quinta-feira, setembro 20, 2012

A face do Leviatã


“Ali passam navios; e o leviatã que formaste para nele folgar”
Salmos, 104, 26



Durante longo tempo nossa vila foi assolada por uma criatura desconhecida, mas hedionda e maligna. Pessoas de bem eram encontradas à beira da praia, seus corpos estraçalhados e maculados. Não havia dúvida: o mal os tocara, deixando neles sua inevitável nódoa.
    Com o tempo o medo tomou conta do povoado. Era mister destruir a fera antes que o terror nos destruísse a todos. Tratava-se, evidentemente, de um monstro do mar. Assim, decidiu-se pela organização de uma equipe que daria caça ao bicho. De todos, Afonso era o mais entusiasmado. Não admira, portanto que coubesse a ele a chefia da embarcação.
    Sim, havia um velho navio que serviria para o combate. Estranho. Lembro-me que, quando entrei nele pela primeira vez, tive a impressão de que penetrava no próprio covil do demônio. Talvez, pensei, essa impressão fosse causada pelo aspecto da embarcação. E, de fato, a madeira estava velha e rangia como um gigante resmunguento. O convés estava repleto de limo e as velas pareciam ter a intenção de se esfarraparem ao primeiro vento. Uma assustadora carranca adornava a proa.
    Embarcamos. Fomos nos afastando da costa na direção do mar, esperando encontrar a fera. Vigiávamos em turnos e aqueles que eram dispensados podiam se recolher aos rudes quartos improvisados sob o convés. Fiquei de sentinela um longo tempo e fui substituído por Afonso, que colocou a mão sobre meu ombro e disse:
    - Vá descansar. Deixe que cuidamos da fera.
    Desci e deitei, mas não conseguia dormir. Em certo instante em que fechei os olhos, parecia ouvir arrastar de correntes e gemidos, misturados ao sussurro do mar. Dei-me conta de que já começava a dormir. Estava naquele estado em que nem dormimos, nem estamos acordados... e uma estranha premonição tomou conta de mim... Como se algo estivesse errado.
    Então houve como que um estrondo. O navio balançou, rangendo sua estrutura. Subi ao convés, temendo que o costado não resistisse. Uma tempestade tremenda se formava. Ondas de seis metros lambiam o convés. Um vento forte fazia com que o navio balançasse como um velho bêbado.
    - Onde está? Onde está o monstro? – perguntei.
    - Não adivinha? – respondeu Afonso, levantando o rosto para mim.
    Só então pude  ver seus olhos que brilhavam como chamas, em assombroso contraste com o resto da face, dominada por trevas.
    Procurei os outros, em socorro, mas estavam todos no convés, olhando-me do mesmo jeito. Embora o navio balançasse muito, permaneciam simplesmente em pé, os braços ao longo do corpo, os olhos fixos em mim.
    - Não adivinha onde está o mal? – trovejou Afonso.
    - Não advinha onde está o mal? – repetiram os outros.
    Corri deles, descendo as escadas, atrapalhado pela fúria dos elementos, que sacudia implacavelmente o navio. Percorri todos os lugares, procurando um lugar onde me esconder. Assustadora compreensão me dominava. Eram eles o monstro. Eles, o leviatã.
    O mal, encarnado neles, dera cabo de todos os homens bons da vila. Só restara eu. Eles me trouxeram, então, para o navio, a fim de me fazer sucumbir depois de prolongadas torturas.
    Estou aqui, agora, trancado nesse cubículo apertado. Ratos e baratas passeiam pelo meu corpo, esperando pelo momento em que estarei fraco demais para resistir ao seu apetite devorador. Lá de cima me vem o som de correntes e o sussurro dos mortos. Penso em Afonso, em esgar de ódio, ansiando pela morte de seu melhor amigo.
    Passos. Estão se aproximando. Logo vão me encontrar. Se não o fizerem, morrerei de sede, de fome, ou devorado pelos ratos.
    Dentro em breve... eu verei a face do Leviatã...

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