segunda-feira, dezembro 07, 2015

Conservadores, entendam: o Capitão América não é um dos seus

Esta semana, a Mecca do conservadorismo americano se envolveu em uma polêmica fabricada. A Fox News deu um legítimo chilique com a trama de Captain America: Sam Wilson #1. O problema? O já-não-tão-novo Capitão América agir como… Capitão América.
Explicando melhor: a revista, escrita por Nick Spencer mostra o herói cortando seus laços com o governo americano e com a S.H.I.E.L.D. para se focar nos problemas do povo. A decisão do ex-assistente social de lidar com questões políticas que afetam a população carente diretamente é recebida com gritos de “Capitão socialista” e “Não é o meu Capitão América”. Bem como fez a Fox News.


Em sua primeira aventura, Sam lida com um problema muito real: a xenofobia enfrentada pelos imigrantes vindos do México. Problema representado pelo grupo extremista Filhos da Serpente, uma alegoria clara para a Ku Klux Klan, que estava matando quem tentava a travessia.
A fúria e indignação dos conservadores – expressa primariamente através da fox News – foi clara. Para os apresentadores do programa Fox&Friends (por o vídeo), a revista era “um ataque a conservadores” e uma afronta aos EUA. É importante ressaltar que o que incomodou a Fox News não foram os valores dos Filhos da Serpente (novamente, uma representação da KKK), mas o fato deles serem lidos como os vilões.
Entre as queixas, repetidas por outros autores conservadores, estavam o Capitão América não estar “impedindo imigrantes que estavam trazendo traficantes e estupradores para América; um pedido de retorno aos “velhos tempos em que o Capitão socava Hitler”; que os liberais* “criassem o seu próprio Capitão América”; e que “deixassem política fora dos quadrinhos”. Além disso, se chocaram com o fato do líder do grupo ser um americano, e não “um radical islâmico, um membro da ISIS, determinado a destruir a civilização ocidental”.

Inimigos “novos”?

Então vamos por partes: Não é de se admirar que a Fox News não perceba que a sua narrativa quanto a imigração é extremamente xenófoba. Tanto que ela repete clichês racistas emitidos pelo pré-candidato a presidência Donald Trump. Em sua visão de mundo, obviamente alguém chamado CapitãoAmérica deveria manter essa visão “patriótica” de “América para Americanos”. Nessa linha de pensamento, um grupo armado de “cidadãos de bem” protegendo a nação contra “os imigrantes” só poderiam ser os heróis – e é um tanto assustador que uma das maiores redes de notícias dos EUA tome o partido da KKK.
613441-a74_serpent_crownA Fox News e seus colegas em sites comoBreitbart.comDaily Caller e o colunista Allen B. West (que hilariamente disse que Sam Wilson era “O corvo”) trataram os filhos da Serpente como algo novo. Como se fosse um sinal dessa “ditadura do politicamente correto” e esses “tempos loucos” com um Capitão América NEGRO. Exceto que o grupo não é nada novo: a primeira história envolvendo a caricatura da KKK foi publicada em 1966 – antes do surgimento do Falcão.
A retórica do grupo é a mesma de todo grupo xenófobo de extrema direita: “Eles estão roubando nossos empregos”, “eles são criminosos e parasitas”, ‘são uma ameaça a pureza nacional”, o mesmo discurso pronto de ódio visto contra imigrantes, minorias raciais, étnicas e religiosas desde que o mundo é mundo. E que hoje no Brasil é vista contra os imigrantes haitianos e começa a ser vista contra os refugiados sírios.
E é um discurso contra o qual o Capitão América sempre se opôs, desde sua criação – não sem motivo, dado que esse era o discurso da Alemanha Nazista contra os judeus. O detentor original do título,Steve Rogers, era ele próprio filho de imigrantes irlandeses. O único detentor “oficial” do escudo que apoiaria o discurso dos Filhos de Serpente é John Walker – criado justamente como crítica a mentalidade reacionária da direita republicana. Leia mais

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