sexta-feira, março 03, 2017

Carlos Zéfiro


Na década de 70 Brasil era uma ditadura. O conservadoris­mo tomava conta do pais e até mesmo a Playboy era proibida de circular nas bancas (depois, quando foi liberada, não podia mostrar nus). Nessa época a única forma de se ter acesso ao tema sexo era através de revistinhas clandestinas, surgindas na década de 1950. Essas publicações eram chamadas de “catecismos” por ­que eram feitas no tamanho certo para serem colocadas dentro destes, já que a maioria dos garotos as comprava quando saía da missa.
Os catecismos eram assinados por Carlos Zéfiro. Não era um nome verdadeiro e ninguém sabia quem desenhava as histórias responsáveis pela educação se­xual de toda uma geração. Tam­bém, pudera.
Desde sua produção até a distribuição, os catecismos ti­nham todos os elementos de fil­mes de espionagem. Eles eram vendidos nas bancas dentro de outras revistas e com muito cui­dado, porque podia dar cana. Certa vez um general de Brasí­lia se indignou com as revisti­nhas e mandou investigar. Chegou até Hélio Brandão, o respon­sável pela edição das revistas. Hélio jamais revelou que Carlos Zéfiro era o pacato funcionário do serviço de imigração do Mi­nistério do Trabalho, Alcides Caminha.
Zéfiro reinou como o rei da sacanagem nas décadas de 1960 e 1970, em plena ditadura militar. Embora seu desenho fosse primitivo e ele copiasse descaradamente das mais diversas fontes, seus roteiros eram uma verdadeira investigação antropológica e sociológica sobre a sexualidade do brasileiro. Tanto que suas histórias acabaram chamando atenção de cientistas famosos, como o antropólogo Roberto da Matta, que chegou a escrever textos analisando seus quadrinhos e já se declarou fã do quadrinista.

Renegado durante décadas, Zéfiro só ganhou notoriedade muito recentemente ao ser homenageado na capa do disco Barulhinho Bom, de Marisa Monte. 

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