sábado, abril 22, 2017

O uivo da górgona - parte 41


41
Havia uma pessoa ali, um homem de cerca de trinta e cinco anos. Vestia uma calça jeans e tênis e uma camisa gola polo. Estava entrando em uma casa e o portão automático fechava-se. Era uma pessoa normal e não tinha visto eles!
Jonas começou a gritar e Edgar levou algum tempo para entender que o outro estava tentando chamar atenção do desconhecido.
- A buzina! – gritou Alan, lá atrás.
Edgar acelerou enquanto pressionava a buzina. Mas quando pararam ao lado do portão, ele havia se fechado, escondendo o interior
Olharam à volta: era um muro imenso, de mais de três metros. Havia câmeras lá no alto. Olhos cegos, pensou Edgar. Não funcionam sem energia. Mas espantou-se ao ver que elas se movimentavam.
Então o portão se abriu com um estalo.
O enorme portão de metal foi se abrindo lentamente, revelando um amplo quintal. O proprietário deveria ter comprado dois terrenos para a casa. O chão da garagem era todo de granito. Havia um carro branco ali, mas teria espaço para pelo menos dois outros veículos. O homem estava lá, em pé, com o controle na mão e um sorriso no rosto.
- Nossa, vocês não têm ideia de como estou feliz de ver pessoas normais!
Edgar ficou lá, parado e abismado. O portão abrindo, as câmeras se mexendo, as luzes acesas... aquela casa tinha energia!
- Melhor vocês entrarem. É perigoso deixar o portão aberto tanto tempo.
Edgar manobrou para dentro da garagem e o homem fechou o portão o mais rápido possível. Quando os sobreviventes saíram, ele estava lá, um sorriso radiante no rosto, as roupas escrupulosamente levadas e passadas, os tênis brancos.
No meio de toda a confusão dos últimos dias, Edgar sentia-se um trapo. Provavelmente sua roupa estava suja e amarrotada e ele duvidava que seu rosto estivesse melhor. Assim, ver aquele homem era quase como encontrar uma criatura dos sonhos.
- Sejam bem-vindos. – disse ele. Eu sinceramente achei que todos tinham se transformado naquelas coisas. É muito bom ver pessoas normais.
O grupo desembarcou e, ao ver a menina, o homem se abaixou para cumprimentá-la:
- Uma criança! Qual é o seu nome, menina?
Sofia não respondeu. Olhou para o homem e depois para Edgar.
- Ela é surda. – explicou o professor.
- Surda? – repetiu o homem. Isso explica porque ela não se transformou...
O homem se levantou e fez um carinho da cabeça de Sofia:
- Seja bem-vinda, menina. Aqui você está segura.
Edgar adiantou-se e apertou a mão do desconhecido:
- O nome dela é Sofia. O meu é Edgar.
- Prazer em conhece-lo, Edgar. Meu nome é Roberto.
Edgar apontou à volta:
- Estou impressionado. Achei que a energia tivesse caído em toda a cidade.
- E caiu. – respondeu Roberto. Eu tenho um gerador de energia movido a óleo diesel. Enquanto a cidade tiver combustível, teremos energia. E ainda existem vários postos por aí, apesar de um deles ter explodido ontem...
- Nós passamos pelo posto. Havia muita gasolina derramada. O sol deve ter feito o resto... 
- Entendo.
O grupo foi apresentado e Roberto convidou todos a entrarem em sua casa. Era uma casa limpa e asseada, elegante. As paredes eram grossas:
- Toda a casa tem isolamento acústico. Por isso eu não me transformei numa daquelas coisas quando soou o... que nome dar para aquilo?
- Edgar chama de uivo da górgona. – explicou Jonas.
- É justo. – disse o outro, após alguns minutos de reflexão. Vamos, entrem.
O grupo foi entrando, meio abismado com tudo. Sofia acercou-se, maravilhada, de uma televisão.
- Nenhum canal está pegando, mas posso colocar desenhos animados e jogos. Ela gosta, não gosta?
Edgar deu de ombros:
- Eu realmente não sei.
- Vamos descobrir. Aqui tenho tudo. Energia, comida, isolamento acústico. Aqui estarão seguros e alimentados. Venham, vou lhes mostrar o resto da casa.
O grupo o seguiu, mas Zulmira puxou Edgar na direção oposta:
- Tem alguma coisa errada nisso tudo.
- Como assim? – perguntou Edgar.
- Eu realmente não sei. Mas tudo isso está bom demais. Perfeito demais. De repente achamos alguém que nos dá tudo que precisamos. Não acha isso estranho?
- Eu ainda não vi motivos para desconfiar de Roberto. Ele parece muito simpático e nitidamente está muito feliz de ver pessoas que não se transformaram em zumbis.
- Esse é o problema. – garantiu Zu. Ele é simpático demais. Parece um ator numa propaganda. E tem mais uma coisa: por que ele fez isolamento acústico na casa toda? Você tem ideia de quanto deve ter custado isso?
- Eu sei muito bem. Fazer apenas no meu quarto já foi caro. Mas ele parece um homem rico e deve gostar de silêncio. Eu e você não gostamos da barulheira. Deveríamos ser os primeiros da dar razão a ele.
- Ainda assim...
Edgar virou-se na direção do grupo:
- Começo a achar que você é paranoica.

Zu deu um longo suspiro e seguiu o professor, resmungando. 

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