segunda-feira, dezembro 14, 2015

O foco narrativo em O uivo da górgona


As pessoas normalmente não têm essa noção, mas existe uma tecnologia narrativa, que foi se desenvolvendo ao longo do tempo: técnicas e estratégias que começaram a ser usadas por escritores, funcionaram e depois se tornaram comuns. Ou que não funcionaram e foram abandonadas.
O foco narrativo é um exemplo.
Nas primeiras narrativas, a história era contada em terceira pessoa, do ponto de vista de um narrador onisciente, que sabia tudo, conhecia todos os fatos.
Em algum momento, alguém percebeu que era possível conquistar mais envolvimento do leitor com o personagem ao colocar a narrativa em primeira pessoa. Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, e Manuscrito encontrado em uma garrafa, de Edgar Alan Poe são exemplos disso.
George Martin, na série conhecida como Guerra dos Tronos (na verdade, Crônicas de gelo e fogo) inventou uma outra maneira de narrar os acontecimentos: acompanhar um personagem a cada capítulo, em uma narrativa em terceira pessoa, mas que sabe apenas o que o personagem sabe. É como se fosse uma câmera que o acompanhasse por todo o capítulo e visse apenas o que ele vê ou co se cada capítulo tivesse um protagonista.
Essa estratégia é interessante por vários fatores. O primeiro deles, claro, por permitir que o leitor conheça e se identifique com vários personagens e não só com o protagonista. A segunda ajuda no suspense: como não há um narrador onisciente, ele não sabe o que está acontecendo fora de seu campo de ação e da mesma forma o leitor.
Eu já tinha experimentado algo semelhante no meu primeiro romance Galeão: embora a narrativa do navio fosse em terceira pessoa, com um narrador onisciente, nos flashbacks eu focava em um personagem.
Em O uivo da górgona, eu ampliei usando o recurso, mundando constantemente o foco narrativo de um personagem para outro. Há, por exemplo, um capítulo focado na galinha pimpinela, e um capítulo focado em uma zumbi.
O objetivo, claro, era tanto construir uma maior aproximação do leitor com os personagens quanto permear a narrativa de suspense.

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