quinta-feira, julho 18, 2019

As aventuras do pequeno Xuxulu


Da criação ao roteiro, de Doc Comparato


Durante muitos anos não existia praticamente nenhuma bibliografia sobre roteiro no Brasil. Sobre roteiro para quadrinhos, nenhuma. 
Então, todo mundo que queria escrever HQs em algum momento se deparando e utilizando na prática do livro Da criação ao roteiro, de Doc Comparato. 
Doc Comparato era um dos veteranos da prática do roteiro para cinema no Brasil. Ele escreveu boa parte dos filmes dos Trapalhões (a partir do plot de Renato Aragão) e ministrou as primeiras oficinas de roteiro, das quais saíram inclusive roteiristas de novelas hoje famosos. E seu livro foi um dos primeiros e mais famosos publicados no Brasil sobre o assunto. 
Mas roteiro para quadrinhos é uma coisa, roteiro para cinema é outra. 
Todos os meus amigos roteiristas relatam pelo menos uma situação em que se deram mal usando o livro do Doc Comparato ao esccrever para quadrinhos. 
A minha ocorreu logo no início da carreira. Empolgado com o livro do Doc, resolvi usar um pouco do palavreado técnico que aprendera nele. Assim, em determinado quadro, uma garota invadia o quarto de um homem para espioná-lo. Na descrição da imagem, defini que teríamos uma câmera subjetiva com a personagem principal entrando pela janela de um quarto. 
A câmera subjetiva ocorre no cinema quando a imagem mostra o ponto de vista de um personagem. 
Mas o desenhista não entendeu o que era aquela tal de câmera subjetiva. Resultado: desenhou o quadro da maneira que achou melhor e, para não fugir completamente do roteiro, colocou uma câmera caída no chão do quarto. 
E, de fato, ele não tinha nenhuma obrigação de entender o palavreado técnico de cinema. Afinal, estava fazendo quadrinhos. 
Depois disso usei diversas vezes o recurso de mostrar a imagem do ponto de vista de um personagem. Mas fiz isso explicando na descrição o que eu queria, ao invés de usar um termo técnico de outra mídia.

Terra de gigantes


Terra de gigantes foi o mais audacioso, criativo e caro projeto de Irwin Allen, o produtor de vários seriados de sucesso da década de  1960, como Viagem ao fundo do mar e perdidos no espaço.
A história se passa no ano de 1983, quando uma nave terrestre é envolvida por uma névoa magnética e transportada para um planeta 12 vezes maior que a Terra.
A nave ficou avariada, impossível de regressar, iniciando uma série de perigosas aventuras para os seus sete passageiros.
Os gigantes, em sua maior parte, são seres perigosos e desejam capturar os “Pequeninos”, como costumam chamá-los, a todo custo, visto que a tecnologia dos gigantes está 50 anos atrasada em relação à Terra. Logo no dia em que os Pequeninos chegam ao planeta,  já são vistos pelos gigantes e se tornam interessantes para estudos de cientistas, para servirem de brinquedo, ou mesmo para gerar lucro, como em um circo, por exemplo.
A população do planeta é controlada por um Regime Autoritário de Poder, muito assemelhado a ditaduras, que na época em que a série foi gravada, eram mais numerosas que nos dias atuais. Com isso, as histórias de Terra de Gigantes foram críticas evidentes ao autoritarismo.
Curiosidades
- Para dar maior impressão de que os atores gigantes realmente tinham alguns metros de altura, as cenas eram filmadas de baixo para cima, a uma certa distância.
- A maquete da nave Spindrift tinha praticamente 1,80m de comprimento e contou com peças já utilizadas em outras produções da Fox. Os assentos da cabine, por exemplo, foram usados no filme “O Planeta dos Macacos” (1968). Por sua vez, partes originais da Spindrift foram reutilizadas no filme “Cidade Sob o Mar” (1970).
- A equipe de criação e design era muito competente e conseguiu reproduzir bem alguns objetos em grandes dimensões, como hidrantes, câmeras, coleira de um cão, um esfregão ameaçador, tubos de ensaio, uma galinha com fome, drenos, rédeas de um cavalo, entre outros, mas quando um gigante pegava um pequenino, era sempre uma mão mecânica.
A série Terra de Gigantes foi retransmitida para mais de 80 países, incluindo da América Latina. No Brasil, a estreia foi pela TV Record de São Paulo, no dia 2 de março de 1969, às 18h30, um domingo.
Por volta de 1974, passou a ser exibida pela Rede Globo e, anos depois, pela TV Tupi.

Admirável mundo novo

Ao lado de 1984, de George Orwell e de Farenheit 451, de Ray Bradbury, Admirável mundo novo, de Adous Huxley, constituí a tríade das mais famosas obras distópicas.
As distopias surgem no início do século XX quando fica claro que o paraíso antevisto no século XIX não iria se concretizar. As pessoas da era vitoriana vislumbrava o futuro como um éden em que a tecnologia libertaria a humanidade do trabalho, da opressão e das doenças. Viveríamos um mundo de felicidade, dedicado apenas ao prazer. Mas a primeira guerra mundial e a difusão de regimes totalitários logo em seguida mostrou que o século XX seria o oposto. A tecnologia seria usada para oprimir e matar e ao invés de liberdade, seríamos escravos de regimes autoritários.
No mundo de Admirável mundo novo, as pessoas são geradas de forma artificial de acordo com classes rígida – os mais aptos intelectualmente são a classe dominante, com funções administrativas. Os mais aptos fisicamente exercem profissões como faxineiros. Desde pequenos, são condicionados através de um sistema subliminar que lhes ensina a serem felizes com sua posição na sociedade e se conformarem com as coisas como elas são.
É um mundo de falsa felicidade, embalado pela droga soma, consumida avidamente por seres vazios. Esse mundo é abalado pela presença de um selvagem, cuja presença questiona faz com que alguns questionem essa falsa felicidade.
Admirável mundo novo é um livro complexo, rico, mas se sua mensagem pudesse ser expressa em uma única frase, seria: nenhuma felicidade vale o preço da liberdade.

Howard, o pato



A década de 1970 na Marvel foi a era dos quadrinhos estranhos, fora da caixinha. A regra parecia ser “não há regra” – e eram muitas as experimentações. Surgiram desde quadrinhos sobre heróis espirituais, como Warlock, até quadrinhos sobre artes marciais (Mestre do Kung-fu). Até personagens clássicos, como o Dr. Estranho, tiveram aventuras que saiam completamente do comum – com o personagem contracenando com uma lagarta fumadora, por exemplo. Tudo isso capitaneado por uma geração de hippies que aproveitou ao máximo a abertura que a indústria de entretenimento estava lhes dando naquele momento.
Mas nenhum quadrinho foi tão revolucionário, tão fora da caixinha quanto Howard, o pato.
 O personagem surgiu como coadjuvante em uma aventura do Homem-coisa, escrito por Steve Gerber e desenhado por Val Maverick.
O monstro se envolvia em uma trama de encontros de realidades e – entre os personagens que surgiam estavam um bárbaro e um pato falante. Ao final da história, o pato simplesmente sumiu em meio às realidades, desaparecendo da história.
Seria o fim dele, mas os leitores gostaram do personagem e começaram a escrever para a Marvel pedindo mais histórias com aquele personagem. Roy Thomas, editor-chefe da editora na época, achava que o personagem não se sustentaria num título, mas Gerber garantiu que daria conta do serviço e o personagem ganhou uma segunda chance, primeiro na revista do Homem-coisa, depois com título próprio. O desenho ficou sob a responsabilidade de Frank Brunner (que havia ilustrada a fase mais lisérgica do Dr. Estranho) e depois de Gene Colan.
E eram aventuras absolutamente subversivas. Howard, depois que quicar em várias realidades, vem parar na terra, onde encontra uma linda moça que seria sua parceira e passa a viver suas aventuras enfrentando os tipos mais estranhos, a exemplo do Homem-nabo (vindo de uma espécie de vegetais agressivos que superaram os limites de suas raízes para se tornarem empreendedores galácticos), O Pestana (um artista com sonambolismo) e muitos outros.
Em uma das histórias, a dupla é vítima de uma gangue de valentões e Howard se torna mestre de Quac Fu em apenas três horas de treino!!! Aliás, essa é uma das aventuras mais divertidas, uma belíssima brincadeira homenagem ao personagem Shang Chi, da Marvel desenhada por John Buscema.
Howard não parava. Em um momento ele estava enfrentando um mágico contador espacial, em outro estava na cidade grande se deparando com uma velha gorda e adepta de teorias da conspiração, em outro estava num castelo vitoriano caindo aos pedaços enfrentando um monstro Frankstein feito de biscoito. Em outras palavras: era piração em cima de piração.
O ponto alto desse processo é quando o Partido Noturno resolve lançar Howard como candidato à presidência – e este passa a ser alvo de todo assassino profissional do país.
O personagem fez tanto sucesso que se tornou filme, uma película pouco inspirada que tinha pouco a ver com toda a subversão dos quadrinhos.

quarta-feira, julho 17, 2019

Monteiro Lobato: O Sítio Do Pica Pau Amarelo




            O primeiro livro de Lobato para crianças foi lançado em 1921 e chamava-se Narizinho Arrebitado. Teve a tiragem monstra de 50 mil exemplares. E vendeu tudo. Antes disso praticamente não havia livros para crianças. Quando ele mesmo era pequeno, as leituras se restringiam a dois álbuns coloridos, Menino Verde e João Felpudo. “Pobres crianças daquele tempo! Não tinham nada para ler”, admitia.
            Os livros que exitiam eram cheios de “literatura”, que certamente não agradava Lobato. Ao invés de se dizer céu azul, dizia-se céu azul turqueza, ou cerlea abobada celeste.
            Embora os primeiros livros infantis de Lobato fosse cheios de “literatura”, o escritor foi salvo pelas crianças: “de tanto escrever para elas, simplifiquei-me, aproximei-me do certo (que é o claro, transparente como o céu)”.
            Até meados da década de 20, Lobato ainda não se decidira a realizar a grande obra que viria a ser o Sítio. Mas tinha uma coceiras: “Ando com idéias de entrar por esse caminho: livros para crianças. De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para as crianças um livro é todo um mundo. Lembro-me de como vivi dentro do Robinson Crusoe do Laemmert. Ainda acabo fazendo livros onde nossas crianças possam morar, como morei no Robinson e n’Os Filhos do Capitão Grant”.
            Coçou-se em 1934. Foi quando a editora Nacional lançou Reinações de Narizinho, reunindo num só volume todas as histórias pequenas do sítio que já haviam sido publicadas. Lobato fez os ajustes, revisou, e entusiasmou-se: “Estou gostando tanto que brigarei com quem não gostar”. E começou a vir a idéia de transformar o Sítio numa série contínua, um “rocambole infantil”, como ele chamava. Os rocamboles eram romances franceses, famosos por estender a história por volumes e mais volumes.
            O escritor pretendia levar a turma do sítio para uma viagem ao céu e se ria, imaginando a tia Nastácia metida no embrulho, sem nada entender.
            Mas Lobato ainda estava envolvido com o petróleo, andava entretido com as gentes grandes. Quando foi preso, desistiu delas. Voltou-se completamente para os pequenos.
            Publicou, então, dezenas de livros. Entre eles, História do Mundo para Crianças, que fez com que um padreco da década de 50 acusasse Lobato de comunista. Tudo isso porque o livro explicava o surgimento do universo e da espécie humana segundo os conceitos científicos. Para o venerável sacerdote, dizer que o homem que conhecemos hoje é resultado de uma evolução milenar era sinônimo de comunismo. O sacerdote também achava comunista e anti-cristão o fato das histórias de Lobato não terem lição de moral...

Livro para baixar: O uivo da górgona

O uivo da górgona é uma história de zumbis diferente, em que um som estridente destrói o neocórtex e o complexo límbico das pessoas, transformando-as em seres irracionais, governados pelo complexo R. Além de uma história de horror é uma crítica ao processo, cada vez mais atual de massificação da humanidade. 
O livro está no site de financiamento coletivo Catarse (para quem não conhece, funciona como uma espécie de pré-venda, na qual a pessoa apoia e recebe diversas recompensas). Para acessar o projeto, clique aqui.
Clique aqui para baixar o e-book promocional e conhecer a história. 

A arte sensual de Alberto Vargas - o rei das pin-ups

Alberto Vargas é um artista peruano radicado nos EUA que durante vários anos publicou seus trabalhos na revista Esquire. Embora não tenha sido o criador das pin-ups, ele definiu o estilo ao pintar mulheres em situações sensuais, mas nunca explícitas. Suas mulheres eram garotas sapecas que oscilavam entre a malícia e ingenuidade. Sua inspiração era uma garota ruiva, Anna Mae Clift, que ele vira na rua e pedira para pintar. Ela acabou se apaixonando por ele e se casaram. 







Livro Ciência e quadrinhos


Lançado em 2005 pela editora Marca de Fantasia, Ciência e Quadrinhos faz uma abordagem histórica dos quadrinhos em sua relação com a ciência, desde o início, com as tiras de Buck Rogers e Flash Gordon (que se concentravam em antecipar a evolução da ciência e da tecnologia e previram, entre outras coisas, o forno micro-ondas e o formato dos foguetes espaciais) até os trabalhos mais recentes, que discutiam a questão da ética na ciência, como o Homem-animal, de Grant Morrison. Esse livro se tornou referência para o assunto, citado principalmente em trabalhos acadêmicos sobre uso dos quadrinhos na sala de aula.  

terça-feira, julho 16, 2019

Baiano e os novos caetanos



Baiano e os novos caetanos era um quadro de humor do programa Chico City que satirizava a tropicália. Composta por Chico Anysio (Baiano) e por Arnaud Rodrigues (Paulinho Boca de Profeta), a dupla fez muito sucesso, o que levou ao lançamento do disco Vô bate pra tu, em 1974. O disco era não só uma sátira, mas também uma homenagem a Caetano Veloso e Gilberto Gil, que na época haviam sido exilados pela ditadura militar.
A música de maior sucesso do disco (Vô bate pá tu) fala justamente da delação de artistas no período. Além disso, havia até mesmo crítica ao milagre econômico, como em O urubu tá com raiva do boi.
A parte humorística fica por conta principalmente dos comentários ácidos e non-sense de Chico Anysio, que lembram as falas de Caetano e Gil. 
Na música Cidadão da Mata, Chico fecha com o discurso, cheio de humor e de duplo sentido: "Amo, amo a mata! Porque nela não há preços. Amo o verde que me envolve... o verde sincero que me diz que a esperança, não é a ultima que morre. Quem morre por último é o herói. E o herói, é o cabra que não teve tempo de correr...". 
Em O urubu tá com raiva do boi, ele diz: "O norte, a morte, a falta de sorte... Eu tô vivo, tá sabendo? Vivo sem norte, vivo sem sorte, eu vivo... Eu vivo, Paulinho. Aí a gente encontra um cabra na rua e pergunta: 'Tudo bem?'
E ele diz pá gente: 'Tudo bem!' Não é um barato, Paulinho? É um barato...". Uma  fala ao mesmo tempo humorística, profunda e non-sense. 
Apesar de ser uma sátira, o disco ficou tão bom que fez enorme sucesso e levou seus autores a uma turnê pelo Brasil. Explica-se: além da humor e das letras engajadas, havia os ótimos arranjos musicais. De certa forma, pode-se dizer que Baiano e os novos caetanos era tão bom que pode ser incluído entre o melhor da tropicália.
Clique aqui para ouvir o disco. 

A Salamanca do Jarau


À primeira vista, título e capa de A Salamanca do Jarau podem assustar os leitores de quadrinhos. Afinal, o que é Salamanca? O que é jarau? E a capa não nos dá muitas pistas sobre o conteúdo. Entretanto, quem se aventurar a comprar essa graphic novel de Kipper (baseada na obra homônima de Simões Lopes Neto), editada pela editora Estronho, vai se surpreender com o que pode ser um dos melhores lançamentos do ano.
Kipper é um veterano dos quadrinhos (em 1991 ele fez a capa do volume Zona do Crepúsculo, com histórias minhas em parceria com o compadre Joe Bennett). Entre seus trabalhos mais famosos estão a revista Front.
Simões Lopes Neto é um dos grandes folclorista do Rio Grande do Sul, tendo reunido em sua literatura os causos e o modo de falar do gaúcho.
A Salamanca do Jarau narra uma história longa e complexa, que reúne a mitologia indígena do sul com as lendas europeias, em especial da moura encantada, princesas míticas que guardavam tesouros.
Blau Nunes, um típico gaúcho procura um velho mágico, conhece a história da Moura e passa por sete provas, ao final ganhando um prêmio que se revela uma maldição.
A linguagem do álbum é tanto mérito quanto dificuldade. Mérito porque dá o tom correto narrativa, dificuldade porque exige do leitor muita atenção para entender o que está sendo dito. Logo de entrada, temos: “Um dia, um gaúcho pobre, Blau de nome, guasca de bom porte. Mas que só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais. Estava conchavado de posteiro. Ali na estrada do rincão. E nesse dia andava campeando um boi barroso”.
Felizmente há um glossário no final do volume, que torna menos dificultosa a tarefa de entender o dialeto gaúcho.
Kipper é um quadrinista que une o talento sequencial ao melhor das artes plásticas.
Ou seja: é um volume lindo de ver e interessante de ler.
De negativo apenas o balonamento. O álbum lembra muito os quadrinhos europeus e ficaria com um ar ainda mais interessante se seguisse os tipos usados na Europa, ao invés da tipologia americana utilizada.

Condorito




Embora seja pouco conhecido no Brasil, Condorito é um dos personagens de histórias em quadrinhos mais populares da América Latina. Criado em 1949, pelo cartunista René Rios, conhecido como Pepo, o personagem surgiu como uma reação ao desenho animado Saludo amigos, que trazia um representante do Brasil (Zé Carioca), um do México (o galo Tribilín) e um dos EUA (o Pato Donald). Indignado por não ver seu país representado na película, Pepo resolveu bolar um personagem que fosse o símbolo do Chile.
Para isso ele se baseou no condor, uma ave símbolo dos andes.
Com o tempo, as aventuras do personagem foram ultrapassando as fronteiras do Chile e se tornaram populares em outros países da América do Sul, como Peru e Argentina. No Chile ainda hoje ele reina sozinho:  suas revistas são mais presentes nas bancas que as dos heróis americanos da Marvel e DC. Nos locais turísticos são vendidos imãs de geladeira com a figura do personagem no seu traje típico, com camisa vermelha (numa referência à camisa da seleção chinela), calça preta de campesino, boina e sandálias.
Condorito vive na cidade fictícia de Pelotillehue (que poderia ser traduzido como lugar de gente tonta).
Uma característica curiosa é que, embora a maioria dos personagens masculinos sejam mostrados de forma caricata, as mulheres jovens são sempre muito belas e atraentes, reflexo do talento de Pepo para desenhar beldades.
A estrutura das histórias é simples, com piadas que raramente ultrapassam uma página (algumas são de meia página) e sem continuidade. Embora haja personagens fixos, eles mudam de uma história para outra. O próprio Condorito sofre grandes transformações de uma tira para outra, em especial com relação às profissões: em algumas é padre, em outras é mecânico, em outras é militar. Em algumas histórias ele é esperto, em outras, atrapalhado ou simplesmente tonto.
Uma característica curiosa é que normalmente as tiras terminam com algum personagem caindo para trás, assustado com a situação cômica – e o desenho mostra apenas seus sapatos, como forma de destacar o humor da cena.

segunda-feira, julho 15, 2019

Monteiro Lobato: Prisão


      
      Lobato escreveu uma carta ao presidente Getúlio Vargas denunciando as sabotagens do Conselho Nacional de Petróleo e sugerindo uma ação decisiva do governo em favor do petróleo nacional. O que conseguiu com isso? Ser preso por injúria ao presidente.
            Como o escritor havia pedido passaporte para tratar da publicação de seus livros na Argentina, o militar que dirigia o Conselho Nacional de Petróleo concluiu que ele pretendia fugir e, com esse argumento, mandou prendê-lo até o julgamento. Outra acusação era de que a companhia de Lobato era patrocinada por organizações internacionais. Como prova anexaram ao processo duas cartas de estrangeiros. Uma era de um engenheiro uruguaio que felicitava o escritor pelo lançamento do livro O Poço do Visconde. Outra era um cartão de natal assinado por um tal de Merry Christmas (Feliz natal), o que demonstra a burrice dos militares.
            Lobato ficou seis meses na prisão, junto com assassinos e ladrões. Quando saiu, escreveu uma carta ao general Goes Monteiro (que mandara prendê-lo) agradecendo pela estadia: “É profundamente reconhecido que venho agradecer V. Excia. o grande presente que me fez, por intermédio do augusto Tribunal de Segurança, de uns tantos deliciosos e inesquecíveis dias passados na Casa de Detenção desta cidade. Sempre havia sonhado com uma reclusão dessa ordem, durante a qual eu ficasse forçadamente a sós comigo mesmo e pudesse meditar sobre o livro de Walter Pitkin (Uma Pequena Introdução para a História da Estupidez Humana)”.
            Mas, afinal, qual era esse mistério todo que envolvia o petróleo brasileiro? Por que todos que se envolviam com o assunto eram misteriosamente “acidentados”, “suicidados”, ou iam passar uns tempos na prisão? Por que os poços eram sistematicamente boicotados, quando não sabotados pelas entidades governamentais que deveriam apoiá-los?
            Lobato descobriu a resposta quando uma amigo seu foi ao Rio de Janeiro visitar as companhias de petróleo cariocas. Procurando, deu com o endereço de uma companhia desconhecida. Era uma distribuidora de gasolina da Standar Oil. Quem o recebeu foi um diretor, que se alegrou em encontrar alguém das companhias brasileiras, para os quais precisava contar umas verdades:
            - Vocês partem do ponto de vista de que o petróleo é um negócio nacional, de cada país. Não é. O petróleo é um negócio internacional da Standar. Ela criou esse negócio no mundo e o mantém contra tudo e contra todos. Contra a vontade da Standard país nenhum tira petróleo que haja em suas terras.
            Contou também que os melhores campos petrolíferos já estavam sendo estudados e comprados pela Standard. Na época os EUA era um dos principais produtores mundiais de petróleo e o Brasil um grande comprador. Não interessava, portanto, que o petróleo brasileiro fosse descoberto. Era mais negócio ir comprando as terras e esperar até que o petróleo americano acabasse para começar a tirá-lo do Brasil. Todos os principais funcionários do Conselho Nacional de Petróleo recebiam soldo da Standard para evitar que o Brasil descobrisse seu petróleo.
            Com isso, até Lobato desistiu. Estava desconsolado, triste com a vida. Para esquecer, traduzia: “A tradução é minha pinga. Traduzo como o bebedo bebe: para esquecer, para atordoar. Enquanto traduzo, não penso na sabotagem do petróleo”.
            O motivo para continuar vivendo, encontrou-o nas crianças. “Ah, Rangel, que mundos diferentes, o do adulto e o da criança! Por não compreender isso e considerar a criança como ‘um adulto em ponto pequeno’ é que tantos escritores fracassam na literatura infantil e um Andersen fica eterno”, escreveu ele ao amigo.
            Dedicou-se à saga do Sítio do Pica Pau Amarelo.


O problema é falta de talento



Existe uma visão, muito difundida atualmente, segundo a qual o meio intelectual e a academia não aceitam autores de direita.
Parece coisa de quem não lê.
Vejamos alguns exemplos.
Paulo Francis, um dos grandes nomes da direita brasileira, quando era vivo era leitura obrigatória entre os jornalistas. Quando trabalhava em jornal, a coluna dele na Folha de São Paulo era a primeira que a maioria lia. Eu recortava e guardava. Tinha uma pasta cheia desses recortes.
Nelson Rodrigues, um notório direitista, sempre foi considerado um dos maiores autores teatrais do Brasil, além de escritor e jornalista brilhante. Peças de filmes baseados na obra dele sempre fizeram muito sucesso, inclusive entre a crítica.
O autor argentino Jorge Luís Borges é considerado pelos intelectuais um dos melhores, senão o melhor autor do século XX e influenciou centenas de escritores, inclusive de esquerda. Umberto Eco homenageou-o no livro O nome da Rosa.
Lovecraft tem sido resgatado e cada vez mais analisado pela academia nas mais diversas áreas, da literatura à filosofia – e a rejeição que existia à obra dele estava muito mais relacionada ao fato dele ser um escritor pop do que propriamente os posicionamentos ideológicos. Autores nitidamente de esquerda, como Neil Gaiman e Alan Moore se dizem fã de Lovecraft – este último inclusive já escreveu duas obras em homenagem ao criador dos mitos de Cthulhu.
Em suma: o problema não é a pessoa ser de esquerda ou de direita. O problema é a pessoa não ter talento.  

A insólita Família Titã


No inicio da década de 1990, o desenhista Joe Bennett ainda não tinha iniciado sua vasta produção para o mercado norte-americano de super-heróis, no qual atuaria com personagens como Batman, Homem-Aranha, Thor e tantos outros. Ele ainda assinava seus trabalhos como Bené Nascimento.
Na época, um segmento que andava em alta era o de quadrinhos eróticos, e Bené tinha total liberdade de criação para realizar seus trabalhos para a Editora Sampa. Foi nessa fase que ele, em parceria com o escritor Gian Danton, produziu diversas HQs focadas no horror e na fantasia.
A Insólita Família Titã foi publicada nessa época em diversas revistas eróticas (numa tiragem total de mais de 150 mil exemplares), e ganhou muitos fãs, além de ter conquistado novos adeptos a partir do ano 2000, quando foi difundida na Internet.
Em 2014 a editora Opera Graphica relançou a história no formato de álbum de luxo, com textos sobre a importância da história e biografia dos autores, além de mais uma HQ, Powers, tornando-se um item de colecionador para os fãs dos super-heróis brasileiros.
Valor: 25 reais, frete incluso. 
Pedidos: profivancarlo@gmail.com. 

domingo, julho 14, 2019

Esses quadrinhos são um caos!


Há algum tempo, os cientistas descobriram a entropia, um princípio universal que estaria levando o universo inexoravelmente ao caos. A entropia é a perda de energia, ou informação. O caos está à nossa volta. Uma xícara de café que esfria é um exemplo de como ela está até onde menos imaginamos.

Depois os cientistas descobriram os atratores estranhos, os fractais, o efeito borboleta. Tudo isso, mais a entropia, forma a Teoria do Caos...

Mas o que tudo isso tem a ver com os quadrinhos? Simples, os quadrinhos foram a principal mídia a se apropriar desse discurso caótico. Sem se dar conta, os roteiristas formaram um batalhão para divulgar a nova teoria e convencer todo mundo de que o caos nos rodeia. Nesse artigo, vamos conhecer algumas dessas histórias baseadas, de uma maneira ou de outra, nessa teoria.


O ARTISTA E OS FRACTAIS
O exemplo mais óbvio é o roteirista inglês Grant Morrison. Ele falou do assunto abertamente em suas HQs. Numa das histórias do Homem-Animal, a Terra vai ser invadida pelos Tanagharianos (lembram? Aquele pessoal de asas do planeta do Gavião Negro...). E, para executar o primeiro passo do plano adivinhem quem eles convocam?
Um artista especializado em geometria fractal. Fractais são imagens de computador formadas a partir de fórmulas matemáticas. Elas formam imagens muito bonitas e o mais interessante é: se você ampliar uma parte do desenho, ele será muito semelhantes à imagem maior. Você pode passar a vida inteira ampliando um fractal e ele vai aparecer sempre com a mesma imagem auto-semelhante.
Lá pelo meio da história, o extraterrestre diz: "Talvez você esteja familiarizado com os conceitos da geometria fractal. Uma forma fractal é aquela que revela mais detalhes quando examinada de perto. Pode ser ampliada indefinidamente e ainda revela novas complexidades. Ocorreu-me que a vida em si pode ser entendida como tendo uma forma fractal! Noção interessante, não acha? Então fiz esta bomba!".
A artefato ia bombardear todos os humanos com uma torrentes de lembranças caóticas do próprio artista.


O CAOS DO DIA A DIA

Em outra história de Grant Morrison, Asilo Arkham, que ficou famosa por causa da cena em que o Coringa passava a mão na bunda do Batman, também há referências à teoria.
Uma psicóloga explica a personalidade do Coringa usando a Teoria do Caos. Segundo ela, o vilão era, num dia, um palhaço inocente e, no outro, um assassino perigoso. Tudo isso, porque não conseguia lidar com o caos de informações que recebemos dia após dia, instante após instante. Ao contrário de nós, ele não selecionava as informações que chegam e, para lidar com isso, tinha diversas personalidades. Em outra seqüência, o Chapeleiro Louco é visto numa sala de espelhos em que sua imagem se repete ao infinito.



SHOPPING CENTER CAÓTICO
Bill Sienkiewicz, desenhista de Elektra Assassina assimilou o caos ao seu estilo. As obra de Bill são repletas de informações numa única página. Ele e Alan Moore juntaram-se para fazer um vídeo caótico sobre a queda do Muro de Berlim e ganharam diversos prêmios. Gostaram da experiência e decidiram fazer uma minissérie sobre o caos. A revista chamou-se Big Numbers e contava a história de como a instalação de um shopping center pode mudar completamente a vida dos habitantes de uma cidadezinha do interior da Inglaterra. Deveriam ser 12 números, mas só foram publicados dois. As razões, só o caos explica. Deu bug no Sienkiewicz e eles simplesmente decidiram abandonar o projeto.



QUEM VIGIA AS BORBOLETAS
Mas a obra definitiva sobre o caos publicada em quadrinhos é Watchmen, de Alan Moore e Dave GibbonsWatchmen mostra um mundo modificado pelo surgimento dos super-heróis. Alan Moore baseou-se no princípio do efeito borboleta, segundo o qual pequenas modificações podem provocar grandes mudanças.
Na trama, há vários efeitos borboleta, ou seja, inúmeros pequenos eventos que acabam provocando grandes mudanças. Começa com algo que parece simples: o assassinato de um diplomata. Quando se descobre que a vítima era o herói Comediante, Rorschach inicia uma investigação a respeito de um matador de mascarados. As conseqüências dessa investigação acabam sendo imprevisíveis e o futuro da humanidade pode depender dos resultados da mesma.
 O próprio mundo está a caminho do caos, já que os EUA e a Rússia estão a um passo da guerra nuclear. E o único que pode impedir a catástrofe é Dr. Manhattan, um super-herói com jeito de Deus que se diverte construindo castelos fractais em Marte.
Mas a grande questão de Watchmen é: se o mundo é governado por pequenos eventos que têm grandes conseqüências, alguém poderia controlar o destino da humanidade por meio de sua manipulação? É possível ditar o que as pessoas desejam, seus ideais, o seu futuro? Só o caos, meus senhores... só o caos sabe a resposta.

Capas da Grafipar - a editora que saiu do eixo

Grafipar foi uma das mais importantes editoras brasileiras de quadrinhos. Especializada em quadrinhos eróticos, ela inundou as bancas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 com uma enorme variedade de revistas com a nata dos quadrinhos nacionais. Confira algumas capas da editora.









Como ser enganado por um psicopata

Camiño di Rato é uma das mais longevas revistas alternativas brasileiras, editada pelo roteirista Matheus Moura. Eu colaborei desde o primeiro número, com a história “Como ser enganado por um psicopata”, desenhada pelo Antonio Eder. Na história eu conto, em tom humorístico, a vez em que conheci um psicopata social e como eu e outras pessoas foram enganadas por ele. Foi graças a esse caso que comecei a pesquisar sobre o assunto. Antonio Eder sempre me surpreende positivamente. Seu traço consegue deixar qualquer roteiro mais interessante do que o roteirista havia imaginado. 

sábado, julho 13, 2019

Monteiro Lobato: o escândalo do petróleo




            Quando voltou dos EUA, onde morou na década de 1920, Lobato trouxe o sonho de tornar o Brasil um país tão próspero e rico quanto os EUA. Ele percebera que o petróleo era a base do desenvolvimento daquele país e a solução para desenvolver o Brasil era o petróleo. Mas não ia ser fácil dar petróleo ao Brasil. Para começo, não havia qualquer apoio governamental. Pelo contrário. Dizia-se e redizia-se que no Brasil não havia petróleo. Se houvesse algum, os americanos, espertos que eram, já o teriam descoberto, argumentavam. Lobato pensava diferente. Se quase todos os países com os quais temos fronteira retiravam petróleo, porque o Brasil, e só o Brasil teria sido boicotado pela natureza?
            Havia, inclusive, evidências. No início do século um geólogo dinamarquês descia um rio do Mato Grosso quando observou na água um óleo que alcançava a água através de um barranco. Foi acompanhando o rastro e encontrou um olheiro que soltava óleo em grande quantidade: até 600 litros por dia! Era petróleo. E dos melhores. O dinamarquês recolheu o óleo, analisou e correu para o Rio de Janeiro para pedir licença para exploração. Estranhamente, o governo se recusou a dar a licença.
            Em 1918 um sábio alemão chamado Bach foi parar em Alagoas. Achou que a região poderia ter petróleo e fez estudos. “Aqui há petróleo para abastecer o mundo”, concluiu. E formou uma empresa para explorar a mina.
            Súbito morreu. Quando atravessava uma lagoa com um canoeiro que não era o habitual, a canoa virou. Lá se foi o sábio para o fundo, enquanto canoeiro nadava tranquilamente para a margem...
            Mesmo com essas estranhices, Lobato inventou de formar uma empresa exploradora de petróleo. Com o dinheiro do petróleo entraria de sola no projeto de fabricar aço por um novo processo mais econômico e ecológico.
            Lobato começou a escrever em jornais, divulgando o petróleo brasileiro, e os acionistas começaram a aparecer.
            Certa vez foi no escritório um homem visivelmente pobre. O que não era de se admirar, já que a maioria dos acionistas era composta de gente humilde, que tinha o sonho de enriquecer. O susto veio quando o homem depositou na mesa uma grande quantia em dinheiro. Lobato piscou trinta vezes.
            - Mas, mas... gaguejou Lobato. Todo esse dinheiro...
            - São minhas economias. Guardei durante anos.
            O escritor, passado o susto, caiu um si. Onde já se viu, investir as economias de uma vida, todo o dinheiro, numa empreitada arriscada que podia dar em nada? Lobato disse isso ao futuro acionista.
            - Sei, sei de tudo. - respondeu ele. Estou investindo porque acredito que assim posso ajudar o Brasil.
            Lobato abaixou-se para pegar uma caneta que, de fato não tinha caído e, assim escondido, tratou de enxugar umas aguinhas que insistiam em cair-lhe dos olhos. 
            Começaram as escavações e com elas os problemas. Surgiram mais e mais dificuldades jurídicas, a maior parte delas provocada pelo órgão do governo que deveria incentivar a descoberta de petróleo. Um amigo de Lobato, que também estava engajado na campanha pelo petróleo, foi misteriosamente assassinado.

A arte espetacular de Dave Hoover


Dave Hoover foi um ilustrador, animador e quadrinista norte-americano. Ele é mais conhecido nos quadrinhos por seu trabalho nas séries Wanderes (DC) e Capitão América (Marvel). Também desenhou histórias do personagem Tarzan. Uma de suas características mais fortes é a sua haibilidade para desenhar mulheres.