quarta-feira, junho 29, 2016

O nazismo era de esquerda?


Leandro Karnall, filósofo e historiador brasileiro, doutor em história, diz que se espantou quando lhe disseram que o nazismo era de esquerda. Em todos esses anos participando de congressos científicos de história, nunca tinha ouvido isso.
Mas agora pululam na internet teóricos da conspiração dizendo que Hitler era de esquerda. 
Pegam uma frase fora de contexto, uma moeda que ninguém sabe me dizer a procedência (que mostra uma foice e um martelo) e o nome do partido, que teria a palavra socialista. 
Um dia escrevo um texto mais detalhado, mas, resumindo: Hitler era mais ou menos como Bolsonaro. Aproveitava-se do que lhe daria popularidade. Bolsonaro, por exemplo, quando percebeu que parecer liberal lhe daria votos, começou a se dizer liberal, apesar de não ter nada de liberal. Bolsonaro antigamente tinha forte discurso anti-gays. Quando percebeu que isso poderia ser bom para um deputado, mas seria um problema para um candidato à presidência, começou a dizer que ama gays (Hitler também abafou o discurso anti-gays quando lhe foi conveniente, mas quando chegou ao poder, começou a mandar gays para campos de concentração). 
Hitler, da mesma forma, surfava na onda que lhe parecia mais popular. Entrou como espião num partido que ficava entre o socialismo e o nacionalismo, tornou-se líder do mesmo e deu uma guinada na direção oposta do socialismo (embora, em um primeiro momento, o discurso socialista lhe tenha sido conveniente, para garantir o apoio dos trabalhadores do partido, que logo seriam convencidos de que o problema não era o capitalismo, mas os judeus). 
Quando chegou ao poder, Hitler se tornou o mais feroz inimigo do socialismo e um grande amigo dos empresários, que ficaram ainda mais ricos em seu governo (eu cheguei a ter em casa uma televisão Telefunken, que era fabricada por uma empresa alemã da época do nazismo - e quem não conhece o Fusca, o carro alemão criado durante o governo nazista?).
Hitler se apropriou de um símbolo budista, transformando-o na suástica, e nem por isso era budista. Ele, como Bolsonaro, apenas se apropriava daquilo que achava que lhe seria interessante. Até a questão homossexual. Profundamente homofóbico, Hitler se aliou a um declarado homossexual, Ernest Rohm, líder das SA, espécie de gangues que funcionaram como braço armado do partido nazista. Quando chegou ao poder, Hitler que até então amava os gays, mandou matar Rohm e os principais líderes das SA e passou a mandar homossexuais para os campos de concentração (faz lembrar Bolsonaro, que depois de várias declarações que ser gay é falta de porrada, agora se diz amigo dos homossexuais)

Sobre a moeda? Não era uma moeda. Era um broche do dia do trabalhador e tinha a foice o martelo porque essa foice e martelo fazem parte do brasão da Áustria, que não tinha e não tem nada a ver com comunismo. Muito antes do comunismo, o martelo e a foice já eram símbolos do trabalho da cidade e do campo. E a foice e o martelo não estão juntos, mas cada um em um lado das asas da águia nazista. Clique aqui para uma explicação detalhada do significado desse broche.
Brasão da Áustria. 

Mas numa coisa estão perfeitamente corretos: os nazistas, assim como os comunistas tinham muito em comum, em especial a ideia de que o autoritarismo é a solução e de que as liberdades individuais devem se curvar diante do coletivo. Exatamente como pensa Bolsonaro.  

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.