quarta-feira, outubro 17, 2012

Bibliotecas

Recentemente consegui pela Internet uma verdadeira tonelada de livros virtuais, alguns dos quais totalmente raros, outros que nunca foram lançados no Brasil e que boas almas resolveram traduzir e disponibilizar na rede. Entre eles, um livro Intitulado A Biblioteca, de Umberto Eco.
O livro começa com uma afirmação interessante: “Um dos mal-entendidos que dominam a noção de biblioteca é o fato de se pensar que se vai à biblioteca pedir um livro cujo título se conhece. Na verdade acontece muitas vezes ir-se à biblioteca porque se quer um livro cujo título se conhece, mas a principal função da biblioteca, pelo menos a função da biblioteca da minha casa ou da de qualquer amigo que possamos ir visitar, é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para nós. A função ideal de uma biblioteca é de ser um pouco como a loja de um alfarrabista, algo onde se podem fazer verdadeiros achados, e esta função só pode ser permitida por meio do livre acesso aos corredores das estantes”.
Infelizmente, o modelo de biblioteca que prolifera é exatamente o oposto: nele, os livros devem ficar escondidos, enclausurados, muitas vezes inacessíveis, especialmente nas situações em que os bibliotecários consideram que o leitor é um inimigo dos livros. Nesses casos, antes que seja entregue a obra, o requisitante é bombardeado por mil perguntas, como se fosse um suspeito sendo interrogado pela polícia.
Ainda assim, deve-se entregar um livro de cada vez, pois é imaginável que o leitor que faz várias leituras cruzadas ao mesmo tempo, como se o curso dos pensamentos ou a criação de idéias fosse uma via de mão única.
Além disso, os horários das bibliotecas públicas devem ser pensados para impedir que a pessoa que trabalhe a freqüente.
É comum ouvir professores reclamando que seus alunos não freqüentam a biblioteca. Um dizia que perguntou quantos haviam visitado a biblioteca durante o semestre, e o resultado foi pífio.
No entanto, que incentivo os alunos têm de freqüentar a biblioteca? Na maioria das vezes, parece predominar o paradigma de que um aluno só deve ir à biblioteca se o professor mandar e já com um livro específico na cabeça, livro esse sugerido pelo professor.
O prazer de freqüentar os livros pela simples fruição, pela beleza de percorrer corredores e encontrar um mundo que não se imaginava, em dialogar com autores que nem se pensava existir, mas que são mágicos, nada disso é estimulado nos alunos. Desde a tenra idade, os estudantes vêem a biblioteca como um local intocável e venerável no qual eles só podem entrar se tiverem uma ordem expressa de um assunto a pesquisar.
A biblioteca deveria ser o local mais visitado da escola na hora do intervalo, ou mesmo depois das aulas, mas não é isso que acontece.
Rememorando minha trajetória intelectual, lembro o quanto as bibliotecas foram importantes para mim. Mas lembro também que como elas eram inatingíveis na escola, com funcionários sempre dispostos a perguntar quem era o professor que pedira a pesquisa e para qual disciplina era... e livros distante, separados de nós por um balcão, de modo que tínhamos que espichar o pescoço para tentar escolher um livro qualquer. Quando descobríamos um bom livro, ao alcance dos olhos, nós o devorávamos até as migalhas.
Posteriormente encontrei na Biblioteca Pública funcionários cientes de suas responsabilidades, que me incentivavam a não só escolher o que queria ler, como faziam sugestões e até me pediam resenhas, que eram disponibilizadas para outros leitores, de modo que já naquela época eu não só aprendia a ler e gostar de ler, como ainda aprendia a analisar criticamente o que estava lendo. Infelizmente iniciativas como essas são raras e há grande desconfiança por parte dos funcionários das bibliotecas com relação aos leitores, vistos ou como vagabundos ou como ladrões. Acrescenta-se a isso a visão de que a leitura é leitura apenas de letras, de palavras (na época em que eu freqüentava a biblioteca, um diretor mandou fechar o acervo de músicas, pois dizia que eram apenas perda de tempo) e temos a receita certa para a ojeriza aos livros e às bibliotecas e uma piora cada vez maior da educação como um todo.

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