sexta-feira, abril 04, 2025

Cavaleiro da Lua – um comitê de 5

 

No quarto volume de sua revista, o Cavaleiro da Lua enfrentou um grupo de mercernários: um especialista em explosivos, um especialista em lâminas, um atirador de elite, um campeão de karatê e Touro, um homem enorme e igualmente forte.

Esse grupo havia sido contratado pelo Comitê – e aqui Doug Moench aproveitou para costurar a primeira aventura do personagem com essa nova versão. O personagem tinha surgido como vilão da série do Werewolf, contratado pelo Comitê para aprisonar o Lobisomem, mas se revoltava contra seus empregadores. Na nova versão, o herói e Francês se infiltraram e apenas fingiram trabalhar para o grupo, quando na verdade seu objetivo era desbaratá-lo.

Nessa nova HQ, o Comitê, reestruturado, resolve se vingar e contrata os mercenários.

Cinco mercenários são contratados para matar o Cavaleiro. 

Algo que chama atenção na história é facilidade com que o Cavaleiro da Lua vence cada um dos mercenários – e o fato de que eles preferem atacá-lo individualmente e não em grupo, o que seria mais lógico. Mas o texto e o desenvolvimento da história de Doug Moench é tão eficiente que esse aspecto deve ter passado batido da maioria dos leitores, em especial porque Moech fazia uma parceria realmente memorável com Bill Sienkiewcz. 

A sintonia entre desenhista e roteirista era visível. 

A sintonia da dupla é perceptível desde as primeiras páginas, com o número 5 do título formado pelos mercenários ou o texto introduzido na capa no formato de lua do personagen, na segunda página. Além disso, os personagens vão sendo melhor desenvolvidos, incluindo Marlene, a namorada do herói, que aqui atua como espião ao paquerar um dos espiões.

Um aspecto negativo é a arte-final de Klaus Janson. Jason funcionava muito bem na parceria com Frank Miller, mas não se pode dizer o mesmo na parceria com Bill Sienkiewcz.

Laboratório Ark II

 


Na década de 1970 a Filmation, famosa pelos desenhos animados, resolveu investir em séries live action. Entre as várias produções, uma merece destaque: Laboratório Ark II.

A atração mostrava um grupo de cientistas em um mundo pós-apocalíptico que percorre a terra devastada. O texto de abertura dava o tom: “”Por milhões de anos, a Terra foi fértil e rica. Então a poluição e o lixo começaram a cobrar seu preço. A civilização caiu em ruínas. Este é o mundo do século 25. Apenas um punhado de cientistas permanece, homens que juraram reconstruir o que foi destruído. Esta é a conquista deles: Ark II, um depósito móvel de conhecimento científico, operado por uma equipe de jovens altamente treinados. Sua missão: levar a esperança de um novo futuro para a humanidade”.

A equipe era composta por pelo comandante Jonah e os adolescentes Ruth e Samuel. Completava a equipe o chimpanzé inteligente Adam, capaz de várias proezas, entre elas jogar xadrez. Os personagens usavam uma roupa branca com uma faixa azul ou vermelha na lateral, assim como botas, o que dava um ar futurista para os mesmos.

Uma das grandes atrações da série eram os veículos, a começar pelo laboratório móvel Ark II, um micro-ônibus adaptado pela produção. A equipe contava também com um veículo auxiliar, o  Roamer, feito a partir de um chassi de fusca, que apresentava uma porta deslizante que até hoje parece um conceito interessante. Outra novidade era um sistema de defesa do Ark II acionado por botão, que se assemelha muito ao que hoje em dia é chamado de alarme de carro. Completava o equipamento de transporte uma mochila voadora, que parecia um truque ou efeito especial, mas era real.

Em contraste com essa equipe super-tecnológica, a maioria da população era composta de pessoas maltrapilhas que lutavam para conseguir o suficiente para comer. É que se pode ver no primeiro episódio, Os moscas, na qual um velho arregimenta várias crianças para coletarem para ele lixo para ser trocado por comida. Numa dessas excursões o grupo encontra garrafas com um gás extremamente venenoso, o que desperta a atenção da equipe do Ark II. Mas a situação sai do controle quando o velho resolve usar o gás venenoso para conseguir poder.

Apesar das histórias interessantes, embora infantilizadas, a série não fez muito sucesso. Foram produzidos apenas 15 episódios de meia hora. Com o cancelamento da série, um episódio já roteirizado, chamado “O mar secreto” não chegou a ser produzido. No Brasil o seriado ficou conhecido ao ser exibido na década de 1980 dentro do programa Silvio Santos.

Jovens Titãs em ação

 


Eu conheci o desenho animado “Jovens Titãs em ação” graças ao meu neto e foi uma grata surpresa: esse seriado é um dos mais invetivos e curiosos da atualidade. Um verdadeiro show de humor, auto-referências e até mesmo... metalinguagem!
Nessa última categoria um episódio que vale a pena ver é Titãs Clássicos, da quarta temporada.
No episódio, um fã, chamado Maluco do Controle transforma os heróis em versões do que seria o primeiro desenho do grupo. A piada já começa aí: o plot é uma crítica direta aos nerds que reclamam que o desenho destruiu suas infâncias.
Transformados em suas versões “clássicas”, os heróis se esbaldam em comentários metalinguísticos: reclamam que só conseguem mexer a cabeça e os braços, reclamam da narração preguiçosa, que explica a trama para os expectadores (ao que o narrador retruca que, devido aos problemas da animação, ninguém entenderia a história sem sua narração) e comentam o quanto o vilão (que quer destruir o mundo com dinossauros) é unidimensional e parece não ter uma motivação real.
A primeira versão dos personagens a aparecer na telinha 

A animação é outra fonte rica de referências: eles usam todos os recursos batidos dos desenhos dos anos 1970: sons estranhos quando alguém usa poder, o vilão caricato que é mostrado diversas vezes rindo para economizar frames etc.
Uma curiosidade é que os Jovens Titãs tiveram de fato um desenho em 1967 produzido pela Filmation... e, sim, tinha todos os defeitos apontados, incluindo o narrador que contava toda a história. Dá para ver um episódio aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Ace8mpPshUM

Artigo de Gian Danton analisa os quadrinhos poéticos de Nelson Padrella

 

 A Imaginário! é uma revista eletrônica do Grupo de Pesquisa em Humor, Quadrinhos e Games - GP-HQG, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal da Paraíba, que tem como propósito a divulgação dos estudos voltados à Cultura Pop e às Artes Visuais, como História em Quadrinhos, grafite, humor, animação, fanzine e game.

O número 5 acabou de sair com uma ótima seleção de textos, incluindo uma homenagem ao pesquisador Elydio dos Santos Neto, falecido recentemente. 
A revista traz também um artigo meu sobre o roteirista Nelson Padrella, roteirista da editora Grafipar que escrevia histórias em quadrinhos eróticas-poéticas e antecipou no Brasil, o gênero quadrinhos poéticos. 
Para saber mais, clique aquihttps://www.marcadefantasia.com/revistas/imaginario/imaginario01-10/imaginario05/imaginario-5.pdf 
PlayGay, história com texto de Padrella que explora a poética nos quadrinhos.

Como funciona o método científico?

 


A maioria das pessoas não tem a menor ideia de como funciona o método científico. Para eles, as soluções científicas surgem numa espécie de passe de mágica.
O assunto é complexo, mas vou tentar simplificar aqui, focando em dois aspectos importantes: o controle das variáveis e a verificação pelos pares.
Para exemplificar, vamos usar uma hipótese: “Nióbio cura câncer”.
Como saber se essa hipótese está correta? É necessário testá-la. Como? Claro, aplicando nióbio em pessoas com câncer.
Mas não basta isso. É necessário controlar as variáveis: peso, idade, gênero, alimentação. Essas variáveis são fatores que influenciam no processo de cura.
Por exemplo, alguém pode ter uma melhora porque tem boa alimentação, e outra pode piorar porque se alimenta de forma inadequada. Ou seja, alguém pode melhorar não por causa do nióbio, mas porque se alimenta melhor.
Como evitar que essas variáveis interfiram na pesquisa? Há vários cuidados aí. Para evitar, por exemplo, que a alimentação interfira, coloco todos os pacientes com a mesma dieta. Todo mundo comendo as mesmas refeições, não tem chance da comida interferir nos resultados. A mesma coisa deve ser feita com todas as outras variáveis que possam interferir no resultado: elas devem ser controladas.
E, claro, o paciente deve estar tomando apenas aquele remédio que está sendo testado. Aplicar um coquetel de remédios no paciente esperando que um deles faça efeito é como rezar para diversos santos: no final, não se sabe quem fez o milagre.
Mas há uma variável que não pode ser pesada ou vista: é o fator psicológico. Todo mundo já deve ter passado por uma situação em que melhorou assim que tomou um remédio, mesmo antes dele fazer efeito.
De repente, todo mundo que está tendo melhoras com o uso do nióbio está melhorando só porque acha que vai ser curada.
Como isolar esse fator?
Uma das formas é criar um grupo que acha que está tomando remédio, mas na verdade está tomando só uma pílula de farinha ou açúcar, o famoso placebo.
Ao final da pesquisa, compara-se a evolução da doença no grupo que está tomando o remédio com o grupo que está tomando placebo. E compara-se esses resultados com um outro grupo, que não está tomando nenhum remédio. Esse controle permite que seja possível verificar se o remédio é de fato eficaz.
Mas espere aí, você diz: “o cientista pode simplesmente inventar a pesquisa, dizer que curou centenas de pessoas sem ter feito nada disso”.
De fato, há vários casos registrados de fraudes científicas.
Como evitar isso? Simples: com a verificação pelos pares. O cientista deve apresentar sua pesquisa, seja em uma revista ou em um congresso. E não basta divulgar os resultados. É necessário explicar todo o passo a passo para que outras pessoas possam replicar essa pesquisa e verificar se chegam ao mesmo resultado.
Há inúmeros casos de fraudes que foram descobertas assim: quando tentaram refazer a pesquisa, outros estudiosos chegavam a resultados completamente diferentes.
Pode parecer complexo – e é mesmo. Mas é graças a isso que a ciência consegue alcançar resultados confiáveis.

Homem-aranha – Asas mortíferas

 


No final dos anos 1960 os leitores achavam que o vilão Abutre havia morrido. Nos números anteriores ele havia sido substituído por um prisioneiro chamado Blackie Drago e tudo levava a crer que ele morrera num incêndio no hospital da prisão.

Mas no número 63 de The Amazing Spider-man ele volta mais mortal do que nunca.

A belíssima splash page inicial é um exemplo do talento de Romita. 


A história já inicia com uma splash page realmente memorável, com o personagem no alto de um prédio. O uso inteligente da luz e sombra e a composição com as asas dominando o quadro são uma boa amostra de como John Romita era um mestre do desenho.

Na história, o vilão rouba o uniforme usado por Drago, que estava em exposição no Museu da cidade. Depois solta Drago da prisão. Seu objetivo é enfrentar Drago vestido com o uniforme verde num combate alado e, assim, mostrar para a cidade que ele é o verdadeiro Abutre.

Vida sofrida: Parker tem dores no ombro e problemas com a namorada. 


Enquanto isso, Peter Parker sofre com mais um de seus infinitos problemas: seu ombro está dolorido em decorrência de uma história anterior. Mas quando os dois abutres se engalfinham nos céus da cidade, o rapaz é chamado por JJ Jameson para fotografar o combate do século.

Um garotinho cai da sacada do prédio destruída pelo combate e o aracnídeo é obrigado a intervir. Mas com o ombro machucado ele não é páreo para o Abutre.

O combate dos abutres coloca em risco a vida de um garotinho. 


A história termina numa daquelas situações de suspense típicas de Stan Lee: o personagem caído no meio da rua, desmaiado e à mercê da população.

A dinâmica da história não permite que Stan Lee introduza uma cena de encontro de jovens, na qual ele brilhava com diálogos certeiros e divertidos. Mas a história compensa pelas cenas de ação e pelo equilíbrio do texto. Nas primeiras histórias do aranha, Lee escrevia demais. Nessa fase, seu texto já tinha

encontrado o tamanho certo, encaixando perfeitamente no desenho elegante de John Romita.

quinta-feira, abril 03, 2025

Senhor das estrelas

 



Em 1977, o roteirista Chris Claremont, o desenhista John Byrne e o arte-finalista Terry Austin eram ilustres desconhecidos. Nesse ano, entretanto, eles produziram juntos uma obra-prima que antecipava em alguns anos os melhores momentos do trio nos X-men. Trata-se de Senhor da Estrelas.
Publicada originalmente na revista Marvel Preview (e republicada aqui em Heróis da Tv 70 e 71), Senhor da Estrelas, como o próprio nome diz, era uma história de ficção-científica: mostra um herói salvando um grupo de pessoas escravizadas.
No meio do salvamento ele descobre que a atividade está sendo usada para gerar dinheiro para um golpe de estado no império galáctico – e, como a ajuda de um garoto e uma garota salvos por ele, irão impedir que isso aconteça.
É uma trama space opera, com direito até mesmo a luta de espadas, mas não soa artificial. A trama se desenvolve de forma verossímil. A história traz inclusive uma inovação interessante: na trama, a nave é um ser vivo apaixonada pelo senhor das galáxias (à certa altura ela chega mesmo a criar uma imagem feminina).
Claremont é conhecido por escrever exageradamente e aqui ele escreve muito, mas o texto não é supérfluo.

Já o desenho é uma atração à parte. Byrne sempre teve um traço elegante, mas nessa HQ se supera, brincando com a diagramação – em certa sequência, um mostro destrói um barco, avançando pelos quadros, junto com o texto. Já o arte-finalista Terry Austin não só torna o traço de Byrne mais refinado como o elabora ainda mais, com o uso, por exemplo, de retículas. Detalhada em alguns momentos e apenas delineada em outros, a arte-final se encaixa perfeitamente no desenho.
Infelizmente essa fase do personagem na época teve poucas histórias. E, sim, esse é o mesmo personagem dos filmes do Guardiões da Galáxia, embora nos filmes ele seja muito diferente. 

Lídia Poet

 


 

Lídia Poet, série criada por Criada por Guido Iuculano e Davide Orsini, é baseada em uma personagem real, a primeira advogada italiana. Formada numa época em que o machismo imperava, ela foi proibida de exercer a profissão, tornando-se assistente do irmão.

O seriado pega essa figura real e essa premissa para construir uma trama policial, em que Lídia resolve um crime a cada episódio enquanto tenta conseguir novamente a permissão para advogar.

A estrutura é mais ou menos a mesma: Lídia se depara com um cliente que está preso por um crime que não cometeu e deverá provar sua inocência.

É uma estrutura interessante, com um bom desenvolvimento. Não há exageros ou piruetas narrativas, como temos visto em Enola Holmes, muitas vezes com soluções pouco críveis. A narrativa é simples, mas envolvente. Lídia consegue resolver as situações com um senso de observação apurado e raciocínio lógico. Em uma das histórias, por exemplo, ela percebe que a principal testemunha contra sua cliente é um vigia alcoolatra que dormiu em serviço. O final parece uma consequência muito lógica do veio antes.

Vale destacar a atuação fenomenal de Matilda De Angelis, com suas pequenas expressões faciais extremamente reveladoras. A moda da época, um período em que as mulheres usavam cabelos presos, com chapéus, também ajuda a atuação, já que dá destaque para seu rosto. Aliás, o figurino usado por Lídia também cabe um elogio por sua elegância.

A primeira temporada tem seis episódios que passam muito rápido, pois é muito difícil deixar um episódio pela metade.

Solomon Kane

 


Robert E. Howard é muito conhecido pelo bárbaro Conan, mas poucos dos que acompanhavam as aventuras do cimério nos quadrinhos sabem que seu primeiro personagem de sucesso foi outro, o puritano Solomon Kane. Aliás, os contos originais eram praticamente inéditos no Brasil até 2015, quando a editora Generale publicou um livro com todos os contos do personagem.
O primeiro conto do puritano foi publicado em agosto de 1928, na revista Weird Tales. Howard havia sumetido o texto anteriormente para a revista Argosy, que pediu várias alterações e ofereceu a módica quantia de 80 dólares. Já o editor da Weird Tales gostou tanto do personagem que ofereceu um bom pagamento e a capa daquele número. O personagem fez enrome sucesso entre os leitores, abrindo caminho para Conan.
O volume mostra que Howard era um escritor muito acima dos autores de pulps. Ele depurou o estilo pomposo de Lovecraft criando algo que influenciaria muita gente, inclusive George Martin, de Guerra dos Tronos.
O texto era repleto de adjetivos. As névoas eram prateadas, as brisas eram fracas, o odor era mortiço, a mesa era rústica. Isso normalmente é visto como um defeito na literatura, mas Howard sabia manejar esses adjetivos para criar uma prosa poderosa e impactante. Um exemplo: “Restou a impressão de ter cambaleado por séculos histéricos em meio a estreitas e sinuosas ruas, nas quais demônios gritavam, lutavam e morriam, enquanto a terra se desprendia e tremia sob sues pés vacilantes, entre paredes titânicas e colunas negras que se sacudiam contra o céu e arrebentavam em volta de Kane, em um trovejar que preenchia o mundo”.
Acrescente a essa narrativa poderosa, um personagem interessante. Segundo Alexandre Callari (que traduz o volume e escreve a apresentação), “O puritano é, possivelmente, o personagem mais complexo de Howard, superando ate´mesmo o bárbaro Conan”. De fato, as dubiedades de Solomon são parte do seu charme: é puritano, mas usa magia negra, é racista, mas se alia a um feiticeiro africano, é frio e calculista na esgrima, mas também é uma fera irrefreada.
Os nove contos desse volume essencial são uma ótima amostra de como Robert E. Howard era um grande escritor.

São Tomás de Aquino e a vitória do ocidente

 


Lendo sobre São Tomás de Aquino, no livro Viagem na Irrealidade Cotidiana, de Umberto Eco é que percebo a importância imprevista desse pensador para a configuração do mundo em que vivemos hoje. Não fosse ele, talvez fôssemos hoje mulçulmanos e falássemos árabe.
Eco conta que o santo era zombado pelos companheiros por sua vagarozidade, chamado de boi mudo. Era tão gordo que precisava de duas cadeira para acomodar suas gigantescas nádegas. Certa vez os frades brincalhões gritaram que lá fora havia um asno voador. Tomás corre para a janela enquanto os outros se escangalham de rir. Na volta, o futuro santo faz com que se calem argumentando que achou mais verossímil um asno voar que um monge contar uma mentira.
Para surpresa de todos, algum tempo depois ele se torna professor adorado pelos alunos. E tem um objetivo em mente: resgatar a filosofia de Aristóteles. Até então o Ocidente se contetava com Platão e Agostinho os livros de Aristóteles eram proibidos. O grego é conhecido quase que exclusivamente pelos árabes, muito mais adiantados que europeus tanto na filosofia quanto na ciência. Exemplar é a criptografia: enquanto na Europa qualquer mensagem codificada era considera segura, no Islã os pensadores já conheciam os avançados métodos probabilísticos que considera a freqüência da aparição de cada letra em cada língua. Os árabes da Idade Média eram sábios e refinados, comparados com os europeus. 
Agostinho e Platão poderiam dar contar muito bem do mundo espiritual (ou mundo das idéias), mas pouco diziam sobre o mundo físico. Aristóteles, ao contrário, estudava lógica, psicologia, física, classificação de animais e os movimentos dos astros.
As idéias de Aristóteles traziam em seu bojo a razão, o estudo da natureza e a possibilidade de determinar os eventos.
No mundo árabe, Averróis já recuparava as idéias do filósofo grego. Para ele, Deus contruiu a natureza em sua ordem mecânica e em suas leis matemáticas, reguladas pela determinação férrea dos astros. O mundo tem uma ordem, orquestrada por Deus. Para o filósofo/cientista resta achar ordem em meio ao caos.
Antes de Tomás de Aquino, ao copiar um texto antigo o comentador ou copista, ao encontrar algo que não se encaixava com os ditames da religião católica, simplesmente apagavam as frase “errôneas” ou as retiravam para as margens para colocar em guarda o leitor. Tomás utiliza outro método. Primeiro alinha as opiniões divergentes, esclarece o sentido de cada uma, questiona tudo, até o dado da revelação, enumera as objeções possíveis e tenta a mediação final. Tudo feito às claras, sob a ótica da razão.
Com isso podia ser demonstrado que o verdadeiro sentido da filosofia aristotélica era católico apostólico romano. Tomás cristianizou Aristóteles.
Consegue seu intento com rapidez tremenda para a lenta Idade Média européia. Antes dele se afirmava que “O espírito de Cristo não reina onde reina o espírito de Aristóteles”. Em 1210 todos os seus livros estão proibidos. Em 1255 toda a obra de Aristóteles está liberada e Aristóteles é considerado um sábio que deve orientar a fé cristã.
A luta de Tomás permite que entre no espírito da Europa a razão, a pesquisa empírica e o determinismo. Quando alguns séculos depois Descartes vai formatar o pensamento cartesiano, isso só é possível graças à herança aristotélica, resgatada pelo santo católico.
Ao mesmo tempo em que a Europa entrava na modernindade, Descartes e depois Newton dão a base da metodologia científica, desenvolvem-se as grandes navegações, o Islã fecha-se para novidades, enclausurado em uma fé religiosa rígida, como era o catolicismo da Idade Média.
Como os povos árabes, tão sábios e cultos da Idade Média, foram ultrapassados pelos incultos e fanáticos europeus? A resposta pode estar em São Tomás de Aquino. Ele parece ter sido aquilo que os teóricos do caos chamam de efeito borboleta: pequenos eventos que podem provocar grandes alterações. Não fosse ele, talvez hoje estivéssemos falando árabe e rezando na direção de Meca. 

Camelot 3000 – Traição

 

O capítulo 7 da série Camelot 3000 é focada nos dramas pessoais dos personagens.

O drama do rei Arthur é sintetizado com perfeição em um quadro no qual a rainha se despede de Lancelot. Os dois se dão as mãos em primeiro plano enquanto Arthur olha em segundo plano. Só o leitor consegue ver que Guinever entrega um bilhete para seu amante.

O último quadro mostra como Camelot 300 sabia aproveitar as imagens para narrar acontecimentos e intenções.


Em uma narrativa paralela acompanhamos Tristão, que finalmente encontrou a sua Isolda e as duas se beijam naquele que, provavelmente é o primeiro, senão um dos primeiros beijos lésbicos dos quadrinhos DC. Mas o cavaleiro não aceita a relação por não aceitar seu corpo. “Eu quero tanto... e me odeio tanto por isso”. Mais do que o beijo lésbico, a série foi inovadora a mostrar uma personagem que não aceita o próprio corpo, pois, embora seu corpo seja feminino, ela se vê como um homem.

Essa foi uma forma inteligente da parte de Mike W. Barr de introduzir conflito na relação do casal, uma vez que na versão original da lenda, os dois não podiam ficar juntos pelo fato de Isolda ter sido prometida em casamento ao tio de Tristão.

O beijo lésbico... 


Mas uma HQ desse tipo precisa ter também ação e isso é providenciado com um ataque ao local em que são feitos os neo-humanos. Na sequência Arthur quase é morto, mas acaba sendo salvo por Percival, que se torna o líder dos neo-humanos, fazendo com que eles se aliem a Camelot.

... que foi censurado pela Abril. 


Nessa sequência, aliás, descobrimos que os neo-humanos são dissidentes políticos, pessoas que de alguma forma se tornaram indesejadas de algum governo mundial, o que deixe ainda mais clara a crítica política da série.

No final da edição, Lancelot e Guinevere são flagrados pelo rei Arthur em pleno ato sexual.

A relação entre Lancelot e Guinevere...


Ao publicar a história, em Superamigos 1, a Abril censurou em parte a mesma, cortando a parte em que Guinevere aparece nua e dividindo o quadro em dois, com a parte de baixo do corpo em cima e a parte de cima em baixo. Foi um daqueles momentos em que, mesmo censurando, a abril acertou, pois criou uma sequência em que, embora o nu não fosse mostrado, o leitor conseguia compreender perfeitamente o que estava acontecendo.

... ganhou uma censura mais sutil.


Um corte menos inspirado foi a sequência entre Isolda e Tristão. A abril simplesmente cortou o beijo entre as duas, ampliando os demais quadros para completar a página.

Superman - O Mundo de metrópolis

 


A entrada de John Byrne no título do Super-homem e sua consequente reformulação marcou o fim definitivo de qualquer vestígio que o personagem pudesse ter da era de prata. Entretanto, Byrne foi responsável por uma série que ecoa (talvez como homenagem) diretamente a era de prata. Chamada World of Metropolis (O mundo de Metrópolis), ela tirava o foco das grandes tramas e dos super-vilões para o mundo dos personagens secundários da série. Cada número era focada em um desses personagens (curiosamente, Clark Kent era um desses, o que mostrava bem a ideia que Byrne tinha sobre o título): o primeiro em Perry White, o segundo em Lois Lane, o terceiro em Clark Kent e o último em Jimmy Olsen.

O traço de Mortimer deu um ar saudosista à série.


Embora o roteiro e as capas fosse de Byrne, a arte ficou por conta de Win Mortimer, um desenhista canadense, veterano da DC, o que dava à série um visual retrô.

Há uma estrutura fixa nas histórias: elas sempre começam no presente, e depois há vários flash backs contando alguma história sobre o personagem. Perry White, por exemplo, disputava a esposa com Lex Luthor, o que mostra a razão pela os dois se odeiam tanto. Lois Lane estrela uma história na qual é mostrado como ela, com apenas 15 anos, conseguiu um furo de reportagem e assim foi contratada pelo Planeta Diário. A história de Jimmy Olsen mostra como ele inventou o relógio com o qual chama o Super-homem.



Uma das histórias mais interessantes – e que mais reverberam a era de prata, é “Um estranho na cidade”, focado em Clark Kent.

Na história é mostrado como Kent chegou em Metrópolis, como se tornou repórter e a relação que teve com uma relação com uma garota, Ruby.

Ainda um novato na cidade grande, o jornalista não usava um uniforme quando agia como herói (uma estratégia usada por Byrne para diferenciar Kent do Super que conhecemos).



Assim, ainda novato, ele se depara com um grupo de malfeitores com armamento pesado atirando contra a polícia. A sequência, hilária, é típica da era de prata: os terroristas usam uma arma para atirar uma bomba na polícia, mas Kent, usando super-velocidade, apodera-se da bomba. Eles tentam de novo, e de novo a bomba parece desaparecer. Quando eles começam a atirar com uma metralhadora, a visão de calor faz com que as balas evaporem.



Essa série mostra bem que, embora John Byrne tenha contribuído para colocar um ponto final na era de prata da DC, ele no fundo era um fã dessa fase.

 No Brasil essas histórias foram publicadas pela Abril em Super-homem especial 2.

quarta-feira, abril 02, 2025

MAD 18 - No Limite do Senado

 

Na época da MAD 18 dois assuntos estavam na boca de todos: a volta do reality show No Limite e mais um dos inúmeros escândalos de corrupção no Senado, na época comandado pelo famoso bigodudo. Quando o Raphael Fernandes me convidou para fazer a sátira do No Limite pensei em juntar as duas coisas e assim surgiu No Limite do Senado, no qual os integrantes ficam presos em uma ilha e ganha a disputa quem consegue roubar mais dinheiro. O editor Raphael Fernandes teve a ideia de divulgar as imagens da história como se ela tivesse sido censurada por políticos, o que chamou ainda mais atenção para a HQ. Os desenhos ficaram por conta do Anderson Nascimento.