terça-feira, abril 24, 2012

Lobato e modernistas: uma história mal-contada


Este ano comemora-se 90 anos da semana de arte moderna. A data tem gerado comemorações e muitos estudos sobre o evento. Entretanto, um grande equívoco ainda resiste: a suposta briga entre Lobato e os modernistas. Já existem várias obras que reavaliam essa relação, em especial o ótimo Furacão no Botocúndia (SENAC, 1998), biografia de Carmem Lúcia de Azevedo, Márcia Camargos e Vladmir Sachetta, mas infelizmente a versão de que Lobato era inimigo da Semana ainda continua sendo transmitida, inclusive em sala de aula.
Na verdade, Lobato fez uma crítica severa a uma das grandes artistas modernistas, Anita Mafalti, quando de sua primeira exposição, em 1917 (muito antes da Semana de 1922), mas são poucos os que se preocuparam em ler o seu texto "Paranoia e mistificação". Nele, Lobato elogia a artista, a chama de original e inventiva. A crítica de Lobato é direcionada ao fato dela se deixar seduzir pela arte europeia. O autor do Sítio não era contra inovações, mas acreditava que Anita deveria procurar na cultura brasileira elementos para sua arte, evitando o macaquismo que sempre nos caracterizou.

Para Lobato, procurar nas vanguardas européias um norte para a arte brasileira impediria a criação de um ideal estético nacional, colocando-nos sempre como imitadores dos povos colonialistas.

Prova de que Lobato não era contrário à estética modernista é o entusiasmo com que ele recebeu o trabalho do escultor Vítor Brecheret, um dos decanos da semana de arte moderna: "Paremos juntos, e juntos admiremos tão soberba manifestação da grande arte. Admiremos sem reserva, que isso é arte de verdade, da boa, da grande, da que põe o espectador sério, e, se sensível, comovido.".

Outro fator importante é a personalidade independente de Lobato que não admitia reduzir a arte às regras de uma escola artística. Lobato chegou a ser convidado por Oswald para se padrinho do movimento, mas recusou. O grupo então procurou o escritor Graça Aranha, que conseguiu patrocínio com a aristocracia agrária paulista (exatamente o grupo conservador que era mais criticado pelos modernistas) e fez o discurso de abertura da semana, muito criticado por defender ideias novas usando uma retórica antiga, rebuscada e parnasiana.

Lobato fez graça com a situação: ¨Se eu tivesse participado da Semana, talvez me tivessem contaminado com a inteligência nela manifestada. Preferi ficar na minha burrice¨, escreveu ele, dispondo-se a participar de uma segunda Semana, aumentada, na qual ficaria com o cargo de papa, logo abaixo do Papão Oswald de Andrade.



Aliás, a relação entre Lobato e Oswald sempre foi das mais amistosas. Ambos tinham espírito independente e um grande senso de humor. Oswald chamava Lobato de ¨O Gandhi do modernismo¨ e dizia que o autor do Jeca só não participou da Semana por causa do nacionalismo: ¨sua luta significava a repulsa ao estrangeirismo afobado de Graça Aranha, às decadências lustrais da Europa podre, ao esnobismo social que abria seus salões à Semana¨.

Lobato, dono de editora, publicava alguns dos principais escritores modernistas e teve papel importante na popularização dos mesmos. Além disso, ele se correspondia regularmente com nomes como Di Cavalcanti, Graça Aranha, Oswald e Mario de Andrade e Sérgio Millet.

Coerente com sua opinião de que Anita era uma grande artista, Lobato chamou-a para ilustrar a capa dos livros ¨O Homem e a morte¨, de Menotti Del Picchia e ¨Os condenados¨, de Oswald de Andrade, ambos lançados por ele. O livro ¨Idéias de Jeca Tatu¨ teve como capa O Homem Amarelo, quadro de Anita Mafalti (talvez uma compensação pela crítica feita em 1917).

Lobato escreveu sobre a semana, mas não para criticá-la e sim para creditá-la ao grande amigo Oswald de Andrade. No artigo ¨Nosso dualismo¨, publicado no em e reunido no livro ¨Na Antevéspera¨, Lobato diz que ¨O futurismo apareceu em São Paulo como fruto da displicência dum rapaz rico e arejado de cérebro: Oswald de Andade¨. Segundo Lobato, Oswald era um turista integral que, por sua visão cosmopolita tinha capacidade de perceber a cristalização mental da inteligência brasileira. Para tirar o país desse marasmo, ele teria recorrido ao processo da atrapalhação e exemplifica com o caso da peninha. Um sujeito propõe a outro uma adivinhação: ¨Qual é o bicho que tem quatro pernas, come ratos, mia, passeia pelos telhados e tem uma peninha na ponta da cauda?¨. Como ninguém adivinhasse, ele explicou: ¨É o gato!¨. ¨Mas e a peninha?¨. ¨Está aí só para atrapalhar¨.

Esse processo de atrapalhação teria sido essencial para sacudir a cultura brasileira, mas a coisa desandou quando outros autores resolveram transformar essa atitude em dogma: ¨Oswald sempre repeliu os sectários e sempre refugiu de transformar sua colher de mexer, hoje colher de pau-brasil, em paradigma, em maracá sagrado. E passa a vida a criar cismas dentro do grupo, a renegar sumos pontífices¨.

Mário de Andrade, provavelmente enciumado por Lobato ter creditado a semana a Oswald e pela crítica quanto aos dogmas, resolveu matar Lobato num texto intitulado ¨Post-scriptum Pachola¨.

O autor do Jeca, entretanto, não fez caso. Em carta ao jornalista Flávio Campos, Lobato diz que Mário, por seu talento, tem direito a tudo, ¨até de meter o pau em você e em mim. Eu tenho levado pancadinhas dele. Certa feita matou-me e enterrou-me. Em vez de revidar, conformei-me, e sem mudar minha opinião sobre ele. Mário é grande. Tem o direito de nos matar à moda dele¨.

Durante décadas tem se vendido a imagem de Lobato era um conservador, porta-voz das camadas mais atrasadas da sociedade brasileira. Seria, portanto, a antítese dos modernistas. Nada mais falso. Seu movimento em favor do petróleo e industrialização estão mais próximos do futurismo do que da tradição brasileira, que se contentava em plantar café. Em termos literários, ele foi um inovador, especialmente na literatura infantil, ao introduzir a linguagem coloquial em seus livros. Além disso, suas editoras foram importante veículo de divulgação dos autores modernistas.

Até mesmo Mário de Andrade, o maior responsável pela disseminação da ideia de que Lobato era inimigo dos modernistas admitiu o alinhamento desse autor com os ideais daquele movimento: ¨Quanto a dizer que éramos, os de São Paulo, uns antinacionalistas europeizados, creio ser falta de sutileza crítica. É esquecer todo o movimento regionalista aberto justamente em São Paulo e imediatamente antes, pela Revista do Brasil, é esquecer todo o movimento editorial de Monteiro Lobato¨.

Espera-se que na, comemoração dos 100 anos da Semana de arte moderna, daqui a 10 anos, a importância de Lobato no modernismo brasileiro tenha sido finalmente redefinida. E tomara que até lá os professores já tenham parado de ensinar inverdades na sala de aula.

Texto originalmente publicado no Digestivo Culural

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