quarta-feira, fevereiro 25, 2026

A guerra sombria do Gavião Negro

 


O Gavião Negro e a Mulher Gavião são dois dos personagens mais interessantes da DC Comics. Na sua versão moderna, criada por Gardner Fox e Joe Kubert, os personagen oscilavam entre dois gêneros: o policial e a ficção científica. Anos depois, em 1985, uma minissérie escrita por Tony Isabella e desenhada por Richard Howell (com arte-final de Alfredo Alcala) resgatou essas características em uma trama que ressignificava o planeta Thanagar, abrindo caminho para abordagens mais sombrias do personagem.

Na trama, um ladrão é contactado por seres misteriosos que o coagem a invadir a casa na qual moram Katar Hol (Gavião Negro) e sua esposa Shayera (Mulher Gavião). Enquanto o Gavião Negro vai para casa verificar o que está acontecendo, outro grupo dos seres misteriosos invade o museu e mata a Mulher Gavião, sobrando dela apenas o reflexo na parede.

O texto de Isabella se destaca pela síntese e pela qualidade. 


Tony Isabella escreve surpreendentemente bem, fugindo da verborragia comum entre os autores de quadrinhos da época. A sequência em o Gavião Negro descobre a morte da esposa é um ótimo exemplo da competência do roteirista: “No salão de exibição do museu de Midway City, um homem chama pelo nome da esposa... sabendo que ela nunca mais responderá. Ele é poderoso. Chore por ele”.

Junto com a morte da esposa, o Gavião Negro descobre que os responsáveis são seu próprio povo, já que os Thanagarianos pretendem invadir a Terra, e para isso precisam roubar a tecnologia de antigravidade, que havia sido perdida no planeta natal.

A história é um conto sobre um casal apaixonado. 


Claro que a Mulher Gavião não morreu e a explicação para isso é bastante forçada, mas o roteiro é tão fluído que o leitor deixa passar a falta de verossimilhança.

O desenho não fica nada a dever ao roteiro. Richard Howell tem um traço bonito e uma diagramação pouco convencional. Destaque para a sequência em que o herói relembra a amada, agora morta e os dois, nas lembranças dele, bailam nos céus de Thanagar. Alfredo Alcala no início carrega muito nas tintas, o que poderia funcionar para uma história com um pé no terror, mas parece deslocado numa HQ de ficção científica e super-heróis. Mas, aos poucos, vai ajustando a tinta, até que a arte-final passa a se encaixar bem no traço de Howell.

A tensão sexual entre o casal se revela até nos momentos de ação. 


No final, A guerra sombria do Gavião Negro é acima de tudo, um conto sobre um casal apaixonado. A tensão sexual entre os dois fica implícita em várias situações, inclusive no momento em que os dois precisam entrar em um transportador apertado para conseguirem chegar à nave. “Em outra situação eu acharia isso divertido”, diz o herói.

Considerando os méritos, é surpreendente que a Abril não tenha cogitado publicar essa história. Talvez a razão tivesse alguma relação com a cronologia da editora.

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