quarta-feira, abril 26, 2017

O uivo da górgona - parte 44


44
Quando terminaram, voltaram para seus quartos. Estavam exaustos depois da longa noite insone. Apenas Sofia ficou na sala, assistindo a um desenho na grande TV de plasma. Embora não pudesse ouvir o som, em sua imaginação infantil conseguia entender a história.
Mas, com o tempo, foi perdendo o interesse. Levantou-se e olhou à volta. Nenhum movimento. Nem mesmo a galinha andava por ali.
Não estava com sono, mas o desenho não lhe interessava mais. O que restava era andar pela casa, desbravando-a. Sentia-se entre curiosa e tensa. Talvez porque sabia que estava fazendo uma travessura. Os adultos esperavam que ela ficasse ali, na sala, mas aquele espaço parecia agora pequeno e a menina queria saber o que havia além dele.
Pouco antes de entrar na cozinha deparou-se com uma porta. Vira um dos adultos tentando entrar nela assim que chegaram e o dono da casa o impedira.
Sofia forçou a fechadura e descobriu que não estava trancada.
                A porta abriu lentamente e a luz da cozinha se esparramou como um leque pela superfície negra do cômodo. Sofia deu um passo para frente, indecisa. Fez isso e levou a mão direita na direção da parede, na busca de um interruptor. Seus dedos foram tateando lenta e cuidadosamente, até se depararem com uma saliência de plástico no reboco.
Uma luz se acendeu iluminando o que parecia um corredor curto. Lá no fim, o corredor parecia se abrir num cômodo maior. Havia coisas penduradas pela parede, mas de onde estava, a menina não conseguia identificar o que eram. Ela olhou para trás, esperando ver algum adulto que a orientasse. Mas não havia ninguém. Era ela, sozinha e uma dúvida terrível: entrava ou não entrava?
Por fim, deu mais um passo e olhou à volta. Apenas a parede, dos dois lados.
Sofia deu mais um passo. E outro. E outro. Enfim, estancou, intrigada e maravilhada com que seus olhos vislumbravam. A parede era coberta de objetos pendurados. Havia um avental de plástico branco. Havia diversas manchas nele e a menina pensou inicialmente que era um avental de pintura, como aqueles que ela usava na escola, mas ao se aproximar, sentiu um forte odor acre. Além disso, as manchas variavam do vermelho ao roxo. Não havia nenhum amarelo, azul ou verde entre as várias e pequenas manchas. Em uma sacola transparente viu pequenos frascos igualmente transparentes, repletos de linhas e agulhas de costuras das mais diversas cores e grossuras.
Mas o que mais a maravilhou foram as coisas que brilhavam ao longe. Havia ali uma profusão incrível de facas das mais variadas cores e tamanhos. Algumas eram pequenas, com a lâmina fina e pequena, outras eram grandes e pesadas como cutelos.
Todas estavam devidamente limpas e organizadas por tamanho e tipo. Quem quer que as guardara era meticuloso e organizado.
A limpeza das facas era algo quase irreal naquele ambiente e contrastava fortemente com a sujeira abstrata do avental.

Sofia ficou ali, admirando-as, até perceber que havia algo do outro lado da sala. 

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