quarta-feira, maio 09, 2018

A geração do imediatismo


O surgimento dos celulares fez com que a comunicação se tornasse extremamente intrusiva. Com celular você podia ser encontrado em qualquer hora, em qualquer local e as pessoas passaram a achar que você deveria estar disponível para conversar a qualquer momento. Quando comprei meu primeiro celular logo aprendi que tinha que desligá-lo à noite, pois muitos alunos me ligavam uma, duas horas da madrugada. Também descobri que tinha que desligá-lo quando entrava em sala de aula: muita gente simplesmente não compreendia que um professor não pode falar ao celular quando está em aula.

Parecia impossível, mas a internet no celular conseguiu deixar a comunicação ainda mais intrusiva. O surgimento dos smarthphones está criando uma geração que passa 24 horas por dia logada. Para essa geração, estar off line é como estar morto. E estar on-line é estar disponível para conversar. Antes mandava-se uma carta e esperava-se muitas vezes um mês inteiro para receber resposta. Hoje, espera-se que todas as pessoas estejam disponíveis para responder às mensagens instantaneamente.
Eu tenho sérios problemas com internet no celular. Para começar, meus dedos são grandes demais para a tela digital e quando digito um “d” sai um “s”, quando digito “p” sai um “o”, de modo que quando sou obrigado a escrever saem coisas como “xasa”, no lugar de “casa”, ou “pafamento” no lugar de pagamento. Além disso, nas poucas vezes em que ligo a internet é para usar o GPS (o GPS do meu celular só funciona com o Google Maps), de modo que, se alguém me chama no MSN do Facebook no celular, provavelmente vai me encontrar com sérias dificuldades para digitar, sem óculos de leitura e no meio da rua. Mas para a maioria das pessoas isso não parece ser impedimento para responder às mensagens. Se estou online, estou disponível para bater-papo.
Dia desses, quando cheguei em casa e fui olhar o celular, tinha o seguinte monólogo na tela do MSN:
“Gian, você pode ler um conto que escrevi?”
“Não vai ler?”
“Não respondeu, né? Seu arrogante!”
Fui ver e o intervalo entre cada mensagem era pouco mais que um minuto. Ou seja: a pessoa parte do princípio de que sua mensagem deve ser respondida imediatamente, ou o outro é arrogante e convencido.
Imaginem eu, no meio do trânsito, sem óculos, tentando ler um conto de um desconhecido e ainda tendo que emitir parecer sobre ele?  Além da impossibilidade, junta-se outro fator: qualquer escritor ou roteirista minimamente profissional não avalia original alheio. Os noveleiros da Globo são terminantemente proibidos de ler roteiros de iniciantes. O motivo é óbvio: se depois disso o roteirista fizer qualquer coisa minimamente semelhante, será acusado de plágio. Para ler originais de iniciantes existem profissionais especializados, que fazem isso sob contrato e muitas vezes não só fazem considerações estilísticas como revisam e ainda ajudam a registrar o texto. Mas nada disso é levado em consideração pela pessoa que está ali na internet e vê a bolinha verde indicando que a pessoa está on-line. Seu raciocínio é “Ah, ele está on-line, então está disponível para ler meu texto de cinco páginas”.
Dia desses me vi numa situação ainda mais embaraçosa. Enquanto estava no celular uma pessoa me mandou uma mensagem no MSN do Face (aquela coisa terrível que vibra, acende luzinha e faz sons para chamar atenção, mesmo que você não esteja no Facebook) interessada em comprar um dos meus livros sobre quadrinhos. Cegueta como sou e na pressa da rua, eu me enganei e acabei mandando o livro errado.
Quando o livro finalmente chegou, a pessoa entrou em contato, reclamando. Eu estava no meio de uma aula do doutorado, no meio de uma acalorada discussão sobre um texto e, no meu português trôpego pedi “descukpa”. Como o livro de fato pedido estava fora de catálogo, propus que a pessoa ficasse com o que eu havia enviado, como compensação (ao que ela prontamente aceitou) e eu devolveria o dinheiro. Eu sabia que o erro tinha sido meu e achei justo devolver o dinheiro e recompensar o comprador com o outro livro. Expliquei que estava em sala de aula e que resolveria o assunto assim que saísse. A pessoa simplesmente se recusou a aceitar que a situação não fosse resolvida naquele exato momento. Eu ali, tentando participar da discussão sobre o texto e tentando explicar, tropegamente, que ia depositar o dinheiro assim que terminasse a aula.
E o indivíduo: “Mas você vai depositar mesmo? Quando você vai depositar?”.
E eu, digitando e rezando para não ser visto pela professora: “Ocupado agora aula. Deposito hoje”.
E o celular vibrando: “Você vai depositar quando?”
Não teve outra solução: fui obrigado a sair da sala de aula, no meio da discussão, para ir depositar o dinheiro. Depositei, tirei uma foto do comprovante da transação, mandei para a pessoa e só então ela se acalmou.
Pior que a pessoa era um conhecido meu de antiga data e me disse que não estava suspeitando da minha honestidade. Apenas queria que a solução fosse dada na hora.
Ou seja: é uma geração em que tudo deve ser imediato. A comunicação instantânea criou a ansiedade instantânea. Se o problema não foi resolvido imediatamente, não vai ser resolvido. Se a pessoa não responde automaticamente a mensagem, ela está esnobando e é arrogante.
Em tempo: um amigo me ensinou como aparecer sempre off-line no MSN do Facebook. Foi um alívio.
Um amigo, editor de quadrinhos, que usa o Face e o Twitter para divulgar seus lançamentos, me disse que em certos dias quase não consegue trabalhar, de tanta gente querendo conversar. Como o nome dele está sempre com a bolinha verde, isso necessariamente deve significar que ele está disponível para bater papo.
Não vai longe o dia em que começaremos a ler algo do tipo: “Como assim você está morrendo? Isso não é desculpa para não responder as mensagens!”.  


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