domingo, novembro 17, 2019

Em pouco tempo não teremos mais professores


Já há algum tempo se anuncia um apagão na educação brasileira. Uma pesquisa mostrou que apenas 2,4% dos jovens cogitam se tornar professores. Outra pesquisa mostrou que um em cada cinco professores brasileiros tem mais de 50 anos. Em outras palavras: os professores brasileiros são cada vez velhos, em vias de se aposentar, e não serão substituídos. É um problema que já se reflete em muitas escolas. É comum vermos notícias de alunos que passam três, quatro meses sem aulas de determinadas disciplinas simplesmente porque não há professor.
Os professores brasileiros estão entre os mais mal remunerados do mundo. Para complementar o salário, são obrigados a trabalhar em diversas escolas. Qualquer um que já tenha lecionado sabe o quanto é cansativa a sala de aula – e tem se tornado ainda mais cansativa com uma geração que contesta o professor o tempo todo baseada em qualquer coisa que tenha visto no zap zap. Algumas poucas horas de aula são extremamente exaustivas. Mas o trabalho do professor não termina aí. Em casa, deve preparar aulas, preparar provas, preencher diários, preencher relatórios. Isso fora as reuniões acadêmicas e de pais e mestres.
Essa rotina estressante aliada aos baixíssimos salários tem afastado cada vez mais pessoas da docência.
Mas, se a  situação é crítica atualmente, pode se tornar ainda pior graças a dois fatores.
O primeiro deles é a reforma da previdência. Até o momento, professores conseguem se aposentar antes da população em geral – é um dos poucos benefícios da profissão. Pelo que se desenha na reforma da previdência, professores passarão a se aposentar na mesma idade que a população geral (ao que tudo indica, apenas militares estarão fora da reforma). Um dos resultados é que os que são professores atualmente e já têm idade pelas regras atuais, vão correr para se aposentar. E não haverá novos para substituí-los.
Outro fator é o projeto escola sem partido. Qualquer um que já tenha tido a curiosidade de dar olhada no site do projeto sabe o que se desenha – uma realidade em que o professor pode ser denunciado por qualquer coisa. Qualquer coisa. O escola sem partido defende que o professor seja denunciado por falar em sala de aula qualquer coisa que vá contra as convicções de alunos ou pais de alunos. Os pais acreditam em terra plana? Podem denunciar professor que ensinar que a terra é redonda. Os pais acreditam em criacionismo? Podem denunciar professor que ensinar teoria da evolução. Os pais acreditam que as vacinas fazem parte de um plano mundial de extermínio da humanidade? Se o professor falar o contrário, pode ser denunciado. A notificação extra-judicial que se encontra no site do escola sem partido chega a ameaçar o professor com prisão e perda de bens.
O que temos visto é uma demonização do professor, que passou a ser considerado o inimigo público número um.
Vamos ser sinceros? Quem, em são consciência, vai querer ser professor em um cenário desses? Salários baixíssimos, rotina extressante dentro e fora de sala de aula, aposentadoria aos 65 anos e possibildade de ser preso e perder tudo que tem porque disse algo que um aluno ou um pai de aluno não gostou? Quem, em são consciência, vai querer ser professor em um país em que professores são considerados o inimigo público número um?
Isso irá provocar um apagão não só na educação. Pouca gente se lembra, mas engenheiros, médicos, programadores são formados por professores. Sem professor não existem outras profissões.
Uma conhecida, coordenadora de curso de medicina, me falava da dificuldade de conseguir docentes. Abria o edital e não aparecia ninguém interessado. Um médico em seu consultório ganha em uma tarde o equivalente ao salário mensal de um professor universitário. Um dos poucos argumentos favoráveis era a questão a aposentadoria, que não vai mais existir após a reforma da previdência. E que médico vai deixar de ganhar dinheiro em sua clínica para se aventurar numa profissão extremamente desvalorizada em que correntes de zap zap valem mais que o conhecimento científico estabelecido?
Cada vez mais, o cenário que se desenha é exatamente este: em poucos anos haverá um enorme apagão na educação brasileira. Milhões de alunos sem professor.

sábado, novembro 16, 2019

Três Homens em Conflito O Bom, O Mau e o Feio Filme completo em portu...

Como Ennio Morricone Revolucionou a Música No Cinema

A arte incrível de Ross Andru

Ross Andru atualmente é um artista pouco lembrado, mas na era de bronze ele foi um dos desenhistas mais importantes do mercado dos comics. Para se ter uma ideia, José Luís Garcia-Lopez dizia que aprendeu composição com ele. Andru foi responsável pela fase mais aclamada do Homem-aranha e a capa do crossover do aracnídeo com o homem de aço é até uma das mais lembradas de homenageadas de todos os tempos. Além de um ótimo domínio da anatomia e da perspectiva, Andru era um especialista em composição, o que faz com sua arte seja tão impactante até os dias atuais.










Conan – o cerco de Makalet



Publicada originalmente na revista Conan The Barbarian em 1972, a saga do cerco de Makalet é uma das mais célebres histórias da primeira fase do personagem e um dos momentos mais grandiosos da dupla Roy Thomas e Barry Windsor-Smith.
Na história, Conan e seu amigo Fafnir são resgatados por um navio turaniano e, como consequência, acabam participando de uma das principais batalhas da Era Hiboriana. A guerra teve início quando os hirkanianos raptam Tarin, o deus vivo dos turanianos. Agora os turanianos se aproximam da cidade com uma armada para resgatar o deus vivo.
Como nas melhores histórias de Conan, não há mocinhos, em especial entre os governantes: todos parecem envolvidos em algum interesse sórdido.
Roy Thomas reflete perfeitamente o conceito de Robert E. Howard, que privilegiava os selvagens, vistos por eles como verdadeiros detentores do conceito de honra: “As coisas eram bem mais simples nas colinas friadas da Ciméria (...) Lá um homem podia tomar uma espada em suas mãos e ter certeza de que, a partir dali, seria senhor do próprio destino. Aqui, entre os homens civilizados, qualquer estranho pode sorrir e estender as mãos... enquanto com a outra segura um punhal assassino”.
Essa é, portanto, a história que melhor define o tipo de história que faria do cimério um dos personagens de maior sucesso dos comics.
Por outro lado, o desenho de Barry Windsor  Smith já estava muito mais seguro e maduro, distanciando-se da influência de Jack Kirby e das histórias de super-heróis que caracterizaram os primeiros números da revista.
A splah page inicial, com Conan no convés do navio, observando com desdém os marinheiros amarrando a estátua de Tarin no mastro é magistral, não só pelo detalhismo nos personagens e adereços, mas também pela composição. Embora o Conan de Smith não fosse tão selvagem quanto de John Buscema, aqui ele já parece selvagem e não um tipo de super-herói, como nas primeiras histórias.
A trama, dividida em três partes é um ótimo exemplo de como Thomas manejava a narrativa de maneira exemplar. Os acontecimentos vão se sobrepondo de maneira inesperada, mas, ao mesmo tempo, verossímil e lógica. E o que mais temos são reviravoltas, com destaque para o plot twist final, que, mais uma vez reflete o conceito de que a honra só pode ser esperada de um selvagem como Conan e jamais de uma pessoa civilizada.
Um bom indício da popularidade dessa história é quantidade de vezes que ela foi republicada no Brasil: duas vezes pela Abril e duas vezes pela Mithos.

Superdotados e educação


Os alunos superdotados nem sempre são fáceis de se trabalhar. Para começar, é comum que, sobre alguns assuntos, eles tenham mais informações que o professor. Se a orientação pedagógica é tradicional (em que o professor é visto como depositário de conhecimentos que devem ser repassados aos alunos), pode haver problemas sérios, com o professor vendo o aluno como um concorrente.
Além disso, a capacidade de aprender antes dos outros pode tornar a aula tediosa. Quando o professor diz A, o aluno já deduziu o B e o C, de modo que o restante da aula se torna apenas tediosa repetição.
Pesquisadores da área têm identificado que 20% do período de aula é desperdiçado por um aluno com QI de 130. Ou seja, em uma aula de 50 minutos, 10 minutos é pura redundância. A obrigatoriedade de permanecer na sala durante os 50 minutos torna o restante do tempo um suplício para os superdotados. Além disso, os desafios propostos pela escola costumam estar muito abaixo da capacidade desses alunos, que se torna desestimulado. Sem estímulos cognitivos, tal alunos procurará realizar os deveres escolares no menor tempo possível, desperdiçando o restante do tempo em simples recreação inconseqüente. É o caso de alunos que terminam de fazer as atividades antes do tempo e, a partir daí, começam a “fazer bagunça”, atrapalhando os outros.
Curiosamente, é mais fácil encontrar superdotados no “fundão” que na frente. Ao contrário do que imagina a maioria dos professores, o aluno que se senta na frente, escreve tudo que o mestre diz e tem um caderno bem organizado, dificilmente é superdotado. Muitos superdotados nem mesmo fazem apontamentos em seus cadernos, pela simples razão de que não precisam disso. Conheço casos de alunos que passaram pela faculdade sem ter caderno.
O professor só conseguirá o respeito do superdotado se este perceber que tem algo a aprender com ele. A autoridade, para um superdotado, não é fruto da tradição, ou da força, mas do conhecimento de cada um. Certa vez entrei em uma turma de primeiro ano do ensino médio e visualizei um aluno com enorme livro do Stephen King (em inglês) aberto sobre a carteira. Ele passou a aula inteira lendo o livro. Na sala dos professores, muitos dos meus colegas me informaram que ele era o terror da escola, um aluno problemático e indisciplinado. Na aula seguinte levei a ele um fanzine (publicação alternativa) que eu havia feito no qual havia uma matéria sobre King. Na aula seguinte lhe apresentei Edgar Alan Poe. Resultado: ele se tornou um dos meus melhores alunos. Seus textos, que antes eram só medianos, revelaram-se de grande qualidade literária. Antes ele não escrevia melhor porque simplesmente achava que o exercício não exigia dele toda a sua capacidade.

sexta-feira, novembro 15, 2019

História da comunicação amapaense



A história dos meios de comunicação na Amazônia, e em especial no Amapá, é pífia. São pouquíssimas as fontes de referência.
Um dos trabalhos mais relevantes foi a antologia organizada pelas professoras Roberta Scheibe e Isabel Augusto e publicada em 2014 pela editora Virtual Books.
Eu colaborei com dois artigos, ambos escritos com alunos, um sobre o Diário Oficial do Amapá (escrito em parceria com  Paulino Barbosa) e sobre a Rádio Difusora, a mais antiga do estado (escrito em parceria com Carlo Hadad e Odilson Serra).
O livro ainda trazia artigos sobre a Rádio Equatorial, os radialistas Osmar Melo e Teresinha Fernandes, sobre a TV Amapá e sobre a Amazon Sat.

Silvio Brito - Pare o mundo que eu quero descer

Johnny Cash - Ghost Riders In The Sky Legendado Tradução

O conhecimento artístico



Durante muitos anos, a visão positivista do conhecimento colocou a ciência no topo de uma pirâmide. Logo abaixo dela, vinham conhecimentos tidos como inferiores, como a filosofia, a religião e o empirismo (chamado de conhecimento vulgar). Atualmente, filósofos e cientistas começam a concordar que existem outras forma de explicar o mundo, tão importantes quanto a ciência. Uma dessas formas, cada vez mais valorizadas, é a arte. Em filmes, quadros, livros e até histórias em quadrinhos podem estar a chave para compreender o homem e o mundo em que vivemos.
Edgar Morin acredita que a arte é um elemento essencial para analisar a condição humana. No livro A cabeça bem-feita ele diz que os romances e os filmes põem à mostra as relações do ser humano com o outro, com a sociedade e o mundo: ¨O romance do século XIX e o cinema do século XX transportam-nos para dentro da História e pelos continentes, para dentro das guerras e da paz. E o milagre de um grande romance, como de um grande filme, é revelar a universalidade da condição humana¨. Assim, em toda grande obra, seja de literatura, poesia, cinema, música, pintura ou escultura, há um profundo pensamento sobre a condição humana.
Entretanto, essa maneira de ter contato com o mundo representado pela arte foi marginalizado durante décadas. 

Preconceito

O círculo de Viena, importante grupo de intelectuais do início do século XX, acreditava que a imaginação era um corpo estranho à ciência, um parasita que devia ser eliminado por aqueles que pretendem fazer uma pesquisa séria.
Numa época em que o ciência era tida como a única forma válida de explicar o mundo, isso equivalia a uma sentença de morte contra a imaginação e a criatividade. Edgar Morin, no livro Introdução ao pensamento complexo  explica que a imaginação, a iluminação e criação, sem as quais o progresso da ciência não teria sido possível, só entrava na ciência às escondidas. Eram condenáveis como forma de se chegar a um conhecimento sobre o mundo.
A valorização da criatividade e imaginação só aconteceu muito recentemente. O filósofo Karl Popper, por exemplo, ao observar as pesquisas de Einstein, que ele considerava o mais importante cientista do século XX, percebeu que toda descoberta desse cientista encerrava um ¨elemento irracional¨, uma¨ intuição criadora¨. 
O trabalho de Thomas Kuhn, ao demonstrar os aspectos sociais e históricos na construção do conhecimento científico, abriu caminho para que a arte fosse resgatada como forma de conhecimento. Afinal, se o cientista é influenciado pelo mundo em que vive, ele também é influenciado pelos romances que lê, pelos filmes que assiste e até pelas músicas que ouve.
No Brasil, um livro importante para a aceitação da arte como forma de conhecer o mundo foi A Pesquisa em arte, de Silvio Zamboni. Na obra, o autor argumenta que a arte não só é um conhecimento por si só, como também pode constituir-se em importante veículo para outros tipos de conhecimentos, pois extraímos dela uma compreensão da experiência humana e de seus valores.

Intuição

            A aceitação da arte como conhecimento implica na necessidade de compreender como ela se desenvolve. Sabe-se que existe um lado racional na produção artística, mas também existe um componente não racional e, portanto, difícil de ser verbalizado.
Uma das obras mais relevantes para a compreensão desse processo é o livro Desenhando com o lado direito do cérebro, de Betty Edwards. Baseando-se em pesquisas científicas sobre a constituição do cérebro, ela percebeu que na maioria das vezes o cérebro esquerdo é dominante na maioria das pessoas, o que dificulta a livre expressão da criatividade, já que o lado esquerdo é racional, lógico e analítico, enquanto o lado direito é intuitivo e criador.  
Uma outra forma de compreender o fenômeno é relacionar o raciocínio com o consciente e a intuição com o inconsciente. Quando se pensa que algo foi esquecido, na verdade essa informação passou para o inconsciente, sendo lembrada em momentos específicos. O psicólogo Carlo Gustav Jung dizia que a intuição nos faz ver o que está acontecendo nos cantos mais escondidos de nossa mente. O filósofo Bergson afirmava que, através da intuição, problemas que julgamos insolúveis vão se resolver, ou, antes, se dissolver, seja para desaparecerem definitivamente, seja para colocarem-se de outra maneira.
A intuição surge quando o raciocínio lógico e a observação empírica falham em processar nosso contato com o mundo. A intuição surge repentinamente, sem a necessidade de qualquer percepção que passe pelos sentidos. Ela registra-se ao nível do inconsciente.
Casos de intuições são relatados nas mais diversas culturas e são tantos que desafiam uma catalogação. Após grandes acidentes aéreos é comum descobrir casos de pessoas que iam viajar naquele avião, mas, sem nenhuma explicação racional, decidiram voltar para casa.
A intuição e o uso do lado direito do cérebro não são exclusivos dos artistas. Cientistas, por exemplo, usam a intuição e a criação para elaborarem hipóteses. Entretanto, na arte, a intuição e a criação são fundamentais.
A intuição criadora, segundo os psicanalistas neofreudianos, estaria vinculada não ao inconsciente, mas ao pré-consciente, já que pode ser acessada quando ocorre um relaxamento da parte racional. Os artistas teriam essa capacidade plenamente desenvolvida, o que lhes permitiria criar obras que são importantes intuições da condição humana.

Discos voadores

Numa tarde de outubro de 1957, o futuro escritor Stephen King, então com 10 anos, estava em um cinema na cidade de Stratford, Conencticut. O filme chamava-se A invasão dos discos voadores. Na tela, os ocupantes de naves extra-terrestres eram criaturas velhas e extremamente maldosas, com seus corpos nodosos e cara enrugadas. Eles traziam raios mortais, destruição em massa e a guerra total.
Quando o filme se aproximava do clímax, as luzes acenderam e o gerente subiu ao palco. Ele parecia nervoso e pálido. ¨Eu gostaria de lhes comunicar que os russos acabam de colocar um satélite m órbita: ele se chama Sputinik¨, disse.
Um silêncio mortal tomou conta da platéia. Logo o filme recomeçou, com a voz gutural dos extraterrestres se espalhando por todos os lados: ¨Olhem para o céu... um aviso virá dos céus... olhem para o céu...¨.
King pela primeira vez sentiu medo ao saber que os russos tinham um mecanismo no espaço, talvez sobre sua cabeça. Mas na tela tudo acabou bem. O mocinho descobriu uma arma secreta e os discos voadores foram derrotados. Os alto-falantes anunciaram em todas as eqüinas: ¨Perigo superado... perigo superado¨ e o medo mais profundo daquelas crianças, o de uma guerra nuclear, foi extirpado. Segundo King, foi um momento mágico de reintegração e segurança. Ele concluiu que inventamos horrores imaginários para poder suportar os horrores verdadeiros.
Assim, as salas de cinema na década de 1950 eram imensos divãs de analistas, onde as pessoas faziam uma sessão coletiva de catarse, do medo da terceira guerra mundial. Não é por outra razão que esse tipo de filme se tornou extremamente popular na época.

Loucos tiranos
Processo semelhante aconteceu na Alemanha da década de 1920. Nessa época proliferaram os filmes expressionistas, com vilões em busca do poder. Exemplos disso são O Consultório do Dr. Caligari, em que um psicólogo usa de seus conhecimentos para induzir um sonâmbulo a praticar crimes e Dr. Marbuse (Fritz Lang, 1922), em que um vilão assume diversas personalidades e lidera um bando de assassinos que aterrorizam a cidade.
Siegrifried Kracauer no livro De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão explica que os filmes de uma nação refletem a mentalidade desta de uma maneira mais direta que qualquer outro meio artístico. Isso acontece por dois motivos. Primeiro, porque tais filmes nunca são produto de uma só pessoa. Segundo, porque são destinados a multidões de indivíduos anônimos e fazem sucesso por revelar processos mentais ocultos. Assim, os filmes expressionistas eram protótipos da loucura e tirania que tomaria conta da Alemanha na década de 1930, sob a égide do nazismo, o que jogaria o país e o mundo em uma guerra desastrosa. Da mesma forma que os vilões do cinema, Hitler teria colocado o povo alemão numa espécie de hipnose que libertaria seu lado mais cruel.


Antecipação espacial
A arte constantemente não só analisa a sociedade de uma época, como antecipa suas realizações. Exemplo disso são as histórias em quadrinhos de Flash Gordon e Buck Rogers.
A tira de Buck Rogers surgiu pela primeira vez em janeiro de 1929. Na primeira história os leitores dos jornais conheciam um piloto que adormecia por inalação de um gás radioativo e acorda no ano de 2419, numa época em que a América tinha sido invadida por orientais e os americanos resistiam escondendo-se nas florestas.
Logo na terceira tira, a heroína Wilma apresenta a Buck Rogers uma mochila anti-gravitacional que lhe permite dar saltos tremendos. Para direcionar o saltos, os homens usavam o recuo de pistolas, o mesmo método que seria usado posteriormente pelos astronautas norte-americanos.
            Em 1984, quando os primeiros astronautas passearam no espaço sem estarem ligados à nave, muitos se lembraram que a cena era muito parecida com aquela tira de Buck Rogers: havia a mochila e o recuo da arma sendo usado para direcionar o astronauta.
Flash Gordon surgiu pela primeira vez nos jornais em 7 de janeiro de 1934. Desenhado pelo talentoso Alex Raymond, logo entrou na galeria dos personagens que antecipavam descobertas científicas. Raymond, ao contrário dos criadores de Buck Rogers, não tinha a consultoria de um grupo de cientistas, o que provavelmente o deixou solto para suas intuições tecnológicas.
Flash Gordon antecipou o forno microondas, mostrou mil e uma utilidades para o raio laser, e até antecipou o uso da mini-saia pela mulheres.
A própria NASA admitiu num boletim oficial que as histórias em quadrinhos do personagem foram usadas para solucionar problemas de suas cosmonaves. Uma visão atenta nas fotos do projeto Apolo permitem perceber influências no formato das naves e até no traje dos astronautas, especialmente se compararmos com a fase de Flash desenhada por Dan Barry.
Mas Flash Gordon não foi só antecipação. A série representou bem um momento da história em que as pessoas tinham total confiança na ciência, na tecnologia e no racionalismo. Essa época ficou conhecida como modernidade. Hoje, num período pós-moderno, é fácil perceber os componentes modernos nas tiras do personagem. Os cientistas eram mostrados sempre como pessoas boas, que traziam soluções para os problemas da humanidade. Até mesmo quando estava relacionada a projetos militares, a técnica era vista como algo bom. Numa das histórias, por exemplo, Flash vai parar em um planeta semelhante à Idade Média terrestre. Os humanos ajudam um grupo de rebeldes ensinando-os a fazer armas de fogo. O líder agradece-os pelo conhecimento que levaram ao planeta: ¨Conhecimento para pensar e fazer coisas! Conhecimento que nos trará a verdade, e a verdade nos tornará livres!¨, diz ele, apontado para um arsenal de armas.
Hoje, filósofos pós-modernos criticam a relação entre ciência e militarismo, que já estava implícita nas tiras de Flash Gordon.


Júlio Verne
No campo das antecipações, também a literatura se destaca. Exemplo disso são os romances de Júlio Verne, também exemplos perfeitos da crença absoluta na técnica e na ciência. Verne não só antecipou descobertas científicas, como, principalmente ajudou a popularizar essa forma de conhecimento, inspirando vários cientistas. A relação de Verne ao influenciar e ser influenciado por cientistas, mostra como essa troca é mais complexa do que se imagina.
Verne publicou seu primeiro romance científico, Cinco Semanas Num Balão, em 1863. Há apenas cinco anos havia sido publicado o livro A Origem das Espécies, de Darwin. Há pouco tempo Pasteur divulgara suas descobertas, que derrubavam a teoria da geração espontânea e lançava a teoria dos vermes como causadores de doenças. As descobertas científicas ocorriam numa sucessão cada vez mais rápida. Entretanto, o povo, o cidadão comum, ainda via a ciência como uma desconhecida. A própria palavra ciência era relativamente nova em 1868. A ciência estava além do alcance do homem comum. Pouco havia sido escrito que ele entendesse, ou de um modo que o tentasse à leitura. Era costume, naquele tempo, deixar a ciência aos inventores e químicos com suas máquinas esquisitas e estranhos tubos e recipientes.
                Interessante notar que nos livros do autor de Vinte Mil Léguas Submarinas a ciência não aparece apenas como um apoio da narrativa. Verne profetiza um mundo onde ciência e técnica fazem parte do dia-a-dia do cidadão comum.
                Não há dúvida nenhuma, no entanto, de que primeiro romance de Verne, Cinco Semanas num Balão, foi baseado em fatos científicos da época. Verne era colaborador da revista Museu das Famílias, para a qual escrevia textos de divulgação científica. Esse trabalho o obrigava a passar longas horas na Biblioteca Nacional, consultando livros, revistas e toda sorte de documentos da época. Além disso, o escritor era amigo  de Nadar, cientista e fotógrafo e  entusiasta do vôo e do mais pesado que o ar.
O balão de Cinco Semanas, assim como o aparelho voador de Robur, o Conquistador, eram nada mais que a concretização literária dos sonhos de Nadar.
O escritor, que se deixou influenciar por cientistas e fundamentou seus livros no conhecimento científico da época, influenciou também ele os cientistas e técnicos. Vários cientistas e inventores declararam que tiraram sua inspiração dos livros de Verne.
Verne mostrou em seus livros diversas realizações que só se tornaram realidade tempos depois:  os aviões, os helicópteros, os submarinos, a viagem à lua. Nesse último item, ele intuiu até mesmo o lugar de onde sairia o foguete: o estado norte-americano da Flórida.

Seriados
Mais recentemente, seriados têm discutido a condição humana tão bem que têm chamado a atenção da ciência.
O seriado Arquivo X, sucesso durante anos nas televisões de todo o mundo, mostrou como poucas outras obras a condição do homem pós-moderno. Na modernidade, a humanidade e acreditava piamente na ciência e na razão. Havia a idéia de que a ciência e técnica nos levariam a um mundo perfeito, o sonho de Júlio Verne. Mas a modernidade não realizou suas promessas. Se por um lado, a medicina aumentou a expectativa de vida da população, a industrialização fez proliferar os casos de câncer. Essa mesma ciência foi usada pelos nazistas nos campos de concentração, em experiências cruéis e no assassinato em massa. E foi a ciência e a tecnologia que criaram a bomba atômica, um artefato capaz de destruir toda a vida humana no planeta. Assim, a pós-modernidade é justamente uma crítica à visão ingênua sobre a ciência. Em muitos sentidos, essa crítica se transformou num resgate dos saberes tradicionais, inclusive religiosos.
O homem pós-moderno vive, portanto entre o ceticismo da ciência e a crença em coisas que não podem ser provadas cientificamente, como a magia, as simpatias, o horóscopo, os discos voadores. Essa dualidade é representada pelos dois personagens principais da série Arquivo X: a agente Sculy é a cética, que só acredita naquilo que pode ser provado cientificamente. Seu parceiro, Mulder, ao contrário, tem no escritório um pôster com um disco voador e os dizeres: ¨Eu quero acreditar¨.
Outro seriado de grande sucesso é Lost, sobre sobreviventes de um desastre de avião presos em uma ilha misteriosa. Logo nos primeiros episódios, revela-se que alguns dos sobreviventes na verdade não estava no avião. Eram ¨Os outros¨, um grupo de pessoas que se infiltra entre os sobreviventes com objetivos escusos e chegam a raptar alguns dos protagonistas.  
Da mesma forma que os filmes de discos voadores sintetizaram o medo de uma invasão russa durante os anos 1950, Lost sintetiza o medo do homem ocidental no mundo pós-11 de setembro. A referência óbvia é o desastre de avião, que, cogitava-se, poderia ter acontecido por causa de um atentado. Uma referência mais sutil são os outros. Esses são os terroristas, que vivem entre as outras pessoas, sem levantar suspeitas, até o momento de agirem.
Dessa forma, a arte cria uma maneira de explicar o mundo que não só antecipa inovações científicas e tecnológicas, mas também analisa a sociedade e o homem de uma forma que outros conhecimentos não conseguem. Como diz Edgar Morin, no livro A cabeça bem-feita: ¨em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escutura, há um pensamento profundo sobre a condição humana¨.

Dylan Dog – delírio de morte

Delírio de Morte é o quarto volume da série Dylan Dog nessa nova edição da Mythos.
A HQ conta a história de um ser deformado que sequestra uma garota, mata seus pais e, depois, passa a matar garotas. E um ponto liga todos os casos: todas as moças mortas participaram de um concurso de beleza. O roteiro é de Claudio Chiaverotti e os desenhos de Giovanni Freghieri.
O desenho é, certamente, o ponto alto da revista, a começar pela sequência inicial, com o monstro entrando na casa em vários planos fechados que aumentam o suspense. Além dsso, Freghieri sabe desenhar mulheres, algo essencial para a trama.
Já o roteiro... Dylan Dog parece exercer a função de Grouxo e, por conta disso, Grouxo pouco aparece. A forma como o detetive chega ao monstro é o que se poderia chamar de uma solução fácil, um quase deux ex machina. E dois plot twist no final forçam a barra. Lembra a época posterior ao sucesso do filme Carrie, quando todo filme precisava ter uma sequência adicional de susto.
Para completar, a edição da Mythos não ajuda. Capa e papel em baixa gramatura. Se compararmos com a edição de Mister No da editora 85 a diferença é fragrante.

A morte de Stalin



Em 1953, o líder da União Soviética, Joseph Stalin, morreu inesperadamente, o que levou a uma luta por sua sucessão. É sobre esse momento histórico que o filme A morte de Stalin, dirigido por Armando Iannucci e disponibilizado no Brasil pela Amazon Vídeo,  se debruça.
O filme é baseado numa história em quadrinhos de Fabien Nury e Thierry Robin e mostra com bastante liberdade poética os momentos anteriores à morte do ditador, os bastidores da morte e a sucessão. Poderia ser um filme histórico, mas é, acima de tudo, uma grande comédia ácida. Aliás, se você não gosta desse tipo de comédia, passe longe do filme.
O clima de terror criado por stalin serve para alguns dos momentos mais engraçados do filme, com a reunião de ministros que termina com um deles dizendo que o que acabou de sair está na lista (de pessoas que irão morrer ou serem enviadas para a Sibéria). Em vários momentos cenas singelas, quase caseiras, têm, em segundo plano, alguém sendo morto ou preso.
A história inicia com o diretor da rádio recebendo um pedido de gravação da apresentação músical que acabou de encerrar. O jeito é gravar tudo de novo, o mais rápido possível para não provocar a ira do ditador.
Quando está ouvindo a gravação, Stalin tem um mal súbito e chegamos a um dos melhores momentos, quando os membros do comitê central chegam e começam a discutir o que fazer.
Não é possível chamar um bom médico, pois todos os bons médicos ou foram mortos ou mandados para a Sibéria. Também pode não ser uma boa chamar médicos ruins, pois isso pode custar a vida de quem chamou. Durante toda essa longa discussão, Stalin permanece lá, caído no chão.
Quando fica claro que o ditador morreu, começam as conspirações – e nesse jogo, quem perde, morre. Uma palavra errada pode representar a morte de alguém.
Há se destacar o elenco primoroso, cuja atuação é boa parte do sucesso do humor estranho da película.
Nesse sentido, destaque para Jeffrey Tambor, como Malenkov, o indeciso presidente do comitê central, que não sabe o que fazer em meio às conspirações. E Michael Pain, como Molotov, o ministro que continua fiel a Stalin mesmo depois de sua morte e tem opiniões muito fortes e decididas... que mudam a cada minuto. Um dos melhores momentos da dupla é uma reunião de ministros, logo após a morte do ditador, em que Malenkov faz uma proposta e coloca em votação, interrompida por um discurso de Molotov: Malenkov muda seu voto a cada frase do colega, incapaz de decidir se ele é favorável ou contrário à proposta.

quinta-feira, novembro 14, 2019

Desculpe, foi engano


            Acho que o meu telefone não gosta de mim. Afinal, ele só toca quando estou dormindo, quando entrei no banheiro, ou estou no quintal, molhando as plantas. Os velhos amigos do tempo da faculdade parecem só decidir me ligar quando estão com insônia. Mas nada disso me irrita tanto quanto os enganos.
            A cada “Desculpe, foi engano” a úlcera dá mais um passo em direção ao controle total sobre meu estômago. Como medida defensiva, passei a aplicar o trote ao contrário.
            Se você nunca experimentou, tente. O trote ao contrário é tão relaxante que é até capaz de fazê-lo esquecer que foi acordado às quatro da manhã, no meio de um sonho com a Giulia Gan.
            O grande segredo é não dizer que é engano. Entre na onda, faça de conta que a pessoa mora mesmo ali.
            - Alô, gostaria de falar com a Marisa.
            - Quem tá falando?
            - O João, o namorado dela.
            - Ei Marisa, é aquele panaca do João! Você não estava namorando com um tal de Paulo? O quê? Ah, sim... pode deixar que eu digo! Alô, João? Eu me enganei, a Marisa não está...
            Certa vez me ligaram da Guiana Francesa.
            - Alô, aqui é o Miguel, da Guiana Francesa. Eu queria falar com o Bode.
            - O Bode não está, mas se você quiser falar com a Cabrita, eu chamo.
            - Ah ah ah! Entendi! Foi engano... desculpe, eu vou desli...
            - O que é isso? Você me liga de madrugada e depois quer desligar assim, sem mais nem menos? Vamos pelo menos conversar um pouco... Como é a Guiana Francesa? A ligação para cá é muito cara?
            Consegui segurar o otário no telefone mais de cinco minutos. Certamente ele pagou caro pelo engano...
            Às vezes eu me empolgo.
            - Alô?
            -  Alô, quem fala?
            - É a Maria. Eu queria falar com...
            - PARABÉNS MARIA! Você acaba de ligar para a rádio Caribé! E já está concorrendo a uma legítima sandália Bahiana. Para ganhar você só precisa responder a uma pergunta: qual é a cor do cavalo branco do Napoleão?
            - Deixa ver... acho que é branco...
            - E... EXATO! Você recebe seu prêmio na portaria da rádio, Rua Mato-Grosso, 1627!
            Meia hora depois eu recebo outro telefonema.
            - Alô, aqui é Maria de novo. É que eu não consegui achar o endereço...
            - Não tem problema. Volte para casa e nós entregamos no seu endereço... E não esqueça de ouvir a rádio Caribé, hein?
            É, eu costumo ser sádico com quem liga para minha casa sem verificar o número. Mas o meu episódio preferido foi de um cara que não sabia nem para quem estava ligando.
            - Alô, eu gostaria de falar com a garota...
            - Como assim? Que garota?
            - A garota que mora aí. Eu não lembro o nome dela.
            Só esse início foi o suficiente para que eu percebesse que se tratava de uma vítima em potencial.
            - Peraí. Você nem sabe o nome dela? Eu preciso de mais dados para poder te ajudar. Como foi que você se conheceram?
            - No barzinho da praça, no ano-novo.
            - Foi mesmo? O que aconteceu entre vocês?
            - A gente se deu uns amassos, mas não rolou sexo não.
            - Sei, sei... e aí ela te deu telefone. Qual é mesmo o seu nome?
            - Mário.
            - Aí ela te deu esse telefone, Mário... e como é essa garota?
            - Ah, alta, loira, com uns peitões...
            - Olha, Mário... aqui em casa só mora eu e minha mulher... e eu estou rastreando sua ligação...
            Tu tu tu tu tu

Guia do mochileiro das galáxias em Clássicos revisitados




Clássicos revisitados é uma série de álbuns de quadrinhos da editora Quadrinhópole em que os quadrinistas são desafiados a fazer uma HQ unindo duas obras distintas (na maioria das vezes com pouca relação entre elas).
O quarto volume foi dedicado a unir obras famosas de ficção científica com fatos históricos. Eu acabei fazendo duas histórias. Uma delas unia a extinção dos dinossauros com o livro O guia do mochileiro das galáxias.
Na minha história, dois garotos alienígenas acabam vindo parar numa Terra pré-histórica e, sem querer, provocam a extinção dos dinossauro. E qual a primeira coisa que dois garotos bolsonianos fazem diante de  algo assim? Claro, consultar o Guia para saber se a informação aparece lá.
Eu bolei a HQ como um verbete do Guia, de modo que os textos e até o título aparecem como texto do Guia (mostrado aqui como uma espécie de tablet).
Tempos depois o desenhista da história, Hugo Nanni entrou em contato comigo e me mandou a seguinte mensagem: “Antes de mais nada gostaria de te agradecer por um roteiro teu que tive a honra desenhar e que figurou numa das publicações Clássicos Revisitados. Quero dizer ao senhor que considero um dos meus melhores trabalhos e tenho grande carinho por ela. Grande parte desse apreço pelo resultado final dessa curta e divertida HQ vem da fluidez do roteiro. Sei que o senhor é um mestre, tem livro sobre o assunto e isso me deixa bastante feliz em ter participado desse trabalho e contribuído com sua carreira nessa parceria. Quero deixar aqui meu agradecimento de coração por ter me dado esse roteiro , que pra mim foi um grande presente”.
Em tempo: o álbum está disponível na Amazon
Fiquem com a história








60s Batman - CATWOMAN (Julie Newmar) - Season 2

Os quadrinhos de faroeste



            Com a queda na venda dos super-heróis, as editoras começaram a investir em outros gêneros e um dos que tiveram melhor retorno foi o faroeste. As primeiras incursões aconteceram já na década de 1920, nas tiras de jornais e depois nos gibis. Entre os personagem dessa época, destacam-se Bufallo Bill (de Harry O´Neil), Rei da Polícia Montada (de Allen Dean) e Red Ryder (de Fred Harman), que depois mudaria seu nome para Bronco Piler, sem qualquer explicação aos leitores.
            Em 1932 surgiu aquele que seria provavelmente o mais famoso herói de faroeste: Lone Ranger (Cavaleiro Solitário). O personagem, um cowboy que usava máscara para esconder sua identidade e tinha como companheiro o índio Tonto, surgiu no rádio, criação de George Trendle e Fran Stiker. Depois foi para as tiras de jornais, no traço de Charles Flanders e para os gibis, com desenhos de George Wilson. No Brasil, esse personagem foi batizado de Zorro, que era o nome de outro personagem, o herói de capa e espada criado por Johnston McCulley. Em decorrência disso, tivemos, no país, dois personagens diferentes com o mesmo nome, o que sempre foi motivo de confusão.
            Assim como o Lone Ranger, vários outros cowboys do rádio ou do cinema migraram para os quadrinhos. Entre os mais famosos, estão Roy Rogers, Durango Kid (que mereceu até uma música de Raul Seixas), Tom Mix e até o cachorro Rintintin.
            Mas nem sempre essa transposição era imediata. Um dos faroestes mais bem realizados, Cisco Kid, com texto do americano Rod Red e desenhos do argentino José Luís Salinas, surgiu na literatura, virou filme em 1929 e só 20 anos depois ganhou sua versão em quadrinhos.
            No rastro de Lone Ranger, muitas outras editoras lançaram heróis mascarados, como Black Diamond, Fantasma Vingador e O Cavaleiro Negro (Black Rider). Esse último, desenhado por Sid Shores, alcançou grande sucesso no Brasil, O título chegou a mais de 200 edições lançadas. Quando a Marvel cancelou o título nos EUA, a RGE, que publicava a revista no Brasil, não quis largar o osso e adaptou o personagem espanhol Gringo para que ele fizesse as vezes do Cavaleiro Negro. Primaggio Mantovi e Walmir Amaral eram responsáveis por adaptar os desenhos. Aparentemente, os leitores não perceberam a troca, pois a revista continuou vendendo bem.
            Outro personagem de sucesso da Marvel foi Two-Gun Kid, a HQ de Western mais duradoura dos EUA, tendo durado 31 anos e sendo cancelada apenas em 1979. O personagem era um mocinho que fora injustamente acusado de assassinato e vivia sendo perseguido por xerifes e caçadores de recompensa.
            Em 1955 surgiu Rawhide Kid (Billy Blue, no Brasil). Foi um personagem de sucesso até o final da década de 1970, mas ficou marcado mesmo pelo seu retorno em 2003, numa história em que se revelava que ele era gay.
            A DC Comics também investiu pesado no faroeste, embora seu personagem mais famoso, Jonah Hex, tenha surgido só na década de 1970.
            Existiu até um cowboy nacional. Era Jerônimo, o herói do sertão. Sempre ajudado pelo moleque Saci, ele surgiu no rádio, mas migrou para os quadrinhos em 1957, tendo estrelado 92 gibis mensais e cinco almanaques especiais. Era escrito por Moysés Waltman e desenhado por Edmundo Rodrigues e publicado pela RGE.
            Depois do auge do gênero, na década de 1950, os cowboys foram entrando em decadência. Muitos acreditam que isso se deve à corrida espacial. Com a chegada do homem ao espaço, os leitores (em especial os norte-americanos) não queriam mais olhar para o passado, mas para o futuro. Isso deu um novo destaque aos super-heróis, cuja temática podia ser melhor adaptada aos novos tempos científicos.
            Poucas editoras norte-americanos ainda investem nos cowboys. Curiosamente, os países europeus é que ainda mantém o interesse pelo gênero, em especial os franceses (com personagens como o tenente Blueberry) e os italianos (com personagens como Tex).