segunda-feira, abril 30, 2018

O zen e o epicurismo



O budismo e o epicurismo surgiram em períodos relativamente próximos e há tempos tenho observado muitos pontos de contato entre essas duas filosofias, o que pode significar que em algum momento houve alguma troca cultural (Epicuro teria entrado em contato com o budismo? Posteriormente o budismo teria assimilado algo do epicurismo?). Apresento aqui alguns pontos que considero semelhantes entre eles, mas lembrando que não sou exatamente um especialista no budismo (de modo que amigos que saibam mais sobre o assunto podem complementar).
Uma das bases do epicurismo é a ideia de moderação. Devemos ser moderados em tudo que fazemos, exercitando um auto-controle como forma de conseguir a felicidade. Mesmo algo que dá prazer, como comer, deixa de ser prazeroso se a pessoa se empanturra e passa mal (e, lembrando que, para Epicuro, prazer era o oposto de dor, se algo traz sofrimento não é prazer verdadeiro). Comer o suficiente, sorvendo os alimentos, é muito mais sábio que comer como um doido, mal sentindo o gosto do alimento. O mesmo vale para todas as outras instâncias da vida. Para Epicuro devemos ser moderados em tudo que fazemos.
Lembra muito o caminho do meio da filosofia budista. Antes de se tornar Buda, Sidarta viveu primeiro uma vida de luxo e abundância, como príncipe. Depois tornou-se um asceta (e dizem que nessa fase ele comia um grão de arroz por dia). Quando se iluminou, percebeu que esses dois extremos eram negativos. O certo é não comer até se empanturrar e nem passar fome. Lembra as ideias de Epicuro, não?
Epicuro dizia que boa parte da nossa infelicidade é provocada pelo medo da morte. As pessoas deixam de viver o momento por medo do que acontecerá no futuro. E é um medo sem razão: se existir vida após a morte, ainda estaremos vivos, então não há porque temer a morte. Se não existir vida após a morte, então não estaremos lá para lamentar isso e, portanto, não fará diferença.
Lembra muito a ideia zen-budista de foco no presente. A ideia é que não devemos nos preocupar com o que acontecerá no futuro, mas vivermos o momento presente da melhor forma. O meditação zazen, inclusive, ajuda nisso: em manter o foco no agora.
Epicuro dizia que tudo é formado de átomos, partículas elementares das quais tudo é feito e que as diferentes formas são apenas diferentes organizações desses átomos. Um cachorro é feito da mesma substância primordial de uma pedra. A ciência moderna resumiu esse pensamento no princípio de que somos feitos de poeira das estrelas. Lembra muito a ideia budista de vazio, em que as coisas são na verdade feitas de outras coisas, não tendo uma substância, uma essência. A essência de todas as coisas é a mudança. Assim, uma mesa não é uma mesa, ela está mesa (mas antes foi uma árvore, se foi feita de madeira).  
Epicuro era um crítico das filosofias deterministas (como o estoicismo) e acreditava que não existe destino, ou seja, o ser humano é dono de seu próprio destino, sendo o único responsável por suas decisões. Lembra muito as palavra do monge Genshô: “Se houvesse destino nossas decisões estariam prejudicadas pois o que quer que fizéssemos o destino decidiria por nós, um absurdo lógico, se assim fosse nenhum criminoso seria responsável e sim o destino, nenhum ato bom teria mérito também”.

Vingadores: guerra infinita


Difícil decidir sobre o que falar a respeito de Vingadores Guerra Infinita. 
Podemos começar pela inteligência da produção. Enquanto a DC parecia atirar para todos os lados sem acertar nada, a Marvel tinha um projeto de narrativa muito bem delineado, que durou mais de uma década e mais de uma dezena de filmes. Histórias e mais histórias que convergiram para esse momento. O resultado podemos ver nas filas dos cinemas: todo mundo que assistiu a algum (ou todos) acabou se interessando por assistir este que reúne todos os heróis.
Mas o que mais se destaca é a escolha acertada do vilão. Ao contrário do filme da Liga, que tinha um vilão pouco conhecido e totalmente inconsistente, em Guerra Infinita temos um vilão de verdade. Não só pelo seu poder, mas principalmente por sua profundidade. Não existe uma boa história de super-heróis sem um bom vilão. E Thanos tem tudo [é um deus super-poderoso capaz de dar uma surra no Hulk, mas é também uma pessoa complexa, capaz de amar, mas capaz também de sacrificar até mesmo o que mais ama por seu objetivo: matar metade da população do universo. Créditos para Jin Starlin, seu criador, que, em meio às viagens de maconha imaginou o maior vilão do universo Marvel e uma motivação ainda mais interessante que a do filme (nos quadrinhos, ele é apaixonado pela morte, que desdenha dele e, para conquistá-la pretende dar de presente um verdadeiro genocídio). Thanos, assim como Warlock eram uma denúncia dos perigos do poder e sua capacidade de corromper o humano.
Thanos domina o filme não só pelo terror que provoca, mas também por sua profundidade (alguns dos momentos mais líricos da película são com o personagem). E estamos falando de uma obra com centenas de personagens, a maioria dos quais tridimensionais na melhor tradição Marvel.
Ainda sobre o filme, é impossível não falar sobre a ótima direção, que mostra ação sem parecer confusa (como ocorreu em Vingadores 2) e principalmente respeita cada personagem e sua tradição cinematográfica. Quando entram em cenas dos Guardiões da Galáxia, por exemplo, é como se estivéssemos assistindo a um filme dos próprios Guardiões.

A revista mais valiosa


Pessoas que não entendem de quadrinhos tendem a achar que o número 1 de uma revista em quadrinhos é a mais valorizada. Nem sempre. O melhor exemplo disso é este: a revista Amazing Fantasy 15 (de 1962) é de longe a mais valorizada da série por uma razão simples: foi a primeira a publicar uma história do Homem-aranha. Stan Lee aproveitou a revista, que seria cancelada para introduzir seu personagem e testar sua popularidade (o dono da Marvel achou que as crianças não iriam gostar de um personagem baseado em uma aranha). Posteriormente o herói ganhou revista própria.

Watchmen e a teoria do caos

Matéria de jornal de 1994 sobre o meu TCC sobre Watchmen. Hoje em dia todo mundo minimamente informado sabe que Alan Moore e Dave Gibbons usaram os princípios da teoria do caos na elaboração de Watchmen, mas na época essa informação era novidade a ponto de merecer matéria em jornal.

domingo, abril 29, 2018

Como eram as comemorações do putsch de Munique?



Uma das características da propaganda nazista era realibitar fatos do passado, mudado seu significado. O putsch da cervejaria havia sido um fracasso total e, em muitos sentidos, uma ópera cômica, mas Goebbels transformou-a numa tragédia.
Em 9 de novembro de 1935, Hitler institiu a comeração oficial da tentativa de golpe.
Dois templos de bronze foram construídos para abrigar os restos mortais dos nazistas que haviam morrido durante o putsch. Até mesmo os sarcófagos eram de bronze, destacando o ar grandioso do monumento.
Hitler percorreu toda a cidade em direção ao monumento. Tropas da SS e da SA iluminavam o trajeto com archotes. Ao chegar ao local, Hitler deteve-se diante dos ataúdes para um diálogo mudo. Depois, sessenta mil militares desfilaram em silêncio diante dos ataúdes.
Na manhã seguinte uma procissão comemorativa repetiu o trajeto do dia do putsch, com a mesma posição das autoridades e as mesmas vestimentas daquela época.
De acordo com Alcir Lenharo, do livro Nazismo: triunfo da vontade, esse recurso teatral exorcizava os acontecimentos de forma a corrigi-los historicamente a favor dos nazistas.   

sábado, abril 28, 2018

Super Powers 3


Quando a revista da Liga da Justiça chegou ao seu número 200, a DC publicou uma edição especial com mais páginas e uma história completa escrita pelo renomado roteirista Gerry Conway.
Para comemorar, o roteirista bolou uma trama que remetia diretamente à primeira aventura da Liga, quando eles enfrentavam alienígenas que usavam a Terra como arena de guerra para decidir quem governaria seu planeta natal. Na história, os membros clássicos da Liga são vítimas de sugestão hipnótica para reunir os meteoros, liberando novamente os extraterrestres.
Isso, claro, acaba sendo uma desculpa para que os novos membros enfrentem os clássicos, numa história tipicamente Marvel (vale lembrar que Conway foi um dos principais roteiristas da Marvel).
O roteiro é ok, eficiente, embora não se compare a trabalhos melhores de Conway, como Esquadrão Atari. Mas a grande atração da revista é o incrível time de artistas reunidos nesta única edição. A história principal fica por conta de George Perez, mas o time de convidados inclui Jim Amparo, Dick Giordano, Brian Bolland, Carmine Infantino, Joe Kubert. Um verdadeiro show de grandes talentos da DC.

Essa história foi publicada na revista Super-powers 3, da editora Abril, em novembro de 1986. A Abril reduziu a belíssima capa dupla para uma capa simples e tirou o fundo, prejudicando em muito o impacto da capa.

Um lugar silencioso



Todo filme de suspense depende sobremaneira da sonoplastia. Experimente assistir qualquer clássico do gênero sem som e verá o quanto a obra perde em impacto. Mas nenhum outro filme levou a questão da sonoplastia ao nível narrativo como Um lugar silencioso.
Na história, os humanos são perseguidos e mortos por seres praticamente invencíveis (não fica clara a origem deles). Mas as criaturas são cegas, orientando-se apenas pela audição.
Assim, acompanhamos a vida de uma família de sobreviventes e as estratégias usadas por eles para evitar qualquer tipo de barulho que possa aproximar chamar atenção das criaturas. Por essa razão, o silêncio domina quase toda a película – até mesmo os diálogos são em linguagem de sinais. Não há trilha sonora – exceto quando o casal de protagonistas está ouvindo música com fones de ouvido em um breve interlúdio romântico em meio à constante tensão.
O silêncio destaca ainda mais a sonoplastia a ponto do expectador se sentir tenso a qualquer mínimo barulho – e o que faz com que os sustos tenham efeito ainda mais aterrador.
O filme é tenso da primeira à última tomada e quando mal percebemos chegar ao fim tão envolvidos estamos com a história.
PS: Algumas pessoas que leram meu livro O uivo da górgona compararam as duas histórias – no meu livro o som tem papel semelhante, embora ali os monstros sejam os nossos já conhecidos zumbis.

A arte espetacular de Joe Kubert


Joe Kubert é um dos mais importantes desenhistas dos comics norte-americanos. Nascido na Polônia em 1926, naturalizou-se norte-americano. Começou a trabalhar com quadrinhos na Era de Ouro, mas notabilizou-se na Era de Prata da DC com personagens como Gavião Negro e Sargento Rock. Criou o personagem Tor. Na década de 1970 desenhou o personagem clássico Tarzan em uma série de revistas antológicas da DC - um trabalho tão bom que até hoje é um dos mais lembrados pelos fãs dos personagem. Sua influência na indústria foi enorme em especial por ter criado a Joe Kubert School of Cartoon and Graphic Art pela qual passaram alguns dos talentos mais relevantes dos comics. 










Revista O Pavio

O Pavio foi uma revista jornalística que editei no ano de 2007. A proposta era fazer um tipo de jornalismo diferenciado cuja proposta era resumida no slogan: "Informação não precisa ser chata". Atualmente isso já tem até um nome dentro do jornalismo: infotenimento (informação + entretenimento). Todas as matérias tinham toques de humor, fosse no texto, no título ou nas chamadas. Além disso, raramente usávamos fotos, dando preferência a desenhos humorísticos. 
A revista trazia também um encarte, o Tira com fritas, que publicava quadrinhos, crônicas humorísticas etc. 
O primeiro número enfrentou certa rejeição por conta da proposta, mas a partir do número dois começamos a receber propostas de jornalistas já estabelecidos no mercado, que queriam colaborar com a publicação, mas nem sempre enviavam material que se encaixava no que queríamos. Na época eu fiz um texto explicando como escrever para a Pavio. O primeiro item era: "Não se censure. Deixe que o editor censura você". 
Voltada para o público universitário, acabamos fazendo muito sucesso entre os estudantes de ensino médio (os exemplares que meu filho levava para a biblioteca da escola eram disputados a tapa) e no último número já tínhamos anúncios de todas das faculdades do estado. 
Entre os talentos revelados pela Pavio está Ana Girlene Oliveira, hoje um dos nomes mais importantes do radiojornalismo amapaense. 
Infelizmente a revista durou apenas quatro números.

sexta-feira, abril 27, 2018

Edição rara - Capitão Gralha

Este é um dos itens mais raros da minha coleção. Comprei em um sebo em Curitiba, na década de 1990. A capa estava em péssimo estado de conservação, mas o miolo ainda estava intacto. Infelizmente, os danos à capa tornaram impossível descobrir qual é o número desse gibi (e não há informações no miolo), mas acredito que seja já da fase final do personagem, pouco antes da morte de Iwerten.

Quem era o Wessel do hino nazista?



Horst Wessel Lied, um dos hinos cantados nas convenções nazistas, era uma referência ao chefe da SA em Berlin, tornado mártir da causa ariana depois de sua morte.
Na verdade, Wessel eram um cafetão que explorava prostitutas em Berlin e acabou sendo morto por um comunista numa disputa por uma delas.
Mas Goebbels viu no fato uma oportunidade de criar um mártir para os nazistas. Toda a sua agonia foi acompanhada pelos jornais nazistas, de janeiro a fevereiro de 1930. O hino, composto em sua homenagem dizia: “Os camaradas vítimas da Frente Vermelha e da Reação/ marcham em espírito em nossas fileiras”.
Claro que não havia nenhum interesse na recuperação de Wessel e seu funeral foi tranformado em um evento de divulgação das idéias nazistas. Milhares de pessoas, com tarjas de luto, postaram-se nas ruas e calçadas. No elogio fúnebre, Goebels chamou-o de “cavaleiro dos tempos modernos, defensor das viúvas e órfãos”, um “socialista de cristo”. Seu nome era repetido diversas vezes e a multidão gritava “presente”.
Dessa forma, um cafetão foi transformado em herói nazista e propetor de viúvas.

quinta-feira, abril 26, 2018

Experiências e livros

Monteiro Lobato já disse que um país se faz com homens e livros. Da mesma forma, um homem se faz de experiências e livros. Não há formação intelectual que não passe pela leitura.
O convite para integrar o especial "Biblioteca Básica" do site Digestivo Cultural me fez pensar em todos os livros que, de uma maneira ou de outra, ifluenciaram minha formação.
O mais remoto deles, parece-me, é pouco conhecido da geração atual. Mas fez as delícias de todos os jovens devoradores de livros da década de 80. Falo de Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida, publicado na época na coleção Vaga-lume.

Esse foi o primeiro livro que li (não estou contando os pequenos livros infantis dos quais guardo poucas lembranças). Devia ter algo em torno de 10 anos. Pode parecer uma discrepância eu ler meu primeiro livro aos 10 anos, mas há de se considerar que eu cresci em uma família pobre, na qual livros eram um luxo supérfluo.
Só consegui convencer minha avó a me dar o dinheiro para esse livro porque ele ia ser utilizado na escola. Na época vivíamos na pequena cidade de Mococa, no interior de São Paulo.
Eu mesmo fui à livraria, no outro lado da cidade e comprei o livro. Antes que o dia terminasse eu já o tinha lido inteiro. No dia seguinte, dia de frio, coloquei uma cadeira no quintal e, enquanto tomava um sol, li pela segunda vez.
Uma semana depois a professora iniciou a leitura em sala de aula, mas o rapaz responsável por ler o primeiro capítulo não havia nem mesmo aberto o livro. “Alguém já leu o livro?”, perguntou a professora. Eu levantei a mão: “Já li cinco vezes, professora”.
Aventuras de Xisto influenciou meu gosto pela história, especialmente pela história medieval. O clima sombrio e fantasioso também influenciou muito minha literatura. Minha novela O Anjo da Morte é uma espécie de Aventuras de Xisto para adultos. Gostaria de dar destaque também para as ilustrações do livro, de autoria de Mário Cafiero. Sempre imaginei ter uma história desenhada por ele.

Depois disso, eu não tinha mais como convencer minha avó a comprar outros livros e só fui voltar a ler uns quatro anos depois, quando descobri a biblioteca pública e os sebos. Foi época de conhecer Monteiro Lobato.
Não houve um livro específico que tenha me influenciado. Nessa época lia tudo que me chegava às mãos do autor paulista. Curiosamente, li primeiro sua literatura adulta, depois a infantil. Na literatura adulta, Urupês é sem dúvida a obra-prima. Lobato estava menos preocupado em fazer literatura e mais em causar uma impressão no leitor. Lembro que a primeira vez que li me pareceu um livro de terror... Da literatura infantil, História do mundo para crianças é, certamente, a obra que li mais vezes. Lobato era uma dessas inteligências enciclopédicas, que escreviam sobre tudo e em tudo deixavam um gosto delicioso.

Mais ou menos por essa época, tinha um amigo que colecionava a revista Heróis da TV e descobri um sebo que as vendia por um preço irrisório. Eu comprava as revistas e as vendia pelo dobro do preço, e assim conseguia dinheiro para comprar minhas próprias revistas. Antes de vender as revistas, eu passava o final de semana lendo. Só muito tempo depois fui perceber o quanto essas leituras me influenciaram, especialmente as histórias do Mestre do Kung Fu, de Dough Moench (roteiro), Paul Gullacy e Mike Zeck (desenhos).

1984, de George Orwell, foi a leitura que mais influenciou o período da universidade. Quando já estava no final do livro, fui comprar adubo para minha avó (que adora plantas). Como o troco demorasse, encostei no balcão e comecei a ler. Só sai de lá depois de ter lido a última palavra, para espanto dos balconistas. 1984 é um livro que deixa uma marca em quem o lê. É impossível sair dele o mesmo.
Também da época da Faculdade, O Nome da Rosa, de Umberto Eco foi um livro que prendeu minha atenção. Às vezes desconfio que só gostei tanto dele porque a ambientação era quase a mesma de Aventuras de Xisto. Em todo caso, li-o três vezes. Na primeira, o que mais me chamou atenção foram os detalhes sobre a história da Idade Média. Na segunda, os aspectos relacionados às teorias da comunicação (especialmente semiótica e teoria da informação). Na terceira, eu já estava mais interessado em detectar as influencias de Jorge Luís Borges sobre a obra.

Chegamos em Borges. O que mais me marcou no autor argentino não foi um livro, mas um conto: "O Aleph". O texto parecia uma versão literária de meus estudos sobre teoria do caos. A partir daí comecei a devorar tudo que me caía as mãos sobre o autor portenho. 
"O Aleph" me foi emprestado por um colega de redação na Folha de Londrina. Foi também ele quem me emprestou Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. Eu já havia lido Farenheith 451, mas esse parecia uma versão menor de 1984, de Orwell. Crônicas Marcianas tinha vida própria e fez com que eu me interessasse pela literatura de ficção científica norte-americana.
De Bradbury para Isaac Asimov foi um passo. Além das histórias de robôs, sempre me fascinaram seus textos de divulgação científica. Asimov produziu um verdadeiro tijolo, Cronologia das descobertas cientificas, que foi meu livro de cabeceira durante o mestrado.
Uma história em quadrinhos que mudou a minha forma de ver o mundo foi Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Moore virou de cabeça para baixo os comics norte-americanos ao mostrar os super-heróis de uma perspectiva realista. Histórias de heróis cuja vestimenta é uma fantasia sexual se misturam com casos de personagens que deixaram escapar bandidos porque precisavam ir ao banheiro. Pode parecer humorístico, mas a perspectiva não era essa. Moore realizou uma obra profunda sobre a condição humana em meio ao caos. O subtexto baseado na teoria do caos e na geometria fractal passou despercebido pela maioria dos leitores e só se tornou corrente no Brasil após o meu trabalho de conclusão de curso de graduação.

Já que falamos em teoria do caos, Caos: a criação de uma nova ciência, de James Gleick, é outro livro que exerceu grande influência sobre mim ao me mostrar o poder desse novo paradigma para explicar fenômenos não deterministas. Fenômenos deterministas são aqueles que seguem um padrão fixo, como um relógio. Para a ciência clássica, todo o universo era determinista. A teoria do caos demonstrou que esse modelo do universo como um relógio não corresponde à realidade. A maioria dos fenômenos, por mais determinados que pareçam, podem mudar de comportamento de uma hora para outra em decorrência de pequenas alterações, chamadas de efeito borboleta.
A teoria do caos foi uma das bases da teoria de Edgar Morin. Esse autor francês produz tanto que é quase impossível destacar um livro mais importante. Ciência com consciência, Sete saberes necessários à educação do futuro e A Cabeça bem-feita são alguns dos mais famosos. Morin defende uma nova visão de mundo, diversa daquela inaugurada por René Descartes, segundo a qual, para conhecer algo, é necessário dividir esse algo em pequenas partes e estudá-las um a uma.
Para Morin, as partes não podem ser vistas senão em sua relação com o todo. A teoria do caos demonstrou que tudo está relacionado. Uma pequena borboleta batendo suas asas na China pode desencadear uma série de eventos que redundam em uma tempestade em Nova York.
Morin critica a fragmentação dos saberes e defende uma ciência que vê as coisas em suas relações com outras coisas. Pensando bem, isso tem tudo a ver com a filosofia oriental que aparecia nas páginas das histórias em quadrinhos do Mestre do Kung Fu. Talvez tudo esteja mesmo interligado.

quarta-feira, abril 25, 2018

A surpreendente arte de Antonio Eder

Antonio Eder é um desenhista curitibano autor de trabalhos premiados, como a graphic Manticore e O Gralha. Seu traço estilizado é muito expressivo. Com forte influência de artistas como Escher, Antonio Eder brinca com as formas geométricas construindo imagens muitas vezes desconcertantes. Confira alguns dos trabalhos desse grande quadrinista.






terça-feira, abril 24, 2018

O chamado de Cthulhu



H.P. Lovecraft foi o mais importante escritor de terror do início do século XX. Sua obra encontrou tamanha reverberação naquele período conturbado e nos anos subsequentes que muitos passaram a acreditar que seus textos se tratavam não de literatura, mas relatos reais. Boa parte da mitologia desse universo de horror tem sua origem no livro O chamado de Cthulhu e outros contos, lançado em 2012 pela editora Hedra como parte da coleção de obras completas do autor.
Lovecraft nasceu numa família conturbada. Quando tinha dois anos, viu o pai ser internado em um manicômio, onde permaneceu até morrer. A mãe jamais se recuperou da perda e sofreu distúrbios mentais que afetaram profundamente a relação com o filho. O futuro escritor passou a viver uma vida reclusão voltada apenas para seu terrível mundo literário. Precoce, escreveu seus primeiros contos entre seis e sete anos.
Em 1913, irritado com a baixa qualidade dos contos publicados na revista pulp fiction Argosy, escreve uma carta que levou a uma intensa polêmica, ao fim da qual acabou sendo convidado pelo editor a colaborar com a publicação. Suas histórias, no entanto, não fizeram sucesso. Em vida ele só conseguiu publicar um livro, A sombra de Innsmouth (que também integra a coleção da Hedra).
Sua obra só não se perdeu graças a admiradores que em 1939 fundaram uma editora para publicar sua obra. Mas Lovecraft só se tornou um fenômeno de vendas na década de 1960, quando algumas editoras norte-americanas começaram a publicar seus livros com capas chamativas e vendidas em locais de fácil acesso, como postos de gasolina e farmácias.
O que fez com que sua obra inicialmente fosse ignorada e depois se tornasse um verdadeiro culto foi a forma revolucionária com que ele tratava o terror. Lovecraft trouxe para a literatura a angústia provocada pelas descobertas científicas no início do século XX. Até o século XIX acreditava-se que o universo era racional e totalmente compreensível. A ciência estava a um passo de desvendá-lo. A teoria da relatividade e a física quântica viraram o mundo físico de cabeça para baixo mostrando que não sabíamos quase nada sobre o universo.  “O universo de nêutrons, quasares e buracos negros é estranho para nós e nós somos estranhos nesse universo”, escreveu James Turner, na introdução do livro Tales of the Cthulhu mythos (Dell Books).
Assim, na obra de Lovecraft, somos pouco mais que formigas num universo eternamente ameaçado por uma entidade terrível e inenarrável, sejam deuses antigos ou seres alienígenas que desprezam a vida humana. “A coisa mais misericordiosa do mundo é, segundo penso, a incapacidade da mente humana  em correlacionar tudo o q sabe. Vivemos em uma plácida ilha de ignorância em meio a mares negros de infinitude , e não fomos feitos para ir longe”.
 O impacto de sua obra é tão grande que muitos passaram a acreditar que o Necronomicon, livro citado em seus contos, tinha existência verdadeira. De fato, começaram a surgir diversas versões da obra, de modo que o livro, imaginário, ganhou existência física.
Em suma: Lovecraft se tornou, assim como Edgar Alan Poe, um escritor fundamental para todos os fãs de terror ou de literatura de fantasia. E o volume O chamado de Cthulhu e outros contos é uma boa porta de entrada para sua obra.
Cthulhu é uma espécie de entidade monstruosa com corpo de dragão e cabeça de lula. Ele seria um dos grandes antigos, seres inomináveis que teriam chegado em nosso planeta em seus primórdios e criado o homem como forma de escárnio e servitude.  Lovecraft pronunciava seu nome de diversas formas diferentes, dando a entender que se tratava de uma palavra que não poderia ser reproduzida por lábios humanos. Cthulhu seria o alto sacerdote, responsável pelo retorno dos antigos quando as estrelas estivessem alinhadas. Embora seja o mais famoso e imagético, ele é apenas uma das criaturas de um grande panteão de seres fantásticos que habitam o mesmo universo. Nesse sentido, Lovecraft foi um divisor de águas: ele criou um universo no qual ocorrem a maioria de suas histórias, uma mitologia única, de modo que é possível perceber uma costura entre seus contos, alguns pontos em comum que revelam a parte mais terrível de sua obra: a terrível suspeita de há algo muito grande acontecendo à nossa revelia.
É a fundação dessa mitologia que o leitor irá encontrar no livro O chamado de Cthulhu... Além do conto que dá título ao volume, outros se destacam, como “Dagon”, cujas criaturas marinhas serviram de inspiração visual para a história em quadrinhos Neonomicon, de Alan Moore: “o contorno geral das figuras era muito humano, apesar das mãos e dos pés com membranas natatórias, dos impressionantes lábios carnudos e molengos, dos olhos vidrados, arregalados”.
Outro destaque é “A música de Erich Zann”, que, se não estivesse no livro de Lovecraft, poderia se passar facilmente como parte da obra de Jorge Luís Borges. Nele, o protagonista encontra um velho violinista que toca para espantar terrores da escuridão. O início não poderia ser mais Borges: “Examinei diversos mapas da cidade com o maior cuidado, mas jamais reencontrei a Rue d´Auseil (...) Jamais encontrei outra pessoa que tenha visto a Rue d´Auseil”. Talvez não seja por acaso: tanto Borges como Lovecraft são herdeiros declarados de Edgar Alan Poe.
É, portanto, extremamente louvável a iniciativa da Hedra de trazer a coleção completa do mestre do horror. Uma ótima chance para os fãs do terror verem um mestre em ação. De negativo apenas o fato dos livros serem de formatos diferentes, o que certamente deve desagradar os colecionadores.

Segundo os Mitos, a Terra teria sido habitada, há bilhões de anos, por criaturas que aqui teriam chegado antes que nosso planeta fosse capaz de gerar ou sustentar vida por si próprio. Eles, e não Deus, teriam criado a vida: o próprio Homem seria uma criação deles, gerada unicamente por escárnio e servitude.2 Em contos posteriores, fica implícito que os Grandes Antigos seriam criadores do próprio universo, e de todos os seres nele presentes. Isso foi suficiente para que Lovecraft fosse considerado pelas igrejas fundamentalistas do mundo inteiro, que acreditam na versão da criação bíblica, como blasfémio. Os Grandes Antigos teriam Cthulhu como um de seus líderes (de acordo com os contos, seria o Alto Sacerdote, responsável pelo ressurgimento de todos os outros quando as estrelas estivessem alinhadas devidamente)

Lovecraft parecia estar escrevendo para o futuro, para o homem pós-moderno. Tanto que sua obra teve pouco impacto na época, mas depois, como uma bola de neve, foi crescendo de importância a ponto de se acreditar que se tratava não e literatura, mas de relatos de uma realidade desconhecida. A crença na existência do Necronomicon como um livro real demonstra como a obra de Lovecraft se tornou um simulacro, uma ficção é mais real do que o real. E hoje, podemos ver em sites de compras diversas versões do Necronomicon. O livro, totalmente imaginário, ganhou existência física.
O fenômeno Necronomicon revela o aspecto mais apavorante na obra de Lovecraft: e se, no fundo, for verdade? E se o escritor tiver, inadvertida e inconscientemente, descoberto a verdade sobre a realidade em que vivemos? E se formos apenas formigas, seres insignificantes, criados por escárnio, vítimas de um poder grandioso demais para ser compreendido?

segunda-feira, abril 23, 2018

O que foi o Putsch da cervejaria?



Foi uma tentativa dos nazistas de tomarem o poder. Os nazistas já estavam organizando um golpe de estado para o dia 11 de novembro de 1923 quando souberam que os três principais nome do governo na Baviera estariam em Munique para uma manifestação patriótica. Acharam que aquele era o momento ideal, embora houvesse os riscos relacionados à antecipação da data. Hitler custou a tomar a decisão. Até chegou a beber alguns goles de cerveja, coisa de raramente fazia. Finalmente aprovou o putsch.
O golpe, que deveria ser sério, degenerou numa comédia de erros. Ninguém sabia o que estava acontecendo, ou quem estava de que lado. As mensagens não chegavam ao seu destino, figuras importantes perdiam a calma e ordens eram dadas e revogadas a cada minuto.
A reunião patriótica aconteceu em uma cervejaria e a maioria dos presentes já estava embriagada quando Hitler subiu em uma mesa e, após dar um tiro para o alto, anunciou o golpe. Disse que o governo de Berlin havia sido derrubado pelos nazistas e ameaçou fuzilar os representantes do governo da Baviera se eles não concordassem em apoiar o golpe. Os três, claro, concordaram rapidamente com a exigência. Mas tão logo puderam sair da cervejaria, mudaram de idéia.
Para piorar, os membros da SA haviam tomado todos os edifícios públicos da cidade, menos o centro de comunicações, o que permitiu que os governistas chamassem reforços.
Enquanto isso, Hitler marchava na direção dos escritórios governamentais. Achava que seria aclamado, mas foi recebido a tiros. Dezesseis nazistas foram mortos. Goring foi atingido por uma bala, mas conseguiu fugir. Hitler deslocou fortemente o ombro e o general Ludendorff foi preso.
O que começou como um golpe vitorioso terminou como uma ópera cômica, mas Hitler saberia transformar esse desastre numa oportunidade de divulgar suas idéias.  

domingo, abril 22, 2018

Os bastidores de Piscose



Hitchcock já era um diretor consagrado quando dirigiu Psicose, em 1960. Seu nome num cartaz era quase certeza de sucesso de crítica e de público. Mas com Psicose, um filme barato e despretensioso, transformou-se num deus do cinema, ficou milionário e provocou verdadeira histeria coletiva. É a história dos bastidores desse sucesso inesperado que Stephen Rebello conta no livro Alfred Hitchock e os bastidores de psicose (iluminuras).
A obra é um relato amplo de todas as circunstâncias relacionadas ao filme, a começar pela história do serial killer Ed Gein, que, no final dos anos 1950 assassinou várias mulheres na região rural de Wisconsin. Gein era um solteirão de 51 anos que vivia de pequenos biscates (entre eles tomar conta dos filhos dos casais da região), excêntrico, mas aparentemente inofensivo. Um dia o assistente do xerife foi visitar a sua mãe e encontrou a loja da qual ela era proprietária fechada. Ao lembrar que Gein mencionara que iria na loja naquele dia, resolveu visitar a fazenda do cinquentão. O que ele e os demais policias encontraram era um verdadeiro filme de horror: entre produtos para embalsamento e embalagens para comida, havia dois pares de lábios humanos pendurados num cordão, alguns narizes em cima da mesa da cozinha, um bolsa e braceletes feitos de pele humana, quatro cadeiras estofadas de carne, um tambor feito com pele humana, uma vasilha de sopa feita com  um crânio, as peles descarnadas de quatro rostos de mulheres, com ruge e maquiagem presos à parede. Na estufa, o assistente do xerife encontrou sua mãe: estava nua, pendurada pelos calcanhares como um porco, e estripada.
O fato chocou a pequena localidade, principalmente depois que o assassino declarou à imprensa que nunca havia atirado em um cervo (e muitos se lembraram da deliciosa carne de viado que haviam ganhado dele).
Os jornais trataram Gein como o “açougueiro louco” e noticiaram seus assassinatos e suposto canibalismo, mas, com pudor, esconderam o travestismo, o roubo de cadáveres e a possível relação incestuosa com a mãe.
A 63 quilômetros dali, um escritor de 41 anos, discípulo e apadrinhado de H. P. Lovecraft, chamado Robert Bloch, procurava um tema para seu novo livro quando se deparou com uma pequena nota sobre um homem que fora preso após assassinar a dona de um armazém e pendurá-la, estripando-a como um cervo. Ele ficou intrigado com o fato de que um homem que nunca fora suspeito de nada e vivia numa pequena cidade do interior (em que, se alguém espirrasse no lado norte, alguém no lado sul diria saúde) acabara se revelando um assassino em série. Incrivelmente, as informações que conseguia sobre o fato eram mínimas, o que o fez usar mais a imaginação do que os fatos.
Na época, Freud estava em alta e Bloch decidiu dar ao seu personagem uma motivação psicológica bem ao gosto do criador da psicanálise: “Pensei: e se ele cometesse esses crimes num surto amnésico, sob controle de outra personalidade?”. Essa outra personalidade, seria, claro, a mãe, fechando a relação edipiana. Para funcionar, a mãe deveria estar morta, mas “Não seria legal se ela estivesse realmente presente de alguma forma? Foi quando me veio a ideia de que ele mantinha o corpo dela preservado”.
Segundo Rebello, ao usar a taxidermia como elemento principal da trama, Bloch cruzou a linha divisória entre o refinado mistério de salão do tipo “quem matou” e o puro terror. O livro seria revolucionário em mais um sentido: o escritor criou uma heroína simpática, deu a ela um problema, fez com que o leitor gostasse dela e a matou no primeiro terço da história, rompendo totalmente com o paradigma das histórias convencionais, em que os protagonistas sempre conseguem se safar das maiores dificuldades.
Bloch teria mais uma inspiração que seria fundamental para o filme: matar a heroína no chuveiro: “Eu tinha a opinião de que uma pessoa nunca está tão indefesa quanto no chuveiro”.
Quando o livro já tinha sido publicado e era um sucesso, Bloch soube de todos os detalhes do caso e percebeu o quanto seu romance era semelhante com a história real: “Ao inventar meu personagem, cheguei muito perto da personalidade real de Ed Gein. Fiquei horrorizado em pensar como eu podia imaginar tais coisas”. Tanto que passou anos se barbeando de olhos fechado, pois não se atrevia a olhar seu próprio reflexo no espelho.
Se de um lado Bloch estava assustado, do outro, Hitchock se sentia obsoleto com o sucesso comercial e de crítica do triller francês As diabólicas, de Clouzot. Ele queria uma história diferente, para um filme tipicamente “não-hitchcockiano”. Foi um assistente de produção que descobriu o livro, graças a uma resenha, e o apresentou ao diretor. Hitchock ficou fascinado especialmente com a cena do assassinato no chuveiro. Além disso havia o acréscimo da heroína que morria no primeiro terço da história. Sem falar na esperteza do recurso do travestismo. O diretor viu ali uma ótima oportunidade para um filme de suspense que superasse As diabólicas. Tanto que, quando os executivos da Paramount se negaram a financiar o projeto ele bateu o pé. “Você não vai conseguir o orçamento a que está habituado para fazer uma coisa assim. Nada de technicolor, nada de grandes atores. “Tudo bem eu dou um jeito”, retrucou ele.
Uma das soluções foi utilizar a barata equipe de seu programa de TV, que já estava habituada a filmar diversas cenas por dia. Para escrever o roteiro, contratou o iniciante James Cavanagh e, quando este não conseguiu desenvolver a trama (na primeira versão havia até mesmo uma história romântica para desviar a atenção do assassinato da mocinha), contratou outro ainda mais novato: Joseph Stefano, um ex-ator que antes de começar a escrever episódios para TV nunca tinha nem mesmo lido um roteiro. Para interpretar o vilão contratou o astro em ascensão Antony Perkins, por apenas 40 mil dólares. Era o salário mais alto de todo elenco, ironicamente a exata quantia que a heroína Mary Crane surrupia de seu patrão no filme.
Os custos de produção eram tão baixos que durante muito tempo acreditou-se que ele estivesse produzindo um episódio para televisão.
Contrariando as expectativas dos produtores, o filme foi um sucesso absoluto, faturando quinze milhões de dólares apenas no mercado americano no seu primeiro ano de exibição e transformando seu diretor em um milionário.
Psicose foi mais do que um sucesso. Foi uma febre. Por causa dele a venda de cortinas de opacas de banheiro caiu nos EUA, assim como o número de hospedes de motéis de beira de estrada.
É essa história que o escritor e roteirista Stephen Rebello destrincha em uma prosa agradável. Um livro de mais de 200 páginas, mas que se devora em um tapa, em especial se o leitor for fã de cinema.

sábado, abril 21, 2018

A arte belíssima de Daniel Brandão



O desenhista cearense Daniel Brandão já trabalhou para diversas revistas e editoras nacionais e internacionais, como DC Comics, Marvel, Dark Horse, Abril e Maurício de Sousa Produções.
Em 2016 ganhei o prêmio Al Rio como destaque local. Fui coordenador de conteúdo do curso de quadrinhos do projeto HQ Ceará (também ganhador do HQ Mix) e organizador da Antologia HQ pela Fundação Demócrito Rocha. É criador dos personagens Liz, Sebastião e Cariawara. Atualmente possui um estúdio próprio em Fortaleza, Ceará (Estúdio Daniel Brandão) onde ofereço cursos de desenho, quadrinhos e mangá. Confira a arte desse grande talento nacional. 









sexta-feira, abril 20, 2018

Elektra Vive



Uma das grandes inovações da primeira fase de Frank Miller no Demolidor foi a criação de Elektra, a grande paixão do herói. O fato dela ser uma assassina criou uma dinâmica única na série e um dilema ética para o herói poucas vezes visto nos quadrinhos de super-heróis. No auge da fama, Miller matou a personagem (em uma sequências mais emocionantes das HQs de todos os tempos). Mas provavelmente se arrependeu.
Elektra reapareceu logo depois, em uma HQ curta em que Murdock delira imaginando que personagem está viva. Depois em uma HQ em que o tentáculo tenta trazê-la de volta, sob controle dos assassinos. E, finalmente, em Elektra vive, publicada no final de década de 1980.
Quando o álbum foi publicado, Miller estava no auge da fama, o que lhe permitiu impor um formato gráfico diferenciado para os quadrinhos americanos. E estava no auge de sua capacidade como narrador gráfico. A começar pela capa, apenas como os créditos, título e a personagem andando em meio à neve. Outro destaque é a sequência de página inteira em que Murdock desce as escadas de seu apartamento. Com forte influência de Will Eisner, Miller aproveita a tendência do leitor de visualizar a página de cima para baixo para construir sua narrativa.
As cores de Linn Varley, esposa de Miller, destacam ainda mais a arte exuberante (bons tempos em que Miller sabia desenhar!!!).
A sequência em que Murdock vai à igreja para se confessar é relevante e revela muito sobre o personagem e suas origens católicas (algo que foi muito bem aproveitado na primeira temporada da série da Netflix). Mas as várias sequências de sonhos e do personagem se lembrando da personagem parecem apenas uma repetição do que Miller já tinha feito na revista do Demolidor.
Enfim, a pergunta: apesar da qualidade visível do álbum, era mesmo necessária uma história a mais com Elektra?
Elektra Vive foi publicada no início da década de 1990 pela editora Abril e volta agora em um álbum capa dura pela editora Panini.

quinta-feira, abril 19, 2018

Mestre do Kung Fu

          
  Na década de 1970, a grande moda eram as artes marciais. No cinema, os filmes de Bruce Lee eram sucesso de bilheteria. Na televisão, a série Kung Fu, com David Carradine (o “pequeno gafanhoto”) ganhava cada vez mais fãs. Não ia demorar muito, portanto, para que essa mania chegasse aos quadrinhos.
            A Marvel lançou o super-herói Punhos de Ferro, enquanto a DC lançou O Dragão do Kung Fu, sem falar nas pequenas editoras, que também publicaram revistas para aproveitar a febre. Mas o personagem mais famoso e mais emblemático dessa onda seria Mestre do Kung Fu, criado por Steve Englehart (roteiro) e Jim Starlin (desenhos).
            Os dois procuraram o editor-chefe da Marvel, Roy Thomas, com a proposta de adaptar para os quadrinhos o seriado de TV. Thomas lembrou que a série pertencia à Warner Bros, dona da DC. Então, ao oferecer a proposta para a Warner eles não só receberiam um não, como ainda dariam uma ótima idéia à DC Comics. Mas a editora do Super-homem já estava pensando em adaptar o seriado. Roberto Guedes, no livro A era de bronze dos super-heróis conta que Denny O´Neil teria alertado o Publisher da DC, Carmine Infantino,sobre a possibilidade da Marvel lançar esse material. “Não se preocupe. Se a Marvel lançar o Kung Fu, nós fazemos o Fu Manchu”. Fu Manchu era um vilão clássico dos pulp fiction (revistas baratas de contos, muito populares até a década de 1930). Roy Thomas ficou sabendo disso e resolveu comprar os direitos do personagem, transformando Fu Manchu no pai do herói da série.
            Assim, a revista em quadrinhos contava a história de Shang-Chi, um jovem mestre nas artes marciais, criado como uma arma viva por seu pai, Fu Manchu, que pretendia usá-lo para dominar o mundo. Ao descobrir as intenções de seu pai, Shang-Chi foge e se alia à agência britânica de espionagem, a MI-6, onde conhece aquela que seria sua namorada, Leiko Wu.
            A história estreou na revista Special Marvel Edition, 15 que passou a se chamar Master of Kung Fu a partir do número 17 por conta da popularidade do personagem.
            Embora Shang-chi tenha sido criado por Steve Englehart, foi Dough Moench que se estabeleceu no título, escrevendo as mais importantes histórias. Com a entrada de Paul Gulacy, estava formada a dupla favorita dos fãs.
            Gulacy tinha um traço fotográfico que espantou os fãs. Para tornar o trabalho mais realista, ele conseguiu uma cópia do filme Operação Dragão, projetou numa tela e fotografou as cenas congeladas. Assim, o personagem ficava com a cara de Bruce Lee.
            Gulacy desenhou a revista até o número 50, quando foi substituído por Jim Craig. Como este não conseguia cumprir os prazos, foi substituído por Mike Zeck.
            Mike Zeck costumava errar muito em anatomia e não tinha o traço fotográfico de Paul Gulacy, mas trouxe outras qualidades para a série. Seu desenho era fluido e elegante, e combinava muito bem com a nova fase do personagem, mais introspectiva. Depois das sagas centradas nas aventuras de espionagem, o gibi começou adentrar na filosofia zen budista e a explorar mais as relações entre os personagens.
            Esse foco ousado para um gibi de luta fez com que Mestre do Kung-Fu se destacasse de todas as revistas do gênero e durasse até o número 125, superando em muito o modismo das artes marciais. O último número, seguindo a linha introspectiva introduzida por Moench, mostrava o personagem se aposentando para se dedicar à filosofia oriental.

            Sem dúvida, a revista foi um dos grandes momentos da Era de Bronze dos quadrinhos americanos.