quarta-feira, janeiro 11, 2017

O mago


Paulo Coelho é um dos escritores mais lidos do mundo. Já vendeu mais de 100 milhões de livros. É o escritor vivo mais traduzido do planeta. Já foi homenageado por reis, rainhas, xeiques e presidentes, sendo tratado como pop star. No entanto, é linchado pela crítica literária brasileira, onde nunca ganhou um prêmio literário. Uma figura tão contraditória acaba se tornando um personagem tão ou mais interessante que seus personagens. Assim, não é surpresa que Fernando Morais tenha tido a ideia de escrever sua biografia.
Seguindo uma fórmula já consagrada por Fernando Morais, O mago começa de maneira não cronológica: Paulo Coelho, já famoso, desce no aeroporto de Budapeste e não encontra ninguém. Nessas primeiras páginas o leitor já percebe que não se trata de uma biografia chapa-branca (feita para engrandecer o biografado).
Enfezado, ele liga para um assistente e rosna: “Não há ninguém à minha espera em Budapeste! Sim! Foi isso mesmo que você ouviu”. E repete cada palavra, lentamente, martelando-as na cabeça do interlocutor. Depois desliga sem se despedir. Então ouve um barulho e, ao se virar, abre um sorriso de felicidade: uma multidão de repórteres e fãs se aproxima.
Algumas das facetas de Paulo Coelho já estão ali, nesse capítulo: a arrogância (que fez com que ele perdesse um emprego, na década de 1970) e o fascínio pelo sucesso, a ganância pelo dinheiro.
Paulo Coelho é do tipo que faria qualquer coisa pela popularidade. Seu sonho, desde os mais tenros anos, era se tornar um escritor mundialmente famoso. Ainda adolescente ele fazia planos sobre como realizar seu sonho. Em seu diário, ele anotava providências, como descobrir quem eram os editores de cultura dos grandes jornais e mandar-lhes textos, comparecer a noites de autógrafo e estreias de teatro travando conhecimento com os autores famosos e tentando conseguir um padrinho.  
Apesar de todas as tentativas de fazer sucesso como escritor, Paulo Coelho só se tornaria famoso mesmo ao conhecer o músico Raul Seixas. Muitos dos detratores do escritor dizem que ele se aproveitou de Raul, mas na verdade, o que parece ter acontecido foi uma simbiose poucas vezes vista na história da música brasileira.
Na época, Paulo Coelho fazia parte de um grupo satanista e era editor da revista A pomba, que misturava misticismo com mulheres peladas. Era um hippie, que andava de sandálias e cabelos desgrenhados, vivia com duas mulheres e transava todo tipo de droga. Raul Seixas era careta, andava bem penteado, barba feita, terno e gravata, pasta 007 e nunca experimentara nenhum tipo de droga e não tinha qualquer contato com sociedades místicas. Ou seja: um era o oposto do outro.
Raul queria publicar um texto sobre discos voadores e pretendia convencer Paulo a escrever músicas para ele, pois já pensava em abandonar a vida de executivo para se tornar músico em tempo integral. Paulo só aceitou jantar na casa do futuro parceiro porque pretendia arrancar dele um anúncio da CBS para sua revista. Ao entrar no apartamento, Paulo percebeu que estava em um programa de índio: “É tudo caretinha, tudo bem-comportado”, escreveu em seu diário. “Serviram umas cumbuquinhas com salgadinhos... há anos que eu não janto na casa de ninguém que tivesse cumbuquinhas com salgadinhos”. Quando Raul pediu para ele ouvir algumas músicas, Paulo pensou: “Puta merda, ainda vamos ter que ouvir música?”. Mas, no final, ele gostou muito do que ouviu.  Acabaram virando parceiros e Paulo foi, aos poucos, mudando Raul: apresentou a ele as drogas, o satanismo, todo o pacote. Enquanto Raul ia virando o maluco beleza, Paulo ia encaretando: abandou o satanismo depois de um encontro com o diabo, largou a cocaína e depois a maconha. Como numa imagem de yin yang, os dois eram opostos que se complementavam e, quando um mudou, o outro mudou também, voltando a se tornarem opostos.
Entre os que não são leitores freqüentes de Paulo Coelho, essa parte da parceria deve ser o ponto mais interessante do livro. Mas para quem chegou até ali, é impossível largar. Com incomparável maestria, Fernando Morais sequestra o leitor, que só larga o livro na última página. O grande interesse dali em diante é saber como, apesar de todas as dificuldades iniciais, Paulo se tornou um dos escritores mais populares do mundo.
A narrativa nesse ponto lembra o filme Ed Wood, de Tim Burton: uma fábula sobre alguém que acredita em um sonho e consegue realizá-lo indo contra todas as expectativas.
Na busca pela fama, Paulo comete dois pecados capitais: o plágio e o uso de gosth writer. Ainda na década de 1960, em Aracaju, pedem a ele que escreva um artigo contra a ditadura para publicar num jornal local. Sem tempo ou inspiração, ele simplesmente chupa um texto de Carlos Heitor Cony.  Quando, já na década de 1980, lança seu primeiro livro, Arquivos do Inferno, um dos capítulos era uma suposta piscografia do inquisidor espanhol Tomás Torquemada defendendo a tortura. O capítulo era um plágio do livro “A verdade sobre a inquisição”, de Henrique Hello.
O segundo livro de Paulo Coelho também revela uma situação grave. Como havia feito cursos sobre vampiros na Inglaterra (onde viveu uma relação a quatro com sua esposa, uma japonesa e o compositor Peninha), ele foi convidado a escrever um livro sobre o assunto para a editora Eco.  Paulo aceitou dividir a autoria com o jornalista Nelson Liano Jr., que dera a ideia do livro, mas não conseguiu escrever seus capítulos. Recorreu, então, a um amigo, Toninho Buda, com a promessa de que o nome dele seria creditado. Toninho Buda não recebeu nada pelo trabalho e seu nome não apareceu em lugar nenhum da publicação.
Finalmente, com a publicação de O Alquimista, veio o sucesso estrondoso e começou uma nova situação: a relação com a crítica. Enquanto lá fora, Paulo Coelho recebe elogios até de Umberto Eco e tem textos ilustrados por Moebius, aqui ele é uma unanimidade ao contrário: absolutamente todos os críticos literários odeiam sua obra. Quando se pensou em adotar suas obras em escolas públicas, o Jornal do Brasil publicou uma charge em que um estudante vê crescer orelhas de burro ao ler o Diário de um mago. A Folha de São Paulo chegou a dizer que seus escritos não eram nem mesmo subliteratura. Quando foi entrevistado pelo programa do Jô, a produção se apropriou de um texto de Arthur da Távola, na qual o cronista encontrava vários erros de revisão em Diário de um mago. Uma atitude anti-ética que beirava o sensacionalismo puro (afinal, falar mal de Paulo Coelho dá IBOPE).
Quando uma professora de literatura resolveu fazer uma tese sobre O Alquimista, foi hostilizada pelos colegas. A banca a acusou de ter escrito um trabalho simpático ao escritor (como se isso fosse crime): “Diziam que Paulo Coelho me pagara para escrever a tese, que eu era amante dele!”.

Um linchamento público tão unânime lembra mais preconceito do que opinião literária. Paulo Coelho parece estar sendo vítima do sucesso, que torna os intelectuais incapazes de avaliar sua obra. Isso já aconteceu com Monteiro Lobato, Roberto Carlos ou Maurício de Sousa. É possível que daqui a alguns anos seu trabalho seja redescoberto. Ou não. De certo, apenas uma coisa: a biografia do escritor é um livro delicioso e intrigante, com um personagem tridimensional, cheio de qualidades e defeitos, que viveu os anos loucos da geração hippie, foi torturado pela ditadura, internado em um asilo para loucos e sobreviveu para ser o escritor brasileiro mais lido do mundo e o mais odiado pela intelectualidade. Leitura obrigatória para quem gosta de boas biografias.

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