quinta-feira, abril 30, 2026
A era Image
Revista Imaginário traz artigo de Gian Danton sobre a evolução do texto nos quadrinhos americanos
A revista Imaginário é uma das mais importantes publicações acadêmicas do Brasil sobre quadrinhos e cultura pop. No número 21 ela trouxe um artigo meu, escrito em parceria com Rodrigo Bandeira, sobre como texto evoluiu nos quadrinhos americanos, indo desde a abordagem redundante em que texto e desenhos competiam para transmitir as mesmas informações, até o uso criativo e revolucionário do texto.
Leia mais sobre essa edição:
Abrimos esse número mais uma vez com o texto de Daniel Baz dos Santos, em análise aprofundada da obra de Sergio Toppi. Segue com a reflexão de Robson Carlos da Silva sobre a HQ “As aventuras de Machado de Assis, caçador de monstros”, com foco na excepcionalidade do protagonismo de um personagem negro e capoeirista.
Temos ainda estudo sobre “Jessica Jones e o protagonismo feminino: uma narrativa sobre Sororidade e o ‘pseudo-herói’ de gênero”, por Marcelo Bolshaw Gomes; “O arco ‘Corporação Batman’ e as novas relações do sistema do capital”, por Romir de Oliveira Rodrigues.
Fechando a edição, temos “O artista e sua interpretação do mundo”, entrevista com Edgar Vasques proposta por Marcelo Engster; resenha do fanzine QI e prancha com a personagem “Maria”, por Magalhães.
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Dentro da baleia e outros ensaios
George Orwell é mais conhecido pelos livros 1984 e Revolução dos bichos. Mas ele tem uma ampla produção que inclui romances, ensaios, artigos e reportagens. Nessa última categoria, uma boa dica é o volume Dentro da baleia e outros ensaios, lançado este ano pela Principis.
O livro reúne nove textos de Orwell sobre os mais variados temas, mas com algo em comum: todos eles falam, de uma forma ou de outra de outra, de política.
Entre os destaques está “O abate do elefante”. O texto narra um episódio da vida de Orwell, quando ele fazia parte do exército colonial na Birmânia. Um elefante enlouquecera numa crise de hormônios e matara um homem. Quando Orwell encontrou o animal, ele, no entanto, pastava calmamente e não parecia mais perigoso que uma vaca. No entanto, a população local o pressionava para matar o animal, o que ele acabou fazendo. “Percebi naquele momento que, quando o homem branco se torna um tirano, é a própria liberdade que ele destrói”. Ele se transformaria, assim, numa marionete dos acontecimentos, pois, a cada crise, ele precisa fazer exatamente o que se espera dele. O dominador se torna, assim, prisioneiro do próprio papel que executa.
No campo do jornalismo, o grande destaque do livro é “Mina abaixo” na qual Orwell relata o cotidiano dos trabalhadores das minas de carvão.
Na época, toda a civilização inglesa era baseada na energia provida pelo carvão, mas a maioria dos ingleses não tinha a menor ideia de como ele era extraído. Ele parecia surgir como mágica em sacos na frente das casas. Mas, por trás desse produto que era a chave da comodidade da maioria das famílias escondia-se um cotidiano que Orwell chama de infernal: “A maior parte das coisas que se imagina existir no inferno está presente: calor, barulho, confusão, escuridão, ar viciado e, acima de tudo, um espaço insuportavelmente apertado”.
O local era tão quente que a maioria dos mineiros trabalhava de cueca, ou nus, durante sete horas ou mais, parando apenas para comer uma refeição de pão encharcado em gordura e chá gelado. Para mitigar a sede, a maioria dos mineiros mascava tabaco.
Orwell, que entrou de fato numa mina e experimentou trabalhar como mineiro, faz uma verdadeira reportagem gonzo, a ponto de narrar até mesmo momentos constrangedores: “Mas quando chega ao fim da sequencia de travas e tenta se levantar de novo, descobre que seus joelhos estão temporariamente travados e se recusam a sustentá-lo. Envergonhado, pede uma pausa e diz que gostaria de descansar por um ou dois minutos”.
Mas, de todo o livro, talvez o texto mais importante seja “A política e a língua inglesa”. Como o próprio título sugere, Orwell se dedica a analisar como a linguagem pode ser usada politicamente. O escritor analisa vários textos publicados em jornais e revistas da época e percebe que todos sofrem dos mesmos males, sendo os principais o mofo das imagens e a falta de precisão. Para a maioria dos autores desses textos, “é totalmente indiferente o fato das palavras significarem alguma coisa ou não”.
Segundo Orwell, o texto moderno no que tem de pior não consite na escolha de palavras com base no que significavam e na criação de imagens que tornem o significado mais claro, mas consiste numa “colagem de longas filas de palavras que já foram postas em ordem por outra pessoa e, em tornar os resultados apresentáveis por meio do mais explícito embuste”.
Essa linguagem empolada, mas totalmente desprovida de significado é uma forma de manipulação política, pois é constantemente usada para defender o indefensável: “Coisas como a continuidade do domínio britânico na Índia, os expurgos e deportações na Rússia, o lançamento das bombas atômicas sobre o Japão”.
O curiso é que, embora Orwell tivesse noção de como um discurso prolixo, empolado e sem significado era a melhor forma de usar a linguagem como forma de dominação política, Orwell escolheu o caminho oposto na distopia 1984, em que o domínio acontece pela redução da linguagem.
A edição da Principis peca pela falta de textos introdutórios, o que é compensado pela boa qualidade gráfica e, principalmente pelo preço, extremamente popular (eu comprei por R$ 9,90).
Como funciona o método científico?
O melhor lugar do mundo
A narração inicial do filme O melhor lugar do mundo, feita pelo protagonista, descreve a Ilha de Santa Maria como um paraíso, um local em que todos vivem felizes com o resultado de sua pesca.
Tudo muda, no entanto, quando uma fábrica de peixes se instala em uma cidade próxima. A fábrica tira todo o mercado dos pescadores, fazendo com que a ilha entre em decadência e vá perdendo moradores, alguns para cidades do México, outros para os EUA.
O protagonista é German, interpretado por Guillermo Villegas, que, quando vê sua esposa indo embora, decide fazer algo. Existe a possibildade de uma empresa beneficiadora de pescados se instalar na ilha, mas para isso exigem um médico.
Quando um médico é obrigado pelo hospital a passar um mês na ilha, eles fazem de tudo para que ele decida se instalar definitivamente ali.
As estratégias adotadas pelos habitantes locais geram muitos momentos de humor, como quando eles fingem gostar de futebol americano quando descobrem que o médico é fanático pelo esporte.
No final, além do tom de humor, uma lição: na maioria das vezes a felicidade está em coisas simples.
A direção de Celso García deixa o filme leve e divertido desde a primeira tomada. Colabora para isso o ótimo uso da trilha sonora e as atuações inspiradas.
O melhor lugar do mundo é um daqueles tesouros escondidos da Netflix que certamente agradará quem gosta de comédias leves.
Quarteto fantástico e o Olho maligno
Boa parte do segredo do sucesso do Quarteto Fantástico na fase Stan Lee-Jack Kirby era um ritmo frenético, com várias coisas acontecendo ao mesmo tempo e mais de uma narrativa prendendo a atenção do leitor.
É o que vemos, por exemplo, em Fantastic Four 54.
A história começa com os heróis ainda no reino de Wakanda num torneio de beisebol protagonizado por eles mesmos, depois numa noite de gala com um dos maiores pianistas do mundo – numa sala do trono impressionante que só Jack Kirby conseguia fazer, repleta de detalhes.
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| Jack Kirby e suas splash pages repletas de detalhes. |
Mas os heróis estão de partida e cada um recebe um presente. Sue recebe vestidos, Reed uma vara de pescar sônica (o que quer que isso seja), Bem ganha um exercitador e Wyatt Wingfoot ganha um livro sobre recordes mundiais. Mas o Tocha Humana está triste e nenhum presente é capaz de alegrá-lo. A razão é a saudade de sua querida Cristalys, que tinha ficado presa junto com os outros Inumanos numa barreira criada por Maximus, o irmão louco de Raio Negro (e, enquanto acompanhamos o Quarteto, acompanhamos também os inumanos tentando se libertar da barreira).
Para ir atrás de sua amada, o Tocha ganha um girocruzador. Aí vai a imaginação prodigiosa de Stan Lee para criar máquinas estranhas e explicações absurdas. O girocruzador, por exemplo, funciona através de um “elemento de tensão magnética energizada por fricção”, o que quer que isso seja.
No meio do caminho até onde os Inumanos estão presos, Tocha e seu amigo Wyatt se deparam com ninguém mesnos que um cavaleiro medieval adormecido. Quando acorda ele se revela como dententor do olho do mal, uma arma praticamente invencível.
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| O flash back conta uma história alternativa. |
E vemos uma daquelas sequencias de flash back memoráveis, em que a história do mundo é recontada numa espécie de história alternativa, em que os tapetes mágicos da pérsia eram, por exemplo, balões. Então, na mesma história de 20 páginas temos a trama de Wakanda, a trama dos Inumanos e a trama do Olho do mal e no meio disso, muita ação e cenas de tirar o fôlego. Nas mãos dos roteiristas atuais, isso ia se estender por pelo menos 20 edições.
Nessa época, Stan Lee ainda carregava muito de textos os balões, mas com o tempo isso seria mais equilibrado.
O taoismo
O taoísmo é uma religião oriental que se aproxima muito de uma filosofia. O taoísmo é religião no sentido original da palavras, religare, religar o homem a algo superior, mas não é uma religião como nós conhecemos, como rituais fixos... é antes uma maneira de ver o mundo.
O taoísmo prega que o divino está em tudo. Tudo que existe faz parte de uma mesma coisa.
O tao é caminho. Caminho se faz caminhando, por isso o taoísmo não se liga em rituais, hierarquias, vestimentas... há uma história sobre um monge que encontrou um superior e o cumprimentou com um bom dia. O outro reclamou: “Essa é a maneira adequada de me cumprimentar?”, ao que o monge respondeu: “O tempo está correndo”. Ou seja, enquanto estamos ligados a rituais fixos, o mundo está em eterna mudança. E o sofrimento surge da idéia de ficar parado enquanto tudo muda.
O taoísmo foi a grande influencia da corrente zen budista, por isso é meio difícil falar de um sem falar de outro. A essência é a mesma, mas o zen budismo prefere transmitir seus conhecimentos através de histórias que revelam paradoxos, enquanto o taoísmo prefere a poesia.
Uma característica interessantíssima do taoísmo é que, como sua filosofia prega que a
divindade está em tudo, seus adeptos acreditam que todas as religiões levam a Deus. Daí um respeito profundo por todas a religiões. Assim, budismo, cristianismo, islamismo, bramanismo e até o próprio taoísmo seriam a mesma coisa sobre formas diferentes. Dizem que nos templos taoistas há imagens representando todas as religiões para lembrar que todos os caminhos levam a um só.
Num mundo em que a regra são as guerras religiosas, a postura do taoísmo deveria inspirar mais pessoas.
O livro básico do taoísmo é o tao te king, escrito por Lao Tse (Jovem Sábio). Evidentemente, Lao Tse não foi jovem por toda a vida, mas certamente foi sábio por toda ela e um dia resolveu abandonar o palácio do rei da China, cansado que estava das intrigas palacianas. Quando passou pela muralha da China o guarda o reconheceu e pensou: “Se eu o deixar partir, o Imperador vai ficar um fera. Tenho de arranjar uma maneira de fazer com que ele fique mais tempo”. E assim, disse que só liberava o sábio depois que ele escrevesse um livro que resumisse toda a sua filosofia. O guarda achava que Lao Tse fosse ficar meses inteiros escrevendo, mas o que aconteceu foi que meia hora depois Lao Tse lhe entregou um livrinho e deu no pé.
O breve verbo
Quando criança, o quadrinista Antonio Eder odiava as aulas de português. A solução para começar a gostar de nosso idioma veio na forma de curiosidades e jogos verbais. Com o tempo ele foi colecionando centenas de trocadilhos, jogos de palavras e piadas de duplo sentido, que foram reunidos no álbum O breve verbo, publicado pela editora Ocelote.
Como há um verdadeiro preconceito por parte do meio acadêmico com relação ao assunto, a bibliografia é ínfima (ele recolheu exemplos até em livros de piadas) e seu álbum se torna leitura obrigatória para qualquer um que se interesse pelo assunto. Entre as curiosidades, os palíndromos, palavras ou frases que podem ser lidos em mais de um sentido, como o famoso "Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos" (Aliás, quem possui fobia de palíndromos, sofre de aibofobia, e claro, deve evitar esse livro).Também curiosos os casos em que a mudança de pontuação muda completamente o sentido da frase, como em "Executar não perdoar", que pode condenar alguém se a vírgula estiver antes do não, ou perdoá-la, se a vírgula estiver depois. Enfim, uma leitura divertida, que se torna ainda mais divertida graças ao traço cômico de Antonio Eder.
A última flecha
Lançada em 2019, a graphic novel A últim flecha, de Emerson Medina (roteiro) e Romahs (desenhos) é um quadrinho atípico.
A trama conta a história de uma tribo indígena exterminada por um grupo de exploradores que buscam a fonte da juventude. Um último sobrevivente resolve empreender uma jornada de vingança e essa jornada avança até os dias atuais.
| As sequências de ação são impressionantes. |
O que há de diferente aí, além da ambientação amazônica, é a forma como a história é narrada, praticamente sem textos ou diálogos. Além disso, a narrativa é não linear, com camadas temporais se sobrepondo. Tudo isso torna a leitura um verdadeiro quebra-cabeças. É preciso ler os detalhes, as simbologias (a última flecha do título tem significado simbólico, por exemplo) e amarrar as várias narrativas para entender a história.
| A primeira aparição da personagem Pollacka é uma boa amostra da qualidade do desenho de Romahs. |
E não se trata de uma história simples. A última flecha daria tranquilamente um romance ou até uma série se os detalhes fossem preenchidos.
Embora a história bolada por Medina seja envolvente, quem se destaca aqui é Romahs com sua narrativa visual impecável e seu desenho lindo, repleto de detalhes.
O que é a teoria do caos?
Caos é uma palavra subjetiva. Um quarto de uma adolescente pode ser caótico para a empregada doméstica que tenta arrumá-lo, mas certamente não é para o jovem. Se perguntarmos por qualquer item ele certamente saberá onde se encontra. Uma estante organizada por autor é caótica para quem está acostumado a organizar seus livros por assunto.Embora muitos autores considerem que toda ciência é uma tentativa de colocar ordem na natureza, a primeira corrente científica a se preocupar com o caos foi a cibernética. Autores cibernéticos, como Norbert Weiner, chamaram caos de entropia e estudaram suas características.
Filha da cibernética e da teoria da informação, a teoria do caos surgiu na década de 60 com as elaborações do matemático Benoit Mandelbrot a respeito do tempo metereológico, mas ganhou destaque no início dos anos 80 com um grupo de alunos da Universidade de Santa Helena (EUA) que se auto-denominaram coletivo de Sistemas Dinâmicos. Os trabalhos de Mandelbrolt e dos jovens estudantes começava nos limites da ciência clássica, que era extremamente influenciada pela invenção do relógio. O relógio simbolizou, para muitos autores, a ordem do universo. Seus movimentos são totalmente previsíveis. Para saber como funciona um relógio, basta desmonta-lo e compreender como suas peças se encaixam. Da mesma forma, para compreender a natureza, bastava desmontá-la, descobrir como funcionam suas partes e tudo se revelaria com espantoso determinismo.
Essa visão de mundo ganhou uma metáfora no Demônio de Laplace. O cientista francês propôs que, se uma consciência soubesse todos os dados de todas as partículas do universo e fosse capaz de fazer os cálculos necessários, teria condições de prever o seu funcionamento com perfeição. O Demônio Laplaciano teria diante de si o passado, o presente e o futuro.
No campo das ciências humanas, essa forma de pensamento foi a base da sociologia. Se alguém entendesse como funciona a sociedade, com as pessoas se relacionam entre si para formar uma comunidade, seria perfeitamente possível prever o andamento dessa sociedade. Para demonstrar a crença na determinação, característica da ciência clássica, podemos imaginar o transito de uma cidade. Imaginemos que o departamento de transito saiba todas as informações sobre o transito: o mapa da cidade, o tempo de todos os semáforos, a média de velocidade de cada carro, a origem e o destino de todos os carro, o tempo de partida...
Diante de todos esses dados e, com um computador potente o bastante, seria possível prever todas as situações possíveis e manter o transito perfeitamente ordenado, sem engarrafamentos.
A situação pode funcionar na teoria, mas na prática isso não ocorre. Um único motorista que se distrai olhando para uma garota na calçada pode provocar uma acidente, que provocará outro acidente, que provocará outro acidente... e no final teremos um engarrafamento monstruoso. A maioria dos sistemas não pode ser determinado em decorrência da chamada dependência sensível das condições iniciais, ou efeito borboleta. A expressão efeito borboleta é usada para denominar um fenômeno no qual uma borboleta, batendo suas asas na muralha da China, pode provocar uma tempestade em Nova York. Parece brincadeira, mas não é. Fenômenos em que um pequeno fator provoca grandes transformações são mais comuns do que se pensa.
No campo da economia, por exemplo, teóricos do caos têm estudado a importância de boatos nas bolsas de valores. Os jornais têm anunciado casos de pessoas que, em decorrência de um pequeno atraso na hora de sair de casa, perderam o ônibus, o que levou a um atraso no metrô e, no final não conseguiram pegar o avião, e o avião caiu. Um segundo de atraso foi a diferença entre a vida e a morte para essas pessoas.
Em termos filosóficos, a Teoria do Caos nos dá uma
interessante perspectiva a respeito do destino. O destino existe? Essa questão tem inquietado pensadores desde a origem da humanidade. A ciência clássica, com seu determinismo, dava abertura para a aceitação do destino. O demônio de Laplace podia prever o futuro, mas não podia intervir nele, pois todos os acontecimentos já estavam previstos. “A inteligência suposta por Laplace seria onisciente, mas impotente para provocar qualquer modificação no curso dos eventos. Restaria a ela um olhar entediado sobre o porvir, pois nada poderia acontecer que não tivesse já previsto”, diz Isaac Epstein, no livro Teoria da Informação.
A Teoria do Caos, por outro lado, propõe que o sistema é determinista, mas não sabemos o que ele fará a seguir. Ou seja, há uma determinação, até o ponto em que um efeito borboleta incida sobre o sistema. Em termos filosóficos, podemos dizer que o destino existe, mas nós o modificamos toda vez que fazemos determinadas escolhas que vão influenciar o futuro. Visualmente, isso pode ser imaginado como uma estrada
com diversas bifurcações. A cada bifurcação, a escolha daquele que caminha, muda o caminho e, portanto, o seu destino.
Para compreender os fenômenos dinâmicos (não deterministas), os teóricos do caos foram buscar na teoria da informação a base científica. Eles chegaram à conclusão de que não existe caos, mas padrões de diferente níveis de complexidade. Um padrão mais complexo é mais caótico, um padrão mais simples é ordenado.
Um exemplo. Imagine a seqüência abaixo:
1,2,3,4
É um padrão simples. É fácil perceber que o número seguinte será o 5.
Um padrão um pouco mais complexo pode ser visualizado na seqüência seguinte:
2,4,6,8
Embora seja um pouco mais imprevisível, não há grande dificuldade em perceber que o padrão é pular os números ímpares. Assim, o próximo número seria o 10.Um padrão bem mais complexo poderia ser visualizado na seqüência abaixo:
2,4,8,10, 14
Qual seria o número seguinte? Uma análise detalhada da seqüência demonstraria que a regra é pular dois números e, em seguida, pular quatro. Assim, o número seguinte seria 16. Um padrão totalmente complexo, ou caótico, seria demonstrado pela seqüência abaixo:
1, 7,10, 49,579,3400, 2, 5013
Eu a construí digitando números aleatórios no teclado. Embora a seqüência seja aleatória, ela provavelmente
tem um padrão determinado pelo meu inconsciente, ou pela limitações de meus dedos. É possível que sejam necessários 500 ou mais números, mas em um determinado momento o padrão vai se repetir.
Para a Teoria da Informação, a primeira seqüência (1,2,3,4) é totalmente redundante, tanto que é muito fácil
prever o número seguinte. Já a última seqüência seria a mais informativa, pois traz mais variedade.
Os teóricos do caos concluíram, portanto, que a ordem é redundante, enquanto o caos é informativo. Fenômenos como a vida humana e o trânsito de uma cidade são essencialmente caóticos. Isso influenciou Edgar Morin a construir a teoria do pensamento complexo. Em uma frase autobiográfica, ele demonstra como o caos (ou complexidade) envolve nossas vidas: “Quando penso na minha vida, vejo que sou fruto de um encontro muito improvável entre meus progenitores. Vejo que sou produto de um espermatozóide salvo entre cento e oitenta milhões que, não sei por sorte ou infortúnio, se introduziu no óvulo de minha mãe. Soube que fui vítima de manobras abortivas, que deram resultado com meu predecessor, mas ninguém saberá dizer porque escapei à arrastadeira (...) E cada vida é tecida dessa forma, sempre com um fio de acaso misturado com o fio da necessidade. Sendo assim, não são fórmulas matemáticas que vão dizer-nos o que é uma vida humana, não são aspectos exteriores sociológicos que a vão encerrar no seu determinismo”.
Uma parte importante da Teoria do Caos é a chamada geometria fractal. Enquanto a geometria clássica, euclidiana, se preocupava com as formas perfeitas (círculos, quadrados, retas, cones), que são altamente redundantes, a Geometria Fractal vai se preocupar com as imperfeições das formas que encontramos na natureza. Enquanto a geometria clássica, ao estudar uma montanha, a transformava em um cone, para a nova
geometria, o que interessa são justamente as irregularidades da montanha. Um raio não é definido como uma reta, mas em suas sinuosidades.
A geometria fractal, criada pelo matemático Benoit Mandelbrot, ficou famosa pelos gráficos criados para representar fenômenos caóticos: os fractais. Esses gráficos, na maioria muito belos, têm uma característica curiosa: quando ampliamos uma parte do desenho, ele se revela muito parecido com a imagem maior, mas com mais detalhes, mais informação. Uma outra característica dos fractais é que a mudança de um único número muda todo o desenho. É a Dependência Sensível das Condições iniciais, também chamada de Efeito Borboleta.
A Teoria do Caos tem influenciado os mais diversos campos do conhecimento. Na área da comunicação, essa teoria tem sido usada para descrever filmes, programas televisivos e até histórias em quadrinhos que apresentam características caóticas.
Um exemplo é o filme Cidade de Deus. Nele podemos encontrar todas as características da comunicação caótica: fatos fragmentados, muita informação em pouco tempo, padrões estéticos complexos, dependência sensível das condições iniciais, padrões mais complexos à medida em que nos aprofundamos nos fenômenos e na vida dos personagens... A Dependência sensível das condições iniciais pode ser percebida, no filme Cidade de Deus, por exemplo, no momento em que o personagem Busca-pé tenta praticar um assalto. O fato do assalto dar errado vai evitar que ele entre no mundo do crime e, portanto, molda o seu destino. Como esse, há vários outros Efeitos Borboletas no filme. Como num fractal, à medida em que nos aprofundamos nos
personagens, percebemos uma maior complexidade. Para quem observa apenas superficialmente, o Trio Ternura é apenas um grupo de bandidos. À medida em que os conhecemos melhor, percebemos toda a complexidade que envolve cada um dos personagens, inclusive em termos de contradições.
A teoria do caos também tem sido usada para explicar porque as novas gerações têm uma capacidade maior de captação de informação. À medida em que o mundo e as comunicações se tornam complexos, caóticos, nossa mente se expande para acompanhar esse desenvolvimento. Por outro lado, o aumento da capacidade de captar informação faz com que surjam cada vez mais obras caóticas, tais como Cidade de Deus, Matrix e, nos quadrinhos, Watchmen.
quarta-feira, abril 29, 2026
Jornada nas estrelas – a revista em quadrinhos
A revista durou nove números e publicava também as aventuras da Nova Geração escritas por Michael Jan Friedman e desenhadas por Pablo Marcos. Na época nem mesmo a série de TV de Nova Geração havia encontrado seu caminho próprio, modo que a equipe dos quadrinhos acaba fazendo um bom trabalho. Além disso, Pablo Marcos era um bom desenhista, com uma incrível capacidade de reproduzir a fisionomia dos atores.
Spaceballs
Artigo de Gian Danton analisa os quadrinhos poéticos de Nelson Padrella
A Imaginário! é uma revista eletrônica do Grupo de Pesquisa em Humor, Quadrinhos e Games - GP-HQG, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal da Paraíba, que tem como propósito a divulgação dos estudos voltados à Cultura Pop e às Artes Visuais, como História em Quadrinhos, grafite, humor, animação, fanzine e game.
O número 5 acabou de sair com uma ótima seleção de textos, incluindo uma homenagem ao pesquisador Elydio dos Santos Neto, falecido recentemente.A revista traz também um artigo meu sobre o roteirista Nelson Padrella, roteirista da editora Grafipar que escrevia histórias em quadrinhos eróticas-poéticas e antecipou no Brasil, o gênero quadrinhos poéticos.
Para saber mais, clique aqui: https://www.marcadefantasia.com/revistas/imaginario/imaginario01-10/imaginario05/imaginario-5.pdf
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| PlayGay, história com texto de Padrella que explora a poética nos quadrinhos. |


















