segunda-feira, julho 16, 2018

Flash Gordon e a aventura espacial


Buck Rogers, Dick Tracy e Tarzan causaram uma verdadeira revolução nas histórias em quadrinhos. O clima de aventura, o desenho realista e os cenários gran­diosos conquistaram os leitores.

Já não havia mais lugar para as tiras cômicas e um dos maiores syndicates da época, o King Features Syndicate entrou em desespero: Fazia-se urgente encontrar alguém que trabalhasse tão bem com a aventura quanto a con­corrência.

Para isso foi instituído um concurso interno. Quem acabou ganhando foi um ex-oficce-boy da empre­sa. Seu nome era Alex Raymond e seu personagem era Flash Gordon, um dos maiores sucessos da época.

          A história estreou num domingo, 7 de janeiro de 1934. Os leitores americanos abriram seus jornais e tive­ram um grande impacto. Lá es­tava um herói novo, diferente de todos os outros que o haviam an­tecedido. Era a primeira história de Flash Gordon, de Alex Ray­mond. De lambuja, vinha como complemento o personagem Jim das Selvas - também com dese­nhos de Raymond.

Flash Gordon veio para re­volucionar o conceito de aventu­ra. Nela predominava a imaginação: moças bonitas, homens-leão, povos submarinos, princesas estelares, vilões insa­nos e um herói ariano (exemplo perfeito de conduta e boas inten­ções) conviviam numa mesma pagina.

Flash Gordon não para­va. Mal conseguia se livrar de monstros pré-históricos e caia nas mãos de um imperador tirâ­nico. Era como se estivesse pas­sando por um eterno teste de provas.

A historieta - que tinha ro­teiros anônimos de Don Moore - tornou-se um sucesso absoluto de vendas. O traço forte e elegante de Raymond conquistou os leitores e conseguiu dar ao personagem uma imponência que ninguém nunca mais conseguiu.

Flash Gordon surgiu para concorrer com o grande campeão de vendas da época, Buck Ro­gers, mas com o tempo, Flash ultra­passou de longe o seu concorrente do século XXV. Praticamente junto com Flash Gordon, Raymond desenhou dois outros persona­gens nos moldes dos que já faziam sucesso na época: Jim das Selvas (baseado em Tarzan) e Agente Se­creto X-9 (para concorrer com Dick Tracy).

“Agente Secreto X-9” era de autoria do famoso escritor policial Dashiel Hammet e transmitia o clima de tensão que os gángsters impri­miam aos anos 30. Detalhe: esse trabalho de Hammet geralmente não aparece nas biografias do es­critor.

Já Jim das Selvas era, a principio, uma espécie de aventureiro, um caçador intrépido enfrentan­do todos os perigos da selva. Com o tempo, Jim começou a se envol­ver em tramas internacionais, mas nem por isso perdeu sua força.

Alex Raymond foi um dos maiores desenhistas dos quadri­nhos. O seu traço elegante in­fluenciou toda uma geração. Os seus persona­gens, entretanto, não tiveram muita sorte.

Depois da morte de Raymond, no final dos anos 40, Flash Gordon ainda passou por um bom momento no início da década seguinte nas mãos de Dan Barry (desenhos) e Harvey Kurtzman (roteiro). Mas, assim que Kurtzman saiu do roteiro a história perdeu muito do caráter onírico que tinha no início.

O grande seguidor au­têntico de Raymond a ilustrar seus personagens  foi All Williamson, que desenhou três números da revista do Flash Gordon e a tira do Agente Secre­to X-9 durante 13 anos.

Além do ótimo desenho e das tramas de matinê, terminando sempre em suspense, Flash Gordon é lembrado também pelas antecipações. Foi nessa história em quadrinhos que apareceu pela primeira vez a mini-saia, o raio laser e o forno microondas. Em um de seus boletins oficiais, a NASA admitiu que os quadrinhos do personagem foram usados para solucionar problemas de aerodinâmica dos primeiros foguetes espaciais norte-americanos. 
Flash Gordon também foi a grande fonte de inspiração para outra grande saga moderna: os filmes da série Star Wars. Como não conseguiu autorização para filmar o personagem, George Lucas criou a série Guerra nas Estrelas baseada em Flash Gordon.

Fanzine Arteira

Engana-se quem acha que com a internet os zines sumiram. Eles resistem, cada vez mais criativos. Ótimo exemplo disso é o Arteira, produzido por minha aluna Luiza Nobre. O zine, em formato A5, é uma página de papel chamex cortado e dobrado engenhosamente para formar um caderno. O conteúdo, colagens de fotos e um poema da autora. Eu sempre defendi que os zines juntamente com a música são os melhores veículos para a poesia. A poesia reunida em livros parece estagnada, parada. Em zines parece viva.
Não lembraram de perguntar à Mona Lisa se ela gostou do que viu.
Deixo com vocês parte dessa poesia:

Em corredores infinitos de molduras
Elas estão despidas
Estáticas
Sob os olhos do pintor.
Veneradas
As mulheres entram nas galerias
Como musas santificadas
Como Vênus
De Botticelli ou de Milo.

Como Dora Maar,
Que foi poeta, pintora e fotografou.
Mas ficou conhecida como amante do Picasso
Nos rodapés dos livros
Com o colo cheio de gatos
No cubismo do amado.

Não lembraram de perguntar à Mona Lisa se ela gostou do que viu.

Como Lee Miller
Que largou a moda
Pra fotografar guerra
Mas ficou lembrada como
A que se lava na banheira do ditador.

Como Clara Peeters
Que escondia autorretrato
Na natureza-morta
Dos seus quadros
E no anonimato atrás da cor.

Não lembraram de perguntar à Mona Lisa se ela gostou do que viu.

domingo, julho 15, 2018

Como era a propaganda de guerra dos EUA?

Pode-se dizer que a II Guerra Mundial foi, em muitos sentidos, uma guerra de propaganda. De seu lado os alemães tinham Joseph Goebbels, um dos maiores marketeiros da história. Do outro lado, publicitários ingleses e norte-americanos se juntaram para convencer a população a colaborar com o esforço de guerra.
Uma das preciosidades do conflito, procuradas ansiosamente por colecionadores, são os cartazes feitos pelos norte-americanos no período.
Um deles mostrava uma mão nazista apunhalando uma Bíblia e os dizeres: “Este é nosso inimigo”. Outro mostrava vários canhões com as bandeiras dos Aliados e a legenda: “Juntos nós somos poderoso. Unidos nós venceremos!”.
Outros cartazes incentivavam a população a economizar água ou plantar sua própria comida.
Mais meigos, alguns cartazes explicavam como mandar presentes de natal para os soldados no front. 

Revista acadêmica traz entrevista com Gian Danton


O número 12 da revista Imaginário!, a mais importante publicação acadêmica brasileira sobre quadrinhos, traz uma entrevista comigo realizada por Marcelo Engster a respeito de meu processo criativo. 
A edição traz como matéria de capa o estudo de Douglas Pigozzi sobre um dos clássicos dos quadrinhos latino-americanos – El Eternauta – a partir da abordagem semiótica de Peirce. Já Ednelson Júnior e Roberto Lima analisam a metaficção em filmes de horror nos anos 2000. O universo dos super-heróis é tratado em dois artigos, um de Marcelo Bolshaw e Dickon Tavares, sobre Trinity, o triângulo arquetípico da DC; e outro de Paulo de Oliveira, sobre os arquétipos mitológicos nos quadrinhos da Liga da Justiça. As publicações independentes também são abordadas no estudo de Omar Sánches, em atualização da concepção sobre zine. 
A revista pode ser baixada neste link

Por que adoramos assistir a novelas, séries e filmes?


Parece o roteiro do blockbuster perfeito: um rei atraente é abençoado com uma força sobre-humana, mas sua arrogância insuportável pode ameaçar seu reinado. Entra em cena um viajante "pé no chão" que o desafia à luta. O rei termina a batalha humilhado, os dois se tornam amigos próximos e embarcam numa série de perigosas missões pelo reino.
Trata-se, no entanto, da Epopeia de Gilgamesh, esculpida em tábuas da antiga Babilônia há 4 mil anos, e que se tornou a obra literária mais antiga remanescente. Pode-se afirmar que a história foi bastante popular na época, visto que transcrições do poema podem ser encontradas ao longo do milênio seguinte.
O que impressiona é o fato de a epopeia ser lida e apreciada ainda hoje, e que muitos de seus elementos básicos - incluindo a calorosa relação entre os dois amigos - podem ser encontrados em várias histórias populares que surgiram depois.
Essas características em comum são o interesse principal de especialistas em "darwinismo literário", que se perguntam o que exatamente é uma boa história, e as razões evolutivas para certas narrativas - desde a Odisseia de Homero a Harry Potter - terem tanto apelo popular.

Leia mais

Viaje a la Luna - Le Voyage dans la ...

Tese explica o mundo hiper-real


Já está disponível para leitura, no site da FAV-UFG, a minha tese A fantástica história de Francisco Iwerten: hiper-realidade e simulacro nos quadrinhos do Capitão Gralha. O PDF pode ser baixado aqui.

Capas de pulp fictions







sábado, julho 14, 2018

O Super-brasileiro


- Oi Gian, eu adicionei você porque gosto muito dos seus roteiros. 
- Obrigado. 
- Olha, eu tenho uma proposta irrecusável para vc. 
- Ah, tá. Beleza. 
- Eu tenho um personagem chamado Super-brasileiro e podia ter escolhido qualquer roteirista, mas escolhi você para escrever as primeiras histórias. 
- Er... bem... obrigado. Mas vai sair como revista? Já tem editora?
- Cara, presta atenção: eu estou falando do Super-brasileiro! As editoras vão correr atrás da gente. Ontem mesmo mandei um e-mail para a Panini oferecendo e só estou esperando a resposta. 
- Cara, obrigado pelo convite, mas ando bastante ocupado. Estou fazendo doutorado, já estou em outros projetos... 
- Gian, você não está entendendo! É o Super-braileiro, cara! O Super-brasileiro! É um super-herói nacionalista que se veste como o mosquito da dengue para picar políticos corruptos! É sucesso garantido! Só vou precisar que você escreva as três primeiras revistas para eu desenhar e apresentar para as editoras. São só 60 e poucas páginas! 
- Olha, obrigado pelo convite, mas tenho aqui na centenas de páginas de roteiros que escrevi para personagens de outras pessoas. No final, a revista não saiu e nem posso aproveitar para outra coisa, já que o roteiro era para o personagem específico daquela pessoa. Já perdi muito tempo assim. 
- Gian, você não está entendendo: é o Super-brasileiro, é genial, cara. E eu vou te pagar pelos roteiros! 
- Vai pagar? 
- Assim que as revistas saírem cara. Vou te pagar muito bem. Estou te dizendo, mandei ontem e-mail para a Panini. As editoras vão correr atrás desse personagem. 
- Cara, obrigado pelo convite. Mas vou ter que declinar. Se ainda fosse algo pequeno... não tenho tempo para escrever três revistas.
- Tá bom, seu arrogante FDP!
E assim eu ganhei mais um inimigo no Facebook.

A arte fantástica de Charles Vess

Charles Vess é um desenhista norte-americano especializado em fantasias. Elfos, duendes e terras mágicas são sua especialidade. Alguns dos seus trabalhos mais conhecidos foram em parceria com Neil Gaiman, como Sandman, Livros da Magia e Stardust.








sexta-feira, julho 13, 2018

Direto da estante - alguns dos livros escritos por Gian Danton


O uivo da górgona mistura zumbis e crítica social


Um som se espalha pela cidade (ou pelo estado, ou pelo país, ou pelo mundo?). Um som que ouvido transforma as pessoas em seres irracionais cujo único o objetivo são os instintos básicos de violência e fome. É o uivo da Górgona.
Acompanhe a história dos sobreviventes neste livro de terror, uma história de zumbis diferente, em que qualquer um pode se transformar, bastando para isso ouvir o terrível uivo da górgona.
Escrito em capítulos curtos, o livro transforma o suspense em elemento de fantasia, prendendo o leitor da primeira à última página. 
Pedidos: profivancarlo@gmail.com. 

O que dizia o perfil psicológico de Hitler?


Quando os EUA entraram em guerra com a Alemanha, pediram que o psicólogo Henry Murray, da Universidade de Havard, fizesse um perfil psicológico do ditador alemão. Murray foi um dos pioneiros do estudo de personalidades desviantes, como psicopatas.
Sem poder estudar pessoalmente o ditador, o psicólogo usou documentos de segunda mão, como sua genealogia, seu histórico escolar e militar, relatórios públicos de eventos na imprensa, filmagens, dados da OSS e os próprios escritos do ditador e de seus biógrafos.
Murray concluiu que Adolf Hitler era rancoroso, não tolerava críticas e tinha tendência a menosprezar as pessoas e a buscar vingança.
A análise diz que o líder nazista era alguém incapaz de aceitar um brincadeira e se mostrava perseverante, mesmo diante da derrota, tendo grande obstinação e confiança em si mesmo. Segundo Murray, se ele fosse derrotado, provavelmente se suicidaria, o que, de fato, aconteceu.
O psicólogo afirmava que ele era um homossexual reprimido, com grande componente femino. Ele deduziu que o ditador poderia ter sofrido abuso na infância, o que explicaria seu sentimento de vingança e seu desprezo pela vida humana.
A hipótese de homossexualidade reprimida foi trabalhada por um autor contemporâneo, Lothar Mactan, no livro O segredo de Hitler. 

Invasores de corpos

Ivasores de corpos (ou Vampiros de almas, como também é conhecido no Brasil) é um exemplo de como um orçamento apertado para um filme de ficção científica aliado a um bom roteiro e uma boa direção podem criar um clássico absoluto.
Lançado em 1956, dirigido por Don Siegel, escrito por Daniel Mainwaring, o filme conta a história de um médico que, após voltar de um congresso, depara-se com relatos de seus pacientes segundo os quais seus parentes são impostores.
O filme balança entre o ceticismo do médico e as evidências de que algo de fato pode estar acontecendo. Finalmente, o protagonista acaba encontrando um casulo de onde repousa uma cópia sua incompleta.
O médico e sua namorada fogem da cidade quando fica claro que o local está sendo dominado por uma invasão alienígena, que transforma as pessoas, tirando-lhes a individualidade e humanidade.  Mas em que confiar? Quem está transformado e quem não está?
O terror do filme não está em monstros com garras, ou cenas de carnificina, mas em pequenas ações, como a mãe que coloca no berço um casulo.
Desde que foi lançado, Invasores de corpos tem sido analisado como uma metáfora política. E, de fato, diretor e roteirista haviam colocado ali suas inquietações. O roteirista fizera um roteiro que denunciava o marchastimo. O diretor dirigira um filme que denunciava a ameaça comunista. A genialidade do filme está justamente nessa dubiedade, o que transformou o filme num alerta contra qualquer sistema autoritário, que tire do ser humano a sua individualidade,  transformando as pessoas em mais um na multidão homogênea. 

quinta-feira, julho 12, 2018

Grupo antivacinação patrocina estudo… que não encontra nenhuma relação entre vacinas e autismo

Vacina
Por Fábio Marton
Vamos começar por aqui: do ponto de vista da ciência – isto é, da realidade, quando falamos em coisas objetivas como doenças – vacinas não causam autismo. Estudo após estudo, nenhum achou qualquer relação – e isso já havia sido provado em 2004, muito antes da moda da antivacinação chegar às praias (e coberturas duplex) tupiniquins. Leia mais no site da Superinteressante.

Eu robô


Eu robô é um clássico da ficção científica escrito por Isaac  Asimov. O livro, lançado em 1950, é uma seleção de contos com histórias que giram em torno de seres robóticos e sua relação com os seres humanos.
O que Asimov trouxe de revolucionário para esse tipo de história foi uma abordagem otimista e racional. Antes dele, a maioria das histórias sobre seres artificiais os tratava como ameaças à humanidade. Aliás, o romance fundador da ficção científica, Frankstein, trata exatamente desse assunto: a criatura voltando-se contra o criador.
Asimov era um otimista com relação à tecnologia e ao pensamento racional. Para ele, bastava, seres robóticos fariam o que estivesse em sua programação. Ele sugeriu que todos os robôs fossem programados com três leis: 1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal; 2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei; 3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis. Posteriormente ele acrescentou a chamada Lei Zero: Um robô não pode causar mal à humanidade, ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra mal.
Quase todas as histórias do volume tratam das três leis. Todas as situações de conflito apresentadas são sempre resolvidas graças ao uso lógico dessas leis.
Ao introduzir regras de conduta para seres cibernéticos, Asimov tirou deles o peso da ameaça, permitindo que o leitor visse uma face mais humana desses seres. O homem-bicentenário, livro posterior, mas que pode ser encaixado dentro da galeria de textos sobre robôs, leva essa visão a um extremo poético: nele, um simpático robô luta para ser reconhecido como ser humano.

30 lugares fantásticos do Estado do Amapá

O blog do Geisel Oliveira fez uma seleção de 30 lugares imperdíveis para se visitar no Amapá. Locais que têm o que o Amapá tem de melhor: beleza natural e águas cristalinas. Para conhecer, clique aqui.

Capitão César: o soldado da fortuna



Embora Dick Tracy, Buck Rogers e Tarzan sejam considerados os inciadores dos quadrinhos de aventura, eles tiveram um antecedente nobre. Trata-se de uma tira de humor, que, com o tempo, transformou-se em uma HQ de aventura: o Capitão César, de Roy Crane.
Crane nasceu em 1901, no Texas. Aos 14 anos fez um curso de desenho por correspondência com Charles Landon. Quando terminou o ginásio, foi para a Chicago Academy of Fine Arts, onde conheceu o amigo Leslie Turner. Desgostosos com a monotomia acadêmica, os dois resolveram voltar para casa, pegando carona nos trens de carga. Essa aventura depois renderia argumentos para algumas de suas histórias.
Ele trabalhou então como repórter e depois embarcou num cargueiro para a Europa. De volta à América, resolveu criar uma tira de quadrinhos cômicos chamada Washington Tubbs (depois abreviado para Wash Tubbs), mas seu humor caipira não agradava aos editores, que o aconselharam a procurar o sindicate Newspaper Enterprise Association. Por sorte, o diretor desse sindicate era justamente o dono do curso que Crane fizera na adolescência, o que lhe valeu um contrato.
A primeira tira é publicada em 21 de abril de 1924. O protagonista era um indivíduo baixinho e de óculos, lembrando vagamente o comediante Harold Lloyd. As primeira sequências são de humor rápido com Wash trabalhando em uma mercearia e namorando a filha do patrão, mas logo Crane colocou seu herói dentro de um navio em direção aos mares do sul à procura de um tesouro.
O enfoque passa a ser, então, a aventura. Em uma de suas peripécias, o personagem resgata numa masmorra um prisioneiro, capitão Easy. Ele se alia ao protagonista e os dois começam a viver grandes aventuras juntos. Crane vai abandonando aos poucos não só o tom humorístico, mas também o traço caricato. Seu desenho vai ganhando um incrível tom realista, em especial pelo uso papel craftint, que permite ao autor criar texturas que ressaltam o desenho. Ninguém jamais usou essa técnica de forma tão primorosa quanto Roy Crane.
Por fim, o autor resolve se livrar o personagem humorístico, que se casa, e a tira passa a se chamar simplesmente Capitão Easy (Capitão César, no Brasil). O grande momento do personagem é durante a II Guerra Mundial. O Capitão recebe a missão de descer de paraquedas na França ocupada e resgatar um cientista preso em um campo de concentração nazista. Há alguns aspectos irreais, como o fato do alto comando Aliado escolher alguém que não fala francês para a tarefa, mas as situações de suspense e ação compensam. César entra no campo, se faz passar por prisioneiro e, finalmente, liberta o cientista, levando-o para a Inglaterra. Mas antes disso ele corre sério risco de ser descoberto pelos alemães e só a imaginação de Crane consegue livrá-lo desse sério risco.
Por ter começado como tira de humor, Wash Tubbs não é considerada a primeira HQ americana de aventura, mas sem dúvida foi a primeira que usou corretamente o gênero e foi uma das que melhor o exploraram.
Posteriormente Roy Crane foi para a King Features Syndicate, para a qual criou Jim Gordon, um aviador durante a guerra que depois se transforma em agente secreto norte-americano no período da guerra-fria. Apesar do exagerado tom ideológico, essa tira conseguiu manter o mesmo nível de qualidade de Capitão César, com os desenhos de Crane melhorando a cada ano. 
Pela qualidade da sua obra, Crane recebeu o prêmio Reuben em 1959 e, em 1974, o Yellow Kid no Salone Internazionale dei Comics em Lucca, Itália.

quarta-feira, julho 11, 2018

O que era Auschwitz?


Auschwitz foi o maior campo de concentração construído pelos nazistas. Dos seis milhões de pessoas que morreram no holocausto, mais de um milhão pereceu em Auschwitz. É considerado hoje uma fábrica de assassinatos.
O campo foi criado em 1940, sob direção do capitão Rudolf Hoss num local hermo do sul da Polônia, tendo com base barracões velhos construídos pelo Império Austro-Hungaro na época da I Guerra Mundial. Esses barracões foram restaurados por prisioneiros poloneses.
Três meses após a inauguração, Auschwitz já abrigava oito mil pessoas. Os que não eram mortos trabalhavam na fábrica da IG Farben, um grupo industrial químico alemão, que instalou no campo uma fábrica de borracha e combustíveis sintéticos.
A rotina dos que não eram enviados às câmaras de gás era estafante: cavavam fossas, fabricavam tijolos, contruíam prédios, abriam estradas, colocavam trilhos, carregavam e descarregavam trens. A maioria morria logo, vítimas da fome, da exaustão e dos maus tratos.
Os melhores serviços eram a triagem da bagagem e os sonderkommando. Os prisioneiros da triagem vasculhavam as malas dos recém-chegados, separando, roupas, relógios ou qualquer outro objeto de valor que pudesse ser enviado para a Alemanha. Os sonderkommando eram uma espécie de polícia interna, composta de judeus ou não, que controlavam os outros e ajudavam os alemães nos assassinatos, além de recolher os corpos.
Nas câmaras de gás, usava-se o Zyklon B, um gás extremamente mortal para humanos. Os nazistas testaram várias doses até chegar à quantidade necessária para matar pessoas. Hoss chegou a escrever em seu diário que a história do gás o deixara mais tranquilo, pois tinha horror aos fuzilamentos, ao banho de sangue. As câmaras de gás eram uma maneira fácil, eficente e limpa de matar.
No auge do campo, Auschwitz chegava a matar duas mil pessoas por hora nas câmaras de gás. “Cada unidade tinha 5 fornalhas e 3 salas, e estava habilitada a cremar, em 24 horas, aproximadamente 2000 cadáveres. Por questões técnicas não era possível aumentar suas capacidades, e várias tentativas que nós fizemos neste sentido prejudicaram sobremaneira as instalações, as quais em vários casos foram postas completamente fora de serviço”, declarou Hoss no julgamento de Nuremberg.
Os corpos eram incialmente enterrados, mas logo isso se revelou pouco prático: no verão o cheiro no campo ficava insuportável. Depois os corpos começaram a ser cremados. Era cavado um buraco no chão e colocada uma grelha. Os corpos eram então amontoados, intercalados com madeira e jogavam gasolina. As cinzas caíam por entre as barras, liberando a grelha para que pudesse ser novamente usada. Posteriormente foram construídos fornos com essa finalidade. 

BELLA CIAO - Trigo! (The Paper House)

A morte do Super-homem e o deus ex-machina

A morte do Super-homem é um ótimo exemplo de deus ex-machina



A morte do Super-homem foi um sucesso estrondoso. Vendeu milhões de exemplares na década de 1990. No entanto, a grande maioria das pessoas que comprou na época hoje, ao reler, considera essa uma história ruim do personagem.
A razão disso é um deus ex machina.
Deus ex machina é qualquer solução que não faça parte da lógica da história. É um recurso que destrói o pacto de verossimilhança, pois o leitor percebe que há algo errado ali, algo parece não fazer sentido.
A maioria das pessoas costuma imaginar o deus ex machina como uma solução para salvar o herói. O protagonista está prestes a ser enforcado quando aparece do nada alguém para salvá-lo. Mas a morte do Super-home mostra que o deus ex machina pode ser também o oposto: alguém que aparece do apenas para matar o personagem.
A história dessa saga é atribulada.
Nos anos 1990 o departamento de marketing das editoras exigia eventos sensacionalistas que ajudassem a vender os gibis. A equipe do Super-homem decidiu casar o personagem. Mas surgiu uma dificuldade: na época o homem de aço tinha um seriado live action de sucesso e iria se casar com Lois Lane, mas só no ano seguinte. Se ele casasse nos quadrinhos, teria que ser em sincronia com o seriado.
Foi quando tiveram a ideia de matar o Super-homem. Mas o prazo era curto, então a solução foi simplesmente introduzir do nada um personagem super-poderoso que não fala uma única palavra durante toda a história, derrota todos os super-heróis (sem matar nenhum) e finalmente mata o Homem de aço. Apocalipse parecia ter sido criado com um único objetivo: providenciar a necessidade que os roteiristas tinham de criar um evento bombástico criado não só para vender gibis, mas também bonequinhos.
O personagem Apocalypse surge do nada, apenas para matar o homem de aço.

Um personagem tirado da cartola que derrota todo mundo, mas não mata ninguém além do Super-homem é um ótimo exemplo de um deus ex machina. Uma falha do roteiro que se tornou ainda mais evidente quando o personagem simplesmente voltou da morte.
Na contramão da correria que foi a morte do Super-homem temos uma das melhores sagas dos quadrinhos de super-heróis, a saga da Fênix Negra.
No número 125 da revista X-men, Claremont mostra Moira realizado testes com a Fênix e o diálogo posterior mostra ambas preocupadas que o poder imenso da personagem possa sair do controle. No número seguinte, uma “alucinação” mostra Jean Grey caçando um homem vestido de cervo, o que já demonstra o lado negro da personagem vindo à tona. A personagem pensa: “Um homem?! Eu queria matá-lo! Estava prestes a... o que está acontecendo comigo?”.
A saga da Fênix é um exemplo de solução dentro da lógica da história.

Assim como esse, vários outros indícios de que há algo errado com a personagem vão sendo mostrados até que ela se alia ao Clube do inferno na edição 132. Quando no número 134 ela se transforma na Fênix Negra, uma das maiores vilãs que o universo Marvel já conheceu, o leitor lê e pensa: “Sim, isso faz sentido. Ela era uma heroína, mas eu acomapanhei sua transformação em vilã”.
Claremont e Byrne levaram nove números construindo a lógica da história, de modo que o surgimento da Fênix Negra parece consequência óbvia do que veio antes.
Não é à toa que a Saga da Fênix é até hoje considerada uma das melhores histórias de super-herois de todos os tempos, e parece melhor a cada leitura. Ao contrário da morte do Super-homem.

terça-feira, julho 10, 2018

A arte detalhista de George Perez

Poucos artistas estão tão associados ao gênero super-heróis quanto George Perez. Ele iniciou sua carreira na Marvel na década de 1970 e chegou a desenhar os Vingadores em uma fase muito elogiada. Mas seu talento só iria se mostrar em seu auge criativo na década de 1980, trabalhando para a rival DC Comics. Na DC, Perez foi responsável pelo desenho da série Novos Titãs, um dos maiores sucessos da década, rivalizando com os X-men. Sua habilidade de fazer mil detalhes numa cena e de desenhar dezenas de personagens em um único quadro fez dele o artista ideal para crossovers, a exemplo de Crise nas Infinitas Terras, até hoje considerado o melhor crossover de todos de heróis de todos os tempos.











Lobato contra modernistas: a guerra que não existiu

Uma das histórias mais contadas nos cursos de letras e em grande parte dos livros de literatura é a guerra que teria sido travada entre Monteiro Lobato e os autores modernistas. Lobato é mostrado como retrógrado, ultrapassado e inimigo de posições revolucionárias. Sua produção literária de contos é vista como pobre, de um regionalismo de pouco calibre. O criador do Jeca Tatu é tido, no máximo, como um escritor infantil importante. Mas essa guerra com os modernista teria realmente existido? Essa é a pergunta que muitos intelectuais têm feito e a resposta parece não ser tão óbvia quanto foi durante muito tempo.

A exposição Anita Mafalti

A suposta guerra entre Monteiro Lobato e os modernista teria começado em 1917, com a publicação, no jornal O Estado de São Paulo, de uma crítica de Lobato à exposição de Anita Mafalti. Esse texto, intitulado Paranóia ou mistificação, foi incluído posteriormente no livro Idéias de Jeca tatu.
Lobato começou elogiando Anita: ¨Essa artista possue um talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra torcida em má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Percebe-se, de qualquer daqueles quadrinhos, como a sua autora é independente, como é original, como é inventiva¨, mas acrescenta que, seduzida por teorias modernas, ela deixou sua arte descambar para um novo tipo de caricatura.
Lobato aproveita também para cutucar os que se dizem encantados com esse novo tipo de arte, pois esses descobrem na tela intenções inacessíveis ao vulgo e conclui, ironicamente: o público é uma besta e eles um grupo genial de iniciados.
O escritor reservou especial atenção a uma tela do cubista americano Bolynson, um carvão representando uma figura em movimento, que foi colocado na exposição como exemplo do caminho segundo por Mafalti. ¨Aqueles gatafunhos não são uma figura em movimento; foram, isto sim, um pedaço de carvão em movimento¨.
Essa crítica, publicada em 1917, ecoou por muitos anos fazendo, inclusive que muitos ainda acreditem que Lobato havia criticado a Semana de Arte Moderna, um evento ocorrido cinco anos depois. Também por conta desse texto, muitos tentaram desqualificá-lo como crítico e renegar suas idéias sobre arte e cultura.
Na verdade, Lobato não direcionava sua crítica à inovação, mas ao estrangeirismo. Nacionalista radical, o escritor não admitia que se fosse procurar nas vanguardas européias um norte para a arte brasileira. Para ele, isso impediria a criação de um ideal estético nacional, colocando-nos sempre como macacos imitadores dos povos colonialistas.
Outro fator importante é a personalidade independente de Lobato (resumida na frase de Shakespeare, que ele adorava citar: ¨isto acima de tudo: sê fiel a ti mesmo¨) que não admitia reduzir a arte às regras de uma escola artística.
Por fim, Lobato procurava sempre atingir, com sua literatura, um público o mais amplo possível, numa proposta de democratização das artes. O oposto disso seriam as obras herméticas e aristocráticas, que Lobato enxergava no quadro de Bolynson.

A semana de arte moderna 


No livro Furacão no Botocúndia, Carnem Lúcia de Azevedo, Márcia Camargos e Vladmir Sachetta argumentam que o preconceito contra Lobato, motivado pelo episódio Mafalti foi a única razão pela qual Lobato ficou fora da Semana de Arte Moderna, já que Lobato seria o líder natural deles. Afinal, no campo das idéias sociais, políticas e econômicas, ele foi o praticante mais sistemático da agenda modernista. Mas nas artes, os modernistas foram bater às portas de Graça Aranha, que pouco tinha a ver com o movimento.
Lobato fez graça com a situação: ¨Se eu tivesse participado da Semana, talvez me tivessem contaminado com a inteligência nela manifestada. Preferi ficar na minha burrice¨, escreveu ele, dispondo-se a participar de uma segunda Semana, aumentada, na qual ficaria com o cargo de papa, logo abaixo do Papão Oswald de Andrade.
Aliás, a relação entre Lobato e Oswald sempre foi das mais amistosas. Ambos tinham espírito independente e um grande senso de humor. Oswald chamava Lobato de ¨O Gandhi do modernismo¨ e dizia que o autor do Jeca só não participou da Semana por causa do nacionalismo: ¨sua luta significava a repulsa ao estrangeirismo afobado de Graça Aranha, às decadências lustrais da Europa podre, ao esnobismo social que abria seus salões à Semana¨.
Lobato jamais perdeu contato com os modernistas, muitos dos quais eram publicados por sua editora. Além disso, ele se correspondia regularmente com nomes como Di Cavalcanti, Graça Aranha, Oswald e Mario de Andrade e Sérgio Millet.
Coerente com sua opinião de que Anita era uma grande artista, Lobato chamou-a para ilustrar a capa dos livros ¨O Homem e a morte¨, de Menotti Del Picchia e ¨Os condenados¨, de Oswald de Andrade, ambos lançados por ele. O livro ¨Idéias de Jeca Tatu¨ teve como capa O Homem Amarelo, quadro de Anita Mafalti.
Além disso, Lobato nunca escreveu contra a Semana. Na verdade, o que parece ter acontecido foi um episódio de ciúmes, por conta de um artigo no qual Lobato creditava a Semana à Oswald de Andrade.

A morte de Lobato
No artigo ¨Nosso dualismo¨, publicado no em e reunido no livro ¨Na Antevéspera¨, Lobato diz que ¨O futurismo apareceu em São Paulo como fruto da displicência dum rapaz rico e arejado de cérebro: Oswald de Andade¨. Segundo Lobato, Oswald era um turista integral que, por sua visão cosmopolita tinha capacidade de perceber a cristalização mental da inteligência brasileira. Para tirar o país desse marasmo, ele teria recorrido ao processo da atrapalhação e exemplifica com o caso da peninha. Um sujeito propõe a outro uma advinhação: ¨Qual é o bicho que tem quatro pernas, come ratos, mia, passeia pelos telhados e tem uma peninha na ponta da cauda?¨. Como ninguém adivinhasse, ele explicou: ¨É o gato!¨. ¨Mas e a peninha?¨. ¨Está aí só para atrapalhar¨. O processo de atrapalhação teria dado uma sacudida na cultura brasileira, mas, segundo Lobato, a coisa teria dado errado quando outros autores resolveram transformar esse processo num dogma: ¨Oswald sempre repeliu os sectários e sempre refugiu de transformar sua colher de mexer, hoje colher de pau-brasil, em paradigma, em maracá sagrado. E passa a vida a criar cismas dentro do grupo, a renegar sumos pontífices¨.
Mário de Andrade responde com o texto ¨Post-scriptum Pachola¨no qual chega a anunciar a morte de Monteiro Lobato, que ele recebia com o coração sangrando e os olhos mojados de lágrimas. É de se perguntar se em seu texto não havia um tanto de ciúmes, por Lobato ter creditado a Semana a Oswald e não a ele.
O autor do Jeca, entretanto, não fez caso. Em carta ao jornalista Flávio Campos, Lobato diz que Mário, por seu talento, tem direito a tudo, ¨até de meter o pau em você e em mim. Eu tenho levado pancadinhas dele. Certa feita matou-me e enterrou-me. Em vez de revidar, conformei-me, e sem mudar minha opinião sobre ele. Mário é grande. Tem o direito de nos matar à moda dele¨.
Lobato sempre esteve mais alinhado com os ideais modernos do que com a tradição. Seu movimento pelo petróleo brasileiro e pela industrialização está mais próximo do futurismo do que da tradição intelectual brasileira, que se prendia aos bons tempos do café . Sua obra infantil é moderna ao extremo, inclusive em termos de linguagem, ao aproximar a literatura da fala coloquial. Suas várias editoras sempre foram inovadoras e tiveram papel importante na divulgação dos autores modernistas. Até mesmo no campo social Lobato se revelava revolucionário, defendendo, por exemplo, que os jovens fizessem uma espécie de ¨estágio¨, morando com seus futuros conjugues antes de casarem.
Mesmo Mário de Andrade, provavelmente o maior responsável pela disseminação da idéia de que Lobato era inimigo dos modernistas, mesmo ele admitiu o alinhamento desse autor com os ideiais daquele movimento: ¨Quanto a dizer que éramos, os de São Paulo, uns antinacionalistas europeizados, creio ser falta de sutileza crítica. É esquecer todo o movimento regionalista aberto justamente em São Paulo e imediatamente antes, pela Revista do Brasil, é esquecer todo o movimento editorial de Monteiro Lobato¨.