sábado, fevereiro 28, 2026

Mulher-Hulk contra os Homens-sapo

 


Em uma das suas primeiras histórias do Hulk (quando nem Stan Lee nem Jack Kirby sabiam exatamente o que fazer com o personagem), o personagem enfrentou uma ridícula invasão alienígena orquestrada por... homens-sapo.

John Byrne caçoa dessa situação logo na capa do segundo número da revista She-Hulk. A personagem come biscoitos, toma leite e lê um gibi enquanto comenta: “Meu, o primo Bruce enfrentava cada bando esquisito no começo da carreira...!”. Enquanto isso, ao fundo, homens-sapo se aproximam ameaçadores.

Homens-sapo? Sério, Byrne? 


Já na primeira edição da revista, Byrne mostrava que a metalinguagem e o humor seria a tônica, algo que é extrapolado neste número com etiquetas do editor-chefe e dos editores nas laterais das páginas, como se fossem comentários sobre a trama. O editor-chefe reclama que falta ação nas primeiras páginas, que mostram a personagem se mudando para um novo apartamento – Byrne chega a usar uma página dupla para mostrar o novo lar.

Quando a ação finalmente explode, é também numa página dupla, com um amontoado de naves sobre o céu de Nova York. “E aí, não tá pra lá de cósmico?”, argumenta o editor, num dos bilhetes laterais. “Nada mal!”, responde o editor-chefe. “Mas eu teria colocado um pouco mais de espaçonaves!”.

Byrne usa bilhetes na laterais para fazer piadas metalinguísticas. 


A invasão parece ter um alvo: a mulher-hulk, tanto que eles invadem o apartamento da heroína, que exclama revoltada: “Homens-sapo, Byrne? Homens-sapo? Pensei que a capa fosse só uma piada!”.

Embora Byrne exagere nas piadas, ele consegue construir uma história simples, divertida e com uma reviravolta muito interessante no final.

O grande segredo, de Fritz Lang

 


O grande segredo é  filme de Fritz Lang, de 1945. Lang é um mestre do suspense e usa todos os seus recursos narrativos nesse triller de espionagem em que um cientista americano tem que levar um físico italiano para os EUA como forma de evitar que os alemães construam a bomba atômica.
Lang usou um argumento super atual na época com maestria. O roteiro é muito bem construído e vai numa espiral em que um fato puxa outro, que puxa outro, que puxa outro. Quando parece que as coisas vão acalmar é exatamente quando elas complicam.
Destaque para a composição das cenas, com uso sempre inteligente de espelhos e da profundidade de campo, como na cena em que os dois cientistas estão conversando e o retrato de Mussolini na parede parece olhar para eles, criando um clima de angústia no expectador. Lang sabia usar como ninguém o cenário como elemento narrativo e as inovações trazidas por Orson Welles em Cidadão Kane cairam como uma luva para esse filme.
Também vale destacar que a película não se limita ao aventuresco. A personagem Gina, de Lili Palmer, por exemplo, acaba ganhando grande profundidade, em oposição ao herói, que pelos padrões da época precisava ser alguém infalível.
Um clássico, sem dúvida.

Amor além da vida

 

Assistimos Amor além da vida, filme dirigido por  Vincent Ward baseado no livro de Richard Matheson. O filme conta a história de Chris (Robin Williams) e Annie (Annabella Sciorra), um casal feliz que é abalado pela morte dos filhos. Quatro anos depois, é Chris que morre e acompanhamos sua jornada no mundo espiritual e sua tentativa de se comunicar com a esposa.
Richard Matheson é um dos grandes mestres da literatura de gênero, autor, entre outros, de Eu sou a lenda. Ele constroi um roteiro que lembra muito as ideias do espiritismo, com as suas devidas liberdades poéticas. Por exemplo, o espiritismo diz que a mente pode moldar a realidade no mundo espiritual e isso fica claro na sequência em que o protagonista se vê no meio de uma pintura da esposa.
Nesse mundo, em que a mente molda a realidade, interessante a versão do inferno: ele não é um local em que demônios espetam e queimam pessoas. A verdadeira tortura é imposta pelas pessoas, fruto de suas próprias consciências pesadas. Exemplo disso são os suicidas, que vivem num inferno particular.
É impossível ver a sequência do inferno sem lembrar do umbral espírita.
Mas, independente de questões religiosas, o filme é uma bela adaptação da Divina Comédia. Recomendo. 

A arte hiper-real de Ron Mueck

 

Ron Mueck é um artista australiano radicado na Gran Bretanha. Seu trabalho reproduz figuras humanas com perfeição hiper-real, mas em escalas estranhas (ou muito pequena ou muito grande), que desconsertam o expectador e o levam a um outro olhar sobre a realidade.









Monstro do Pântano – A saga do Fuça radioativa

 


A partir do momento em que assumiu o título do Monstro do Pântano, Alan Moore o transformou num dos mais revolucionários do mercado dos comics. Inclusive sua reformulação do personagem, mostrando-o como uma planta e não como um ser humano.

Mas o ponto de virada que mostrou que o título estava anos luz à frente de outros do mercado foi a saga do Fuça radioativa, publicada nos número 35 e 36.

Moore construiu a trama em torno dos perigos do lixo nuclear – e a pesquisa feita por ele aparece na história na forma de recortes de jornais sobre o assunto, que surgem das mais variadas formas na HQ.

Um mendigo que bebe resíduos radioativos é o vilão da história. 


A história mostra um mendigo, o tal Fuça Radioativa, que se refugiava nas cavernas de carvão desativadas da Pensilvania. Quando o local passa a ser usado para guardar lixo nuclear, ele começa a abrir os tonéis para beber o líquido e sobrevive, mas torna-se uma ameaça involuntária.

A história começa com ele conversando com um homem que foi expulso da pensão onde morava. Ele lhe oferece a bebida. O resultado, claro, é a morte do homem. No final da história, ele encontra com o Monstro do Pântano e, acreditando que ainda fala com o antigo companheiro, não só toca nele (o que provoca uma ferida radioativa na vegetação que compõe o corpo do herói), como ainda o faz beber o líquido. Isso fará com que o personagem morra.

A morte do personagem provocou grandes mudanças no título. 


Essa primeira parte já valeria a pena por si só, mas o grande destaque vai para a segunda parte.

Numa narrativa que Moore diz ter emprestado de Gabriel Garcia Marques, Moore mostra os mesmos fatos do ponto de vista dos diversos personagens envolvidos na história: o xerife, a dona da pensão, o garoto que viu o monstro radioativo e o apelidou de fuça radioativa.

A história é narrada por diversos personagens, como um quebra-cabeça que deve ser montado pelo leitor.


Mas a parte central são as narrações de Wallace Monroe, funcionário da empresa nuclear, e Theasure, sua esposa grávida. A versão de Wallace o mostra encucado com a possibilidade dos acontecimentos da Pensivania se repetirem na Flórida. Ele sai para tentar esquecer o assunto, penetra no pântano, se perde ali, volta para o hotel e descobre que a esposa desapareceu. Quando finalmente a encontra, foge dela (“Não suporto mais encarar o seu olhar. Dou meia volta e começo a corerr... já sabendo que não devo parar nunca”). Só iremos entender a razão desse comportamento quando lemos a versão da esposa.

A história, assim, é configurada como quebra-cabeças cujas peças precisamos juntar para entender o conjunto.

Não bastasse esse aspecto revolucionário da forma, a história também marcaria uma mudança definitiva nos rumos e até nos poderes do personagem.

Perry Rhodan – Operação aço arcônida

 


Existem volumes de Perry Rhodan que funcionam quase como se fossem contos isolados. Outros nitidamente fazem parte de uma história maior, mas podem ser lidos isolamente. E outros são tão conectados a outros livros que parecem não funcionar sozinhos. Exemplo desse último caso é o volume 46, Projeto aço arcônida, escrito por Kurt Brand.

No volume anterior, Rhodan fizera um ataque inédito aos aras, os médicos estelares que vivem de criar epidemias e vender remédios para elas.

Como vingança, os aras decidem destruir a Terra. Mas como não têm armas, precisam dos saltadores e dos superpesados e para isso marcam uma reunião na lua de um planeta. Rhodan resolve aproveitar a reunião para introduzir seus mutantes na nave de Topthor, a única pessoa que tem a informação sobre a localização da Terra. A ideia é invadir seu computador de bordo e introduzir uma outra localização. Para isso, Rhodan conta com a ajuda de Talamon, um superpesado que se tornara seu amigo.

A capa original alemã. 


A trama é interessante. O problema é a grande quantidade de pontas soltas, ganchos não resolvidos. O próprio título é um exemplo, já que, embora a questão do aço arcônida seja mencionada em vários momentos, não há, de fato, uma operação para resgatar esse aço. Além disso, temos várias outras situações: à certa altura o hipercomunicador da nave de Talamon é ligado quando ele está conversando com Reginald Bell, o que indica que a nave tem um traidor. Além disso, uma força invisível e misteriosa parece ser mais poderosa do que os próprios mutantes; há um gancho sobre um mundo chamado Exsar, onde os aras haviam instalado uma epidemia extremamente mortal, mas que não parece ter muito impacto sobre os acontecimentos. Simplesmente nada é resolvido, explicado ou solucionado nesse volume.  Algumas dessas questões serão resolvidas em livros posteriores. Outras ficariam como pontas soltas.

Eu, assim como muitas pessoas, lia os volumes conforme ia conseguindo os mesmos nos sebos. E esse é um que certamente passaria totalmente batido se tivesse lido antes, quando não tinha todos os números do primeiro ciclo.

Uma curiosidade desse volume é a informação sobre o cérebro regente de Árcon. À certa altura, Kurt Brand informa que o computador ocupa uma área de dez mil quilômetros quadrados. Incrível como o futuro nesse ponto é tão diferente do imaginado pelos autores, que não conseguiram imaginar o processo de miniaturização pelo qual passariam os computadores. Hoje em dia cabe na palma da mão um aparelho com capacidade de computar muito mais informações do que um aparelho que ocupava um prédio inteiro na década de 1950.

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Os especialistas em Orwell que não leram Orwell

Foto da minha coleção.

 

O escritor inglês George Orwell é a Clarice Linspector das citações políticas. Já vi as mais variadas falas creditadas a ele. Muitas são textos tirados do contextos. Outras são simples invenções. E muitos e muitos são os“especialistas em George Orwell” que nunca leram seus livros, ou quando muito leram os mais famosos, A revolução dos bichos e 1984.

O mais bizarro disso é a apropriação que o fascismo faz de George Orwell.

O escritor deve estar se revirando na cova. Logo ele, que lutou, ao lado dos trotskistas e anarquistas na Espanha contra o fascismo, ver sua obra e seu nome sendo apropriados pelos fascistas, muitas vezes com estratégias que ele mesmo denunciou no livro 1984, como a mudança do passado.

Para se ter uma ideia, agora que os livros do autor entraram em domínio público, uma editora fascista lançou 1984 e A revolução dos bichos. Para divulgar, simplesmente inventou fatos sobre a vida de Orwell. Segundo o texto de divulgação, 1984 foi recusado pela maioria das editoras inglesas por causa da aliança entre Inglaterra e a Rússia stalinista.

Em 1948, quando Orwell escreveu 1984, não existia mais essa aliança – ele ele era um best-seller, razão pela qual as editoras disputaram o livro. O livro A revolução dos bichos chegou a ser recusado por editoras, mas a razão era outra: livros com animais normalmente não vendiam bem e os editores temiam levar prejuízo.

A maioria das pessoas que cita George Orwell nas redes nunca leu qualquer livro dele além dos dois mais famosos (a maioria na verdade não leu nem esses dois e falam por “ouvir dizer”). São pessoas que acham que ele era um lorde inglês conservador que escrevia enquanto o mordomo lhe servia whisky.

O primeiro livro que li de Orwell foi 1984, no início dos anos 90, numa edição comprada em sebo, ao preço de uma passagem de ônibus (naquele dia eu voltei andando para casa). No final, eu tinha entrado em uma loja para comprar algo para minha avó e, quando o vendedor me entregou, fiquei lá, parado, porque não conseguia parar de ler. 

A partir daí fui comprando tudo que encontrava do autor. O que não conseguia comprar, lia de bibliotecas.

Orwell marcou meu estilo principalmente pela narrativa limpa e incisiva, sem firulas, pelo texto jornalístico impecável, com descrições extremamente vivas.

Outra característica de Orwell era a preocupação com temas sociais.

Essa preocupação o levou a escrever A caminho de Wigan, no qual ele denunciava a vida miserável dos mineiros de carvão na Inglaterra e como eles eram explorados.

A inquietação com os oprimidos o levou a se disfarçar para viver como mendigo – depois ele perderia o emprego e se tornaria de fato um mendigo, como relatado em Na pior em Paris e Londres.

O medo do fascismo o levou a se engajar na luta contra os fascistas na Espanha, como relatado no livro Lutando na Espanha. Aliás, foi ali na Espanha que ele percebeu que o fascismo tinha sua contrapartida esquerdista, o stalinismo. Quase foi morto pelos fascistas, quase foi morto pelos stalinistas. Toda a sua obra reverbera uma viva crítica a qualquer tipo de autoritarismo, seja ele de direita ou de esquerda.

Como critica aos conservadores ele escreveu um livro, A filha do reverendo, sobre uma professora que é massacrada pelos pais conservadores ao encenar com as crianças uma peça de Shakespeare, McBeth, que tinha uma referência ao parto.

Para quem, como eu, leu toda a obra de Orwell, é absolutamente lamentável ver a obra e o nome do autor serem apropriados por aqueles que ele mais combateu em vida.

Uma curiosidade é que, por outro lado, há muitos esquerdistas, especialmentes aqueles afeitos ao stalinismo, que chamam Orwell de fascista. Incrível como os extremos se parecem. 

Em tempo, quando ainda estava vivo, Orwell escreveu para um amigo explicando a tese principal do romance que ele estava escrevendo. Essa carta pode ser lida aqui

Um trecho: 
"Para onde quer que se olhe, todos os movimentos nacionalistas, patriotas, mesmo os que surgiram como forma de resistência ao domínio alemão, parecem assumir formas não-democráticas, organizando-se em torno a algum tipo de fuhrer sobre-humano (...). Acrescente-se a isto o horror do nacionalismo exacerbado e uma tendência à descrença na existência das verdades objetivas, já que todos os fatos têm que se adequar às palavras e profecias de algum fuhrer infalível. Na verdade, em certo sentido, a história já deixou de existir, não havendo mais uma história contemporânea que possa ser universalmente aceita, e as ciências exatas também estarão ameaçadas tão logo não se precise mais do exército para manter a ordem. Hitler pode dizer que os judeus começaram a guerra, e se ele sobreviver, isso passará a ser a história oficial. Mas ele não pode dizer que dois mais dois são cinco, porque para os objetivos, digamos, da balística é preciso que essa soma continue sendo quatro". 

Parece que Orwell profetizou o mundo atual, não? 

Ps: Se George Orwell estivesse vivo hoje em dia, os bolsonaristas diriam que Orwell não entendeu a obra de Orwell.  

Teatro da Paz, em Belém

 

Escadaria do Teatro, com o belíssimo candelabro. 
Belém é uma cidade repleta de belíssimos prédios, estátuas e monumentos. Pena que os governantes dão pouca atenção ao turismo e preservam pouco, ou seriam um dos grandes destinos turísticos do país. Entre os vários locais interessantes está o Teatro da Paz. Situado na Praça da República, no centro da cidade das mangueiras, ele foi inaugurado em 1878, no auge da exploração da da borracha. Construído em linhas neo-clássicas, é um belo exemplo de como a cidade já foi luxuosa. Atualmente é possível fazer visitas guiadas a um preço módico de 6 reais. Confira algumas fotos.



Os bustos representam as artes, segundo os gregos. 



Do teatro é possível ter uma visão privilegiada da Praça da República. 

O monumento no meio da Praça da República representa a Democracia. 
A praça da República tem belíssimas estátuas. 



Jornada nas estrelas – obsessão

 


Obsessão, episódio da segunda temporada, é um ponto fora da curva na série clássica de Jornada nas estrelas.

Obviamente inspirado em Moby Dick, a trama acompanha Kirk obsecado em destruir uma criatura gasosa encontrada em um planeta. Essa mesmas criatura havia, anos antes, provocado a morte de boa parte da tripulação e inclusive do comandante de uma nave na qual Kirk servira como alferes. A obsessão surge, então, de um sentimento de culpa: Kirk acredita que poderia ter impedido as mortes e, ao caçar a criatura, procura redensão.

O filho do comandante da nave destruída pela criatura agora trabalha na segurança da Enterprise e reprisa o papel de Kirk: alguns dos seguranças morrem quando ele hesita por instantes ao atirar na criatura.

Além disso, há um carregamento de vacinas que precisa ser entregues antes que estrague, o que torna tudo muito urgente.

O problema é que não parece um episódio de Jornada. Kirk está irreconhecível. É difícil para qualquer um acostumado a ver Jornada crer nesse Kirk obcecado por destruir uma criatura, caçando-a pelo universo. Em vários outros ótimos episódios da série é mostrado que o monstro da semana nem sempre era um monstro e quase sempre tinha uma motivação real.

Essa obsessão torna-se ainda mais inverossímil diante do fato de que o atraso em entregar as vacinas pode provocar milhões de mortes.  

E, no final, a solução óbvia, baseada na força (uma bomba de anti-matéria) ajuda a completar o quadro estranho. Nos melhores episódios de Jornada a solução nunca vem da força.

O terror, segundo Stephen King

 


Uma das melhores partes do livro de contos Sombras da noite, de Stephen King é o prefácio, escrito pelo próprio autor. King costuma fazer prefácios deliciosos, nos quais relata fatos de sua vida pessoal e conta os bastidores de seus livros. Nessa antologia, no entanto, ele segue um caminho diferente: prefere refletir sobre o que é o terror e qual o mecanismo psicológico por trás dele.

King começa sua análise referenciando uma resenha de um filme de terror no qual o crítico dizia que a película era indicada para pessoas que costumam diminuir a velocidade para ver um acidente de carro. Segundo King, a maioria das pessoas tem esse instinto e é isso que o gênero explora, mesmo em suas versões mais refinadas: “Eles anda estão mostrando o acidente de carro; os corpos foram removidos, mas ainda podemos ver as ferragens retorcidas e observar o sangue no estofamento. Em alguns casos, a delicadeza, a ausência de melodrama, o tom grave  e estudado da racionalidade que perspassa histórias como O véu negro do ministro é ainda mais terrível do que as monstruosidades batráquias de Lovecraft ou o auto de fé de O poço e o pêndulo, de Poe”.

Segundo King, todos temos interesses nos horrores, sejam ficcionais ou reais. Mas esse interesse é acompanhado por um sentimento de culpa “uma culpa que não parece muito diferente da culpa que costuma acompanhar o despertar sexual”. Segundo King, se o sexo leva à autopreservação, o medo leva à compreensão de nosso fim derradeiro. Talvez por isso sexo e terror andem quase sempre juntos (algo praticamente explícito no mito do vampiro).

Para King, o gênero faz sucesso porque permite um processo de identificação e catarse. Dessa forma, o terror funciona como uma espécie de filtro entre o consciente e o subconsciente: “A ficção de terror é como uma estação central de metrô na psique humana, entre a linha azul daquilo que conseguimos incorporar com segurança e linha vermelha daquilo de que precisamos nos livrar”.

Ao ler um conto de terror, o leitor tira do cesto um dos horrores imaginários do escritor e coloca ali seus horrores pessoais.

Essa teoria é exemplificada com dois fenômenos: os filmes sobre insetos gigantes e os filmes de terror adolescente.

Os filmes sobre insetos gigantes revelam o medo do terror atômico. Os insetos invariavelmente se transformam quando entram em contato com radiação. Segundo King, eles revelam uma Gestalt de terror de um país inteiro diante da nova era que o Projeto Manhattan inagurara.

Os filmes de terror adolescente, como Eu fui um lobisomem adolescente revelam um fenômeno mais complexo. Do ponto de vista dos pais, revela o medo diante da revolução juvenil que já se fermentava no final dos anos 60. Para os adolescentes, era uma oportunidade de ver alguém mais feio do que eles se sentiam. O que eram algumas espinhas diante da coisa trôpega do filme Eu fui um Frankstein adolescente?

Por outro lado, esses mesmos filmes expressam o sentimento dos adolescentes de que estavam sendo injustamente subjugados e diminuídos pelos mais velhos. Esse último aspecto de catarse se revela no invariável esquema dos enredos: uma criatura terrível está ameaçando a cidade; apenas os adolescentes sabem disso e não conseguem convencer os adultos do perigo; no final são os garotos espertos que dão cabo da criatura verruguenta e depois se reúnem no ponto de encontro costumeiro para beber chocolate maltado e dançar enquanto os créditos rolam sobre a tela.

King esclarece, no entanto, que diretores e roteiristas não tinham noção de que estavam criando uma peça de catarse coletiva: “isso aconteceu porque as histórias de terror ficam mais à vontade naquele ponto de conexão entre o consciente e o insconsciente, o lugar onde tanto a imagem como a alegoria ocorrem mais naturalmente e com efeito mais devastador”.

É muita coisa para um gênero que durante anos foi visto com desdém pela crítica.

Tartaruga Touché

 


Se há um desenho animado da Hanna-Barbera cujo conceito é bizarro é Tartaruga Touché. O protagonista era um cágado esgrimista usando um chapéu de mosqueteiro e uma espada. Seu ajudante era um cachorro com um chapéu pequeno e um cachecol.

As histórias seguiam um esquema mais ou menos fixo. Alguém se encontrava em apuros e telefonava para Touché, que entrava na própria carapuça e saía de lá com o telefone. Em alguns episódios touché estava tomando banho na carapuça antes de atender a ligação.

Ocorre que normalmente a intervenção de Touché só piorava as coisas. Em um episódio, por exemplo, ele é chamado para combater um monstro marinho e para derrotá-lo, retira toda a água de um lago, o que causa uma inundação numa cidade próxima.

Na maioria dos episódios, ao receber a missão, a tartaruga sai em disparada gritando touché e Dundun tenta fazer o mesmo e cai estrondosamente no chão.

O desenho teve duas temporadas, com 52 episódios.

Introdução à metodologia científica

 

Escrito em linguagem clara e simples, este livro explica os principais conceitos da metodologia e do texto científico. Para baixar, clique aqui