O escritor Pedro Bandeira sofria de uma dor de cabeça terrível chamada cefaléia de Horton. A empresa que a fabricava tinha descontinuado a produção por interesses puramente comerciais. Enquanto tinha uma crise ele percebeu como empresas capazes de controlar a dor de alguém podem exercer um enorme poder. Assim surgiu o livro A droga da obediência, um dos maiores clássicos infanto-juvenis do Brasil.
Na trama, alunos de colégios particulares de São Paulo
estão desaparecendo e um grupo de adolescente chamados Os Karas resolve
investigar.
Os sumiços estão ligados ao desenvolvimento de uma droga
que provoca obediência absoluta – os estudantes sequestrados se tornam as
primeiras cobaias do experimento.
Embora seja um livro juvenil, escrito numa prosa fácil e
sem rebuscamentos, é uma trama muito bem elaborada, com ganchos estrategicamente
colocados e pistas falsas exemplares, a exemplo do personagem que brincava com
o molho de chaves (sim, eu fui enganado e, ao terminar a leitura, voltei para
reler essa parte apenas para descobrir que a pista já tinha sido colocada lá,
mas não prestamos atenção).
Até detalhes pequenos, como o curativo enorme do jovem
Chumbinho para uma picada no dedo, que acabam se tornando relevantes na trama.

A capa mais recente tem elementos de quadrinhos.
Mas talvez o maior mérito da obra seja sua crítica social
aos projetos de controle político e obediência juvenil, centralizado no diálogo
do personagem Miguel, líder dos Karas, e o vilão.
O vilão argumenta que num mundo dominado pela droga da
obediência “não haverá mais sofrimento, nem ansiedade, nem loucura, nem dor.
Não haverá mais greves, nem passeatas de protesto. Nenhum soldado jamais
desertará nem perguntará por que está sendo mandado para a guerra. Obedecer e
pronto!”.
“A obediência somente leva à repetição de velhos erros. Só
o respeito pela liberdade de cada um pode garantir a sobrevivência da
humanidade. Só o respeito pelas opiniões diferentes pode garantir o progresso.
Só a desobediência modifica o mundo!”, defende Miguel.
Infelizmente, como se tem visto a droga da obediência não
se resume a uma cápsula a ser engolida, mas pode assumir várias formas,
inclusive as redes sociais.
O sucesso do livro foi tão grande que várias edições foram
publicadas. Só a edição de 1992, que foi a que eu li, teve 174 reimpressões.

Sem comentários:
Enviar um comentário