sexta-feira, janeiro 24, 2020

A pedagogia dialógica


            

Paulo Freire é conhecido nacional e internacionalmente como um dos educadores mais importantes do século XX. Seu método tinha como objetivo não só alfabetizar o aluno, mas desenvolver nele a consciência crítica com relação ao mundo no qual ele estava inserido.
            Paulo Freire se destacar de outros autores anteriores a ele ao destacar a importância da sociedade e da cultura na educação.
Para Freire, o homem o mundo que o rodeia, encontram-se em uma relação permanente e o homem, transformando o mundo, se transforma a si próprio. A prática pedagógica não pode ser separada da realidade na qual está inserida. Um exemplo disso é a famosa frase “Vovô viu a uva”, usada por décadas em livros de alfabetização para crianças que muitas vezes nunca viram uma uva. Eu mesmo me lembro de livros didáticos em que falava de morango, algo que eu nunca tinha visto.
Essa importância de se conhecer o ambiente do aluno ficava claro no chamado “método Paulo Freire de alfabetização”.
Ao invés de alfabetizar utilizando palavras já delimitadas, o trabalho começava com um diálogo com a comunidade para obter dela palavras de uso corrente. Essas palavras, geralmente em número de sete (numa comunidade rural poderiam ser instrumentos de trabalho, como enxada), refletiam a realidade cultural e social na qual o aluno estava inserido. A partir dela eram feitas as discussões e suas sílabas eram divididas e reunidas em composições diferentes, para formar outras palavras.
            Em 1962 o método Paulo Freire conseguiu alfabetizar, no triângulo da miséria nordestino 300 trabalhadores em apenas seis semanas. O sucesso despertou a atenção do governo João Goulart, que pretendia utilizar o método em nível nacional, mas a iniciativa foi abortada pelo golpe militar, que perseguiu Paulo Freire, considerado um agitador comunista. Exilado no Chile e, posteriormente, na África, Freire continuou seu trabalho e tornou-se uma referência mundial na área de educação.
            Além de partir da realidade concreta do aluno, de suas relações sociais e culturais, Paulo Freire acreditava que a educação tinha objetivo formar um homem cada vez mais livre e dono de seu próprio destino. Para Freire, esse objetivo era dificultado pelas relações de opressão e pelo imperialismo cultural.
Nos países periféricos, o homem tornava-se aquilo que os autores da área de comunicação chamaram de massa. Alienado, ele era atraído pelo modo de vida da sociedade dominante e não se comprometia com o mundo real. Sua cultura era desvalorizada e considerada inferior com relação à dos dominadores (pude perceber de perto isso quando dava aulas de quadrinhos e via meus alunos ambientarem seus personagens em Nova York e chamarem seus protagonistas de John e Mary).
O próprio pensamento é alienado e massificador. O indivíduo, tornado massa, apenas repete como papagaio o que ouviu do dominador. A única forma de libertação vista era tornar-se ele também opressor. Assim, o oprimido admira e procura imitar a cultura do opressor.
            A educação tem como objetivo superar esse estado de coisas. A superação da  relação opressor-oprimido é a base do método.
Outro aspecto importante do método é que, nessa abordagem, a relação professor-aluno não é vertical, mas horizontal. Para Paulo Freire, o processo educacional só se realiza quando o educador se torna educando e o educando se torna educador. Por isso a teoria é chamada de dialógica: o aprendizado se estabelece através de um diálogo entre professor e aluno – uma quebra total com a educação tradicional, em que o estudante entrava mudo e saía calado.
Esse aspecto da teoria de Paulo Freire é diretamente influenciado pela cibernética, escola da comunicação segundo a qual uma comunicação saudável é aquela em que o receptor é capaz de estabelecer um feedback com o emissor, trocando de lugar com ele no papel de emissor. Como numa boa conversa.

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