu “noir”. A minúscula máscara, sugestão do editor, procurou torná-lo mais comercial, mas não lhe diminuiu o prestígio.
O Spirit era uma espécie de mes­tre de cerimônias de um show  pelo qual desfilavam menores abandonados, ladrões, suicidas... Gente que tem uma bela ou triste história para con­tar.
Uma das histórias mais tocantes era sobre um garoto que sabia voar. Proibido de sair do chão pela mãe, ele sobe, já adulto, num edifício onde o Spirit troca tiros com bandidos e começa a fazer evoluções no ar, até que uma bala o acer­ta. Eisner aconselha os leitores não chorarem por ele, mas pelas pessoas que não perceberam seu vôo.
Apesar dos textos impressionis­tas, o Spirit entrou para a  história dos quadrinhos por um motivo estético: foi o primeiro a tentar uma linguagem realmente quadrinística.
O texto nun­ca dizia o que a imagem podia passar  e havia uma exploração muito grande das possibilidades narrativas do desenho. Eisner foi o primeiro a usar a sequên­cia com maestria nos quadrinhos e é considerado o pai da nova geração de quadrinistas, como Alan Moore, Da­ve McKean, Dave Gibbons e Neil Gai­man, entre outros.
O Spirit durou de 1940 a 1952, quando a opinião pública voltou-se contra os quadrinhos, depois que o livro ‘Sedução de inocentes”, do psicólogo Frederích Werthan, os acusou de serem responsáveis pela delinqüência juvenil que florescia nos EUA. Vendo a decadência do mercado de quadrinhos, Eisner foi fazer desenhos para o exército.
Na década de 1970, Eisner voltaria aos quadrinhos, criando as graphic novels com a obra Um contrato com Deus.

quarta-feira, agosto 15, 2018

Oficina "Qualquer um pode fazer quadrinhos" no I Aspas Norte


Uma das atrações do I Aspas Norte será a oficina "Qualquer um pode fazer quadrinhos, com o professor Rafael Senra. 
Rafael Senra é Professor Adjunto de Literatura da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Como autor de quadrinhos, publicou as revistas Balada Sideral (2014), Ana Crônica (2009) e a HQ virtual Lonely Hearts (2009). Como escritor, publicou os livro Dois Lados da Mesma Viagem (2013), e Olhar de Bicicleta (2017). Também em 2017 gravou o disco Canções de São Patrício, com versões em português para músicas celtas dos séculos XVIII e XIX.
Para se inscrever no I Aspas Norte, clique aqui: https://aspasnorte.wordpress.com/inscricoes/

Fahrenheit 451

            Em Fahrenheit 451, escrito em 1953, Ray Bradbury nos coloca a interessantíssima questão do futuro e do controle da sociedade por um governo ou uma classe.

            Trata-se de uma distopia (utopia ao contrário), como 1984, de George Orwell. No universo dos dois livros, ler é uma atividade proibida. O título (Fahrenheit 451) se refere justamente à temperatura em que o papel arde e se consome.

            O personagem principal é um bombeiro encarregado não de apagar incêndios, mas de queimar livros.
            É interessante notar que há uma diferença de apenas cinco anos entre um livro e outro. Apesar da proximidade de assunto e tempo, há diferenças básicas entre as duas obras. Diferenças de motivos.
            Orwell escreveu 1984 baseado na sua experiência na Guerra Civil Espanhola, onde foi perseguido pelos stalinistas, enquanto lutava contra os fascistas e via a história ser mudada pelas versões oficiais. Bradury nunca foi à guerra, mas experimentou as agruras de um dos momentos mais terríveis da história americana: o machartismo. No início da década de 50, os EUA foram invadidos por uma febre anti-comunista. Grandes escritores foram perseguidos, Charles Chaplin teve de deixar o país para não ser preso.
            Bradbury, nessa época, já era um escritor famoso e trabalhava esporadicamente para a editora de quadrinhos E.C. Comics.
            A E.C. foi, provavelmente, a primeira editora de HQ a manter uma atitude crítica perante o mundo. Fazia propaganda pacifista em plena Guerra Fria e fazia troça do modo de vida norte-americano.
            Bradbury sentiu o cheiro acre das revistas da EC sendo queimadas em praça pública, viu amigos sendo presos, pessoas de bem sendo humilhadas. Viu toda uma nação se levantar, insana, pedindo a cabeça de homens que nem conheciam.
            É, Bradbury tinha motivos para escrever Fahrenheit 451.
            Além de um protesto, o livro é também um tratado sobre o ato de ler. Bradbury defende que os livros trazem em si três aspectos. O primeiro deles é a vida. Livros devem ser repletos de vivências. E nesse sentido, não é só a vivência do autor, mas também a do leitor, suas tristezas e alegrias, que ficam impregnadas nas páginas dos livros.
            O segundo aspecto é o lazer. Nem o mais pedante dos intelectuais negaria que lê porque se diverte enquanto o faz.
            O terceiro aspecto seria justamente a capacidade de transformação, de ação consciente a partir da reflexão em cima dos dois primeiros aspectos.
            Se o livro representa a libertação, em Fahrenheit, a alienação é representada pela televisão, assim como em 1984. Mas Orwell morreu em 1949, bem antes que a TV tivesse ampla difusão. Bradbury, ao contrário, viveu o período de ascensão da telinha. Talvez por isso, em Farenheith 451 a TV não é imposta às pessoas. Elas a assistem por livre e espontânea vontade.
            Aliás, a proibição de leitura também não foi imposta pelo governo. Foram as próprias pessoas que não só deixaram de ler, como passaram a ter medo de quem lia. Numa sociedade unidimensional, as pessoas devem ser niveladas pela média. Pessoas que lêem, pessoas que escrevem, pessoas que fazem poemas e outras que fazem da sua própria vida um poema... todos esses tipos são perigosos para o cidadão comum, para o pai de família barrigudo, que passa os domingos bebendo cerveja e assistindo futebol...
            É interessante analisar os protagonistas dos dois livros. Montag, de Fahrenheit 451, é um puro instinto, chegando a tomar atitudes quase suicidas. Já Winston, de 1984, é totalmente racional. Sua subversão é testada cuidadosamente, como alguém que anda no escuro, tateando a parede. Mesmo assim, a subversão de Winston, em certo sentido, é maior, já que ele não só lê, como escreve.
            Aliás, o que é proibido aos subordinados, é permitido à classe dominante. Beaty lê, Big Borther escreve. Afinal, informação é poder. Tanto que os escribas do antigo Egito tinham poder equivalente ao Faraós. Seria até de se perguntar se o pessoal do partido interno, em 1984, praticava sexo, já que o sexo também é um ato político...
            As classes dominantes precisam providenciar maneiras de reprimir o instinto de liberdade do ser humano. O povo é continuamente submetido a uma rotina estressante. Além do trabalho, as filas enormes, os ônibus que chegam sempre atrasados e lotados... quando há revolta, ela é uma reação imediata e sem sentido, voltada quase sempre para quem não é responsável pelo sofrimento do povo. Temos aí, então, as portas de vidro quebradas nos hospitais, as pedras jogadas nos ônibus, nos trens destruídos... quando acontece a reação, ela é sempre voltada para os representantes mais inferiores da autoridade, como cobrador de ônibus ou a enfermeira. No dia seguinte, tudo volta ao normal.
            No tempo livre, é necessário ocupar a cabeça das pessoas. Em Fahrenheit 451 o meio mais utilizado para evitar o uso criativo e reflexivo do tempo livre é a televisão. Na obra de Bradbury, mulheres de palha conversam com a TV, repetindo frases escritas previamente. Não há atividade criativa. Em 1984, o povo é mantido sob estrita vigilância, seja através da teletela (uma televisão que também transmite a imagem de quem a está assistindo), dos helicópteros ou da polícia do pensamento.

            Bradbury propõe a leitura como opção. Para ele, somos o que lemos. Isso fica claro quando o personagem principal de seu romance encontra um grupo de subversivos que vagueia pelas antigas linhas de trem. Como não podiam correr o risco de levar livros consigo, eles simplesmente os decoravam e depois queimavam, esperando pelo dia em que ler não fosse mais proibido. A partir daí, cada um passava a ser responsável pela obra que decorara. Uma tremenda metáfora do ato de ler...  

Arte moderna - muito além da pedra no museu

Recentemente um vídeo circulou na internet e tem sido muito compartilhado. Mais que isso: seu principal argumento tem sido repetido à exaustão: arte moderna é uma pedra no museu.
O vídeo faz uma distinção clara entre os grandes artistas do passado e os modernos, representados pela pedra no museu.
Mas será isso mesmo? Será que a arte moderna se resume a uma pedra no museu?
Para explicar o assunto, são necessárias algumas definições e explicações. A primeira delas é que o vídeo faz uma confusão, juntando em um só saco de gatos muitos movimentos (dadaísmo, surrealismo, arte conteporânea etc e, do outro lado, renascimento, barroco, neo-clássico etc). Mas, para efeito deste artigo, vamos adotar a definição do vídeo. Assim, haveria a arte moderna e arte não-moderna. Para o autor do vídeo, só poderia ser considerado arte realmente a arte não-moderna.
Então o que seria a arte não-moderna, que o autor do vídeo considera a arte verdadeira? É uma arte que compreende essencialmente duas possibilidades artísticas: a pintura de cavalete e esculturas em mármore. Além disso, era uma arte que seguia rígidas de composição e de tema.
Olympia: nudez provou escândalo

Para explicar o que seriam as regras rígidas de temas, vamos pegar um quadro específico, Olympia, obra de Édouard Manet, de 1863. O quadro foi recusado pelo salão de Paris, foi exposto no salão dos recusados e causou enorme polêmica e escândalo. O quadro mostrava uma prostituta nua deitada na cama. Mas, se há muito tempo o nu já era representado na arte, por que um quadro com nu provocou escândalo? É que na arte não-moderna o nu era aceito desde que fosse com deuses gregos, figuras históricas. Um deus grego ser representado nu era algo normal e até edificante (A arte representava sempre temas considerados edificantes: mitologia grega, história romana, passagens bíblicas). Mas uma mulher normal, e, pior, uma prostituta, era algo inaceitável. Por conta de toda a polêmica envolvendo o quadro, Olympia pode ser considerada a obra fundadora da arte moderna.
A arte moderna, a partir daí, quebrou as regras rígidas de composição e de temas e de suporte. Para ser arte não era necessário representar deuses gregos ou figuras históricas. A arte não precisava ser edificante. Também não era necessário que a obra fosse uma pintura de cavalete ou um escultura feita em mármore.
Feita essa observação, vamos fazer um pequeno tour de arte moderna que vai muito além da pedra no museu. Deixo por conta do leitor a decisão sobre ser arte ou não.

Art nouveau – movimento artístico que foi revolucionado ao mostrar que a arte não era apenas o que estava no museu. Ou algo contemplativo. Você poderia pegar na arte e até usar a arte. O art nouveau podia ser visto na decoração interna das casas, na arquitetura, nos objetos de uso pessoal e até em cartazes, como os anúncios dos espetáculos de Sarah Bernhardt realizados por Alphonse Mucha.

O gabinete do Doutor Caligari, filme de 1919, de Robert Wiene. O filme retrata uma história contada por um louco. Os cenários distorcidos refletiam a mente conturbada do protagonista. Não era um tema edificante, como se esperava de uma obra não-moderna. Os cenários também não seguiam os padrões rígidos de composição. E, principalmente, era cinema, e não pintura de cavalete ou escultura em mármore. Segundo os padrões da arte não-moderna não poderia de forma alguma ser considerado arte.

Salvador Dali pintava em cavalete, mas seus quadros surreais passavam longe de seguir as regras de composição e tema da arte não-moderna. Não era uma pintura edificante, mas reflexos de sonhos. Além disso, em uma de suas obras, ele compôs o rosto de Marilin Monroe com uma estrutura em que o visitante poderia entrar e se sentar em uma poltrona, interagindo com a obra. Passava longe de ser considerado arte pelos padrões da arte não-moderna.

Poty Lazzarotto é um pintor e escultor paranaense. Suas esculturas eram feitas em concreto e raramente ele pintava em cavalete, preferindo grandes painéis, como produzido para o aeroporto de Curitiba. Além disso, suas figuras não seguiam o padrão rígido de composição e anatomia da arte não-moderna, com figuras muitas vezes distorcidas. Também não poderia ser considerado arte.

Vik Muniz – esse artista brasileiro reconstrói obras de arte clássicas usando lixo. Sim, lixo. A obra é realizada em um grande galpão e depois fotografada. O que vai para as galerias são as fotos das mesmas. Embora reproduzam pinturas clássicas, não poderia ser considerado arte de acordo com os padrões da arte não-moderna, em especial em decorrência do suporte.

Ron Mueck – Esse artista australiano usa os mais diversos tipos de materiais, inclusive cabelo humano, para produzir suas obras em tamanho gigantesco ou minúsculo. Seus temas não são edificantes. Ao contrário: mostram pessoas normais, com seus defeitos muitas vezes destacados, com varizes, unhas encravadas e gorduras localizadas. Uma de suas obras é uma galinha morta pendurada no teto. Não poderia ser considerado arte por conta do material utilizado e dos temas abordados.

Orson Welles – Considerado o maior cineasta de todos os tempos. Seu filme Cidadão kane mergulhou fundo na vida e na personalidade de um magnata da imprensa em cenas com profundidade de campo, em que o que estava atrás tinha função fundamental no que era dito em primeiro plano. Na década de 1970, ao dirigir um filme sobre um homem que falsificava obras de arte, promoveu uma profunda reflexão sobre a autenticidade da arte. Era cinema, portanto, não era arte.

Alan Moore – esse britânico é cineasta, faz performances musicais, escreve peças de teatro e escreve quadrinhos. Entre suas obras mais famosas estão V de Vingança e Watchmen. Ele não desenha pinturas de cavaletes ou produz esculturas de mármore. Na verdade, ele desenhou muito pouco, sendo a maior parte de suas obras realizadas com ilustrações de outros artistas. Seus temas também não são edificantes. E são quadrinhos. Não seria considerado arte por qualquer critério da arte não-moderna.

José Loures – Uma das características da arte moderna é a possibilidade de interação com a obra. O público não é apenas um receptor passivo, que fica contemplando a obra a uma distância demarcada com linha vermelha no chão, como ocorria na arte não-moderna. Esse artista de Anápolis faz obras de game arte, em que o visitante não só interage com a obra, mas joga com ela, como num jogo de tabuleiro. Não poderia ser considerado arte sob qualquer prisma de acordo com os padrões da arte não-moderna.

Esses são alguns exemplos que vão muito além da pedra no museu. Nenhum deles seria considerado arte a partir dos padrões da arte não-moderna (pintura de cavalete ou escultura em mármore, temas edificantes, receptor passivo, composição rígida). Se são arte ou não, deixo a decisão ao leitor.  

O Super-homem é judeu?


Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler, dizia que "Super-Homem é judeu", rebatendo a propaganda aliada feita pelos quadrinhos norte-americanos da época. Referia-se também ao fato de que os dois criadores do personagens, o roteirista Jerry Siegel e o desenhista Joe Shuster, eram judeus. Mas será que o herói é realmente judeu?
Uma leitura literal de sua história não permite esse tipo de interpretação. Afinal, o personagem é um alienígena, enviado à Terra ainda bebê e que, no trajeto, torna-se super-poderoso, vindo a ser o grande defensor da humanidade.
Entretanto, alguns pesquisadores têm destacado as semelhanças do mito super-heroiesco com o mito do messias judaico.
Afinal, seria natural para dois judeus, num período turbulento, em que todo o povo de Israel era perseguido, criar um personagem que representasse o Messias. Para os judeus, o Messias é o enviado divino, que vem à terra para trazer uma era de paz e felicidade.
A primeira indicação de que o personagem estaria ligado a esse mito está no seu nome de batismo, Kal-el. A palavra El em hebraico que significa Deus.
Além disso, ele vem para a terra num foguete, ainda bebê, exilado de sua terra, da mesma forma que Moises é colocado em um cesto e lançado no rio para ser criado pelos egípcios. O Super-homem, como os judeus da época, inclusive seus autores, é um homem sem terra, e é obrigado a esconder sua verdadeira identidade.
No livro Homens do Amanhã, Gerard Jones diz que “histórias de identidade secreta sempre encontraram eco entre os filhos de judeus imigrantes em virtude da necessidade de máscaras; máscaras que permitiam à pessoa tornar-se um americano moderno, consumidor das coisas do mundo. Mas, ao mesmo tempo permitem fazer parte de uma sociedade antiguíssima, ser um elo de uma velha cadeia sempre que ela estivesse no seio seguro daqueles que conheciam seu segredo. Um Clark Kent nas ruas e um super-homem em casa”. 
Para Jones, o Capitão América avançou ainda mais na metáfora judaica. Os leitores de quadrinhos sabem que ele é Steve Rogers, um garoto franzino, curvado, um Zé-ninguém, que, graças ao soro do super-soldado, torna-se um herói. ¨Ele é o garoto subnutrido do gueto que adquire força desmedida ao agarrar as oportunidades americanas; o ressabiado sobrevivente do velho país que renasce como o judeu combativo graças à mistura americana de violência e liberdade¨.
Na medida em que fizeram a metáfora da elevação do povo judeu através dos emergentes meios de comunicação, os autores do Capitão América capturaram também o espírito do norte-americano comum, que via seu país tornar-se a grande potência mundial, superando as velhas potências européias.
Além das metáforas mais óbvias, vale lembrar que praticamente todos os desenhistas, roteiristas, editores e donos de editores da era de ouro eram judeus. Explica-se isso pelo fato de que os quadrinhos na época eram vistos como subliteratura, desprezadas pelos chamados artistas sérios. Os judeus, ao contrário, agarraram essa oportunidade e fizeram dos super-heróis o maior símbolo da grande virada estabelecida por eles no novo mundo. Não é à toa que os nazistas sempre foram os vilões prediletos dos quadrinhos.

terça-feira, agosto 14, 2018

A arte fantástica de Pauline Baynes


A artista britância Pauline Baynes foi descoberta por J.R.R Tolkien, que ficou fascinado com seus desenhos de mundos medievais. Tolkien apresentou a ilustradora para C. S. Lewis, que a escolheu para ser a desenhista oficial da série As crônicas de Nárnia. Seu estilo, que misturava fantasia, ambientação medieval e um toque infantil, casou perfeitamente coma  série.