terça-feira, agosto 16, 2022

O rei do quarto mundo

 


Em 1970, Jack Kirby foi contratado como estrela pela National (hoje DC Comics) com liberdade total para criar. Na década de 1960 ele, juntamente com Stan Lee haviam transformado a Marvel (principal rival da DC) na editora mais revolucionária dos quadrinhos americanos num movimento que a fez dominar o mercado de super-heróis, domínio esse  que dura ate hoje.
Kirby estreou num titulo autoral chamado Novos Deuses. Ele ficara famoso na Marvel ao desenhar principalmente o Thor, então o título era um recado: os velhos deuses da Marvel estavam mortos. Agora a supremacia seria dos novos. O texto de abertura do gibi era quase uma declaração nesse sentido: “Chegou o tempo em que os velhos deuses morreram! O corajoso pereceu com o ardiloso! O nobre definhou, aprisionado na batalha devido ao mal desencadeado! Foi o último dia para eles! Uma era antiga terminara com um feroz holocausto!”.
O texto demonstrava muito da mágoa de Kirby com a Marvel. Ele sentia que sua importância na reformulação da editora havia sido diminuída pelo excesso de exposição de Stan Lee, que sempre foi ótimo em marketing pessoal e era constantemente entrevistado pelos jornalistas que queriam falar dos novos quadrinhos Marvel, que haviam conquistado a nova geração, inclusive de intelectuais.
Na DC, Kirby, criativo com sempre (o roteirista Alan Moore diz que conseguia criar um mundo antes do café da manhã), queria criar toda uma saga que passaria pelas revistas Novos Deuses, Forever People e Mister Milagre... A ideia era posteriormente reunir essas narrativas, que ficaram conhecidas como Quarto Mundo, numa série de livros em capa-dura.
A saga contava a história de Nova Gênesis, um lar de deuses, em sua luta contra Apokolips, dominada pelo terrível Darkseid.  Ambos os planetas ficam na dimensão conhecida como o Quarto Mundo, a  maneira mais segura de se chegar a essa dimensão é através de  Tubos de Explosão.
Kirby criou todo um universo, e, a despeito do pouco sucesso e do cancelamento dos títulos de forma precoce, Os Novos Deuses foram  incorporados à cronologia do universo DC e têm participação importante em varias sagas cósmicas da editora.
Jack Kirby criou vários outros personagens, como Etrigan, o demônio, Kamandi e Omac. Também fez o Super-homem, mas como seu traço diferia muito do estilo dos outros desenhistas do homem de aço, o rosto do personagem era feito pelos outros artistas. Essa foi a gota d´água no já estremecido relacionamento do “Rei” com a DC comics .
Pouco tempo depois, Kirby acabou voltando para a Marvel, onde criou os Eternos (Fruto das suas leituras de Eram os deuses Astronautas de Eric Von Danikem)  Embora seu trabalho na DC fosse totalmente inovador e de ótima qualidade, faltava humanidade para os personagens. Nas histórias de deuses e criaturas super-poderosas faltava justamente aquilo que Stan Lee colocava nas histórias: o lado humano.
Mesmo não tendo feito grande sucesso de público, o Quarto Mundo redefiniu o universo DC. Para começar, a editora finalmente ganhou um vilão sério, alguém que se poderia temer. Antes dele, o melhor que a DC havia chegado em termos de vilões eram o palhaço Coringa e o cientista louco Lex Luthor.

A criação de Kirby ecoa até hoje nos quadrinhos da DC Comics. A editora foi marcada definitivamente pelas mãos do rei dos quadrinhos. 

Psicopatas: vidas de mentira

 

Psicopatas parecem pessoas acima de qualquer suspeita. 
A principal característica de um psicopata é a mentira. Todas as pessoas mentem, em uma situação ou outra, mas os psicopatas mentem o tempo todo, às vezes só pelo prazer de mentir, sem ganhar nada em troca, e é comum que eles mesmo acreditem em suas próprias mentiras. As mentiras são aliadas a uma grande capacidade de convencimento. Eles são capazes de dizer que já saltaram de para-quedas para logo em seguida dizer que nunca andaram de avião e ainda assim convencerem os interlocutores. 
Eles não só se contentam em dizer que são neurocirurgiões ou advogados. Eles usam e abusam dos termos técnicos das profissões que fingem ter.
Quer saber mais sobre psicopatas? Clique aqui.  

Assassinato no Expresso do Oriente

 


A primeira vez que soube da famosa obra de Agatha Christie foi através de um tremendo spoiller. Eu liguei a TV e a parte final da adaptação cinematográfica estava passando. Exatamente a parte em que Poirot desvenda o mistério do assassinato.
Dessa forma, demorei muito para me interessar em ler o livro. Afinal, em uma história policial, o mais importante é o desfecho. Se já conhecemos o final, o livro ainda pode trazer algum atrativo?
Para minha surpresa, sim. O assassinato no Expresso do Oriente é um tremendo livro, uma trama muito bem elaborada, com personagens marcantes e um mistério aparentemente indecifrável: um homem é assassinado em um trem e, embora haja muitas pistas, nenhuma delas parece solucionar o mistério.
Aliás, para mim, o interessante foi justamente identificar a forma genial como a autora planta pistas falsas ao longo da trama. Mais ainda: em certo ponto no final, a trama sofre uma reviravolta, uma revelação sobre cada um dos suspeitos que, ao invés de facilitar, torna ainda mais difícil destrinchar o mistério. Eu lia e pensava: que sacada!

Para quem não conhece o final, o livro deve ser ainda mais interessante. Um dos obrigatórios de Agatha Christie. 

Patrulha do Destino, de Gerard Way

 


Quando era adolescente, Gerard Way comprou um exemplar da Patrulha do Destino, de Grant Morrison, na pequena loja de quadrinhos perto de casa e ficou impressionado: era a primeira vez que via uma equipe de super-heróis fazendo terapia de grupo. Segundo ele, o gibi mudou sua vida e fez dele uma pessoa melhor.
Anos depois ele teve a oportunidade de escrever a Patrulha do Destino e é óbvio em cada página o quanto ele está se divertindo com tudo aquilo. É uma baita homenagem à fase de Morrison no título e é isso que os leitores poderão conferir no primeiro volume publicado pela Panini em 2019.
Como o próprio Way comenta no prefácio, é uma obra difícil de ser resenhada, e mais fácil de ser sentida. Mais difícil ainda de ser resumida. Na história, Danny, a rua que adquiriu vida da fase de Morrison, transformou-se numa ambulância, dirigida por uma garota ruiva, que não sabe ser uma heroína de quadrinhos. Mas tudo se revela quando uma corporação decide invadir Danny para triturar todas as pessoas ali com o objetivo de produzir comida para um fast-food.
Parece maluco – e é, da mesma forma que a fase de Morrison. Mas a narrativa é muito agradável, principalmente graças ao traço de Nick Derington. O desenho é simples, mas muito expressivo e, segundo o roteirista, Nick Derington ajudou com boa parte das ideias para a história.
É uma dupla que nitidamente funciona e um dos melhores exemplos disso é quando Casey (a heroína dos quadrinhos) descobre a verdade sobre sua origem: ela é toda contada com referências a quadrinhos clássicos. À certa altura, por exemplo, o texto diz: “Imagino que a essa altura você esteja tendo algum tipo de crise existencial, mas isso é de esperar” e o desenho mostra Casey na mesma posição do Super-homem na capa da clássica edição de Crise nas infinitas terras em que a super-moça morre.  
Vamos ver como essa série irá de desenvolver, mas até então é uma boa pedida para os fãs.

As vinhas da ira – o filme

 

John Ford retratou os personagens como pessoas reais. 


Na década de 1990 a TV Cultura passava diversos filmes clássicos sem intervalo. Se você pegava um filme pela metade, ficava sem saber o título. Foi o que aconteceu comigo quando assisti a uma película em preto e branco sobre uma família de retirantes na época da grande depressão norte-americana. O impacto foi imenso. Embora o tema fosse social, o filme era divertido, com uma narrativa fluída e um equilíbrio perfeito entre drama, humor e humanismo.
Passei anos procurando informações, perguntando para todos que conhecia... até descobrir que o filme que me prendera durante toda a noite era Vinhas  da Ira, de John Ford.
Lançado em 1940, as vinhas da ira era baseado no livro homônimo de John Steimbeck. Steimbeck fora enviado para fazer uma série de matérias sobre os agricultores expulos de suas casas pelos bancos na época da grande depressão e que sobreviviam em condições sub-humanas. Ficou tão chocado com o que viu que resolveu escrever um livro de ficção baseado no que vira.
O filme destacatou a dura vida dos oakis em busca de trabalho em plena depressão. 

Vinhas da Ira conta a história de uma família expulsa de suas terras no Oklahoma que migra para a Califórnia em busca de trabalho. A maior parte do filme se passa durante a viagem atravessando os EUA em um caminhão repleto de pessoas, colchões, panelas penduradas. O realismo é impressionante tanto no caminhão, que de fato, parece capaz de virar a qualquer momento (um dos personagens comenta à certa altura que seria um milagre chegarem na Califórnia com aquele veículo) quanto nas atuações. Os atores não parecem astros de hollywood: parecem antes terem saído diretamente dos acampamentos dos oakies, como eram chamados os retirantes.
Até mesmo o astro Henry Fonda parece alguém do povo, um homem sofrido e endurecido pela vida, mas com um forte senso de justiça. Jane Darwell, a mãe da família Joad também tem uma atuação marcante e sua imagem representa as pessoas do povo que, apesar de tudo, conseguem manter sua dignidade. Não por acaso, ela ganhou o oscar daquele ano como atriz coadjuvante.
Jane Darwell ganhou o Oscar por sua atuação no filme como a matriarca que consegue manter a dignidade mesmo em meio às maiores provações. 

O filme em nenhum momento descamba para o dramalhão, apesar do tema. Tudo é muito sutil e, talvez por isso, pareça algo tão impactante. Em uma cena, por exemplo, o pai da família entra numa lanchonete de posto de gasolina e pede dez centavos de pão para dar para a avó. O dinheiro não paga um pão inteiro, mas mesmo assim a garçonete o vende e, quando vê as crianças esfomeadas observando um doce, os vende dois por um centavo, quando na verdade cada um custava cinco centavos. É um dos momentos mais emocionantes da obra.
Mas momentos de ternura como esse são raros. Por onde passam, os Joad são escorraçados, perseguidos, explorados. Grandes fazendeiros se aproveitam da situação de miséria para oferecer salários de fome de modo que toda a família trabalhando consegue ganhar apenas um dólar ao final do dia – o suficiente apenas para que não morram de fome.
Tudo isso é mostrado com uma fotografia impressionante. A iluminação hollywoodiana não funcionaria em uma obra tão realista. A casa de um retirante muito iluminada simplesmente não pareceria verossímil. Em uma das cenas, os atores são iluminados apenas por um fósforo e conseguimos ver com perfeição os atores e suas expressões sofridas.
O filme não é tão depressivo quanto o livro e seu final dá ao expectador uma ponta de otimismo. Mesmo assim entrou para a história como uma das mais pulgentes críticas sociais já feitas.

Dica de roteiro: não leia só quadrinhos

 


Tenho visto muitos pretendentes a roteiristas que leem só quadrinhos. Pior: leem apenas um tipo de quadrinho, como mangá ou super-heróis.
Nunca conheci um roteirista que não fosse um leitor voraz. Quando visitei o estúdio Maurício de Sousa Produções, espantei-me com a biblioteca e com a enorme variedade de livros: filosofia, geografia, romances, poesia. Para o leigo pode parecer desnecessário ler filosofia para escrever uma história da Turma da Mônica, mas os mais antenados devem se lembrar da mais antológica história do Piteco, toda elaborada a partir do mito da caverna, de Platão.
Nas oficinas de roteiro que eu ministrava, costumava levar dezenas de quadrinhos dos mais variados tipos para que os alunos conhecessem. Cada dia uma leva diferente. Um roteirista deve conhecer e ler de tudo, deve ter seus horizontes ampliados, especialmente se não quiser se transformar numa simples cópia deste ou daquele autor.
A minha própria formação passou pelos quatro cantos do mundo. Minha primeira influência foram os britânicos, como Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison. Mas aprendi muita coisa com o franco-belga Charlier (roteirista do faroeste Blueberry), um mestre absoluto do suspense e da capacidade de colocar seus protagonistas em situações limite das quais eles eram capazes de sair de maneira absolutamente verossímil. O japonês Kazuo Koike (Lobo Solitário) e o argentino Héctor Oesterheld (O Eternauta) são outros roteiristas que me influenciaram. Ou seja: minha formação quadrinística passou por vários países e linguagem.
Mas também tive influência de uma penca de escritores, de George Orwell a Monteiro Lobato, passando por Edgar Allan Poe, Ray Bradbury (toda a sequência final da graphic Manticore foi uma homenagem ao estilo de Bradbury) e muitos outros.  
Mesmo o festejado Alan Moore teve forte influência literária. A estratégia de contar uma história a partir de vários pontos de vista (usada por ele em Monstro do Pântano) foi, segundo ele mesmo, copiada de Gabriel Garcia Marques. A narrativa que chamo de mosaico, usada por Moore também no Monstro do Pântano, de mostrar vários fatos específicos para mostrar o impacto de algo grande veio direto de Charles Dickens.
Ou seja: um roteirista deve ter como princípio básico ler. Ler de tudo. Ler sempre. E ler cada vez mais

segunda-feira, agosto 15, 2022

Histórias da dupla Gian-Bené - Filando revistas

 


Fazer quadrinhos dava pouco dinheiro. Assim, não tínhamos grana para comprar o material mais caro, como álbuns de quadrinhos. Mas mesmo assim gostávamos de visitar a livraria Ponto e Vírgula, única que tinha uma sessão de quadrinhos em Belém.
Sem dinheiro para comprar, ficávamos o tempo todo folheando as revistas, livros e álbuns e depois simplesmente íamos embora, na cara de pau.
O Bené gostava especialmente de folhear livros de arquitetura. Era fascinado pelo tema. Claro que esses eram os mais caros, de modo que nunca havia dinheiro para comprá-los. Mas eu sempre me espantava com a memória fotográfica do compadre. Ele folheava o livro inteiro. Chegando em casa, desenhava os prédios, de cabeça.
Isso se refletia em nossas histórias, em especial no visual expressionista das cidades em que se desenrolavam nossas histórias de terror, a exemplo da Noir. Era tão bom nisso que chegou a trabalhar em escritórios de arquitetura, fazendo aquilo que muitas vezes nem os arquitetos conseguiam fazer. Aliás, sua habilidade para cenários foi percebida até por Alan Moore. Em um dos roteiros de Supreme, o mago inglês escreveu que o Bené iria adorar aquela história por ela lhe dar a oportunidade de desenhar vários prédios expressionistas.
O expressionismo, aliás, foi uma grande influência para nós, em especial o cinema alemão da década de 1920.
Na época eu peguei emprestado com uma professora (a grande crítica de cinema Luzia Alvares, que durante décadas teve uma coluna sobre o assunto no jornal O liberal) um livro sobre o cinema expressionista alemão. Era uma belíssima obra, repleta de imagens, sinopses de filmes, análises. Eu e Bené devoramos o livro. Na época não havia a facilidade que existe hoje de se conseguir assistir a filmes antigos, de modo que muitas das obras que nos influenciaram nós só conhecíamos por aquele livro.
Muito do expressionismo pode ser encontrado nas nossas HQs, desde a ênfase no cenário, muitas vezes distorcido, aos personagens perturbados e muitas vezes loucos.
Anos depois, quando fui fazer especialização em artes visuais, meu tema foi exatamente o filme fundador do movimento: O gabinete do doutor Caligari.
Outro livro que acabou sendo uma grande influência em nosso trabalho foi o volume Magia negra e feitiçaria, da coleção Prisma. Consegui num sebo a preço mais baixo que uma passagem de ônibus e levei para o Bené. Ele adorou os desenhos e certamente o clima sombrio dos mesmos foi uma influência. Além disso, usamos várias informações ali para compor histórias. Se não me engano, foi nesse livro que o Bené achou a informação sobre o demônio das moscas, que deu origem à história Belzebu, uma das mais famosas da dupla. 

Heróis em ação

 

Heróis em ação foi uma revista publicada pela editora Abril entre 1984 e 1985 com personagem da editora norte-americana DC Comics. A Abril havia acabado de adquirir os direitos de publicar a DC e os personagens que não se encaixaram nos títulos Batman e Super-homem foram colocados nesse título mix. Em 1985, a revista foi descontinuada (juntamente com a do homem-morcego) para dar origem à revista Superamigos, um tijolão, com o dobro de páginas.
Como teve apenas 10 números e publicou duas das mais revolucionárias HQs da época (Novos Titãs e Esquadrão Atari), a revista passou a cultuada pelos fãs.
Confira abaixo algumas das capas.




Roteiro de quadrinhos: a jornada do herói

  Publicado em 1949, O herói das mil faces foi um livro que revolucionou o estudo sobre as mitologias e religiões. Influenciado por Freud e Jung, Joseph Campbell vasculhou dezenas de culturas em busca de semelhanças entre seus mitos e os significados dos mesmos. O resultado foi esquematizado em doze passos, seguidos pela maioria dos protagonistas das narrativas analisadas. O resultado, além do impacto sobre o estudo mitológico, teve uma consequência inesperada: esse esquema foi usado por George Lucas para construir o roteiro de Guerra nas Estrelas. Esse fato deixou claro que o livro servia não apenas para explicar mitologias antigas, mas funcionava bem para analisar narrativas contemporâneas. 

O primeiro passo do herói é o chamado à aventura. O herói é tirado de sua vida pacata e sem perigos por algum acontecimento que o chama à ação. "Um erro - aparentemente um mero acaso - revela um mundo insuspeito, e o indivíduo entra numa relação de forças que não compreende, que estão acima dele". Esse chamado, que pode ser uma simples aventura, como em O Senhor dos Anéis, ou uma busca religiosa, esconde uma verdade sobre o despertar do eu. É também um momento de separação dos pais e de um novo renascimento, que levará à vida adulta. O agente que anuncia a aventura pode ser sombrio ou aterrorizador, ou uma figura misteriosa. Em Promethea, de Alan Moore (talvez a história em quadrinhos que melhor ecoa questões mitológicas), a heroína é atacada por um Smee, uma espécie de demônio, o que a faz se transformar na heroína mitológica. 


Vale lembrar que, de início, o herói recusa o chamado e esse é o segundo passo. Não por acaso, Robinson Crusoé inicia com uma preleção sobre os benefícios de uma vida de classe média, sem aventuras ou dramas. Segundo Campbell, "a recusa é essencialmente uma recusa a renunciar àquilo que a pessoa considera interesse próprio". Vale lembrar, em Guerra nas Estrelas, a indecisão de Luke em seguir a aventura ou permanecer na vida pacata com seus tios. Estes, aliás, o advertem sobre os perigos da jornada. Na maioria dos mitos, o herói adere ao chamado, seja Frodo sendo obrigado a fugir com o anel, seja Luke impulsionado a salvar a princesa, seja Robinson embarcando em um navio. Aceita a aventura, o herói geralmente conta com um auxílio sobrenatural. Os jovens de Caverna do Dragão, por exemplo, contam com o auxílio do misterioso Mestre do Magos. Esse guia fornece os amuletos e os conselhos que o herói precisa para continuar a jornada, mas, como o Mestre dos Magos, não interfere diretamente na aventura. Em Guerra nas Estrelas esse papel é exercido por Obi Wan Kenobi e posteriormente por Yoda. A jornada é do herói e é ele que deve seguir esse caminho. 
  


O quarto passo é a passagem pelo limiar. Em Promethea esse momento é retratado na ida da personagem para a Imatéria. Em Crônicas de Narnia é o guarda-roupa, que dá passagem a todo um universo mágico. "Além desses limites, estão as trevas, o desconhecido e o perigo, da mesma forma como, além do olhar paternal, há perigo para a criança", escreve Campbell. O limiar representa a ida para o inconsciente, repleto de libido e de ameaças de violência. EmPromethea, a protagonista, ao passar para a Imatéria, encontra uma chapeuzinho vermelho que segura uma arma, fala palavrões e um imenso e apavorante lobo. Todos imagens arquetípicas. 

O quinto passo é a entrada no ventre da baleia, as provações e encontro com os inimigos. Nessa fase é comum o autoaniquilação. O corpo do herói pode ser cortado, desmembrado e ter suas partes espalhadas pelo mundo, como Osíris, que é morto por seu irmão Set. Essa fase representa o renascimento espiritual do herói, o desapego do ego, uma vez que essa é uma jornada de transformação. Nessa fase também é comum encontrar metáforas da mãe ou o pai, muitas vezes transformados em vilões. Luke, por exemplo, descobre que Darth Vader é seu pai. Como a jornada é um processo de individuação, o herói precisa matar a influência dos pais sobre ele. 

O passo seguinte é a apoteose, no qual o herói obtém vitórias. Muitas vezes esse passo é representado por um casamento sagrado, como Flash Gordon se casando com Dale Arden, pela sintonia com o pai-criador, pela própria divinização (Osiris sendo recomposto). Se as forças se mantiverem hostis a ele, essa fase é representada pelo roubo por parte do herói daquilo que ele foi buscar, como Prometeu roubando o fogo. 

Terminada essa etapa, cabe ao herói voltar para casa. Pode ser uma volta simples, abençoada pelos deuses, ou uma volta difícil, como a de Ulisses ou a dos protagonistas da Caverna do Dragão (um mito que ficou incompleto, uma vez que eles nunca retornaram). 

Em todo caso, o herói volta transformado e maduro e essa transformação se reflete no mundo, como Promethea provocando o fim do mundo que conhecemos e, com isso, construindo um mundo melhor.

Em suma: o herói das mil faces se torna essencial para os que querem entender melhor as mitologias, antigas e novas, apesar de Campbell nem sempre ser direto e muitas vezes se perder em alguns discussões não diretamente relacionadas ao tema. Apesar disso, o livro se destaca pela leitura intrigante e pela prosa fluída de seu autor, que exemplifica suas ideias com mitos de diversas parte do globo.

Oliver Twist

 


Já vi gente dizendo que queria ser roteirista de quadrinhos, mas não lia, ou lia apenas quadrinhos e, pior, só lia quadrinhos de super-heróis, ou só manga. Não é possível escrever, o que quer que seja, com o mínimo de competência, sem ser um leitor voraz, inclusive de livros.

E, entre todos os livros, existem aqueles que são leitura obrigatória por terem definido formas de narrativa. Entre eles, Oliver Twist, de Charles Dickens. O livro foi publicado em capítulos em jornais no ano de 1837, quando o autor tinha apenas 25 anos reflete a vida do próprio Dickens, cuja família passou necessidades na época em que seu pai foi preso por dívidas e os filhos tiveram que trabalhar.
O livro se passa em plena era vitoriana, quando o império britânico era o maior e mais poderoso do mundo. Mas todo esse poder e riqueza não se refletia sobre a população, que, em grande parte vivia na miséria. As péssimas condições de vida da época da são demonstradas na figura de um pequeno órfão, Oliver Twist, cuja mãe morreu de seu parto e passou a ser criado em um orfanato onde passava fome e era submetido a maus-tratos. Seguindo a ideologia científica da época, muitos dizem que Oliver, por ser filho de uma mulher sem virtudes, se tornará um ladrão e acabará na forca.
Uma das cenas mais antológicas do livro e certamente a de imagem mais forte, é a do refeitório, no qual as crianças, ao perceberem que vão morrer de fome, sorteiam um deles para pedir mais sopa (uma papa rala de cereais com cebola duas vezes por semana). O pequeno órfão é encarcerado e a reclamação é vista como mais um exemplo de que sua inclinação ao crime o levará à forca.
Depois disso, Oliver é quase colocado como limpador de chaminés (um dos trabalhos mais cruéis executados por crianças na época, já que elas eram descidas de cabeça para baixo e muitas vezes morriam por causa da fumaça ou do fogo) e acaba como aprendiz de um agente funerário, de onde acaba fugindo depois de ser vítima de uma armação.
Em sua fuga, o pequeno Oliver acaba indo parar em Londres e mas garras de um receptador especializado em adestrar crianças na arte do roubo, Fagin, o judeu (um personagem tão forte que posteriormente Dickens teve que escrever um texto tentando desfazer o anti-semitismo que o seu romance involuntariamente provocara).
E, mesmo em meio às desgraças, Oliver mantém-se sempre honesto e bom.
O livro vale tanto pela denúncia das condições sociais da época da Inglaterra à época da revolução industrial quanto pela genialidade do autor em sua narrativa repleta de ironia. Dickens é o mestre absoluto do recurso, como se observa no trecho a seguir: “Nos primeiros seis meses, após a mudança de Oliver Twist, o sistema esteve em pleno funcionamento. Foi um pouco dispendioso, a princípio, em consequência do aumento na conta do agente funerário e da necessidade de apertar as roupas de todos os indigentes, que flutuavam soltas nas suas formas encolhidas, mirradas, depois de uma semana ou duas de papas. Mas o número de inquilinos do asilo tornou-se dessa maneira reduzido; e o conselho muito se alegrou com esse resultado”.
O esquema de folhetins, precursores das atuais telenovelas, e dos quadrinhos, já existia, mas Dickens transformou-o em verdadeira literatura numa trama repleta de reviravoltas e suspense, com um protagonista ingênuo, mas bom, que se vê envolto por um destino cruel, mas triunfa no final graças à sua pureza de caráter. Lembra muito a estrutura das telenovelas clássicas, que lhe devem muito, mas nenhuma telenovela igualou-se a Dickens na crueza das descrições, nos perfis detalhados dos personagens, na crítica social e até mesmo no poder narrativo.
A sequência em que um ladrão assassina sua consorte está entre as páginas mais poderosas já escritas em todos os tempos. Os pequenos gestos, executados instintivamente, desvelam o conflito interno do personagem de forma muito mais efetiva que vários tratados de psicologia.

Existem várias versões reduzidas do livro à venda, inclusive uma da coleção O prazer da leitura, da editora Abril, que foi vendida em bancas e pode ser facilmente encontrada em sebos. Mas se puder, leia a versão integral (é possível conseguir em sebos). A necessidade de reduzir o texto faz com que a maioria das versões condensadas deixe de lado exatamente o que Dickens tem de melhor: sua fina ironia e as descrições detalhadas de personagens e ações. Mas, se não encontrar uma versão integral, leia a versão condensada: o livro é uma aula de como prender o leitor com uma narrativa folhetinesca. 

Panthéon de Paris

 



O Panteão era originalmente uma igreja dedicada a Santa Genoveva. Quando eclodiu a Revolução Francesa, o prédio foi transformado em um ponto histórico, onde são enterrados os grandes nomes franceses. Voltaire e Rousseau estão enterrados lá, um de frente para o outro. Ali também está o túmulo do famoso escritor Victor Hugo.
A arquitetura neo-clássica, por si só já é digna de nota, mas o local tem muitos outros atrativos. O edifício é no formato de uma cruz grega e tem várias pinturas e estátuas, inclusive dois conjuntos frente a frente: um em homenagem a Rousseau, outro em homenagem a Voltaire.
O altar da igreja foi substituído por uma homenagem aos revolucionários. Danton é o primeiro da esquerda.

A nave principal é curiosa: o altar foi substituído por um monumento em homenagem à revolução francesa (é possível ver, entre as estátuas, Danton, saudando Marianne, a deusa da razão e da liberdade). Um pouco antes temos o Pêndulo de Foucault, a experiência realizada por Jean Bernard Léon Foucault para demonstrar a rotação da terra.
O panteão é uma verdadeira viagem pela história e ciência francesas.
O Pêndulo de Foucault provou que a terra se move.




Túmulo de Rousseau

Túmulo de Victor Hugo
Conjunto de estátuas em homenagem a Voltaire. 

O estígma do Superman

 


A série Mundo real foi criada pela DC para mostrar histórias em que pessoas normais têm sua vida afetada por ícones do mundo DC.

No volume O estigma do Superman, um homem tem toda a sua vida modificada quando uma gangue tatua o símbolo do homem de aço em seu peito.

A grande atração do volume é o traço belíssimo de Garcia-López. 


A história se passa na década de 1950 e acompanha Eddie, um rapaz franzino e tímido atormentando por uma quadrilha. Quando o líder da mesma percebe que sua namorada pode estar interessada no garoto, resolve dar uma lição no rapaz: após embebedá-lo, fazem a tatuagem, que destrói definitivamente a vida do rapaz, fazendo com que ele perca até o emprego e não consiga nenhuma outra colocação.

A grande atração da história é o traço de José Luís Garcia-López, que reproduz com perfeição o período rockabilly, a começar pela belíssima página inicial.

O protagonista perde o emprego e cai em desgraça em decorrência da tatuagem com o símbolo do Superman. 


O roteiro de Steve Vance é competente ao criar uma história de queda e redenção, mas escorrega em detalhes. Por exemplo: à certa altura o vilão inicial é simplesmente esquecido e a situação não é resolvida, ficando como uma tremenda ponta solta.  

domingo, agosto 14, 2022

O filme da dupla Gian-bené nunca realizado

 

Story board do filme do Penumbra.


Em 1991 a TV Manchete realizou um concurso de curta-metragens. Os interessados enviavam o roteiro de um filme e os melhores ganhavam uma câmera para produzirem seus curtas.
Óbvio que quem criou o concurso não imaginou que alguém pudesse apresentar a proposta de um vídeo com super-herói, mas o Bené se empolgou assim mesmo.  Já tinha até mesmo a ideia de como seria: o nosso herói Penumbra salvando reféns dentro de um ônibus. Veio e me contou toda a ideia, do desenvolvimento da trama até o momento apoteótico em que o Puritano entrava no ônibus quebrando a janela traseira e derrotava os malfeitores.
Eu tinha minhas objeções:
- Mas, Bené, onde é que vamos arranjar um ônibus para filmar isso?
- Compadre, é fácil. A gente vai nas empresas de ônibus. Uma delas vai acabar nos emprestando o ônibus em troca de aparecer como patrocinador.
Eu ainda continuava com dúvidas:
- Tem certeza de que algum dono de empresa vai nos deixar quebrar o ônibus para fazermos esse filme?
- Vai ser só a janela de trás.
- Ah tá... não, espera! Essas janelas são caríssimas!
Mesmo assim Bené conseguiu me convencer a escrever o roteiro. Aliás, ao invés de fazer o roteiro, pulamos direto para o story board! Passamos semanas nisso, discutindo a história, criando as sequências, eu bolando os diálogos.
Ganhamos o prêmio? Nada. Na verdade, nem mandamos. Nesse meio tempo o Bené já não estava tão certo de que um filme de super-heróis seria bem aceito pelos críticos de cinema que iriam julgar os roteiros... e ainda havia a dificuldade de achar um empresário bom samaritano disposto a nos dar um ônibus para destruir durante as filmagens...
No final, acabou ficando só o story board mesmo.
O curioso é que, lendo o roteiro, percebo a forma como contornamos o problema do ônibus. Substituímos ele por algo mais fácil de achar em Belém: uma catedral gótica!

Sonja - caçada mortal

 

 


Sonja, caçada mortal foi a primeira história produzida pela dupla Bruce Jones (roteiro) e Frank Thorne (desenhos) para a guerreira ruiva. Publicada em Marvel Feature 2, essa história já trazia todos os elementos que fariam da personagem um sucesso, a começar pelo belíssimo traço. Thorne aproveitou o traje criado por Esteban Maroto e deixou a figura da heroína ainda mais imponente, com seus vastos cabelos vermelhos esvoaçando ao vento, como vemos na página de abertura, e olhos felinos.

Na história, a ruiva resolve roubar um saqueador. Para isso, ela coloca uma cobra sobre seu peito enquanto ele está dormindo, o que lhe permite se apropriar de todos os seus bens, incluindo uma chave de ouro pendurada em seu pescoço. Mas o salteador resolve caçá-la e a segue, espalhando um rastro de sangue por onde ela passa, até o final apoteótico, com a guerreira no deserto, morrendo de sede e encontrando apenas riachos envenenados.
Bruce Jones ainda acrescenta à história um rapaz perneta, com um enorme complexo de inferioridade em decorrência de sua deficiência, dando um ar humano para a trama.

O desenho, por outro lado, não era só bonito. A diagramação também era diferenciada, com a personagem vazando para outros quadros. Em uma sequência em que a ruiva luta contra pictos é emoldurada pelo rosto da guerreira, com seus cabelos separando os quadros.
Enfim, uma belíssima aventura que mostra bem porque a personagem se tornou tão popular.
Essa história foi publicada no Brasil em Heróis da TV 53.

Por que os filmes da Marvel fazem tanto sucesso?

 

Quando abrem os portões do Louvre, é como um estouro de boiada. As pessoas simplesmente saem correndo para ver a Monalisa (um quadro pequeno, com um cordão de isolamento de dois metros ou mais). No caminho, passam sem olhar por algumas das grandes obras da pintura universal. Em alguns casos, grandes de fato, como as enormes pinturas de Delacroix. 
A situação nos revela um pouco sobre como estabelece o sentido de valor: as pessoas valorizam aquilo que conhecem. A Monalisa é muito conhecida não só por todas as referências, citações, ilustração em livros, mas principalmente graças a filmes como o código da Vinci. É a melhor ou o mais importante obra do Louvre? Controverso. É a mais espetacular? Não mesmo. Mas é a mais conhecida e reconhecida e por isso a mais valorizada.
Essa característica humana, de valorizar àquilo que se conhece é muito bem explorado pela Marvel e é boa parte do segredo de seu sucesso no cinema. 
A interconexão dos filmes faz com que todos os personagens sejam conhecidos e reconhecidos. Homem formiga? Não é aquele que apareceu no Guerra Civil? Pantera Negra? Não é aquele que apareceu nos vingadores? Assim, o público de um torna-se o público de outro, um puxando a bilheteria do outro para cima. Fenômeno que ficou patente no sucesso absoluto de Guerra Infinita e Ultimato. Aliás, a própria construção do vilão desses dois filmes foi realizada a partir desse princípio: Thanos já aparece na cena pós-crédito do primeiro filme dos Vingadores.
Isso, claro, é novidade no cinema, mas há era feito pela Marvel nos quadrinhos desde a década de 60.