Na época em que eu fazia o ensino médio, um endereço certo,
visitado todo dia depois das aulas, era a biblioteca do Centur, em Belém.
Eu lia uma barbaridade. Chegava a ler até mais de um livro
por semana. Era meio que para tirar o atraso, pois até os 14 anos, quando
descobri a biblioteca do Centur, eu só tinha lido Aventuras de Xisto (lido e
relido mais de vinte vezes).
Eu ia direto à biblioteca circulante (que emprestava livros)
e procurava algo interessante. Se não encontrava nada muito bom, levava um do
Júlio Verne, que era diversão garantida.
Fiz amizade com as bibliotecárias e elas me indicavam
livros. Uma delas me indicou Menino de Engenho, de José Lins do Rego, um
clássico da literatura regional nordestina. Mas o primeiro livro que li lá foi
um volume de contos de H.G. Wells. A biblioteca tinha um mural em que ficavam
as resenhas dos livros escritas pelos leitores. Incentivado pela bibliotecária,
fiz uma resenha do livro de Wells (confesso que não lembro qual era o título). Com certeza foi minha primeira resenha. O
curioso é que muitos anos depois, fui trabalhar no Centur e a bibliotecária que
me dava dicas virou minha colega de trabalho...
Comecei a trabalhar no Centur quando eles resolveram montar
a gibiteca. Antes disso, eu já freqüentava o local e ajudava as servidoras,
inclusive dando dicas sobre como elas poderiam classificar as revistas em
quadrinhos, que eram guardadas em caixas arquivo. Sugeri que elas fossem
separadas por títulos ou por personagens. Aquelas que não tinham em quantidade
suficiente para montar uma caixa, nós uníamos por gênero: humor, infantil,
drama, terror, aventura, ficção-científica... antes de serem catalogcadas, as revistas ficavam todas
guardadas em um armário de metal e para mim era mágico abrir aquelas portas e
folhear as publicações. Era como nadar em um oceano de informação.
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| Nos dias de sábado eu podia ler clássicos, como o álbum de Flash Gordon da Ebal. |
No Centur ninguém gostava de trabalhar aos sábado. Eu
gostava, pois era o dia que dava menos gente e era possível sentar para ler. Era o dia em
que eu aproveitava para ler os clássicos, publicados em álbuns da Ebal ou na
enorme revista GIBI. Impossível ler esse material grande e grandioso nos dias de corre-corre.
Foi nessa época em que li uma das melhores e mais
desconhecidas HQs: Capitão César. O título original era Wash Tubs. O
desenhista trabalhava muito bem com
papel reticulado, criando efeitos fantásticos. E as histórias eram envolventes.
Lembro de uma em que o Capitão César, em missão na Alemanha, acaba indo parar
em um campo de concentração e escapa de lá. Propaganda norte-americana do tempo
de guerra, evidentemente, mas quem liga? Como diria Spielberg, os nazistas são
ótimos vilões porque não aparece ninguém com cara de pau para defende-los.


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