sábado, fevereiro 23, 2019

Marketing: a marca


A marca é um dos elementos mais importantes de qualquer produto. Hoje, o poder das marcas é tão grande que muitas delas valem mais do que todo o ativo das suas empresas. A marca Coca-Cola, por exemplo, vale aproximadamente 65 bilhões de dólares, mais do que todas as coisas físicas que a empresa tem.
Uma boa marca começa com um bom nome. Muita gente escolhe o nome baseado em uma brincadeira, um xiste, como se esse assunto não fosse sério. Nomes como Pizzaria  Fracasso, Academia Osso, Mercearia do Zé Peidão, Lanchonete Comeu Morreu são praticamente um atestado de incompetência. Nesses casos, o nome é um indicativo de falta de qualidade do bem ou serviço.
Uma boa marca deve ser curta, fácil de pronunciar, simples de escrever, fácil de lembrar e sem conotações negativas.
Uma das maneiras de encontrar um nome para o seu serviço ou produto é procurar palavras que descrevam seu benefício. O creme dental Sorriso é um ótimo exemplo, assim como a livraria Cultura.
Outra maneira é procurar palavras que se relacionem com os benefícios e quebrá-las em várias partes, juntando posteriormente os pedaços. O exemplo clássico é o Bombril, mistura de bom com brilho. O grupo educacional Iuni é uma mistura de inteligência com universidade.
Escolhido o nome, é hora de pensar no logotipo. O logotipo é a formatação visual desse nome, com cores e fontes específicas. A letra manuscrita da Coca-Cola, por exemplo, é tão marcante que alguns anúncios apresentavam apenas parte dele e mesmo assim era possível identificar.
É nessa fase que se escolhem as cores da empresa, que devem aparecer no logo. Dica: quando se trata de cores, menos é mais. A maioria das empresas e produtos usa no máximo duas cores, tanto para evitar poluição visual quanto para garantir economia.
Quando a gráfica vai imprimir um panfleto ou um folder, ela passa esse material na máquina para cada cor que será impressa. Um material em policromia passa quatro vezes na máquina e, portanto, tem um preço bem maior que o de um material que passa apenas uma ou duas vezes.
A companhia aérea Gol estendeu sua política de baixo preço, baixo custo até mesmo para sua logo. São duas cores: laranja e cinza, o que barateia até mesmo os custos de impressão de material.
A escolha da cor ou das cores da marca vai refletir até nos detalhes. Por exemplo, numa lanchonete que use como cor o laranja, o ideal é pintar as paredes numa cor neutra e colocar o laranja em detalhes, como encosto das paredes, protetores de mesa, lixeiros, açucareiros etc.
Escolhidas a cor e a fonte da marca, é necessário criar um símbolo visual para ela: a TV no formato de globo terrestre, da rede Globo, o traço estilizado da Nike. Esses símbolos devem ser bastante simples para que sejam de fácil assimilação. A cruz, símbolo visual do cristianismo, é um ótimo exemplo de como a simplicidade permite comunicar de forma extremamente eficiente.
O símbolo visual também reforça o caráter de ícone da marca, facilitando sua assimilação – mesmo por parte das pessoas que ainda não aprenderam a ler. Tanto que é comum ver crianças lendo logomarcas (junção do logotipo com o símbolo visual).
Algumas empresas ainda utilizam mais um elemento para facilitar a assimilação da marca: os mascotes, bonequinhos-símbolo da empresa, que fazem muito sucesso, especialmente com o público infantil.

A arte fantástica de P. Craig Russell

P. Craig Russell é um ilustrador norte-americano especializado em fantasia. Seu traço detalhista e imaginativo se revelou perfeito para adaptações de livros fantásticos ou mitológicos, como O anel de Nibelungo. No Brasil ele ficou conhecido por seu trabalho com o personagem Elric e pelas histórias do Dr. Estranho. Russell se notabilizou também pelas parcerias com Neil Gaiman, entre elas a edição número 50 de Sandman. Aprecie o trabalho deste grande artista.












sexta-feira, fevereiro 22, 2019

IGNORANCE BEYOND IMAGINATION #meteoro.doc

A banda mais bonita da cidade e a psicologia de massa

Um dos mais espantosos virais da internet na atualidade é o clipe Oração, d´A banda mais bonita da cidade. Não só o clipe se tornou um sucesso espantoso, como a música se tornou um chiclete. Quem ouve, começa a cantar. 
O que temos aí é um típico fenômeno de massificação. No comportamento de massa, as pessoas agem como se estivessem na multidão, mas sem a proximidade física. É um comportamento governado pelo complexo límbico, ou cérebro mamífero, responsável pelo instinto de manada, socialização e pelos sentimentos. Da mesma forma que os bois seguem uns aos outros, a massa quer fazer parte de um grupo, segui-lo e identificar-se com ele.

O sentimento aí é de felicidade: todas as pessoas que aparecem no clipe estão felizes, alegres e o receptor quer compartilhar isso, quer fazer parte dessa festa, dessa alegria.
Essa sensação de pertencer a um grupo é elevada pela própria estrutura do clipe: no começo, vemos um homem só, cantando, de forma quase melancólica. Quando ele começa a andar com ele, outras pessoas vão aderindo à música e ela vai se tornando alegre. Nesse sentido, o plano sequência é perfeito, pois simula a criação de uma multidão, com os membros aderindo um a um ao grupo. Na medida em que isso acontece, também o receptor, atrás do monitor do computador, sente  vontade de aderir e sentir essa felicidade, participar desse grupo.
A estrutura repetitiva da música aumenta essa sensação e fala diretamente ao cérebro límbico. Os boiadeiros também costumam entoar canções repetitivas para direcionar a boiada. A repetição não só fala ao nosso desejo de fazer parte de um grupo, mas também aos nossos sentimentos. Mais: nós associamos a repetição ao período em que somos bebês e ouvimos o bater do coração de nossas mães. Portanto, é uma sensação de conforto. 
Com letra simples, repetitiva e fácil de ser decorada, A banda mais bonita da cidade consegue com perfeição criar condições para sua massificação, daí o sucesso. 

O conto da aia


Um dos gêneros literários mais importantes do século XX são as distopias. Três dos mais importantes livros do século são nesse gênero: 1984, de George Orwell, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury e Admirável Mundo Novo, de Adous Huxley. Uma obra que merece constar nessa lista é O conto da aia, de Margaret Atwood.
Escrito em 1985, o livro foi redescoberto diante do cenário político atual dos EUA. Foi transformado em uma premiadíssima série do serviço de streaming Hulu.
Mas o que diferencia O conto da aia de seus similares distópicos mais famosos? Essencialmente, o olhar feminino. Tanto o livro de Orwell quanto de Bradbury quanto o de Huxley foram escritos por homens e tinham homens como protagonistas. Margaret Atwood não só escreveu uma distopia com uma protagonista feminina: ela criou uma distopia cujas principais vítimas são mulheres.
Na história, os EUA são dominados por um grupo religioso puritano, que impõe uma rígida disciplina sobre as mulheres. Na história, um desastre em uma usina nuclear, associado a outros fatores, fez com que boa parte das mulheres se tornassem inférteis.
Mães solteiras, ou mulheres divorciadas ou casadas com homens separados são sequestradas e transformadas em mães de aluguel dos comandantes do regime. São obrigadas a usarem um vestido vermelho, que as identifica, e uma aba branca, que limita a visão, da mesma forma que é feito com cavalos. Sua função é ter relações com os comandantes cujas esposas são estéreis. O fruto dessas relações será posteriormente criado pelo casal. Se conseguir gerar um filho, a aia estará livre de se tornar uma Não-mulher e ser mandada para as colônias para onde são enviadas as mulheres inférteis, os gays, pessoas ligadas à indústria pornô e outros. O principal trabalho dessas colônias é limpar material radioativo, de modo que poucos duram mais que três anos.
A protagonista é sequestrada enquanto tentava fugir com o marido e a filha – e boa parte da angústia do livro é ela não saber o que lhes aconteceu.
O horror, em O conto da aia, está nos detalhes. Apesar da rígida rotina, em que uma palavra errada ou um gesto equivocado pode levar mulheres para a tortura ou para as colônias, o que mais impressiona são os detalhes, os pequenos gestos que demonstram a que essas mulheres foram reduzidas.
Em determinado ponto da história, por exemplo, uma das aias consegue conceber uma criança. Todas as aias da região são levadas ao hospital, assim como todas as esposas de comandantes. As esposas seguem em um carro luxuoso, enquanto as aias seguem em uma caminhonete com bancos de madeira. No hospital, as esposas se regalam com um banquete comemorativo enquanto para as aias é servido suco em pó – e a protagonista se sente feliz porque alguém se lembrou de colocar um pouco de álcool na bebida. “Somos úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes”, diz ela à certa altura.
Outros detalhes são igualmente impactantes, em especial as pequenas coisas que antes a protagonista podia fazer e agora lhe são terminantemente proibidas, tornadas pecados, como poder falar quando quiser, usar sandália no verão, ler uma revista no consultório de um médico...
O livro mostra como essas mulheres, submetidas a uma forte doutrinação são dominadas pelo complexo de Estocolmo: em determinado ponto elas começam a achar que o modo de vida que lhes foi imposto é o mais seguro, elas começam a gostar da prisão nas quais foram aprisionadas. Quando, em determinado ponto, ela consegue folhear uma revista feminina, ela se repreende por não se sentir má ao fazê-lo.
É interessante notar como, na trama o que começou pequeno vai se alastrando. Quando o regime se instala, as pessoas ligadas à pornografia e prostituição simplesmente somem. A protagonista vai comprar cigarros, a moça da loja comenta o assunto e diz que se sente até mesmo aliviada com isso, afinal é apenas o pessoal que trabalha com pornografia. No dia seguinte, a moça não está mais lá. No começo, todas as pessoas ligadas a uma religião parecem não sofrer com o novo regime, mas logo quackers, batistas e católicos começam a se enforcados e pendurados no muro para que todos vejam o que acontece com que não segue a religião oficial. No começo, todos os casamentos religiosos são aceitos, mas logo qualquer mulher que não tenha se casado na religião oficial poderá ser sequestrada e transformada em uma aia. Ou seja: se o totalitarismo não for barrado logo no início, ele logo engole até mesmo aqueles que apoiaram inicialmente o regime ou se acharam isentos de sua intervenção.
Da mesma forma que 1984 foi essencial na época em que foi escrito, O conto da aia se torna fundamental, numa época em que começa a se delinear um novo tipo de totalitarismo. 

Sem professor, alunos da Zona Rural de Araripina não tiveram aula em 2016

Situação acontece em duas comunidades de Araripina. Secretaria afirmou que problema deverá ser resolvido este mês.
Cinco meses que foi iniciado o ano de 2016 e muitos estudantes já estão com todo o gás em muitas escolas no Sertão pernambucano. Mas esta realidade não pode ser aplicada aos alunos em duas comunidades da Zona Rural de Araripina, que, por falta de professores, as salas estão completamente vazias.
A situação acontece, por exemplo na Escola José Batista Modesto, na Comunidade de Serra da Torre. Na localidade, várias crianças estão sem aula. Como a pequena Eloá Rodrigues, de 5 anos. A mãe da menina, Maria Eunice Rodrigues diz que a sente falta das aulas. “Tem dia que ela até chora para vir pra aula e não tem professor. É preocupante demais. Eu queria professor na escola”, disse Maria Eunice. Leia mais

quinta-feira, fevereiro 21, 2019

A ideia que governa o mundo

Gottfried von Leibniz foi um dos maiores gênios do século XVII. Ele se movia com facilidade pela matemática, filosofia e direito. Além disso, ele se envolveu em projetos de prensa hidráulica, horticultura e construção de moinhos de vento. Mas Leibniz acalentava um projeto especial: criar uma enciclopédia que contivesse todos os conceitos humanos. Ele acreditava que, por mais que pudesse haver muitos conceitos complexos, a quantidade de conceitos simples deveria ser pequena. E, se existe um número finito de conceitos simples, deve haver no pensamento um princípio de organização, que orquestre o modo como são combinados. No final, o filósofo concluiu que existem apenas dois conceitos simples: Deus e o Nada. A partir desses dois, todos os outros poderiam ser construídos. Gottfried von Leibniz foi um dos maiores gênios do século XVII.

A idéia, que parece uma maluquice de um pensador que já deveria estar no hospício muito antes de formular seu sistema filosófico, é, na verdade, um dos mais úteis instrumentos da atualidade. Sem ela, nem eu estaria escrevendo este texto em um computador, nem você o estaria lendo pela internet. Os conceitos de Deus e Nada de Leibniz são a base do 0 e 1, a linguagem binária usada pelos computadores digitais. Toda informação que adentra um computador, por mais complexa que seja, é transformada em uma série de 0 e 1, ou Deus e Nada.

Leibniz foi, portanto, o avô do algoritmo, um sistema lógico que tornou possível os computadores. É a história da criação do algoritmos que David Berlinsk, professor norte-americano de lógica, conta em O Advento do Algoritmo.

O livro pode parecer um volume hermético, de interesse único dos viciados em matemática, lógica e computadores, mas não é. Berlinski tem uma linguagem simples e um jeito muito divertido de falar de coisas complicadas. Além disso, ele é um tanto poético, às vezes exageradamente poético. Ao falar da lógica aristotélica, ele se refere à decadência do Império romano da seguinte forma: "A cultura brilhante e única dos gregos antigos se exauriu quando o sol ainda brilhava. Os bárbaros começaram a vagar pelas margens rotas e esfarrapadas do Império Romano".

O livro tem momentos exclusivamente literários, como aquele sobre um homem que vendia sonhos, colocado ali para nos fazer ver que sonhar com a verdade pode ter um preço muito caro.

Um preço muito caro pagou o lógico inglês Alan Turing, que se suicidou comendo uma maçã envenenada.

Turing percebeu que muitas vezes seres humanos faziam trabalhos mecânicos, que podiam perfeitamente ser feitos por um computador e imaginou uma máquina capaz de realizá-los. Ele partiu da idéia de Leibniz, de que conceitos complexos podem ser expressos através de conceitos simples. Ou seja, todas as coisas poderiam ser expressas através de dois símbolos, 0 e 1. Ou melhor, um, pois o 0 é a ausência de símbolo.

O computador de Turing teria uma fita infinitamente longa dividida em quadrados. Teria também um mecanismo de leitura que poderia realizar três operações: 1) ler os símbolos nos quadrados; 2) mover-se pelos quadrados, de acordo com uma programação; 3) imprimir símbolos nos quadrados.

Um exemplo simples e, ao mesmo tempo, maravilhoso de utilização da máquina de Turing é a soma 1 + 1. O número 1 é expresso através de dois símbolos, 11. O espaço em branco representa o sinal de somatória. Assim, 1+1 seria expresso da seguinte maneira: 11 espaço 11. A seguir, basta dar uma programação à máquina.

A programação é a seguinte:

A leitura se move para a direita até encontrar um espaço vazio e, então, imprime 1.

Os sinais, que eram 11 11, ficam 11111.

A seguir ela se move novamente para a direita até encontra um espaço em branco, sinal de que agora ela deve se mover para a esquerda e, ao invés de imprimir, deve apagar os dois primeiros da esquerda e, então, parar. O símbolo resultante é 111, justamente o símbolo do número dois.

Simples e extremamente eficiente.

O método proposto por Turing permite que computadores possam processar qualquer informação usando apenas o Deus e o Nada.

Só por nos mostrar que idéia aparentemente sem nenhuma utilidade prática podem se tornar extremamente importantes (e, de certa forma, governar o mundo), o livro de Berlinski já valeria a pena. Como se isso não bastasse, a editora Globo fez um belo trabalho gráfico, com uma capa belíssima e uma encadernação de primeira. Dá gosto de ler.

Marketing: design


Uma das grandes pistas de qualidade é o design do produto. Nele são apresentados vários elementos que podem destacar o produto no ponto de venda, diferenciando-o de todos os outros.
A cor, por exemplo, é um elemento essencial. Um carro branco tem muito menos valor do que um carro de colorido metalizado. A cor aí está associada ao status.
Pense na cor dos detergentes, usados para lavar louça. Você já viu um da cor marrom? Provavelmente não, pois essa cor não passa a ideia de limpeza. Já a transparência está intimamente ligada à higiene.
Certa vez fizeram uma experiência para identificar os aspectos psicológicos relacionados à cor dos alimentos. Fizeram dois pudins de baunilha, mas colocaram corantes da cor marrom. Um deles recebeu pouco corante, o outro, bastante. Serviram essas sobremesas para um grupo de pessoas e perguntaram qual era o sabor. A resposta foi unânime: chocolate. Então perguntaram qual tinha sabor mais acentuado de chocolate. A resposta: aquele que estava mais escuro (pois tinha recebido mais anilina). A terceira pergunta pediu que o grupo identificasse o mais cremoso. A resposta: o que estava mais claro.
A cor pode ser usada para identificar o produto (o amarelo para a Maizena, o vermelho para a Coca-Cola, o azul para a Pepsi) ou para dar uma pista de qualidade (transparente, azul ou verde para produtos de limpeza).
As imagens constituem outro elemento importante do design. É comum ter fotos de pessoas que representam o público-alvo consumindo o produto ou fazendo atividades que demonstrem benefícios (a embalagem do Nescau Cereal costuma trazer pessoas praticando esportes).
Alguns cuidados são importantes na hora de escolher uma imagem para a embalagem. Os produtos alimentícios, por exemplo, apresentam fotos que provocam fome. A comida é fotografada de cima para baixo, da posição que a pessoa vê quando está comendo.
No caso de lingerie, as fotos nunca apresentam o rosto da modelo, para que a cliente possa “colocar seu rosto” ali, imaginando-se usando o produto.
Fotos e desenhos esquemáticos, geralmente no verso da embalagem, também ajudam o cliente a entender como usar o produto.
Outro elemento importante é a tipologia da embalagem. Uma letra gorda em um produto light estraga toda a embalagem. Assim, a escolha da tipologia é essencial para dar personalidade ao produto. Letras mais joviais podem ser usadas em produtos para jovens. Letras tradicionais em produtos cujo público seja conservador, ou que se queira dar um ar de sofisticação.
Existe uma certa ordem das palavras na embalagem. Primeiro, em destaque, vem o nome do produto. Depois vêm a designação do produtos e as informações complementares, que comunicam os atributos dele. Depois vêm os textos legais e obrigatórios, de acordo com a legislação.
A forma da embalagem é um elemento essencial para passar a personalidade do produto. Ela pode servir para diferenciá-lo, como aconteceu com a Coca-Cola, a aguardente Velho Barreiro e o queijo Polenguinho. Também é um ótimo elemento para destacar o produto no ponto de venda. O Nescau Cereal, quando surgiu, veio em uma embalagem grande, maior que a dos outros cereais, que era um verdadeiro outdoor no ponto de venda.

O que é uma barriga em roteiro?

Em roteiro, barriga significa encheção de linguiça, enrolação. É um termo usado quando o roteirista coloca situações que não contribuem em nada para a trama. Não é à toa que o termo técnico, em inglês, é filler, que significa enrolar.
Eu também chamo de labirinto narrativo, porque faz com que a trama fique rodando em círculos, sem seguir em frente.
Vamos imaginar a seguinte situação: uma moça briga com o namorado e resolve ir para a casa da mãe. Mas ela volta com o namorado. E volta para a casa dele. Mas depois briga de novo e volta para a casa da mãe. Nessa segunda ida à casa da mãe ela descobre uma caixa com segredos importantes sobre o passado da família.
A volta com o namorado foi uma tremenda barriga que só fez esticar a narrativa sem acrescentar nada à trama. O tempo que a moça ficou na casa da mãe a primeira vez e a volta à casa do namorado só fizeram a trama ficar andando em círculos, sem avançar.
Em quadrinhos de super-heróis esse é um erro comum. Provavelmente para colocar mais ação na revista, muitos roteiristas colocam os heróis enfrentando várias vezes o mesmo vilão. Se esses vários enfrentamentos não acrescentam nada à trama, são apenas barrigas.
Outro exemplo: o vilão que é derrotado e, de repente, usa poderes maiores do que havia exibido até então e consegue vencer o herói. Ou o contrário: o herói enfrenta várias vezes o vilão e no final o derrota demonstrando um poder que não havia usado antes. O leitor fica se perguntando: por que ele não usou esse poder antes? Resposta: porque o roteirista precisava encher linguiça! :)

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

Francisco Iwerten – biografia de uma lenda


Em 1997 a Gibiteca de Curitiba completava 15 anos e surgiu a ideia de fazer uma revista em comemoração à data, Metal Pesado Curitiba. Vários autores locais foram convidados e nove deles (incluindo eu) resolveram fazer uma história só, com um super-herói curitibano.
Assim surgia o Gralha. Para dar mais verossimilhança ao herói, inventamos que ele não era um personagem original, mas uma atualização de um herói clássico, surgido em Curitiba na década de 1940 e criado pelo pioneiro Francisco Iwerten. Eu escrevi um texto de apresentação, com a biografia de Iwerten e José Aguiar fez os desenhos usando como base o visual criado por Edson Kohatsu.
Na época não tínhamos a menor ideia do impacto que aquela única página teria sobre os quadrinhos nacionais.
As pessoas começaram a achar que Iwerten existia mesmo.
O Capitão Gralha começou a aparecer em cronologias de quadrinhos brasileiros, em matérias de jornais, em artigos de revistas. Iwerten chegou a ganhar um prêmio e quase foi tema de uma escola de samba.
Como quem conta um conto aumenta um ponto, a história foi ampliando, em especial com o surgimento da internet. No meu texto eu dizia que Iwerten visitara o estúdio de Bob Kane. Logo começaram a dizer que ele estagiária no estúdio de Bob Kane. Pouco tempo depois surgiu o boato deque ele havia criado o cinto de utilidades. Daí para dizerem que ele era o verdadeiro criador do Batman foi um pulo.
Em 2014 finalmente resolvemos contar, oficialmente que ele não existia (para uma plateia lotada e embasbacada na Gibicon de Curitiba).
Isso nos liberou para “brincar” com a mitologia do personagem – e um dos resultados disso foi o livro Francisco Iwerten, biografia de uma lenda, escrito por mim e por Antonio Eder com ilustrações e projeto gráfico de JJ Marreiro.
É um livro tipo vira-vira, com dois lados e duas capas.
Em um dos lados, Iwerten é tratado como criador e temos uma biografia fake do quadrinista: sua origem judaica, a paixão pelos quadrinhos, a viagem para os EUA, os primeiros esboços para o herói.
No outro lado, Iwerten aparece como personagem (com o desenho da capa mostrando-o sendo desenhado em um quadrinho). Neste lado é contada a história “verdadeira” do nascimento da lenda: o conto de Mark Twain que deu origem à ideia, a estratégia de matar Antonio Eder, que não deu certo, mas serviu de base para a história, e, principalmente, a repercussão do caso.
Foi um dos meus trabalhos mais divertidos. 

Os Simpsons também são arte

O artista David Barton faz brincadeiras com personagens dos Simpsons, pintando-os no estilo de pintures clássicos. O resultado é muito interessante.Confira abaixo alguns exemplos.No site de David é possível ver brincadeiras com outros ícones pops, como Darth Vader.
 

terça-feira, fevereiro 19, 2019

Banzé do oeste

Banzé no Oeste é um filme de Mel Brooks de 1974. É uma das obras indicadas no livro 1001 filmes para ver antes de morrer.
A trama é simples: ao saber que a ferrovia vai passar por uma cidade, o assistente do governador resolve usar bandidos para expulsar da cidade os seus moradores e tomar conta do local, vendendo o terreno a peso de ouro para a ferrovia. Mas os moradores da cidade mandam um telegrama ao governador, pedindo a ida de um xerife. Como forma de boicotá-los, ele manda um negro, que ia ser enforcado.
É, portanto, uma trama em que o humor se confunde com a crítica social, em especial o racismo.
O filme tem uma edição lenta, que prejudica o humor, especialmente no início, mas pega um ritmo bom do meio para a frente, com referências a desenhos animados e outros filmes. Particularmente boa a cena em que o político divulga que vai contratar os maiores fascínoras e, na fila, vemos nazistas e membros da Kun-Klus-Klan.
Banzé no oeste é o pai dos fílmes sátiras, como Apertem os cintos, o piloto sumiu e Pânico. Pena que nem todos os imitadores de Mel Brooks conseguem manter o seu nível de qualidade.

A experiência religiosa de Philip K. Dick, por Robert Crumb


Em 1974, o escritor de ficção-científica Philip K. Dick teve uma experiência mística em que se sentiu como uma pessoa que viveu no Império Romano, numa época em que os cristãos eram perseguidos. A experiência o marcou pelo resto da vida e pode ter sido responsável por sua morte. Se olharmos o episódio pela ótica da doutrina espírita, Dick teve um episódio de mediunidade. Robert Crumb, um dos maiores nomes do quadrinho underground americano, transformou em quadrinhos o relato do escritor. O resultado pode ser lido aqui.

Composto de produto: qualidade

Todo produto, para se tornar uma estrela de mercado, precisa de três elementos: qualidade, design e marca.
Todo profissional de marketing sabe que a qualidade de um produto é algo muito subjetivo. A diferença entre um suco e outro é de paladar, algo muito abstrato, que varia de pessoa para pessoa. Além disso, a maioria das pessoas simplesmente não tem condições de identificar a qualidade técnica dos produtos que compra.
Uma água mineral, por exemplo, teria como qualidade ser limpa de germes e ter os minerais que a fazem ser tão saudável. No entanto, quantos clientes são capazes de fazer testes para identificar esses fatores? Quantos motoristas conseguem avaliar a qualidade técnica dos carros que compram?
Qualidade, portanto, está diretamente associada à percepção. A Coca-Cola descobriu isso quando lançou a New Coke, cujo sabor era comprovadamente melhor que o da clássica e foi um fracasso de mercado.
A qualidade percebida, que o consumidor vê, é tão importante quanto a qualidade técnica. Por isso as empresas colocam pistas de qualidade em seus produtos.
Por exemplo, quando a Semp Toshiba ofereceu cinco anos de garantia, ela estava dando uma pista de qualidade. Ninguém compra um televisor pensando em usar a assistência técnica, mas a garantia de cinco anos é um indicativo de que não será necessário usar essa garantia.
Dizem que o imperador romano Júlio César abriu um inquérito ao desconfiar que sua mulher o estava traindo. Um amigo o abordou: "Mas, César, você sabe que sua mulher é fiel". "À mulher de César não basta ser fiel, tem de parecer fiel", respondeu ele. É possível que a história seja inventada, ainda mais levando em consideração os costumes sexuais liberais dos romanos, mas serve para demonstrar o conceito: um produto não só tem que ter qualidade, ele precisa aparentar qualidade.
Alguém já viu toalhas de hotel de cor escura? Elas são geralmente brancas, pois numa toalha branca a limpeza é visível. Se houver um mínimo de sujeira, o consumidor imediatamente identificará.
Entrar num restaurante e encontrar um banheiro sujo, imundo, é uma pista de falta de qualidade, e são poucos os consumidores conscientes que continuarão no estabelecimento, pois a falta de limpeza no banheiro provavelmente indica a falta de limpeza na cozinha.
Muitas empresas que trabalham com comida procuram tornar transparente a produção de seus produtos. É o caso do McDonald’s, cuja cozinha é aberta e fica visível aos clientes.
No supermercado, a transparência da embalagem, no caso do feijão, permite ver a qualidade do produto. É por isso, também, que as águas minerais são vendidas em embalagens transparentes ou azuladas (a cor azul é associada à limpeza).

Numa loja, uma vitrine bem trabalhada, com produtos novos e atraentes, é pista de qualidade que levará o consumidor a comprar. Ao contrário, uma vitrine com produtos velhos, amassados, fora de moda ou empoeirados é pista de falta de qualidade.  

As aventuras do pequeno Xuxulu


Secretário de educação do RJ admite que não tem vaga para todos os estudantes

Vinte mil estudantes aguardam por uma vaga na rede estadual de educação, de acordo com o próprio Governo do Estado do Rio de Janeiro. Em Campo Grande, na Zona Oeste da capital fluminense, o número de queixas foi tão grande que o Conselho Tutelar encaminhou uma denúncia para o Ministério Público.
“Você entra no sistema, fica em uma lista de espera e não anda de maneira nenhuma. Meu filho está em 248 no Albert, simplesmente a fila não anda. Faz o que com a criança que está em casa? É um direito da criança estudar”, protestou a depiladora Janaína Reis. Leia mais

segunda-feira, fevereiro 18, 2019

X-men vs Novos Titãs


No início da década de 1980 os gibis que mais vendiam, tanto na DC quanto na Marvel, eram dois azarões.
X-men estava para ser cancelada quando foi salva por Chris Claremont e se tornou um hit na fase Byrne - Claremont.
Os Novos Titãs, uma releitura da Turma Titã mudou completamente a forma como os parceiros mirins eram mostrados nos quadrinhos e angariou uma geração de fãs, tornando-se um sucesso duradouro.
Seria uma ótima ideia, portanto, juntar os dois grupos juvenis em um crossover Marvel – DC. Para realizar a tarefa foram escalados Chris Claremont (roteiro), Walter Simonson (desenhos) e Terry Austin (arte-final). A escolha de Simonson é estranha, uma vez que ele nunca desenhou nenhum dos dois grupos. Mas ele consegue dar conta do recado e se sai particularmente bem nas cenas espaciais ou grandiosas. O problema: é um desenho feito especificamente para ser lido em formato americano. No formatinho da Abril (a história foi publicada em Grandes encontros Marvel & DC 2) muita coisa se perde. Muitas vezes é impossível descobrir incluse qual é o personagem que está falando – e quando se trata de Chris Claremont, há sempre um personagem falando. Ou pensando. Ou pensando sobre os outros personagens. Ou pensando sobre o que os outros personagens estão pensando dele. Nesse sentido, o formatinho era uma benção, pois a adaptação diminuía bastante o texto de Claremont.
A trama mostra Darkside recolhendo os resíduos energéticos da Fênix para revivê-la. Funciona bem, embora Darkside não seja um inimigo do panteão dos Titãs.
Apesar dos problemas com o desenho no formatinho e o excesso de textos de Claremont, o resultado é uma história divertida, com um perigo real e versões dos personagens fieis a suas personalidades.  

Professor no Brasil ganha menos e trabalha mais que os de outros países

Saiu uma pesquisa internacional mostrando que o professor no Brasil ganha muito menos e trabalha mais do que em outros países. O resultado disso são professores desmotivados, o que reflete nos alunos que acabam abandonando a escola cedo demais.
Quem fica na profissão, muitas vezes é levado a trabalhar dobrado para complementar a renda. Os dados foram divulgados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE. Leia mais

domingo, fevereiro 17, 2019

Marketing: matriz de crescimento de produto


A matriz de crescimento apresenta quatro categorias de produtos: vaca-leiteira, ponto de interrogação, abacaxi e estrela. 
O produto vaca-leiteira é aquele que sustenta a empresa. Na fase de maturidade, ele dá grande lucro. É o caso da Coca-Cola.
O produto ponto de interrogação é um produto novo no mercado. É chamado assim porque não se sabe o que será dele. Pode se tornar um abacaxi ou uma estrela.
O produto abacaxi é aquele que foi um fiasco, um fracasso total de mercado, a ponto de precisar ser descontinuado. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a Fanta Maçã. O sabor do produto não agradou o consumidor e a empresa perdeu todo o investimento em marketing ao descontinuar sua produção.
O produto estrela é aquele produto novo que se torna a grande sensação do mercado. É o caso da Coca Zero. 

Por que razão uma empresa, tendo uma vaca-leiteira, se arriscaria a lançar um ponto de interrogação, um produto que pode se tornar um fracasso e gerar grande prejuízo? A resposta é: para não dar uma de Olivetti. Quando as máquinas de escrever, que tinham sido a vaca-leiteira da empresa por anos, entraram em decadência, a Olivetti não tinha nada para colocar no lugar. Resultado: ficou sem mercado. 

Calafrio 55 - Pesadelos

Calafrio é uma das mais longevas e clássicas revistas de terror já publicadas no Brasil. Editada por Rodolfo Zalla, angariou uma geração de fãs nas gerações de 1980 e 1990. Em 2015, um desses fãs, Daniel Sacks, resolveu trazer a revista de volta, continuando a numeração original. Eu havia colaborado com a fase clássica da publicação e fui convidado a enviar novos roteiros. Minha primeira colaboração com a revista nessa nova fase foi uma história sobre um professor atormentando por pesadelos que parecem cada vez mais reais. A história foi desenhada pelo Toninho Lima, que teve momentos brilhantes, como a página de abertura, em que a cena do pesadelo surge de um balão do personagem. 

sábado, fevereiro 16, 2019

O crítico (ou meu conto de Lobato)



Sérgio tinha um sonho: ser ator. Passava os dias modorrentamente numa repartição pública, remoendo essa frustração.

Já não bastasse o sonho não realizado, Sérgio ainda tinha de agüentar chacota dos colegas de repartição. A verdade é que era quase impossível ver aqueles homenzinho de testa larga, cabeça calva, sem esboçar um sorriso. Duas lentes garrafais pendiam de sua protuberância nazal, ocupando a maior parte do rosto, que por sinal afinava no queixo, dando impressão de que faltara massa ao conjunto. A barriga, enorme, era uma exibida e teimava em pular para fora da camisa. Seu andar tinha o rigor quacquacqueano dos patinhos na lagoa: barriga inclinada para a baixo e a região glútea inclinada para cima, com os pezinhos de menina se movimentando lá embaixo.

Já que não tinha coragem de realizar seu sonho, contentava-se em estragar os dos outros. Costumava dizer que era um crítico e estava ali para criticar.

- E criticava?

Desbundava. Nos debates, após as apresentações, bastava que ele abrisse a boca a pronunciasse o fatídico “Eu vejo erros!” para que os atores estremecessem.

Seu olhar de rancor conseguia encontrar erros mínimos, que passavam despercebidos para todos os outros. Sérgio eram também um profundo pensador e havia criado para si uma teoria de teatro tão flexível e ao mesmo tempo tão ortodoxa que lhe permitia criticar qualquer um, dos pobres atores de periferia aos grandes astros nacionais.

Ignora-lo era pior. Quando percebia que não estavam levando a sério suas críticas, entrava em pânico. Não era justo. Aquela era o único momento em que ele brilhava e não podiam, de forma alguma, tirar-lhe essa glória! Recomposto da mágoa, ele se levantava, deslizava seus pezinhos pelo salão, cortava a palavra dos outros, apontava nervosamente o dedo e gritava sua máxima:

_ Isso não é teatro! Vocês estão brincando de fazer teatro! Isso não é teatro!

Pronto! Estava feito. Agora era a Ursa Maior, brilhando intensamente por todo o teatro e cegando com sua luz todos os hereges que ousavam discordar dele. Para melhor efeito, ele se sentava de quando em quando, para, de repente, estourar no meio da frase de alguém:

- Isso não é teatro!

Tumultuar era-lhe uma delícia!

Um dia leu uma frase de Augusto Boal que o deixou particularmente preocupado: “Qualquer um pode fazer teatro, até mesmo os atores”.

Ora, se qualquer um podia fazer teatro, por que ele – justo ele! – não podia? Isso era especialmente irritante.

Nesse dia, Sérgio deslizou seus pezinhos pela repartição, coçando a cabeça e fazendo retângulos imaginários no chão. Pensou primeiro em diminuir a importância de Boal. Bastava para isso recorrer à sua infalível máxima: “Isso não é teatro!” e tudo estaria resolvido. Boal não fazia teatro, não sabia o que era teatro e, portanto, não podia ensinar nada a ele... bom... muito bom... mas nem tanto. Se Augusto Boal não fazia teatro, que fazia? Não, não convinha discordar dele... era famoso demais, respeitado demais... e, quem sabe, talvez Boal tivesse razão e qualquer um podia fazer teatro... até... ele!

Era isso! Ia tomar coragem e realizar seu sonho. Imaginou-se fulgurante no palco, olhando de cima os pobres espectadores, a quem só restaria assistir boquiabertos. Não havia dúvidas: seria um sucesso! Anos e anos de crítica teatral tinham lhe dado experiência o bastante para fazer o melhor espetáculo possível.

O problema era encontrar um grupo. Sérgio dizia que os que os que existiam estavam por demais viciados “pelos erros que se espalhavam como uma peste pelos espaços cênicos”. Não. Ele cortaria o mal pela raiz. Descobriria uma terra ainda virgem para plantar nela os frutos do que considerava o verdadeiro teatro.

A notícia se espalhou. Sérgio, o crítico, estava montando uma peça e a apresentaria à cidade para mostrar a todos o que era um teatro sério. Quanto ao elenco, alguém indicou-lhe um grupinho de colégio, repleto de fedelhos em fraudas.

Convence-los a se deixar dirigir foi moleza. Bastou alguns termos técnicos e uma conversa fiada sobre marcação e expressão corporal para que os pobres coitados tivessem que recolher o queixo do chão.

De posse da trupe, o grande dilema foi escolher a peça a ser encenada. Passou nisso um mês, matutando. Não descobriu, por fim, nenhum autor nacional que estivesse à sua altura. Não montaria nada menor que Shakespeare. Decidiu, então, montar Sonhos de uma noite de verão.

Sérgio nunca pensou que fosse tão difícil e desgastante montar uma peça. Os vinte uma atores dificilmente podiam ser reunidos num só dia; o dinheiro saía aos borbotões de seus bolsos para gastos que iam da passagem dos atores ao lanche que os miseráveis exigiam quando o ensaio se alongava.

O cenário, mandou-o fazer por um cenógrafo paulista de passagem pela terra. Mas acabou não gostando. Foi obrigado a pagar, entre ameaças de prisão e troca de gentilezas de ambas as partes. Jogou tudo fora e se concentrou na tarefa de produzir, ele mesmo, com ajuda de alguns carpinteiros, o cenário. Como não queria cair no mesmo erro da cenografia, desenhou pessoalmente a roupa de cada personagem, acompanhando passo a passo sua confecção.

Mais alguns gastos com pequenos detalhes, e secou a mina. Teve de pedir emprestado a amigos para cobrir a sonoplastia, a iluminação, o frete do caminhão que traria a cenografia... Para pagar a chamada na TV, foi obrigado a recorrer a uma agiota com jeito vampiresco que fazia antever um futuro preocupante.

Finalmente chegou o dia da estréia. Após um ano de árduos ensaios, de noites sem sono, de aborrecimentos sem fim, havia afinal chegado o grande dia.

O teatro lotou. Todos estavam curiosos para ver como seria a grande obra do crítico. Tratava-se de um momento histórico.

Tocaram as três sinetas e Sérgio, que tinha reservado para si o papel de Auberon, entrou. Parou no foco e olhou para a platéia. Então uma revolução começou a acontecer dentro dele, a começar pelas pernas, que bambearam de todo. Ele abriu a boca, gaguejou as primeiras palavras do texto, piscou seis vezes e caiu para trás, completamente fulminado de medo.

Virou mártir. Os amigos inventaram a história de que ele havia tido um ataque cardíaco durante o espetáculo e escreveram nos jornais, louvando a bravura daquele grande herói cênico, e explicando sua contribuição para o teatro regional, nacional e (quem sabe?) internacional. Seu nome foi cantando como de um campeão de Olimpíada, analisaram as possíveis contribuições de seu legado, o apnhado kitch da cenografia, o surrealismo do figurino...

Sérgio, curiosamente, nunca mais pisou num palco. O mais perto que chegava deles era nos debates, aos quais voltou com fúria redobrada:

- Isso não é teatro!

Cantiga de amigo


As cantigas de amigo foram as primeiras manifestações literárias (conhecidas) em língua portuguesa. São gostosas de ler por causa do ritmo, o que revela que provavelmente eram feitas para serem cantadas ou declamadas com música. Reproduzo abaixo um desses poemas, retirado do Cancioneiro de D. Diniz (com pequenas modificações para tornar mais fácil a compreensão):

Ai, flores de verde pino,
Se saberes nova de meu amigo?
Ai, Deus, e u é?

Ai flores, ai flores de verde ramo,
Se saberes novas de meu amado?
Ai, Deus, e u é?


Se saberes novas de meu amigo,
Aquele que mentiu do que combinou comigo?
Ai, Deus, e u é?


Se saberes novas de meu amado,
Aquele que mentiu do que me há jurado?
Ai, Deus, e u é?

Vós perguntastes pelo vosso amigo?
Eu bem vos digo que é são e vivo
Ai, Deus, e u é?

Vós perguntastes pelo vosso amado?
Eu bem vos digo e que vivo e são
Ai, Deus, e u é?

Eu bem vos digo que é são e vivo
E será vosso até o prazo expirado
Ai, Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é vivo e são
E estará convosco até o prazo passado.
Ai, Deus, e u é?