terça-feira, janeiro 21, 2020

A origem de Asterix

Asterix é o personagem mais famoso dos quadrinhos europeus e um dos mais importantes do mundo. O herói gaulês foi criado em 1959, por René Goscinny e Albert Uderzo e desde então tem arrebatado legiões de fãs no mundo todo e estrelado desenhos animados e filmes de sucesso.
     Goscinny é um filho de judeus ucranianos e poloneses. Ainda criança, mudou-se com os pais para a Argentina, onde começou a trabalhar com publicidade aos 17 anos. Em 1949 recebeu uma carta de um tio instalado em Nova York e foi para os EUA, onde trabalhou no mesmo estúdio que outros grandes artistas como Harvey Kurtzman, Will Elder e John Severin, que posteriormente viriam a criar a revista MAD.
     Em 1950 conheceu dois quadrinistas europeus, Jijé e Morris, que lhe apresentaram o editor Georges Troisfontaines. Este, por cortesia, disse que ele passasse em Bruxelas para lhe mostrar seus trabalhos. Só não esperava que Goscinny fosse levar esse convite a sério. Três semanas depois, Goscinny desembarcou na Bélgica e Troisfontaines não teve outro remédio senão empregá-lo em sua editora, destinando-lhe a sucursal parisiense da editora. Lá, Goscinny conheceu Uderzo e os dois começaram uma rica colaboração. Goscinny tinha um texto humorístico genial e Uderzo era um grande cartunista. Essas características já se revelam em U-pah-pah, um índio americano que tem muitas das características que depois viriam a fazer o sucesso de Asterix.
     Além de escrever para Uderzo, Goscinny colabora com vários outros artistas, como Morris na série Lucky Luke.
     Em 1955, Uderzo, Goscinny e o roteirista Charlier tentam criar um sindicato de quadrinistas para defender suas reivindicações.  Ao saber disso, Troisfontaines demitiu os três, que, desempregados, resolveram criar uma nova editora, cujo carro-chefe seria a revista Pilot. Para o número de estréia, Goscinny e Uderzo criaram um simpático gaulês chamado Asterix, mas nem de longe esperavam que eles fizessem tanto sucesso.
     Em 29 de outubro de 1959 surge o primeiro número da revista, trazendo o novo personagem e é um sucesso imediato. A história se passa no auge do Império Romano, quando toda a Gália foi dominada, toda não, uma única aldeia resiste e nela vivem Asterix e seu inseparável companheiro Obelix. O segredo dessa aldeia para resistir ao invasor é uma poção mágica que lhes dá força extrarodinária, preparada pelo druida Panoramix.
     Goscinny exercitou toda sua verve cômica e seu pendor para trocadilhos, que abundam na história. Mesmo os nomes dos personagens são trocadilhos. Asterix vem de asterisco e Obelix vem de Obelisco. A dupla tem um cachorro de estimação, Ideiafix, que ganhou esse nome por tinha a idéia fixa de segui-los para onde quer que eles fossem. Na história, todos os gauleses têm nomes terminados em ¨ix¨, os romanos nomes terminados em ¨us¨ (Acendealuz, Apagaluz, etc).
     O humor se dava principalmente através de situações que se repetiam, mas de modo diferente. Os romanos, por exemplo, estão sempre tentando conquistador a aldeia e sempre levando sopapos  (¨Esses romanos são uns neuróticos¨, diz Obelix), Obelix , que caiu na poção mágica quando bebê, está sempre querendo beber um pouquinho da poção, os piratas sempre têm seu navio afundado quando encontram com os dois heróis... (em uma das histórias mais engraçadas, os próprios piratas destroem o navio ao encontrar com Asterix e Obelix), Automatix sempre reclama dos peixes de Ordenalfabetix, o que gera uma briga na qual se envolvem todos os integrantes da aldeia... e as histórias sempre terminavam num banquete com javali assado, com o bardo Chatotorix amarrado para evitar que cante uma de suas músicas insuportáveis.
     Além das histórias serem muito boas, elas representavam um sentimento nacional francês. Na década de 1950 o país perdia sua importância para a nova potência mundial, os EUA e Asterix acabou se tornando símbolo da resistência cultural francesa.

segunda-feira, janeiro 20, 2020

Dois papas



Dois papas, o novo filme da Netflix dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles, é uma obra bela e intensa. 
A trama é baseada numa conversa entre Bergoglio, então arcebispo da Argentina, e o papa Bento XVI. O religioso portenho vai a Roma pedir sua aposentadoria e Bento XVI tenta convencê-lo a não se aposentar.
Um conservador e outro progressista, o primeiro contato entre os dois é tenso, mas os dois vão aos poucos descobrindo que, embora sejam opostos em praticamente tudo, inclusive no modo de vida, eles são pessoas bem intencionadas, cada um a seu modo. E, principalmente, começam a admirar um ao outro.
O filme inteiro se sustenta sobre as atuações magistrais de Jonathan Pryce e Anthony Hopkins e a direção sensível. Dois papas poderia ser um filme chato, mas esses dois elementos, atuação e direção, fazem com que seja agradável, divertido, emocionante. 
Talvez o maior mérito de Dois papas seja mostrar que é possível que duas pessoas com ideias completamente diferentes possam conversar e até mesmo ser amigos. Numa época como a nossa, de radicalismo e extremismo, é uma bela mensagem.

Bird Box - horror e poesia


O tema apocalíptico já foi amplamente explorado e é raro encontrar uma abordagem nova sobre o assunto. Bird Box, filme lançado recentemente pela Netflix, consegue isso (Apesar das semelhanças com Fim dos tempos, filme de M. Ninght Shyamallan).
Na história, a Terra é invadida por uma raça alienígena capaz de despertar o maior pavor de uma pessoa, levando-a ao suicídio. Para isso basta que esta olhe para um dos monstros. Na trama, um grupo se refugia em uma casa enquanto o caso se instala lá fora. O filme se desenvolve mostrando-os aprendendo a lidar com a nova situação (como fechar todas as janelas e sempre manter os olhos vendados quando em local aberto) e os conflitos que surgem entre eles mesmos. Para piorar, pessoas mentalmente perturbadas, ao invés de suicidarem, tornam-se agentes dos invasores, de modo que um sobrevivente pode ser, na verdade, um inimigo.
Em uma narrativa paralela, temos um flash foward, com a personagem de Sandra Bullock fugindo pelo rio com duas crianças em busca de um refúgio.
O bom encadeamento dessas duas narrativas é um dos pontos altos do filme, mantendo não só o suspense, mas colaborando para desenvolver os personagens.
Um outro fator que contribuiu para manter a atenção do expectador é uma dúvida: quem são as duas crianças, chamados de menino e menina e qual a relação deles com a protagonista?
Destaque para a direção segura da dinamarquesa Susanne Bier, não só por manter o suspense durante toda a narrativa, como pela habilidade de ser poética nos momentos adequados. Uma poesia, aliás, que já está expressa no título do filme, Bird Box (caixa de pássaros). 

Thor – Ragnarok



A dupla Jack Kirby – Stan Lee foi responsável por criar a maior parte da mitologia Marvel. Todo o trabalho da dupla é digno de nota, mas foi em Thor que a habilidade de Kirby para criar mundos e conceitos e a habilidade de Stan Lee para o dramático e épico encontraramseu ponto mais alto. E, de todo o trabalho da dupla no personagem, a saga de Ragnarok é o pico absoluto.
Na história, Mangog, um mostro que encarna milhões de seres que em tempos antigos tentaram invadir asgard e foram detidos por Odin. Agora o mostro foi libertado e quer vigança. Para isso, ele pretende tirar a espada de Odin da bainha, provocando o Ragnarok, o fim dos tempos. Para piorar, Odin está dormindo o sono do qual não pode despertar, de modo que resta a Thor e seus amigos tentarem impedir a ameaça que pode destruir todo o universo.
Essa saga se estendeu dos números 153 a 157 da revista The Mighty Thor, reunidas no volume XIII da coleção e graphics clássicas da Salvat.
A história começa com o fim de uma saga anterior. Thor lança o troll Ulik no abismo das sombras e, ao se agarrar em uma saliência, ele descobre o local onde Mangog está preso e o liberta.
Isso era resultado da maneira como a dupla Lee-Kirby construía a trama de Thor: como uma grande saga, em que tudo se interligava. Assim, o final de uma trama ensejava o início de outra.
Há um intervalo em que Thor e Loki lutam na Terra (com Thor se transformando em Donald Blake, recurso muito usado na época para aumentar o suspense) e a deusa Sif sendo ferida mortalmente.
Mas é quando Mangog avança na direção de Asgard que a trama, que já estava eletrizante, esquenta de vez. O ritmo narrativo é alucinante como uma ópera que vai num crescendo até o final apoteótico. O desenho de Kirby vai se tornando mais grandioso a cada quadro e o texto de Lee marca o tom épico. “Então o momento é este!”, diz Thor, à medida em que o monstro se aproxima para retirar a espada e provocar o Ragnarok. “É aqui que lutamos! Aqui resistimos! E, se o destino assim decretar... é aqui que todos pereceremos!”.

Superman e a arma de Tcheckov


Anton Tcheckov foi um dos principais escritores russos e um dos contistas mais importantes de todos os tempos. Ele formulou um princípio narrativo básico segundo o qual, “Se você diz no primeiro capítulo que um rifle está pendurado na parede, no segundo ou terceiro capítulos ele deve absolutamente ser disparado. Se não irá ser usado, não deveria estar lá”.
Esse princípio, que passou a ser chamado de A arma de Tcheckov é tanto uma lembrança da importância da simplicidade narrativa (deve-se evitar colocar na trama algo que não terá importância) quanto uma boa dica sobre o que, nos quadrinhos, chamamos de gancho. Ela também poderia ser formulada da seguinte maneira: “Se no segundo capítulo alguém vai disparar um rifle, no primeiro capítulo essa arma deve aparecer pendurada na parede”.
Algo que é simplesmente jogado na trama, sem ter uma razão narrativa pode parecer para o leitor como uma ponta solta. Por outro lado, se algo relevante para a trama não é mostrado antes, pode parecer um deus ex machina. Exemplo: uma mulher está sozinha em casa. Entra um estuprador. Ela pega a arma para se defender. Se a arma não foi mostrada antes, vai parecer que aquele objeto surgiu do nada, um deus ex machina.
Um ótimo exemplo de bom uso da arma de Tcheckov é o segundo capítulo da série Grande Astros Superman, com roteiro de Grant Morrison e arte de Frank Quitely.
Na história, Superman, sabendo que vai morrer, leva Lois Lane para a Fortaleza da Solidão. Mas há algo misterioso acontecendo e a repórter pode estar em perigo.
Logo no início, o Homem de aço mostra alguns tesouros de sua coleção, incluindo uma arma de raio laser de kryptonita. Na sequência seguinte, Lois vê uma sala aberta e tenta entrar, mas é impedida pelo Superman, que lhe diz: “Vá aonde quiser nessa fortaleza, mas considere essa sala proibida”.
Sozinha, Lois começa a se indagar se os novos poderes não mexeram com a personalidade do herói: “E se ele ele estiver com algum problema mental e me trouxe para fazer parte de algum experimento macabro que prepara naquela sala?”. Temendo isso, ela decide que precisa se preparar. O que ela faz? Vai na sala de troféus e pega a arma que foi mostrada logo no início da história!
O exemplo pode dar a entender que a arma de Tcheckov se aplica apenas a pistolas, rifles e espingardas, sejam elas convencionais ou tecnológicas.
Mas não.
Na própria história analisada temos um outro exemplo de utilização desse princípio: a sala proibida que Lois tenta entrar. Há ali diagramas femininos que a fazem pensar que se trata de uma experiência científica que teria ela como objeto.
No final, entretanto, Superman explica o que aconteceu: “Parece que o robô 7 teve um problema de processamento de dados. Ele deixou a porta do laboratório aberta enquanto eu sintetizava uns compostos alienígenas. Gases que podem induzir distorções visuais e reações paranoicas extremas”.
Se voltarmos à página em que isso acontece, de fato há uma espécie de nuvem de gás azul saindo da sala e envolvendo Lois Lane. Esses gases saem de um frasco de vidro à frente do robô.
E a explicação para os diagramas femininos era simples: Superman estava produzindo uma roupa extremamente tecnológica para Lois, adaptada inclusive ao seu código genético para que ela tivesse um dia como super-heroina.
Tudo estava ali, desde o princípio, bem claro, na frente do leitor. Como o rifle de Tcheckov.  

domingo, janeiro 19, 2020

O Gralha – o herói, o pinhão, o louco e a morte


O Gralha é o personagem símbolo de Curitiba. Criado por mim e mais 8 artistas em 1997, ele se tornou bastante popular na capital paranaense a ponto de até mesmo que não curte quadrinhos conhece-lo. E tem toda a história do Capitão Gralha, que seria o personagem original e avô do herói.
Além de ter sido publicado por mais de um ano no jornal Gazeta do Povo, o Gralha ganhou três álbuns. O herói, o pinhão, o louco e a morte é o terceiro.
Neste eu colaborei com o roteiro de duas histórias. O que acho interessante no personagem é seu ecletismo. É um herói que você pode usar para histórias mais densas, mais de aventura, mais cotidianas ou até histórias de humor.

Na HQ Encontros e desencontros eu explorei o lado pouco convencional do personagem: ele vai fazer compras em um supermercado e encontra o vilão Bagre humano também fazendo compras. Começa um diálogo aparentemente pueril, mas recheado de suspeitas e sentidos ocultos (o vilão estaria apenas fazendo compras ou planejando um assalto ou um atentando?). O tom aí é de humor, acentuado pelo divertido traço de Paulo Gerloff.

Ainda nessa edição colaboro com a história final, Dias Duvidosos, que introduz na cronologia do Gralha o grande vilão do Capitão Gralha, o Doutor Destruição. A história começa metalinguística, com o herói lendo um gibi com as aventuras do avô. Uma curiosidade: o que é mostrado no gibi é a parte final da trama que aparece no livro Francisco Iwerten, a biografia de uma lenda, mas na forma de radionovela. Sim, o Gralha é um personagem intertextual e transmídia! Os desenhos de Edson Kohatsu, que consegue ir do vintage ao contemporâneo, dão todo o charme da história. 
O álbum está à venda na loja da Quadrinhópole: https://quadrinhopole.com/loja/

Cats



Cats já é considerado o pior filme de 2019 e um dos piores da história do cinema. E não é por acaso. 
O filme é tão confuso que se torna difícil resumi-lo. Aparentemente é a história de uma gatinha abandonada que chega em um tribo felina no momento em que eles estão escolhendo o gato que irá para um local paradisíaco, onde terá uma nova vida. 
O filme não tem diálogos, apenas músicas, a maioria delas apenas de apresentação dos personagens, o que torna tudo muito confuso. Não dá para saber o que de fato está acontecendo e temos a impressão de que, no final das contas, o escolhido vai ter a honra de… morrer!
A caracterização da maioria dos gatos não é tão ruim. Mas ainda parece que são pessoas vestidas de gatos. E os gatos parecem pouco felinos, inclusive em termos de personalidade.
No final, a grande conclusão de pets, refletida na música final é: gatos não são cachorros. Se eu não tivesse assistido Cats nunca teria desconfiado disso.

O planeta dos macacos e os furos de roteiro

Na década de 1970 os filmes da série Planeta dos macacos faziam um sucesso tão grande que alguém teve a ideia de fazer uma animação com o tema. Lançado em 1975, era resultado de uma associação dos estúdios DePatie-Freleng Enterprises com a 20th Century Fox Television e teve 13 episódios. 
O desenho é uma verdadeira decepção, inclusive para aqueles que são fãs dos filmes. A animação é fraca, com muitas repetições de cena, embora isso necessariamente não seja um defeito grave. O desenho de Jornada nas Estrelas tem animação ruim, mas roteiro bom e o resultado final acaba sendo ótimo. Por outro lado, o filme Selvagem, da Disney, tem ótima animação, mas roteiro chato. Resultado: foi um fiasco de bilheteria.
O grande problema na animação dos macacos está no roteiro, com tantos furos que parece uma peneira.
Esse roteiro é tão ruim que estou tendo infarto! 

Senão vejamos. O DVD que tenho mostra a história aparentemente no segundo capítulo. A cronologia dos filmes é totalmente esquecida e é como se pela primeira vez uma nave fosse parar no planeta dos macacos. Um dos astronautas está sendo levado pelos gorilas, outro foi salvo por uma mulher selvagem. Uma vez na cidade, o astronauta foge. Todos, absolutamente todos os soldados macacos vão atrás dele, mas mesmo assim ele foge com facilidade impressionante e ainda encontra tempo para libertar todos os humanos presos pelos gorilas, pois encontra a prisão sem guarda. Aparentemente os macacos não aprenderam nada de segurança depois de tanto tempo...
Mas continuemos. Em uma seqüência posterior, os dois astronautas estão vistoriando uma região de montanhas quando vêm um grupo de militares simiescos se aproximando. A cena mostra o humano loiro encostado numa pedra, olhando displicentemente para a frente: “Parece que os macacos estão nos procurado”. E outro: “Se nos virem aqui, estamos ferrado!”. Qualquer um sairia correndo para se esconder, mas eles ficam lá parados, olhando o tempo. “É, parece que eles nos viram”. “Poxa vida, isso é horrível”, dizem eles, sem sair do lugar. 
Proatividade parece ser uma palavra desconhecida para esses dois homens. Fiquei imaginando a continuação do diálogo: “Eles estão a um quilômetro!” “Nossa, logo eles não vão nos alcançar se não corrermos”, “Agora eles já estão a cem metros!”, “Vamos fazer um lanche?”.
Vamos continuar procurando a lógica dessa história! 

Mas os nossos heróis são salvos por uma montanha que se eleva na frente deles, escondendo-os, um artifício que os bons roteiristas chamam de Deus ex machina. Essa expressão significa algo exterior à história, que surge para salvar a situação. É chamada assim porque os dramaturgos gregos ruins constumavam baixar um deus no final da peça para costurar as pontas soltas ou para explicar situações não muito lógicas. Um Deus ex machina é quando o roteirista arranja uma saída totalmente desconhecida do leitor para salvar os heróis ou para resolver uma situação. É erro gravíssimo.  
Depois dessa tremenda forçada de barra, os heróis ainda encontram uma porta secreta, por onde chegam ao mundo dos humanos subterrâneos. Nisso eles descobrem que estão na terra. O desenho foi feito no final da década de 1970, uma época em que todo mundo já sabia disso, mas mesmo assim o desenho faz um suspense desnecessário sobre isso.
Os expectadores nunca vão desconfiar que estamos na Terra. Vamos tomar um café? 

No mundo dos subterrâneos eles encontram a terceira astronauta e fogem com ela num carrinho que corre por um trilho. Os subterrâneos têm duas formas de defesa: uma são ilusões, outra são raios emitidos pelos olhos. Então eles primeiro fazem aparecer uma parede de mentira e os heróis acham que vão bater, mas passam direto por ela. Depois acham que vão cair num buraco, mas, mais uma vez descobrem que é uma ilusão. Então eles se deparam com uma parede de fogo. Qualquer pessoa que tivesse passado pelas experiências anteriores aprenderia o bastante para saber que a parede é também uma ilusão, mas os nossos astronautas são burros como uma porta e morrem de medo do fogo. Quando passam por ele e descobrem que estão vivos, comentam entre si: “Quem diria, é uma ilusão!”. Será que eles aceitam pessoa com QI 0,1 na NASA?
O teste de QI mostra que os astronautas da NASA são mais burros que nós! 

Enquanto isso, os subterrâneos atiram neles com seus raios... e não acertam nada, nem os trilhos, nem os humanos, nem o carrinho. São quase cinco minutos de tentativa e nada. Uma impossibilidade matemática! Isso nos faz pensar que os subterrâneos aprenderam a atirar com um cego paralítico e epiléptico. Não acertar em absolutamente nada durante cinco minutos de tiroteio é mais difícil que ganhar na loteria, mas eles conseguem e os astronautas saem de lá sem um único arranhão.
O pior de tudo é que o episódio foi escrito por dois roteiristas. Será que nenhum deles percebeu os buracos no roteiro?

O Mapinguari

A mitologia amazônica é uma das mais ricas do Brasil. Entre os seres mitológicos da floresta está o Mapinguari. É um monstro enorme, todo peludo, com um único olho e boca na barriga. Uma boca pútrida, repleta de dentes com a qual ele devora suas vítimas.  Esse da foto é feito de látex e comprei na feirinha de Belém. O Mapinguari aparece no meu livro de fantasia histórica que será lançado em breve, via Catarse.Em breve darei mais detalhes sobre o projeto. 

Texto narrativo – texto redundante


Algo fundamental, uma das primeiras lições para um futuro roteirista de quadrinhos, é que o texto nunca deve ser redundante. Em outras palavras, nunca se deve dizer com as legendas ou com os diálogos aquilo que o leitor está vendo.
Mas algumas pessoas confundem texto redundante com texto narrativo. Embora possam parecer semelhantes, não são. O texto narrativo, embora não explore toda a potencialidade dos quadrinhos, não chega a ser um erro. Já o texto redundante se limita a dizer aquilo que o leitor está vendo é erro feio.
Imagine uma cena: um casal andando pelo deserto em pleno dia, o sol acima deles e nada por perto além da areia escaldante.
Um texto narrativo possível para a cena seria: “O casal andou por horas a fio sob o céu escaldante sem encontrar um único indício de vida ou civilização. Se não encontrassem logo água, iriam morrer no deserto”. Observe que há várias informações incluídas no texto que não aparecem na imagem (o casal está andando por horas, não encontraram sinal de vida em toda a caminhada, logo vão morrer de sede).
Um texto redundante sobre a mesma cena seria: “O casal anda no deserto sob o sol escaldante”. Neste caso, o texto se limita a dizer aquilo que o leitor está vendo, sem acrescentar nada à informação visual.
Percebam como o texto redundante se limita a descrever a imagem que está sendo vista pelo leitor. Ou seja, é totalmente desnecessário.
Um exemplo de texto redundante pode ser encontrado na página da série Os Eternos, de Jack Kirby, publicada em Superaventuras Marvel 25.
Observe os dois primeiros quadrinhos. Eles mostram a nave dos desviantes entrando por uma cabeça de pedra e singrando em direção a uma abertura luminosa. O que o texto diz? O que o leitor está vendo: “Logo uma enorme cabeça de pedra surge à sua frente. Penetrando pela boca do dragão, a nave avança rumo a uma abertura luminosa”.

Um outro exemplo de texto redundante pode ser encontrado na versão quadrinística da história A torre do elefante, com textos de Roy Thomas e desenhos de John Buscema. Conan e outro ladrão estão no pátio da torre quando encontra com cinco leões. O diálogo diz: “Leões! Cinco deles!”.
Curiosamente, na mesma página há um exemplo de ótimo uso do texto quadrinístico, inclusive como elemento de suspense. O ladrão nemédio empurrou Conan para trás, fazendo com que ele parasse. O texto diz: “Seu olhar está fixo em arbustos poucas jardas à frente... arbustos que continuam se movendo, embora o vento tenha morrido”. O texto narra a aproximação de algo que o leitor não é capaz de identificar visualmente (só depois, no quadro de impacto ele descobrirá que são leões).

Dez dicas para roteiristas de quadrinhos


1 - Não leia só quadrinhos. Um bom roteirista de quadrinhos lê de tudo: livros, revistas, jornais etc.
2 - Não leia só quadrinho americano ou japonês. Argentina, Inglaterra, França, Itália e Brasil são países que produzem ótimas HQs, que você deve conhecer.
3 - Sempre pesquise. Se sua história é sobre um advogado, pesquise livros jurídicos, pesquise sobre como funciona a justiça. Se for sobre o Egito, procure livros de história. 
4 - Não tente contar a história do universo. Comece com histórias curtas.
5 - Faça com que seu roteiro seja agradável para o desenhista. Se for necessário contar uma piada para que a leitura do roteiro seja mais agradável, conte.
6 - Imagine a cena visualmente antes de escrevê-la. Se houver mais de uma ação, divida em mais de um quadrinho.
7 - Produza. Seu texto só vai melhorar se você produzir continuamente.
8 - Use como referência grandes roteiristas, mas aos poucos busque estabelecer um estilo próprio.
9 - Não seja um colonizado. Esqueça Nova York. Faça histórias sobre sua realidade. Se o leitor viver a mesma realidade que você, a identificação será mais fácil.
10 - Seja objetivo. Não encha os balões de texto desnecessário. Nunca diga com o texto algo que o desenho já está dizendo.

sábado, janeiro 18, 2020

A arte detalhista de Enrique Alcatena

Enrique Alcatena é um desenhista argentino que nasceu para desenhar fantasia. Seu traço detalhista é do tipo que foi feito para ser visto em preto e branco. Desenhou histórias de Conan para a Marvel Infelizmente pouco conhecido no Brasil - um dos poucos trabalhos dele publicados aqui foi uma história do homem-morcego - Batman Corsário, da linha Túnel do Tempo. 












Cola não cola


Existe uma espécie de guerra não declarada entre professores e alunos: os alunos estão sempre procurando maneiras mais eficientes de colar e os professores estão sempre bolando uma forma de acabar com a graça dos estudantes.
Quando eu era mais jovem, tinha um colega de cabelo black power que era particularmente útil nos dias de avaliação. Ele transformava o assunto em pequenos rolinhos de papel e enfiava na cabeleira. Na hora da prova, era só tirar o papel e fazer uma breve consulta. Como os rolinhos sempre voltavam para a cabeleira e ele nunca lavava a cabeça, o cabelo daquele rapaz era uma verdadeira enciclopédia de assuntos escolares.
Uma forma óbvia de colar é colocar as anotações debaixo da prova. Mas é também a mais perigosa. Uma vez percebi que uma aluna estava usando esse estratagema e me postei ao lado dela, esperando o descuido. O descuido não veio, mas também ela não fez mais nada. Ficou suando e olhando o tempo todo por cima dos ombros, coitada. Tive vontade de dizer: “Ei, pode usar essa cola!”, mas o instinto sádico falou mais alto.
Tem aquela de colocar a cola no meio das pernas, uma situação particularmente constrangedora. Dois professores estavam passando uma prova quando um perguntou ao outro: “Você viu a cola no meio das pernas daquela aluna?”. E o outro: “Mudou de nome?”.
Mas a minha lembrança predileta de colas aconteceu quando passei uma prova em uma turma famosa por usar colas. Elaborei quatro tipos de provas, mas fiz marcação cerrada, andando entre os alunos, para que eles não desconfiassem. No final, quando só havia uma aluna na sala, os outros acharam que todos já tinham terminado e entraram perguntando:
- Professor, tinha mais um tipo de prova?
Ao que eu respondi:
- Tinha quatro!.
A aluna que ainda fazia a prova levou as mãos à cabeça e gritou:
- Mais de um tipo? Ai meu Deus, estou ferrada!

Receita de bolo de laranja

INGREDIENTES

  • ovos
  • 2 xícaras (chá) de açúcar
  • 1 xícara (chá) de óleo
  • suco de 2 laranjas
  • casca de 1 laranja
  • 2 xícaras (chá) de farinha de trigo
  • 1 colher (sopa) de fermento

MODO DE PREPARO

  1. Bata no liquidificador os ovos, o açúcar, o óleo, o suco e a casca da laranja.
  2. Passe para uma tigela e acrescente a farinha de trigo e o fermento.
  3. Leve para assar em uma forma com furo central, untada e enfarinhada, por mais ou menos 30 minutos.
  4. Desenforme o bolo e molhe com suco de laranja.

Jornada nas estrelas – sementes do espaço



Em qualquer relação de vilões de Jornada nas Estrelas, certamente entraria Khan, protagonista do episódio Sementes do espaço, da primeira temporada da série clássica.
Na história, a Enterprise encontra uma nave humana antiga à deriva no espaço. Ao adentrar o local, descobrem que há vários humanos em estado de animação suspensa. O primeiro deles a acordar parece ser o líder do grupo, Khan, um ser de saúde fenomenal, que tira suspiros da historiadora a bordo.
Khan na verdade faz parte de uma raça de seres criados artificialmente que dominaram o planeta Terra durante um breve período conhecido como “guerras eugênicas”.
O que faz de Khan um vilão tão interessante não é tanto sua força física, mas principalmente suas habilidades intelectuais e estratégicas. Sozinho ele consegue dominar a Enterprise. Aliás, sua derrota parece vir muito mais de um deus ex machina (nunca vi uma alavanca de computador se transformar em uma arma) do que realmente de habilidades superiores por parte de Kirk e sua equipe.
Há também um outro fator, destacado pelo roteiro: ele é um vilão, mas também é uma figura interessante, cheia de nuances, que causa em Kirk tanto repulsa quanto admiração.
O vilão, aliás, era tão interessante que virou estrela do segundo filme de Jornada, apropriadamente denominado A ira de Khan.

sexta-feira, janeiro 17, 2020

Grandes astros Superman



O roteirista Grant Morrison ficou conhecido por seu enorme esforço para virar de cabeça para baixo todos os cânones das histórias de super-heróis. Fez com o Homem-animal histórias metalinguísticas nas quais o personagem encontrava com o próprio criador. Fez histórias com a Patrulha do Destino nas quais o grupo enfretava vilões surrealistas. Então é curioso que sua melhor história tenha sido uma singela e belíssima homenagem ao Super-homem da era de prata: Grandes astros Superman, com desenho do monstro Frank Quitely (provavelmente o único cara que faz com que uma imagem do homem de aço sentado em uma nuvem seja boa o suficiente para virar capa do volume encadernado da série).
Na HQ, o herói resgata uma nave terrestre em missão ao sol sabotada por Lex Luthor. Mas é tudo uma trama do vilão. A proximidade com o sol tanto dá novos poderes ao personagem como faz com que suas células entrem em colapso, condenando-o à morte.
Morrison constrói sua narrativa como se o personagem estivesse cumprindo tarefas épicas, como os 12 trabalhos de Hércules. Morrison usa esse plot para revisitar boa parte da mitologia do personagem em uma história tocante.
Claro, há os maneirismos morrisianos, mas aqui elas parece apenas divertidas, não pretensiosas, a exemplo do momento em que Luthor diz que Moby Dick pode ser recitada a frequências tão altas que se torna uma perfuratriz sônica capaz de escavar a rocha.
No geral tudo é uma bela homenagem, a começar pela forma carinhosa como o alter ego do Superman, Clark Kent é retratrado.
Morrison e Quitely pensaram Clark Kent como um caboco do interior, enorme e acostumado com espaços amplos. Assim, ele sempre está sempre batendo em alguém ou derrubando algo. Mas essas aparentes desatenções são, na verdade, uma forma de ajudar outras pessoas, como o senhor que ia ser atropelado e não o é porque Kent se choca com ele antes que atravesse a rua.
Nesse sentido, um dos capítulos mais interessante é justamente aquele em que Clark Kent vai entrevistar Luthor na cadeia.
Arrogante, Luthor jura que está no controle de tudo e não percebe as diversas vezes em que é salvo pelo desastrado herói. Os mais antigos vão perceber o quanto essa visão sobre o personagem lembra a interpretação de Christopher Reeve no clássico filme de 1978.
Grandes astros tem de tudo: desde aventura pura a romance (o capítulo em que o Super dá poderes a Lois Lane é belo e divertido) e puro drama, como no capítulo focado no pai adotivo do superman.
E, para não dizer que Morrison usa termos científicos apenas como forma de fazer com que suas HQs pareçam mais cabeça, o uso da arma gravitacional no último capítulo é um ótimo exemplo de algo que funciona bem na trama e, ao mesmo tempo, é cientificamente correto, guardadas as devidas proporções.
Grandes astros superman é uma daquelas obras para ter na estante (e vale destacar a belíssima edição capa dura da Panini), ler e reler.

Praça da Concórdia



A praça da concórdia é um dos locais mais importantes de Paris. Era ali que os nobres eram guilhotinados
Seu primeiro nome era praça Luis XV.
Nessa época havia no centro dela umaa estátua equestre do monarca, o que levou o povo a cantar: “Ah ! a bela estátua, ah! o belo pedestal, As virtudes vão a pé e o vício vai a cavalo”.

Com a eclosão da Revolução Francesa, a estátua é derrubada e a praça é rebatizada de Praça da Revolução. É ali que é instalada a guilhotina que iria executar Luis XVI e boa parte dos nobres franceses.
Com o fim do terror revolucionário o local ganha o nome de Praça da Concórdia. Em 1831, o Maomé Ali, vice-rei do Egito decide doar para a França dois obeliscos que ornavam a entrada do palácio de Ramessés II e um deles é colocado na praça. A praça se torna então uma mistura curiosa: de um lado o obelisco, do outro uma fonte em homenagem à marinha francesa.


A banca do Zé, um dos últimos sebos de rua de Belém

Durante décadas Belém teve uma tradição de sebos de rua. No auge dos quadrinhos em formatinho da Abril, era fácil encontrar centenas desses gibis empilhados em sebos. Um dos que mais se destacavam era o sebo do Zé, perto do mercado do São Brás. O destaque não eram só os preços módicos e o material de qualidade, mas principalmente a simpatia do Zé, um dos melhores vendedores que já conheci. O Zé conhece cada um de seus clientes, o que cada um gosta, o que lê, o que compra.
Eu frequento esse sebo desde 1986. Quando mudei para Macapá, demorava uns seis meses ou mais para ir. Em uma dessas vezes ele me pediu para voltar no dia seguinte porque tinha reservado algumas coisas para mim. Voltei e me surpreendi: ele tinha guardado um saco de estopa cheio de graphic novels, cada uma cinco reais. Eu só não levei o que já tinha. Agora em janeiro voltei lá e ele tinha guardado coisas para mim. Quando fui ver, eram verdadeiras preciosidades dos quadrinhos."Eu guardo para quem eu sei que vai valorizar e conservar esses quadrinhos", me disse ele.

Enquanto estava lá, passou um casal, a esposa brasileira, o marido japonês. Quando saíram, o Zé me contou: o homem havia lutado na II Guerra Mundial e estava em Hiroshima quando caiu a bomba, mas nos campos, o que salvou sua vida. E ele comprava qualquer livro sobre o Japão na II Guerra, de modo que o Zé sempre reservava para ele qualquer livro que aparecesse lá sobre o assunto. O exemplo mostra bem o quanto ele conhece bem cada um de seus clientes.
Pouco tempo depois chegou um cliente querendo a Bíblia de estudos. Ele tirou de trás do balcão. "Esse é um dos livros mais roubados", explicou ele. "Então não deixo à mostra".
A simpatia e os clientes fixos fizeram com que a banca do Zé sobrevivesse em meio ao fechamento geral dos sebos de rua de Belém.
Para quem gosta de quadrinhos e literatura o sebo do Zé é parada obrigatória .
O sebo do Zé fica próximo do Mercado de São Brás, no cruzamento das ruas José Bonifácio com Faria Brito.