terça-feira, dezembro 22, 2015

Conto de Natal



1992 foi um ano difícil. A loja Quatro Irmãos tinha estado no zero por onze meses e havia esperança de recuperar o consumidor durante o natal.
No dia 24 de dezembro, lá estava,  de manhã cedo, um Papai Noel na frente da loja, balançando um sininho de lata de Nescau e gritando muito timidamente:
- Feliz  Natal ! Feliz natal !
Chama-se Melquior, o Papai Noel , e parecia ter o dom único de mexer tão somente a boca e a mão com o sino. Ficava retesado, mais inerte que uma estatua, na frente da  Quatro Irmãos. Os passantes paravam, davam algumas gargalhadas, apontavam com o dedo e gritavam:
- E aí, palhaço? Quer me dar aula de balé?
- Ô bobão... você saber mexer ao menos a bunda?
            E iam embora assim que a brincadeira perdia a graça.
Dava a impressão de que, ao invés de chamar, Melchior afastava os clientes. Depois de meia hora e trezentas olhadelas esperançosas pela porta, o seu João, dono da Quatro Irmão – que curiosamente só tinha um sócio – gritou lá de dentro:
            - Olha, vamos colocar um pouco mais de vida nisso, que eu não quero defunto na frente da minha loja...
            Como consequência imediata, o Papai Noel começou a pular, balançando o braço num movimento pendular, ao mesmo tempo em que cantava:
- Feliz Natal! Feliz Natal! Feliz Natal pra todos!
            Era isso aí. Estava pegando o jeito. O coração bateu mais forte quando um garotinho atravessou a rua... na direção da loja!
Finalmente! O primeiro freguês! O natal dos filhos assegurado! Melchior podia sentir a pulsação dentro do peito, o suor escorrendo em direção à barba de algodão...
- Ei garoto!
            - Eu?
- Você mesmo! Venha cá! Veja quantos lindos brinquedos temos na nossa loja... Papai Noel só compra brinquedos na Quatro Irmãos!
            Os olhos do garoto brilharam. Melchior examinou-o de cima a baixo: tênis importado, camiseta da moda, bermuda de etiqueta. Tava no papo!
- É verdade? O senhor só compra na Quatro Irmãos?
            - Compro.
            - Tudo?
            - Tudo!
            - Até essa barba fajuta?
            E puxou a barba do coitado, fazendo com que o elástico apertasse na nuca até doer.
- Seu pivete! Me dá isso aqui! Onde já se viu? Moleque impossível! Não tá vendo que eu tô trabalhando? Vem cá que eu te dou um chute no traseiro...
            O moleque parou um pouco à frente, entocou o dedão na boca e começou a chorar.
Melchior ficou preocupado. Afinal, um garoto chorando em frente à loja não era exatamente uma boa propaganda. Lá dentro, por trás do balcão, o Seu João franzia a testa, numa expressão de “está despedido”.
- Ei, garoto. Vamos, não chore. Olha o sininho do Papai Noel...
            O pirralho abriu um olho, deu uma espiada de leve e continuou chorando.
- Olha, lá na loja tem carrinho...
            Era a palavra mágica. O garoto parou de chorar tão repentinamente quanto havia começado.
- Tem camburão de polícia, arma de raio laser, bonequinho suicida, caminhão de lixo, bombinha atômica, granada...
            A cada palavra os olhos do menino se abriam mais.
- E todos esses brinquedos maravilhosos por um preço que parece brincadeira... O que você acha de pedir para a mamãe comprar seu presente na Quatro Irmãos? O que você acha, hein? É a loja oficial do Papai Noel...
            - Pedir para a mamãe comprar meu presente aqui? – perguntou o pirralho, com cara de “boa idéia”.
            - Isso mesmo. E então? O que acha, hein?
- Não dá. A mamãe já comprou meu presente.
            E lá se foi o pulha, em direção à sorveteria.
Desaforo! Podia-se ver, agora, a indignação misturada com a persistência de um mártir por trás da barba de algodão. Havia de gritar a plenos pulmões, arrastar mães pelos cabelos, despir-se no meio da rua, mas traria um freguês para dentro da loja!
            - Feliz Natal! Feliz Natal! – gritava, dando pulos desajeitados e balançando de um lado para o outro o sininho.
            Tanto berrou que ficou rouco. No fim, mal conseguia pronunciar um insignificante dindonbel.
- Seu Melchior, venha cá! – berrou o chefe, detrás do balcão. Então eu pago o senhor parar ficar só dançando, feito vedete de auditório?
            - ...
            - Eu pago o senhor para chamar fregueses para a minha loja...
-  ...
            - O que foi? Se acha muito superior para poder falar comigo? É isso?
            - Eu... eu tô rouco, chefe...
            - Rouco? E para que eu vou querer um Papai Noel rouco? Suma já daqui, que eu não gosto de vagabundos na minha loja...
            - ...
            - Não entendeu? O senhor está despedido!
            Despedido! Lá se iam o caminhão do Juquinha, a boneca da Maria e o revólver do Pedrinho... despedido!
Passara o mês inteiro procurando emprego e o primeiro oportunidade que conseguira escapava de suas mãos tão rápida e inevitavelmente quanto sua voz. Despedido!
- Des... des... DESPEDIDO!
As nove letras saíram de sua garganta como um urro de leão, assustando até o chefe. Melchior levou as mãos ao pescoço e ficou repetindo para si mesmo, com um sorriso abobalhado:
- Voltou... voltou... voltou! Chefe, o senhor faz milagres!
            E tascou um beijo agradecido na careca reluzente do Seu João.
Um segundo depois, lá estava ele na frente da loja, cantando, gritando e pulando como se tivesse descoberto o uso das cordas vocais naquele mesmo instante.
Desta vez estava dando certo. Muitos paravam para tocar o bondoso velhinho e receber um conselho cristão:
- Respeite seus pais, escove os dentes antes de dormir e peça para a mamãe comprar seus presentes na Quatro Irmãos...
            A freguesia aumentou bastante, até porque estava se aproximando a hora do pique. Foi quando uma ideiazinha, um vermezinho de nada, começou a romper a casca lá dentro, nos neurônios do Papai Noel.
- Já pensou se alguém vê você aqui? Que vexame! Um pai de família vestido de Papai Noel... se o pessoal do bairro descobre, essa valia por um mês de piadas.- cochichava a ideiazinha.
            Melchior começou a disfarçar a voz, a olhar para os lados, assustado...
- Meu Deus! É o Gaspar! – exclamou, vendo um rapaz magro e alto descendo a rua.
            Logo o Gaspar, o vizinho mais metido e todo o bairro. Embora não se vissem há muito tempo, Melchior lembrava-se dele no bar, pagando cerveja para todo mundo e gabando-se de seu famoso e lucrativo emprego na empresa estatal... logo o Gaspar!
 “Desgraça pouca é bobagem”, pensou Melchior, encurvando-se e escondendo a cabeça com o saco vermelho.
Gaspar passou direto e entrou na loja vizinha, a Cinco Irmãos.
Melchior respirou aliviado, mas espantou-se quando, dali a alguns minutos, saiu de lá um Papai Noel magro e alto, gritando a plenos pulmões:
- Feliz Natal! Feliz Natal!
            As crônicas não dizem quem deu primeiro pela coisa. Mas o fato é que dali a segundos lá estavam eles, frente-a-frente, olhando-se como se olhassem um espelho distorcido. Estudaram-se da cabeça aos pés, fizeram gestos um para o outro e, de repente, perceberam!
- Melchior! O que você está fazendo aqui?!
- E você, Gaspar? Papai Noel com roupa de palhaço...
            Gaspar olhou para baixo e só então percebeu que sua roupa era realmente um traje de palhaço adaptado para se fazer passar pela vestimenta do bom velhinho.
- Olha só quem fala: papai noel de chinelo...
- Papai Noel brasileiro. – explicou Melchior, embora soubesse que na verdade o chefe não havia se disposto a comprar uma bota. Mas e o que você está fazendo aqui? E aquele emprego na estatal, rapaz?
  - Pois é: fui despedido. Esse negócio de privatização... foi muita gente para o olho da rua. Agora tô tendo de dar uma de Papai Noel para poder comprar o presentinho do meu filho... é pouco coisa: uma diária e porcentagem por freguês que eu conseguir...
            - Você também?
            - Por quê?
            - Eu também ganho por freguês que eu conseguir...
            Concorrência. Um Papai Noel a mais era sempre uns cobres a menos no bolso. A ideiazinha começou a cochichar novamente.
Não era justo! Afinal, ele tinha chegado primeiro... o outro, com aquela roupa de palhaço, bem que podia chamar mais atenção e lá se ia a comissão... A ideiazinha voltou a crescer e se transformou rapidamente em ódio.
Ódio! A cabeça de Gaspar fendida, com os miolos escorrendo e Melchior sobre ele, golpeando implacavelmente com o sininho de Nescau... A rua seria dele, a cidade, o estado, o país, o mundo!
E nisso ia se aproximando do outro, pronto a pegá-lo de surpresa.
Súbito pararam os dois, com as mãos levemente levantadas, num ataque suspenso. Avermelharam, piscaram seis vezes, esconderam os respectivos sininhos às costas...
- Feliz Natal! – desejou Gaspar, meio sem jeito.
            - Boas Festas! – retribuiu Melchior, entre os dentes.
            - Feliz Ano Novo! – entoaram os dois, afastando-se um do outro.
            Não tinha mesmo jeito. O negócio era ser tão alegre e chamativo quanto o concorrente.
            Em nenhum instante a rua ficou tão risonha.
Os dois cantavam, agitavam seus sinos, chamavam os passantes, afagavam os cabelos das crianças e davam estrondosas gargalhadas no melhor estilo “Ho ho ho!”.
As duas lojas estavam enchendo de gente.
Era uma mulher que vinha comprar presente para o seu filhinho;um casal de velhinhos, que saiu com um jogo de damas; um homem baixinho, troncudo, que embirrou de comprar um jogo infantil para o seu afilhado de 15 anos...
Quanto mais fregueses entraram, mais os Papais Noeis  se empolgavam e acabaram (nesse ponto as crônicas são um tanto obscuras, de modo que não se pode saber, portanto, quem começou) dançando juntos.
Ficaram lá, na frente da loja, de braços dados e agitando as pernas como se fossem bailarinos russos. Só pararam quando o dono de uma das lojas gritou lá de dentro:
- Que bagunça é essa aí na frente?
Já não existia nem um pinguinho de ódio ou rancor em seus corações. Sentiam-se unidos pela função como irmãos o estariam pelo sangue.
Ao meio-dia foram juntos a um bar da esquina comer um sanduíche de pão com salame. Tomaram um guaraná (um para dois, daqueles grandes, que era mais barato) e conversaram bastante.
Passaram o resto do dia como enamorados, lado a lado, fazendo a propaganda de suas respectivas lojas, o suor molhando suas roupas vermelhas.
O movimento começou a diminuir lá pela nove da noite. Gaspar parou um instante, olhou o relógio (lembrança dos velhos tempos da estatal), enxugou o suor da testa e soltou:
- Ufa! Nove horas! E eu ainda tenho de comprar o presente de meu filho...
            - E o que é que você vai comprar para ele?
            - Um daqueles trenzinhos de plástico, com vários vagões e rodinhas.
            - Ah, sei. Quanto é que está na sua loja?
            - Blá blá, blá.
            - Tudo isso? Aqui está blá.
            - Não brinca! Sério?
- Sério: blá!
- Nossa, tá muito mais barato que aqui... – avaliou Gaspar. Pode ter certeza de que vou comprar o presente aí... Esse pessoal da Cinco Irmão é um bando de ladrões!
            O Ladrões saíra agudo, quase um assobio. Uma senhora dobrara a esquina e Gaspar ficara os olhos nela.
            - Compre aqui que é mais barato, minha Senhora! Só a Cinco Irmãos tem o melhor preço da cidade!
            A mulher pareceu hipnotizada. Deu uma sutil guinada no seu passo decidido e entrou na Cinco Irmão.
            Gaspar piscou para Melchior:
            - Não esquece de reservar o trenzinho...
            A mulher entrou, comprou o presente e saiu. Depois dela, um senhor calvo, capengando de uma perna. Na Quatro Irmãos entrou uma falsa ruiva, em roupas típicas de secretárias.
            E o tempo foi passando... passando. Lentamente... orquestrado pelo movimento dos dois...Nove e meia... dez horas... dez e meia... onze horas...
            - Onze e meia! – espantou-se Gaspar, olhando para o relógio.
            - Onze e meia?
            - É.
            - Quem sabe?
            Olharam para os seus respectivos chefes com aquela cara de cachorro sem dono que os mendigos aperfeiçoam à perfeição.
            Separados apenas por uma parede, cada um atrás do balcão de sua loja, os chefes retribuíram com os braços cruzados e a cabeça balançando de um lado para o outro, em negativa.
            - Quem ele pensa que vai comprar a uma hora dessas?
            - Algum Papai Noel atrasado, com certeza!
            - É, acho que vamos ter de sair daqui meia-noite mesmo...
            E assim foi.
            Contando os segundo como se cada um deles fosse um preguiçoso que precisasse ser empurrado para passar, os dois chegaram finalmente às 24 horas.
            Mais do que depressa, os dois funcionários da Quatro Irmãos e os três da Cinco Irmãos desapareceram pelas ruas, com seus embrulhos debaixo do braço.
            Gaspar e Melchior foram os últimos. Gaspar ainda teve de comprar o trenzinho e Melchior gastou seus cobres numa boneca, num caminhão e num revólver de plástico. Saíram pelas ruas vestidos de Papai Noel mesmo.
            Seguiram pela calçada a passos de marcha, enquanto o dono da Quatro Irmãos passava por eles num Monza 91.
            O homem passara a manhã inteira reclamando que não havia conseguido trocar o Monza por um carro zero. Melquior teve vontade de comentar a ironia da coisa com o amigo, mas não teve forças.
            Chegaram resfolegantes à parada.
             - Que ônibus você vai pegar? – perguntou Gaspar.
            - O Sacramenta Nazaré. E você?
            - Eu também.
            - Eu também, o quê?
            - Também vou pegar o Sacramenta Nazaré.
            - Ahhh... – fez Melchior, bocejando.
            Gaspar estava apertando os olhos.
            - Que ônibus é aquele ali? – gritou, de repente.
            - É o Sacr...
            Estenderam as mãos.
            O ônibus, lotado, passou voando por eles.
            Ficaram na mesma posição, com os braços estendidos, como se ainda pudessem trazer o ônibus de volta.
            - Droga! Só falta agora eu não conseguir chegar em casa para levar o presente do meu filho!
            - É... – concordou Melquior.
            Os dois olharam, desolados, para os presentes, e sentaram no meio-fio.
            - Sabe, - começou Gaspar – quando eu era criança, tinha uma coisa que me intrigava...
            O sorriso de quem está contando algo levemente constrangedor dominou seus lábios.
            - Eu... eu... queria saber por onde é que Papai Noel entrava em casa. É que todo mundo falava que ele entrava pela chaminé e deixava o presente debaixo da árvore.
            Gaspar alisou os cabelos. O sorriso envergonhado havia aumentado consideravelmente.
            - Só que lá em casa não tinha chaminé...
            - E aí? Por onde é que ele entrava? – perguntou Melquior, rindo.
            - Era isso que eu queria saber... Um dia eu decidi: fiquei acordado até de madrugada. Sabe aquela hora em que a gente só ouve o latido dos cães e o uivo do vento? Eu puxei o lençol e coloquei um pé fora da cama, depois o outro.
            Tinham levantado. Gaspar contava empolgado, fazendo gestos com as pernas e os braços.
            - Aí eu fui andando, pé ante pé... abri a porta e fui na ponta dos dedos até a sala. Não tinha ninguém lá... nenhum Papai Noel. Só a árvore de natal e os móveis...
            - E aí? – quis saber Melquior. O que você fez?
            - Eu me escondi atrás da árvore e fiquei esperando... rapaz, de repente eu vi: era ele! É ele! É ele!
            - O Papai Noel?
            - Não, o Sacramenta!
            Melquior se virou e, instintivamente, fez sinal, mas já era tarde demais. Do ônibus havia sobrado apenas a poeira.
            Sentaram-se, desanimados, no meio-fio.
            - Era o meu pai. – disse Gaspar. Ele acordava de madrugada e deixava o presente embaixo da árvore. Aliás, sempre o mesmo presente: um carrinho de bombeiro azul com sirenes verdes que acendiam...
            - Sempre o mesmo presente?
            - É, ele tinha comprado um monte desses numa liquidação. Estavam com defeito de fabricação...
            - ?
            - Tinham sido pintados errado...
            - Ah...
            - Foi aí que deixei de acreditar em Papai Noel...
            Ficaram lá sentados no meio-fio, alisando cada um a sua barba de algodão. Gaspar tirou o gorro e ficou batendo o pom-pom na perna.  Melquior  brincava com o sininho de lata de Nescau, olhando triste para algum ponto distante...
            Ficaram um bom tempo assim. De repente, Gaspar tirou algumas notas amassadas do bolso e começou a contar.
            - Quanto tu tem aí, hein cara?
            Melquior largou o sininho e tirou algumas notas do bolso. Contou.
            - Blá, blá, blá.. – respondeu, estendendo o dinheiro para o amigo.
            Os dois montes de papéis sujos e amarrotados foram unidos e contados. O resultado deveria dar para comprar algo para se comer e talvez ainda sobrasse algum para tentar pegar o ônibus quando eles voltassem a circular.
            Seus estômagos já protestavam em altos brados.
            Passaram por ruas escuras, de casas antigas. Em algumas delas, podia-se ouvir o barulhinho dos festejos: gente falando alto, o tilintar de talheres, o rádio ligado, a TV passando um especial sobre filmes antigos...
            Encontraram, finalmente, uma baiuca aberta. Alguns bêbados se amontoavam no balcão, as camisas abertas no peito, os rostos cheios de rugas e olheiras.
            Passaram em frente a uma estufa de vidro, com armação de madeira, onde se acumulavam doces, massas e salgados. Um montículo de bolor nascia com uma flor sobre um pedaço de bolo de chocolate.
            Decidiram-se por um pão com queijo e mortadela.
            Melquior  e Gaspar aproximaram-se do caixa, onde um português gordo, de enormes bigodes, barba mal-feita, chinelas de couro e lápis na orelha, palitava os dentes.
            Já iam pedir quando os olhos de Gaspar bateram em uma garrafa de vinho em promoção.
            - Me dê um sanduíche e uma garrafa de vinho. – solicitou Gaspar.
            Cinco minutos depois, os dois Papais Noeis estavam dividindo o sanduíche e um vinho tão vagabundo que o rótulo borrava em contato com a água.
            Depois da primeira garrafa, pediram a segunda, e a terceira.
            Quando a noite os viu novamente, andavam porres pelas ruas da cidade, balançando seus sinos e cantando:
            - Feliz Natal! Feliz Natal! Feliz natal pra todos!
            Estavam nisso quando Melquior caiu ao chão e desabafou:
            - Feliz natal uma ova!
            Gaspar se aproximou e tocou-lhe o ombro. A rua se distorcia, girando em torno da cabeça.
            - Ei cara! O que foi que aconteceu? Vamos dançar, vamos comemorar...
            - Meu amigo... você é meu amigo, não é?
            - Claro que sou.. amigão do peito! Palavra de escoteiro!
            - Então senta aqui do meu lado que eu quero te contar uma coisa...
            Melquior puxou o outro para perto de si, quase enforcando-o.
            - Você é meu amigo... por isso eu vou te contar uma coisa que nunca contei pra ninguém...Sabe, quando eu era criança, a gente morava numa casinha de madeira e eu dormia na rede... a gente colocava a chinela havaiana da rede e quando acordava o presente de natal tava lá... sabe que um dia eu acordei... e sabe o que foi que eu vi?
            - O presente?
            - O chão.
            Havia agora um misto de raiva e tristeza no olhar de Melquior. Os olhos passeava de um lado para o outro e caiam no chão.
            - Eu não me conformei. Procurei no guarda-roupa, atrás da porta... Nada, não tinha nada, nem em cima do guarda-roupa e nem atrás da porta...
            Melquior engoliu em seco, querendo se enterrar no chão.
            - Aí eu fui com minha mãe e ela disse que quem comprava o presente era o meu pai e que ele tava desempregado... Você já deixou de ganhar presente de natal, cara? Foi aí que eu deixei de acreditar em Papai Noel...
            Ficaram sentados no meio-fio, estudando atentamente os relevos do solo.
            - Você é que tem sorte!- vociferou Gaspar, levantando-se e empurrando o outro para o lado. Você pelo menos nunca teve um natal de verdade...
            - Eu?
            - É. Você não tem com o que comparar. Não é como eu, que tive natal de verdade e não tenho mais...
            - E o que é um natal de verdade? Hein?
            - É... é.. é uma mesa cheia de comida: peru, panetone, bolo, passas.. e presente pra todo mundo... Antigamente era assim lá em casa.. agora nem para dar um presente de natal pra minha família eu presto...
            Lágrimas desabrocharam dos olhos de Gaspar, deslizando calmamente pela barba postiça...
            - Nem para isso eu sirvo... Nem pra dar um presente decente... agora eles devem estar lá, dormindo, com fome... e nem o presente do meu filho eu consegui levar... Droga! Droga de vida!
            - Ei, cara! Olha, meu amigão do peito... ouve só um negócio: naquele dia que eu não recebi presente, a minha mãe me deu um abraço tão bom que valeu por um presente, sabe? Olha, eu descobri que natal não é presente, não é mesa cheia de comida... o que faz o natal é a gente... pensa bem... amanhã tu vai chegar em casa e vai poder dar um abraço no seu filho. Pior seria  se tu chegasse lá dando presente, mas batendo em todo mundo...o natal quem faz é a gente.... Natal é amor, sabe? Natal é amor...
            Tinham sono. Foram cedendo o corpo dolorido até deitarem completamente na calçada. Dormiram, um ao lado do outro.
            Gaspar foi o primeiro a acordar. Algo ardia em seus olhos. Resmungou algumas palavras desconexas, levantou um pouco e tentou abrir as pálpebras.
            Várias luzes ocuparam toda a sua área de visão. Dançando e descrevendo trajetórias caóticas, elas foram se unindo numa única e forte luz branca.
            - Ei, cara! Acorda! O que é aquilo ali?
            Melquior esfregou os olhos e soltou alguns impropérios.
            - Que droga! Será que... o que é aquilo? O dia está nascendo?
            - Não, é uma luz...
            Era uma luz, de fato. Os dois se levantaram e, de repente, a esperança tomou conta deles.
            Quem sabe todas aquelas histórias eram verdadeiras? Quem sabe ainda existisse um futuro melhor para todos? Lágrimas de felicidade e esperança brotaram dos seus olhos.
            - É a luz de natal! – apostou Gaspar.
            - Sim, é a luz de natal! – confirmou Melquior.
            Aproximaram-se.
            Seus passos eram lentos e seguros. Os braços, pernas e pés completavam uma coreografia de esperança e paz. Era a luz de natal.
            Gaspar foi o primeiro a perceber.
            Ele recuou horrorizado e estendeu as mãos na frente do corpo, num esforço inútil de defesa. Melquior também fez o mesmo, mas já era tarde demais.


Dois homens, vestidos de Papai Noel, foram atropelados por um ônibus hoje de madrugada.

            O Motorista Manuel da Silva, da linha Sacramenta-Nazaré, disse, em entrevista, que não pensou que estivesse atropelando pessoas de verdade: “Quando vi os dois no meio da rua, pensei que fosse alucinação. Nem me preocupei em desviar. Nunca acreditei em Papai Noel”.

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