sexta-feira, março 03, 2017

O uivo da górgona


1
Edgar encostou-se à parede do mercado, entre os sacos de salgados e os refrigerantes, e segurou a respiração. Em seus braços, a menina o olhava, aterrorizada e ameaçava chorar (oh, Deus, faça com que ela não chore, pensou ele. Não agora).
- Estão passando. – anunciou Jonas.
Ele podia ouvi-los. Podia ouvir seus pés arrastando pelo chão de asfalto, os grunhidos terríveis que soltavam, um ou outro rosnar.  Era como uma maré de ódio, fedor e caos.
Era irônico que para ele tivesse começado tudo com silêncio.
Apesar do quarto com isolamento acústico, que mantinha todo o barulho lá fora, tinha sido uma noite terrível, repleta de pesadelos. Em seu sonho havia uma música (não, não era uma música, um barulho, apenas um barulho) muito, muito alta. E, diante dele, seguia uma procissão de loucos e acontecimentos vistos rapidamente, como flashes sem sentido. Uma mulher grávida rasgava o próprio ventre, retirava o feto e o comia. Homens agrediam-se uns aos outros, que agrediam outros e outros e outros e outros, até que sobrasse apenas uma luta insana.
Quando acordou, percebeu que a cama estava molhada de suor. O ar condicionado não estava funcionando.
Sem energia num dia de calor, pensou ele, enquanto ia ao banheiro lavar o rosto.
De fato, só percebeu que havia algo errado quando saiu do quarto. Ficou por um instante parado, no meio da sala, tentando descobrir o que havia de estranho Então percebeu: o silêncio. Não havia barulhos lá fora.
(Estamos sem energia, pensou ele, é apenas isso, mas uma parte de sua mente dizia que não era só isso)
Não havia barulho algum. Nem mesmo um rádio, a vizinha gritando com o filho, nada.
No quintal, a mesma coisa: apenas o silêncio. Um pássaro aproximou-se, pousou no muro, olhou para ele, e foi embora, sem emitir qualquer barulho.
Ao sair na rua, espantou-se ao descobrir que ela se tornara um deserto. Olhou no relógio: oito horas. Nesse horário a rua costumava estar movimentada. Mães que retornando depois de levar seus filhos no colégio, vendedores, vizinhas fofocando. Mas não, não havia nada ali. Nenhum barulho, nenhuma pessoa. Como se toda a vida humana da terra tivesse desaparecido de um momento para o outro.
Duas ou três casas depois que ouviu o primeiro som, dentro de uma casa de muro alto e portão fechado. Vidro quebrado. Parecia uma vidraça sendo estilhaçada. O som foi acompanhado de um urro de dor e depois de outro barulho de vidro. Quem estaria fazendo aquilo? Alguém deixara cair uma placa de vidro e se machucara no processo? Mas porque o som continuara?
Edgar aproximou-se, mas o portão não permitia ver nada lá dentro. Assim, avançou e dobrou a esquina. Estava apenas de short e camiseta e não tinha a mínima ideia de porque estava fazendo aquilo, andando na rua, sem destino aparente, mas algo dentro dele lhe dizia que algo estava muito, muito errado.
Estava próximo ao mercado quando viu um grupo de pessoas se aproximando ao longe. Deviam ser umas vinte ou trinta e andavam lentamente, lado a lado uma com a outra.

Foi quando algo pegou em seu ombro. 

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