quinta-feira, dezembro 12, 2019

Xuxulu costuma acordar de mau humor


Van Gogh – autorretrato de 1889



Van Gogh pintou vários autorretratos, mas poucos são tão famosos quanto este, pintado em 1889, enquanto o artista estava no asilo de Saint-Rémy após ter cortado parte da orelha. O quadro tem todas as características que tornariam o pintor famoso: as pinceladas grossas, as cores vibrantes, mas que chama atenção é o fundo repleto de espirais azuis e verdes, que parece se mover ao olhar do expectador e se misturar com a roupa do artista. Esse quadro atualmente está no Museu D´Orsay, em Paris.

A teoria hipodérmica da mídia



A teoria hipodérmica surgiu no início do século XX, com forte influência da psicologia comportamental. Foi a primeira tentativa de explicar os efeitos dos Meios de Comunicação de Massa sobre a sociedade.
Amparada nos exemplos do uso da propaganda por regimes totalitários e pelo pânico provocado pela transmissão radiofônica do romance A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, dirigida por Orson Welles, esse modelo comunicacional via a mídia como uma agulha que injetava seus conteúdos no receptor sem qualquer tipo de barreira, criando um estímulo que provocava uma resposta imediata e positiva por parte dos receptores, vistos como atomizados e idiotizados.
Sua influência sobre os estudos a respeito da comunicação massiva foi enorme, o que alimentou a imaginação popular com a ideia de que a mídia tem um poder absoluto sobre sua audiência.
A teoria hipodérmica (ou da bala mágica, como também é conhecida) influenciou até mesmo um subgênero da ficção-científica, as distopias. Em obras como 1984, de George Orwell, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, e Admirável mundo novo, de Adous Huxley, a televisão, o cinema e outras mídias são usados para massificar e idiotizar os indivíduos, tirando-lhes a capacidade crítica.
Na experiência de Pavlov, o cachorro passa a salivar mesmo sem a comida, apenas com o estímulo sonoro.

                A teoria utilizava o esquema estímulo – resposta da psicologia behavorista. A experiência de Pavlov com um cachorro seria a base da análise dos fenômenos midiáticos.
Pavlov observou que o animal salivava toda vez que lhe era apresentada a comida, um ato instintivo do organismo, preparatório para a digestão. Assim, toda vez que ia alimentar o animal, o cientista tocava uma sineta. Por fim, tocava apenas a sineta. Mesmo não havendo comida, o cão respondia ao estímulo (som da sineta) com uma resposta (salivando).
Por analogia, esse esquema foi utilizado no campo da comunicação de modo que as mensagens enviadas pela mídia seriam o estímulo que levaria uma resposta certa e imediata por parte dos receptores, vistos como atomizados, acríticos e condicionados.
Na perspectiva hipodérmica os efeitos são dados como certos, inevitáveis e instantâneos. Se uma pessoa é apanhada pela propaganda, passa a ser controlada e manipulada, leva a agir.
Os estudiosos viam os indivíduos como átomos isolados, com pouca influência dos grupos sociais e altamente manipulados pela mídia. Nessa perspectiva, seriam impensável respostas individuais ou que discordassem do estímulo midiático.
O nome, inclusive, refere-se à agulha usada para injetar medicamentos abaixo da pele do paciente, assegurando assim um resultado imediato. De fato, a agulha hipodérmica, é a usada por médicos em hospitais para injetarem medicamentos nos pacientes (hipo é abaixo e derme é pele), assegurando uma resposta mais rápida do paciente à medicação. Assima mídia é vista como uma agulha, que injeta seus conteúdos diretamente no cérebro dos receptores, sem nenhum tipo de barreira ou obstáculo.
Nessa percepção, o processo de comunicação é totalmente assimétrico, com um emissor ativo, que produz o estímulo e os destinatários são vistos como uma massa passiva à qual só resta obedecer ao estímulo. Os papeis emissor – receptor surgem isolados de qualquer contexto social ou cultural. 
                Pelo menos dois fatos contribuíram para a popularidade dessa teoria entre os intelectuais da primeira metade do século XX: o uso da propaganda por regimes totalitários e o pânico Guerra dos Mundos.
O pânico guerra dos mundos ajudou a popularizar a teoria hipodérmica.

Na noite do dia 30 de outubro de 1938, rádio CBS (Columbia Broadcasting System) interrompeu sua programação musical para noticiar uma invasão extraterrestre iniciada na cidade de Grover´s Mill, no estado de New Jersey.
O programa era, na verdade, uma adaptação do livro A guerra dos mundos, de H. G. Wells. O diretor, Orson Welles, organizou a adaptação como uma grande cobertura jornalística com reportagens externas, entrevistas com testemunhas, opiniões de peritos e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos e repórteres emocionados.
Muitas pessoas ligaram o rádio no meio da programação e acharam que estavam de fato diante de uma invasão extraterrestre. Os serviços telefônicos ficaram congestionados. Nas grandes cidades houve engarrafamentos devido às pessoas que tentavam fugir dos alienígenas.
O medo paralisou três cidades.  Houve pânico principalmente em localidades próximas a Nova Jersey. Além disso, houve fuga em massa e desespero em cidades como Nova York.
Na cidade mais próxima do suposto local da batalha, Newsmark, 50 mil pessoas fugram de suas casas, procurando abrigo na floresta. Pessoas se jogavam das janelas dos prédios. Outras saíam de casa atirando.
                O pânico total, provocado por um fato criado pela mídia convenceu pesquisadores de que esta tinha um poder absoluto sobre sua audiência. A audiência passou a ser vista como uma massa amorfa, que apenas respondia, passivamente, os estímulos dos meios de comunicação.
Outro fato fundamental para a popularidade da teoria hipodérmica  foi a maneira como os regimes totalitários utilizaram os meios de comunicação para manipular a população.
O nazismo, por exemplo, usou amplamente o cinema, o rádio e os jornais como veículos de doutrinação. Até mesmo os encontros do partido eram organizados no sentido de intensificar o sentimento de massa.
Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, afirmava que o cinema era um dos meios mais modernos e científicos de influenciar as massas. Dava tal importância ao mesmo que as filmagens continuaram até quando os russos já estavam às portas de Berlin, pois acreditava-se que a única forma de reverter a derrota era através da propaganda.
Filmes como O judeu Suss ampliaram o sentimento anti-semita entre os alemães.

O princípio básico de  Goebbels era unir propaganda e diversão de modo que o receptor não conseguisse diferenciar um do outro. O filme Os Rothschild (dirigido por Erich Waschmeck, 1940), por exemplo, conta como uma família de judeus ingleses enriquece graças às guerras napoleônicas. O judeu Suss (1940) mostrava um ministro das finanças ambicioso e libidinoso que se apaixona por uma moça ariana e faz de tudo para separá-la de seu amado, igualmente ariano. O filme, um enorme sucesso na época, era exibido no leste europeu, para soldados responsáveis pelo fuzilamento de judeus e para guardas de campos de concentração. O diretor, Veit Varlan, chegou a ser processado pelo Tribunal Estadual de Hamburgo por crime contra a humanidade.
Um dos clássicos da propaganda nazista é O triunfo da vontade, filme de Leni Riefenstahl sobre o congresso nazista de 1936. Em uma das cenas mais emblemáticas, o avião que traz Hitler plana sobre as nuvens, que se abrem enquanto ele desce sobre a cidade, como se o líder estivesse trazendo o sol para a Alemanha.
Filmes como esse tiveram importância fundamental na sustentação do regime nazista alemão.
                Embora seja um dos paradigmas mais difundidas na área de comunicação e também a que mais influência teve, a teoria hipodérmica é também a mais criticada.
Dentro da própria corrente funcionalista (Laswell, criador do da teoria hipodérmica, era funcionalista) surgiram pesquisas que colocariam em questão o princípio mecanicista de efeito direto e indiferenciado. Lazzarsfeld, por exemplo, descobriu que líderes de grupos primários poderiam até mesmo modificar o significado da propaganda, fazendo-a se virar contra os emissores.
Esses líderes de opinião influenciam o pensamento de sua comunidade e relativizariam o poder dos meios de comunicação.
                Mesmo a mídia traz os mais diversos tipos de estímulos, muitos contraditórios, como as campanhas contra o consumo de álcool por motoristas e as propagandas de cerveja. 
A campanha da antarctica chocou-se com o sentimento religioso da população.

                Existem também fatores externos, culturais, sociais e religiosos, que influenciam o consumidor, enviando estímulos diversos daqueles veiculados na mídia. Exemplo disso foi a campanha “Do jeito que o Diabo gosta”, da cerveja Antarctica, em que a personagem Feiticeira protagonizava uma diabinha.  A campanha, um sucesso em metrópoles, como Rio de Janeiro e São Paulo, foi rejeitada em cidades das regiões Norte e Nordeste. Muitos donos de bares se negavam até mesmo a pregar cartazes da campanha, oem protesto. Nesse caso, o estímulo da mídia chocou-se com o estímulo religioso, que vê a palavra “Diabo”, como algo negativo. Se nos grandes centros, o público interpretou a propaganda como uma brincadeira, nas cidades mais conservadoras, o público preferiu alinhar-se aos estímulos religiosos.

Mulher-Maravilha – corporação da vilania



Entre todos os personagens surgidos na DC na Era de Ouro, a Mulher Maravilha se destacou tanto que se tornou popular até hoje, formando, junto com o Superman e Batman, a tríade da DC.
E não sem razão. Suas histórias da década de 1940 eram extremamente inventivas e originais, fruto direto da mente genial de William Moulton Marston. Exemplo disso é a saga conhecida como Corporação vilania, publicada em Wonder Woman 28, no ano de 1948.
Na história, Maligna, uma das mulheres saturninas que tentaram invadir a terra consegue não só se libertar, mas também libertar vários dos vilões da série,como Giganta, Rainha Cléa, O Homem azul das neves, Zara e Mulher Leopardo,  formando a tal Corporação Vilania.
Moulton não só criou a personagem Mulher Maravilha, mas criou toda uma rica mitologia ligada à ela. Exemplo disso são os cinturões de Vênus, mecanismos que removem da pessoa todo o desejo de fazer o mal e a faz obedecer a uma autoridade benigna. Outro é a máquina da evolução do Dr. Zool, capaz, por exemplo, de transformar uma gorila em mulher (que irá se tornar Giganta, uma das opositoras da Mulher Maraviha) ou involuir humanos para macacos (claro que essa é uma visão bastante equivocada da teoria da evolução, mas ainda assim, criativa).

A primeira coisa que salta aos olhos é a profusão de cordas e correntes que aparecem na história. Se dois personagens se encontram, a chance de que um deles saia amarrado é enorme.
Para a Era de Ouro, em que os roteiros eram geralmente infantilizados, as reviravoltas e subtextos da história estão muito à frente de seu tempo, assim como as splash pages a cada doze páginas, que marcam o início dos capítulos da história.
Sobre as reviravoltas, são muitas: As rebeldes conseguem dominar a ilha da transformação, sequestrar Hipólita, dominar todas as amazonas, incluindo a própria Mulher Maravilha, mas acabam sendo derrotadas pelas próprias saturnianas que haviam sido regeneradas pelo cinturão de Vênus.
Mas Zara, hipnota e Giganta fogem com o tesouro das amazonas e planejam comprar um submarino para fugir. Para isso criam um culto ao Deus da Chama, que seduz garotas e forçam a Mulher Maravilha a roubar um submarino para elas.
A experiência de Moulton como roteirista de cinema fez com que ele soubesse equilibar bem os elementos e conseguir fazer com que o leitor pensasse que a heroína estava finalmente derrotada, até apresentar uma reviravolta no roteiro. E ele faz isso mais de uma vez na mesma história!
Uma curiosidade é que a personagem nem de longe parecia tão forte e poderosa quanto é atualmente e seu laço, além de forçar a pessoa presa a falar a verdade, ainda a obrigava a obecer a quem o empunhava.
Aqui no Brasil essa aventura foi publicada na coleção DC 70 anos, da Panini.

Feliz Natal


Um conto de duas cidades


Comprei o livro Um conto de duas cidades, de Charles Dickens em maio de 1999. Era uma edição de banca, da Nova Cultural. Tirando a capa mole, era uma publicação interessante, com biografia do autor e muitas notas sobre o texto. Por alguma razão eu comecei a ler e abandonei antes de terminar o primeiro capítulo. Isso é comum para quem é professor: você começa um romance e logo uma outra leitura, mais urgente, geralmente um texto técnico, o obriga a abandonar a ficção.

O livro ficou lá, escondido na estante, por mais de 10 anos, até que mudei de casa e comecei a arrumar a nova estante. Colocar livros numa estante pode parecer uma atitude simples para quem não gosta de leitura. Para um leitor assíduo, é algo demorado. É difícil resistir à tentação de dar uma folheada e ler um parágrafo ou outro.

Foi assim que comecei a ler Um conto de duas cidades. Considerando-se o início, é difícil imaginar porque eu o abandonei da outra vez. O livro tem uma das melhores aberturas da história da literatura:

"Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da luz, a estação das trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o paraíso, íamos todos direto no sentido contrário".

O livro apresenta uma trama que começa um pouco antes da Revolução Francesa e vai até a era de terror, em que dezenas, às vezes centenas de pessoas eram mortas diariamente, a maioria apenas pelo crime de serem nobres ou pela simples suspeita de serem traidores da pátria. As duas cidades do título são Paris e Londres, locais percorridos pelos personagens (embora os melhores momentos são aqueles passados na França revolucionária).

A trama inicia com o resgate do médico Manette, preso durante anos na Bastilha. Solto, sua filha, Lucie e um funcionário do banco Tellson seguem para Paris a fim de levá-lo para a Inglaterra, uma vez que ele pode vir a ser preso novamente se continuar em solo francês.

Dickens, baseando-se no livro de Carlyle, The French Revolution, aproveita-se do fato de que os nobres mais influentes da época tinham cartas que lhes permitiam capturar e encarcerar na Bastilhas qualquer desafeto para construir sua trama. O Doutor Manette teria sido vítima de uma dessas cartas, mas a razão pela qual ele foi preso só será revelada no final do livro, provocando uma nova tragédia.

Embora seja anterior a ele, Dickens parece ter lido o conselho de Edgar Alan Poe: imaginar primeiro o final e fazer todas as tramas e personagens se enlaçarem. Aliás, os últimos capítulos são uma aula de suspense. Como num filme de Hitchcock, acompanhamos as várias tramas avançando na direção da tragédia representada pela guilhotina.

Dickens tinha um olhar de fotógrafo: sua capacidade de ambientar o leitor através da visão de pequenos acontecimentos é única e pode ser bem apreciada no primeiro capítulo V, o primeiro em que aparece o bairro de Santo Antônio, onde é focada a maior parte da narrativa da era do terror. Um grande tonel de vinho tomba na rua e se quebra. O populacho se embriaga com o líquido, que escorre pelo calçamento acidentado: homens e mulheres cavoucam as poças com canecas de barro lascadas ou com lenços de cabeça das mulheres, que são torcidos para derramar gotas do líquido precioso na boca das crianças. O episódio, sem menor importância, torna-se um prenúncio do que virá quando um rapaz usando barrete vermelho usa o vinho para escrever no muro: "Sangue".

Dickens usa esses instantâneos para ambientar sua historia e criar expectativa, preparando o leitor para o que virá. Isso é feito de maneira lenta, própria de uma época em que se podia ler calmamente um livro: a narrativa avança aos poucos e há capítulos apenas com o objetivo de antecipar a carnificina que virá. O capítulo VI, por exemplo, é usado quase que só para descrever o local em que o Doutor e sua filha moram em Londres e um curioso efeito acústico, que lhes permite ouvir vozes e passos vindos de outras ruas, como se fossem uma multidão invisível: "Talvez vissem também a grande multidão de pessoas com seu ímpeto e seu rugido avançando sobre eles".

O leitor que resistir a essa narrativa lenta será recompensado não só pela bela prosa de Dickens ou pelo final de tirar o fôlego, mas também por uma análise interessante sobre uma época: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade ou Morte; a última muito mais fácil de conceder do que as outras, ó Guilhotine!".

Suas descrições da carnificina são um verdadeiro estudo da natureza humana sob a influência da multidão. Em determinado ponto do livro, um dos prisioneiros é restituído à liberdade exatamente na noite em que os jacobinos decidem matar centenas de nobres que entulham as prisões. No meio da confusão, ele acaba sendo apunhalado. Chamado para atendê-lo, o doutor o encontra sendo atendido por um grupo de samaritanos sentados sobre os corpos de suas vítimas. Eles o ajudam com total solicitude, improvisam uma padiola e mandam uma escolta tirá-lo dali. Depois empunham suas armas e voltam a se dedicar à hedionda carnificina.

As notas do final do livro ajudam a entender melhor o sentido de algumas passagens ou acrescentam informações aos episódios. Sobre a noite referida, a nota cita Mercier, detalhando o assassinato da princesa de Lamballe: "Tendo os assassinos dividido os pedaços sangrentos do corpo dela, um desses monstros arrancou-lhe os pelos pubianos e fez um bigode para si mesmo com eles".

Dickens, que chegou a fazer uma reportagem sobre uma execução na guilhotina (na Itália) mostra a todo momento sua ojeriza aos crimes cometidos durante a era do terror. Mas não faz uma acusação cega dos revoltados. Ao contrário, deixa claro que tal estado de coisas só foi possível em decorrência da situação absurda em que vivia a França na época pré-revolução, com uma nobreza de poderes absolutos gastando fortunas em luxo enquanto a população miserável passava fome: "Seis carros mortuários rodam com estrondo pelas ruas de Paris. Faça-os regressar ao que eram antes, ó Tempo, poderoso mago, e eles serão vistos como luxuosas carruagens de monarcas absolutos, como equipagens de nobres feudais, como toucadores de mulheres deslumbrantes como Jezebel, como igrejas que não a casa do meu Pai, mas um covil de ladrões, como a choupana de milhões de camponeses esfaimados!".

A edição da Nova Cultural já está fora de catálogo, mas existe uma outra, da Estação Liberdade, para os que ficarem interessados.

A praga do Power Point


Dia desses vi um professor gritando e brigando com deus e o mundo por causa de um data-show. Fiquei curioso e resolvi passar pela sala dele e conferir como ele usava o recurso. Lá estava um power point com texto imenso, em corpo 14, fundo preto, e nenhuma imagem. 
Ou seja, ele estava brigando pelo direito de torturar os alunos.
Para começar, claro, o bom professor é aquele capaz de se aptar. Se não tem data-show, usa outra estratégia. Professor que só sabe dar aula com data-show é medroso: ele se esconde por trás do recurso e sem ele se sente perdido da mesma forma que um professor que só dava aula com umas fichas velhas e carcomidas. Um dia os alunos sumiram com as fichinhas e o professor não conseguia mais dar aulas.
Claro, o power point e o data-show podem ser ótimos recursos, mas só se bem usados ou usados com o mínimo de inteligência. Caso contrário, só provoca sono no aluno (lembro dos alunos de um determinado professor dizendo que dormiam em todas as aulas que ele usava data-show, até por causa da luz apagada).
Abaixo alguns pontos importantes na hora de usar esse recurso:
1) Para começar, é preciso lembrar que se trata de um recurso audio-VISUAL.  Ou seja: você usa quando tem algo para mostrar, um gráfico, uma tabela, uma imagem, um vídeo, um organograma, um fluxograma. Se é só para colocar texto para os alunos lerem, melhor entregar uma apostila. Funciona melhor e não dá sono. Uma vez um professor de pós-graduação pediu data-show apenas para colocar o título do módulo para os alunos. Durante 3 dias o data-show mostrou só o nome da discíplina.
2) O que é importante deve vir em destaque. Vale uma animação, uma setinha apontando para uma parte importante do texto... Só não se deve exagerar.
3) Olha o tamanho da letra (uma vez uns alunos apresentando trabalho colocaram o texto numa fonte tão pequena que eles mesmo tinham dificuldade para ler). Tamanho mínimo: 20.
4) Uma informação em cada slide. Não junte várias informações em um único tópico.
5) Ilustre. Em uma aula sobre a filosofia aristotélica não custa nada colocar a imagem do Aristóteles. Isso vai ajudar os alunos a visualizarem o assunto. Lembre-se: o data-show é um recurso audio-visual.
6) Não se limite a ler o que está escrito no slide. Seus alunos sabem ler, pelo menos teoricamente. Ler em um momento ou outro para destacar uma informação, tudo bem. Mas quem fica lendo slide dá mensagem clara: "Eu não conheço muito desse assunto, então vou me apegar nesse slide, e tomara que ninguém faça perguntas!".
7) Fundo preto dói na vista. Os fundos claros são muito mais agradáveis.
8) Não passe muito tempo em um único slide. Máximo cinco minutos em cada slide, ou você estará dando a impressão de que não precisava do recurso ou que não sabe se organizar. Eu figo agoniado quando vejo que slide não passa. Dá a impressão de que a pessoa está enrolando.
9) Tenha sempre um plano B. Só professor limitado deixa de dar aula porque o recurso furou. Certa vez faltou energia e levei meus alunos para debaixo de uma árvore por causa do calor. Foi a minha melhor aula com essa turma. Fora da sala de aula, todo mundo pareceu se interessar mais pelo assunto e a discussão do ponto foi ótima.

quarta-feira, dezembro 11, 2019

A ciência e a razão nos quadrinhos


Em 1996 fiz minha primeira apresentação no Congresso Intercom de ciências da comunicação. No artigo "A ciência e a razão nos quadrinhos" comparei uma obra moderna, Flash Gordon, e uma obra pós-moderna, Watchmen, e identifiquei como a ciência era mostrada em cada uma. 
Para ler o artigo: http://www.portcom.intercom.org.br/…/1892e2989eee33d8479a02…

O bom professor




Tenho percebido que em muitas instituições tem havido uma valorização excessiva de itens como cumprimento de prazos acadêmicos. O bom professor, para essas instituições, é aquele inicia suas aulas sempre exatamente no horário, sempre termina exatamente no horário, entrega as notas exatamente dentro do prazo. Até mesmo os questionários de avaliação dos professores reforçam essa filosofia. A maioria das perguntas são do tipo: o professor começa suas aulas sempre no horário correto? O professor nunca falta? O professor entrega as notas na secretária dentro do prazo estipulado pelo calendário acadêmico?
É claro que um professor relapso, que falta, chega sempre atrasado, não cumpre prazos, na maioria das vezes é totalmente descomprometido com a educação e dificilmente irá acrescentar algo ao aluno. Mas reduzir a importância do professor a esses itens é esquecer os significado da educação.
A teoria dos modelos mentais, da psicologia cognitivista, nos apresenta uma definição interessante de aprendizado. Para ela, percebemos o mundo através de modelos. A perceberemos uma nova informação a encaixamos dentro de um modelo já existente. Ao ver um beija-flor a pessoa a encaixará em seu modelo mental de pássaro. O aprendizado, segundo essa teoria, consiste na melhora, no enriquecimento de modelos mentais.
Imaginemos um indivíduo que desconhece completamente o que é um avião. Ao ver uma aeronave, sua tendência será encaixar essa nova informação em um de seus modelos. O avião, portanto, é um pássaro. Mas, conforme tiver conhecimentos sobre o assunto, esse modelo irá evoluir para pássaro de metal e finalmente para uma nova categoria, a de coisas que voam, mas não são pássaros. O exemplo demonstra a evolução de um modelo mental, e, portanto, de aprendizado.
Segundo Nilson Lage, enquanto o marketing objetiva, em geral, a atualização de modelos mentais pré-existentes, com preferências pelos mais gerais e primitivos, a educação pretende algo além disso. Quer influir sobre os modelos mentais de modo a modificá-los radical e duravelmente.
Raramente as avaliações institucionais são capazes de perceber essa dimensão, especialmente em decorrência de sua ênfase sobre a norma.
Há momentos em que aprender significa fugir da norma e, portanto, dos modelos mentais pré-estabelecidos. Certa vez faltou energia no horário de uma de minhas aulas. Como a sala estava excessivamente quente, levei meus alunos para debaixo de uma árvore e continuamos ali, em círculo. Poucas vezes tive uma aula com tanta participação de meus alunos e, curiosamente, essa turma se saiu muito melhor na prova do que as outras, que haviam tido aula na sala. Nesse caso, aprender significou também mudar o modelo mental de que só se aprende em sala de aula.
Sócrates não cumpria carga horária, ou entregava diários de classe na secretária, ou começava e terminava suas aulas sempre no mesmo e específico horário. Entretanto, alguém duvida de que ele foi uma das figuras universais mais eficientes em mudar os modelos mentais de seus alunos?
No livro Como Se Faz uma Tese, Umberto Eco nos diz que seu modelo ideal de aula seria aquele em que o professor ministrasse uma conferência, seguida de um momento em que cada aluno, de acordo com seu interesse, o procurasse para discutir o assunto.
Muitas vezes o aluno aprende através de um livro que um professor indica, ou uma conversa de corredor. Boa parte do que aprendi com meu orientador de mestrado, aprendi em conversas durante o almoço. Sem a obrigatoriedade de seguir um conteúdo programático, suas observações eram guiadas pela minha curiosidade sobre o assunto.
Claro que não se trata de propor uma escola em que não haja nenhum compromisso com horários ou prazos, mas o grande problema é que a ênfase da maioria das escolas tem dado apenas para esse aspecto. Para essas instituições, o bom professor é aquele que chega exatamente no horário, termina exatamente no horário e entrega suas notas em dia na secretaria. Se houve aprendizado é irrelevante. Normalmente, esse ponto de vista, positivista na sua essência, é justificado, nas faculdades particulares, com o argumento de que o aluno paga para ter 50 minutos de aula. Isso não é verdade. Ele paga para aprender. Seja debaixo de uma árvore ou dentro da sala de aula. Seja nos 50 minutos de aula ou em uma conversa na lanchonete.

Heróis em ação


Heróis em ação foi uma revista que marcou época. Na época os melhores quadrinhos da DC Comics eram publicados ali, como Novos Titãs e, principalmente, o Esquadrão Atari. Esse último era uma história de ficção científica com personagens carismáticos e desenho do espetacular Garcia Lopez. Gerry Conway, um roteirista irregular, que fazia coisas muito boas ou muito ruins, estava num momento inspirado, pois fez ótimo trabalho no Esquadrão. A aventura lembrava os seriados antigos, com o suspense no final do capítulo.  Falando em Garcia Lopez, no início da década de 1980 a Abril lançou uma coleção de figurinhas com os personagens da DC desenhadas por ele. A tais figurinhas tinham efeitos metálicos que maravilhavam a garotada. Infelizmente não comprei na época, mas gostaria muito de tê-lo feito.

Ironias quadrinísticas



Uma das grandes ironias dos quadrinhos é que muitas vezes os criadores de determinado personagem acabam vendo suas crias se tornarem grandes sucessos nas mãos de outro autor. Isso era especialmente comum na era de bronze, em que roteiristas e desenhistas trocavam facilmente entre a Marvel e a DC.
Os exemplos são muitos.
Talvez o mais óbvio sejam os Novos X-men. Eles foram criados por Len Wein, que escreveu o primeiro número e entregou o título para um jovem estagiário da Marvel, Chris Claremont. Afinal, ele tinha coisas mais importantes para fazer, títulos mais importantes para escrever e os X-men nunca tinham sido um sucesso. Pouco tempo depois o grupo de mutantes se tornou um sucesso absoluto, especialmente depois da entrada de John Byrne nos desenhos. Em poucos anos era o título mais vendido da Marvel, os mutantes espalhava-se por vários gibis. O sucesso comercial foi tão grnade que Claremont ficou rico.
Len Wein, aliás, foi o roteirista criador do Monstro do Pântano, que fez algum sucesso na época, mas só se tornaria um sucesso absoluto de público e de crítica nas mãos de Alan Moore.
Aliás, Wein e Gerry Conway eram colegas de quarto. Não se sabe ao certo quem copiou quem, mas na época em que a DC lançou o Monstro do Pântano, Conway lançou o Homem-coisa na Marvel, uma sensação do recomeço do terror na editora, um título que estabeleceu nas mãos de Steve Gerber!
Um dos maiores sucessos da era de bronze foi o Mestre do Kung Fu, criado por Steve Englehart e Jim Starlin. Apesar de existirem na época diversos outros personagens tentando aproveitar a popularidade de Bruce Lee, alguns inclusive anteriores, foi Shang Chi que melhor captou o espírito dessa época. A revista foi uma das mais vendidas da Marvel, sendo publicada por anos... mas escrita por Doug Moench e  com desenhos de Paul Gulacy!
Outro exemplo é o personagem Demolidor, de Stan Lee e Bill Everett.
Everett tinha sido um dos criadores de Namor, o príncipe submarino, um dos maiores sucessos da Marvel na Era de Ouro e Lee queria trazê-lo para o barco nessa nova fase da editora. Assim surgiu o convite para desenhar o personagem. Mas Everett, que na época trabalhava com publicidade, mal conseguiu terminar o primeiro número. Foi substituído por Wally Wood e depois por outros desenhistas. Várias equipes criativas foram se sucedendo no personagem, que vendia cada vez menos.
No início dos anos 80 a revista estava para ser cancelada quando foi assumida pelo jovem Frank Miller, que revolucionou o personagem transformando-o num dos mais vendidos da Marvel. A popularidade do Demolidor de Miller era tão grande que no Brasil ele era o carro-chefe da revista Superaventuras Marvel. O personagem criado por Stan Lee e Bill Everett só se tornou realmente um sucesso nas mãos de Frank Miller.

Quadrinhos hiper-reais na revista Nós


A revista Nós, da Universidade Estadual de Goiás, dedicou um de seus números mais recentes aos quadrinhos. Entre vários artigos de alguns dos principais pesquisadores de quadrinhos do Brasil, um texto meu sobre a hiper-realidade e simulacro nos quadrinhos do Capitão Gralha.
Para acessar a revista, clique aqui.

A arte impressionante de Dave Gibbons

Dave Gibbons vai ficar para sempre marcado como o desenhista e co-criador da antológica série Watchmen. Mas sua carreira iniciou muito antes disso e foi muito além. Gibbons é um desenhista completo, com uma incrível capacidade de criar conceitos, padrões visuais, composições. Cada traço seu tem um estilo único que já era visível em suas colaborações para a revista inglesa 2000 AD (na qual conheceu Alan Moore). Confira a arte impressionante desse artista único.











terça-feira, dezembro 10, 2019

Impossibilidades quadrinísticas

   De vez em quando eu penso em coisas improváveis... como uma antologia poética do Hulk. O prefácio, claro, seria do doutor Bruce Banner, e seria mais ou menos assim:
            “Confesso que estranhei o convite desse amável e desconhecido senhor de prefaciar seus contundentes poemas. Na verdade, embora sempre estejamos nos mesmos locais, nunca tivemos a oportunidade de nos encontrar. Até porque... aughh grooowh gaarrhhh... Onde estão homenzinhos? Hulk esmaga!”
            Mesmo ameaçando bater em quem não comprasse seus livros, o gigante verde não venderia muito. Afinal, seus versos seriam sofríveis:
            “Hulk esmaga!
            Até creme de batata!”

            O Thor escreveria romances policiais. Também não daria certo. Muito papo e pouca ação:
            “Então sois vós o assassino ou éreis aqueles de quem não desconfiávamos? Quiçá o mordomo?”
            O Coisa, por outro lado, daria um ótimo comentarista político:
            “Quer saber? Está na hora do pau!”

            O Super-homem viraria garoto propaganda das companhias aéreas: “Para o alto e avante!”. Mas no Brasil seria processado por propaganda enganosa.
            Preciso parar de pensar nessas coisas, ou nunca serei contratado pela Marvel. 

A fábula da galinha

O presidente chamou os deputados, senadores, ministros e os homens mais ricos do país e para mostrar-lhes algo e pediu que lhe trouxessem uma galinha.
Um soldado a segurou e o presidente tirou-lhe todas as penas, uma a uma, reduzindo a galinha uma massa de dor e sangue.
“Como podem ver, eu lhe tirei tudo”, disse o presidente, “inclusive a dignidade. Agora observem o que faço”.
O presidente pegou um saco de farelos e começou fingir que os jogava no chão. A pobre galinha esqueceu a dor e o sofrimento e correu atrás do presidente, suplicando pelas migalhas que ele fingia que lhe oferecia, enquanto dizia: "Está vendo? Se não fosse eu, iam lhe tirar até esses farelos!".
Ministros, deputados, senadores, milionários, todos estavam atônitos com a cena, sem acreditar. “Assim é o povo”, explicou o presidente aos homens mais poderosos do país. “Nós podemos lhe tirar tudo, os direitos, a aposentadoria, tudo, e ainda assim correrão atrás de mim, me amarão e me defenderão contra tudo e contra todos”.
Ao ouvirem essa grande verdade, aqueles homens se regozijaram, pegaram um helicóptero e foram para uma mansão comemorar com um grande banquete.

Xuxulu fazendo arte


Asas demoníacas sobre Shadizar


Eu devia ter uns 14 anos e, na época, se você quisesse pagar um conta deveria enfrentar uma fila enorme no banco. E eu era responsável por pagar as contas da casa. Certa vez a fila era tão grande que saía do banco e serpetenteava por toda a quadra. Para se distrair, alguém levou um gibi, que acabou emprestando para a pessoa do lado, que emprestou para a outra, que emprestou para a outra, até que chegou em minhas mãos e só devolvi quando li tudo, incluindo a sessão de cartas. Era a Superaventuras Marvel número 4 e, entre todas as histórias, uma das que mais me chamaram atenção foi uma aventura de Conan escrita por Roy Thomas e desenhada por Barry Smith, Asas demoníacas sobre Shadizar, publicada originalmente na revista Conan The barbarian número 6.
Essa é uma história de quando a equipe já estava mais afinada e já tinha entendido o personagem, depois do tropeço das primeiras revistas.
Na HQ, conan está com um saco cheio de moedas de ouro quando entra numa taverna. Lá ele conhece uma prostituta, Jenna, que o convence a fundir o ouro no formato de coração (segundo ela, mais fácil de carregar) e o leva para o deserto, onde, no meio de um beijo, os dois são atacados por sacerdotes do deus noturno e a moça é levada por eles para servir de sacrifício.
Conan, depois de procurar o ferreiro que a moça dizia ser seu tio (era mentira), resolve resgatá-la sozinho, disfarçando-se com o manto vermelho dos adeptos do culto.
O deus noturno é, na verdade, um imenso morcego (é impressionante como na era hiboriana existiam muitos animais enormes e mais impressionante ainda como eles eram quase sempre confundidos com divindades!).
Conan, claro, salta no morcego e salva a moça, mas acabam no deserto. Desgastado pela luta, é consolado pela moça, que lhe sugere e tenha sonhos dourados. Quando acorda, sozinho, em pleno deserto, Conan descobre que a moça fugiu levando o coração de ouro e concluí: “Eu fiquei com os sonhos.. e ela com o ouro”.
Estava ali todos os elementos de uma boa história de Conan, a começar pela filosofia de Robert E. Howard, segundo a qual a verdadeira honra só pode ser encontrada em um selvagem. Terminar com a adorável moça roubando o ouro daquele que a salvou representa muito bem isso. Junte a isso cultos estranhos, muita ação, o traço de Barry Smith, que já começava a se tornar aquele que todos conhecemos, um Conan que, apesar de seu gesto heroico, é pouco cavaleiro, e temos uma ótima aventura do barbáro. 

O Homem de ferro

Em 1963, a Marvel vivia o auge da criatividade. Personagens como Homem-aranha, Thor, Hulk e Quarteto Fantástico revolucionavam os quadrinhos de super-heróis. Foi nesse ano que surgiu um dos personagens mais políticos da editora: o Homem de ferro.
            Stan Lee queria fazer um personagem que fosse bilionário e inteligente, um ricaço (talvez em oposição ao pé-rapado Homem-aranha). Mas, como sempre acontecia com os personagens da Marvel, este precisava ter um ponto fraco, um pé de barro. O Demolidor, por exemplo, era cego. Que problema tornaria esse novo personagem frágil? ¨E se o nosso herói tivesse uma falha no coração? E se esse problema o obrigasse a usar um dispositivo metálico para se manter vivo? Ora, esse dispositivo poderia ser o elemento básico numa armadura capaz de lhe dar poderes, e, ao mesmo tempo, esconder sua identidade¨, pensou Stan Lee.
            O personagem surgiu em plena guerra do Vietnã e foi usado como propaganda patriótica.
            Assim, o herói é Tony Stark, um homem que fabrica armas para o exército norte-americano. Em um de suas visitas ao campo de batalha, ele é atingido por estilhaços de granadas e feito prisioneiro pelos vietcongs. O famigerado general comunista Wong Chu o obriga a construir uma arma para derrotar os exércitos da democracia, mas Stark usa o tempo para construir para si uma armadura capaz de mantê-lo vivo e derrotar as tropas comunistas.
            Essa história foi publicada na revista Tales of Suspense 39, com grande sucesso (o que fez com que o personagem ganhasse um desenho animado). Posteriormente o herói metálico iria dividir a revista com o Capitão América, reformulado por Stan Lee e Jack Kirby.
            Embora o uniforme do personagem tenha mudado muito desde aquela primeira aventura, alguns elementos se mantiveram inalterados: o problema de coração e o poder que se esvai quando a energia acaba, obrigando o herói a parar para recarregar... só o fator político que foi esquecido quando a guerra do Vietnã se tornou impopular entre os norte-americanos. Anos depois, escrevendo sobre o herói, Stan Lee fez um mea culpa: ¨Este conto foi escrito em 1963 e, nessa época, nós acreditávamos que o conflito naquela terra sofrida era uma simples questão de confronto entre o bem e o mal. De lá para cá, todos nós crescemos um pouco e, até hoje, estamos tentando nos livrar do trágico envolvimento com a Indochina¨.  

O taoismo e a superação dos pares contrários

Muita gente conhece, e até usa o símbolo aí em cima, mas pouca gente realmente sabe o que ele significa. O tei-gi é a representação visual dos princípios do taoismo uma filosofia-religião chinesa. Os taoistas acreditavam que a vida estava em constante mudança. Nada é eterno, nada é para sempre, tudo está em cosntante transformação. 
Mas essa transformação se dá de forma cíclica e é o que a figura mostra. Ela é formada por duas partes, uma preta e outra branca. São os pares opostos, o yin e o yang: o masculino e feminino, o feio e o belo, o bom e mal. Normalmente, quando interpretamos o mundo, usamos os pares contrários: fulano é belo, fulano é feio, fulano é vitorioso, beltrano é um derrotado. Mas a figura nos mostra que devemos transcender essa visão limitada.

As formas preta e branca formam uma espécie de onda, como se fosse a água se movimentando. Isso simboliza a eterna mudança, base de toda a criação. Os pares opostos não estão estaques, mas em movimento. Uma mulher que hoje é bela amanhã pode se tornar feia. O que hoje é bem, pode ser o mal. O que hoje é prazer pode se tornar dor. A vitória pode se transformar em derrota. 
O tei-gi nos ensina que no auge da parte branca, temos um pequeno círculo preto, demonstrando que o máximo de um estágio é o começo do estágio seguinte. O auge do sucesso marca o início da decadência. O auge da derrota pode ser o início da vitória. Exemplo: no início da década de 1940, quando invadiram a Rússia, os nazistas viviam seu maior momento e parecia que eles eram invencíveis. Mas foi justamente nesse período que os rumos da guerra começaram a virar em favor dos aliados. 
Dessa forma, os pares opostos não são absolutos: o belo traz em si também o feio. O feio traz em si o belo. A imagem permite ver os pares opostos em uma perspectiva global e é o que faz o taoista, indo além deles. Assim, para o taoista, vitória e derrota são apenas dois lados da mesma moeda e não se deve apegar a nenhum deles, pois seria estar parado em um mundo de eterno movimento.

O uivo da górgona mistura zumbis e crítica social


Um som se espalha pela cidade (ou pelo estado, ou pelo país, ou pelo mundo?). Um som que ouvido transforma as pessoas em seres irracionais cujo único o objetivo são os instintos básicos de violência e fome. É o uivo da Górgona.
Acompanhe a história dos sobreviventes neste livro de terror, uma história de zumbis diferente, em que qualquer um pode se transformar, bastando para isso ouvir o terrível uivo da górgona.
Escrito em capítulos curtos, o livro transforma o suspense em elemento de fantasia, prendendo o leitor da primeira à última página. 
Pedidos: profivancarlo@gmail.com.