A principal característica do Demolidor de Frank Miller foi expressa textualmente na quarta parte da saga A queda de Murdock. Depois de quase ter sido morto pelo Rei do Crime, de ter sido atropelado, esfaqueado e ter se tornado um mendigo, ele é socorrido por uma freira e se recupera no hospital da igreja e pensa: “Tudo mais da minha vida se foi, exceto a lição que aprendi de meu pai. Nunca desista. Nunca”.
Esse é o grande mote da série. Frank Miller empurra o
Demolidor até o fundo do poço, mas mesmo assim ele consegue se reerguer, como
vemos na história Renascido.
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| A splah page de Murdock deitado agora mostra seu renascimento e sua relação com o catolicismo. |
É bom lembrar que essa recuperação do personagem não é
aleatória ou forçada. A presença de uma freira, que se desconfia ser a mãe do
personagem é o ponto de equilíbrio que faz com que ele volte à sanidade perdida
nos tempos da queda.
Enquanto Matt Murdock se recupera, inclusive
psicologicamente, Karen Page tenta encontrá-lo. Para chegar aos EUA ela se
tornou amante de um violento traficante de drogas que poderá matá-la caso
descubra que ela pretende abandoná-lo.
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| Miller e Mazzucchelli reproduzem o ambiente caótico de uma redação de jornal. |
Mas, de toda a história, o trecho mais impressionante é
focado no repórter Bem Urich.
Frank Miller e David Mazzucchelli conseguem reproduzir com
perfeição o ambiente caótico de uma redação de jornal da época da máquina de
escrever. Um editor está dando um bronca em Urich por ele, aparentemente, ter
se tornado incapaz de escrever um texto decente depois que seu dedo foi quebrado
a mando do Rei.
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| Ben Urich ouve pelo telefone um homem sendo morto... |
Urich recebe uma ligação. É o policial que denunciou Matt
Murdock disposto a fazer uma declaração de que mentiu. Nisso entra a enfermeira
a serviço do Rei e o mata. São 14 quadros horizontais, alternando entre a cena do
hospital e o ambiente do jornal. A
imagem vai se aproximando cada vez mais do rosto de Urich, seu olhar de
desespero enquanto ouve pelo telefone o seu informante sendo assassinado.
A sequência toda é torturante. Para destacar esse efeito, o
próprio desenho do personagem muda: de realista no início para uma imagem
expressionista, com o rosto alongado e distorcido, como se Miller e Mazzucchelli
estivessem procurando reproduzir a inquietação de quadros como O grito, de
Munch.
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| ... e sua reação é de terror. |
Por mais revolucionária que fosse qualquer outra história
de Miller no Demolidor, nunca ele havia chegado a tal impacto narrativo, o que
mostra que a parceria com Mazzucchelli era o encontro de dois gênios dos
quadrinhos.





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