quarta-feira, março 21, 2018

Redação científica: resenha


         Uma resenha, ao contrário do que imagina a maioria das pessoas, não é um resumo de uma obra. A resenha exige uma leitura atenta e conhecimento sobre o assunto a ser resenhado.
         Historicamente, a resenha surgiu da necessidade de escolha entre diversos livros que estavam sendo publicados. Como escolher entre tantas obras? O resenhista era a pessoa que lia, fazia o comentário e dava ao leitor informações que permitiriam saber se interessava ou não ler a obra original. Essa função ainda é cumprida atualmente pelos cadernos de cultura dos jornais, que apresentam resenhas sobre livros, filmes e até CDs. Um interessante site de resenhas é o Digestivo Cultural (www.digestivocultural.com.br)
         Normalmente, também revistas científicas apresentam resenhas. Nesse caso, o resenhista deve ser um pouco mais cuidadoso, pois ele estará falando para pessoas especialistas em determinada área de conhecimento.
         Muitos autores têm classificado a resenha, mas a que parece mais adequada é a divisão entre resenha literária e resenha científica. A literária se destina ao público leigo e tem menos elementos obrigatórios. O objetivo é apenas apresentar informações sobre uma determinada obra, dando ao leitor condições de escolher se quer ou não comprá-la.
         A resenha científica deve, além disso, apresentar a importância científica da obra, o paradigma do autor, entre outras informações.
         Abaixo, alguns elementos necessários a uma resenha:
 Referência bibliográfica completa
O resenhista deve colocar, no início da resenha, todos os elementos bibliográficos, de acordo com as regras da ABNT. No caso de uma resenha literária, bastam o título do livro, o nome do autor e a editora.
 Credenciais do autor
Informações sobre o autor, em especial sua formação universitária, títulos e livros publicados.
Resumo da obra (digesto)
Aqui se resume as idéias principais do autor. É aconselhável que dê uma visão geral da obra, e haja um aprofundamento de um capítulo ou mais.
Conclusões da autoria
Qual é a tese do autor? O que ele quer provar com seu livro? A que conclusões ele chega?
Metodologia
Qual foi a metodologia utilizada pelo autor? O texto é apenas um ensaio, ou é resultado de uma pesquisa de campo? Sua pesquisa é qualitativa ou quantitativa?
 Quadro de referências do autor (paradigma)
Qual é o paradigma no qual o autor sustenta suas idéias? Cada área de conhecimento tem seus paradigmas específicos. Nas ciências sociais, por exemplo, há o paradigma marxista, o positivista/funcionalista, o estruturalista...
Crítica do resenhista
Esse é o momento em que o resenhista faz sua análise da obra. Qual a sua importância? Que contribuição ela traz para o seu campo de estudo. Como é a linguagem do autor? Simples, clara, complexa, rebuscada? O livro aprofunda os assunto estudados?
Indicações do resenhista
A quem se destina a obra? Quem poderia se interessar por ela? O leitor precisa ter algum tipo de conhecimento prévio para compreender o livro? É um dos itens mais importantes da resenha.
         Nem sempre é possível fazer uma resenha com todos esses elementos e já li ótimas resenhas que não de fato não tinham um ou mais elementos apresentados acima.
         Também é importante dizer que esses elementos foram divididos por questões didáticas, mas a maioria dos autores faz um texto corrido no qual aparecem as informações necessárias de uma resenha.
         A resenha científica deve evitar expressões pessoais.

 

EXEMPLO DE RESENHA

BERLINSKI, David. O advento do algoritmo: a idéia que governa o mundo. São Paulo: Globo, 2002.
         Gottfried von Leibniz foi um dos maiores gênios do século XVII. Ele se movia com facilidade pela matemática, filosofia e direito. Além disso, ele se envolveu em projetos de prensa hidráulica, horticultura e construção de moinhos de vento. Mas Leibniz acalentava um projeto especial: criar uma enciclopédia que contivesse todos os conceitos humanos. Ele acreditava que, por mais que pudesse haver muitos conceitos complexos, a quantidade de conceitos simples deveria ser pequena. E, se existe um número finito de conceitos simples, deve haver no pensamento um princípio de organização, que orquestre o modo como são combinados. No final, o filósofo concluiu que existem apenas dois conceitos simples: Deus  e o Nada. A partir desses dois, todos os outros poderiam ser construídos.
         A idéia, que parece absurda e sem nenhuma utilidade prática, é, na verdade, um dos mais úteis instrumentos da atualidade. Sem ela os computadores não seriam possíveis. Os conceitos de Deus e Nada de Leibniz são a base do 0 e 1, a linguagem binária usada pelos computadores digitais. Toda informação que adentra um computador, por mais complexa que seja, é transformada em uma série de 0 e 1, ou Deus e Nada.
         Leibniz foi, portanto, o avô do algoritmo, um sistema lógico que tornou possível os computadores. É a história da criação do algoritmos que David Berlinsk, professor norte-americano de lógica matemática, conta em O Advento do Algoritmo.
Berlinski é doutor pela universidade de Princenton e contribui regularmente com a revista Comentary. Seus ensaios sobre o darwinismo e o big bang ficaram famosos. É autor de três romances e cinco obras de não-ficção, entre elas O Legado de Newton, que será lançado em breve no Brasil pela editora Globo.
O autor faz um ensaio histórico, demonstrando a evolução da lógica matemática que levaria à criação do algoritmo. 
         O livro pode parecer um volume hermético, de interesse único dos viciados em matemática, lógica e computadores, mas não é. Berlinski tem uma linguagem simples e um jeito muito agradável de falar de coisas complicadas. Além disso, ele é um tanto poético, às vezes exageradamente poético. Ao falar da lógica aristotélica, ele se refere à decadência do Império romano da seguinte forma: “A cultura brilhante e única dos gregos antigos se exauriu quando o sol ainda brilhava. Os bárbaros começaram a vagar pelas margens rotas e esfarrapadas do Império Romano”.
         O volume tem momentos exclusivamente literários, como aquele sobre um homem que vendia sonhos, colocado ali para nos fazer ver que sonhar com a verdade pode ter um preço muito caro.
         Um preço muito caro pagou o lógico inglês Alan Turing, que se suicidou comendo uma maçã envenenada.
Turing percebeu que muitas vezes seres humanos faziam trabalhos mecânicos, que podiam perfeitamente ser feitos por um computador e imaginou uma máquina capaz de realizá-los. Ele partiu da idéia de Leibniz, de que conceitos complexos podem ser expressos através de conceitos simples. Ou seja, todas as coisas poderiam ser expressas através de dois símbolos, 0 e 1. Ou melhor, um, pois o 0 é a ausência de símbolo.
         O computador de Turing teria uma fita infinitamente longa dividida em quadrados. Teria também um mecanismo de leitura que poderia realizar três operações: 1) ler os símbolos nos quadrados; 2) mover-se pelos quadrados, de acordo com uma programação; 3) imprimir símbolos nos quadrados.
         Um exemplo simples e, ao mesmo tempo, maravilhoso de utilização da máquina de Turing é a soma 1 + 1. O número 1 é expresso através de dois símbolos, 11. O espaço em branco representa o sinal de somatória. Assim, 1+1 seria expresso da seguinte maneira: 11 espaço11. A seguir, basta dar uma programação à máquina.
A programação é a seguinte:
A leitura se move para a direita até encontrar um espaço vazio e, então, imprime 1.
         Os sinais, que eram 11 11, ficam 11111.
         A seguir ela se move novamente para a direita até encontra um espaço em branco, sinal de que agora ela deve se mover para a esquerda e, ao invés de imprimir, deve apagar os dois primeiros da esquerda e, então, parar. O símbolo resultante é 111, justamente o símbolo do número dois.
         Simples e extremamente eficiente.
         O método proposto por Turing permite que computadores possam processar qualquer informação usando apenas o Deus e o Nada.
                Só por nos mostrar que idéias aparentemente sem nenhuma utilidade prática podem se tornar extremamente importantes (e, de certa forma, governar o mundo), o livro de Berlinski já valeria a pena. Como se isso não bastasse, a editora Globo fez um belo trabalho gráfico, com uma capa belíssima e uma encadernação de primeira. Uma leitura obrigatória para os interessados em lógica matemática ou em computadores. 

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