No século XIX os livros de caçadas na África se tornaram uma febre da mesma forma que os romances de cavalaria foram populares na Idade Média. O escritor francês Alphonse Daudet satirizou o gênero com maestria no seu livro Tartarin de Tarascon, publicado em 1872 da mesma forma que Cervantes havia satirizado as histórias de cavalaria em Dom Quixote.
O protagonista da história é Tartarin e, assim o restante
da cidade de Tarascon, é apaixonado pela caça.
Mas como não sobrou nada na cidade para ser caçado, a diversão dos
cidadãos, aos domingos, é ir para o campo, jogar sua boina para o ar e
disparar, tentando acertar o chapéu em pleno vôo. O maior de todos os caçadores
de boinas era Tartarin, o que lhe rende a admiração de todos. O capitão Bravida
dizia dele: “É um coelho!”. O juiz julgava que ele “é um caráter” e até o povo
miúdo era por Tartarin. Quando eles passavam, os carregadores cochichavam entre
si: “Aquele que é um fortalhaço! Tem músculos reforçados!”.
A referência a Dom Quixote não é aleatória. Daudet de fato
faz essa comparação, dizendo que Tatarin era uma mistura de Dom Quixote com
Sancho Pança. Enquanto o Tartarin-Quixote gritava “Um machado, tragam um machado!”,
Tartarin-Pança pedia: “Joanita, o meu chocolate!”.
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| O livro ganhou uma adaptação cinematográfica em 1934, dirigida por Raymond Bernard. |
Tido como grande caçador sem nunca ter caçado nada, e na
verdade mesmo sem ter saído de sua cidade natal, Tartarin acaba se vendo numa
encruzilhada quando um zoológico itinerante visita a cidade. Enquanto todos têm
medo do leão, Tartarin aproxima-se da jaula e comenta: “Isso sim, é uma caça!”,
o que faz todos pensarem que ele de fato irá para a África caçar leões.
Sob influência de seu lado Pança, o herói tenta atrasar ao
máximo a viagem, mas quando até as crianças começam a fazer troça dele,
Tartarin se vê obrigado a embarcar para a Argélia, então sob domínio francês.
O que se segue é uma verdadeira comédia de erros com vários
momentos hilários, como aquele em que Tartarin acha que os carregadores do
navio são piratas ou aquele em que mata um burrico achando tratar-se de um
leão.
O livro é divertido, com capítulos curtos e fina ironia. A
edição que li é portuguesa, o que dificulta um pouco a compreensão de alguns
termos pouco correntes no Brasil, mas existem versões nacionais.


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