segunda-feira, fevereiro 28, 2022

Roteiro de quadrinhos: como formatar o roteiro

 


 

            Ao escrever um roteiro para quadrinhos, primeira coisa que você deve ter em mente é que um roteiro vai ser lido por alguém. Para ser mais exato, o seu roteiro será lido por um desenhista. E, creia-me, os desenhistas não costumam ser leitores vorazes. Assim, seu texto deverá ser objetivo. Eu disse objetivo, não seco.  Lembre-se, ele deve ser agradável. Se for possível contar uma piadinha que esclareça o quadro, conte. Se você tiver um objetivo com o quadro, coloque isso no roteiro. Se você quer que o quadro lembre uma obra famosa da pintura, não pode esperar que o desenhista advinhe isso.

Toda informação é importante para esclarecer o desenhista quanto ao caminho que ele deverá seguir.

Dito isso, passemos ao roteiro em si.

O essencial nesse tipo de coisa é que deverá haver uma parte destinada à descrição do quadro, e uma parte destinada ao texto e aos diálogos. Você pode fazer o roteiro em T: pegue uma folha de papel, divida-a no meio e coloque, do lado esquerdo, as descrições, e do lado direito as falas dos personagens, além da narrativa.

Pessoalmente não gosto do roteiro em T porque ele limita muito a ação do roteirista. Nele, cada página datilografada corresponde a uma página de desenho. Mas há situações em que você precisa de mais de uma página para descrever um painel. Já vi um roteiro do Alan Moore em que ele usa mais de uma página de texto para descrever um único quadro.

Outro problema do roteiro em T é que ele é um pouco complicado de fazer no computador, a não ser que você esteja usando o Page Maker, o que eu não aconselho, pois esse programa foi feito para diagramação e não para digitação. No word é muito difícil conseguir manter a página dividida ao meio e deixar cada texto ao lado da sua descrição correspondente.

O roteiro corrido é muito mais fácil de fazer no computador. Ele se parece com um roteiro de teatro, ou de cinema (o roteiro em T é muito usado na televisão).

Nele você vai simplesmente descrevendo as cenas, e, abaixo, coloca o texto correspondente. Você deve começar pelo título, seu nome, a página, e depois a descrição dos quadrinhos. Quando mudar a página, a numeração dos quadrinhos volta ao 1.

Veja um exemplo:

 

O Livro dos Dias

Roteiro de Gian Danton

Página 1

Quadro 1 - Quadro grande, de ambientação. Vemos um cavaleiro cavalgando sobre um campo florido. É um cavaleiro medieval, mas com uma série de modificações que o identificam como sendo a versão marciana de um cavaleiro medieval. Atrás dele há um céu bonito e montanhas ainda mais belas. O cavaleiro segue confiante com sua lança e espada. Detalhe: o cavalo sobre o qual ele está também é uma versão marciana de um cavalo.

Texto: Sobre as pradarias de Marte, o cavaleiro segue em direção ao seu destino.

Texto: Ao longe, um iog suspira modorrentamente. Ele permanecerá ali até que o sol se ponha. Então voltará para sua toca e dormirá durante toda a noite.

Cavaleiro: Saudades de minha linda Beatriz!

Quadro 2 - Quadro menor. Uma vista de cima do cavaleiro e seu cavalo.

Texto: Ele não conseguiria imaginar alguém que rivalizasse com ela em virtudes: Beatriz é bela, ingênua e caridosa.

Texto: Axel prometeu protegê-la.

Quadro 3 – O cavaleiro agora é mostrado de lado.

Texto: Beatriz está presa na cidade de Dju'liet B'noch e o cavaleiro teme por sua honra.

Texto: No memorável dia em que se ordenou cavaleiro, ele prometeu proteger todas as mulheres...

Quadro 4 – Em primeiro plano temos o lagarto Iog e o cavaleiro está em segundo plano, afastando-se de nós.

Texto: ...pois sabe que elas são o signo da perfeição, introduzidas por Deus no mundo para que se tenha um vislumbre do que será o paraíso.

 

Página 2

Quadro 1 - O cavaleiro atravessando os portões de uma cidade.

Texto: Axel atravessa os portões da cidade e o que vê faz com que ele duvide de suas convicções.

Texto: Há mulheres ali, mas mulheres fúteis, incapazes de se preocupar com algo que não seja a fofoca do dia.

Quadro 2 - O cavaleiro agora está percorrendo uma das ruas da cidade.

Texto: No alto de uma torre, uma mulher gorda joga uma panela sobre o marido, chamando-o de imprestável.

Texto: O cavaleiro treme. Mas não. Perigos terríveis o esperam.

 

Como você pode perceber, é especificada a página, o quadro, e só então se começa a descrição da cena. A seguir é apresentado o texto (aquilo que fica naqueles balões quadrados) e os diálogos.

Atenção: em cada fala o roteirista deve identificar quem está falando. Lembre-se, quadrinho não é literatura.

 

Não faça coisas dos tipo:

 

Quadro 2 – João e Maria estão andando na rua.

- Que dor de cabeça!

 

            Quem está falando? Maria ou João? Aposto que você não consegue advinhar. O mesmo ocorre com o desenhista. Antes do diálogo, coloque o nome do personagem, assim:

 

            Quadro 2 – João e Maria estão andando na rua.

            João: Que dor de cabeça!

 

            Agora sim, sabemos que autor da frase é João. Se Maria também tivesse uma fala no quadro, deveríamos antepor ao texto o nome de Maria.

            A mesma coisa acontece com o texto. Se for um texto, e não diálogo, coloque isso no roteiro.

            Não faça assim:

 

            Quadro 3 – João e Maria ainda estão andando na rua.

            - João está com dor de cabeça.

           

            O que é isso? O desenhista, provavelmente, vai achar que se trata de uma fala de Maria, e vai tascar-lhe um balão.

            O correto é assim:

 

            Quadro 3 – João e Maria ainda estão andando na rua.

            Texto: João está com dor de cabeça.

 

            Sempre, quando estiver escrevendo o roteiro, pense nele, visualize-o . Imagine a página pronta, desenhada, ou então faça um esboço da página. Isso vai evitar que você coloque coisa impossíveis de serem desenhadas. Devem ser especialmente evitadas aquelas descrições que incluem mais de uma ação. Tipo:

 

Página 1

Quadro 1 – João levanta da cadeira na sala e pega um copo na cozinha.

Quadro 2 – João abre a geladeira, coloca suco nos copos e traz de volta à sala e oferece para o visitantes.

 

            Esse pequeno trecho inclui uma série de ações. Primeiro temos João levantando. Depois ele está andando até a cozinha. Ele chega à cozinha. Ele pega um copo no armário. Ele abre a geladeira. Ele pega o suco. Ele coloca o suco no copo. Ele sai da cozinha com o copo de suco. Finalmente, ele oferece o suco ao visitante.

São muitas ações para dois quadros apenas, não é mesmo? Diante de uma situação dessas, o desenhista se vê diante de duas possibilidades. Ou ele quebra as várias ações em vários quadros, fazendo com que o número de páginas de sua história aumente, ou ele simplesmente corta ações, deixando-as subtendidas.

Assim, ele mostra João se levantando. No quadro seguinte ele já está na cozinha, abrindo a porta da geladeira. A ação de andar até a cozinha e abrir a geladeira fica subtendida, e o leitor apenas advinha que ela existiu.

Em todo caso, só um bom desenhista faria isso. A maioria ia tentar seguir seu roteiro à risca e então teríamos um personagem clone do homem-borracha: ele está levantando da cadeira, mas seus braços já se esticaram para a cozinha e estão, um abrindo a porta da geladeira e o outro pegando um copo. Já imaginou isso desenhado? Ia ficar horrível, não é mesmo?

Livro Hiper-realidade e simulacro nos quadrinhos

 

Vivemos em um mundo hiper-real, em que ficção e fato se misturam. É um mundo de simulacros, de símbolos que existem por si só, sem nenhum referencial. Na arte esse fenômeno se refletiu na forma de obras que confudem real e ficcional. É a verossimilhança hiper-real: obras tão críveis que muitas pessoas acreditam que são reais. 
No livro Hiper-realidade e simulacro nos quadrinhos - a fantástica história de Francisco Iwerten, eu analiso esse fenômeno a partir de um fato específico: o quadrinista fake Francisco Iwerten e seu personagem, o herói Capitão Gralha. Durante 18 anos acreditou-se que Iwerten existia e ele chegou até mesmo a ganhar prêmios. 
Quer conhecer melhor essa história e entender o que é o mundo hiper-real? 
O livro está sendo disponibilizado de graça no site da Marca de Fantasia.  Para baixar, clique aqui

Verossimilhança hiper-real na revista Cajueiro

 


Meu artigo Verossimilhança hiper-real nos quadrinhos de Alan Moore foi publicado na revista Cajueiro. No artigo, eu analiso uma estratégia, usada por Alan Moore, para fazer com que seus quadrinhos pareçam reais a ponto de alguns leitores acreditarem que aquilo que é narrado aconteceu mesmo. Alguns exemplos: os anexos de Watchmen e a série 1963, que emula perfeitamente as revistas da Marvel na década de 1960.

Para acessar os artigos, clique no link:https://seer.ufs.br/index.php/Cajueiro/issue/view/1023 

O que é uma teoria?

 


É comum ouvir dos detratores da teoria da evolução a frase: "A evolução é apenas uma teoria". Com isso eles querem dizer que a teoria da evolução não é científica, ou é apenas imaginação, ou ainda que é falsa.
Mas o que é uma teoria? Para entender o que é uma teoria é importante entender o que é o método científico. Atualmente um dos guias mais aceitos pela ciência é o hipotético-dedutivo, de Karl Popper. Popper dizia que só é ciência aquilo que pode ser falseável, aquilo que passa pelo teste do falseamento.
O cientista faz uma hipótese qualquer (Todos os cisnes são brancos, por exemplo) e vai a campo testar essa hipótese, procurando provas de que ela é falsa .
Se a hipótese sobrevive a esse teste de falseamento, ela deixa de ser uma hipótese e torna-se uma teoria. Isso significa que aquele conhecimento é para sempre, que uma teoria é uma verdade eterna e incontestável? Não.
Em ciência, nada é para sempre. O que é verdade hoje, pode ser falseado amanhã. Mesmo uma teoria que tenha sobrevivido durante séculos, pode cair diante de um novo dado.
Em outras palavras: na ciência TUDO É TEORIA. Mesmo as chamadas leis, fenômenos regulares que parecem mais do que comprovados (como a gravitação) podem um dia ser falseados (quem sabe um dia descobrimos uma parte do universo que nos mostre que a explicação de Newton estava errada?).
Essa é a diferença entre ciência e religião: a religião trata de um conhecimento eterno, imutável, incontestável, baseado essencialmente na fé. Quem acredita que o universo foi criado por deus em seis dias vai morrer acreditando nisso. Religião não precisa de observação empírica. Você não precisa ver Deus para acreditar em Deus. Ninguém diz: "Ah, claro, eu acredito em Deus. Ontem mesmo encontrei com ele no ônibus".
Já a ciência trata de um conhecimento transitório, mutável, contestável, baseado na observação. Ou seja: a ciência muda o tempo todo. O que é verdade hoje, pode não ser verdade amanhã de acordo com novas observações.
Então: sim, a evolução é apenas uma teoria. Da mesma forma que a teoria dos jogos, que a teoria do caos, que a teoria da gravitação universal. Se você quer ciência, aceite que tudo é teoria, transitório, contestável. Se quiser verdades universais, busque a religião.

Rom – o cavaleiro espacial

 


Bill Mantlo era um especialista em transformar brinquedos toscos em quadrinhos de sucesso. Fez isso com os Micronautas e fez isso com um brinquedo ainda mais tosco, ROM, o cavaleiro espacial. Consta que o filho pediu o brinquedo de presente e, quando viu o robô, Mantlo pensou que poderia dar uma boa HQ.

O resultado foi uma lenda dos quadrinhos, com 75 edições publicadas e participação em muitos especiais. Grande parte do apelo do título estava na mitologia criada ao redor do personagem, mitologia que já estava presente no primeiro número, publicado em 1979.

O boneco era realmente tosco. 


Esse primeiro número (com um desenho de Sal Buscema muito mais detalhista do que o normal), mostrava logo de cara o cavaleiro espacial chegando à Terra numa imagem empolgante e grandiosa, com rochas partidas à sua volta, fogo e efeitos visuais. Uma imagem que, embora reproduzisse o robô vendido pela empresa parker Brothers, não se parecia em nada com o esquelético e tosco bonequinho.

Logo em seguida, o personagem vai parar numa rodovia, onde quase é atropelado por um carro, que se desvia dele e vai cair no abismo, sendo salvo pelo herói. Ali estava uma personagem, Brandy Clark, que faria parte do panteão de personagens secundários da série.

A primeira imagem do personagem nos quadrinhos é uma bela cena de impacto. 


A sequência seguinte mostra Rom chegando numa cidadezinha, onde ele usa seu analisador para identificar os espectros e o neutralizador para enviá-los para o limbo. Mas para quem está assistindo, a cena representa apenas um alienígena invadindo a cidade e matando cidadãos. Essa percepção é simbolizada no filme em cartaz no cinema: “A criatura do espaço”.

Os espectros, claro, aproveitam a situação para chamar o exército dos Estados Unidos na tentativa de conter o cavaleiro espacial.

Para quem estava vendo, a cena mostrava um alienígenas matando humanos. 


É essa aspecto, de herói incompreendido, que fará com que a versão quadrinística de Rom faça tanto sucesso. Como um típico herói Marvel, ele parece mais uma ameaça que um herói.  

Lembranças de Carnaval

 


Todo mundo tem agradáveis lembranças dos carnavais passados: 

- Ah aquele carnaval de 1930, em Petrópolis... Se não fosse a artrite, eu saía de madrinha da bateria este ano... 

- Aí teve aquela loira que... não, a loira foi depois da morena... ou será que era ruiva? Nunca bebi tanto em minha vida... 

É, carnaval sempre traz boas lembranças para todos e eu não seria exceção. Foi durante um carnaval que fui assaltado pela primeira vez...

Era Quarta-feira de cinzas e eu, por alguma razão desconhecida, resolvi devolver um livro na biblioteca. Eu sei, eu sei. Bibliotecas não funcionam na Quarta-feira de cinzas, mas como eu poderia saber? 

Diante da porta fechada, só me restou voltar para a parada e esperar o ônibus. Foi quando aconteceu o assalto. 

Se eu tivesse sido avisado, teria me vestido adequadamente para a situação, mas os dois ladrões não tiveram essa preocupação. Acho que não eram pessoas muito educadas. 

Um deles segurava uma faca e tinha olhos tão vermelhos que eu poderia jurar ter ele mais sangue na cabeça que no corpo todo. Isso, em tese, o faria mais inteligente, mas estou cada vez mais convencido que as teorias não funcionam na prática. Tanto que ele só conseguia dizer: 

- Passa, passa logo! 

- Passa o quê? A carteira? 

- Não, o negócio... 

Ele decididamente não sabia o que queria. Depois de um longo diálogo surrealista, consegui advinhar que ele cobiçava meu relógio. Fiquei indignado! Logo no meu primeiro assalto e o ladrão se interessava apenas por um relógio mixuruca? Resolvi não colaborar. 

Enquanto isso, o outro cavalheiro, armado com um revólver, rendia um taxista. 

- Me dá o relógio! 

- Não dou! 

- Vai dar sim! 

- Não mesmo! 

- Vocês podem apressar isso aí? – gritou o outro, já dentro do taxi. 

O assaltante resolveu apelar. Apontou a faca para o meu pescoço e perguntou: 

- Você quer morrer? 

Enquanto eu pensava no assunto, ele pegou o relógio e saiu correndo. 

Essa foi a primeira vez que fui assaltado. A segunda foi na véspera de natal. A terceira no ano novo... 

Tudo isso me levou a desenvolver um gosto especial por ficar em casa nos dias festivos... 

A cor que caiu do espaço

 


Lovecraft considerava A cor que caiu do espaço como uma de suas melhores obras. Não é por menos: essa novela é um exemplo perfeito de tudo que o autor considerava como ideal em uma história de terror. Segundo ele, tudo que o conto fantástico almeja é pintar, de maneira séria, “o retrato convincente de um determinado sentimento humano”. Segundo ele, a atmosfera, e não a ação, é o que deve ser cultivado no conto maravilhoso.
Em A cor que caiu do espaço, um meteorito cai numa fazenda de onde saem pequenas luzes indefiniveis. Com o tempo o local passa a ser dominado por uma estranha presença, que enlouquece os humanos, envenena as plantas e mata os animais. 
A história é narrada por um engenheiro que vai fazer observação para a construção de uma barragem que irá inundar o local. Ele ouve a narrativa da boca de um vizinho do local onde caiu o meteorito.
É uma construção lenta de ambientação, com os fatos, que inicialmente parecem inofensivos, se acumulado para criar uma a sensação de terror. Lovecraft abusa das descrições que não dizem nada (nos nunca sabemos como eram as tais cores) mas ajudam a criar o clima de estranhamento, uma atmosfera de terror. Mesmo em momentos mais narrativos o objetivo do autor parece ser muito mais criar uma ambientação do que descrever os fatos. Um exemplo: “em um instante febril e caldedoiscópico irrompeu da fazenda condenada e maldita um cataclismo eruptivo de centelhas e substâncias sobrenaturais, que ofuscou a visão dos presentes e lançou em direção ao zênite uma nuvem explosiva de fragmentos coloridos e fantásticos renegados pelo universo que conhecemos”.
Essa história foi publicada em formato de bolso pela editora Hedra em 2011. O volume inclui também dois textos autobiográficos de Lovecraft e um texto sobre a ficção interplanetária.

domingo, fevereiro 27, 2022

Fundo do baú: Os Trapalhões

 

Os Trapalhões foi um grupo humorístico brasileiro que obteve sucesso na televisão e no cinema desde meados da década de 1960 até por volta de 1990. O grupo era composto por Didi Mocó (Renato Aragão), Dedé Santana, Mussum e Zacarias.
A formação mais conhecida ficou famosa em um programa que estreou na rede Globo em 1977 e durante anos foi a maior audiência do horário.
Os Trapalhões entrou para o Livro Guinness de Recordes Mundiais como o programa humorístico de maior duração da televisão, com trinta anos de exibição.
Curiosidades:
O primeiro filme d'Os Trapalhões, Na Onda do Iê-Iê-Iê (1965), contava apenas com a dupla Didi e Dedé.
O primeiro filme do quarteto clássico foi Os Trapalhões na Guerra dos Planetas. Sete destes filmes estão na lista das dez maiores bilheterias do cinema brasileiro.
- Os trapalhões também saíram em gibi, publicado pela editora Bloch produzidas pelo estúdio Ely Barbosa cujos melhores momentos eram sátiras de filmes e de super-heróis.
Renato Aragão conta que temia levar o programa para a Globo. Afinal, na Tupi, ele tinha toda a liberdade para ser irreverente o quanto quisesse. A Globo era conhecida pelo seu padrão de qualidade, e o humorista não tinha certeza se os Trapalhões se encaixariam nele. Para não ter que recusar formalmente a proposta, ele chegou a fazer uma lista de exigências de três páginas na qual determinava quais seriam o diretor, redator e o horário do programa. Para sua surpresa, Boni aceitou sem questionamentos as exigências. Os Trapalhões mudaram, então, de emissora.
Bordões:
Mussum: Cacildis! Forevis!  “Criôlo é a tua véia!”, “Ui, ui, uuui!”, “Eu vou me pirulitar!”, “Glacinha (gracinha)!”, “Casa, comida, três milhão por mês, fora o bafo!”
Didi: Não fui eu! Eu nem sabia que ela era casada! É fria! Ô da poltrona!
Zacarias:  “Eu não sei falar tática, eu só sei falar tatica”; “Só brinco em serviço”.

A maldição de Lafey

 

O roteiro de quadrinhos Matheus Moura ficou perplexo quando ouviu a música Abgail, de Kig Diamond. A história da maldição narrada pela voz performática do cantor dinarmaquês o perseguiu durante anos, até que ele resolveu adaptar para quadrinhos a história. O projeto, iniciado em 2006, só foi concluído em 2016. O resultado é o álbum A maldição de Lafey, publicado em 2017 pela editora Reverso.
O álbum é uma união de vários acertos, a começar pela decisão de colocar uma margem negra em volta dos quadros (que não existiam na versão original). Isso ajudou a destacar o tom sinistro da história. A capa, de Fábio Cobiaco e a contracapa, de Cláudio Dutra também são ótimas, embora muito diferentes: a de Cobiaco trabalha mais com a sugestão, enquanto a  de Cláudio Dutra é totalmente explícita, trazendo em si a maioria dos elementos da história. O formato é outro acerto: nem grande, nem pequeno, ele valoriza a arte e, ao mesmo tempo, torna agradável a leitura.
Adaptar uma música não é trabalho fácil. Afinal, uma música não é apenas a letra: há toda uma ambientação sonora que ajuda a contar a história, que lhe dá o clima (aconselho aos que não conhecem o trabalho de King Diamond ouvirem a música Abgail antes de lerem a história). Ainda assim, Matheus Moura e Angelo Ron se saem muito bem. Um problema é o grande hiato de tempo de produção entre a primeira e a segunda parte da história, que sem dúvida se refletiu na arte, mas isso é comum em produções desse tipo.
A maldição de Lafey parece um daqueles deliciosos filmes de terror trash das décadas de 1960 e 1970 e certamente vai agradar aos fãs de horror. 

Francisco Iwerten – biografia de uma lenda

 


Em 1997 a Gibiteca de Curitiba completava 15 anos e surgiu a ideia de fazer uma revista em comemoração à data, Metal Pesado Curitiba. Vários autores locais foram convidados e nove deles (incluindo eu) resolveram fazer uma história só, com um super-herói curitibano.
Assim surgia o Gralha. Para dar mais verossimilhança ao herói, inventamos que ele não era um personagem original, mas uma atualização de um herói clássico, surgido em Curitiba na década de 1940 e criado pelo pioneiro Francisco Iwerten. Eu escrevi um texto de apresentação, com a biografia de Iwerten e José Aguiar fez os desenhos usando como base o visual criado por Edson Kohatsu.
Na época não tínhamos a menor ideia do impacto que aquela única página teria sobre os quadrinhos nacionais.
As pessoas começaram a achar que Iwerten existia mesmo.
O Capitão Gralha começou a aparecer em cronologias de quadrinhos brasileiros, em matérias de jornais, em artigos de revistas. Iwerten chegou a ganhar um prêmio e quase foi tema de uma escola de samba.
Como quem conta um conto aumenta um ponto, a história foi ampliando, em especial com o surgimento da internet. No meu texto eu dizia que Iwerten visitara o estúdio de Bob Kane. Logo começaram a dizer que ele estagiária no estúdio de Bob Kane. Pouco tempo depois surgiu o boato deque ele havia criado o cinto de utilidades. Daí para dizerem que ele era o verdadeiro criador do Batman foi um pulo.
Em 2014 finalmente resolvemos contar, oficialmente que ele não existia (para uma plateia lotada e embasbacada na Gibicon de Curitiba).
Isso nos liberou para “brincar” com a mitologia do personagem – e um dos resultados disso foi o livro Francisco Iwerten, biografia de uma lenda, escrito por mim e por Antonio Eder com ilustrações e projeto gráfico de JJ Marreiro.
É um livro tipo vira-vira, com dois lados e duas capas.
Em um dos lados, Iwerten é tratado como criador e temos uma biografia fake do quadrinista: sua origem judaica, a paixão pelos quadrinhos, a viagem para os EUA, os primeiros esboços para o herói.
No outro lado, Iwerten aparece como personagem (com o desenho da capa mostrando-o sendo desenhado em um quadrinho). Neste lado é contada a história “verdadeira” do nascimento da lenda: o conto de Mark Twain que deu origem à ideia, a estratégia de matar Antonio Eder, que não deu certo, mas serviu de base para a história, e, principalmente, a repercussão do caso.
Foi um dos meus trabalhos mais divertidos. 

Monstro do Pântano – A saga do Fuça radioativa

 


A partir do momento em que assumiu o título do Monstro do Pântano, Alan Moore o transformou num dos mais revolucionários do mercado dos comics. Inclusive sua reformulação do personagem, mostrando-o como uma planta e não como um ser humano.

Mas o ponto de virada que mostrou que o título estava anos luz a frente de outros do mercado foi a saga do Fuça radioativa, publicada nos número 35 e 36.

Moore construiu a trama em torno dos perigos do lixo nuclear – e a pesquisa feita por ele aparece na história na forma de recortes de jornais sobre o assunto, que surgem das mais variadas formas na HQ.

Um mendigo que bebe resíduos radioativos é o vilão da história. 


A história mostra um mendigo, o tal Fuça Radioativa, que se refugiava nas cavernas de carvão desativadas da Pensilvania. Quando o local passa a ser usado para guardar lixo nuclear, ele começa a abrir os tonéis para beber o líquido e sobrevive, mas torna-se uma ameaça involuntária.

A história começa com ele conversando com um homem que foi expulso da pensão onde morava. Ele lhe oferece a bebida. O resultado, claro, é a morte do homem. No final da história, ele encontra com o Monstro do Pântano e, acreditando que ainda fala com o antigo companheiro, não só toca nele (o que provoca uma ferida radioativa na vegetação que compõe o corpo do herói), como ainda o faz beber o líquido. Isso fará com que o personagem morra.

A morte do personagem provocou grandes mudanças no título. 


Essa primeira parte já valeria a pena por si só, mas o grande destaque vai para a segunda parte.

Numa narrativa que Moore diz ter emprestado de Gabriel Garcia Marques, Moore mostra os mesmos fatos do ponto de vista dos diversos personagens envolvidos na história: o xerife, a dona da pensão, o garoto que viu o monstro radioativo e o apelidou de fuça radioativa.

A história é narrada por diversos personagens, como um quebra-cabeça que deve ser montado pelo leitor.


Mas a parte central são as narrações de Wallace Monroe, funcionário da empresa nuclear, e Theasure, sua esposa grávida. A versão de Wallace o mostra encucado com a possibilidade dos acontecimentos da Pensivania se repetirem na Flórida. Ele sai para tentar esquecer o assunto, penetra no pântano, se perde ali, volta para o hotel e descobre que a esposa desapareceu. Quando finalmente a encontra, foge dela (“Não suporto mais encarar o seu olhar. Dou meia volta e começo a corerr... já sabendo que não devo parar nunca”). Só iremos entender a razão desse comportamento quando lemos a versão da esposa.

A história, assim, é configurada como quebra-cabeças cujas peças precisamos juntar para entender o conjunto.

Não bastasse esse aspecto revolucionário da forma, a história também marcaria uma mudança definitiva nos rumos e até nos poderes do personagem.

Escola sem partido e o projeto de poder da bancada evangélica

 

É interessante notar como o projeto Escola sem partido está diretamente ligado ao projeto de poder da bancada evangélica. Exemplo disso é uma vitória da bancada evangélica: a aprovação da doutrinação religiosa nas escolas, aprovada pelo supremo e aplaudida pelos defensores do projeto. 
Esclarecendo: não estamos falando de educação religiosa: estamos falando de doutrinação religiosa. O professor pode passar os 50 minutos da aula dizendo que a religião evangélica é a única verdade as outras são do demônio. E isso recebeu aplausos da página do Escola sem partido sob o argumento de que a presença na disciplina não é obrigatória. Como tudo no Escola sem partido, a coisa é muito bem pensada: todos sabem que não existe opção de disciplina e aluno não pode ficar no corredor. No final, todos os alunos são obrigados a assistir a aula de doutrinação religiosa. 
O crescimento da comunidade evangélica é vertiginoso e a bancada evangélica já é a segunda maior bancada do congresso, sendo superada apenas pelo MDB e seu objetivo é usar a escola para aumentar ainda mais esse poder e seu rebanho. 
Lendo o projeto, percebe-se claramente que o objetivo é difundir o criacionismo e a visão evangélica de mundo, transformando as escolas em locais de doutrinação religiosa e proibindo ensinar o qualquer conteúdo que vá contra seus dogmas.
Vejam o artigo terceiro: 

"Art. 3º. São vedadas, em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica BEM COMO A VEICULAÇÃO DE CONTEÚDOS OU A REALIZAÇÃO DE ATIVIDADES QUE POSSAM ESTAR EM CONFLITO COM AS CONVICÇÕES RELIGIOSAS OU MORAIS DOS PAIS OU RESPONSÁVEIS PELOS ESTUDANTES".
Leiam a parte em destaque. O professor fica proibido de veicular qualquer conteúdo ou realizar qualquer atividade que vá contra as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis. 
Recentemente, em Manaus, alunos evangélicos se recusaram a fazer um trabalho sobre a África e ler clássicos como Iracema e Macunaína alegando convicções religiosas. Se a lei já estivesse em vigor, a situação se enquadraria perfeitamente na veiculação de conteúdos e atividades que entram em conflito com as convicções religiosas dos alunos. 
No site da Escola sem partido há um modelo de notificação extra-judicial que pode ser usada pelos pais para ameaçar professores. No item 15 é dito que até conteúdos científicos (aqui provavelmente se referindo às ciências chamadas "duras", como física, biologia etc) deve-se tomar o máximo de cuidado para não desagradar pais de alunos: 

"15.    Nesse domínio, ademais, a linha que separa a ciência da moral, além de não ser muito nítida, pode variar de indivíduo para indivíduo, conforme o estágio de amadurecimento, a sensibilidade e a formação de cada um. Portanto, ATÉ MESMO PARA FAZER UMA ABORDAGEM ESTRITAMENTE CIENTÍFICA, O PROFESSOR DEVERÁ ATUAR COM O MÁXIMO DE CUIDADO, SOB PENA DE DESRESPEITAR O DIREITO DOS ESTUDANTES E O DE SEUS PAIS."
Na mesma notificação extra-judicial, os professores que fizerem ou abordarem qualquer assunto que desagrade os pais são chamados de "abusadores de crianças" e ameaçados com prisão, demissão e perda dos bens: 
"9.    Junto com a liberdade e o cargo ou emprego, esses abusadores de crianças e adolescentes podem perder ainda o seu patrimônio, caso os pais dos seus alunos ‒ que são muitos ‒ decidam processá-los por danos morais". 
Em outras palavras: no futuro da escola sem partido, um professor poderá ser preso, demitido e até perder os bens apenas porque mandou um aluno ler livros como Iracema ou ensinou teoria da evolução. 
Além dos péssimos salários, das escolas sucateadas, agora mais essa para os professores: a constante ameaça de demissão, prisão e perda dos bens por terem feito ou ensinado algo que desagradou os pais. 

Ps: Vale lembrar que o projeto permite uma brecha que foi aproveitada pelo próprio autor da PL: político pode fazer campanha política em escolas. Leia aqui a matéria. 

A inteligência dos golfinhos

 


Durante muitos anos os seres humanos carregaram consigo a ilusão de que eram a única espécie inteligente do planeta. Os achados da ciência têm demonstrado que animais marinhos, como golfinhos e baleias podem ter uma inteligência diferente da nossa, mas ainda assim brilhante.
A descoberta mais recente foi de que os golfinhos chamam uns aos outros por nomes próprios. Cientistas da Universidade de St. Andrews, na Escócia, gravaram os chamados dos golfinhos e alteraram o timbre por computador. Depois colocaram o chamado na água emitindo o chamado. Dos 14 animais pesquisados, 9 responderam ao chamado. Isso siginfica que eles reconhecem não só o timbre da mensagem, mas também seu conteúdo, no caso, seu nome.
Uma pesquisa anterior, de 2001, realizada na Universidade Columbia, nos EUA, descobriu que os golfinhos também são capazes de reconhecer seu reflexo no espelho.
Essa imagem dos golfinhos como seres inteligentes remonta à antiguidade clássica. Ulisses, o herói grego que idealizou o cavalo de tróia tinha como brasão um golfinho, o que demonstra que para os helênicos esses animais representavam a inteligência e a esperteza.
Foi também entre os gregos que surgiu o primeiro relato de um homem salvo pelos golfinhos. Airion estava em um navio, indo de Corinto à Sicília quando marinheiros roubaram seu ouro e o jogaram no mar. Um golfinho o levou nas costas até a praia, salvando sua vida.
Existem diversos relatos de golfinhos que enfrentaram tubarões para salvar humanos e na Amazônia fala-se que durante os naufrágios os botos aparecem para ajudar a salvar as vítimas. Nas lendas amazônicas, o boto é sempre mostrado como inteligente e sensual.
O filósofo grego Aristóteles fez várias observações empíricas desses animais e concluiu que eles têm uma linguagem verbal semelhante à humana.
Não só a inteligência, mas também a bondade dos golfinhos tem sido reconhecida ao longo do tempo. Os primeiros cristãos, para representar Cristo usava a figura de um golfinho. Só tempos depois é que o golfinho foi substituído pelo peixe e, posteriormente, pela cruz.
O neurologista norte-americano John Lilly realizou diversas pesquisas com golfinhos e ensinou um casal a falar 30 palavras em inglês, combinando verbos, pronomes e substantivos. Em uma das experiências, Lili falou para o macho: "Joe, fundo piscina, disco plástico, trazer caixa boiando". Joe desceu e escolheu um entre os dois discos plásticos e o colocou na caixa que boaiva.
Lilly descobriu que esses animais também têm uma ética e um sentimento de grupo avançados. Quando um golfinho é ferido, todo o grupo retarda a velocidade e alimenta o ferido até que ele fique curado.
Outros animais que parecem ter uma inteligência apurada são as baleias. O cientista Carl Sagan descobriu que elas cantam longos cânticos ritmados que ele deduziu serem poemas épicos. Além disso, as baleias sabem contar os meses do ano da mesma forma que nós. Em janeiro elas, em meio a um de suas canções, emitem um silvo característico. Em fevereiro são dois silvos. Em março três e assim sucessivamente até o final do ano, quando o ciclo que reinicia. Se Sagan estiver certo, as baleias contam o tempo e fazem observações astronômicas. O mesmo pode ser dito dos golfinhos. No livro "Golfinho, a nova mitologia", Boris Sai conta que cientistas que haviam se deslocado para a costa do México para observar um eclipse encontraram lá milhares de golfinhos, que pareciam estar lá justamente para observar o fenômeno (o que nos faz concluir que eles são capazes de fazer cálculos astronômicos).
Em uma das conferências de John Lilly uma pessoa da platéia fez um pergunta relevante: se golfinhos e baleias são tão inteligentes, por que não dominam o mundo? A resposta de Lilly foi: "Talvez eles sejam tão inteligentes que não queiram isso, dominar o mundo é só uma tentativa frustada de dominar a sua própria insegurança interna".
Nesse sentido, talvez golfinhos e baleias sejam muito mais inteligentes que nós, que matamos nossos próprios semelhantes e destruimos aos poucos o mundo que nos abriga.

sábado, fevereiro 26, 2022

I Encontro de Quadrinheiros de Manaus

 



Olha só o que o amigo Romahs me mandou: O cartaz do primeiro evento de quadrinhos de Manaus.

Esse foi o primeiro evento de quadrinhos de Manaus e também o primeiro evento que participei como convidado especial. Foi a partir desse encontro que surgiu o movimento quadrinheiro, que revelou grandes talentos manauaras, alguns dos quais hoje em dia são conhecidos nacionalmente, como o próprio Romahs.

Uma curiosidade é que no cartaz escreveram errado o meu pseudônimo. Ao invés de Gian, Jean. Em alguns desses cartazes o nome foi corrigido com caneta.
Em tempo: existe um movimento para transformar o dia 14 de outubro no dia do quadrinho manauara. A data seria uma referência ao primeiro dia desse evento que participei em 1992.

Além da imaginação – a versão de Jordan Peele

 


Além da imaginação foi um seriado clássico surgido no final dos anos 50 criado apresentado e produzido por Rod Serling (que, aliás, escrevia boa parte dos episódios). Marcou gerações. Suas histórias fantásticas, com roteiros irretocáveis tiveram uma influência duradoura a ponto de quando surgiu Black Mirror muito terem comentado que era o novo Além da imaginação. 
Suas histórias muito bem boladas, com a inevitável ironia do destino no final sedimentaram uma maneira de contar histórias e elevaram o nível da programação televisiva. O que Serling fez não foi só diversão, mas uma série que refletia sobre seu tempo (a guerra fria, o perigo nuclear) usando para isso a ficção científica e fantasia. Programas posteriores, como Jornada nas Estrelas devem muito a Serling. 
Na década de 1980, o seriado ganhou uma versão bastante equivocada, em que a ênfase estava muito mais nos efeitos especiais do que nos roteiros inteligentes. Agora o show retorna sob a batuta de  Jordan Peele, diretor de “Corra!”, que não só trouxe de volta a essência do seriado, como o atualizou o dando uma profundidade sociológica ao discutir temas como tensões raciais, ataques terroristas, imigração e eleições numa época de influenciadores digitais.
A qualidade do que foi apresentado nessa primeira temporada é tão grande que é difícil escolher o melhor episódio. Ainda assim, fiz uma lista dos episódios, do que mais gostei ao que menos gostei.  
Em tempo: a série está em exibição no streaming Amazon vídeo. 


Rebobine
Uma mulher negra está levando o filho para seu primeiro dia na universidade quando descobre que pode voltar o tempo rebobinando uma velha câmera vhs. Mas os dois estão sendo perseguidos por um policial racista. É um belo exemplo de roteiro em looping, com a protagonista tentando se livrar de um destino aparentemente inevitável. O episódio discute racismo, determinismo e a importância de se conciliar com o passado. Mas não traz respostas fáceis, como fica claro no final irônico. É o melhor episódio nova fase de Além da Imaginação e representa bem a proposta de usar a fantasia para falar de temas atuais.




Garoto prodígio
Um marketeiro em desgraça vê a chance de voltar ao topo quando um Youtuber de oito anos resolve lançar se candidato à presidência dos EUA. O episódio Garoto Prodígio reflete sobre os dias atuais, em que pessoas sem conteúdo se tornam celebridade da noite para o dia ganhando grande influência e poder político. Uma situação que é reflexo direto da falta de conteúdo da própria população, que vota em um candidato por ele prometer, por exemplo, vídeo games para todos. É um dos melhores episódios da nova encarnação de além da imaginação não só pelo tema, mas também pela constante tensão entre desejo e desgraça. É também um dos episódios que melhor refletem o modus operandi da série clássica, com seu final totalmente irônico.


Seis graus de liberdade
Seis graus de liberdade é um um dos roteiros mais complexos dessa nova versão de Além da Imaginação. E também um dos que permitem mais discussões filosóficas. Na história, um grupo de astronautas está sendo enviado a Marte. A terra está esgotada graças às mudanças climáticas e essa missão pode ser a última esperança da humanidade. Mas, no momento do lançamento, começa uma guerra nuclear de modo que os astronautas se vêm na situação de serem os últimos representante da humanidade. O episódio é todo construído em cima da teoria segundo a qual a maioria das civilizações tende a se aniquilar antes de desenvolverem tecnologia para viagens espaciais, o que explica o fato de nunca termos tido contatados por extraterrestres. Alguns autores, como Carl Sagan argumentam que se a civilização consegue ultrapassar essa fase e chegar ao espaço, ela tende a se perpetuar. O tema é explorado de forma inteligente, com poucos cenários, foco em closes e truques cinematográficos, como colocar a câmera de lado para simular gravidade zero.



Escorpião azul
Um professor universitário está se separando da esposa e morando com o pai. Um dia chega em casa e descobre que o pai, um hippie que tocou com várias bandas importantes, se matou com um tiro. A arma usada foi a escorpião azul, uma pistola rara que vale cem mil dólares. O episódio é usado para discutir a questão da idólatria das armas e de como elas são apresentadas como solução para todos os males. Mais: é sugerido que as armas se tornaram um novo tipo de religião fetichista. Isso é feito, no entanto, de maneira sútil, sem diálogos óbvios e com bom uso da força das imagens. A cena em que o professor vai a um clube de tiros testar a arma é perfeita. Quase sem diálogos, podemos ver sua transformação e a forma como a arma passa a encantá-lo, no sentido amazônico da expressão, de encantaria, de magia. É um dos episódios que melhor demonstram a força dessa nova encarnação de além da imaginação.



Ponto de origem
Uma dona de casa contrata uma imigrante ilegal como empregada doméstica e vê essa empregada ser presa pela polícia de imigração. Depois ela mesma acaba sendo presa sem saber sequer qual a acusação. O episódio ecoa diretamente o famoso livro O processo, de Kafka, com a protagonista presa em um local desconhecido, perdida em meio à burocracia. O roteiro constrói uma metáfora pesada e pungente a respeito da perseguição aos imigrantes. Destaque para a direção inspirada, em especial na cena da cela, com as luzes sendo usadas como elemento opressivo. Esse é um ótimo exemplo de como essa nova versão de Além da imaginação consegue usar a ficção científica para falar de temas atuais. 


Um viajante
Em uma pequena cidade do Alaska o xerife mantém a tradição de fazer uma festa de Natal no qual perdoa um prisioneiro. Mas naquele ano um desconhecido surge na cela pedindo para ser perdoado. Simpático e dizendo se dono de um canal no YouTube sobre viagens radicais, ele conquista a simpatia de todos e se torna o centro da festa. Mas uma jovem policial desconfia que há algo de errado na história. Esse é o plot do quarto episódio da nova encarnação de além da imaginação. É um daqueles episódios, a exemplos de muitos da série clássica, em que ação acontece toda em um local fechado e a trama se sustenta nós ótimos diálogos e atuações soberbas, com destaque para Steven Yeun  no papel do viajante. Uma trama, aliás, repleta de reviravoltas em que nunca sabemos qual as verdadeiras intenções do estranho. Destaque para o uso inteligente dos efeitos especiais, que surgem apenas nos momentos certos. Destaque também para o final, do mais puro humor ácido no melhor estilo Além da Imaginação. 


O comediante 
Um comediante fracassado descobre que pode fazer rir se usar algo de sua própria vida. Mas tudo que ele cita em suas piadas acaba desaparecendo. Além do ótimo conceito, que discute a questão do poder e seus perigos, vale destacar a ótima atuação de Kumail Nanjiani que consegue, por exemplo, contar uma piada e se mostrar tenso enquanto a plateia ri. A direção, repleta de closes estranhos valoriza a atuação. 


Pesadelo a 30 mil pés
Este foi um dos episódios mais memoráveis da série clássica. Baseado em um conto de Richard Matheson, mostrava um homem em um avião que vê um monstro do lado de fora e precisa convencer a tripulação de que a aeronave corre perigo. Nessa nova versão, um repórter investigativo acha um aparelho no assento e descobre que se trata de um podcast sobre um acidente aéreo. O problema é que ele parece se referir àquele vôo. O repórter deve, então, descobrir como impedir a tragédia usando as pistas do podcast. É incrível, mas esse plot, muito mais pé no chão, consegue ser menos verossímil que o duende da versão clássica principalmente graças ao final, totalmente desnecessário. Se o diretor tivesse a inteligência de terminar a história no momento em que o protagonista descobre o que está acontecendo, seria um dos melhores dessa nova versão de Além da imaginação.



O homem borrado
O episódio O homem borrado é praticamente um manifesto sobre as características de Além da Imaginação. Na história, a roteirista do seriado é assombrada por uma figura borrada que parece ter poderes paranormais. Em determinado ponto a personagem reflete sobre a série: “Além da imaginação não é só sobre monstros numa asa de avião. Se não tem nada de importante para dizer, então são só histórias para assustar. Rod Serling pegou um gênero infantil bobo e o elevou, fazendo arte para adultos”. Esse foi, por exemplo, o problema da maioria dos episódios da década de 1980: eram apenas efeitos especiais para crianças num roteiro que tinha pouco a dizer. É uma pena, no entanto, que o episódio que melhor reflete sobre a alma de Além da imaginação seja também um dos episódios mais fracos dessa nova encarnação liderada por Jordan Peele. (Alerta de spoiller) Por exemplo, o homem borrado, que persegue a roteirista, se revela como Rod Serling recriado digitalmente. A metáfora aí é óbvia: ele está levando a personagem para um mundo onde tudo é possível, um mundo além da imaginação. Entretanto, até esse ponto, parece que ele está muito mais interessado em machucar ou até mesmo matar a personagen do que realmente em introduzi-la em um mundo em que as leis da natureza funcionam de maneira diferente. A situação poderia ser facilmente resolvida mudando as situações para algo surreal, irreal, mas o roteirista parece ter tido preguiça de imaginar tais situações e simplesmente introduziu garrafas que voam na direção na protagonista e outras ameaças.


Nem todos os homens
Um dos grandes méritos da versão atual de Além da Imaginação é usar a fantasia para discutir questões do mundo atual. Isso, entretanto, não funciona quando a metáfora se torna óbvia demais, não deixando margem para interpretações.
Exemplo disso é o episódio Nem todos os homens. Na história, meteoros caem numa cidadezinha norte americana e todos os homens que entram em contato com as pedras se tornam violentos. Esse plot é usado para discutir a questão da violência masculina, mas isso é feito de maneira tão óbvia que descarta qualquer possibilidade de interpretação. Chega um ponto em que uma das personagens explica o que está acontecendo e qual a metáfora envolvida para ter certeza de o expectador tenha apenas uma interpretação. Junte a isso um roteiro ruim , com frases forçadas.
Umberto eco fala da obra aberta, que só se completa quando é interpretada pelo expectador. Já ao contrário, o discurso persuasivo permite uma única interpretação. Ele tende a levar-nos a conclusões definitivas e nos idica como devemos compreender o mundo. Nem todos os homens é um ótimo exemplo de discurso persuasivo.