segunda-feira, setembro 25, 2017

Livro afetos Afetos, Relações e Encontros com Filmes Brasileiros Contemporâneos

Está sendo lançado em Goiânia, no dia 6 de outubro, entre 17:30 e 19h, no Hall do Teatro Goiânia (Av. Anhanguera c/ Avenida Tocantins) o livroAfetos, Relações e Encontros com Filmes Brasileiros Contemporâneos, de Denilson Lopes. 
O livro procura preencher uma lacuna na bibliografia de estudos sobre o cinema brasileiro dos últimos dez anos, após o chamado Cinema da Retomada, que se preocupou em conciliar qualidade e alcance comercial na busca de um público perdido desde o fim dos anos 80 e agravado no período da presidência de Fernando Collor. No novo momento, já de meados dos anos 00 em diante, uma grande parte da produção mais ousada se voltou para um formato independente das grandes produtoras e seus modelos.
Buscando entender esta mudança, o foco do livro, nos seus 10 ensaios são os trabalhos de jovens realizadores que chegaram entre 2009 e 2016 ao seu primeiro longa metragem entre os quais, Eryk Rocha, Julia Murat, Clarissa Campolina, Leonardo Mouramateus, André Antonio, Uirá dos Reis, Guto Parente, Luiz e Ricardo Pretti, Pedro Diógenes, Marcelo Caetano, Petra Costa, Gustavo Vinagre, entre outros. Sua emergência coincide com a proliferação do digital, de processos colaborativos e coletivos bem como a consolidação da Mostra de Tiradentes como a principal vitrine para esta geração. O livro propõe uma leitura crítica que é ao mesmo tempo aposta e reflexão sobre o que é ser um jovem artista hoje em dia, pressionado pela indústria cultural e pelo aumento de custo de vida, que busca pela arte outras formas de criar e de viver em conjunto. Para tanto, os filmes são lidos a partir dos estudos contemporâneos sobre os afetos. Estes constituem uma área teoricamente diversificada, bastante desenvolvida no mundo anglófono, mas ainda pouco explorada no Brasil, sobretudo aqui, na sua articulação com sugestões vindas de Deleuze & Guattari, dos estudos queer, dos estudos voltados à encenação entre outros. A presente coletânea de ensaios procurou ser escrita, de forma, que pudesse interessar não só a estudantes, professores e pesquisadores de cinema, mas a um público mais amplo, interessado nos debates sobre estética, arte e cultura.
Este livro é o número 16 da Coleção Pensamento Político-Social que tem a direção de Elide Rugai Bastos, André Botelho e Gabriela Nunes Ferreira.

SOBRE O AUTOR
Denilson Lopes é professor associado da Escola de Comunicação da UFRJ e pesquisador do CNPq . Foi presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE) e da Associação Brasileira de Estudos de Homocultura (ABEH). É autor de No Coração do Mundo: Paisagens Transculturais (Rio de Janeiro: Rocco, 2012), A Delicadeza: Estética, Experiência e Paisagens ( Brasília: EdUnB, 2007), O Homem que Amava Rapazes e Outros Ensaios (Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002), Nós os Mortos: Melancolia e Neo-Barroco (Rio de Janeiro: 7Letras, 1999), organizador de O Cinema dos Anos 90 (Chapecó: Argos, 2005), co-organizador de Silviano Santiago y los Estudios Latinoamericanos (Pittsburgh: Iberoamericana, 2015) e Cinema, Globalização e Interculturalidade (Chapecó: Argos, 2010).

Título: Afetos, Relações e Encontros com Filmes Brasileiros Contemporâneos
Autor: Denilson Lopes
ISBN: 978-85-8404-096-4
Formato: 14x21
Páginas: 202
Preço: R$ 42,00

Circulação:

A incrível Suzana e o cinema de equívocos

Um dos temas prediletos do diretor Billy Wilder é o de uma pessoa se fazendo passar por outra. Exemplos disso são Quanto mais quente melhor (em que dois músicos se disfarçam de mulheres para fugir de mafiosos) e Cinco Covas do Egito (em que um soldado inglês se faz passar por um garçom egípcio para espionar os nazistas). Ótimo exemplo disso é A incrível Suzana, em que uma mulher se faz passsar por uma garotinha para pagar meia passagem no trem e voltar para casa após se decepcionar com Nova York.
A questão da dupla identidade constantemente foge do controle dos protagonistas e leva a cenas constantemente equívocas, que podem e devem ser lidas de maneira  dúbia.
Em Quanto mais quente melhor, uma das melhores cenas é aquela em que Tony Curtis se faz passar por tímido para conquistar Marilyn Monroe, que acredita estar conquisantando um homem traumatizado por um relacionamento ruim. Cada gesto, cada palavra traz em si dois sentidos diferentes. Em determinado momento, o herói finge fugir do beijo da  garota, quando na verdade, está extasiado com o mesmo.
Em  A incrível Suzana, ao ser descoberta, Suzana (Ginger Rogers) entra na cabine do major Philip Kirby (Ray Milland), que acredita que ela é uma criança (ou finge acreditar) e a trata como se fosse uma sobrinha. A cena em que ela acorda com um raio e ele a conforta é repleta de conteúdo sexual implícito e uma aula de como trabalhar o duplo sentido no cinema.
Claro que isso só era possível graças ao incrível talento de artistas como  Ginger Rogers, Ray Milland, Marilyn Monroe e Tony Curtis. 
Em uma época em que o cinema podia mostrar muito pouco, mestres como Billy Wilder  brilhavam com a genialidade de diálogos equívocos. Assim, uma premissa tola transformava-se em um grande filme. 

Monteiro Lobato: Prisão

         
  Lobato escreveu uma carta ao presidente Getúlio Vargas denunciando as sabotagens do Conselho Nacional de Petróleo e sugerindo uma ação decisiva do governo em favor do petróleo nacional. O que conseguiu com isso? Ser preso por injúria ao presidente.
            Como o escritor havia pedido passaporte para tratar da publicação de seus livros na Argentina, o militar que dirigia o Conselho Nacional de Petróleo concluiu que ele pretendia fugir e, com esse argumento, mandou prendê-lo até o julgamento. Outra acusação era de que a companhia de Lobato era patrocinada por organizações internacionais. Como prova anexaram ao processo duas cartas de estrangeiros. Uma era de um engenheiro uruguaio que felicitava o escritor pelo lançamento do livro O Poço do Visconde. Outra era um cartão de natal assinado por um tal de Merry Christmas (Feliz natal), o que demonstra a burrice dos militares.
            Lobato ficou seis meses na prisão, junto com assassinos e ladrões. Quando saiu, escreveu uma carta ao general Goes Monteiro (que mandara prendê-lo) agradecendo pela estadia: “É profundamente reconhecido que venho agradecer V. Excia. o grande presente que me fez, por intermédio do augusto Tribunal de Segurança, de uns tantos deliciosos e inesquecíveis dias passados na Casa de Detenção desta cidade. Sempre havia sonhado com uma reclusão dessa ordem, durante a qual eu ficasse forçadamente a sós comigo mesmo e pudesse meditar sobre o livro de Walter Pitkin (Uma Pequena Introdução para a História da Estupidez Humana)”.
            Mas, afinal, qual era esse mistério todo que envolvia o petróleo brasileiro? Por que todos que se envolviam com o assunto eram misteriosamente “acidentados”, “suicidados”, ou iam passar uns tempos na prisão? Por que os poços eram sistematicamente boicotados, quando não sabotados pelas entidades governamentais que deveriam apoiá-los?
            Lobato descobriu a resposta quando uma amigo seu foi ao Rio de Janeiro visitar as companhias de petróleo cariocas. Procurando, deu com o endereço de uma companhia desconhecida. Era uma distribuidora de gasolina da Standar Oil. Quem o recebeu foi um diretor, que se alegrou em encontrar alguém das companhias brasileiras, para os quais precisava contar umas verdades:
            - Vocês partem do ponto de vista de que o petróleo é um negócio nacional, de cada país. Não é. O petróleo é um negócio internacional da Standar. Ela criou esse negócio no mundo e o mantém contra tudo e contra todos. Contra a vontade da Standard país nenhum tira petróleo que haja em suas terras.
            Contou também que os melhores campos petrolíferos já estavam sendo estudados e comprados pela Standard. Na época os EUA era um dos principais produtores mundiais de petróleo e o Brasil um grande comprador. Não interessava, portanto, que o petróleo brasileiro fosse descoberto. Era mais negócio ir comprando as terras e esperar até que o petróleo americano acabasse para começar a tirá-lo do Brasil. Todos os principais funcionários do Conselho Nacional de Petróleo recebiam soldo da Standard para evitar que o Brasil descobrisse seu petróleo.
            Com isso, até Lobato desistiu. Estava desconsolado, triste com a vida. Para esquecer, traduzia: “A tradução é minha pinga. Traduzo como o bebedo bebe: para esquecer, para atordoar. Enquanto traduzo, não penso na sabotagem do petróleo”.
            O motivo para continuar vivendo, encontrou-o nas crianças. “Ah, Rangel, que mundos diferentes, o do adulto e o da criança! Por não compreender isso e considerar a criança como ‘um adulto em ponto pequeno’ é que tantos escritores fracassam na literatura infantil e um Andersen fica eterno”, escreveu ele ao amigo.

            Dedicou-se à saga do Sítio do Pica Pau Amarelo. 

domingo, setembro 24, 2017

Metrópolis: um marco do cinema


Metrópolis é um dos filmes mais importantes da história. Dirigido por Fritz Lang e lançado em 1927, a película veio no rastro do expressionismo alemão (Lang havia sido co-roteirista de O gabinete do Doutor Caligari, filme fundador do expressionismo no cinema), o que se reflete principalmente pelos cenários grandiosos e pela interpretação marcante. 
A história deve muito ao clássico A máquina do tempo, de H.G. Wells: no ano de 2016, ricos vivem na superfície e têm sua vida paradisíaca sustentada pelos pobres trabalhadores, que vivem no subsolo operando máquinas monstruosas.
A história foca em um casal: Freder, filho do magnata dono da cidade, e Maria, uma benfeitora dos pobres, que acredita na paz entre as duas classes. Os dois se conhecem quando Maria leva crianças pobres para a superfície e é imediatamente enxotada. O rapaz, fascinado, desce, procurando por ela e vê uma máquina explodindo e matando vários operários.
A situação se complica quando um inventor enlouquecido cria um robô com as feições de Maria capaz de enfeitiçar a todos com sua beleza. Seu objetivo é provocar uma revolta dos operários que resultaria na destruição da cidade.
Metrópolis criou a base do que viria a ser a ficção científica cinematográfica (a exemplo de Star Wars e Wall-E), desde a ação initerrupta aos cenários deslumbrantes e visual dos robôs.
O impacto sobre os quadrinhos não é menos relevante. Basta lembrar da cidade do Super-homem, Metrópolis, uma referência óbvia ao clássico de Fritz Lang.

Monteiro Lobato: o escândalo do petróleo

Quando voltou dos EUA, onde morou na década de 1920, Lobato trouxe o sonho de tornar o Brasil um país tão próspero e rico quanto os EUA. Ele percebera que o petróleo era a base do desenvolvimento daquele país e a solução para desenvolver o Brasil era o petróleo. Mas não ia ser fácil dar petróleo ao Brasil. Para começo, não havia qualquer apoio governamental. Pelo contrário. Dizia-se e redizia-se que no Brasil não havia petróleo. Se houvesse algum, os americanos, espertos que eram, já o teriam descoberto, argumentavam. Lobato pensava diferente. Se quase todos os países com os quais temos fronteira retiravam petróleo, porque o Brasil, e só o Brasil teria sido boicotado pela natureza?
            Havia, inclusive, evidências. No início do século um geólogo dinamarquês descia um rio do Mato Grosso quando observou na água um óleo que alcançava a água através de um barranco. Foi acompanhando o rastro e encontrou um olheiro que soltava óleo em grande quantidade: até 600 litros por dia! Era petróleo. E dos melhores. O dinamarquês recolheu o óleo, analisou e correu para o Rio de Janeiro para pedir licença para exploração. Estranhamente, o governo se recusou a dar a licença.
            Em 1918 um sábio alemão chamado Bach foi parar em Alagoas. Achou que a região poderia ter petróleo e fez estudos. “Aqui há petróleo para abastecer o mundo”, concluiu. E formou uma empresa para explorar a mina.
            Súbito morreu. Quando atravessava uma lagoa com um canoeiro que não era o habitual, a canoa virou. Lá se foi o sábio para o fundo, enquanto canoeiro nadava tranquilamente para a margem...
            Mesmo com essas estranhices, Lobato inventou de formar uma empresa exploradora de petróleo. Com o dinheiro do petróleo entraria de sola no projeto de fabricar aço por um novo processo mais econômico e ecológico.
            Lobato começou a escrever em jornais, divulgando o petróleo brasileiro, e os acionistas começaram a aparecer.
            Certa vez foi no escritório um homem visivelmente pobre. O que não era de se admirar, já que a maioria dos acionistas era composta de gente humilde, que tinha o sonho de enriquecer. O susto veio quando o homem depositou na mesa uma grande quantia em dinheiro. Lobato piscou trinta vezes.
            - Mas, mas... gaguejou Lobato. Todo esse dinheiro...
            - São minhas economias. Guardei durante anos.
            O escritor, passado o susto, caiu um si. Onde já se viu, investir as economias de uma vida, todo o dinheiro, numa empreitada arriscada que podia dar em nada? Lobato disse isso ao futuro acionista.
            - Sei, sei de tudo. - respondeu ele. Estou investindo porque acredito que assim posso ajudar o Brasil.
            Lobato abaixou-se para pegar uma caneta que, de fato não tinha caído e, assim escondido, tratou de enxugar umas aguinhas que insistiam em cair-lhe dos olhos. 

            Começaram as escavações e com elas os problemas. Surgiram mais e mais dificuldades jurídicas, a maior parte delas provocada pelo órgão do governo que deveria incentivar a descoberta de petróleo. Um amigo de Lobato, que também estava engajado na campanha pelo petróleo, foi misteriosamente assassinado. 

A maldade humana

 
Experimento prisão Stanford


Uma das questões mais antigas da filosofia é: o homem é bom? Existe uma bondade natural ao homem ou ele é, essencialmente, mau? Durante anos acreditei que o homem era bom. Atualmente acredito que o ser humano não é intrinsicamente mau, mas a humanidade se inclina na direção da maldade.

Para explicar, preciso remeter aos comportamentos coletivos e à estrutura do cérebro. De maneira simplificada, podemos dizer que o cérebro é dividido em três partes: o complexo reptiliano, nosso cérebro mais antigo, responsável pelos instintos mais básicos do ser-humano (sobrevivência, sexo, comida). Depois dele temos o complexo límbico, um cérebro mais recente, que governa as emoções e o instinto de manada, a necessidade de pertencer a um grupo. Finalmente, temos a parte mais avançada de nosso cérebro, o neocórtex, responsável pelo pensamento lógico e pela linguagem.

Segundo a psicologia de massas, o complexo límbico está associado ao comportamento de massa, enquanto o neocórtex governaria o comportamento do público.

A maioria das pessoas não acordaria e daria um tiro no vizinho enquanto ele lhe dá bom dia. Esse é um comportamento que se espera de psicopata. Entretanto, em vários momentos da história da humanidade temos visto grupos de pessoas agindo com extrema violência, como se fosse possível transformar em psicopatas toda uma comunidade - do Estado Islâmico ao nazismo passando pelo massacre em Ruanda. Como explicar isso?

A resposta está justamente na necessidade, imposta pelo complexo límbico, de fazer parte de um grupo. Pessoas escolhem seus grupos e se entrincheiram neles. Sejam igrejas, torcidas de futebol ou ideologia política. Grupos que se organizam em torno de uma liderança. Pessoas precisam de alguém que lhes diga como pensar, como agir, como decidir o que é certo e o que é errado. Não é à toa que religiões que estimulam o livre pensar não fazem sucesso (ou com o tempo se modificam no sentido de se tornarem modelos prontos).

Apesar de crescerem, as pessoas continuam sendo crianças, que necessitam de alguém a quem seguir. Fazer parte de um grupo lhes traz conforto e segurança. O grupo dá poder ao indivíduo. Exemplo disso é garoto que é valentão quando está com sua gangue, mas absolutamente covarde quando está sozinho.

Por outro lado, quem não faz parte do grupo passa a ser visto com desconfiança, como um potencial inimigo. E, quem não faz parte de nenhum grupo, ou de grupos minoritários, parece ainda mais perigoso. Costuma-se dizer que as pessoas têm medo do diferente, mas na verdade, elas têm medo de quem não faz parte de seu grupo. A perseguição a quem não faz parte do grupo explica tanto a caça às bruxas quanto o buyilling. As bruxas eram mulheres "estranhas", que não se encaixavam na sociedade da época. Portanto, eram uma ameaça ao grupo. O mesmo ocorre com as vítimas de buyilling nas escolas. É muito raro que sejam atormentado por alguém individualmente, a violência vem sempre de grupos que, no fundo, o consideram um inimigo. Pode-se imaginar que esse comportamento violento com o outro seja uma exceção, mas dois episódios mostram que essa violência pode contaminar qualquer grupo.

O primeiro deles ocorreu quando um professor de uma escola secundária norte-americana em 1967, em Palo Alto, Califórnia, resolveu fazer uma experiência com seus alunos para recriar a atmosfera da Alemanha nazista. Ele os envolveu numa comunidade que dava valor à coletividade, em desfavor do indivíduo. Havia um símbolo, saudações, disciplina e um slogan: "Poder, Disciplina e Superioridade" A experiência, no entanto, acabou saindo do controle. O grupo, que começou apenas em uma turma foi se alastrando pela escola e logo seus integrantes estavam atacando quem não aderia a ele. O caso deu origem a um famoso filme "A onda".

Outro episódio foi o experimento da prisão de Stanford, levado a efeito em 1971 em que voluntários foram divididos em dois grupos - um de prisioneiros, outro de guardas. O que começou como uma experiência normal logo saiu do controle, com os guardas humilhando, torturando e violentando os presos. Como na época vivia-se o auge da guerra do Vietnã, a maioria dos voluntários pretendia ser prisioneiros, levando os pesquisadores a escolherem no cara e coroa quem seria quem. E muitos daqueles que eram contra a guerra se viram transformados em guardas violentos e abusadores. No final, o experimento que deveria durar duas semanas durou apenas seis dias. Sabe Deus o que aconteceria se tivessem ido em frente.

Outro experimento, levado a cabo pelo por Stanley Milgran mostrava o quanto as pessoas podem ser cruéis quando obedecem a uma autoridade. Voluntários eram colocados diante de uma máquina de choques. Do outro lado supostamente havia outro voluntário, que deveria responder a algumas perguntas. Para cada resposta errada, o aluno levava um choque, que ia aumentando de gradação. Mesmo acreditando que poderiam estar matando a pessoa do outro lado, mais de 60% das pessoas continuou acionando o aparelho porque era isso que lhe era ordenado pela autoridade presente (o pesquisador). Alguns o faziam de forma constrangida, mas faziam. Poucos se recusavam a continuar torturando a pessoa do outro lado. O mesmo pode ocorrer com qualquer pessoa se o grupo á qual pertence lhe der uma ordem semelhante. O medo de não fazer parte do grupo faz com que obedeçam a um líder carismático, mesmo que a ordem seja prender, torturar ou matar alguém.

É por isso que sistemas totalitários são tão sedutores. Fazer parte de um grupo dá uma sensação de conforto. Nesse sentido, George Orwell em seu livro "1984" estava errado. O autoritarismo não é algo que é imposto às pessoas, mas algo pela qual elas anseiam, na necessidade de fazerem parte de um grupo.

A diferença entre um pai de família pacato e um carrasco nazista ou um terrorista do Estado Islâmico é uma só: alguém que lhe diga que o grupo está em perigo, alguém que aponte um inimigo do grupo. A maioria das pessoas estará disposta a perseguir, torturar e até mesmo matar outras pessoas se o líder do grupo à qual pertence assim ordenar e se alternativa for ser excluído do grupo. Os fanáticos religiosos que lincharam a filósofa Hipátia em Alexandria são um exemplo disso. Incitados por seus líderes religiosos, aqueles cristãos acreditaram que alguém que pensava diferente deles deveria ser eliminado por constituir uma ameaça, por mais irracional que isso pudesse parecer - que tipo de ameaça uma mulher poderia exercer sobre uma religião que já estava instituída e oficializada?

Outro exemplo perfeito disso temos cotidianamente nas brigas de torcidas. A maioria daquelas pessoas são absolutamente normais em seu cotidiano, mas se tornam violentas quando estão em grupo e esse grupo se encontra com o inimigo. Talvez aquelas pessoas convivessem lado a lado sem se agredirem caso se encontrassem no metrô e uma não soubesse a que grupo a outra pertencia.

Até mesmo grupos de minorias muitas vezes se deixam dominar pelo ódio ao inimigo. Assim, muitas vezes o movimento feminista se torna um movimento contra os homens, o movimento LGBT se torna um movimento contra os heterossexuais e o movimento negro se torna um movimento contra os brancos.

Da mesma forma, grupos religiosos ou recreativos podem rapidamente explodir em pura violência se forem direcionados a isso - e quanto mais comprometida com o grupo, mais radical a pessoa será e maior a chance de entrar na escalada de violência.

Por outro lado, os livres-pensadores são o público, são indivíduos que colocam o pensamento crítico e a individualidade acima do grupo. Podem até ter suas convicções, sejam religiosas, ideológicas ou de qualquer outro tipo, mas para elas pertencer ao grupo jamais é o mais importante. Livres-pensadores costuma sofrer com a desconfiança, quando não com ataques diretos dos grupos. "Afinal, você é esquerda ou direita?" "Você precisa escolher uma religião", são exemplos da pressão que sofrem cotidianamente. Em casos extremos, isso descamba na violência e morte, como nos casos em que regimes autoritários se instalam. Livres-pensadores são sempre os primeiros a serem perseguidos.

Essa conclusão, claro, lembra muito a ideia do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, segundo o qual o homem é bom, mas a sociedade o corrompe. Essa frase pode ser reformulada: o homem não é necessariamente bom ou mal, mas a necessidade de fazer parte de um grupo na maioria das vezes o torna mau.

Talvez um dia o ser humano evolua e livres-pensadores sejam mais comuns que pessoas que fazem de tudo para serem aceitas por um grupo. Até lá estaremos sempre a um passo do holocausto. 

Conselho de hoje: Conserve seu medo.



Conserve seu medo

Mantenha ele aceso
Se você não teme
Se você não ama
Vai acabar cedo
Esteja atento
Ao rumo da História
Mantenha em segredo
Mas mantenha viva
Sua paranóia

A incrível arte fantástica de Moebius

Moebius revolucionou a ficção científica nos quadrinhos com suas imagens lisérgicas e histórias surreais em revistas como a Metal Hurlant. Confira abaixo alguns do desenho do mestre.
















sábado, setembro 23, 2017

Lançamento do livro O uivo da górgona

Hoje aconteceu o lançamento do livro O uivo da górgona na Biblioteca Pública Elcy Lacerda. Obrigado a todos que compareceram. Meu muito obrigado também à calorosa equipe da biblioteca. Confira as fotos. 












Os escravos da górgona


Este foi um dos livros que me influenciaram a escrever O Uivo da górgona (pelo menos foi a maior inspiração para o título ao ampliar o conceito de górgona para eventos que essencialmente mudam o ser humano para pior). Esse livrinho, originalmente denominado Os 100 dias da Górgona, foi escrito por Curtis Garland (pseudônio do espanhol Juan Gallardo) e publicado pela Cedibra em 1976 na forma de livro de bolso. Eu li provavelmente em 1984 ou 85 (comprei num sebo).
A história é fantasiosa: uma luz encobre o planeta terra. Quem a vê passa por transformações. O protagonista é um homem que sofreu acidente com ácido e está com os olhos enfaixados e por isso não se transforma. Ao acordar e tirar as faixas, ele descobre que todos estão paralisados, recobertos por uma película azulada.
Talvez seja coincidência, mas esse início me faz lembrar ao menos três obras. O homem que acorda num hospital após um apocalipse remete diretamente a Walking Dead e Extermínio. E pessoas sobrevivendo num mundo em que todas as outras foram paralisadas lembra muito o romance Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva. Tpdas essas obras são posteriores, o que pode significar que alguém talvez também tenha lido esse livro de bolso. Ou talvez ele só tocasse em temas universais do imaginário terror e FC.
O protagonista percorre a cidade e, milagrosamente, encontra a namorada e descobre que ela não se transformou - Londres inteira estava na rua no dia de verão e por alguma razão ela estava trancada no porão, de modo que não viu o clarão.
O casal passa as 128 páginas do livro se livrando de perigos. Primeiro são os homens petrificados, que ganham vida, depois as crianças, que se tornam verdadeiros psicopatas, e, finalmente, gosmas espaciais que sugam as memórias da pessoa e se transformam nela.
Antes que perguntem: não, o livro não é bom. Há vários deus ex machina, desde o padre cego que encontram e que sabe contar tudo que eles não sabem até a própria sobrevivência da namorada do herói, quando todos os outros se transformaram. Ah, sim, e enquanto fogem do perigo, a moça só consegue pensar em se casar!
E os diálogos, ah, os diálogos! Talvez para lembrar o leitor quem estava falando - ou simplesmente para deixar os diálogos mais melosos, os protagonistas repetiam o nome um do outro a cada fala:
- Ewa, minha querida. Agora estamos sós diante de um mundo diferente, hostil e estranho. É preciso lutar com muita coragem e determinação... está disposta?
- Todd, ao seu lado eu sou capaz de tudo!
Mas, aos meus treze anos, eu prestava pouca atenção aos problemas de roteiro ou diálogos forçados. Na verdade, eu muitas vezes reescrevia a história em minha cabeça.
E, como disse, essa foi, provavelmente, a gênese de O uivo da Górgona.
Em outras palavras: mesmo livros ruins podem ser uma boa influência.

Vozes da Tranquilidade [Canto Gregoriano] - Voices of Tranquility [Grego...

Monteiro Lobato: América

Em 1926 Monteiro Lobato mudou-se para os EUA. Ia como adido comercial brasileiro e levava na bagagem um romance americano. Chamava-se O Choque das Raças (depois rebatizado como O Presidente Negro). A história de ficção científica (uma das primeiras do gênero escritas no Brasil) se passava no ano de 2228. Nessa época o eleitorado se dividira em três facções: os homens brancos, as mulheres e os negros. Os negros aproveitam a desunião entre homens e mulheres brancos para eleger um presidente negro. Os brancos se vingam esterilizando os vencedores com um produto para alisar cabelos.
            Lobato escreveu O Choque das Raças de olho na série Tarzan, que já alcançava a tiragem de milhões de exemplares. “Eu me acho capaz de escrever para os Estados Unidos por causa do meu pendor para escrever para crianças. Acho o americano sadiamente infantil”.
            Mas ele era ingênuo. O americano é um povo muito cioso de sua dignidade. Uma visão tão crua dos conflitos entre negros e brancos acabou não agradando.
            O romance não agradou lá, mas aqui teve o mérito de ser a primeira obra de ficção científica a sair da pena de um grande escritor.
            A ida aos EUA acabou servindo por outros motivos. Lobato extasiou-se com a civilização americana. Foi aos grandes teatros, onde a fina flor da beleza americana era exibida quase nua, andou de metrô... “A mim o que mais me assombrou foi a New York subterrânea, com suas numerosas linhas de subway, seus trens, suas estações, imensas, restaurantes, lojas, cafés, livrarias, etc, etc. Tudo invisível para quem anda na New York da superfície. Uma pessoa pode passar a vida na cidade subterrânea sem necessidade de vir à superfície para coisa nenhuma”, admitiu ele, numa carta da época.
            E os EUA da época eram pura riqueza: “Sente-se em tudo a riqueza espantosa do país. Não há pobres, o pobre daqui é o remediado daí. Toda gente possui auto. O porteiro cá de nossa casa possui um cadillac”.
            Monteiro Lobato olhou aquilo e achou que o Brasil também podia ser rico como os EUA. Afinal, eram países quase do mesmo tamanho, descobertos em épocas próximas e com a população constituída dos mesmos elementos: o negro, o branco europeu e o índio. Mas, para isso, era necessário descobrir de onde vinha tanta riqueza. O que fazia dos EUA o que ele era? Lobato matutou, matutou e chegou a uma conclusão - o petróleo e o ferro eram os pilares da civilização americana. Tudo dependia do petróleo e do ferro.
            Um livro, por exemplo. Para fazê-lo é necessário cortar uma árvore. Necessita-se, então, de um machado ou de uma serra, que são feitos, adivinhe de quê? Ferro. Se a serra for elétrica, vai precisar de óleo, que é feito de petróleo. A árvore precisa ser transportada por uma caminhão ou um trem. Tanto um como outro são feito de ferro e usam petróleo como combustível. As máquinas que vão transformar a madeira em papel também são feitas de ferro... No final o livro chega às mãos do leitor depois de passar por um longo processo constituído de coisas que são de ferro e se movimentam graças ao petróleo.
            Atualmente começa a se delinear um mundo que não dependerá tanto desses dois elementos, mas na época de Lobato, eles mandavam e desmandavam como se fossem donos do mundo. E na verdade eram.
            O escritor percebeu isso e quis dar ao Brasil os reizinhos da indústria. Para isso ele tratou de conhecer todos os detalhes sobre o assunto e sobre a indústria americana. Ajudou muito o fato dele ter traduzido para o português um livro de Henry Ford, o magnata da indústria automobilística.  Quando chegou nos EUA, um agente da Ford estava esperando-o para levá-lo ao hotel e guardar sua bagagem - uma imensidade de livros - num depósito da empresa até que o escritor achasse uma casa.
            Em 1930 acontece uma revolução no Brasil e Getúlio Vargas sobe ao poder, dando início ao Estado Novo. “Revolução nada”, pensou Lobato, lá consigo. “O Brasil é um grande curral eleitoral. Mudam-se os governos, mas ficam os coronéis. Nada muda. Só tiram um coronel para colocar outro no lugar. Revolução é o que vou fazer com o petróleo e o ferro”.    

            Mas o epiódio tem um reflexo na vida do escritor. Da mesma forma que nas cidadezinhas do interior, onde quando a oposição ganhava lá iam para a rua todos os funcionários públicos, Getúlio promoveu a varredura. Lobato perdeu o cargo e voltou para o Brasil. Trazia consigo o sonho de ficar rico explorando o petróleo. Por tabela, o Brasil também ficaria rico. Havia de ser uma potência mundial e de repetir na América do Sul a prosperidade da América do Norte. 

sexta-feira, setembro 22, 2017

Roteiro de quadrinhos: como melhorar seu texto


Uma pergunta comum de novos roteiristas é: como melhorar meu texto?
A resposta vale para qualquer um que escreve, seja quadrinhos, cinema, TV, livros: lendo e escrevendo.
Não existe outra forma de melhorar que não seja produzido. Quanto mais produzir, melhor ficará seu texto. 
Isso é bem óbvio no caso de roteiristas de quadrinhos que trabalharam durante anos em um único título, começando em início de carreira.
Pegue, por exemplo, uma história de Chris Claremont na sua fase inicial dos X-men. Depois compare com uma história da fase em que os desenhos eram de John Byrne, época em que o texto de Claremont já estava desenvolvido. A diferença é gritante.
Outro exemplo é Gerry Conway, escritor que começou sua carreira no Homem-aranha e foi responsável por uma das fases mais antológicas do personagem, com histórias clássicas, como a morte de Gwen Stacy. No começo, o texto de Conway parece inseguro e claramente imita o de Stan Lee. Com o tempo o texto se torna solto e vemos, a cada edição, a melhora no roteiro.
Infelizmente no Brasil não temos um mercado consolidado de quadrinhos que permita ao roteirista evoluir escrevendo um título. Mas para isso vale a boa e velha editora Gaveta. Escrever para a editora Gaveta significa escrever para engavetar, sem nenhum objetivo imediato de publicação, escrever para treinar. Pode ser que um dia você vá lá na gaveta e reaproveite alguma daquelas ideias, mas o objetivo inicial é apenas esse – escrever.
O ideal de um bom escritor é ser como um bom motorista. Um bom motorista dirige automaticamente: ele muda a marcha, acelera, diminui marcha, freia, é tudo automático. Da mesma forma, um bom escritor. Depois de algum tempo e muito treino, o texto flui automaticamente e fica bom.
Revisando O UIVO DA GÓRGONA acabei me espantando com a quantidade de figuras de linguagem e de outros elementos narrativos que coloquei na trama. Foi tudo inconsciente. Não passei horas pensando: ah, vou colocar uma metáfora aqui, ah, vamos ter uma elipse aqui. Isso surge naturalmente. O ideal é que o escritor treine, treine, treine, até chegar a esse ponto.

A incrível arte de Al Williamson









Monteiro Lobato: Revolução editorial

Lobato foi o homem das revoluções. O arranco que deu na indústria livreira nacional foi uma delas. As outras foram a luta pelo petróleo e a literatura infantil. Antes dele não existia a literatura como atividade comercial. Escrevia-se para entrar na Academia, para se tornar imortal. Para isso, escrevia-se numa linguagem empolada que tinha como objetivo não agradar ao leitor, mas fazer gênero.
            O criador do Sítio odiava isso. “A desgraça da maior parte dos livros é o excesso de literatura”. Com isso ele se referia à terrível mania de escrever carro de Apolo, ao invés de Sol.
            É esse um dos traços mais modernistas de Lobato. Ele também abre caminho para o modernismo ao romper com a literatura açucarada, comum no Brasil do início do século. Uma literatura para moças, na qual não cabiam cenas mais fortes. Era um eterno pisar em ovos para não afetar a sensibilidade do leitor. É por horror a isso que Urupês tem tantas mortes.
            À noite, quando todos os literatos se reuniam nos salões elegantes para conversar sobre os sonetos de Olavo Bilac, Lobato encontrava-se com os amigos no Café Guarani para tomar um chope. Nenhum deles sabia que o companheiro de copo era escritor. Certa vez um deles pergunto-lhe:
            - É verdade, Lobato, que você tem um livro? Ouvi dizer.
            O escritor gargalhou: “Se eu tivesse um livro, Gama, punha-o num sebo. Não tolero livros, nem gente que escreve livros”.
            Mas, apesar dessa horror à literatura oficial, Lobato ia se firmando no gosto popular e se tornando um dos escritores mais conhecidos do Brasil. O que fosse lançado com seu nome vendia. Sem tempo, ele era obrigado a lançar mão de coisas antigas, do tempo do minarete e do promotorado em Areias. De novo mesmo, só os infantis: Narizinho Arrebitado, O Saci...
            Por esses tempos a convivência com as gentes da cidade haviam-no convencido que o melhor que tínhamos no Brasil era mesmo o tal do Jeca Tatu que ele tanto desancara em Urupês. Se o Jeca não produzia, era porque não tinha segurança (podia ser expulso da terra a qualquer momento) e porque tinha a barriga repleta de vermes. As condições de higiene no campo eram precárias e o local se tornava próprio para o alastramento de doenças.
            Lobato escreveu vários artigos para O Estado de São Paulo, chamando atenção para o problema. Atacou até pelos quadrinhos. Até alguns anos era distribuído nas casinhas do interior o Almanaque Fontoura, com a história em quadrinhos do Jeca-tatuzinho. A HQ, baseada num texto de Lobato, orientava os caboclos a usar sapato e tomar medidas básicas de higiene, como lavar as mãos após defecar.
            Resultado: o público passou a pensar que Lobato era um médico sabidíssimo. Tanto que, certa noite, às altas horas, telefonaram para sua casa:
            - É o doutor Monteiro Lobato?
            - Sim.
            - Doutor, minha mulher está sentido dores. Poderá vir atendê-la?
            Lobato teve de explicar que não era médico....

Big Barraco Brasil


Eu sempre fui muito fã da MAD. Desde que comecei a ler quadrinhos com mais frequência, no início da adolescência e encontrei os sebos, era uma das minhas leituras prediletas. Em 2008 a revista voltou a ser publicada pela editora Panini, após um longo hiato, e eu resolvi entrar em contato com o editor, Raphael Fernandes, me oferecendo para escrever roteiros. O Raphael já conhecia meu trabalho, mas duvidou que eu pudesse escrever humor, já que eu era mais conhecido pelas histórias de terror. E me deu um desafio: fazer uma sátira do Big Brother Brasil. O Raphael é um dos cara mais malucos que já conheci e queria algo igualmente maluco, fora da caixa. Eu propus um Big Brother se passando em uma favela: o Big Barraco Brasil. A história foi bastante elogiada (inclusive por pessoas dentro da editora) e foi minha primeira colaboração para a revista. 

quinta-feira, setembro 21, 2017

O funcionalismo

As origens do funcionalismo estão no samsionismo, doutrina criada pelo filósofo Saint Simon. Influenciados pelo iluminismo, os samsionistas sonhavam mudar o mundo através da ciência e da tecnologia. Essa doutrina ajudou a criar a crença na importância social da ciência e da técnica e influenciou poderosamente o desenvolvimento industrial. As narrativas de Júlio Verne, em que a ciência tinha papel predominante, são a imagem mais conhecida dessas ideias.
Para os samsionistas, a sociedade era um corpo, no qual cada parte teria sua função. Nessa abordagem, os sistemas de comunicação teriam a mesma função que o sistema nervoso. Essa ideia de função da comunicação teria forte influência sobre os funcionalistas e daria nome a essa escola da comunicação.
O funcionalismo inicia de fato com a Escola de Chicago, na década de 1910. Liderados por Robert Erza Park, um repórter experiente em grandes reportagens e militante da causa negra, pesquisadores analisam a integração dos imigrantes na sociedade americana. Park descobre que os jornais (muito populares na época, com tiragens astronômicas) se tornam um forte elemento integrador. É através deles que os imigrantes aprendem a língua e a cultura americana.
Para Park, é a luta por espaço que rege as relações individuais. A função da comunicação é regular essa competição, permitindo aos indivíduos participarem da sociedade.
Segundo Park, as relações na sociedade passam por um processo de equilíbrio, crise, e volta ao equilíbrio. No caso dos imigrantes, esse esquema se daria através de competição, conflito, adaptação e assimilação. Ao final desse processo, o corpo social voltaria ao equilíbrio.
Dessas primeiras investigações surgem duas palavras fundamentais no funcionalismo: função e equilíbrio.
Outro autor importante no desenvolvimento da escola foi o sociólogo Charles Horton, criador do conceito de grupo primário. Sua teoria é uma critica aos autores que acreditavam que a urbanização destruía os vínculos entre as pessoas, criando uma massa amorfa. Para Horton, as pessoas continuavam tendo relações sociais através desses grupos: família, escola, trabalho, igreja e outros. Esse conceito seria fundamental em pesquisas funcionalistas posteriores.
Um dos marcos na fundação do funcionalismo foi a publicação do livro Propaganda Technique in the World War , de Harold Laswell, lançado em 1927, na qual ele argumenta que a derrota dos alemães na I Guerra Mundial se deu em decorrência da boa propaganda dos aliados.
Para Laswell, os meios de comunicação de massa são um meio para a gestão governamental de opiniões, já que a propaganda é um meio não violento de conseguir o apoio das massas.
Laswell também foi pioneiro ao propor um modelo de comunicação, resumido na frase: Quem diz o que para quem através de que canal com que efeito.
Talvez a mais célebre contribuição de Laswell para o estudo da comunicação tenha sido o conceito de agulha hipodérmica. Para Laswell, os meios de comunicação são como uma agulha, que injeta seus estímulos diretamente na mente dos receptores, provocando uma resposta por parte destes. Nesse ponto de vista, a mídia tem um poder absoluto sobre sua audiência.
A teoria hipodérmica teve enorme influência sobre a imaginação popular e foi base para romances distópicos, como 1984, de George Orwell, em que a televisão é usada para controlar a população.
Entretanto, os próprios pesquisadores funcionalistas logo perceberam que a influência da mídia não era tão grande quanto se pensava.
Lazzarsfeld, outro grande nome do funcionalismo, foi um dos primeiros a criticar a teoria hipodérmica. Suas pesquisas mostraram que as populações das grandes cidades não eram uma massa amorfa, como imaginava a teoria hipodérmica, mas tinha relações sociais fortes através dos grupos primários e estes filtravam o conteúdo da mídia. Assim, o poder dos MCM poderia ser ampliado pelo grupo primário (como no caso da juventude hitlerista, que reforçava a propaganda nazista) ou esse grupo poderia diminuir seus efeito (quando o grupo primário se posiciona contra  a mensagem da mídia).
Lazzarsfeld também aprimora a teoria sobre as funções sociais da mídia. Além das funções das funções de vigilância do meio, estabelecimento das relações sociais e transmissões sociais (propostas por Laswell), Lazzarsfeld acrescenta a função de entretimento e de atribuição de status. Dessa forma, os MCM legitimam o status das pessoas famosas ou criam status para os que não são famosos.

Lazzarsfeld também percebeu que a mídia pode cumprir o que ele chamou de disfunção narcotizante gerando apatia política por parte da população.

Monteiro Lobato: Urupês

Em 1917 Lobato vende a fazenda e se muda para São Paulo. Resolve investir o dinheiro na compra da Revista do Brasil e decide publicar um livro. Deveria chamar-se Dez Mortes Trágicas. Revoltado com a água morna dos escritores da época, incapazes de matar sequer uma mosca, ele escrevia contos de arrepiar os cabelos. Matava em monjolo, lameiro e em tantos outros lugares quanto fosse possível dar cabo à vida de um indivíduo.
            No fim, Lobato acabou mudando o título por sugestão de Artur Neiva, que achou melhor Urupês, título de uma artigo que servia de apêndice ao volume.
            O recém-batizado Urupês foi para a seção de obras do Estado de São Paulo com a recomendação de que não se fizesse mais de mil exemplares. Lobato desacreditava completamente da possibilidades mercadológicas do livro. Para espanto seu, Urupês foi um sucesso. A primeira edição esgotou-se rapidamente e o livro chegou a ser assunto de discurso de Rui Barbosa, o grande figurão da época.
            Entusiasmado com o sucesso, Lobato publicou outros livros com material de colaborações suas para jornais. Algumas recentes, outras dos tempos do Minarete. Surgiram Cidades Mortas, Idéias de Jeca Tatu, Negrinha e outros.
            Mas persistia um velho problema: no Brasil só havia 40 livrarias! Para driblar o problema, Lobato resolveu fazer uma experiência inédita no país. Pediu ao correio uma lista de todos os estabelecimentos confiáveis de que tinham conhecimento. No final conseguiu uma lista de 1200 casas comerciais relativamente sérias, de farmácias a açougues. Mandou para elas uma circular engraçadíssima, que viria a ser a pedra fundamental da indústria editorial nacional: “Vossa senhoria tem o seu negócio montado e quanto mais coisas vender maior será o lucro. Quer vender também uma coisa chamada ‘livro’?”.
            Todos toparam o negócio e os livros de Monteiro Lobato passaram a ser encontrados em todos os locais do Brasil. Com isso as edições, que eram de 400 ou 500 exemplares em média, pularam para três mil.
            Entusiasmado, Lobato chegou a tirar uma edição de 50.500 exemplares de Narizinho Arrebitado, o primeiro livro do Sítio do Pica Pau Amarelo.
            Era um marco, mas era também uma loucura. Quem iria comprar tanto livro?
            Lobato deu uma sorte dos diabos. A edição esgotou-se em nove meses. Só o governo de São Paulo comprou 30 mil narizes.
            A coisa aconteceu deste modo: certa vez o presidente de São Paulo saiu a visitar as escolas junto com o secretário de Educação. Em todas as escolas que entrava, sempre encontrava um livrinho amarrotado, cheio de orelhas de burro, já muito surrado pelo manuseio. Era justamente o Narizinho Arrebitado. Lobato havia mandando 500 exemplares para as escolas e, como a coisa era novidade, a criançada caiu de dentes.
            A pedido do presidente, o secretário de educação ligou para Lobato e perguntou quantos exemplares do livro poderia vender ao governo. “Uma pergunta assim, à queima-roupa a um editor que está atrapalhado com a maior avalanche nasal de sua vida é coisa de estontear. Pisquei sete vezes e respondi: Quantos quiser, Alarico. Temos narizes a dar com o pau. Posso fornecer cinco mil, dez mil, vinte, trinta mil...”, contou Lobato, muitos anos depois.

            O secretário achou que fosse patota e, só por brincadeira, encomendou 30 mil. No dia seguinte lá estavam os 30 mil narizes no almoxarifado do secretário, para espanto de todos.