sexta-feira, maio 01, 2026

Roteiro de quadrinhos: o texto como camada de significado

 O bom texto deve dar uma camada a mais de significado à HQ, indo além daquilo que o desenho mostra.

Um bom exemplo disso é o Surfista Prateado. Ele foi colocado por Jack Kirby na história em que o Quarteto enfrenta Galactus. Para Kirby, Galactus era tão poderoso que deveria ter um arauto, o que não estava na sinopse entregue para por Stan Lee. Para Kirby, o Surfista era um personagem que tinha função apenas decorativa. Mas quando Stan Lee viu o desenho achou que ele se parecia com um filósofo, um profeta, de alma nobre e bons propósitos, que era obrigado a servir Galactus. Stan Lee acrescentou ao desenho de Kirby uma camada a mais de significado que transformou um mero coadjuvante num dos personagens mais interessantes e cults da Marvel.

O mesmo aconteceu com a história A insólita Família Titã escrita por mim e desenhada por Joe Bennett e publicada em diversas revistas eróticas na década de 1990 e finalmente reunida em álbum pela Opera Graphica em 2014.

A história surgiu de um convite do editor Franco de Rosa, que precisava urgente de uma história em quadrinhos de 30 páginas. Nós tínhamos duas semanas para produzir tudo: roteiro, desenho, arte-final, balonamento. Dessa forma, assim que soubemos do pedido, começamos a discutir a trama. A pressa era tanta que nós íamos conversando e o Bené já ia fazendo um esboço das páginas. Ao final, peguei aquele calhamaço e fui colocando texto. Esse processo todo durou menos de uma manhã, pois início da tarde já era necessário dar início à produção do desenho.

A pressa fez com que nós não tivéssemos tempo de discutir sobre a história. O resultado disso foi que eu jurava que o personagem Tribuno era o herói da história. Afinal, ele era o único dos três heróis que queria usar seus poderes para o bem da humanidade. Já para o Bené, ele era o vilão, pois só um vilão  entraria numa jornada de vingança como fez o Tribuno.
Ou seja: o herói estava ali, cometendo as maiores atrocidades, mas eu estava lhe dando motivações, comprando o leitor com meu texto.
A história acabou ficando com uma dualidade ímpar: para alguns leitores, o Tribuno era um tremendo vilão, para outros, era um herói. A mistura de desenho e texto permitiu essa dupla leitura.

O texto e os diálogos, portanto, devem ir muito além da simples narrativa. Devem dar humanidade aos personagens, devem mostrar suas motivações e, principalmente, devem fazer o leitor se sentir dentro da HQ. Os quadrinhos são bidimensionais, mas o leitor deve se sentir dentro de uma história com todas as dimensões possíveis. Deve sentir os cheiros, deve ouvir os sons. Uma boa história é como uma realidade virtual, que transporta os leitores para um mundo em que tudo é possível. 

Buddy Longway – Três homens passaram

 


No terceiro álbum da série Buddy Longway a família já estava formada. É quando o casal tem o primeiro filho, Jeremie.

Ao longo de várias páginas vamos acompanhando a rotina de felicidade conjugal alinhada ao crescimento do garoto, incluindo a situação em que Buddy é obrigado a matar uma loba para salvar seu filho, para logo depois descobrir que ela tem um filhote, que acaba sendo adotado pela família, com o nome de Lobinho.

O álbum mostra a felicidade da família... 


Mas todo esse idílio é rompido com o surgimento de três garimpeiros. Aproveitando-se de que a família Longway vive em um local remoto, distante de todos, eles os transformam em escravos.

É uma premissa interessante, que dá ao álbum um aspecto de suspense contínuo: conseguirá o protagonista e sua família se livrarem do jugo dos invasores?

... mas essa paz é quebrada pela chegada de três estranhos. 


Deribe constrói sua narrativa de forma simples, mas bem amarrada, com um grande destaque para detalhes, alguns que servem muito mais para ambientar a história e caracterizar os personagens, como o garimpeiros que dá um caramelo para Jeremie, e outras que serão fundamentais para o desenlance, como a saída de Lobinho da família.

Buddy Longway é o tipo de história em que, após ler um álbum, queremos ler outro e outro e outro.

Embora não esteja sendo publicada no Brasil, a série pode ser lida completa em scans. Para baixar, clique aqui: https://comics-na-web.blogspot.com/search/label/buddy%20longway.

Guerras Secretas – “Do pó ao pó!”

 


O número 11 da série Guerras secretas começa com uma revelação chocante: Doutor Destino tira sua máscara e seu rosto está curado da terrível ferida que fazia com que ele precisasse esconder seu rosto.

Esse novo Doutor Destino é tão poderoso que não tem interesse em maldades: “Eu poderia destruí-los com apenas um pensamento... e suponho que é o que esperam”, diz ele aos heróis.

Destino usa o poder de Beyonder para restaurar seu rosto. 


A conversa amigável com os heróis faz com que os vilões, e mais especificamente o Homem Molecular, decidam atacar Destino. “Você me deixou zangado o bastante para te destruir”, diz ele. “E eu tenho poder para isso. Eu controlo todas as moléculas... exceto as vivas, claro... mas ainda assim sou muito poderoso”.

No final, não dá em nada. Destino só toca no adversário e ele entra em êxtase. “Eu posso controlar moléculas orgânicas! Posso fazer qualquer coisa”, diz ele, admirado.

O Homem Molecular tem uma epifania. 


Depois disso, o Homem Molecular simplesmente desmonta o bairro de Denver que havia sido transportado por Beyonder e vai embora junto com os outros vilões na direção da terra.

Ainda no planeta, os heróis decidem o que fazer. A sequência é de uma falta de sentido absurda. Os heróis resolvem atacar Destino. O argumento deles é de que ele está fora de controle por ter consertado o seu rosto e por pensar em invadir a dimensão de Mefisto para libertar sua mãe. Sério? Quem no lugar dele faria diferente? Mas, segundo o texto de Shooter, isso significa que ele ainda é um vilão. Sério?

Destino traz Kang de volta. Afinal, a regra é que ninguém morria de fato. 


A história termina...  com um raio exterminando os heróis.