terça-feira, março 28, 2017

O uivo da górgona - parte 22


22
Edgar chegou à cozinha e encontrou Jonas e Sofia em volta de um copo quebrado sobre o chão. Uma mancha de água se espalhava ao redor dele. Olhavam para ele como se olhassem para um acidente de carro.
- Eu, eu fui pegar água para a menina, mas... – Jonas mostrou as mãos tremendo.
Edgar tentou tranquilizá-lo:
- Não foi nada. Você está nervoso. Estou tentando ligar. Venham comigo.
O professor voltou para a sala, agora acompanhado pelos dois. O gancho de telefone estava lá, pendurado, como uma cobra, soltado um som insistente: tu tu tu...
Edgar pegou-o, apertou o display e esperou que o sinal surgisse de novo. Então ligou.
O primeiro número que lhe veio à cabeça, por alguma razão, foi de uma professora, amiga de colegiado. Depois que discou, ele se lembrou do número da polícia, 190, mas já estava chamando.
(Atenda, atenda, atenda)
O telefone chamou uma, duas, três e mais vezes, até a ligação cair.
Edgar estremeceu. Isso talvez significasse que sua amiga...
(não, como eles, não!)
Edgar apertou o display, esperou a linha e discou o número da polícia.
O telefone chamou duas vezes e finalmente atendeu.

Houve um segundo de silêncio (que pareceu uma eternidade). Então ouviu-se uma gravação, uma música instrumental, que tocou até que a ligação caísse.
Edgar tirou o fone de ouvido e deixou a mão pender com ele ao longo do corpo, desconsolado.
- Atendeu? – perguntou Jonas, ansioso.
- Nada. Eu tinha esperanças de que... ah, Deus!
O professor levou a mão ao rosto, como se tampar os olhos fizesse a realidade terrível desaparecer.

Quando os abriu de novo, Sofie lhe fazia gestos. 

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