domingo, setembro 15, 2019

Mr. Hide - homem monstro

Mr. Hyde homem monstro foi uma antologia organizada por Ademir Pascale e publicada pela editora All Print. Eu participei com o conto “O monstro dentro de nós”, sobre um assassinato em massa em um colégio interno feminino. O conto brinca com a percepção do leitor a partir do relato da única sobrevivente do massacre.

O paraíso é um sebo

Sobre sebos, confesso que sou viciado neles. Como venho de uma família com pouco dinheiro, que pouco valor dava aos livros, só comecei a ler regularmente depois que descobri a biblioteca pública e os sebos com seus preços convidativos.

O primeiro sebo que descobri não era propriamente um sebo. Era um cambista do jogo do bicho, que vendia revistas usadas, no entroncamento, em Belém. Com ele comprei uma grande quantidade de revistas em quadrinhos Heróis da TV, que eu revendia a um colega de turma, colecionador, ganhando o suficiente para comprar minhas próprias revistas.

Algum tempo depois mudamos para a Cidade Nova, também em Belém e lá descobri um sebo que merecia o nome (inclusive em termos de sujeira), mas que tinha os melhores preços que já vi num estabelecimento do tipo. Nessa época percebi que tinha uma espécie de faro para descobrir sebos. Geralmente eles ficam perto de feiras ou de rodoviárias. Isso os sebos populares, pois os sebos mais “chiques” costumam ficar em casas antigas de bairros do centro.

Ao mudar para Curitiba tive contato com um novo tipo de sebo que não conhecia: o sebo organizado. Havia alguns que até tinham o catálogo em computador. Foi lá que vi uma cena que me pareceu surrealista: uma mulher chegar com uma lista de livros perguntando quais tinha. Pode ser prático, mas não tem o mesmo charme de procurar item a item nas prateleiras. O interessante nos sebos é a incrível capacidade deles nos surpreenderem. As livrarias são um espaço de ordem, de determinação. Uma ou duas visitas a uma livraria são o suficiente para entende-la, para saber o que ela tem. Um sebo não. Em um sebo bom, como o são os de Curitiba, é possível ir todos os dias durante todo um mês e, a cada dia, descobrir uma novidade, uma obra-prima escondida. Sem falar que os bons sebos costumam ter alta rotação. Sempre está chegando novidades.

Ir aos sebos para mim é tão relaxante que passei a considerar uma terapia, capaz de curar depressão, tristeza ou qualquer outro mal do espírito. Sempre que eu não estava bem, visitava um sebo e saía de lá feliz. Como é meio complicado visitar diariamente um sebo sem comprar nada, eu costumava comprar a cada dia uma ou duas obras. Havia uma ótima coleção sobre história do Brasil, com mais de 100 exemplares. Comprei um a um. Hoje sei que essa não é exatamente uma ótima estratégia, pois comprando muito é quase certo que haja desconto. Mas para mim, só o fato de estar ali, cercado de livros, já era para mim um prazer.

Jorge Luís Borges dizia que sempre imaginou que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca. Para mim, o paraíso deve ser como um sebo. A biblioteca, embora seja cheia de livros, é um espaço de ordem e determinação. Os sebos, ao contrário, são informação em estado puro, pura indeterminação.

Quando mudei para Macapá, o que eu mais sentia falta era de um sebo. Vivia falando em ir embora. Só me aquietei quando começaram a surgir os primeiros sebos. Na feira do Buritizal surgiu um rapaz vendendo os mais variados tipos de revistas, incluindo vários exemplares antigos da revista Heróis da TV, justamente as que eu comprava para revender ao meu colega de escola, quando morava em Belém. Esse não durou muito, mas logo depois surgiu o sebo do Ramos, na rua Tiradentes. No começo era um espaço mínimo, com poucos livros, nenhum quadrinho, e muitas revistas Veja antigas. Cheguei a comprar algumas Veja, só para incentivar. 
O  Ramos nunca foi a um sebo e não sabia direito como o negócio funcionava. Um dia, quando ele já tinha mais variedade, alguém chegou para ele e disse que as revistas em quadrinhos podiam se tornar raridades e valor milhões. O que ele fez? Pegou os gibis que tinha em estoque e aumentou o valor para 10 vezes o de banca. Assim, uma revista do Batman, da abril, em formatinho, que na banca custava R$ 2,50, ele passou a vender a R$ 25,00. Claro, não apareceu nenhum colecionador interessado em comprar uma revista que ainda podia ser achada nas bancas, danificadas pelo selo com o preço, por um preço tão alto.

sábado, setembro 14, 2019

A arte saudosista de Norman Rocwell

Norman Rocwell foi o mais popular ilustrador norte-americano, em especial por causa das capas que fez para a revista The Saturday Evening Post durante mais de quatro décadas. Seus temas refletiam assuntos da época, como os direitos civis para os negros e a II Guerra Mundial, mas se destacavam principalmente pelos temas saudosistas. Em contraste com uma América que se industrializava e se tornava, aos poucos, a maior potência econômica do mundo, as imagens de Rocwell refletiam a pureza de outros tempos e a inocência das crianças. Quando morreu, milhares de pessoas compareceram ao seu funeral e sua casa foi transformada em museu, deixada exatamente como estava no dia de sua morte. Conheça o trabalho desse grande ilustrador e mergulhe em uma viagem repleta de saudosismo.
















Cinder e Ashe


Poucas vezes houve, na história dos quadrinhos, uma dupla tão afinada quanto Gerry Conway e José Luís Garcia-Lopez. E um dos melhores exemplos desse afinamento é a minissérie Cinder e Ash, lançada pela editora Abril em 1989.
Cinder e Ashe são dois “peritos em controles de danos”, o que significa que eles são aquele tipo de pessoa que você procura quando está em apuros. A história inicia com os dois resgatando uma mulher que foi sequestrada por uma gangue e se recusando a devolve-la ao marido (eles descobrem que ela era agredida pelo esposo). Em seguida são procurados por um fazendeiro que está sendo perseguido por uma misteriosa corporação econômica, que, lhe sequestrou a filha – é o caso Starger que dá título à história. Por trás dessa história há muitos mistérios e um fantasma do passado: um agente da CIA que nos EUA usava Cinder como ladra e agenciava prostitutas que foi dado como morto e agora parece ter estar de volta.
Cinder é chamada assim por seu cabelo ruivo, que lembra brasas em chamas e Ashe, que a salvou no Vietnã e seu tornou seu parceiro e guardião, é cinzas, uma referência provavelmente aos cabelos grisalhos. Além disso, os nomes simbolizam a personalidade de cada um e a forma como se complementam.
Só o desenho de Garcia-Lopez já valeria o preço da revista, mas aqui temos uma mistura perfeita de ação bem desenvolvida com aprofundamento de personagens. Conway destrincha a história por trás de cada dos dois ao mesmo tempo em que desenvolve o relacionamento entre os dois (que oscila entre o romântico e o paternal), alternando entre sequências de presente e flash back (com passagens entre uma e outra que lembram muito Watchmen).
Cinder e Ashe foi um dos melhores quadrinhos lançados em uma época em que as bancas estavam cheias de obras-primas.   

Fundo do baú - Banana Split


Os Banana Splits surgiram em 1968 quando a Hanna-Barbera decidiu criar um desenho animado chamado The Banana Bunch, mas nove meses antes de começarem a produzir o desenho, acreditaram que seria mais viável transformar os personagens em bonecos interpretados por atores fantasiados.
O programa tinha o cão Fleegle, o leão Drooper, o gorila Bingo e o pequeno elefante Snorky que formam a banda Banana Splits.
O grupo fazia palhaçadas e trocadilhos em meio a clipes musicais enquanto apresentavam os desenhos dos Cavaleiros da Arábia, dos Três Mosqueteiros e o seriado A Ilha do Perigo.                       
Quando não estava tocando a banda do barulho estava dirigindo seus bugs com 6 rodas, ou escutando a cabeça de alce. O grupo vivia trombando uns nos outros, além de esbarrar  nos móveis do lugar onde moravam juntos, uma espécie de galpão psicodélico.
A primeira temporada do seriado foi um sucesso, já a segunda não obteve os mesmos resultados, pois as crianças achavam estar vendo reprises. Em meados dos anos 70, 187 episódios da série foram editados para meia hora de duração, e foi essa versão que chegou ao Brasil pela TV Tupi e TV Bandeirantes.

sexta-feira, setembro 13, 2019

Superman: Para o homem que tem tudo




Alan Moore escreveu três histórias do Superman. Uma delas, “O que aconteceu ao Homem de aço” é uma bela homenagem à era de prata. Uma história nostálgica até a medula. Já “Para o homem que tem tudo” é Alan Moore fazendo aquilo que o notabilizou: uma visão totalmente inovadora sobre um super-herói.
A história se passa durante o aniversário do Superman. Batman, Robin e Mulher Maravilha vão visitá-lo na Fortaleza da Solidão e o encontram paralisado com uma planta alienígena grudada ao seu peito. O vilão Mongul aparece e explica que se trata da Clemência Negra, um parasita que se alimenta da bioaura de suas vítimas. Em troca, ela concede à vítima seu maior desejo. Assim, imersas em um mundo ilusório, as vítimas não reagem e se deixam sugar. Escapar dessa prisão psíquica seria como arrancar o próprio braço, explica o vilão.
Alan Moore usa o conceito para destrinchar a psicologia do Superman, suas motivações e, ao mesmo tempo, criar uma história imaginária aproveitando muitas das pontas soltas criadas por outros roteiristas.
No mundo de sonhos vivido pelo herói, Kripton não explodiu e Kal-El vive uma vida pacata, como cientista, é casado com uma ex-atriz e tem dois filhos.
A sacada de Alan Moore é genial: o maior sonho do Superman é não ser o Superman.
A HQ traz duas tramas paralelas: no mundo real, a Mulher Marvilha enfrenta Mongul (que lhe pergunta se ela seria a “procriadora” do Homem de aço) e Batman tenta retirar a planta.
Enquanto isso, no mundo de sonhos, Kal-El vive uma vida pacata.
Mas há algo de podre no paraíso: Kripton está dividido por duas correntes ideológicas e o conflito entre essas duas pode levar a uma guerra civil. De um lado aqueles que acham que a zona fantasma é um tipo de tortura e culpam a família El por isso (Kara, a prima do herói, conhecida como Supermoça é agredida por um grupo). Do outro lado um grupo conservador, liderado por Jor-El, pai do Superman, que culpa imigrantes por uma suposta decadência kriptoniana e prega um retorno à velha Kripton.
Com o desenho do sempre competente Dave Gibbons essa história se tornou instantaneamente em um dos maiores clássicos do Homem de aço.

A miserável revolução das classes infames



A Cabanagem foi a mais sangrenta guerra civil da América Latina. Foram 35 mil mortos, 30% da população da região amazônica. Entretanto, é uma das menos conhecidas revoltas do período regencial. Uma ótima obra para os interessados no assunto é A miserável revolução das classes infames, de Décio Freitas (editora Record).
Décio conta que o livro é baseado em cartas que lhe foram entregues por um amigo espanhol. Escritas meio em francês, meio em bretão, eram redigidas por um revolucionário francês que participara da revolta paraense.
Já nos finais da revolução francesa, muitos indíviduos do grupo que perdia o poder, ao invés de serem guilhotinados, eram simplesmente enviados para a Guiana francesa. Era a “guilhotina seca”.
Quando Napoleão chegou ao poder, continuou a prática e quando este foi derrotado, seus inimigos fizeram o mesmo. Dessa forma, na Guiana Francesa podia-se encontrar desde jacobinos veteranos da revolução francesa a pessoas perseguidas por Napoleão.
Entre os revolucionários enviados para a Guiana está Jean-Jacques Berthier, expulso da França com apenas 14 anos. E este é o autor das cartas que servem de base para o livro. Assim, os principais fatos do conflito amazônico são esmiuçados do ponto de vista desse personagem. As cartas, no entanto, parecem ser só uma estratégia de verossimilhança. Da mesma forma que Umberto Eco inventou que O nome da Rosa não era um romance, mas a tradução de um texto real da Idade Média, Décio aparentemente  inventa que seu livro é resultado das cartas recebidas de um amigo e traduzidas a grande custo do bretão.
Mas se o personagem é fictício, os fatos históricos narrados no livro são reais. O autor pesquisou a fundo o período e lança uma nova luz sobre a revolta.
A começar por algo que fica claro durante toda o obra: a cabanagem foi a nossa revolução francesa. A relação é, de fato, direta.
Quando Napoleão invade Portugual, D. João e a corte portuguesa são obrigados a fugir para o Rio de Janeiro. Mas, em retaliação, D. João manda invadir a Guiana Francesa com o apoio dos ingleses.
A conquista é fácil, mas vai ter grandes consequências. Na época, a colônia francesa estava repleta de revolucionários jacobinos. Como eram inimigos de Napoleão, os portugueses são tolerantes com eles e alguns até são levados a Belém para ajudar na construção de um palacete para o governador. Outros vão por conta própria.
Além disso, os soldados brasileiros que participaram do conflito têm contato direto com as ideias dos revolucionários. Em pouco tempo, Belém não só estava cheia de jacobinos, mas também de soldados brasileiros com ideias revolucionárias.
Décio faz uma descrição ampla de Belém e das condições sociais do Pará à época.
O Pará era dominado pelos portugueses e pelos mestiços de principais famílias. Aos negros restava a escravidão e aos índios, chamados tapuios, a miséria. Era comum, por exemplo o sequestro de meninais tapuias destinadas à lascívia dos endinheirados. São as “índias de corda”: seus captores furam suas orelhas pela qual passam uma corda que prende uma às outras. Se tentarem fugir, provocam dores atrozes nas outras.
O governador, corrupto, pensa em uma só coisa: enriquecer mesmo que à custa de saquear o povo local.
A língua mais falada não é o português, mas a língua geral, o Nheengatu, língua indígena baseada no tupi e criada pelos jesuítas. 
Um fato que antecipou e, de certa forma provocou a revolta da cabanagem, foi o massacre do Brigue Palhaço.
Quando o Brasil se tornou independente, o Pará não aderiu. Afinal, a capital paraense era mais próxima de Portugal do que do Rio e comércio era todo com a Europa.
D. Pedro manda um mercenário inglês, Lorde Greenfell, para providenciar a adesão do estado ao império brasileiro.
Greenfell faz um acordo com as principais famílias, que aceitavam aderir à independência em troca de manter o status quo.
A população pobre se revolta: esperava-se que a adesão do Brasil à independência mudasse alguma coisa na situação política e social do estado, mas continua tudo como estava.
A rebelião estoura: as pessoas saem às ruas saqueando os comércios dos portugueses. A repeensão, efetuada pelo mercenário é cruel e aleatória. Ele envia seus soldados, que recolhem todos que encontram na rua e, sem qualquer julgamento, os aprisiona no porão de um navio, o Brigue Palhaço.
Eram 256 pessoas aprisionadas em um espaço mínimo, num calor extremo, sem água ou comida. A ideia era matá-los de fome e sede, mas quando o gemido agonizante dos aprisionados começou a incomodar os soldados, Greenfell mandou dar tiros a esmo no porão. Não deu certo. Os gritos de agonia continuaram. A solução foi radical: jogar cal no porão, asfixiando os prisioneiros. De todos, apenas uma pessoa sobreviveu.
Essa tragédia marcaria para sempre a história do Pará e seria, anos mais tarde, o estopim para a revolta dos cabanos.

Superman - The Golden Age of Animation

Família Titã - o processo de criação


Família Titã foi uma história em quadrinhos escrita por mim e desenhada pelo Joe Bennett e publicada em diversas revistas da editora Nova Sampa na década de 1990. Eu contei 5 edições diferentes. Com o tempo, virou cult e finalmente foi relançada, no formato de álbum, pela editora Opera Graphica, em maio deste ano. O texto abaixo, um diálogo entre eu e o Joe, deveria constar no álbum, mas acabou não entrando. Nele, nós discutimos como foi o processo criativo e a repercussão da história. Eu tenho exemplares para venda, ao preço de 35 reais já com frete. Quem estiver interessado, basta mandar um e-mail para: profivancarlo@gmail.com. 



Gian Danton: Você lembra como tudo começou? Você recebeu um telefonema do Franco de Rosa pedindo uma história de 30 páginas, não?

Joe Bennet: Sim, ele me pediu uma HQ de 30 páginas para fechar uma edição e queria em no máximo 15 dias.

Gian Danton: Isso. O tempo era muito corrido. Tínhamos que criar algo rápido

Joe Bennett: Sim. Eu na época estava trabalhando somente para o Franco... a Val era um bebê de meses de idade, precisava fazer grana rápido. Eu não tinha nada em mente. No caminho pra tua casa eu fui pensando na família Marvel.

Gian Danton: Você lia muito Família Marvel quando criança?

Joe Bennett: Eu adorava a Família Marvel!

Gian Danton: O irônico é que a Família Marvel é a mais infantil dos super-heróis...

Joe Bennett: Sim..mas estávamos encharcados do Miracleman e fizemos algo muito adulto... Quando eu fui pra tua casa discutir a empreitada eu só estava com a Família Marvel na cabeça. Começamos a falar sobre isso, mas com o Miracleman como guia, como sempre fazíamos. Primeiro nos avacalhávamos, pois sempre fazíamos piadas com nossas ideias.. Éramos muito críticos de nos mesmos. Aí então, após algumas horas, parávamos e víamos que a coisa tava séria...rsrsrs

Gian Danton: A gente sempre se divertia muito, especialmnete nas histórias de terror.

Joe Bennett: Haha! Verdade!

Gian Danton: Você vivia me colocando nas histórias, em piadas internas...

Joe Bennett: HAHHAHA! A melhor de todas ainda é a do cara com agorafobia na PHOBOS (publicada na revista Graphic Sampa) acabou ficando duca aquilo.

Gian Danton: Nessa mesma história aparece um hospício com o meu nome verdadeiro, Ivan Carlo. Mas voltando para a Família Titã, você lembra se a gente teve a ideia de transformar a coisa em uma tragédia grega, ou foi sem querer?

Joe Bennett: Olha cara..na verdade foi por uma consequência de ideias...a gente foi fazendo... criando, e quando vimos aquilo estava denso pacas...a solução era somente uma...TRAGÉDIA. Na verdade..a cena do menage a trois que levou ao final da trama...

Gian Danton: É, naquela cena fica claro que o Tribuno era um pária no grupo. Aliás, só colocamos aquela cena porque precisava ter sexo, mas acabou sendo fundamental.

Joe Bennett: Sim...na verdade ela é fundamental... mas so foi explícita por questões editoriais... Hoje ela aconteceria, mas de forma velada.

Gian Danton: Engraçado que, apesar da influência de Miracleman, o caminho que seguimos foi outro...

Joe Bennett: Sim..o nosso caminho foi até mais realista em nível humano do que o Miracleman. Fomos ao cerne do ser humano ali.

Gian Danton: Nós abordamos mais a interação entre eles. Os personagens que eram realistas, tinham motivação...

Joe Bennett: Sim e eu acho aquela solução do roteiro realista perturbadora...


Gian Danton: Sim, um herói em busca de vingança.


Joe Bennett: Esse nosso tom realista-humanista foi nos levando ate chegar na Refrão de Bolero, concordas?

Gian Danton: Sim, sem dúvida. Refrão foi uma consequência da Família Titã.

Joe Bennett: Sim,  Exato. Ela foi logo em sequencia à FT.

Gian Danton: Mas voltando à família, Tribuno é o personagem mais interessante. Ele é heroi e vilão.

Joe Bennett: Sim. Ele é o canal pra toda a tragédia..pois já tem um espírito trágico.

Gian Danton: Engraçado que isso aconteceu por causa da correria. Não tivemos tempo de conversar sobre isso. Lembro que você fez o rafe rapidinho. Eu escrevi o texto todo em menos de uma hora.

Joe Bennett: Foi. Eu fiz o rafe numa tarde e te mostrei na manhã seguinte.

Gian Danton: Tudo foi muito rápido. No mesmo dia você já estava fazendo a primeira página.

Joe Bennett:  Não pensamos em nada além de FAZER... o original era pequeno 25 x 28 mais ou menos, para economizar tempo.

Gian Danton: E no final eu achava que o Tribuno era o herói e você achava que ele era o vilão. Acredito que o diferencial do Tribuno é que ele tinha motivação. Algo que falta em muitas histórias atuais. Os personagens parecem bonecos sem vida...

Joe Bennett: Sim..eu tinha esta ideia dele..tanto que sempre o fazia soturno e nos cantos dos quadros.

Gian Danton: Então ele tá lá, matando um monte de gente, botando o terror, mas o leitor entende ele, e até simpatiza com ele.

Joe Bennett: Sim..pois no texto tu compravas o leitor.. e isso foi ótimo. Eu era o promotor e tu eras o advogado.

Gian Danton:  E no desenho você caprichava nos detalhes mórbidos...

Joe Bennett:  É. A cena do Paulo preso nos destroços e bebendo gasolina para não morrer deixou até tu perturbado. Rs RS RS RS RS.

Gian Danton: Aquela cena da Vésper agarrada com a filha, o olhar de pavor dela é perturbador...

Joe Bennett:  Sim..e complementou com tua descrição da morte da criança..algo que não foi mostrado..mas ali estava tua descrição digna de um agente da gestapo... rs rs
 
Gian Danton: Lembrei de uma coisa agora. Essa sequência era a primeira da história, depois vinha o resto em flash- back. Quando foi publicado pela primeira vez, inverteram isso e colocaram no final. Essas narrativas não lineares eram típicas da nossa parceria.

Joe Bennett:  Sim..a trama é contada em flashback...isso é, claro, uma influencia do Moore...

Gian Danton Outra inovação foi colocar eles morando num lixão.

Joe Bennett:  Sim... hoje é cool mostrar isso, tem até novela no lixão, mas na época, não. Se fossemos bobinhos naquela época faríamos eles garotos normais, digo, morando em casas normais. Mas não, fomos pelo caminho da crueza mesmo...

Gian Danton: Falando sobre os personagens, Centurião e Vésper ainda continuam crianças, mesmo depois dos poderes...

Joe Bennett:  Sim, pois eram infantis mentalmente. Aliás..eram crianças de 12 a 14 anos na verdade. O Tribuno que por ser letrado, era bem mais maduro, mas não tanto ao ponto de aceitar que Melissa não o amava... se bem que pra isso não precisa idade ou intelectualidade... rsrsrs

Gian Danton: Sim, o Tribuno era um velho em corpo de criança.

Joe Bennett: Sim e literalmente... já que seu corpo estava morrendo

Gian Danton: Centurião e vésper são como crianças que ganharam um brinquedo caro e querem curtir esse brinquedo.

Joe Bennett: Isso

Gian Danton: Tem esse aspecto também. O Tribuno acha que eles devem usar os poderes para melhorar o mundo.

Joe Bennett: Sim, e na minha opinião o César queria ou teria usado este poderes de forma mais correta com o que lhe propuseram... na verdade o poder era DELE e ele o distribuiu e por isso a coisa desandou. Ele fez tudo por amor à Melissa.. quando deveria fazer por amor a humanidade

Gian Danton: O tribuno é tridimensional.

Joe Bennett: Sim. Bastante.

Gian Danton: É um personagem complexo: humanista, mas egoísta. Interessante também que o amor dele acaba se transformando em ódio.

Joe Bennett: Na verdade... o altruísmo dele em distribuir poder foi somente um fisiologismo para receber o amor da Melissa depois.

Gian Danton: Embora ele esperasse que ela usasse bem esse poder...

Joe Bennett: O odio anda em compasso com o amor..tanto que ao final de tudo ele chora por tudo que fez. Ali ele se redime.

Gian Danton: Só um deus pode matar um deus.

Joe Bennett: Na minha opinião ele nao morre no sol.. nada pode matar o que ele possui...

Gian Danton: Deixamos o final em aberto.

Joe Bennett: Cada um tem a sua ideia de como termina. Sempre fazíamos isso em nossas HQs. Dávamos margem para discussões depois. Nunca fechávamos tudo e
isso era algo bom.

Gian Danton: Aliás, muitos leitores achavam que o Tribuno era herói, outros que ele era vilão. Não tinha uma interpretação só.

Gian Danton Estava olhando a história. Acho que é a HQ em que fica mais clara sua influência do Garcia Lopez.
Joe Bennett: Sim..Garcia López. Ali eu me soltei neste sentido. Era uma HQ de super-herói. Portanto, nada mais adequado que emular meu mestre, tanto que esta HQ me levou a trabalhar nos EUA... mas isso é outra historia...

Gian Danton: Fala um pouco sobre essa influência.

Joe Bennett:  Eu conheci o o mestre Garcia aos meus 8 anos numa história do Batman. Foi amor à primeira vista. O cara é um mestre! Nunca havia visto herois sendo desenhados daquele jeito. Durante minha pré-adolescência eu treinei muito o estilo dele.

Gian Danton:  Engraçado que eu sempre fui fã do traço do Garcia lopez e você sempre foi fã do Alan Moore.... A Família Titã juntou um roteirista influenciado pelo Alan Moore com um desenhista influenciado pelo Garcia-Lopez...

Joe Bennett:  Pois é, ali juntamos as duas coisas.

Gian Danton: Você lembra como foram as reações dos leitores?

Joe Bennett: olha.. a melhor delas foi do Jadson, que na época era leitor e aspirante a quadrinhista. O Jadson comprou para descascar uma... aí começou a ler e não teve coragem de proseguir com seu intuito primário... rs rs rsrs... Virou fã da HQ... Aliás, muita gente comprava para descascar e depois virava fã da dupla.

Gian Danton: Eu sempre viajo em congressos e eventos e sempre vinha alguém com a Família Titã encadernada para autografar... O engraçado é que isso foi lançado em revista lacrada, de fundo de banca, papel jornal...

Joe Bennett: Pois é. Tinha gente que recortava só a família titã e mandava encadernar.

Gian Danton: Mesmo sendo erótico, a gente caprichava, não era o sexo pelo sexo...

Joe Bennett: Não acho que alguém tenha sentido tesão pela INCUBO... rs rs rs rs...

Gian Danton: Lembro de uma carta do Franco de Rosa nos pedindo para não matar os protagonistas.

Joe Bennett:  Há Há Há! Pois é, os leitores compravam por causa do erotismo e a gente matava os protagonistas. Era quase uma necrofilia da parte dos leitores... Muitos se sentiam mal...

Gian Danton Se sentiam mal, mas continuavam comprando.

Joe Bennett: É igual a um acidente com massa encefálica espalhada no asfalto... todo mundo acha horrível mas passa devagarzinho ao lado para ver...

Gian Danton: Aí iam na banca e procuravam as revistas que tivessem a margem negra... Lembro que vc já usava antes mesmo da nossa parceria. Você já tinha ideia que isso era uma sacada de marketing?

Joe Bennett: Sim, eu tinha sim, fazia de proposito, era marca Bene Nascimento na revista.

Gian Danton: E todo mundo sabia...

Joe Bennett sim. E compravam por isso também... eu só queria saber quantas vezes a FT foi republicada...

Gian Danton Eu contei quatro publicações. Quem curtia comprava a revista mesmo lacrada por causa da margem negra.

Gian Danton: Sobre continuações: Eu acho que poderia funcionar como prequel, tem muita brecha ali, muita coisa que contamos só por alto...

Joe Bennett:  Sim, não cabem continuações, mas prequels e enxertos sim... eles tiveram 10 anos de atividade... ou 15, não me lembro agora... portanto muita coisa aconteceu. Sem contar os 10 anos de exílo do César, poderoso e solitário e cada vez mais amargurado com o mundo.

Gian Danton: sim, há brechas aí para muitas histórias. Só isso já dava uma série.

Joe Bennett: Na época talvez não tivéssemos vivencia para fazer essas historias... mas hoje a coisa seria diferente. Fica aqui uma ideia...

Gian Danton: Não tínhamos vivencia nem mercado.

Joe Bennett: Hoje continuamos em mercado... rs rs rsrs

Gian Danton: Mas hoje existem os álbuns para venda em livrarias. O mercado da época era fazer histórias eróticas para serem publicadas em revistinhas de fundo de banca... Eu sempre lamentei a família titã nunca ter sido publicada em um formato melhor, com papel de qualidade...

Joe Bennett: Sim... finalmente, após quase 25 anos, isso vai acontecer.

Gian Danton: Na verdade, este álbum da FT é um antigo sonhos dos fãs.

Joe Bennett:  E nosso também...

Gian Danton: Muita gente me cobrava isso.

Joe Bennett: Sim..a mim também. Eu também me cobrava e hoje me cobro mais historias deles.

Gian Danton: Na época a chamada de capa era "a insólita família titã".

Joe Bennett: sim

Gian Danton: Não tinha nome dos autores na capa, ou maior destaque. Era o mesmo destaque das outras histórias.

Joe Bennett: Na verdade..nem nós nem o Franco sabíamos o que estava em nossas mãos. Poderíamos ter criado um universo inteiro com herois brasileiros e criveis a partir dali..

Gian Danton: o sucesso foi aos poucos. O pessoal foi descobrindo a história. Outra coisa que ajudou foi a internet. Um amigo americano me disse que alguém traduziu para o inglês e colocou na rede o scans. Infelizmente esse site deve ter sido derrubado antes de eu achar esse scan.

Joe Bennett: Poxa..que pena... eu queria ter visto isso.

Gian Danton: Eu também. Mas isso mostra que até nos EUA tivemos fãs da Família Titã...

Joe Bennett: Pois é. Aliás, foi graças à Família Titã que consegui trabalhar para os EUA. O Hélcio de Carvalho leu essa HQ e me convidou para fazer testes paras as editoras americanas. O resto é história...