sábado, maio 30, 2020

E-book do livro Cabanagem, de Gian Danton

1836. A cabanagem foi derrotada em Belém e se espalhou pelos rios da Amazônia. Um pequeno grupo de índios, negros e mestiços liderada pelo misterioso Chico Patuá se dirige para o Amapá singrando os pequenos igarapés da região. No seu encalço, o governo regencial mandou soldados comandados por um psicopata assassino, Dom Rodrigo. Em meio a essa disputa, soma-se outra, quando os seres da floresta resolvem tomar partido na contenda.
Cabanagem é um romance de fantasia histórica que mistura fatos reais com mitologia amazônica e terror no melhor estilo Gian Danton. Clique aqui para baixar o e-book com os primeiros capítulos. 

Um lugar silencioso


Todo filme de suspense depende sobremaneira da sonoplastia. Experimente assistir qualquer clássico do gênero sem som e verá o quanto a obra perde em impacto. Mas nenhum outro filme levou a questão da sonoplastia ao nível narrativo como Um lugar silencioso.
Na história, os humanos são perseguidos e mortos por seres praticamente invencíveis (não fica clara a origem deles). Mas as criaturas são cegas, orientando-se apenas pela audição.
Assim, acompanhamos a vida de uma família de sobreviventes e as estratégias usadas por eles para evitar qualquer tipo de barulho que possa aproximar chamar atenção das criaturas. Por essa razão, o silêncio domina quase toda a película – até mesmo os diálogos são em linguagem de sinais. Não há trilha sonora – exceto quando o casal de protagonistas está ouvindo música com fones de ouvido em um breve interlúdio romântico em meio à constante tensão.
O silêncio destaca ainda mais a sonoplastia a ponto do expectador se sentir tenso a qualquer mínimo barulho – e o que faz com que os sustos tenham efeito ainda mais aterrador.
O filme é tenso da primeira à última tomada e quando mal percebemos chegar ao fim tão envolvidos estamos com a história.
PS: Algumas pessoas que leram meu livro O uivo da górgona compararam as duas histórias – no meu livro o som tem papel semelhante, embora ali os monstros sejam os nossos já conhecidos zumbis.

Grafipar, a editora que saiu do eixo


No final da década de 1970, Curitiba se tornou a sede da principal editora de quadrinhos nacionais. A produção era tão grande que se formou até mesmo uma vila de quadrinistas. No livro Grafipar, a editora que saiu do eixo, eu conto em detalhes essa história. O livro inclui também algumas HQs publicadas na época e análise das mesmas.
Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

A arte incrível de Geraldo Borges


Nascido em Fortaleza, Geraldo Borges trabalha com quadrinhos desde 1997, quando desenhou a Revista Capitão Rapadura. Representado pelo Chiaroscuro Studios, maior agência brasileira de artistas para o mercado americano, tem feito trabalhos para a Marvel (Nova), DC Comics (Liga da Justiça, Mulher-Maravilha, Batman, Lanterna Verde, Legião dos Super-heróis, Asa Noturna, Superman, Aquaman), Dark Horse (Ghost) e Dynamite (Pathfinder).
Atualmente é  desenhista regular da série Angel Season 11, adaptação da série de TV criada por Joss Whedon, publicada pela Dark Horse. Além disso, é professor da Universidade Potiguar nos cursos de Design Gráfico e Jogos Digitais.












Deu a LOUCA na LIGA DA JUSTIÇA!

Experiências e livros

Monteiro Lobato já disse que um país se faz com homens e livros. Da mesma forma, um homem se faz de experiências e livros. Não há formação intelectual que não passe pela leitura.
O convite para integrar o especial "Biblioteca Básica" do site Digestivo Cultural me fez pensar em todos os livros que, de uma maneira ou de outra, ifluenciaram minha formação.
O mais remoto deles, parece-me, é pouco conhecido da geração atual. Mas fez as delícias de todos os jovens devoradores de livros da década de 80. Falo de Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida, publicado na época na coleção Vaga-lume.

Esse foi o primeiro livro que li (não estou contando os pequenos livros infantis dos quais guardo poucas lembranças). Devia ter algo em torno de 10 anos. Pode parecer uma discrepância eu ler meu primeiro livro aos 10 anos, mas há de se considerar que eu cresci em uma família pobre, na qual livros eram um luxo supérfluo.
Só consegui convencer minha avó a me dar o dinheiro para esse livro porque ele ia ser utilizado na escola. Na época vivíamos na pequena cidade de Mococa, no interior de São Paulo.
Eu mesmo fui à livraria, no outro lado da cidade e comprei o livro. Antes que o dia terminasse eu já o tinha lido inteiro. No dia seguinte, dia de frio, coloquei uma cadeira no quintal e, enquanto tomava um sol, li pela segunda vez.
Uma semana depois a professora iniciou a leitura em sala de aula, mas o rapaz responsável por ler o primeiro capítulo não havia nem mesmo aberto o livro. “Alguém já leu o livro?”, perguntou a professora. Eu levantei a mão: “Já li cinco vezes, professora”. Li tantas vezes que decorei. Os colegas me desafiavam lendo um trecho e eu, invariavelmente, conseguia dizer a página na qual aquele trecho estava. 
Aventuras de Xisto influenciou meu gosto pela história, especialmente pela história medieval. O clima sombrio e fantasioso também influenciou muito minha literatura. Minha novela O Anjo da Morte é uma espécie de Aventuras de Xisto para adultos. Gostaria de dar destaque também para as ilustrações do livro, de autoria de Mário Cafiero. Sempre imaginei ter uma história desenhada por ele.

Depois disso, eu não tinha mais como convencer minha avó a comprar outros livros e só fui voltar a ler uns quatro anos depois, quando descobri a biblioteca pública e os sebos. Foi época de conhecer Monteiro Lobato.
Não houve um livro específico que tenha me influenciado. Nessa época lia tudo que me chegava às mãos do autor paulista. Curiosamente, li primeiro sua literatura adulta, depois a infantil. Na literatura adulta, Urupês é sem dúvida a obra-prima. Lobato estava menos preocupado em fazer literatura e mais em causar uma impressão no leitor. Lembro que a primeira vez que li me pareceu um livro de terror... Da literatura infantil, História do mundo para crianças é, certamente, a obra que li mais vezes. Lobato era uma dessas inteligências enciclopédicas, que escreviam sobre tudo e em tudo deixavam um gosto delicioso.

Mais ou menos por essa época, tinha um amigo que colecionava a revista Heróis da TV e descobri um sebo que as vendia por um preço irrisório. Eu comprava as revistas e as vendia pelo dobro do preço, e assim conseguia dinheiro para comprar minhas próprias revistas. Antes de vender as revistas, eu passava o final de semana lendo. Só muito tempo depois fui perceber o quanto essas leituras me influenciaram, especialmente as histórias do Mestre do Kung Fu, de Dough Moench (roteiro), Paul Gullacy e Mike Zeck (desenhos).

1984, de George Orwell, foi a leitura que mais influenciou o período da universidade. Quando já estava no final do livro, fui comprar adubo para minha avó (que adora plantas). Como o troco demorasse, encostei no balcão e comecei a ler. Só sai de lá depois de ter lido a última palavra, para espanto dos balconistas. 1984 é um livro que deixa uma marca em quem o lê. É impossível sair dele o mesmo.
Também da época da Faculdade, O Nome da Rosa, de Umberto Eco foi um livro que prendeu minha atenção. Às vezes desconfio que só gostei tanto dele porque a ambientação era quase a mesma de Aventuras de Xisto. Em todo caso, li-o três vezes. Na primeira, o que mais me chamou atenção foram os detalhes sobre a história da Idade Média. Na segunda, os aspectos relacionados às teorias da comunicação (especialmente semiótica e teoria da informação). Na terceira, eu já estava mais interessado em detectar as influencias de Jorge Luís Borges sobre a obra.

Chegamos em Borges. O que mais me marcou no autor argentino não foi um livro, mas um conto: "O Aleph". O texto parecia uma versão literária de meus estudos sobre teoria do caos. A partir daí comecei a devorar tudo que me caía as mãos sobre o autor portenho. 
"O Aleph" me foi emprestado por um colega de redação na Folha de Londrina. Foi também ele quem me emprestou Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. Eu já havia lido Farenheith 451, mas esse parecia uma versão menor de 1984, de Orwell. Crônicas Marcianas tinha vida própria e fez com que eu me interessasse pela literatura de ficção científica norte-americana.
De Bradbury para Isaac Asimov foi um passo. Além das histórias de robôs, sempre me fascinaram seus textos de divulgação científica. Asimov produziu um verdadeiro tijolo, Cronologia das descobertas cientificas, que foi meu livro de cabeceira durante o mestrado.
Uma história em quadrinhos que mudou a minha forma de ver o mundo foi Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Moore virou de cabeça para baixo os comics norte-americanos ao mostrar os super-heróis de uma perspectiva realista. Histórias de heróis cuja vestimenta é uma fantasia sexual se misturam com casos de personagens que deixaram escapar bandidos porque precisavam ir ao banheiro. Pode parecer humorístico, mas a perspectiva não era essa. Moore realizou uma obra profunda sobre a condição humana em meio ao caos. O subtexto baseado na teoria do caos e na geometria fractal passou despercebido pela maioria dos leitores e só se tornou corrente no Brasil após o meu trabalho de conclusão de curso de graduação.

Já que falamos em teoria do caos, Caos: a criação de uma nova ciência, de James Gleick, é outro livro que exerceu grande influência sobre mim ao me mostrar o poder desse novo paradigma para explicar fenômenos não deterministas. Fenômenos deterministas são aqueles que seguem um padrão fixo, como um relógio. Para a ciência clássica, todo o universo era determinista. A teoria do caos demonstrou que esse modelo do universo como um relógio não corresponde à realidade. A maioria dos fenômenos, por mais determinados que pareçam, podem mudar de comportamento de uma hora para outra em decorrência de pequenas alterações, chamadas de efeito borboleta.
A teoria do caos foi uma das bases da teoria de Edgar Morin. Esse autor francês produz tanto que é quase impossível destacar um livro mais importante. Ciência com consciência, Sete saberes necessários à educação do futuro e A Cabeça bem-feita são alguns dos mais famosos. Morin defende uma nova visão de mundo, diversa daquela inaugurada por René Descartes, segundo a qual, para conhecer algo, é necessário dividir esse algo em pequenas partes e estudá-las um a uma.
Para Morin, as partes não podem ser vistas senão em sua relação com o todo. A teoria do caos demonstrou que tudo está relacionado. Uma pequena borboleta batendo suas asas na China pode desencadear uma série de eventos que redundam em uma tempestade em Nova York.
Morin critica a fragmentação dos saberes e defende uma ciência que vê as coisas em suas relações com outras coisas. Pensando bem, isso tem tudo a ver com a filosofia oriental que aparecia nas páginas das histórias em quadrinhos do Mestre do Kung Fu. Talvez tudo esteja mesmo interligado.

sexta-feira, maio 29, 2020

O conhecimento artístico


Durante muitos anos, a visão positivista do conhecimento colocou a ciência no topo de uma pirâmide. Logo abaixo dela, vinham conhecimentos tidos como inferiores, como a filosofia, a religião e o empirismo (chamado de conhecimento vulgar). Atualmente, filósofos e cientistas começam a concordar que existem outras forma de explicar o mundo, tão importantes quanto a ciência. Uma dessas formas, cada vez mais valorizadas, é a arte. Em filmes, quadros, livros e até histórias em quadrinhos podem estar a chave para compreender o homem e o mundo em que vivemos.
Edgar Morin acredita que a arte é um elemento essencial para analisar a condição humana. No livro A cabeça bem-feita ele diz que os romances e os filmes põem à mostra as relações do ser humano com o outro, com a sociedade e o mundo: ¨O romance do século XIX e o cinema do século XX transportam-nos para dentro da História e pelos continentes, para dentro das guerras e da paz. E o milagre de um grande romance, como de um grande filme, é revelar a universalidade da condição humana¨. Assim, em toda grande obra, seja de literatura, poesia, cinema, música, pintura ou escultura, há um profundo pensamento sobre a condição humana.
Entretanto, essa maneira de ter contato com o mundo representado pela arte foi marginalizado durante décadas. 

Preconceito

O círculo de Viena, importante grupo de intelectuais do início do século XX, acreditava que a imaginação era um corpo estranho à ciência, um parasita que devia ser eliminado por aqueles que pretendem fazer uma pesquisa séria.
Numa época em que o ciência era tida como a única forma válida de explicar o mundo, isso equivalia a uma sentença de morte contra a imaginação e a criatividade. Edgar Morin, no livro Introdução ao pensamento complexo  explica que a imaginação, a iluminação e criação, sem as quais o progresso da ciência não teria sido possível, só entrava na ciência às escondidas. Eram condenáveis como forma de se chegar a um conhecimento sobre o mundo.
A valorização da criatividade e imaginação só aconteceu muito recentemente. O filósofo Karl Popper, por exemplo, ao observar as pesquisas de Einstein, que ele considerava o mais importante cientista do século XX, percebeu que toda descoberta desse cientista encerrava um ¨elemento irracional¨, uma¨ intuição criadora¨. 
O trabalho de Thomas Kuhn, ao demonstrar os aspectos sociais e históricos na construção do conhecimento científico, abriu caminho para que a arte fosse resgatada como forma de conhecimento. Afinal, se o cientista é influenciado pelo mundo em que vive, ele também é influenciado pelos romances que lê, pelos filmes que assiste e até pelas músicas que ouve.
No Brasil, um livro importante para a aceitação da arte como forma de conhecer o mundo foi A Pesquisa em arte, de Silvio Zamboni. Na obra, o autor argumenta que a arte não só é um conhecimento por si só, como também pode constituir-se em importante veículo para outros tipos de conhecimentos, pois extraímos dela uma compreensão da experiência humana e de seus valores.

Intuição

            A aceitação da arte como conhecimento implica na necessidade de compreender como ela se desenvolve. Sabe-se que existe um lado racional na produção artística, mas também existe um componente não racional e, portanto, difícil de ser verbalizado.
Uma das obras mais relevantes para a compreensão desse processo é o livro Desenhando com o lado direito do cérebro, de Betty Edwards. Baseando-se em pesquisas científicas sobre a constituição do cérebro, ela percebeu que na maioria das vezes o cérebro esquerdo é dominante na maioria das pessoas, o que dificulta a livre expressão da criatividade, já que o lado esquerdo é racional, lógico e analítico, enquanto o lado direito é intuitivo e criador.  
Uma outra forma de compreender o fenômeno é relacionar o raciocínio com o consciente e a intuição com o inconsciente. Quando se pensa que algo foi esquecido, na verdade essa informação passou para o inconsciente, sendo lembrada em momentos específicos. O psicólogo Carlo Gustav Jung dizia que a intuição nos faz ver o que está acontecendo nos cantos mais escondidos de nossa mente. O filósofo Bergson afirmava que, através da intuição, problemas que julgamos insolúveis vão se resolver, ou, antes, se dissolver, seja para desaparecerem definitivamente, seja para colocarem-se de outra maneira.
A intuição surge quando o raciocínio lógico e a observação empírica falham em processar nosso contato com o mundo. A intuição surge repentinamente, sem a necessidade de qualquer percepção que passe pelos sentidos. Ela registra-se ao nível do inconsciente.
Casos de intuições são relatados nas mais diversas culturas e são tantos que desafiam uma catalogação. Após grandes acidentes aéreos é comum descobrir casos de pessoas que iam viajar naquele avião, mas, sem nenhuma explicação racional, decidiram voltar para casa.
A intuição e o uso do lado direito do cérebro não são exclusivos dos artistas. Cientistas, por exemplo, usam a intuição e a criação para elaborarem hipóteses. Entretanto, na arte, a intuição e a criação são fundamentais.
A intuição criadora, segundo os psicanalistas neofreudianos, estaria vinculada não ao inconsciente, mas ao pré-consciente, já que pode ser acessada quando ocorre um relaxamento da parte racional. Os artistas teriam essa capacidade plenamente desenvolvida, o que lhes permitiria criar obras que são importantes intuições da condição humana.

Discos voadores

Numa tarde de outubro de 1957, o futuro escritor Stephen King, então com 10 anos, estava em um cinema na cidade de Stratford, Conencticut. O filme chamava-se A invasão dos discos voadores. Na tela, os ocupantes de naves extra-terrestres eram criaturas velhas e extremamente maldosas, com seus corpos nodosos e cara enrugadas. Eles traziam raios mortais, destruição em massa e a guerra total.
Quando o filme se aproximava do clímax, as luzes acenderam e o gerente subiu ao palco. Ele parecia nervoso e pálido. ¨Eu gostaria de lhes comunicar que os russos acabam de colocar um satélite m órbita: ele se chama Sputinik¨, disse.
Um silêncio mortal tomou conta da platéia. Logo o filme recomeçou, com a voz gutural dos extraterrestres se espalhando por todos os lados: ¨Olhem para o céu... um aviso virá dos céus... olhem para o céu...¨.
King pela primeira vez sentiu medo ao saber que os russos tinham um mecanismo no espaço, talvez sobre sua cabeça. Mas na tela tudo acabou bem. O mocinho descobriu uma arma secreta e os discos voadores foram derrotados. Os alto-falantes anunciaram em todas as eqüinas: ¨Perigo superado... perigo superado¨ e o medo mais profundo daquelas crianças, o de uma guerra nuclear, foi extirpado. Segundo King, foi um momento mágico de reintegração e segurança. Ele concluiu que inventamos horrores imaginários para poder suportar os horrores verdadeiros.
Assim, as salas de cinema na década de 1950 eram imensos divãs de analistas, onde as pessoas faziam uma sessão coletiva de catarse, do medo da terceira guerra mundial. Não é por outra razão que esse tipo de filme se tornou extremamente popular na época.

Loucos tiranos
Processo semelhante aconteceu na Alemanha da década de 1920. Nessa época proliferaram os filmes expressionistas, com vilões em busca do poder. Exemplos disso são O Consultório do Dr. Caligari, em que um psicólogo usa de seus conhecimentos para induzir um sonâmbulo a praticar crimes e Dr. Marbuse (Fritz Lang, 1922), em que um vilão assume diversas personalidades e lidera um bando de assassinos que aterrorizam a cidade.
Siegrifried Kracauer no livro De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão explica que os filmes de uma nação refletem a mentalidade desta de uma maneira mais direta que qualquer outro meio artístico. Isso acontece por dois motivos. Primeiro, porque tais filmes nunca são produto de uma só pessoa. Segundo, porque são destinados a multidões de indivíduos anônimos e fazem sucesso por revelar processos mentais ocultos. Assim, os filmes expressionistas eram protótipos da loucura e tirania que tomaria conta da Alemanha na década de 1930, sob a égide do nazismo, o que jogaria o país e o mundo em uma guerra desastrosa. Da mesma forma que os vilões do cinema, Hitler teria colocado o povo alemão numa espécie de hipnose que libertaria seu lado mais cruel.


Antecipação espacial
A arte constantemente não só analisa a sociedade de uma época, como antecipa suas realizações. Exemplo disso são as histórias em quadrinhos de Flash Gordon e Buck Rogers.
A tira de Buck Rogers surgiu pela primeira vez em janeiro de 1929. Na primeira história os leitores dos jornais conheciam um piloto que adormecia por inalação de um gás radioativo e acorda no ano de 2419, numa época em que a América tinha sido invadida por orientais e os americanos resistiam escondendo-se nas florestas.
Logo na terceira tira, a heroína Wilma apresenta a Buck Rogers uma mochila anti-gravitacional que lhe permite dar saltos tremendos. Para direcionar o saltos, os homens usavam o recuo de pistolas, o mesmo método que seria usado posteriormente pelos astronautas norte-americanos.
            Em 1984, quando os primeiros astronautas passearam no espaço sem estarem ligados à nave, muitos se lembraram que a cena era muito parecida com aquela tira de Buck Rogers: havia a mochila e o recuo da arma sendo usado para direcionar o astronauta.
Flash Gordon surgiu pela primeira vez nos jornais em 7 de janeiro de 1934. Desenhado pelo talentoso Alex Raymond, logo entrou na galeria dos personagens que antecipavam descobertas científicas. Raymond, ao contrário dos criadores de Buck Rogers, não tinha a consultoria de um grupo de cientistas, o que provavelmente o deixou solto para suas intuições tecnológicas.
Flash Gordon antecipou o forno microondas, mostrou mil e uma utilidades para o raio laser, e até antecipou o uso da mini-saia pela mulheres.
A própria NASA admitiu num boletim oficial que as histórias em quadrinhos do personagem foram usadas para solucionar problemas de suas cosmonaves. Uma visão atenta nas fotos do projeto Apolo permitem perceber influências no formato das naves e até no traje dos astronautas, especialmente se compararmos com a fase de Flash desenhada por Dan Barry.
Mas Flash Gordon não foi só antecipação. A série representou bem um momento da história em que as pessoas tinham total confiança na ciência, na tecnologia e no racionalismo. Essa época ficou conhecida como modernidade. Hoje, num período pós-moderno, é fácil perceber os componentes modernos nas tiras do personagem. Os cientistas eram mostrados sempre como pessoas boas, que traziam soluções para os problemas da humanidade. Até mesmo quando estava relacionada a projetos militares, a técnica era vista como algo bom. Numa das histórias, por exemplo, Flash vai parar em um planeta semelhante à Idade Média terrestre. Os humanos ajudam um grupo de rebeldes ensinando-os a fazer armas de fogo. O líder agradece-os pelo conhecimento que levaram ao planeta: ¨Conhecimento para pensar e fazer coisas! Conhecimento que nos trará a verdade, e a verdade nos tornará livres!¨, diz ele, apontado para um arsenal de armas.
Hoje, filósofos pós-modernos criticam a relação entre ciência e militarismo, que já estava implícita nas tiras de Flash Gordon.


Júlio Verne
No campo das antecipações, também a literatura se destaca. Exemplo disso são os romances de Júlio Verne, também exemplos perfeitos da crença absoluta na técnica e na ciência. Verne não só antecipou descobertas científicas, como, principalmente ajudou a popularizar essa forma de conhecimento, inspirando vários cientistas. A relação de Verne ao influenciar e ser influenciado por cientistas, mostra como essa troca é mais complexa do que se imagina.
Verne publicou seu primeiro romance científico, Cinco Semanas Num Balão, em 1863. Há apenas cinco anos havia sido publicado o livro A Origem das Espécies, de Darwin. Há pouco tempo Pasteur divulgara suas descobertas, que derrubavam a teoria da geração espontânea e lançava a teoria dos vermes como causadores de doenças. As descobertas científicas ocorriam numa sucessão cada vez mais rápida. Entretanto, o povo, o cidadão comum, ainda via a ciência como uma desconhecida. A própria palavra ciência era relativamente nova em 1868. A ciência estava além do alcance do homem comum. Pouco havia sido escrito que ele entendesse, ou de um modo que o tentasse à leitura. Era costume, naquele tempo, deixar a ciência aos inventores e químicos com suas máquinas esquisitas e estranhos tubos e recipientes.
                Interessante notar que nos livros do autor de Vinte Mil Léguas Submarinas a ciência não aparece apenas como um apoio da narrativa. Verne profetiza um mundo onde ciência e técnica fazem parte do dia-a-dia do cidadão comum.
                Não há dúvida nenhuma, no entanto, de que primeiro romance de Verne, Cinco Semanas num Balão, foi baseado em fatos científicos da época. Verne era colaborador da revista Museu das Famílias, para a qual escrevia textos de divulgação científica. Esse trabalho o obrigava a passar longas horas na Biblioteca Nacional, consultando livros, revistas e toda sorte de documentos da época. Além disso, o escritor era amigo  de Nadar, cientista e fotógrafo e  entusiasta do vôo e do mais pesado que o ar.
O balão de Cinco Semanas, assim como o aparelho voador de Robur, o Conquistador, eram nada mais que a concretização literária dos sonhos de Nadar.
O escritor, que se deixou influenciar por cientistas e fundamentou seus livros no conhecimento científico da época, influenciou também ele os cientistas e técnicos. Vários cientistas e inventores declararam que tiraram sua inspiração dos livros de Verne.
Verne mostrou em seus livros diversas realizações que só se tornaram realidade tempos depois:  os aviões, os helicópteros, os submarinos, a viagem à lua. Nesse último item, ele intuiu até mesmo o lugar de onde sairia o foguete: o estado norte-americano da Flórida.

Seriados
Mais recentemente, seriados têm discutido a condição humana tão bem que têm chamado a atenção da ciência.
O seriado Arquivo X, sucesso durante anos nas televisões de todo o mundo, mostrou como poucas outras obras a condição do homem pós-moderno. Na modernidade, a humanidade e acreditava piamente na ciência e na razão. Havia a idéia de que a ciência e técnica nos levariam a um mundo perfeito, o sonho de Júlio Verne. Mas a modernidade não realizou suas promessas. Se por um lado, a medicina aumentou a expectativa de vida da população, a industrialização fez proliferar os casos de câncer. Essa mesma ciência foi usada pelos nazistas nos campos de concentração, em experiências cruéis e no assassinato em massa. E foi a ciência e a tecnologia que criaram a bomba atômica, um artefato capaz de destruir toda a vida humana no planeta. Assim, a pós-modernidade é justamente uma crítica à visão ingênua sobre a ciência. Em muitos sentidos, essa crítica se transformou num resgate dos saberes tradicionais, inclusive religiosos.
O homem pós-moderno vive, portanto entre o ceticismo da ciência e a crença em coisas que não podem ser provadas cientificamente, como a magia, as simpatias, o horóscopo, os discos voadores. Essa dualidade é representada pelos dois personagens principais da série Arquivo X: a agente Sculy é a cética, que só acredita naquilo que pode ser provado cientificamente. Seu parceiro, Mulder, ao contrário, tem no escritório um pôster com um disco voador e os dizeres: ¨Eu quero acreditar¨.
Outro seriado de grande sucesso é Lost, sobre sobreviventes de um desastre de avião presos em uma ilha misteriosa. Logo nos primeiros episódios, revela-se que alguns dos sobreviventes na verdade não estava no avião. Eram ¨Os outros¨, um grupo de pessoas que se infiltra entre os sobreviventes com objetivos escusos e chegam a raptar alguns dos protagonistas.  
Da mesma forma que os filmes de discos voadores sintetizaram o medo de uma invasão russa durante os anos 1950, Lost sintetiza o medo do homem ocidental no mundo pós-11 de setembro. A referência óbvia é o desastre de avião, que, cogitava-se, poderia ter acontecido por causa de um atentado. Uma referência mais sutil são os outros. Esses são os terroristas, que vivem entre as outras pessoas, sem levantar suspeitas, até o momento de agirem.
Dessa forma, a arte cria uma maneira de explicar o mundo que não só antecipa inovações científicas e tecnológicas, mas também analisa a sociedade e o homem de uma forma que outros conhecimentos não conseguem. Como diz Edgar Morin, no livro A cabeça bem-feita: ¨em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escutura, há um pensamento profundo sobre a condição humana¨.

Somerset Holmes



No início da década de 1980 o roteirista Bruce Jones, uma das grandes figuras da Marvel nos anos 1970 com uma passagem memorável pelo personagem Kazar, estava cansado dos quadrinhos. Seu sonho era escrever roteiros para Hollywood.
Nesse meio tempo, enquanto fazia uma fotonovela ele conheceu a modelo e atriz April Campbell, que também queria ser roteirista de Hollywood. Os dois se apaixonaram e casaram, mas o sonho de escrever para o cinema parecia distante.
Foi quando um editor propôs a Jones criar uma linha de quadrinhos totalmente do roteirista, dando-lhe liberdade total.
Capa original. 

O casal teve a ideia de fazer um roteiro de cinema e transformá-lo em um gibi, rezando para que algum executivo de Hollywood visse e comprasse os direitos para o cinema.
A minissérie Somerset Holmes conta uma história de uma mulher que, após ser atropelada, perde a memória. Ela é ajudada por um médico, que é assassinado. É apenas o primeiro de uma série de assassinatos misteriosos que ocorrem enquanto a garota (que adota o nome baseada em um anúncio de beira de estrada) foge. Ela precisa descobrir quem é para entender por que todos à sua volta morrem.
É uma trama complexa e inteligente com um final bem amarrado.
Capa original da minissérie 

Para desenhar, chamaram o velho parceiro de Bruce Jones, Brent Anderson.
O maior problema do álbum (lançado no Brasil dentro da coleção graphic álbum) é o fato dele ter sido feito como um story board para cinema, o que faz com que aproveite pouco a linguagem dos quadrinhos.
O leitor deve estar curioso para saber se a história virou filme. Um produtor de cinema comprou os direitos, mas não produziu o filme. Entretanto, Bruce e April conseguiram, graças a isso, entrar para a União dos roteiristas para cinema e TV e começaram a colaborar com filmes e seriados de TV, em paralelo com a produção quadrinística.
Até hoje Jones e April argumentam que o filme O longo beijo de boa noite, de 1996, estrelado por Geena Davis e Samuel L. Jackson é um plágio de Somerset Holmes.

O sequestro do metrô



Comprei o livro O sequestro do metrô , de John Godey (editora Abril Cultural) por dois reais em um sebo. Poucas vezes dois reais foram tão bem investidos.
O livro narra a história de um quarteto de ladrões que sequestra um vagão de metrô e exige um milhão de dólares em sessenta minutos, ou matarão os passageiros.
O autor, Morton Freedgood usou o pseudônimo de John Godey, pois pretendia guardar seu nome verdadeiro para livros mais sérios. No entanto, foi este livro que o tornou famoso e fez com que ele entrasse na história da cultura pop quando o livro se transformou em filme apenas um ano depois de ter sido lançado, em 1973.
A primeira qualidade que salta aos olhos no texto é o foco narrativo: cada capítulo é focado em um personagem, e alguns são focados em um grupo de personagens, como jornalistas, assessores do prefeito, a multidão que se forma em torno do sequestro. Com isso o autor consegue dar uma visão ampla de um fato, mostrando-o sob os mais diversos pontos de vista.
Soma-se a isso os diálogos afinados, que muitas vezes refletem as críticas sociais do autor à sociedade de sua época. As ligações recebidas pelos jornais, com vários movimentos tentando assumir a autoria do atentando ou de leitores sugerindo soluções para o empasse refletem bem isso.
Além disso, Freedgood, como se escrevesse uma reportagem, fez uma extensa pesquisa sobre cada detalhe do metrô de Nova York e sobre as forças policiais, seus modos de ação: tudo é descrito nos mínimos detalhes.
A forma narrativa escolhida pelo autor faz com que o livro não tenha um protagonista. É como se o próprio metrô fosse o personagem principal, ao redor do qual tudo gira.

Uma curiosidade é que no filme de 1974 os bandidos se chamam por cores, uma estratégia adotada posteriormente por Tarantino no filme Cães de aluguel. A partir daí, usar palavras para os bandidos se chamarem a si próprios tornou-se um padrão na cultura popular, como podemos ver em La casa de papel, em que os assaltantes da casa da moeda usam nomes de cidades como codinome.
O sucesso do filme fez com que as autoridades do metrô de Nova York temessem que alguém tivesse a mesma ideia. Uma das consequências disso é que foram banidas as saídas de trens de Pelham no horário de 1h e 23 minutos (exatamente o trem escolhido pela quadrilha pelo golpe).
O filme ainda foi inspiração para uma canção de Carter USM e outra de Beastie Boys.
Em 2009, o filme ganhou um ótimo remake dirigido por Tony Scott com Denzel Washington e John Travolta no elenco intitulado O sequestro do metrô 123 (disponível na Netflix).

Jornada nas estrelas – dia das bruxas



Robert Bloch é um dos grandes autores norte-americanos de terror. Discípulo de H.P. Lovecraft, ele foi autor do livro que deu origem ao filme Psicose, de Alfred Hitchcock, até hoje um dos mais assustadores da história do cinema. Ao ser convidado a escrever para Jornada nas Estrelas, era de se esperar que ele trouxesse seu tema predileto para o seriado. O resultado disso foi o episódio “O dia das bruxas”.
Nos seriado, Scotty e Sulu descem para investigar um planeta desconhecido e somem. McCoy, Spock e Kirk descem para resgatá-los e são aprisionados em um castelo medieval – em uma masmorra repleta de esqueletos.
Kirk acaba descobrindo que são prisioneiros de dois seres extraterrestres que aparecem para eles como magos – a mulher pode se transformar em gata e o capitão usa seu charme para descobrir a informação que irá ajudá-los a sair da enrascada.
É um episódio divertido, mas não chega aos pés dos bons episódios da série por uma série de razões, desde a produção pobre até o roteiro (que, afinal de contas não explica o que querem os dois alienígenas). Mas deixou frutos. A mistura de terror e ficção científica aparece em vários outros seriados, inclusive o distópico Logan´s run.
É curioso, no entanto, imaginar se Robert Bloch tivesse ousado trazer a mitologia lovecraftiana para o seriado, mesmo que disfarçada. O horror de Lovecraft é cósmico e se encaixaria bem na proposta de Jornadas. Já imaginaram a Enterprise se deparando com um dos deuses antigos?