quarta-feira, julho 11, 2012

O complexo de inferioridade e suas origens históricas

Quando a família real portuguesa veio ao Brasil, fugindo de Napoleão, ela trouxe também a  ideia de que no Brasil não existia cultura. Foi ali que começou nosso macaquismo  (termo usado por Lobato para nossa mania de querer imitar tudo que vem de fora). Para se ter uma ideia, durante a viagem, os nobres foram acometidos por uma epidemia de piolhos e tiveram de raspar a cabeça. Sem cabelos, desembarcaram no Brasil com as cabeças envoltas em turbantes. Os brasileiros acharam que usar turbante era a última moda na Europa. E toca-lhe todo mundo usar turbante.
Em consequência da ideia de que só é bom o que vem de fora, D. João mandou chamar artistas estrangeiros para ensinarem aos brasileiros o que era a verdadeira arte. Foi a chamada missão artística francesa que, apesar de ter grandes nomes como Debret, a missão cometeu um pecado que tem consequências até hoje: passou uma borracha em tudo que se fazia em termos de artes até então. Até Aleijadinho, um dos maiores nomes do barroco mundial, o homem que criou um barroco caboclo, antecipando o que viria a ser a proposta de Oswald de Andrade e Tarsila no manifesto antropofágico, até ele foi esquecido.
A partir daí passou a imperar a ideia de que "o que é bom vem lá de fora", como diz a a letra da música do Mosaico de Ravena.
Esse pensamento se estende a tudo e ainda é muito forte em locais como Macapá.
Lembro que fui o primeiro professor amapaense a lecionar um módulo de pós-graduação na FAMA. Quando souberam que o professor não viria de fora, os alunos se revoltaram e foram falar com o Diretor.
- Vocês pelo menos já tiveram aula como ele? - perguntou o diretor.
- Se ele mora em Macapá, é porque não é um bom professor. - respondeu um aluno.
No final, acabaram aceitando fazer um "teste"  sob a promessa de que o módulo seria repetido se houvesse qualidade.
Os próprios alunos vieram me contar isso depois, ao mesmo tempo que faziam um "mea culpa" e elogiam o módulo que ministrei.
Esse complexo de inferioridade cultural do amapaense se mostrou forte quando, no governo passado, financiava-se sob aplausos, iniciativas culturais de outros estados. Assim, o governo do Amapá financiava filmes de cineastas do sudestes e o carnaval do Rio de Janeiro, e não tinha dinheiro para lançar um edital local. É a história do: "O que é bom vem lá de fora".
A propósito, deixo vocês com o clipe da música Belém, Pará, Brasil, do Mosaico de Ravena.  

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