terça-feira, abril 26, 2016

A cegueira irracional de Bolsonaro


Se um dia Bolsonaro se tornar presidente, nos livros de Geografia constarão apenas dois países: Brasil e Cuba. Qualquer crítica à ditadura militar é sempre respondida com: "É, mas em Cuba..." ou "Não gostou, vai pra Cuba!". 
Aliás, o argumento básico dos bolsonarinhos é de que, se não tivesse se transformado em uma ditadura militar, o Brasil teria se transformado numa ditadura comunista. 
Claro, eles ignoraram completamente a IMENSA lista de países que nunca foram ditaduras e não viraram comunistas, alguns situados inclusive ao lado de países comunistas. França não virou ditadura e não se tornou comunista. Bélgica não virou ditadura e não se tornou comunista. Alemanha Ocidental não virou ditadura e não se tornou comunista. Etc etc etc... A lista é imensa.
Vejam o caso da Alemanha Ocidental. Era um país ao lado de um país comunista, e a capital, Berlim, ficava dentro do lado comunista. Ou seja: era um local propício para disseminação de ideias comunistas. 
Os alemães responderam transformando o país numa ditadura? 
Muito pelo contrário. Os alemães responderam à ditadura com democracia. Responderam ao totalitarismo com liberdade. O resultado? As pessoas fugiam do lado comunista para o lado ocidental. 
No Brasil aconteceu exatamente o oposto. A ditadura militar fez com que o discurso comunista ganhasse força, sustentou-o, deu-lhe voz. Existe uma verdade universal: quanto mais você reprime uma ideia, mais forte ela se torna. A fase em que o cristianismo mais cresceu de forma espontânea foi justamente quando ele era proibido. Lobato, que sempre entendeu muito do espírito humano, torcia para seu livro O presidente negro ser proibido nos EUA - segundo ele, a proibição geraria enorme interesse por seu livro. 
Eleitor do Bolsonaro obrigatoriamente precisa ser ruim de matemática e de conta. Eles argumentam, por exemplo, que o golpe militar aconteceu por pedido do congresso. O golpe começou dia 31 de março de 1964. No dia 2 de abril o presidente do Senado declarou vago o cargo de presidente. Três dias depois. Mas para os Bolsonarinhos, 2 de abril veio antes de 31 de março. 
O mesmo ocorre com a guerrilha comunista. Bolsonarinhos argumentam que o golpe surgiu para combater a guerrilha comunista. Mas essa guerrilha só surgiu na década de 1970, quase dez anos depois do golpe militar e só depois do AI-5, que oficialmente transformou o Brasil numa ditadura. Mas para os bolsonarinhos, a década de 1970 veio antes da década de 1960. 
Mais um fator que demonstra o quanto bolsonarinhos são ruins de história. Eles argumentam que a ditadura militar era uma democracia. O principal argumento é que havia eleições. Como se eleições definissem uma democracia. O Irã, por exemplo, tem eleições. 
Para começar, no Brasil, as eleições eram apenas para o legislativo. Os cargos executivos eram todos ocupados por queridinhos da ditadura (a exemplo de Maluf e José Maria Marin, que foram governadores de São Paulo). Mas mesmo as eleições para o legislativo valiam pouca coisa. Podia haver eleições, mas o governo sempre precisava ter maioria. Se nas eleições o governo perdia a maioria, fechavam o congresso e rearranjavam, criando congressistas biônicos (indicados pelos militares) para que o governo voltasse a ter maioria e aprovasse o que quisesse. Mais: podia existir deputado e senador de oposição, mas além de nunca poderem votar contra o governo (já que obrigatoriamente eles deveriam ser minoria), eles não podiam criticar o governo. Quem criticava o regime era preso e tinha seus direitos cassados, como aconteceu com Carlos Lacerda, que foi um dos articuladores do golpe, mas foi imediatamente preso quando começou a criticar o regime. 
Ou seja: era um congresso puramente decorativo, que não podia fazer oposição e existia apenas para dar uma "cara de democracia" e, ao mesmo tempo, contemplar políticos que apoiavam os militares, mas que não estavam ocupando cargos executivos (a exemplo de Sarney, que era presidente da Arena, partido do governo). O Congresso desse período era uma enorme farsa. Pior: uma farsa caríssima, paga pelo povo brasileiro. 

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